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Do Dito Satanismo Tradicional – Um breve ensaio sobre a incoerência do título e suas implicações Por Vítor Vieira

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Do Dito Satanismo Tradicional – Um breve ensaio sobre a incoerência do título e suas implicações Por Vítor Vieira

Do Dito Satanismo Tradicional 1. Introdução Existe uma questão que vem sendo deixada de lado. Existem verdades escondidas de baixo do tapete que ninguém quer descobrir. Existem idéias que foram trancadas num quarto escuro. Existe ignorância, desconhecimento de fatos, e acima de tudo, conformismo. Mas enquanto eu puder gritar, eu o farei. Não irei me calar diante das imbecilidades que são cuspidas em nós por todo o tempo. O material contido neste trabalho dedica-se a questionar uma verdade confortável, um conceito tão difundido que a batalha para a sua desconstrução de certo será árdua. Nem todos precisam, e ninguém deve entrar nela. Mas eu decidi entrar. É preciso de uma vez por todas organizar e tornar pública a voz da crítica. É preciso retirar de César o que não é de César. Eu lhes digo leitores, o dito Satanismo Tradicional não merece este nome. E aqui explicarei detalhadamente os motivos para afirmar isto. Devo dizer também que não estou preso às minhas convicções. Se alguém puder dizer aos meus olhos que o que eles vêem não é a realidade, eu com certeza mudarei minha visão. Entretanto, até então ninguém o fez, e através de meus escritos, eu torno público tudo o que penso, para que quem sabe, alguém possa questionar-me e negar a verdade que tento mostrar. Devo dizer também que este não é um trabalho de pura egolatria. Em absoluto. Existem pessoas que se contentam com o saber, e outras que se satisfazem ao passar este adiante. Eu sou uma destas. Por falta de uma voz potente, muitas mentes com um potencial bem extenso, estão sendo bitoladas por conceitos errados. Eu não serei conivente com este desperdício. Fazer de meu meio um espaço com pessoas melhores também fará de mim uma pessoa melhor. Eu ganho, você ganha, todos ganham. O Satanismo ganha. 2. O que se pretende Antes de iniciar de fato a parte mais objetiva da obra, é preciso definir o que se pretende com este texto. Obviamente, não almejo aqui iniciar qualquer “revolução” de nomenclaturas. Muito menos, meu intuito com este texto seja obrigar os ditos Tradicionais a pararem de assim chamar sua religião. Infelizmente, sei que isto não acontece da noite pro dia, e ainda que eu me sinta afetado por essa confusão de nomes, eu não posso atestar aqui que os ditos tradicionais terão de deixar de lado o título que escolheram para seu sistema religioso. O que espero é uma mudança lenta. Algo que deve ser obtido a longo prazo. Quero que este pequeno ensaio sirva como fonte de estudos para novos Satanistas, ou até mesmo leigos, posicionarem-se na questão dos nomes e, uma vez que aceitem meus argumentos, não reproduzam títulos inadequados de religiões. É preciso desde já também, pedir ao caro leitor, que divulgue o máximo possível a obra, seja no espaço dos ditos Tradicionais, quanto no dos Satanistas. É mais do que necessário manter acessa senão a chama da certeza, pelo menos a faísca das dúvidas. Somente através do debate e das discussões é que podemos evoluir nosso pensar. Nossas idéias são como diamantes. Em sua origem, brutos, sem forma, rudes. É preciso lapidar esta preciosa pedra para que ela se torne cada vez mais bela e valiosa. Da mesma forma são os pensamentos. É preciso praticar sempre a arte do refletir e do dialogar. Num confronto de idéias, todos têm a ganhar. Nele temos dois fins possíveis. Ora a certeza cada vez mais coerente daquilo que pensarmos, ora a mudança de nossas idéias, uma vez que percebamos estarmos errados. Deve-se dizer também, que mais importante ainda que a convicção é a dúvida. A convicção nos faz saber onde estamos, mas a dúvida nos faz nunca parar de caminhar. Por isso afirmo, com toda a certeza, que tudo o que digo neste tratado é passível de crítica, discordância e contestação. Da mesma forma, é preciso também ressaltar como uma postura crítica deve ser. Discordar do que não se entende ou não se sabe é um atestado de incapacidade, ou talvez, má fé. É preciso acima de tudo ter a disposição de se colocar no lugar daquele que criticamos, para podermos entender seus argumentos e suas idéias. Diferentemente então de muitos que gastam seu tempo e suas porcas palavras criticando o que não é dito. Tão execrável é a postura daquele que, uma vez tendo plena consciência de que seu discurso é falho, vale-se de artimanhas textuais para tentar deturpar a verdade. Isto é um culto vazio ao ego, e só interrompe a longa jornada de desenvolvimento individual. Não é pelo simples fato de a crença teísta do Satanismo ser referente ao próprio indivíduo, que vamos assim estagnar nossa evolução e nos acomodar. Em suma, desejo acima de tudo trazer a proposta do debate para aqueles que discordam das idéias expostas, assim como tornar esta obra uma síntese das idéias de muitos, sendo esta um recanto seguro do pensamento. Lembrando sempre do pedido sincero da reprodução, não simplesmente de minhas palavras, mas das idéias que porventura com as quais vocês possam concordar. É a partir desta reprodução que faremos nossa parte para evitar que aquilo que achamos inválido e nos prejudica seja reproduzido indiscriminadamente.

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Do Dito Satanismo Tradicional – Um breve ensaio sobre a incoerência do título e suas implicações Por Vítor Vieira 3. O que eles têm a dizer... O que temos a seguir são algumas contestações dos mais comuns argumentos e discursos que tenho presenciado ao longo de debates e discussões com os ditos Satanistas Tradicionais. Incansavelmente eu reproduzi todas as idéias que vocês verão abaixo nestes debates. E decidi então organizar cada ponto de forma clara e objetiva, tendo um único intuito, tentar mostrar a todos que o dito Satanismo Tradicional vale-se inadequadamente do termo “Satanismo”. Ou seja, não merece este nome. Inicialmente, é preciso definir de forma clara algumas premissas de meu discurso. Premissas estas que por ignorância, ou algum outro motivo, não eram claramente percebidas por aqueles com os quais tive a oportunidade de discutir. É preciso, devo enfatizar, uma leitura concisa do que virá a seguir bem como um claro entendimento de tal. Aqueles que tentarem me criticar sem partir de tudo o que será dito agora desqualificarão por completo seu discurso. Finalmente, seguem os pontos: •

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Em nenhum momento deste ensaio entrará em questão nenhuma comparação dogmática ou ideológica entre Satanismo e o dito Satanismo Tradicional que tenha como fim dizer qual é melhor. Isto que dizer que, o que pretendo com este texto não é dizer qual dos dois sistemas é o mais válido para o indivíduo, mas sim que o dito Satanismo Tradicional utiliza-se do termo “satanismo” de forma inválida no título de sua religião. Não cabe a mim criticar nenhuma idéia do dito Satanismo Tradicional. Assim como não irei julgar seus praticantes. Cada qual tem direito a crer naquilo que lhe convir e não cabe a mim questionar isto. Este texto não é um discurso panfletarista para o Satanismo. Não estou aqui para convencer ninguém a seguir a religião criada por LaVey. O que se discute é uma questão de nomes, de títulos, e não a prática pessoal de um ou outro indivíduo, muito menos o sincretismo religioso que ele possa fazer. Aquele que tentar analisar o problema dos nomes, sob o ponto de vista individual, no que se refere à sua prática, estará simplesmente saindo do debate que proponho. Não promoverei aqui qualquer julgamento de valor com relação ao o que o dito Satanismo Tradicional defende. Ele não é melhor nem pior do que nenhuma outra religião, nem cabe a mim julgar isto.

