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DAIANE CRISTINA CEZÁRIO (RA 908205005)

TROPA DE ELITE 2: MITO FRANKFURTIANO OU ESCLARECIMENTO? PESQUISA DE RECEPÇÃO COM ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS

UNIVERSIDADE NOVE DE JULHO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL – JORNALISMO SÃO PAULO, 2012


DAIANE CRISTINA CEZÁRIO (RA 908205005)

TROPA DE ELITE 2: MITO FRANKFURTIANO OU ESCLARECIMENTO? PESQUISA DE RECEPÇÃO COM ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Nove de Julho (Uninove) como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, sob a orientação do Prof. Ms. Welton Danner Trindade.

UNIVERSIDADE NOVE DE JULHO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL – JORNALISMO SÃO PAULO, 2012


Cezário, D. C. Tropa de Elite 2 – Esclarecimento ou Mito/ Daiane Cristina Cezário. São Paulo: 2012. 50 p. Monografia apresentada ao curso de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo da Universidade Nove de Julho – UNINOVE.

Orientador: Welton Danner Trindade

1. Teoria Crítica. 2. Alienação. 3. Indústria Cultural. 4. Estudos Culturais. 5. Resistência. 6. Tropa de Elite 2. 7. Pesquisa de Recepção. 8. Audiência.


Dedico este trabalho a todos que acreditam na ética e no compromisso com a verdade, pois apenas ela é capaz de conduzir os indivíduos à emancipação.


AGRADECIMENTOS

Agradeço a todas as escolhas que me fizeram chegar a este ponto. Agradeço a Débora Rocha pela parceria e contribuição intelectual, assim como a Welton Danner Trindade, pelo direcionamento e pelas correções, sem as quais minha formação não seria tão digna. Agradeço ao amigo/irmão Thiago Carlos dos Santos pelos quatro anos de dedicação mútua e companheirismo e àqueles brilhantes professores com quem tive o prazer de estudar. Um agradecimento envergonhado à Márcia Dias, pelas incontáveis vezes em que me auxiliou com esta pesquisa. Um agradecimento especial a essa força maior que nos dá condições de realizar feitos incríveis.


Leia, todo dia, algo que ninguém está lendo. Pense, todo dia, algo que ninguém está pensando. Faça, todo dia, algo que ninguém seria tolo o suficiente para fazer. É ruim para a mente sempre fazer parte da unanimidade. Christopher Morley


RESUMO A pesquisa levanta o debate acerca das potencialidades do filme “Tropa de Elite 2” para aquisição e desenvolvimento da razão questionadora dos espectadores. Este estudo ocupa-se em examinar tanto as possíveis características de alienação, inerentes aos produtos da indústria cultural, quanto sua contribuição à emancipação dos indivíduos que tiveram contato com a obra cinematográfica. Utiliza-se o método qualitativo, a partir da leitura de bibliografia especializada em Teoria Crítica, Estudos Culturais e linguagem cinematográfica, bem como a análise do filme. A análise quantitativa dá-se por meio de pesquisa de recepção aplicada em estudantes universitários dos cursos de Comunicação Social – Jornalismo e Publicidade e Propaganda, que comprova a contribuição do longa-metragem para o processo de aquisição e desenvolvimento da emancipação do indivíduo.

Palavras-chave: Teoria Crítica. Alienação. Indústria Cultural. Estudos Culturais. Resistência. Tropa de Elite 2. Pesquisa de Recepção e Audiência.


LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Aspectos que mais chamam atenção no filme ....................................................... 38 Gráfico 2 – O filme é o retrato de uma realidade brasileira? ................................................... 39 Gráfico 3 – O filme alterou seu nível de interesse sobre questões como corrupção? .............. 40 Gráfico 4 – A primeira vez em que ouviu o termo milícia. ...................................................... 41 Gráfico 5 – A contribuição do filme para o entendimento sobre milícias ................................ 42 Gráfico 6 – A crença na polícia antes de assistir ao filme ........................................................ 43 Gráfico 7 – A visão em relação aos políticos depois de assistir ao filme................................. 44


SUMÁRIO INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 11 1 INTRODUÇÃO À TEORIA CRÍTICA ............................................................................ 13 1.1 Fundamentos da Teoria Crítica ...................................................................................... 15 1.2 O mito e a regressão do pensamento ............................................................................. 16 1.3 A indústria cultural e a alienação ................................................................................... 19 2 SOBRE OS ESTUDOS CULTURAIS ............................................................................... 23 2.1 A questão Multicultural ................................................................................................. 26 2.2 A lógica da Resistência .................................................................................................. 28 3 ANÁLISE DO DISCURSO: O FILME TROPA DE ELITE 2 ....................................... 32 3.1 O Início .......................................................................................................................... 33 3.2 O Meio ........................................................................................................................... 34 3.3 O Fim ............................................................................................................................. 35 3.4 A Pesquisa de Recepção ................................................................................................ 37 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 45 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................. 48 APÊNDICE A – FORMULÁRIO: PESQUISA DE RECEPÇÃO ..................................... 49


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INTRODUÇÃO O século XXI vive a onipresença da indústria cultural. A informação tornou-se mercadoria e todas as produções devem atender uma demanda para então gerar lucro. O crescimento das plataformas digitais alterou a maneira dos indivíduos se relacionarem com o mundo, tornando tudo mais rápido, por decorrência, mais segmentado. A sociedade, em busca de refúgio da loucura do mundo moderno, encontra nos produtos de entretenimento uma alternativa para esvaziar as tensões cotidianas. Contudo, é correto afirmar que os produtos culturais conduzem os indivíduos à alienação? Vive-se o apocalipse instaurado pela visão dos teóricos críticos ao cunharem o conceito de indústria cultural, que massifica e homogeneíza a razão dos seres sociais? Em busca destas respostas nasce a presente pesquisa. Pretende-se, por meio do estudo do filme “Tropa de Elite 2”, comprovar ou não a contribuição deste produto da indústria cultural para o desenvolvimento da razão questionadora dos espectadores, isto é, o objetivo geral do estudo consiste na verificação das potencialidades da citada obra cinematográfica, considerando tanto seu poder de alienação quanto seu possível caráter de esclarecimento, favorecendo a aquisição de repertório crítico por parte do indivíduos que tiveram contato com o produto ou conduzindo-os ao processo de massificação. Esta pesquisa se atém à capacidade que a experiência audiovisual, proporcionada pelo cinema e seus apelos sensoriais, pode exercer sobre a difusão da informação, especialmente em se tratando deste exemplo do cinema, cujo roteiro é ancorado pelo recorde reflexivo da realidade histórica/social de determinado grupo e/ ou sociedade. Diante deste fato, levantou-se a seguinte hipótese: a atmosfera lúdica criada pelo cinema envolve o espectador na trama, fazendo com que a receptividade e compreensão sobre temas velados, tais como corrupção e formação de milícias, tornem-se mais eficientes do que em meios tradicionais de comunicação, inclusive pelo uso de linguagem próxima à da massa, preenchendo de significado signos pouco desenvolvidos nos textos jornalísticos. Isto é, ao ser inserido no universo do filme, o indivíduo passa a “vivenciar” – pois o apelo da imagem o aproxima da representação da realidade exposta no filme -, situações que, em muitos casos, são distantes do seu cotidiano. Portanto, o filme “Tropa de Elite 2” oferece contribuição ao processo de desenvolvimento ao criação da razão crítica da sociedade ao expor, com certo


