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foto: roberto cica jr

passagem de som


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Motivacoes de

Chico

“Ela nĂŁo entrega os pontos...

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casa edison

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encarte

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discografia

Tijolinhos Coloridos

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biz

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casa edison Motivacoes de

Chico

O

que fazer quando o governo deixa uma sociedade censurada? Para Chico, a resposta é fácil: “Música”. Ele e outros artistas brasileiros se mobilizaram e fizeram da arte uma forma de protesto e representação popular. Eles ajudaram a definir o rumo da história do país e lutar pelo direito à liberdade de expressão. Nesse período, a música foi usada para informar e encher os pulmões daqueles que protestavam. Mais que um registro histórico, Chico foi um dos artistas que deu ritmo e voz para aquele momento. Entendam quais foram suas motivações. 1964 - Em 31 de março o golpe político-militar, que foi apoiado por vários setores da sociedade brasileira, depõe João Goulart da Presidência da República. Sua queda foi resultado se sua postura favorável e, de permissão, a algumas conquistas populares inaceitáveis para a elite e para a classe média naquela ocasião. O Ato Institucional nº 1 suspende os direitos políticos de centenas de pessoas. O general Castelo Branco toma posse como presidente. 1965 - Os partidos políticos existentes são extintos e instala-se o bipartidarismo, com a Aliança Renovadora Nacional (Arena), de apoio ao governo, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), da oposição. Durante o seu governo Castelo proibiu atividades políticas dos estudantes; decretou o AI-2; ajudou a redigir e assinou a Lei de Segurança Nacional que instituiu a noção de “guerra interna”; fechou o Congresso Nacional e decretou uma Lei de Imprensa restritiva. Dentre esses feitos, ainda se posicionou conivente com a tortura, que já era praticada nos primeiros momentos após o golpe.

DiscoB

19 Ano de lan do disco C


Brindo

971 nçamento Construção

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casa edison

1967 - O marechal Costa e Silva assume a Presidência da República. Líderes da oposição organizam uma frente ampla contra o governo militar. 1968 - Oposição é reprimida com violência. O Ato Institucional nº 5 marca o endurecimento do regime, agora abertamente ditatorial. Inicia-se uma fase completamente distinta da anterior. Segundo o professor de História do Brasil da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carlos Fico, “hoje podemos afirmar, baseados em evidências empíricas, que a tortura e o extermínio foram oficializados como práticas autorizadas de repressão pelos oficiais-generais e até mesmo pelos generaispresidentes” 1969 – O presidente Costa e Silva se afastado devido a problemas de saúde. Uma junta militar assume provisoriamente o governo. A alta oficialidade das Forças Armadas escolhe o general Garrastazu Médici para presidente. 1970 - A oposição ao regime se torna mais intensa, com guerrilhas na cidade e no campo. Os militares reagem com violência. Nos "porões" da ditadura, passam a ocorrer mortes, desaparecimentos e torturas O historiador Professor Titular de História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense, Daniel Aarão Reis, salienta que a ditadura, desde o início, sempre suscitou oposições. Estas se multiplicariam, principalmente nos últimos anos da década de 1970, tornando-se então difícil encontrar alguém que apoiasse 'explicitamente o regime que se extinguiria somente em 1984. Dentre esses motivos e uma vontade de fazer a diferença para a sociedade desinformada, Chico se motivou a lançar Construção em 1970. Sua voz e sensibilidade ao compor canções que, usando da dualidade de palavras, informou o que se passava. Até hoje, suas canções são usadas como referências em estudos de diversas áreas. Fonte: Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar de Carlos Fico. Ditadura, anistia e Reconciliação de Daniel Aarão Reis http://www.brasilrecente.com http://histfacil.blogspot.com.br/


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perfil

“Ela não entrega os pontos... chorou, sorriu, mas não se arrependeu. Foi tudo por amor.

M

ulher, nascida em uma família pobre com pouco estudo, na sociedade machista de 1944. Acima de qualquer expectativa, Rejane Márcia Freitas de Oliveira mudou a trajetória comum das mulheres daqueles tempos. Estudou, se graduou em História e fez a diferença para a nação. Devido a problemas financeiros, cresceu no meio de jovens universitários. Por sugestão e ajuda de um pediatra amigo da família, sua mãe montou uma pensão que vivia repleta de jovens estudantes. Esse ambiente a inspirou a busca de novas oportunidades, a ter novos olhares do futuro. Desde sempre, foi uma aluna aplicada. Tinha as melhores notas e uma vontade de estudar que se multiplicava ao passar do tempo. Ansiava o curso de medicina, mas ao final do 2º ano científico, resolveu finalizar no magistério, pois estava com o relacionamento firme com seu marido Francisco José de Oliveira e, mais do que ser médica, desejava ser mãe. Para ela, dedicar-se em ambas funções seria insustentável. Daí resolveu cursar história. Concluiu o curso e fez mestrado em ciência

política. Foi professora dos colégios Loyola, Pitágoras, Santo Antônio, Estadual Central, Anexo da lagoinha, Sagrada família e Anexo Santo Antônio. Trabalhou também dando curso de atualização para professores e auxiliando na reforma do programa de educação de história do estado. Montou no ano 1987 a Companhia de História, que dava curso de história para quem quisesse aprender. Esse projeto se destacou. Rejane foi chamada para dar entrevista na TV em São Paulo, no programa “Sem censura”. Foi entrevistada também pelos jornais diários Globo, Estado de Minas e Jornal d o B r a s i l . C o n t u d o, o t r a b a l h o e r a Rejane e colegas no colégio estadual central em 1963