Em suma, o que se questiona aqui é uma aparente mera questão de nomes. Digo aparente, pois aos olhos de muitos não existem razões para essa disputa de nomes entre os Satanistas e os ditos Satanistas Tradicionais. Entretanto devo dizer que não vou me abster de meus comentários quando ouvir o termo “Satanismo Tradicional”. Não concordo com tal título, tenho razões para tal, não ficarei quieto ao ver sua propagação. Esta prejudica a mim como Satanista, e a minha religião como um todo. Muitos pensam que não, mas eu lhes digo, quanto menos ignorância ao nosso redor, melhor. Por mais individualista que seja o Satanismo, nada temos a perder se em nosso meio houver mais pessoas pensando. E nada custa tentar fazer algo para chegarmos a isto. A mim pelo menos não. Tendo definido isto, sigo adiante consciente de que esclareci suficientemente até que nível irá a questão. Como dito ao início deste texto, seguir-se-ão vários argumentos utilizados pelos ditos tradicionais, assim como as minhas contestações a estes. O termo Satanismo refere-se às crenças que se opunham ao cristianismo. Ele já vinha sendo praticado muito antes de LaVey instituir sua religião. O termo “satanismo” significa, em sua forma mais simples, culto prestado a Satan. De fato, o culto a ele era prestado antes de LaVey ter instituído sua religião. Entretanto, era um culto cristão. Pois ora, a entidade “Satan” foi criada a partir do cristianismo! Se havia algum tipo de culto a um personagem cristão, este culto por si só também o era! Ou seja, o “satanismo” está diretamente ligado à Igreja. Até aí sem problemas. Entretanto, os ditos tradicionais consideram sua doutrina uma religião. Mas ora, se eles estão diretamente ligados ao cristianismo, como pode ter autonomia suficiente o dito Tradicional para ser uma outra religião? Simples, eles deveriam ter feito o que LaVey fez. LaVey organizou e instituiu sua religião. Publicou sua Bíblia Satânica com preceitos que vão muito além do culto a Satan e fundou a Church of Satan, uma organização religiosa Satanista. Os ditos tradicionais não fizeram isto. Temos então um impasse. Duas doutrinas postulando para si o termo “satanismo”. Bem, duas religiões não podem ter o mesmo nome. LaVey foi o primeiro a fazer com que o termo fosse desvinculado do cristianismo, diferentemente dos ditos tradicionais, que foram se organizar sob a forma da O.N.A. após a criação da Church of Satan. Ou seja, se tínhamos duas religiões diferentes com o mesmo nome, este é de quem chegou primeiro. E bem, foi LaVey quem o fez. A apropriação de nomes da O.N.A. não é válida. -2-


Do Dito Satanismo Tradicional – Um breve ensaio sobre a incoerência do título e suas implicações Por Vítor Vieira “O Satanismo Tradicional, ao contrário do que algumas pessoas afirmam, nunca poderia ter sido uma invenção da Igreja Cristã, já que sua origem data de uma época muito anterior a esta. O Satanismo, em sua forma tradicional, sempre existiu. Os deuses dos Satanistas Tradicionais são divindades que mais tarde foram associadas com o Satã cristão pelo cristianismo organizado. Entre estas divindades podemos citar Set, Ahriman, Lúcifer, entre outros. Talvez um dos melhores termos para estas divindades seja o utilizado pela ONA (Order of Nine Angles), os Deuses da Escuridão, ou seja: todos os deuses que vivem dentro de nós mesmos e que devemos despertar”. ¹ Temos aqui dois problemas. O primeiro é afirmar-se que os “deuses negros” foram associados ao Satan cristão. Isto não ocorreu. O Satan cristão não é uma representação de Set, Ahriman ou Zeus. Além do mais, não seria válido que “deuses da escuridão” e “Satan” tenham o mesmo significado. “Deuses da Escuridão” é uma expressão válida. Mas ora, se o dito Satanismo Tradicional faz referência a tantos deuses, por qual motivo o nome é “satanismo”? O próprio texto por sua vez, explica que a associação Satan x Deuses Negros é cristã. Ora, em mais um momento aqui temos uma dependência do cristianismo por parte dos ditos tradicionais. Além do mais, cada divindade possui uma simbologia própria. Não é válido que simplesmente ignoremos suas características particulares e chamemos a todas de Satan. Eu não poderia, por exemplo, pegar Santo Antônio, São João e São Pedro e dizer que eles são o “São Satan”, ou outro termo. O grande argumento chave para justificar o termo Satanismo Tradicional é o fato de seus seguidores considerarem práticas místicas antigas como práticas "satanistas". Ou seja, para eles, não é errado o termo, uma vez que ele antecede LaVey e a Church of Satan. Mas a questão é que, é a prática que precede LaVey, não o termo. Que havia cultos e rituais a deuses “negros” antigos é até cabível, agora, não se podem classificar estas práticas como práticas "satanistas". Dou-lhes o exemplo da palavra "bárbaros". Os romanos não distinguiam um povo bárbaro de outro. Todos eram bárbaros. Mas não eram os mesmos povos. Não podemos dizer que havia “um povo bárbaro”. Mas vários... No Satanismo Tradicional há a crença em vários deuses negros, sendo Satan o principal deles. Mais uma vez, uma demonstração de falta de autonomia por parte do dito Satanismo Tradicional para ser uma religião desligada da Igreja. Ocorre o que chamo de cristianismo às avessas. Isto, pois o que temos aqui é a crença no Satan cristão. Com o Satanismo de LaVey não ocorre isto. O “Satan” do título da religião “Satanismo” representa ora indivíduo, no contexto da própria religião, ora significa opositor, adversário, acusador, adjetivos estes que fazem parte dos significados primordiais da palavra “satan”, que por sua vez veio do hebraico. Esta só foi ganhar status de entidade com o cristianismo. Ou seja, temos aqui mais uma vez o dito satanismo tradicional dependente do cristianismo e o Satanismo, religião de LaVey, completamente desligado deste. LaVey batizou sua religião com um termo já utilizado. Satanismo é culto e adoração à entidade Satan. Ele é quem quis dar um significado a algo que já existia. Mais uma vez, o argumento de que o satanismo precede LaVey. De fato, como uma ação cristã