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grau de realismo, fatos sociais que são negligenciados ou editados nos meios tradicionais de comunicação. Quanto aos objetivos específicos, busca-se investigar: o que é esclarecimento e, principalmente, a regressão do pensamento, bem como o sentido de alienação. Significação e origem do termo indústria cultural. As contribuições dos produtos culturais para a emancipação dos indivíduos. O discurso do filme “Tropa de Elite 2”. O desenvolvimento deste Trabalho de Conclusão de Curso parte de uma pesquisa exploratória, envolvendo leitura de textos sobre Teoria Crítica, Estudos Culturais, linguagem cinematográfica e o estudo sobre a própria obra cinematográfica, assim como pesquisa de recepção junto aos estudantes universitários do primeiro e segundo semestre dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Para adentrarmos no universo desta pesquisa é imprescindível a compreensão sobre a contribuição tanto da Escola de Frankfurt quanto dos Estudos Culturais para a abertura do debate acerca dos produtos da indústria cultural. Deste modo, o trabalho se divide em quatro capítulos, além das partes pré e pós-textuais de praxe: O capítulo 1 apresenta os fundamentos da Teoria Crítica e sua visão apocalíptica sobre os produtos da indústria cultural. O capítulo 2 aborda os Estudos Culturais como ferramenta de resistência contra o domínio das ideologias dominantes e, sobretudo, do Sistema, que se articula em benefício próprio, massificando e alienando os indivíduos. O foco do capítulo 3 é a análise sobre o discurso do filme “Tropa de Elite 2”, bem como a exposição dos resultados da pesquisa de recepção. O capítulo 4 exibe reflexões finais a respeito do objeto da pesquisa, com possíveis respostas às indagações deste estudo.


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1 INTRODUÇÃO À TEORIA CRÍTICA Antes de um aprofundamento quanto às definições da chamada Teoria Crítica, é indispensável, num primeiro exame, destacar o contexto histórico que possibilitou não apenas a criação, mas também o caráter contemporâneo da Escola de Frankfurt e dos trabalhos teóricos lá formulados. A expressão “Escola de Frankfurt”, informalmente, tornou-se usual para descrever os pensadores associados ao Institut füer Sozialforschung (Instituto para Pesquisa Social), fundado por Felix Weil em 1923, um anexo da Universidade de Frankfurt. Apesar do vínculo com uma das maiores academias da Alemanha, o instituto preservava a autonomia financeira e acadêmica. Cabe destacar que a primeira geração de cientistas sociais do instituto foi composta por um grupo de intelectuais alemães de esquerda: Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse, Friedrich Pollock, Erich Fromm, Otto Kirchheimer, Leo Löwenthal e Walter Benjamin. Sob a direção de Carl Gruenberg, historiador e marxólogo de Viena, a Escola editou a revista Archiv fuer die Geschinchte dês Sozialismus und der Arbeiterbewegung (Arquivo da História do Socialismo e Movimento Operário), voltada para a história do socialismo e movimento operário. Contudo, o propósito da edição era exclusivamente documental, descrevendo, por meio da orientação marxista, as mudanças estruturais na organização do sistema capitalista. (FREITAG, 2004, passim) Apenas em 1930, com a nomeação de Max Horkheimer – filósofo, sociólogo e judeu de origem - para a direção, o Instituto reestrutura as diretrizes de pesquisa, passando a analisar os motivos pelos quais a classe operária não assumia seu “destino histórico” de revolucionar a ordem estabelecida pelo capitalismo. A mudança também foi expressa na criação de um novo periódico, o Zeitschrift fuer Sozialforchung (Revista de Pesquisa Social), cujo primeiro número foi lançado em 1932 e o último em 1941. Barbara Freitag (2004, p. 11) descreve: “O Instituto passou a assumir feições de um verdadeiro centro de pesquisas, preocupado com uma análise crítica dos problemas do capitalismo moderno que privilegiava claramente a superestrutura”. Em 1931, Horkheimer decidiu descentralizar as produções do Instituto, criando filiais em Genebra, Londres e Paris. O progresso do movimento nazista e o crescimento do antissemitismo pressionaram o diretor a transferir a redação da revista para a capital francesa.


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Em 1933, o governo do Terceiro Reich decreta o fechamento do Instituto de Frankfurt, bem como confisca o prédio e os 60 mil volumes de livros da biblioteca, alegando que a Escola desempenhava atividades hostis ao Estado. No período de emigração (1933-1950) a Escola se vincula à Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. As produções dessa época se refletem em uma série de artigos publicados na revista, que foram essenciais para a origem da Teoria Crítica. Nos anos 1947, Horkheimer e Theodor Adorno - filósofo, psicólogo, sociólogo e musicista - elaboraram uma coletânea de ensaios denominada: Dialética do Esclarecimento. Conceito que é retomado com maior profundidade no decorrer deste trabalho. As obras da fase de emigração sofreram o impacto provocado por meio do contato dos intelectuais europeus com a cultura norte-americana pós-Revolução Industrial, cuja lógica de mercado baseava-se no capitalismo industrial, considerada a máxima expressão do capitalismo e da democracia de massa em função do que Walter Benjamin – teórico da Escola de Frankfurt, cuja orientação era menos apocalíptica em relação à industrial cultural – tratou de nomear como a “era da reprodutibilidade técnica”. A capacidade de reprodução em série, possibilitada pelas tecnologias industriais, trouxe mudanças para a dinâmica cultural norteamericana, que em função do contato com o ritmo de produção seriado tornou-se uma massa homogeneizada. Os teóricos frankfurtianos, preocupados com essa tendência, passaram a examinar em seus ensaios os aspectos negativos à cultura e emancipação do indivíduo característicos deste novo paradigma de produção. Horkheimer procura salvar a reflexão filosófica dialética face a uma crescente tendência positivista e empirista nas ciências sociais. Com seu ensaio “A teoria crítica e teoria tradicional” (1937) lança os fundamentos da teoria crítica da Escola de Frankfurt. Adorno, nessa época, se concentra na fundamentação de uma sociologia marxista da música, analisando a “regressão da capacidade auditiva dos ouvintes”, o jazz e outras manifestações musicais da moderna sociedade de consumo como os “musicais” do teatro e do cinema, a produção em massa de discos e as emissões radiofônicas. (FREITAG, 2004, p. 18) Em 1946, Horkheimer recebe o convite da municipalidade de Frankfurt para retornar à Alemanha com os estudiosos que o quisessem acompanhar. O retorno efetivo do Instituto à velha sede ocorreu apenas em 1950.