07 expressamente por prazer, não lhe rendia frutos e acabou, depois de um determinado tempo, insustentável. Já foi convidada para ser professora da Universidade Federal de Minas Gerais, na época que não precisava de concurso para lecionar, porém, não aceitou. Achava que era fruto do ensino público e se tinha o nível que tinha era devido ao estudou no grupo escolar Afonso Pena, Estadual Central e UFMG e se sentia na obrig ação de devolver, salientando a importância de atuar em níveis mais baixos que necessitam dessa atenção, não sendo professora de universidade. O amor a profissão lhe rendeu o prêmio de melhor professora de história do Pitágoras e, até hoje, tem encontros mensais e anuais com seus alunos. Não foi uma história inventada... No calendário o primeiro dia do mês de abril é “festejado” como o dia da mentira. Nesta data costumamos passar trotes em nosso familiares e amigos. Porém para a professora Rejane (69), o dia em questão lhe faz lembra de outra coisa. O ano era 1964 a data 01 de abril, o local o instituto João Pinheiro (antiga casa do pequeno jornaleiro), em Belo Horizonte, lugar que abriga jovens de baixa renda, na maioria das vezes filhos e mães solteiras. Rejane era

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Rejane apresentando trabalho no colégio estadual central em 1963

professora ali, quando por volta das cinco horas da tarde quase anoitecendo, pará na porta da instituição várias viaturas do exército pedindo para o prédio ser evacuado, pois seria transformado em quartel. As crianças quase todas menores de idade, segundo a professora foram jogadas como migrantes, sem saber para onde ir, os produtos artesanais e as peças de cristais que elas produziam tiveram que ser encaixotados pelos funcionários e levados sabe lá pra onde. Rejane que ainda guarda com carinho duas taças de cristais feitas pelo alunos, diz que perdeu seus alunos e que naquele momento também havia percebido que estava perdendo sua liberdade. Na mesma semana da invasão do João Pinheiro, a professora passou por outro trauma. Ela era caloura de história da Universidade Federal de Minas Gerais(UFMG), estudava no período diurno, entrava a sete da manhã e


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Rejane e amigos da faculdade após o golpe militar de 1964

chegava dez minutos mais cedo para revisar o conteúdo. Suas aulas eram ministradas no oitavo andar da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) na época o prédio não era moderno como o atual não havia rampa nem elevadores. Rejane diz estava na sala lendo “quando a porta é chutada, aparece dos dois homens fardados, com fuzis nas mãos, mandando a gente descer, dizendo que o prédio seria ocupado pelo exército. Os militares escoltaram os alunos andar por andar até a saída e fizeram uma barreira com armas na mão para quem estivesse do lado de fora não entrar”.   As atividades ficaram suspensas por uma semana na universidade. Para Rejane o susto e o medo de quem viveu aquele momento foi grande, estava estampado na face das pessoas. “Muitos nunca


09 tinham visto um fuzil de perto, e algumas pessoas tiveram pesadelos com os gritos dos soldados de “Vai, vai logo”, balançando as suas armas”. Este fato fez com que a professora, que namorava um sargento, e seus amigos mudasse sua visão sobre os militares. Antes eram visto como figuras simpáticas que promoviam bailes animados na capital mineira. Após toda a violência que presenciaram os soldados tornaram-se inimigos, algo que segundo ela, envolveu um misto de sentimentos desde medo, a raiva e perplexidade com a atitude deles. O clima na faculdade era péssimo com a presença de policiais nas dependências da instituição, os protestos eram frequentes, prisões de alunos e professores acusados de s e r e m s u bve r s ivo s e c o mu n i s t a s. O s professores que não foram presos foram cassados ou demitidos. Diante desse cenário Rejane e o então namorado Francisco José de Oliveira (74), estudante de direito e entram para o grupo de resistência da UFMG e se juntam a Juventude Operária Católica (teve grande participação na luta) para resistir ao golpe . Francisco que era sargento Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (Cpor) em Belo horizonte, foi aconselhado por um coronel a deixar o exército para não ser preso. Ele que só era militar para custear os estudos, já que nasceu em uma família humilde do Mato- Grosso do Sul, abandona a carreira de militar e parte para militância.