sim. Mas como uma religião não. Quando LaVey desliga-se do cristianismo passa a retornar para o significado primeiro do termo Satan e concede a ela um status de arquétipo. Ele não se desliga da origem da palavra, apenas dá a ela importância. Ele não inventa um significado novo, como fizeram. O Satanismo precede a Igreja. O que entendemos hoje por “satanismo” nos remete a duas coisas diferentes. A primeira, e mais comum, é a postura cristã invertida, ou seja, culto a Satan como uma entidade cristã. Pode se fazer isto com o intuito de blasfêmia, profanação, heresia, enfim. Em suma, é uma ação cristã, ou anticristã, como queiram. A segunda, não tão comum assim é a língua hebraica. No hebraico (não o moderno) a palavra Satan não agregava em si nenhum valor moral. Não era bom, nem ruim, significava apenas aquele que critica, que se opõe, um obstáculo que se colocava às coisas. Ou seja, não era nem o bem, nem o mau. Da mesma forma que também não era uma entidade. Ou seja, antes da igreja, não se prestavam cultos a uma entidade chamada “satan”, visto que, como comentei, esta só passou a assim ser a partir da Bíblia. Portanto, satanismo, ou seja, culto a satan não precede a Igreja. ¹ Stella Draconis & Templo de Shaitan em “Satanismo Tradicional” (http://www.geocities.com/stelladraconi/texto7.htm) -3-


Do Dito Satanismo Tradicional – Um breve ensaio sobre a incoerência do título e suas implicações Por Vítor Vieira Segundo a O.N.A., o Satanismo Tradicional existia secretamente muito antes da Church of Satan. A O.N.A. mais uma vez tenta atestar que as doutrinas ditas “satanistas” são mais antigas que tudo. Não são. Primeiramente, eles consideram o termo “deuses negros”, e a partir disto, dizem que o culto a estes, mais antigos que a própria igreja, é satanismo. Não é, satanismo é culto a satan e não culto a deuses negros. De qualquer forma, ainda que houvesse todo um sistema religioso secreto, é muito curioso que este só viesse a se tornar público após a fundação da Church of Satan. Ainda mais, levando em conta que a pr��pria O.N.A. utilizou-se do mesmo termo “satanismo” para dar nome a sua religião. Ou seja, nada mais fez senão aproveitar a popularidade que o termo veio ganhando graças a LaVey e o utilizou em sua própria religião. Seria válido fazê-lo sim, se não houvesse uma outra religião já existente. Agora, duas religiões tão distintas, não merecem ter o mesmo nome. Práticas satanistas eram realizadas antes de LaVey, ainda que não fossem publicadas. Ora, temos aqui novamente o erro de querer chamar tudo de “Satanismo”. Se não havia O.N.A. nem Church of Satan para dizer o que era Satanismo, só tinha a igreja. Portanto, se as pessoas cometiam ações satânicas ou ainda publicavam este termo, estavam partindo do “satan” bíblico, ou seja, mais uma vez, estamos falando de práticas cristãs. Vale comentar também que o personagem fez parte do pensamento e da interpretação de diversos autores ao longo da história da literatura. Com certeza existem muitos registros que podem expandir o significado de “satan”. Agora, reunir todas essas práticas, e referências e chamar de Satanismo, é complicado. Ainda mais quando já existe uma religião com este nome. Lembrando sempre, que o surgimento do termo Satanismo Tradicional dá-se a partir da O.N.A.. O fato de LaVey ter instituído a CoS não impede o Satanismo Tradicional de ter esse nome. Não é uma mera questão de direito autoral, nem pura e simples organização. A questão é que a partir do momento em que surge uma instituição, assim como uma literatura dita Satanista e que prega uma série de valores e conceitos, o termo satanismo, além de ser o nome de uma prática cristã inversa, também passa a ser o título de uma religião, de um sistema fechado de conceitos. LaVey delimita com sua literatura as idéias presentes no sistema religioso nomeado Satanismo, assim como torna consensual o termo como uma religião com características próprias. Assim, não é válido que, valores que não se integram a este conjunto de características, sejam considerados valores Satanistas. Se satan é opositor, então o satanismo precede LaVey uma vez que muitos foram os pensamentos que se opuseram ao cristianismo muito antes de LaVey. Primeiramente, “satan” significa se opor, ser contra, ser crítico. E não se opor ao cristianismo nem ser necessariamente contra a Igreja. Além do mais, se qualquer sistema religioso que contiver idéias que vão contra o cristianismo for chamado de satanismo, poderíamos resumir as religiões do mundo em duas: as cristãs e as satanistas. E obviamente, não podemos fazê-lo. Muito menos dizer que qualquer oposição a qualquer coisa pode ser chamada de “satanismo”. Quem se opor então às idéias de LaVey é “satanista” (por simplesmente se opor) do Satanismo, é isso? Não, não é. O Satan do Satanismo Tradicional, não é um demônio de chifres que mora no inferno... Concordo. Este é o pensamento comum a respeito de um dos deuses negros considerados pela O.N.A. em seus estudos ritualísticos e mágicos. Entretanto, cabe aqui um questionamento. Qual o motivo da O.N.A. trazer para suas idéias o título de “Satanismo”? Ora, antes da O.N.A. publicar seus conceitos, a palavra “satanismo” nos levava a três coisas. À religião de LaVey, à postura cristã inversa e a língua hebraica. Ora, se o satan do dito Satanismo Tradicional não é o cristão, não é o opositor, nem muito menos o de LaVey, de onde partiu a O.N.A. para escolher o termo? Dos deuses negros antigos? Isto não é satanismo. De práticas anticristãs? Isto é cristianismo às avessas. De cultos a outras entidades? Isto também não é satanismo. Tudo nos leva a crer que simplesmente os significados originais foram esquecidos, somente pelo fato de criarem um novo. Ora, isto não deixa de ser válido, mas por qual motivo manter o nome “satan” se no dito Satanismo Tradicional ele ganha novos significados, diferentes dos originais? Simples, aproveitar todo o alvoroço que foi feito por LaVey com a divulgação de suas idéias “satânicas”. Uma jogada suja de propaganda que tem desdobramentos até hoje...