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1.1 Fundamentos da Teoria Crítica No ano de 1937, Max Horkheimer, então diretor de Instituto, publica um artigo nomeado Traditionelle und Kritische Theorie (Teoria Tradicional e Teoria Crítica). O texto marca o início de uma série de discussões que resultariam na formulação da Teoria Crítica da Sociedade. Numa tentativa de simplificação deste conceito tão amplo, entende-se Teoria Crítica como a orientação teórica que propõe o exame crítico sobre as verdades estabelecidas, ou seja, a razão instrumental – a operacionalização dos processos racionais, cuja manutenção se dá por meio de ideologias e mitos incutidos na sociedade ocidental (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, passim). Verifica-se na razão instrumental uma forte tendência à manipulação e alienação dos indivíduos, cegando-lhes a visão crítica e, consequentemente, inviabilizando sua emancipação. Horkheimer detalha a denúncia sobre a Teoria Tradicional: Em meu ensaio ‘Teoria Tradicional e Teoria Crítica’, apontei a diferença entre dois métodos gnosiológicos. Um foi fundamentado no Discours de la Méthode (Discurso sobre o Método), cujo jubileu de publicação se comemorou neste ano, e o outro, na crítica da economia política. A teoria em sentido tradicional, cartesiano, como a que se encontra em vigor em todas as ciências especializadas, organiza a experiência à base da formulação de questões que surgem em conexão com a reprodução da vida dentro da sociedade atual. Os sistemas das disciplinas contêm os conhecimentos de tal forma que, sob circunstâncias dadas, são aplicáveis ao maior número possível de ocasiões. A gênese social dos problemas, as situações reais nas quais a ciência é empregada e os fins perseguidos em sua aplicação, são por ela mesma consideradas exteriores. – A teoria crítica da sociedade, ao contrário, tem como objeto os homens como produtores de todas as suas formas históricas de vida. As situações efetivas, nas quais a ciência se baseia, não são para ela uma coisa dada, cujo único problema estaria na mera constatação e previsão segundo as leis da probabilidade. O que é dado não depende apenas da natureza, mas também do poder do homem sobre ele. Os objetos e a espécie de percepção, a formulação de questões e o sentido da resposta dão provas da atividade humana e do grau de seu poder. (HORKHEIMER,1985, p. 163)

A Teoria Crítica pode ser alicerçada em três pilares: a) o diagnóstico do tempo presente; b) orientação para a emancipação; e c) comportamento crítico. Para isso, confronta a ciência e a cultura, que, na visão frankfurtiana, são os mecanismos que permitem a constante reprodução das ações de dominação social. A base do pensamento crítico está em fornecer subsídios para a emancipação da classe operária, que no auge do esclarecimento, se rebelaria contra as ideologias dominantes. Como não poderia deixar de ser, os pensadores dessa vertente teórica analisam a economia de mercado que, de forma onipresente, media as relações dos indivíduos em sociedade. A cultura exerce fundamentalmente duas funções: alienadora e emancipadora.


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A função alienadora é estabelecida pelo grupo dominante na hierarquia da sociedade. Sinteticamente, ela, a cultura usada pela burguesia, serve para controlar a razão crítica dos indivíduos, impedindo-os de identificar os sistemas de manipulação desenvolvidos no capitalismo e aprimorados com a Revolução Industrial. Cabe destacar que são os próprios sujeitos sociais que viabilizam a manutenção desse domínio. As produções culturais, por sua vez, dependem do sujeito, tanto para sua fabricação quanto para o consumo. O Estado não conseguiria, por meio dos produtos culturais, gerir a autoridade sem a participação inconsciente dos indivíduos, delineando uma relação de dupla dependência das partes. A função emancipadora da cultura é justamente o que se propõe no manifesto da Teoria Crítica. Nela, o esclarecimento se espalharia entre a massa que, reconhecendo e criticando as formas de dominação, se rebelaria contra o sistema, garantindo assim a autonomia dos membros da classe operária. Essa função, com base nos pressupostos frankfurtianos, só passaria a existir a partir do rompimento das estruturas atuais da sociedade, ou seja, sem a intervenção dos veículos de manipulação controlados pelo Estado. O conceito teórico não tradicional se coloca como o desejo da verdade em seu sentido mais amplo, recusando o Absolutismo – teoria política que defendia a centralização do poder ilimitado nas mãos de um representante da monarquia. Essa recusa delineia ainda mais a aspiração de Horkheimer e Adorno pela autonomia do ser social, esclarecido e sem dependência governamental. O Absolutismo configura-se como uma forma diferente de hierarquia social, que, no entanto, continua contribuindo para a subordinação do indivíduo. A Teoria Crítica prega o empenho constante em evitar as falsas sínteses sobre os recorrentes questionamentos, em desconfiar de toda e qualquer solução definitiva para as crises sociais e, principalmente, em rejeitar a visão e prática homogeneizante da sociedade, desconsiderando a individualidade dos membros sociais em detrimento do lucro resultante da produção seriada. (FREITAG, 2004) 1.2 O mito e a regressão do pensamento O que nos propuséramos era, de fato, nada menos do que descobrir por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está em uma nova espécie de barbárie. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p.11)

Com a presença da civilização científica e tendo se concretizado o triunfo do pensamento esclarecido, entendido em a Dialética do Esclarecimento como tendência


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Iluminista da razão, isto é, o pensamento livre de mitos, acreditava-se que a sociedade entraria em uma idade de ouro, rompendo o laço da barbárie inerente à vida natural. No entanto, para Adorno e Horkheimer, o Iluminismo mostrou-se fracassado frente à sociedade atual, cuja dinâmica acabou por reconfigurar a razão iluminista, regredindo o pensamento crítico e autônomo em razão única. Essa razão serve à sociedade para regular e conservar a vida em grupo, oprimindo o indivíduo em função da coletividade, dando origem ao pensamento massificado. Em resposta à racionalização do mundo, encontra-se a meta do esclarecimento, que classifica o mito como elemento vigente na sociedade, incutido pela classe dominante, capaz de doutrinar o pensamento e as ações do homem. O mito nasceu da necessidade de explicar a origem dos elementos naturais e dos fatos, fixando nos indivíduos sociais a lógica da vida natural. Instituindo as normas vigentes na sociedade. Qualquer discurso mitológico exacerba não apenas os códigos sociais, mas potencialmente estabelece as punições quando a ação social configura a quebra de um desses códigos. Na Grécia antiga, o princípio e o fim de todas as coisas eram explicados por meio das narrativas que legitimavam a supremacia dos Deuses do Olimpo. A não obediência poderia despertar a fúria de Zeus ou garantir a permanência no submundo de Hades – o governante do mundo dos mortos. O mito é uma ideologia de dominação, pois ao não ser questionado torna-se uma tradição incorporada no seio de determinada sociedade. A tradição – ou pensamento mítico – revela impedimentos para que o indivíduo desenvolva o entendimento e se aproxime da verdade. Tais empecilhos podem ser traduzidos em: credulidade, sensação de conhecimento da verdade, saberes parciais e, principalmente aversão à razão questionadora. Apenas venceria tais barreiras o homem esclarecido que, desencantado do mundo e de si mesmo, seria capas de transformar seu conhecimento em técnicas para vencer o medo e atingir a posição de senhor da sua própria razão. “Diante do Esclarecimento, os conceitos estão na mesma situação que os aposentados diante dos trustes industriais: ninguém pode sentir-se seguro”. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 31) Os teóricos avançam em sua crítica ao Iluminismo destacando as nuances da reificação do pensamento, ou seja, o pensamento transformado em coisa, passando a apresentar características de algo fixo, passivo e automático. Na concepção kantiana, da obra Crítica da Razão Pura, há uma substancial diferença entre o saber e a razão. O primeiro se restringe aos limites do (re)conhecimento, ao passo que o segundo é a transgressão do conhecimento científico, pois supera os limites das condições tradicionalmente estabelecidas.