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Rejane e amigos da faculdade após o golpe militar de 1964

  O casal passa a participar de reuniões clandestinas promovida, na maioria das vezes pelos cursos de Medicina e Direitos, os mais enganchados da universidade no período, segundo Rejane. Eles iam em constantes passeatas e costumavam distribuir jornais com informações sobre a ditadura que a grande mídia não noticiava. O jornal não tinha nome definido, era impresso em mimeógrafo e distribuídos dentro do campus universitário, escolas, igrejas e sindicatos. Para a professora esses setores participavam da luta com mais engajamento e eram politizados e sabiam realmente que aquele governo não era legitimo. Em 1967 os dois se casam, a madrinha do casamento foi à atual ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci de Oliveira, também militante, e que teve que exilar, junto com o marido Ricardo, por causa das ameaças de tortura. O casal passa a lua-de-


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mel em Lins, interior de São Paulo, não por acaso, lá Rejane e seus colegas de curso encontram com estudantes de história da Universidade de São Paulo (USP), eles tem planos de reativar o Centro de estudos históricos das duas universidades que foram fechados pelo regime ditatorial. Ao regressar a Belo Horizonte ela e a amiga e colega de sala Maria Lúcia Torres (69), que fazia parte da Juventude Universitária Católica (JUC) retomam as atividades do centro de estudos, Rejane que havia sido nomeada presidente do órgão, diz que se orgulha muito de ter participado disso, pois conseguir reativar algo que os militares fecharam foi uma grande vitória. Pouco tempo depois a professora descobre que seria mãe de seu primeiro filho, sonho que ela sempre teve. Mesmo grávida continua participando de atos contra o Governo, e quando estava no sexto mês de gestação a faculdade de Direito da UFMG é invadida por integrantes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), que trancam as pessoas lá dentro por cerca de vinte e quatro horas. Quando os companheiros de cárcere se deram conta que havia uma grávida no local, ficaram apreensivos. Rejane conta que teve um menino que desceu pendurado em uma corta até o primeiro andar para roubar comida do restaurante para ela, que descreve a cena como épica. Quando o prédio foi evacuado não era

nem seis horas da manhã mais seus pais já estavam a sua espera com um olha amedrontado ao lado do bispo e reitor da universidade. Hoje a professora da risada desta situação mais no dia achou a cena ridícula “como uma pessoa que está lutando pela situação do país pode ser resgatada por papai e mamãe que nunca participaram de nada?”. Com o nascimento do primeiro filho o casal não participa mais de maneira efetiva da militância, pois com uma criança pra cuidar as coisas são mais difíceis e arriscadas, eles então, passam a abrigar procurados políticos em sua residência e dão alguma ajuda financeira para partirem ao exílio ou clandestinidade. Entre os que ficaram escondidos na casa deles estão à ministra Eleonora e marido o Ricardo, a amiga Márcia do centro de estudos históricos e José Carlos da Mata Machado, líder da Ação Popular Marxista-Leninista (APML), filho do jurista Edgar da Mata Machado (um dos mais importantes da época), preso e assassinado pela ditadura em 1973 nas dependências do Destacamento de Operações de Informações Centro de Operações de Defesa Interna (DOICODI) no Recife. Hoje seu nome é lembrado no Território Livre Zé Carlos da Mata-Machado na Faculdade de Direito da UFMG, espaço de discussão e manifestação política. O tempo passa a família aumenta agora são três filhos (Roberto, Francisco e Márcia) é


11 época do milagre econômico período de forte crescimento do país, ela está dando aula no colégio Estadual Central na capital mineira, de educação moral e cívica, porque as aulas de história haviam sido proibidas pelos Governo. Para ela tal proibição facilitou ainda mais a manunipulação sobre as pessoas, pois os meios de comunicação com jornais, televisão e revistas, além de serem muito caros para a realidade dos brasileiros no período, não informavam a população corretamente, já que sofriam censura do regime. Ela lembra que não participou diretamente do período de anistia e diretas já, por conta do trabalho e dos filhos, mas em 1984 montou a “Companhia da história”, curso itinerante de história em que o tema era '1964' que percorreu o Brasil no qual dava aulas sobre o período. O sucesso do curso surpreendeu a professora. Segundo a própria muitas pessoas ficaram descobrindo no curso que viveram uma ditadura militar e não sabiam. A companhia fez muito sucesso e Rejane deu entrevistas para vários veículos de comunicação como, TV Cultura, TV Alterosa,e Jornais do Brasil, Estado de Minas e o Globo, falando da experiência que viveu na ditadura e de como o curso ajudava a entender aquele momento histórico. Para Rejane mesmo com a democracia o país ainda não criou uma consciência política e uma definição melhor sobre o que é direita e

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esquerda e qual o papel dos partidos políticos. Ela afirma ser uma esquerdista que gosta de discutir e debater política, sim. “Depois da abertura política houve diversas manifestações como os “caras pintadas' e essas mais recentes, mas eu não vejo engajamento político, falta foco, falta discussão, falta debate, não existe protestos sem lideranças, sem governo, sem partido''. A ex-militante e professora de história aposentada, Rejane atualmente vê com bons olhos a criação da comissão da verdade, acredita que não vai haver punição para os culpados, já que a grande maioria está morta ou velha. Contudo as pessoas terão a possibilidade de saber o que fato aconteceu, quem foi morto, onde foi enterrado. “Temos os direito de saber a história, para que ela seja reescrita em linha de papel. É um direito e dever nosso saber a verdade”. Ainda que a verdade demore para aparecer ou não aparece, não cabe a ninguém dizer que ditadura militar foi uma história inventada no Brasil.