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Do Dito Satanismo Tradicional – Um breve ensaio sobre a incoerência do título e suas implicações Por Vítor Vieira O arquétipo de Satan é também entendido como um opositor e questionador de valores cristão nas práticas anticristãs defendidas pela O.N.A., não fugindo assim o Satanismo Tradicional do significado primeiro da palavra “satan”. Este é um argumento que à primeira vista parece ser válido, uma vez que se atesta que o “satan” do dito Satanismo Tradicional não é uma entidade, mas sim o arquétipo entendido a partir da própria palavra em sua origem hebraica. Faz sentido e graças a isso então, está o dito Satanismo Tradicional desligado da Igreja. Mas espere! Quem trouxe à tona o significado original da palavra? Quem inicialmente entendeu “satan” como um arquétipo? Não foi a O.N.A., foi LaVey! Ora, é muito curioso que a O.N.A. tenha partido do “satan” acusador como LaVey fez! Muito curioso mesmo! Vale comentar também que nos escritos da O.N.A. podem ser percebidas duras críticas ao Satanismo de LaVey. Ora, criticam tanto e valem-se do mesmo nome? Isto só nos leva a nova entender o quão suja foi a propaganda da O.N.A. em sua busca por novos membros, assim como o incômodo que sentiam com relação aos Satanistas. 4. Breve conclusão do exposto Podemos aqui perceber que dentre todos estes argumentos, existe uma idéia maior, que tenta ser provada a todo custo sempre, e que se assim tivesse sido, daria o respaldo necessário para que o termo Satanismo Tradicional fosse aceito. Esta idéia é a de tentar fazer com que o “satanismo” em si, seja uma prática sempre posta anterior a LaVey, CoS e à Bíblia Satânica na linha do tempo. O problema é que, nesta tentativa incessante de sempre quererem ser considerados mais antigos e mais tradicionais, diversos excessos são cometidos. Desde considerar qualquer culto a qualquer entidade não cristã como Satanismo, até mesmo apoiar-se na dúvida, afirmando que a ideologia Satanista Tradicional existia antes de LaVey, só que secretamente. Ambas tentativas altamente questionáveis... Vale comentar também a forma como Satan é visto. O que temos são dois pontos. Primeiro, o tratamento que é dado a Satan pelos ditos tradicionais, não é tão único assim, a ponto de ser esta a única entidade a ganhar o destaque máximo no título da religião. Segundo, os motivos pelos quais “satan” foi escolhido para receber destaque neste. Quando afirmam que partem do “satan” cristão, ora, nada mais estão fazendo senão um cristianismo às avessas. Assim como declaradamente já assim se caracterizaram. E bem, quando dizem que parte do “satan” arquétipo, ora vejam, LaVey já havia feito isto anteriormente! Eu insisto na questão histórica e etimológica, pois este é o ponto chave para podermos pensar quem estaria a usar de forma mais justa, se podemos dizer, o termo “satanismo”. Obviamente, tanto no contexto do Satanismo de LaVey, quanto no contexto do dito Satanismo Tradicional, a palavra “satan” fará todo o sentido, claro. Entretanto, não é sob esta perspectiva que devemos nos debruçar se quisermos questionar a validade dos usos dos nomes. É preciso entender que motivo cada sistema religioso teve para assim se intitularem. E tudo nos leva a crer que a O.N.A., com seu oportunismo, nada mais fez senão aproveitar a notoriedade que o termo satanismo havia obtido a partir de LaVey. Ora, já que nos criticam tanto, por qual motivo adotaram nosso nome e/ou partiram de nossa interpretação de “satan”? Se estivermos a tratar de duas coisas distintas, por qual motivo adotar o mesmo nome? Como já comentei, propaganda suja, e, se me permitem certa opinião pessoal, uma tentativa de tentar minimizar tudo o que LaVey propunha. De que forma? Simples, com o adjetivo “tradicional”. Estavam como que a dizer: ”LaVey, você é infelizmente chegou tarde, e não descobriu nada novo, estamos na ativa a muito mais tempo que você” ou ainda: “sinto muito LaVey, mas o seu é um satanismo distorcido, falso, não é o verdadeiro, o original satanismo”. Em suma, voltar-se para os motivos da escolha dos nomes por parte da O.N.A. é voltar-se para sua jogada barata propagandista. Entender hoje que o “satan” no sistema religioso do dito Satanismo Tradicional é válido, não é o suficiente para que assim ele seja nomeado uma vez que temos outra religião distinta com o mesmo respaldo... Por fim, digo que existe ainda um “argumento-refúgio”, se me permitem o neologismo. Existe sempre uma palavra final que acaba sendo dita, seja pela falta de argumentos, seja por puro desconhecimento das implicações que toda a discussão dos nomes traz. Este abrigo para evitar a discussão, é o famoso “pra que?”. Quando as coisas parecem não mais ter fim, surge o grito que em primeira instância, e para os menos esclarecidos, acaba com a validade do debate. E então, por alguns momentos, alguns passam a se perguntar, “por qual motivo estamos a discutir isto”?! É disto que tratará o próximo capítulo.