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Para Adorno e Horkheimer, o esclarecimento é o questionamento do próprio pensamento crítico, a razão elevada à sua última potência e desvinculada de qualquer consciência mítica. Razão esta que aparece com o manifesto iluminista, mas que, para os citados autores, fracassa frente à sociedade moderna. O pensamento regride à medida que se torna ideologia, um grupo de mitos reunidos, cuja finalidade é coordenar o ser social. Nos ensaios da Dialética do Esclarecimento, vê-se certa inclinação ao pessimismo no que compreende o papel da razão na educação do homem e da reorganização social. O sistema é tão bem arquitetado que a própria razão faz parte dele. Superá-lo, configura-se como uma das mais difíceis tarefas da sociedade. Contudo, numa analogia à possibilidade de sobrevivência do esclarecimento, os pensadores de Frankfurt analisam uma das epopeias da Odisseia, na qual Ulisses renuncia a si mesmo para se conservar ante ao sistema: O caminho da civilização era o da obediência e do trabalho, sobre o qual a satisfação não brilha senão como mera aparência, como beleza destituída de poder. O pensamento de Ulisses, igualmente hostil à sua própria morte e à sua própria felicidade, sabe disso. Ele conhece apenas duas possibilidades de escapar. Uma é a que ele prescreve aos companheiros. Ele tapa os seus ouvidos com cera e obriga-os a remar com todas as forças de seus músculos. [...] A outra possibilidade é a escolhida pelo próprio Ulisses, o senhor de terras que faz os outros trabalharem para ele. Ele escuta, mas amarrado impotente ao mastro, e quanto maior se torna a sedução, tanto mais fortemente ele se deixa atar [...]. O que ele escuta não tem conseqüências para ele, a única coisa que consegue fazer é acenar com a cabeça para que o desatem; mas é tarde demais, os companheiros - que nada escutam - só sabem do perigo da canção, não de sua beleza – e o deixam no mastro para salvar a ele e a si mesmo. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 45)

Diante dos incontáveis estímulos de dominação, cabe ao indivíduo, e somente a ele, enquanto ser esclarecido, questionar o seu destino. Pois, a máxima do Estado é sempre a de regular a ordem. Qualquer alteração provocada na organização do sistema é encarada como ameaça aos mecanismos de manipulação, devendo ser impedida ainda em sua raiz. Adorno e Horkheimer concluem assim a visão apocalíptica no que tange à emancipação do homem, encontrando ainda margem para discussões quanto à presença da indústria cultural em todas as instâncias da interação do indivíduo com a sociedade, direcionando-o à massificação. Nos tempos de emigração do Instituto, os pensadores frankfurtianos observaram a sociedade moderna americana pontuando a onipresença da indústria cultural no processo de regressão do pensamento do indivíduo. Travestida de entretenimento, a indústria cultural incute na razão do ser social a sensação de escolha, iludindo-o a acreditar numa falsa


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autonomia em relação ao sistema. É justamente essa autonomia aparente que o mantém contido diante da barbárie contemporânea, evitando qualquer princípio de rebeldia. As conclusões pessimistas quanto ao esclarecimento baseiam-se na impossibilidade de competir com o sistema, sobretudo porque todas as coisas nele estão inseridas, fazendo com que nada fuja à regra. Sua falência dependeria da adesão progressiva de todos os seres sociais. Contudo, os indivíduos, esgotados pelo excesso de trabalho, estão cada vez mais interessados em aliviar o próprio destino por meio das promessas que são incutidas em seu imaginário pela Indústria Cultural. 1.3 A indústria cultural e a alienação Na opinião dos sociólogos, a perda do apoio que a religião objetiva fornecia a dissolução dos últimos resíduos pré-capitalistas, a diferenciação técnica e social e a extrema especialização levaram a um caos cultural. Ora, essa opinião encontra a cada dia um novo desmentido. Pois a cultura contemporânea confere a tudo um ar de semelhança. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 99)

A citação acima encontra-se na abertura do capítulo “A Indústria Cultural: o Esclarecimento como Mistificação das Massas em a Dialética do Esclarecimento”, de Adorno e Horkheimer. Nesta obra, de 1942, o termo Indústria Cultural é empregado pela primeira vez a fim de descrever a situação da arte na sociedade moderna e industrializada, cuja alteração resultou num impacto fundamental sobre a natureza da cultura e da ideologia nessas sociedades. A arte, antes caracterizada como objeto individualizado e único, a partir do século XIX expande-se por meio da possibilidade de reprodução ampliada desfigurando o sentido erudito outrora atribuído aos objetos artísticos. Ao ser tratada como objeto mercantil, a arte acaba por se sujeitar as leis de oferta e demanda do capitalismo, desencorajando o esforço pessoal pela busca de uma nova experiência estética que contribuísse à elevação da razão esclarecida, justamente pelo objetivo maior de atender a necessidade dos homens massificados e garantir o retorno capital. Para suprir essa carência, a Indústria Cultural idealiza os mais diversos produtos adaptados à massa, configurando uma relação cíclica, pois ao basear-se nas necessidades dos grupos massificados, a Indústria acaba por depender deles para se orientarem quanto às suas aspirações. Contudo, é justo destacar que, para a lógica da cultura industrializada, o indivíduo jamais será tido como um sujeito, mas sim como um objeto.