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A desconstrução de Chico Buarque: ele não pensa em poder parar


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rancisco Buarque de Hollanda, mais conhecido como Chico Buarque, é filho da pianista e pintora Maria Amélia Cesário Alvim e do renomado historiador e jornalista Sérgio Buarque de Holanda, um dos intelectuais mais respeitados do Brasil. Ainda jovem, Chico já demonstrava que havia herdado o talento do pai, não para pesquisar a história do país, e sim, contá-la em forma de poesia e música. Muito desse talento se deu pelo convívio com Vinicius de Moraes, amigo de seu pai. Suas primeiras composições foram “Canção dos Olhos” e “Anjinho”, quando ele tinha apenas dezessete anos e cursava o ensino médio no Rio de Janeiro. Antes de ingressar na carreira artística, Chico morou na Itália, já que seu pai havia sido convidado para lecionar na Universidade de Roma. Retornando ao Brasil em 1963 para estudar Arquitetura e Urbanismo, na Universidade de São Paulo (USP), abandonou o curso no segundo ano para se dedicar a música. Nesse período, meados dos anos sessenta, o Brasil vivia uma época de efervescência cultural e política. O mundo passava por intensas transformações, com o surgimento de movimentos estudantis, revoluções comportamentais, ascensão da televisão e golpes militares na América Latina. Paralelamente a isto, no Brasil surge o fenômeno dos grandes festivais de música popular brasileira que parava o país, revelando grandes nomes da MPB como o próprio Chico. O cantor se tornou uma das figuras mais importantes do período com várias músicas premiadas. No ano de 1966 a música “Banda” na voz de Nara Leão, ficou com o primeiro lugar. Chico venceu também o festival de1968 com “Sabiá” cantando ao lado de Tom Jobim. Os festivais de música se tornaram um alento contra a ditadura militar. Muitos artistas participavam deles para protestar contra o regime. Chico Buarque, um desses artistas, teve diversas canções censuradas, sendo um dos compositores mais perseguidos pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Entre as músicas proibidas pela censura estavam “Apesar de Você” e “Cálice”. A jornalista e professora Regina Zappa, autora de quatro livros sobre o cantor (Chico Buarque - Para todos, Cancioneiro Chico Buarque – Biografia e Obras Escolhidas e Para seguir minha jornada) diz que as músicas têm o poder de atingir a todos de uma maneira simples e popular. “A palavra na música do Chico é poderosa porque tem força ao falar de diversas situações, mas ao mesmo tempo suas letras são simples e poéticas. Dessa forma, é uma música popular, no melhor significado da palavra popular”. Em 1969, ameaçado pelo governo, Chico Buarque parte para um exílio voluntário na Itália, mas nem por isso deixa de se preocupar com o Brasil e a situação que o país vive. Passa a escrever crônicas para o jornal “O


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single

Pasquim” em que relata as diferenças entre brasileiros e italianos e de como sente falta de sua terra natal, principalmente do futebol. Retorna ao Brasil meses depois, e se depara com um cenário ufanista, criado pelo governo, em que o slogan “Brasil ame-o ou deixo-o” estava espalhado por toda parte. O país vivia o “milagre econômico” com altas taxas de crescimento. É nesse panorama que Chico Buarque lança o disco “Construção”, em 1971, que representa um divisor em sua carreira, na qual se percebe um artista maduro e mais ousado. O hoje escritor Jeocaz LeeMeddi era militante político na época do lançamento do disco. Ele afirma: “Construção foi lançado em um dos períodos mais negros da ditadura militar, o governo do general Emílio Garrastazu Médici. É quase um grito contido e dilacerado de um tempo que parecia cada vez mais distante em volta da democracia. Um tempo que gente era torturada e desaparecia nos porões obscuros do regime militar. Um grito de coragem em canções que transitavam entre o protesto social, a angústia existencialista e o lirismo romântico. Trazia um Chico Buarque mais maduro e definitivo, numa época dura e transitória”. O disco teve tamanha popularidade que alguns meses depois do seu lançamento a revista Realidadeuma das mais importantes da época, (número 71, fevereiro de 1972), estampou a foto do músico na capa com a manchete “Chico Buarque: a razão do sucesso”. O título da matéria era: “Chico põe nossa música na linha”, em que elogiava o álbum e o considera simplesmente o melhor disco feito nos últimos vinte anos no país. A matéria também destaca dois “problemas” que “Construção” acarretou para a gravadora Phillips. O primeiro é que a gravadora não deu conta da procura pelo disco “Construção” criou

problemas industriais nunca antes vividos pela Phillips. A demanda de mil discos por dia, nas primeiras semanas, levou a fábrica a contratar duas gravadoras concorrentes para prensá-los, obrigou o pessoal a trabalhar em turnos de 24 horas por dia e o futebol de sábado, rotina de vários anos dos empregados e artistas, ficou suspenso durante quase dois meses. Já o segundo foi o fato de Chico Buarque superar Roberto Carlos em vendagem de discos por algumas semanas. “E um fato novo se deu no mercado. Dezembro é o mês em que Roberto Carlos (campeão absoluto de venda de elepês no Brasil há quase seis anos) lança o seu disco anual e tradicionalmente subverte a parada de sucessos, indo de pronto para o