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Do Dito Satanismo Tradicional – Um breve ensaio sobre a incoerência do título e suas implicações Por Vítor Vieira 5. Mas qual o motivo disto tudo, meu Deus?! Esta é a pergunta primordial no problema dos nomes. Afinal, por que será que muitos não aceitam o nome Satanismo Tradicional? Por qual motivo a discussão tola, na qual eternamente um lado ficará a replicar o outro? Por que não nos unirmos e tentar trocar experiências? Seriam o Satanismo e o dito Satanismo Tradicional tão distintos entre si, a ponto de constituírem sistemas religiosos distintos, que não poderiam ter o mesmo nome? Primeiramente, cabe dizer que não é um simples motivo. Existem dois grandes pontos que juntos criam determinada situação na qual é mais que necessário, não somente separar o joio do trigo, mas também dar os nomes corretos aos bois. Antes de qualquer tentativa de tentar explicar estes motivos, cabe aqui uma observação de extrema importância, para evitar possíveis problemas. A postura que adoto nesta parte de minha obra, assim como toda a motivação que outrora me impeliu a produzi-la, é o fato de me sentir, como Satanista, prejudicado por esta reprodução indiscriminada de um termo que não acho válido. Obviamente, isto significa dizer que não estou a generalizar aqui afirmando que todo e qualquer satanista tem a obrigação de não aceitar este nome, ou ainda, tentar fazer algo para que este não seja reproduzido. Como comentei ao início, não estou aqui para obrigar ninguém a não usar seu título de religião. Apenas sinto-me em condição de promover o debate uma vez que me sinto afetado. Da mesma forma que, diversos satanistas podem não se importar com esta questão, tendo em mente que não são por ela afetados. É bom que isto fique claramente exposto. Tendo estas últimas palavras sido proferidas, retomo ao ponto dos motivos para toda a discussão dos nomes. Primeiramente, devemos falar sobre uma palavrinha bastante conhecida dos Satanistas. Preconceito. O que é preconceito? Simples, um pensamento cujas bases não são tão sólidas a ponto de este ser considerado uma certeza. Devo dizer também, que a discriminação por sua vez, é quando tal pensamento partindo de premissas questionáveis passa a ser uma certeza, algo tido não como passível de dúvida, mas sim, uma hermética certeza. Tanto um quanto o outro trazem problemas ao Satanista. Obviamente, o primeiro torna-se um problema menor, e é deste que pretendo tratar. Aquele que não se dá ao trabalho de ultrapassar os limites de um preconceito, fazendo com que sua convicção dele não passe, nada mais é que tolo, um bitolado... De personagens excêntricos em filmes Hollywoodianos, a manchetes sensacionalistas da impressa marrom, faz-se presente uma série de mitos com relação aos satanistas. Este fanatismo por parte de alguns em criar esta imagem maligna, vem desde os tempos mais remotos da Igreja. Foi através de medo que ela persuadiu seu rebanho a seguirem o pastor, e para assustar, precisavam de algo forte. Satan foi o escolhido, para nós aqui no Brasil, carinhosamente Satanás... E é esta prática de expor o inverso cristão que motiva todo este teatro, toda esta fantasia negra, toda esta carga negativa, depreciativa, que o termo Satanismo carrega em si. Atrai público e vende jornal. Logicamente, quase nada do que é dito sobre nós Satanistas é verdade. Não sacrificamos galinhas nem virgens, não afogamos bebês, não pensamos em só fazer o mal... Enfim, muito mito e pouca verdade. Surge então aquela velha e conhecida pergunta, daquele seu amigo que acabou de descobrir que você é Satanista: “você acredita no Diabo”? A resposta, obviamente, seria não. É aí o momento crucial. Ele então rebate: “mas ora, estive lendo alguns documentos e vi que os satanistas mantém uma crença teísta!”... O que dizer? Como retrucar se de fato existem diversos textos afirmando que o Satanismo é uma religião própria na qual há sim a crença teísta? O que dizer? O simples fato de alguém acreditar numa entidade cristã, que representa tudo o que no senso comum há de mal no mundo, é um motivo muito grande para se ter preconceito, e eu diria até, discriminação por parte de alguns. Temos aí um problema... A validação do senso comum. Como se não bastasse sem o dito Satanismo Tradicional este já ser por várias vezes erroneamente validado, com ele então só há uma distância cada vez maior da verdade! Ou seja, graças a religião de terceiros, cresce o preconceito sobre nós! E o que é pior, como pude mostrar, esta religião utiliza da forma equivocada o nosso nome! Ou seja, estamos a sofrer a conseqüências de um erro que não cometemos! É preciso também, comentar de forma mais clara, o que viriam a ser estas conseqüências. Pois eu lhes digo, toda e qualquer forma de ignorância é inválida e deve ser repreendida quando tivermos capacidade para isto, uma vez que esta nos prejudique. Digo ignorância, não no sentido pejorativo, mas literal, no sentido de desconhecimento. Desconhecimento este que tenha implicações nocivas. E por qual motivo não é válida? Simples. O Satanista ainda que seja uma religião individualista, não é uma religião voltada para isolamento pessoal ou a misantropia. Muito pelo contrário, grande parte das condutas propostas pelo Satanismo diz respeito à postura que devemos ter com relação ao próximo, assim como as atitudes que devemos tomar em diversas situações reais. O Satanismo nos diz, que uma vez que tracemos nossas vontades e desejos, temos de ir a busca deles. E como não moramos em uma ilha, sozinhos, temos de nos mostrar ao mundo para que dele consigamos o que queremos. Portanto, quanto pior estiver seu meio, pior também será sua condição nele! Quantas mentes adolescentes se perdem em imbecilidade com -6-


Do Dito Satanismo Tradicional – Um breve ensaio sobre a incoerência do título e suas implicações Por Vítor Vieira o pseudo-respaldo do dito Satanismo Tradicional? Dir-me-iam que o dito Satanismo Tradicional não apóia também as práticas expostas pelos filmes e manchetes. Concordo, de fato não. Entretanto, para cada pessoa que tem acesso à religião, e consegue com ela, se desprender da rebeldia adolescente e do anticristianismo, existem várias pessoas de mente fraca que nela encontram um refúgio! E digo-lhes, não são nem os conceitos nem os dogmas do dito Satanismo Tradicional, mas o seu nome altamente sugestivo, suficiente para satisfazer a auto afirmação de muitos, sem que estes precisem ir muito além em seus estudos e reflexões. E o que nós Satanistas temos a ver com isto? Somos obrigados a ouvir e presenciar as mais diversas imbecilidades. Muitos perdem seu tempo produtivo com cristianismo inverso, não só prejudicando cada indivíduo a si próprio, como também, reproduzindo aquele comportamento para outros também sedentos por auto-afirmação. É assim que se cria uma massa. Uma massa que poderia o invés disto tudo, estar pensando por si próprio, e quem sabe até tornando-se Satanistas. O convite que o nome da religião de LaVey faz