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Essa percepção dificilmente é incorporada à razão da massa, pois os estímulos introduzidos pelos produtos culturais são tão delicados que, de certo modo, passam despercebidos aos olhos desavisados. Tais estímulos são capazes de controlar a consciência dos homens, podendo ter função participativa na imposição de comportamento, reprodução de ideologias e, até mesmo, na orientação dos anseios de cada pessoa. “Hoje a maquinaria mutila os homens mesmo quando os alimenta”. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 42) Na visão dos pensadores de Frankfurt, a era da reprodutibilidade técnica, ou seja, a capacidade ampliada da arte, acaba por democratizar a cultura de forma negativa, tolhendo o juízo crítico da massa quanto ao que lhes é apresentando em formato de produto, porém com conteúdo ideológico e, na maioria das vezes, manipulador. O termo Indústria Cultural abarca a descrição do conjunto de meios de comunicação, tais como: cinema, rádio, televisão, jornais, revistas e até mesmo o livro, que integram o sistema capitalista. Esses meios, por serem mais acessíveis às massas, fornecem ao indivíduo a dupla função de entreter e persuadir, sem que necessariamente a segunda seja aparente. Por sua conexão com a razão mercadológica, os meios de comunicação não atribuem aos produtos culturais uma preocupação exata com o conteúdo, mas essencialmente com o registro estatístico de consumidores. O intuito dos bens culturais é distrair a massa e estimular o consumo, inserindo no imaginário a ilusão de mundo que não se aproxima da realidade espontaneamente percebida pela consciência. A representação do real é umas das mais potentes e eficazes ferramentas de manipulação. Por meio dela, a Indústria Cultural, especialmente o cinema, projeta nos seres massificados a sensação de autorreconhecimento frente ao que lhe é apresentado. A história do herói que consegue superar as desventuras da vida e, ao final, realiza seus sonhos é o cenário perfeito para que a massa se acostume com as misérias da própria vida, na esperança de, assim como o herói, materializar suas aspirações. O entretenimento promovido pela Indústria Cultural é um refrigério à massa cansada pelo excesso de trabalho que, não fosse tais mercadorias culturais, sucumbiria frente a qualquer outro apelo injetado pelo sistema capitalista. Os membros das classes massificadas, de certa maneira, corroboram as iniciativas desse sistema. Há uma relação de dependência de ambas as partes: a Indústria necessita de uma concordância entre as pessoas para legitimar sua existência, do mesmo modo que o indivíduo precisa sentir-se inserido em algum grupo, cuja ideologia se assemelhe com as suas ambições.


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Para concluir, na exigência de entretenimento e relaxamento, o fim absorveu o reino da falta de finalidade. Mas, na medida em que a pretensão de utilizar arte se torna total, começa a se delinear um deslocamento na estrutura econômica interna das mercadorias culturais. Pois a utilidade que os homens aguardam da obra de arte na sociedade antagonística é justamente, em larga medida, a existência do inútil, que, no entanto, é abolido pela subsunção à utilidade. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 130)

A dominação resulta meramente na alienação, as relações sociais foram enfeitiçadas, até mesmo a relação do indivíduo consigo mesmo. A industrialização coisificou o homem, que renega sua subjetividade em função do bem coletivo. A técnica passou a ser a nova estrutura ideológica. Os programas radiofônicos, os filmes, as revistas ilustram a mesma razão técnica, dinâmica semelhante às fabricas metalúrgicas, na qual cada setor de produção é padronizado conferindo a tudo um ar de semelhança. Desde o final do século XIX, a arte séria foi superada pela arte leve que não estimula a razão crítica, mas que preserva a homogeneização social. Sob o poder do monopólio, toda cultura de massas é idêntica, e seu esqueleto, a ossatura conceitual fabricada por aquele, começa a se delinear. Os dirigentes não estão mais sequer muito interessados em encobri-lo, seu poder fortalece quanto mais brutalmente ele se confessa de público. O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. A verdade de que não passam de um negócio, eles a utilizam como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que propositalmente produzem. Eles se definem a si mesmos como indústrias, e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores gerais suprimem toda dúvida quanto à necessidade social de seus produtos. (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 100)

Finalizando a compreensão acerca do manifesto da Teoria Crítica, pode-se considerar que os meios de comunicação, como mecanismos integrantes do sistema capitalista, nada podem fazer para resgatar a razão esclarecida das classes massificadas. Adorno e Horkheimer atestam que nada que seja proveniente do sistema pode conduzir o homem à sua completa autonomia, ou seja, todas as peças do sistema atendem única e exclusivamente ao interesse mercantil e manipulador. Nesse sentido, as produções culturais estão à mercê do Estado, impotentes no que diz respeito ao resgate da arte séria. A cultura resignou-se a obedecer aos ditames dos detentores do poder. A reprodutibilidade técnica fez dela um produto de consumo, cuja diferenciação está no número de série, perdendo sua identidade e seu caráter exclusivo. Na concepção dos estudiosos de Frankfurt, nada produzido pela Indústria é novo, todas as coisas são a cópia de algo anteriormente copiado. Pois a ideologia é natural de alguma tradição e as tradições para atingirem seu potencial dominador precisão se manter intactas.


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Os meios de comunicação caracterizam-se como os canais que reproduzem as ideologias dominantes nos mais variados campos e amplitudes. Sua eficiência não está no conteúdo discursivo, mas na forma atrativa com que penetra o imaginário dos indivíduos, mediando as relações sociais e a maneira com que a massa enxerga a realidade.


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2 SOBRE OS ESTUDOS CULTURAIS Retornar às bases da perspectiva teórica dos Estudos Culturais torna-se extremamente necessário para os posteriores avanços dessa pesquisa. Sendo o objeto de análise um produto cultural – a obra cinematográfica “Tropa de Elite 2” – é importante recorrer a essa orientação teórica para compreender a complexa relação entre o caráter mercadológico dos produtos culturais e sua possível finalidade de resistência quanto à manipulação exercida pelos membros das ideologias dominantes. A percepção dos Estudos Culturais enquanto campo organizado de conhecimento surge apenas em 1964 com a criação do Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS), fortemente vinculado à Universidade de Birmingham, na Inglaterra. Fundado por Richard Hoggart, o Centro tem como eixo principal de investigação as relações entre a cultura contemporânea e a sociedade, cujas formas e práticas culturais resultam em mudanças sociais. (ESCOSTEGUY, 2001) Destacam-se como fontes originais dos Estudos Culturais três textos que datam do final dos anos 50: The Uses of Literacy1 de Richard Hoggart (1957), Culture and Society2 de Raymond Williams (1958) e a contribuição de E. P. Thompsom com The Making of the English Working-class3 (1963). O primeiro é em parte autobiográfico e em parte história cultural do meio do século XX. O segundo constrói um histórico do conceito de cultura, culminando com a ideia de que a ‘cultura comum e ordinária’ pode ser vista como um modo de vida em condições de igualdade de existência com o mundo das Artes, Literatura e Música. E o terceiro reconstrói uma parte da história da sociedade inglesa de um ponto de vista particular – a história ‘dos de baixo’. (ESCOSTEGUY, 2001, p.152)

De 1968 a 1979, quanto Stuart Hall substitui Hoggart na direção do Centro, a orientação dos Estudos Culturais adquire uma nova dinâmica de estudo, cujo interesse passa a ser a busca por práticas de resistência que colocassem as subculturas em evidência. Apesar de não ser citado entre os membros fundadores, a importância da contribuição de Stuart Hall para a formação dos Estudos Culturais é completamente reconhecida, comprovando a necessidade de recorrer a seus ensaios para dialogar a questão das manifestações culturais e das brechas existentes no sistema de subordinação das minorias ante 1

R. Hoggart. As utilizações da cultura – aspectos da vida cultural da classe trabalhadora, vol. I e II. Lisboa: Editora Presença. 1973 [1957]. 2 R. Williams. Cultura e sociedade 1780-1950. São Paulo: Ed. Nacional, 1969 [1958]. 3 E. P. Thompson. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1987 [1963].