17 primeiro lugar é lá permanecendo, incontestável, por quase seis meses. Dessa vez, Roberto encontrou uma construção pela frente e teve dificuldade para desbancá-la no Rio, enquanto continuava perdendo em São Paulo durante todo o primeiro mês. Ao final da corrida, Roberto venderá mais discos do que o Chico, pois sua procura é quase uniforme em todo o país, enquanto Chico é consumido em quase 80% no eixo Rio - São Paulo”. Para a jornalista Regina Zappa, o sucesso do disco se deu pelo experimentalismo de Chico Buarque, que já havia feitos diversas músicas de protesto, como “Roda Viva”, “Pedro Pedreiro”, “Apesar de Você” e “Cálice”, mas em “Construção' foi diferente, pois se trata de um disco inteiro em que a maioria das músicas foi composta quando ele estava no exílio, indo em desencontro com o ufanismo do “milagre econômico” pregado pelo Governo, mostrando que mesmo longe estava consciente e preocupado com os problemas do país. Segundo Regina,“ a partir de “Construção” Chico traçou um caminho mais político e compôs músicas como “Cordão” (de duplo sentido), “Deus lhe pague” , a irônica “Construção”, um protesto em forma de poesia. O disco foi um susto para quem estava acostumado ao lirismo e à poesia do Chico. “Foi um soco no estômago”. “Foi mesmo um marco”. Esse “soco” ao qual Regina Zappa se refere permanece atual até os dias de hoje, quando o assunto é música, já que o LP “Construção” sempre aparece nas listas de melhores discos do Brasil. Ele foi eleito pela revista Rolling Stone (Outubro de 2007, edição nº 13, página 111), como o terceiro melhor disco brasileiro de todos os tempos, perdendo apenas para “Acabou Chorare”, de 1972, dos Novos Baianos, e

single

“Tropicalia ou Panis et Circencis” de1968, que conta com a participação de vários artistas, como Mutantes, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Mas na edição 37, de outubro de 2009, da mesma revista a canção “Construção”, ficou em primeiro lugar como melhor música brasileira de todos os tempos. Segundo o editor da revista, Paulo Cavalcanti, “Construção” foi uma música que mexeu com o emocional das pessoas. Trata-se de uma crônica sobre a vida e a morte de um trabalhador. Um dos setores que mais se expandiam com o propalado crescimento econômico era o da construção civil. Operários eram peças de reposição, ganhando pouco e estendendo sua jornada de trabalho com infindáveis horas extras para garantir a compra dos bens materiais que eram anunciados na TV. Acidentes de trabalho eram acontecimentos corriqueiros. Ao colocar isso em canção, Chico criticou indiretamente o sistema, afinal a situação do operariado era conseqüência das ações do governo. O álbum também ficou em sexto lugar em uma votação popular online feita pelo jornal “Estadão” (edição de 18 de outubro de 2012) para saber qual o melhor disco de todos os tempos da música popular brasileira. Chico Buarque costuma dizer em entrevistas que não tem mágoa da ditadura e considera as músicas que lançou no período datado, e por isso não as canta mais em shows. “Gostava de cantá-la quando ninguém falava, hoje está tudo nos jornais”. Se as músicas de “Construção”, para o cantor, têm data de validade, não se pode contestar, afinal, como já disse Millôr Fernandes, Chico Buarque é a única unanimidade nacional. Todavia para aqueles que apreciam a boa música, o disco não está vencido, e essa construção ainda é capaz erguer inúmeras paredes compostas de admiradores e amantes da legítima música popular brasileira.


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encarte

Cotidiano cada um com o seu

O

historiador francês Michel de Certeau define que “o cotidiano é aquilo que nos é dado cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma opressão no presente”. Ao compor a música Cotidiano, Chico teve como objetivo registrar uma sociedade reprimida, que não suportava a rotina diária e ao mesmo tempo não conseguia lutar contra ela. A música repete sua letra três vezes para enfatizar a ideia de mesmice. Esta é uma possível leitura. A riqueza da música é justamente essa, aberta a várias interpretações. Pode ser o cotidiano de um casal, por exemplo. O ensaio a seguir, feito pelo fotógrafo Simião Castro, visa contar a história da música em diferentes tempos, com diferentes casais

seis horas

boca de hortelã


19 sempre

a i d o tod

igual

l a u t n o p

me cuidar

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encarte

essas coisas que diz toda mulher

ĂŠ f a c e d a boc

meio dia

penso em dizer n ĂŁ

o


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penso na vida

bo

o 達 j i e f ca de

e

d r a t a d s sei

encarte


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encarte

me espera


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louca

beijar

pra

eterno amor

encarte


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discografia

desconstruindo a cons trução


25 Lado A 01_Deus lhe pague

02_Cotidiano

Chico Buarque I 03:19

Chico Buarque I 02:49

A faixa que abre o LP “Deus Lhe Pague” é um verdadeiro petardo, seus versos:

“Todo dia ela faz tudo sempre igual Me sacode às seis horas da manhã Me so r ri um so r riso p ontual E me beija com a boca de hortelã” Narra o cotidiano de um casal oprimido pela ditadura, sem ação diante dos acontecimentos. Segundo o escritor Lee-Meddi “a temática social sai das construções e do trabalho e volta para o lar em “Cotidiano”. Aqui o homem em luta com o seu marasmo entre o trabalho e o casamento, entre a vontade de contestar e a realidade de ter que se calar, seguir a vida banal, monótona, cotidiana”. Não se pode dizer que a música era uma crítica as pessoas que ficavam em casa, enquanto havia outras que lutavam contra o regime, porque a maioria da população brasileira nem se dava conta que estava vivendo em um regime militar. Em “Cotidiano” Chico crítica alienação que o dia-a-dia e a mesmice provocada pelo regime provocaram nas pessoas. A canção também foi tema da abertura da novela (Como Salvar Meu Casamento – Rede Tupi – 1979).

"Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir/A certidão pra nascer, e a concessão pra sorrir/Por me deixar respirar, por me deixar existir Deus lhe pague".

Soam como desabafo de alguém que está preso dentro de um sistema que o priva de realizar coisas simples. Para o professor de literatura Fernando Marcílio Lopes “É como se ele agradecesse ao governo por permitir ao cidadão realizar atos básicos, como respirar”. Podemos perceber que o personagem da música vive uma vida infeliz cheia de insucesso algo presente na obra buarqueana. “Ao criar um número sem fim de personagens reles, donos de vidas infelizes, Chico revela algo além da marca singular que essas vidas comportam. Narrando a saga de suas trajetórias, a desventura de seus tortos caminhos, o artista oferece a condição para que essas vozes se manifestem, bradando elas mesmas a autoria de seus feitos” (Moraes, 2004,p4). A faixa também conta com a participação do grupo MPB -4 que da um tom mais ameno a melodia. Ela pode ser considerada também uma continuação da música título do disco. É uma das músicas mais regravadas de “Construção”.

03_ Desalento Chico Buarque e Vinícius de Moraes I 02:48

“Sim, vai e diz /Diz assim /Que eu chorei/Que eu morri/De arrependimento”/Que o meu desalento Já não tem mais fim” Nesta música cantor regressa ao estilo samba-canção, que o consagrou,

discografia

mostrando assim que não se abalou com as críticas feitas pelos tropicalistas em relação ao seu lirismo nostálgico. Esta composição é uma parceria com o “poetinha” Vinicius de Moraes que tanto influenciou sua obra. “Desalento” seria um pedido de desculpa por ter deixado tantas coisas de lado por algo que ele nem sabe se valerá à pena. Está canção resgata o lirismo da poesia musical buarqueana. A música foi lançada como Lado-B (B-side) do single “Apesar de Você” em 1970 e no ano seguinte integra o disco “Construção”. Curiosamente está é uma das poucas músicas do disco que o artista ainda canta em seus shows e diz que o faz para homenagear Vinicius de Moraes. 04_Construção Chico Buarque I 06:24

“Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe/Bebeu e soluçou como se fosse um náufrag o/Dançou e gargalhou como se ouvisse música/E tropeçou no céu como se fosse um bêbado/E flutuou no ar como se fosse um pássaro/E se acabou no chão feito um pacote flácido/Agonizou no meio do passeio público/Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. Considerada uma das obras primas de Chico Buarque é a canção que da título ao disco. Trata-se de uma crítica ao sistema capitalista, já que o país vivia o chamado “milagre econômico”, registrando altas


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taxas de desenvolvimento, e quem impulsionava tão crescimento era do setor de serviços no qual está incluso a construção civil.Na canção o compositor denuncia o descaso das empresas com trabalhador. No início da década de 70 o número de acidentes de trabalho envolvendo funcionários da área. Mas ninguém, com exceção da imprensa alternativa, que tinha pouco alcance entre a grande massa, denunciava. Os grandes veículos de comunicação apoiavam a ditadura, conseqüentemente, não noticiavam as mortes por acidente de trabalho, dando a impressão que nada estava acontecendo. A música ainda chama atenção pelo seus versos dodecassílabos(versos que apresentam doze sílabas) as últimas palavras das músicas são sempre proparoxítonas (com acento predominante, a sílaba tônica) exemplo: máquina, lógico. Mostrando a complexidade da canção e um amadurecimento do seu intérprete. 05_Cordão Chico Buarque I 02:31