aos mais fracos, é rapidamente cancelado a partir da negação da crença teísta em deuses exteriores. Com o dito Satanismo Tradicional não é isto que ocorre. E diferentemente do que muitos pensam, tudo está ligado, tudo é causa, tudo se torna efeito. Aquele um que grita suas imbecilidades aos quatro ventos, será ouvido por mais dez, e assim vai, até que sejamos sufocados, por um grande grupo de pessoas gritando um nome, que anteriormente permitimos ser reproduzido. E eles gritam: “Satanismo, satanismo”. E é o dito Tradicional... Enfatizo mais uma vez, o sistema religioso deste não promove a imbecilidade e a ignorância, mas contra ela nada faz e no final se não peca por ser cúmplice, peca por ser conivente. E para que? Não sei o para que, mas o porquê da questão pode ser entendido. Basta voltar à propaganda suja realizada pela O.N.A. em seus primórdios. Enfim, tudo está interligado e o dito Satanismo Tradicional tem sua parcela nisto tudo. E enfatizo, parcela esta que não deveria existir, visto a não validade da utilização do termo “satanismo”. Alguns, não poucos, poderiam criticar-me, atestando que estou a ter uma visão visionária demais. Mas ora, eu não quero revolução! Eu não quero panfletarismo “antitradicionais”!Eu não quero nada mais que o debate para aqueles que ainda não compreendem minhas idéias, e a reprodução delas, por parte daqueles que as aceitam, para evitar a disseminação de um preconceito. Isto nada custa ao Satanista, absolutamente nada. Do contrário, poderá ter certeza que estará a fazer sua parte para tornar o seu redor melhor, e, por conseguinte favorecer a si próprio! Idealismo exacerbado? Quem sabe... Agora, eu não estou a perder nada com isto, muito pelo contrário. Todo o labor desprendido neste trabalho é válido a partir do momento que considero que com ele poderei melhorar tudo o que se coloca à minha volta. Em suma, para aqueles que não se sentem tão afetados, pois digo-lhes, não estou a pedir muito. E para aqueles que se sentem, façamos algo, pensemos e ergamos nossa voz! Não estou aqui a pedir uma convocação de conselho de guerra, apenas uma reprodução daquilo que achamos válido! E para aqueles que nem se sentem afetados e nem desejam nada fazer no que diz a esta questão, eu digo-lhes, nada têm a perder, e ainda sairão a ganhar. Ponham em prática suas idéias, debatam, exponham o que pensam! Conhecimento compartilhado é conhecimento duas vezes mais valioso! Quando estamos a falar de idéias, o indivíduo ganha poder se comparado às massas. E numa mudança que se faça a partir de idéias, não precisamos delas para nos apoiar! Creio eu até então, ter exposto de uma forma clara e direta, o primeiro motivo para o qual não sejamos coniventes com a reprodução de um título com o qual não concordamos e que ainda por cima nos prejudica. Digo-lhes que ainda há mais um. Uma premissa que deveria ser facilmente assimilada e compreendida, mas parece que foi esquecida por muitos. E basicamente se resume a: dois sistemas religiosos distintos não merecem ter o mesmo nome. Faço uma analogia simples, mas de efeito creio eu positivo. Pensemos em dois sistemas políticos diferentes. Socialismo e comunismo. Podemos por exemplo, pensar em uma organização de sociedade que abrigue elementos de ambos. Suponhamos isto como válido. Esta organização híbrida, ainda que produtiva, satisfatória, não pode ser simplesmente chamada somente de socialismo, ou somente de comunismo. Em sua essência ela não os será por completo. Da mesma forma dá-se o sincretismo religioso. Ainda que, graças a nossas interpretações pessoais, podemos agregar valores e noções de diversos sistemas religiosos, não podemos resumir esta nossa “criação religiosa” a apenas um único nome. Quero dizer indiretamente com toda esta explanação que, LaVey ao instituir a religião Satanista, delimitou o sistema religioso que ela constitui. Ou seja, ser nomeadamente satanista não é produzir sincretismo religioso com outras religiões. Você pode fazê-lo, mas não poderá afirmar que isto é Satanismo. Percebam que é uma nuance entre duas noções, a da teoria e a da prática. Podemos sim definir as nossas práticas, mas não modificar a teoria. É preciso compreender claramente isto, para que outros não caiam no erro de muitos, de afirmar que o Satanismo não permite tais modificações pessoais. Muito pelo contrário, fica clara a postura do selfmade, de acordo com os interesses e anseios pessoais. Agora, o “faça você mesmo” não significa “dê o nome que quiser e assim o divulgue”. Todavia, poder-se-ia questionar: teria o Satanismo de LaVey um sistema religioso tão distinto do dito Tradicional. A resposta é: Sim. E sobre isso falarei no próximo capítulo. -7-


Do Dito Satanismo Tradicional – Um breve ensaio sobre a incoerência do título e suas implicações Por Vítor Vieira 6. Tão semelhantes assim? A proposta deste capítulo será, em linhas gerais, tratar do segundo ponto que nos leva a acreditar que o dito Satanismo Tradicional não merece ter em seu título “satanismo” como parte. Em breve, tratarei de elucidar as principais diferenças entre tal pensamento, e o Satanismo, tentando assim mostrar que são religiões com muito mais diferenças do que semelhanças, o que nos leva a mais uma vez questionar o nome de uma delas. É necessário comentar também, que é esperado que o leitor já tenha algum conhecimento sobre o Satanismo, visto que sem entendê-lo de fato, não será possível entender as comparações que virão. Faz-se necessário também ressaltar que não caberá neste momento ampliar discussões acerca de cada um dos sistemas religiosos, suas minúcias não serão comentadas aqui, minha intenção apenas é destacar pontos chaves que nos mostrem o nível de diversidade existente. Sigo, antes de chegar às vias de fato, questionando o leitor para refletir sobre um determinado ponto. Meios diferentes nos fazem chegar a fins semelhantes? Pensemos-nos em uma floresta, a caminho de uma cidade. Ela encontra-se do outro lado. Ora podemos seguir a trilha mata a dentro, ora pegar uma ponte. Não seria a primeira jornada totalmente diferente da última? Não teríamos em uma, experiências que talvez nunca pudessem ocorrer na outra? Não poderíamos também pensar, a questão física da cidade e a partir disto nos questionar se a parte da cidade na qual chegaremos pela mata seria a mesma na qual chegaríamos se fôssemos pela ponte? Estaríamos sim na mesma cidade, mas em ambientes iguais? Subúrbio e centro seriam os mesmos? Temos em um, o que temos em outro, ainda que estejamos na mesma cidade? Estas incessantes questões constituem um pequeno convite que faço a todos aqueles que insistem em dizer que tanto os objetivos do satanista tradicional quanto os objetivos do Satanista são as mesmas coisas. Podemos ter sim, alguns pontos em comum, algumas palavras compartilhadas. Mas não bastam palavras, elas abrigam em si muito mais que um simples sentido. Dizer que ambos nos levam ao desenvolvimento individual e à evolução é muito vago e simplista. O próprio cristianismo considerará