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a classe dominante, para assim resistir aos estímulos que objetivam a homogeneização da sociedade tornando-a massificada. Pode-se destacar que a singularidade dos Estudos Culturais está em sua visão otimista no que compreende as produções culturais, reconhecendo a participação ativa das classes de baixo na produção cultura ao invés de desempenharem apenas o papel de consumidores passivos. Escosteguy (2001, p. 156) cita Agger (1992, p. 89) para dizer que: O grupo do CCCS amplia o conceito de cultura para que sejam incluídos dois temas adicionais. Primeiro: a cultura não é uma entidade monolítica ou homogênea, mas, ao contrário, manifesta-se de maneira diferenciada em qualquer formação social ou época histórica. Segundo: a cultura não significa simplesmente sabedoria recebida ou experiência passiva, mas um grande número de intervenções ativas – expressas mais notavelmente através do discurso e da representação – que podem tanto mudar a história quanto transmitir o passado. Por acentuar a natureza diferenciada da cultura, a perspectiva dos estudos culturais britânicos pode relacionar a produção, distribuição e recepção culturais a práticas econômicas que estão, por sua vez, intimamente relacionadas à constituição do sentido cultural.

Por meio desta afirmação vê-se nos Estudos Culturais uma tendência em distanciar-se da lógica marxista para explicar as práticas culturais, ou seja, na visão dos CCCS as formas materiais e simbólicas que viabilizam a criação cultural estão condicionadas a seu determinado espaço social e econômico. Contudo, tais práticas não podem ser reduzidas à análise econômica. Os Estudos Culturais compreendem a cultura na sua independência relativa, isto é, as ações culturais sofrem o impacto das relações político-econômicas, mas não dependem dela para sua existência. Em qualquer sociedade haverá expressões culturais que se reformularam conforme as novas tendências, pois a cultura é também uma força determinante que influencia as relações político-econômicas. Segundo Hall (2011, p. 191): “Em nenhum momento os estudos culturais e o marxismo se encaixaram perfeitamente, em termos teóricos. [...] as coisas de que Marx não falava nem parecia compreender, que eram o nosso objeto privilegiado de estudo: cultura, ideologia, linguagem, o simbólico”. Para os pensadores do CCCS, Marx não compreendia a cultura enquanto manifestação ativa, e não passiva, na sociedade. Os Estudos Culturais propuseram a extensão do sentido de cultura “rompendo com o passado em que se identificava cultura apenas com artefatos” (ESCOSTEGUY, 2001). Os estudos do Centro passaram a observar as formas não-tradicionais de expressão cultural, conferindo legitimidade e reafirmando a cultura popular enquanto atividade crítica e de resistência. A Crítica sustentada pela investigação dos Estudos Culturais questiona a ideia de


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hierarquia – estabelecida por meio das oposições binárias entre cultura alta/baixa, superior/inferior e elitizada/popular – entre as distinta formas e práticas culturais, reconhecendo a complexidade e autonomia das manifestações culturais que possuem dinâmica e contexto social próprios, não atendendo à formatação cultural imposta pela elite dominante. É necessário evidenciar que a contribuição dos Estudos Culturais não se deu apenas no campo da análise cultural, mas, essencialmente, na área política, pois não há como separar a pesquisa cultural da realidade social que a integra. Mudar as estruturas sociais depende do deslocamento do poder, cuja eficácia se dará por meio da inserção das culturas minoritárias no centro. Liv Sovik (in HALL, 2011, p. 11) destaca o principal objetivo dos Estudos Culturais: Deixam clara sua ligação com o projeto de formular “estratégias culturais que fazem diferença e deslocam (Shift) as disposições de poder” (QN). Deslocamento, aliás, é a imagem que Hall faz da relação da cultura com estruturas sociais de poder; pode-se fazer pressões através de políticas culturais, em uma “guerra de posições”, mas a absorção dessas pressões pelas relações hegemônicas de poder faz com que a pressão resulte não em transformação, mas em deslocamento; da nova posição fazem-se novas pressões.

A teoria é uma tentativa de solucionar os problemas políticos da sociedade contemporânea, principalmente os que dizem respeito ao processo de dominação e massificação das culturas de “baixo”. Stuart Hall, no livro Da Diáspora – Identidades e Mediações Culturais, defende que a interação entre as formas e práticas culturas com os movimentos sociais pode garantir a legitimidade das manifestações culturais populares, isto é, para que a cultura das minorias se destaque na sociedade é preciso que os grupos sociais marginalizados se organizem politicamente, pois apenas enquanto força organizada que pleiteia seus direito, as práticas culturais da margem terão espaço. “Defende a hibridização ou impureza cultural enquanto a forma em que o novo entra no mundo”. (HALL, 2011, p. 19) No início dos anos 70, os membros do CCCS passam a se preocupar com a temática da recepção e com a densidade dos consumos mediáticos, ou seja, depois de superado o período de análises dos conteúdos transmitidos pelos meios massivos, surge a necessidade de estender a investigação cultural aos estudos de audiência, com o objetivo de entender as posições do receptor frente aos discursos ideológicos veiculados pelos meios de comunicação de massa.


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Os estudos de recepção, na década de 80, concluem uma intensa mudança na interação mídia/receptor, isto é, “uma clara mudança de interesse do que está acontecendo na tela para o que está na frente dele, ou seja, do texto para a audiência”. (ESCOSTEGUY, 2001, p. 161) O receptor de alguma maneira tem influência sobre os discursos dos meios de comunicação, pois a não-decodificação das mensagens mediáticas pode acarretar em perda de audiência, o que por sua vez coopera com a percepção de que a hegemonia das manifestações culturais populares deve ser respeitada em suas particularidades para que o processo de codificação/decodificação seja eficiente. 2.1 A questão Multicultural Entender a hibridização da cultura, estimulada pela diáspora pós-colonial, é uma parte importante para a posterior discussão sobre as possíveis estratégias de resistência cultural frente à tentativa de homogeneização social. Stuart Hall, que migrou da Jamaica para a Inglaterra, observou na questão multicultural um amplo e ainda obscuro campo de estudo que pode desestruturar atual hierarquia cultural. Primeiro é preciso estabelecer a diferença significativa entre multicultural e multiculturalismo: Multicultural é um termo qualificativo. Descreve as características sociais e os problemas de governabilidade apresentados por qualquer sociedade na qual diferentes comunidades culturais convivem e tentam construir uma vida em comum, ao mesmo tempo em que retêm algo de sua identidade “original”. Em contrapartida, o termo “multiculturalismo” é substantivo. Refere-se às estratégias e políticas adotadas para governar problemas de diversidade e multiplicidade gerados pelas sociedades multiculturais. (HALL, 2011, p. 50)