“Ninguém vai me acorrentar/Enquanto eu puder cantar/Enquanto eu puder sorrir/Enquanto eu puder cantar/Alguém vai ter que me ouvir/Enquanto eu puder cantar/Enquanto eu puder seguir/Enquanto eu puder cantar/Enquanto eu puder sorrir”

Semanticamente trata-se de uma “canção de resistência” em que Chico Buarque declara o seu não conformismo com o clima de repressão que se vivia no Brasil daquela época. Simultaneamente, a canção serve com apelo à união dos que pensam como ele para formarem o “cordão”. Para LeeMeddi a música reflete um estado de espírito do artista “Ainda há tempo para um grito sufocado em “Cordão”, um reflexo dos temores aos tentáculos da ditadura e os resquícios de ter que se exilar. Aqui novamente o grito quase que contido de uma época que a repressão se fazia presente na arte, na cultura e na vida do brasileiro”.Isso pode ser observado nos versos acima. Lado B 06_ Olha Maria Tom Jobim, Vinícius de Moraes e Chico Buarque I 03:56

“Olha,Maria/Eu bem te queria Fazer uma presa/Da minha poesia Mas hoje, Maria/Pra minha surpresa Pra minha tristeza/Precisas partir” Belíssima canção composta em parceria com Tom Jobim e Vinícius de Moraes, em que o eu – feminino buarqueano se mostra presente. Em que “a melancolia evoca as inúmeras composições reveladoras das vozes femininas presentes na poética de Chico Buarque de Holanda, possibilitam ao leitor cotejar as marcas das identidades

femininas em voga nos anos 1970. No decorrer da ditadura militar no Brasil, entre práticas repressoras e manifestações de violência que pretendiam silenciar outras vozes, per manece latente o brado de contestação, o desejo de superação e de reconhecimento dos atores sociais, alijados das narrativas o? ciais. (Nolasco,2010,p2) 07_Samba de Orly Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Toquinho I 02:40

“Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe/Bebeu e soluçou como se fosse um náufrag o/Dançou e gargalhou como se ouvisse música/E tropeçou no céu como se fosse um bêbado/E flutuou no ar como se fosse um pássaro/E se acabou no chão feito um pacote flácido/Agonizou no meio do passeio público/Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. Considerada uma das obras primas de Chico Buarque é a canção que da título ao disco. Trata-se de uma crítica ao sistema capitalista, já que o país vivia o chamado “milagre econômico”, registrando altas taxas de desenvolvimento, e quem impulsionava tão crescimento era do setor de serviços no qual está incluso a construção civil.Na canção o compositor denuncia o descaso das empresas com trabalhador. No início da década de 70


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discografia

08_Valsinha

09_Minha História

10_ Acalanto

Chico Buarque e Vinícius de Moraes I 02:00

Dalla, Palotino – Versão de Chico Buarque I 02:00

Chico Buarque de Holanda I 01:38

“Um dia ele chegou/Tão diferente do seu jeito/De sempre chegar/Olhou-a de um jeito/Muito mais quente/Do que sempre/Costumava olhar” De um lirismo não nostálgico que muito atribuem a Vinícius co-autor da música, que narra as aventura de dois amantes que vivem um romance sublime que estão preocupado apenas com o momento. O “próprio título da canção “Valsinha”, de Vinícius de Moraes e Chico Buarque de Holanda, faz uma alusão e analogia da performance e desempenho na dança, com a do próprio ato amoroso, denotando todo um erotismo. Destarte, logo no início da canção, os autores empregam a fórmula “um dia um casal muda a sua rotina e toma outro rumo na vida, preconizando o amor e sua vivência,sem qualquer tipo de censura, preconceito e discriminação, nem julgamentos e sentenças de condenação às ações da prática do sexo”.(Lessa, 2012, p 64)

“Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar/Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar/Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente/E minha mãe se entregou a esse homem perdidamente/Ele assim como veio partiu não se sabe pra onde” Versão feita por Chico da música italiana Gesùbambino de Dalla e Palottino, inicialmente ele queria batizar a canção de menino Jesus, porém por pressão da igreja católica que achava a música ofensiva a censura vetou o título. Mas nem por isso a canção deixou de ser uma das mais belas versões feitas na história da MPB no Brasil.

Ficha Técnica Construção _ 1971 Direção de Produção: Roberto Menescal Direção de Estúdio: Roberto Menescal Técnicos de gravação: Toninho e Mazola Estúdio: Phonogram Direção Musical: Magro Participação especial: Tom Jobim, Paulinho Jobim e MPB4 Foto: Carlos Leonam Capa: Aldo Luz

“Dorme minha pequena/Não vale a pena despertar/Eu vou sair/Por aí afora/Atrás da aurora/Mais serena” Uma canção de ninar que poderia soar inofensiva se fosse composta em um dos períodos mais negros da história do país. “O álbum poderia ter sido encerrado aqui, mas há espaço para encerrá-lo com os versos de ninar de “Acalanto”. Chico tinha se tornado pai recentemente, sua filha Silvia Buarque nascera durante o exílio na Itália. É natural que às sombras da perseguição reflitam nesta pequena canção”. Jeocaz Lee-Meddi.