que a evolução dá-se a partir da aceitação de Deus como seu único Senhor, e que isto nos torna melhores. Aliás, este e um dos fundamentos de grande parte da religião, senão todas, quem sabe. Portanto, faz-se mais que necessário analisar a questão mais a fundo, para então perceber que as aparentes semelhanças não são tão fortes quanto às diferenças... Eu não poderia começar a discorrer sobre os pontos de colisão, sem de início ressaltar no texto, a postura que a O.N.A., assim como muitos influenciáveis e maleáveis ditos satanistas tradicionais, adotam com relação ao Satanismo. Críticas públicas foram feitas e hoje basta uma pequena pesquisa para constatar o quão “amigos” são alguns tradicionais de LaVey e companhia. É de se admirar isto, uma vez que escolheram o nosso nome para nomearem sua religião... Mas enfim, isto já foi comentado. Dizer-se poderia que não é obrigatório que todo dito satanista tradicional adote tal postura. Mas é de se considerar as motivações para esta... Motivações que residem justamente, por serem tão distintas, a mata, e a ponte. Logo de cara, sob uma simples análise do termo “satanismo”, encontra-se já uma distinção. Ele, sob as palavras de LaVey, sem qualquer temor de erro, representa o culto que é prestado a Satan. Sim, cultuamos a nós mesmos como indivíduos, como deuses, como críticos, como opositores e questionadores de tudo aquilo que nos amarra, de tudo aquilo que nos prende, de tudo aquilo que possa vir a impedir nossa jornada de desenvolvimento. É válido comentar aqui também, que não nos opomos ou a uma coisa ou à outra. Nós nos opomos a tudo àquilo que não nos gratifica, a tudo aquilo que não promove em nós satisfação. É importante entender este ponto, pois é a partir dele que vem a valorização do prazer e do gozo de cada indivíduo. É entender que nossa crítica, nossos julgamentos, são todos algo como que um filtro, pelo qual passe somente o que nos traz contentamento. Daí a valorização do arquétipo, justamente para que não aceitemos de bom grado e conformados o que não nos serve. Esta é a posição do Satanismo no que diz respeito a Satan. Obviamente, há muito mais que ser dito, e sempre haverá. Mas é útil neste momento fazê-lo desta forma. Assim podemos perceber que o Satan “tradicional” é bem diferente. Neste, ele é apenas um dos Deuses Negros, ou Escuros, nada mais que isto. Nem ao menos há qualquer tipo de culto ou de veneração a este personagem. Uma espécie de aproximação, um reconhecimento. Nada mais que isto. Cabe comentar aqui também que se não é culto a Satan, qual o motivo para “satanismo”? Enfim... Em suma, pelo simples fato dele colocar-se entre outras tantas entidades, personagens, deuses negros, ou como quiserem interpretar, já temos aqui uma diferença gritante. A questão da importância é fundamental para perceber isto. O Satanismo vale-se do satan arquétipo e concretiza o Satan indivíduo, o Satan como self, partindo justamente deste para justificar tudo o que é proposto, fazendo com que, como já comentei, toda a ação promova ao indivíduo, ao Satan, o bem estar e a satisfação. Isto não ocorre no dito Satanismo Tradicional... Neste, Satan não se encontra no centro, o indivíduo não se encontra no centro, não com a carga significativa do opositor. Tudo o que foi comentado neste último parágrafo, nos leva a mais um ponto de conflito. Uma vez que o indivíduo tem importâncias diferentes, não seria surpresa se alguns elementos ganhassem um determinado valor, em virtude de uma perda deste por parte de outros. Neste ponto, podemos comentar -8-


Do Dito Satanismo Tradicional – Um breve ensaio sobre a incoerência do título e suas implicações Por Vítor Vieira sobre o que é considerado no dito Satanismo Tradicional o “primitivo”, o “sinistro”. Ora, isto nada mais é do que a conseqüência do que expus. Se o indivíduo “perde” por um lado, temos a importância desta áurea negra, desta alma profunda residente na escuridão, e repetindo por que não o termo, o “ganho” do tal sinistro. É com este que o indivíduo no dito Satanismo Tradicional precisa entrar em contato, e é através da várias práticas mágicas que isto é conseguido e chega-se então ao desenvolvimento, ou como dito no meio, na criação de uma nova pessoa. Para tal é necessária esta relação. Já no Satanismo, isto não ocorre. Muito pelo contrário... O Satanismo coloca-se justamente numa postura muito mais cética e muito mais centrada no humano, e não no desconhecido. São entendidas as entidades e seres divinos, não como ocorrências concretas, mas nada mais senão uma faceta de nossas características, puramente humanas. Não recorremos à escuridão para buscarmos força ou algo que o valha, mas sim reconhecemos a nos mesmos como a fonte de toda a força, assim como de toda a energia que será utilizada no processo de desenvolvimento individual. A partir desta relação entre aquilo que se encontra fora de nós e aquilo que está em nós mesmos, respectivamente as visões ditas tradicionais e a Satanista, podemos então entender a diferença no que diz respeito à questão das entidades. Enquanto em um temos uma série de personagens míticos e seres sobrenaturais, em outro, temos justamente o contrário. Não precisamos de deuses nem nada do tipo. No máximo podemos utilizar de simbologia numa prática de magia, mas nada que vá muito além disto. Seguindo com o texto, chegamos à condição divina inerente ao indivíduo Satanista. O ser humano, por si próprio já traz em si o objeto único de adoração, aquele através do qual se desenvolve, aquele no qual residem suas forças e poderes. Isto, a despeito dos clichês dos críticos de LaVey, não constitui conformismo. Muito pelo contrário, é o reconhecimento de nossas capacidades. Estamos a considerar aqui a condição divina como um motor, sempre em trabalho. Se uns produzirão mais que outros, ou se alguns irão se contentar com uma produção reduzida, não cabe a nós julgar. Não podemos simplesmente negar a capacidade desta “peça”. Nem mesmo tentar esbanjar uma faceta fascista determinando quem é melhor e quem é pior, assim como ousar tentar propor uma noção de seleção, chegando até mesmo a cogitar sacrifícios, o que é impensável para o Satanista... Enquanto o dito Satanismo Tradicional faz da condição divina um fim, o Satanista faz disto um meio. O primeiro por teoria faz com que o chegue-se onde o último já está. E é justamente a partir daí que temos tantas diferenças de caminhos... Enquanto o dito Tradicional cria todo um sistema de provações e níveis com uma série de determinações, minúcias teóricas, dentre outros, o Satanismo concede total liberdade a seu praticante de definir tanto seus objetivos quanto seus meios. O Satanista não precisa afirmar-se para ninguém com base em um sistema de “provas”, de suas capacidades ou de sua condição divina. O Satanista é livre e tem capacidade suficiente para caminhar, não pelo egocentrismo vazio, mas por suas próprias pernas. É ele quem irá traçar seus caminhos e será seu único juiz de fato para sentenciar a si próprio. Isto, poderiam