Por definição, a maioria das sociedades são multiculturais, possuindo evidentemente algo que as conecte enquanto nação. Os processos de colonização tornaram os países “construídos” heterogêneos culturalmente, pois o contato com uma nova cultura não esvazia a original, mas dá origem à cultura hibrida, o que contraria a ideia introduzida pelo Estadonação moderno, na qual o Estado se pretendia homogêneo, baseado em valores universais. O ismo multicultural nada mais é do que as estratégias desenvolvidas pelo Estado para solucionar os conflitos suscitados pela existência de camadas sociais distintas dentro de uma nação comum. Por se tratar de inúmeros problemas, ainda não resolvidos, o multiculturalismo não pode ser entendido como uma única doutrina, pois “não caracteriza uma estratégia política e não representa um estado de coisas já alcançado”. (HALL, 2011, p. 52-53)


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Pode-se explicitar entre os multiculturalismos seis exemplos: o conservador, liberal, pluralista, comercial, corporativo e o crítico. A estratégia conservadora entende que a minoria deve assimilar e praticar a cultura da maioria. O multiculturalismo liberal, na definição de Hall (2011, p. 51), “busca integrar os diferentes grupos culturais o mais rápido possível ao mainstream, ou sociedade majoritária, baseado em uma cidadania individual universal, tolerando certas práticas culturais particularistas apenas no domínio privado.” O pluralista concede direitos individuais a cada grupo distinto culturalmente, ao passo que a estratégia comercial pressupõe que os problemas de diversidade cultural serão resolvidos se houver reconhecimento público das diferenças culturais dos grupos minoritário, inviabilizando a necessidade de redistribuição do poder e dos recursos. O multiculturalismo corporativo (público ou privado) apenas dirige as distinções culturais da minoria, pois seu objetivo é resguardar os interesses do centro acima das margens. Por fim, o crítico focaliza o poder, a inversão da hierarquia e os movimentos de resistência. Agora vê-se por que ainda não é possível falar em uma solução formatada para os problemas multiculturais, sobretudo por não haver como chegar a um consenso sobre qual multiculturalismo será mais eficiente. É pertinente observar que os desastres naturais, as guerras, a colonização, a repressão política e, frequentemente, o subdesenvolvimento são os principais estímulos para a migração, cujo resultado é a diversidade cultural e suas problemáticas. A globalização se configura como um fator que coopera com o deslocamento do conceito de identidade cultura. Os processos mercadológicos, atuantes numa escala global, ultrapassam os limites da fronteira nacional, estabelecendo interação com as mais variadas formas e práticas culturais, interconectando o mundo e desestabilizando a ideia de soberania nacional. Hall (2011, p. 56) afirma: Características dessa fase é a compressão do tempo-espaço (Harvey, 1989), que tenta – embora não consiga de forma completa – combinar tempos, espaços, histórias e mercados no centro de um cronotopo espaço-temporal ‘global’ homogêneo. É marcada ainda pelo desarraigamento irregular das relações sociais e por processos de destradicionalização (Giddens, 1999) que não se restringe às sociedades em desenvolvimento. Tanto quanto as sociedades da periferia, as sociedades ocidentais ao podem mais evitar esses efeitos.

Apesar de se pretender homogeneizando, por meio da tentativa de uniformizar e produzir resultados iguais em todo mundo, o sistema global continua sendo um sistema desigual, pois não consegui atingir em mesma medida as diferentes manifestações culturais. A globalização, estruturada em dominância, não consegue administrar de forma totalitária o


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interior de todas as sociedades, o que pode ser encarado como a brecha necessária para que as manifestações minoritárias resistam aos propósitos de massificação. “De fato, entre seus efeitos inesperados estão as formações subalternas e as tendências emergentes que escapam a seu controle, mas que ela tenta homogeneizar ou atrelar a seus propósitos mais amplos” (HALL, 2011, p. 57). Esse argumento é fundamental para consolidar a existência das falhas do sistema e articular as estratégias de resistência com êxito, aproximando a margem do centro, ainda que não em definitivo. A identidade cultural – que antes servia ao Estado-nação para oferecer aparência de unidade ao que era diverso, por meio de códigos comuns de língua, religião e etnia, dentre outros – deve ser repensada em sua contemporaneidade, sobretudo porque pensar o conceito de identidade cultural enquanto entidade estática já não é suficiente para descrever a sociedade do século XXI. Hoje é preciso reconhecer que as identidades hibridas ou locais são importantes para a existência e reformulação do sistema social. “Se tais sociedades não se desintegram totalmente não é porque elas são unificadas, mas porque seus diferentes elementos e identidades podem, sob certas circunstâncias, ser conjuntamente articulados. (HALL, 2011, p. 17) Não desconsidera-se as tensões existentes entre as distintas identidades culturais no interior das sociedades, no entanto, são essas mesmas tensões que viabilizaram a mudança da estrutura social “homogênea”, pois cada identidade cultural tentará, por meio de movimentos sociais organizados politicamente, garantir a legitimidade das manifestações culturais de seu grupo. A “luta” dos pólos culturais ambivalentes é o motor que conduzirá à possível mudança de paradigmas na sociedade, desmarginalizando as culturas periféricas. 2.2 A lógica da Resistência Verificado que as rupturas do sistema existem, cabe agora entender de que maneira as estratégias de resistência podem ser trabalhadas no âmbito cultural. Hall observa que até mesmo as metáforas utilizadas para exemplificar as possibilidades de transformação cultural se alteram com o passar dos anos, cedendo lugar sempre às novas metáforas, pois a mudança nunca deixa de ocorrer. As metáforas de transformação devem fazer pelo menos duas coisas. Elas permitem imaginar o que aconteceria se os valores culturais predominantes fossem questionados e transformados, se as velhas hierarquias sócias fossem derrubadas, se os velhos padrões e normas desaparecessem ou fossem consumidos em um “festival


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de revolução”, e novos significados e valores, novas configurações socioculturais, começassem a surgir. (HALL, 2011, p. 202)