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biz

Tijolinhos Coloridos Maria Aparecida Pinto

E

o mosaico de tijolinhos coloridos apontava para um amanhã não muito distante. Enquanto o sol retirava-se a francesa, ficávamos todos nós a espera de um belo temporal. Pois, belo é todo temporal que lava as rochas e faz brilhar os muros da inocência outra. Pois, belo é todo o homem que sai ás ruas pela manhã em função de seu trabalho e volta ao lar ao cair da tarde a cumprimentar os outros transeuntes moribundos ou não. O belo é a rotina de quebrar a rotina por meio de gestos insurgentes. É dizer tudo no silêncio da madrugada para que amanheça escrito e publicado. (Mesmo que seja “mentira”!). Em tons de um desalento eterno que corre nas vielas e nas esquinas - e permanece nas veias e nos varais - segue-se a vida. Linhas de luz que insistentemente discursam com o sol em línguas de panos poliglotas de diversificadas cores são as diplomatas desta pátria. Tons de polissemia, dissonância e esperança confluem em indiferença agridoce pelos céus não mais azuis ou estrelados. Esta apatia do cheiro de roupa limpa acalenta o direito a roupas limpas, como o direito à tela limpa. Em branco. Em coro... Em nação seguem os sorrisos para a tela branca de um muro, para o lençol branco do terreiro em marcha bélica, mas poética. Levam a lança e a marmita. De gravata e terno levam a folha de ponto e a navalha. La (e) vam um hoje, resultado de lutas antigas, para que o combate tenha continuidade amanhã. Todos sabem, mas o que no dia seguinte os jornais vão dizer não é o que as canções vão contar. Tudo isto em um SOS cotidiano que reclama atitudes de máquinas em tempo de frio e pouco óleo. - Voltou-se, então, o homem de sobretudo

preto para uma multidão na rua e ... _ E...Nada, Maria (Interrompe bruscamente a mãe). Nada de mexericos de vias públicas aqui dentro de casa. O caos é lá fora. Volte-se, sim! Mas para os seus estudos de Latim. Sabe que depois de amanhã há arguições. E a menina ressentida, porém, não magoada caminha para o quarto de estudos a cantarolar a música da rua. Calada não ficaria. O Latim já era sabido para a arguição e para a vida, mas o sentimento sangrava e precisa ser expurgado agora para que resultasse em conhecimento. O sonho desta noite foi com as massas, as que partiram voando, as que correm em bando, as que se concentram em um sujeito só e mesmo aquelas transformadas nos pardais dos fios da rede elétrica, que lembram a saída da fábrica. No amanhecer, eram os mesmos tijolinhos coloridos e banhados de chuva que aguardavam os suspiros e as imaginações da jovem no parapeito. Pois, o muro pode ser também estante de pensamentos e de vida. Cada cor e cada tom. Cada tijolinho. Não é permito levá-los, mesmo aqueles que sonham com o “ao longe”, com os campos que recobram as cores apag adas. Pois, aoretirarem-se os tijolinhos, cai o muro e com este o discurso. Então, mantém-se a primorosa dança improvisada dos dias após dias que conserva o ar e a promessa de um amanhã diferente. É esta expectativa que faz o sangue fluir deixando as telas brancas, os varais alvejados e os muros limpos. Limpos para novas (sempre novas) verdades que cheiram a talco de bebê. A esperança condensou-se nos lajedos e exala em doses moderadas ao longo do tempo. É raro, mas acontece que algum tijolo desfaz-se no ciclo da vida e, neste

processo, todos da vila podem contemplar a terra vermelha que o constituía. Uma terra que caída ali pode significar e existir por tingir os muros, os varais e as mãos das crianças que chegam em casa com as roupas pintadas e as faces enrubescidas. Falando incansavelmente do vermelho inconfundível presente em suas mãos, da comoção de tio Haja e da dor da prima de terceiro grau Paz. Assim como, do choro da velha senhora estrangeira e única remanescente da família dos Freedom. Falariam por dias mesmo diante da insistência dos pais e tutores, que informam, entre sussurros, sobreo perigo dos olhos das paredes, dos ouvidos das esquinas. Falariam e espalhariam a nova. Diz-se que se trata de uma nova. A cor do tijolinho estaria com eles por toda a vida. A música das ruas também. E as inquietações em torno da terra, que fundamenta as suas divagações, construiriam ninhos em seus olhares de crianças pequenas que ainda precisam aprender Latim em uma época em que apenas a saída à francesa foi apropriada. Mesmo sem flâmulas, a cantoria dos pequenos apontava para os tijolinhos de um amanhã que parece distante por não haver uma brisa. E mesmo assim tremulavam as folhas caídas próximas ao muro.



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