dizer alguns, abre uma fenda pela qual os fracos poderiam se manter. Mas ora, quem somos nós para dizer quem é o fraco, e quem é o forte? Fomentar a intolerância a tais níveis, é cair na arrogância prepotente e bitolar a si mesmo com convicções que se tornam grades. O Satanismo não fornece manuais de evolução, apenas constata o nosso potencial. Desenvolve-se quem quer, e quem assim deseja. O fraco que reconhece no Satanismo uma fonte de resignação, nunca o conheceu de fato. Já o forte, ao reconhecer-se como tal, expande seus horizontes e anseios, assim como é motivado a lutar. O tolo que se satisfaz com o ego vazio, desconhece o pecado do auto-engano, não merece ser chamado de Satanista! O arrogante que se julga superior desconhece o pecado do orgulho contra produtivo, será sempre limitado! Em síntese, não é a egolatria frívola que nos direciona, nem mesmo serão regras e sistemas que irão nos por à prova. Caminhos difíceis e tortuosos serão ditados por nossa própria jornada na vida, não precisamos de dogmas e convenções para defini-los. Ainda pensando a partir dos caminhos, teremos aqui mais conflitos de conceitos. Enquanto o dito Tradicional propõe-se a explicar a via para se chegar ao sinistro, faz o Satanismo por sua vez uma proposição direta do aqui agora. Ora, a vida é o nosso bem máximo e nossa experiência é o que temos de maior valor. Podemos escolher entre buscar um sistema que nos leve a determinados ambientes que para nós são ilusórios demais, ou voltar para nós mesmos e pensarmos em nossa condição de ser humano em constante movimento, em constante interação com o mundo e com as pessoas ao nosso redor. É isto que o Satanismo faz. Não buscar o que está supostamente acima, escondido, pintado de negro, mas sim o que está no mesmo nível que o nosso, buscar o que podemos e devemos alcançar. São valorizações bem distintas. Em absoluto distintas. Somos tão semelhantes assim, como pergunta o capítulo? Não...! Em síntese tudo o que expus até então tenha mostrado, creio eu, o quão distintos são o Satanismo e o dito Satanismo Tradicional. Partimos de premissas distintas, almejamos coisas distintas, e percorremos caminhos distintos. Que estas palavras sirvam como uma proposta de reflexão assim como a motivação para uma análise mais minuciosa, que leve o leitor a perceber que estamos a tratar de dois sistemas religiosos distintos o suficiente para que não compartilhem o mesmo nome. -9-


Do Dito Satanismo Tradicional – Um breve ensaio sobre a incoerência do título e suas implicações Por Vítor Vieira 7. Conclusão Geral da Obra Tudo o que foi exposto aqui, em uma tentativa de ser o mais detalhado e objetivo possível, foi o fruto de uma série de questionamentos, estudos e debates no que diz respeito aos dois sistemas religiosos abordados neste pequeno ensaio. Devo dizer, de forma sincera, que o Satanismo sempre me agradou muito mais do que os escritos da O.N.A. e que se ao longo do texto debrucei-me mais à janela deste, bem, o fiz por ser humano que sou. Minhas palavras não podem ser desligadas do meu pensamento e não posso fingir que determinadas importâncias e valores não existem. Mas digo que tentei ao máximo não fazer disto um motivo para promover julgamentos de valor, referentes ao dito Tradicional. Como comentei bem ao começo, não estou aqui para isto. Estou aqui para analisar fatos e dados, coisas concretas, e fazer deles elementos que venham a corroborar o que penso... Sempre prezei por não simplesmente falar, mas fazerme ser compreendido. Fazendo uma análise geral, mostrei ao longo de minhas palavras os pontos principais da questão dos nomes. Primeiro, tentei desconstruir certas idéias altamente questionáveis que vinham sendo reproduzindo com tanto ímpeto. Idéias estas que tentavam a todo custo provar uma pré-existência do dito Satanismo Tradicional, anterior a LaVey e/ou Igreja. Em vão. Assim como tentei mostrar, não somente ao colega Satanista, mas àquele que simpatiza com o dito Tradicional, a jogada propagandista intragável produzida pela O.N.A., ao valer-se não só de nosso nome, como de nossas interpretações. Insisti no aspecto histórico, e com razão, afinal ele nos diz quem de fato pensou o que primeiro, e quem teve de, covardemente, partir do que já havia sido feito. Em seguida, cabia também discorrer os motivos pelos quais, poderia um Satanista sentir-se afetado por uma situação que não teria ele criado. Da mesma forma mostrei ao leitor que ao contrário do que muitos “pacifistas de debate” e seus discursos do tipo “não vamos discutir, queremos as mesmas coisas” mostram, o Satanismo não é tão parecido com o dito Tradicional, muito pelo contrário. E foi a partir disto que justifiquei a constatação de que são dois sistemas religiosos distintos, e logicamente, devem ter nomes diferentes. Por isso fiz questão de manter ao longo de todo o texto o adjetivo “dito” antecedendo “Satanismo Tradicional”. Não por tentativa de reduzi-lo, mas se eu não concordo com tal título, devo ser o primeiro a evitá-lo. Como estava a falar deste não podia fazê-lo, mas fiz questão de enfatizar que a utilização de tal termo não é adequada. Não posso entendê-lo como válido, apenas considerá-lo que ele é utilizado, que ele é simplesmente dito. Todos estes elementos, comentados com devida importância, são os pontos de partida para a discussão e tentar entrar nela sem ao menos se dar ao trabalho de compreendê-los, senão é um atestado de ignorância e arrogância vazia, é no mínimo uma perda de tempo. Devo enfatizar a importância que dou para o debate, não cabendo a mim neste momento, como já comentei, obrigar a não utilização de um ou outro termo, assim como esperar que possam fazê-lo. O que pretendo aqui é estimular o pensamento. Vale dizer também, justo em hora tão propícia ao final da obra, que fica formalizado o pedido de divulgação deste escrito uma vez que com ele haja concordância. Ou até mesmo não havendo. Aliás, tendo esperança nas pessoas que não se prendem pela arrogância, creio eu que isto poderá fazer até mesmo com que um dito Satanista Tradicional convença-se do equívoco que é este título. O que na prática para ele, nada significará. Ele continuará com suas idéias e conceitos. Ao passo que, desta forma, ele contribui para a não reprodução de um equívoco. E é claro, para aqueles que concordarem com o que aqui foi exposto, fica o pedido para que se leve a idéia adiante. Não simplesmente meu nome... Não quero ser lembrado por quem fui, mas pelo o que fiz. Por fim, agradeço sinceramente a todos os que mantiveram sua atenção à leitura deste ensaio. Espero que tenham apreciado e que isto possa de alguma forma, surtir, ainda que de forma bem indireta, algum efeito válido e satisfatório na vida de vocês. E lembrem-se, quando se tem o que falar, basta fazêlo. Não sejam negligentes com seus pensamentos, exercitem-nos! “Conhecimento compartilhado é conhecimento multiplicado.” Vítor Vieira, Outubro de 2008.

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Do Dito Satanismo Tradicional