Pensar a revolução cultural é também avaliar quais os novos paradigmas que estruturaram a sociedade, examinando o que cada mudança acarretará na dinâmica social e qual a maneira mais eficiente de se chegar à ela. Por esse motivo, Hall, comumente, observa a importância do elo entre as manifestações culturais de resistência com o engajamento político de cada identidade cultural, para que as questões dos grupos minoritários sejam colocadas na agenda social de forma a reafirmar o direito da sua individualidade. No que compreende a percepção marxista sobre a forma com que a sociedade é estruturada, percebe-se que as classes dominantes são aquelas cuja força material também é dominante. Nesse sentido, a transformação ocorreria quando a classe subalterna derrubasse a classe que detêm o poder material e ideológico, invertendo e substituindo a hierarquia social, porém, essa metáfora de transformação não é suficiente para sustentar as estratégias de reestruturação. “A teoria cultural já superou decisivamente simplificações dramáticas e inversões binárias como essas. A questão é: que metáforas alternativas temos para imaginar uma política cultural?”. (HALL, 2011, p. 206) Nesse momento o intuito consiste no esforço de entender o processo pelo qual o baixo perturba o alto, quando da suspensão e inversão temporária da ordem. Momento em que o alto se torna baixo e vice-versa, o mundo às avessas. (HALL, 2011, passim) Contudo, pode-se considerar que as manifestações culturais populares são agentes fundamentais para a construção das estratégias de inversão social, principalmente por possuírem um domínio e estética completamente alternativos, o que desperta a curiosidade das culturas tradicionais e homogêneas. O distanciamento, ideológico e geográfico, entre as diferentes manifestações culturais estimula as tensões entre os grupos, mas também cria o desejo, próprio do ser humano, de conhecer o diferente, ainda que isso não resulte em legitimação da identidade cultural. Em menção à contribuição intelectual de Mikhail Bakhtin, referência aos estudos sobre teoria literária, mas que possui fortes afinidades com os Estudos Culturais, especialmente por conduzir seus ensaios baseando-se no valor da cultura popular para os processos de transformação social, Hall afirma: Bakhtin utiliza o ‘carnaval’ para sinalizar todas essas formas, tropos e efeitos nos quais as categorias simbólicas de hierarquia e valor são invertidas. O ‘carnavalesco’ inclui a linguagem do mercado – imprecações, profanações, juramentos e coloquialismos que estorvam a ordem privilegiada da enunciação polida – os rituais,


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jogos e performances, nos quais as zonas genitais, os ‘estratos corpóreos materiais inferiores’ e tudo que lhes pertence são exaltados e as formas refinadas e formais de conduta e discurso, destronadas; formas festivais populares nas quais, por exemplo, o rei ou o senhor de escravos é deposto e o bobo ou o escravo ‘governa’ temporariamente; e outras ocasiões nas quais a imagem grotesca do corpo e de suas funções subverte os modelos de decência e os ideais clássicos. (HALL, 2011, p. 210)

O carnavalesco, no discurso de Bakhtin incorporado aos Estudos Culturais por Hall, é a representação de uma entre muitas formas populares de manifestação da cultura heterogênea, na qual os valores tradicionais perdem força frente à magnitude das novas práticas culturais. O carnaval, enquanto metáfora de transformação simbólica e cultural, não é a tomada de poder ou inversão completa e definitiva na estrutura social em que a cultura baixa assumiria o lugar na hierarquia social da alta cultura, mas configura-se como o momento em que as práticas culturais populares invadem e ofuscam as “formas refinadas e formais de conduta e discurso”, criando formatos híbridos de manifestação cultural, evidenciando a interdependência entre as categorias de alta e baixa cultura. A baixa cultura em sua forma contemporânea de representação não é o reflexo da alta cultura como fosse um agente passivo na sociedade, “mas outra figura, relacionada mas diferente, que tem assombrado e perseguido a metáfora paradigmática do baixo enquanto ‘local de desejos conflituosos e representações mutuamente incompatíveis’” (HALL, 2011). Isto é, o baixo, enquanto categoria cultural, ao mesmo tempo em que desperta a repugnância, manifesta pelos membros da alta cultura, cria na cultura de elite o desejo pelo desconhecido, ou seja, ainda que em seu discurso a elite repudie e não corrobore com as manifestações culturais populares há, como numa relação paradoxal, a curiosidade de entender o diferente. Hall (in STALLYBRASS; WHITE, 1986, p. 5) admite que a invasão e a “desordem” causada pela cultura popular na hierarquia social simbólica se darão muito mais por fatores de ordem psicológica, visto que o desejo pelo outro é algo inerente ao indivíduo, do que pelo reconhecimento por parte da classe alta do valor das práticas culturais populares: Continuamente nos deparamos com a surpreendente ambivalência das representações dos estratos inferiores (do corpo, da literatura, da sociedade, do lugar) em estes são ao mesmo tempo abominados e desejados. Repugnância e fascínio são os pólos gêmeos de um processo no qual o imperativo político de rejeitar e eliminar o “baixo” degradante se choca poderosa e imprevisívelmente contra o desejo pelo outro. (HALL, 2011, p. 212)

Aliás, na atualidade é impossível manter alta e baixa cultura cuidadosamente separadas em suas próprias categorias culturais. O que se vê, na verdade, é o relacionamento entre essas formas diferentes e/ ou opostas de práticas culturais, cada qual se atualizando ou


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refazendo conforme as necessidades impostas pelo contexto social seja ele político, econômico ou tecnológico. Cada cultura tem seu caráter autossuficiente, com desejos de revolução e progresso particulares. Considerar que num dado momento uma manifestação destruirá a outra é aceitar que sempre haverá um domínio, cuja estrutura obrigada a subordinação de uma das partes, ou seja, é reconhecer que nunca será possível a coexistência “harmoniosa” entre os pólos ambivalentes. Hall (2011, p. 221) analisa que “em cada momento de inversão, há sempre o retorno sub-reptício do traço do passado; em qualquer ruptura estão os efeitos surpreendentes de reduplicação, repetição e ambivalência”, isto é, em cada momento histórico em que os grupos minoritários, engajados politicamente, invadem a estrutura de dominância há uma reformulação dos valores sociais vigentes, que se modificam e/ ou se repetem – num resgate de tendências passadas – para atender as novas demandas sociais. “Aquilo que é socialmente periférico pode ser simbolicamente central” (HALL, 2011, p. 226). Pode-se simplificar tal afirmação baseando na lógica geográfica. Tudo que está fora do eixo central é considerado periférico, margem. No entanto, no mundo globalizado essa percepção torna-se um pouco mais complexa, ou seja, ainda que geograficamente um exemplo de manifestação cultural não esteja no centro ela pode ser simbolicamente incorporada aos discursos das manifestações centrais, geralmente pela necessidade de atender o desejo dos indivíduos e garantir audiência. As metáforas de transgressão, invasão e inversão são muitas e conflitantes, mesmo porque nas sociedades heterogêneas é impraticável pensar uma única solução para as tensões multiculturais e, sobretudo, para as relações binárias de oposição. O objetivo deste projeto não é o de chegar à verdade absoluta e estática sobre como os problemas que envolvem o dialogo entre as classes dominantes e subalternas podem ser resolvidos. Aqui entende-se a complexidade da estrutura social e que as mudanças nela ocasionadas são lentas e trabalhosas, principalmente porque quebrar a organização das classes dominantes é, geralmente, a custa de esforços repetidos e ininterruptos das culturas de baixo, que aguardam o momento em que as brechas existentes nos sistemas tornam-se mais evidentes para, assim, incutirem na sociedade sua manifestação particular de cultura.


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3 ANÁLISE DO DISCURSO: O FILME “TROPA DE ELITE 2” Mas o que distingue o cinema de todos os outros meios de expressão culturais é o poder excepcional que vem do fato de sua linguagem funcionar a partir da reprodução fotográfica da realidade. Com ele, de fato, são os seres e as próprias coisas que aparecem e falam, dirigem-se aos sentidos e à imaginação: à primeira vista, parece que toda representação (significante) coincide de maneira exata e unívoca com a formação conceitual que veicula (significado). (MARTIN, 2007, p. 18)

Toda produção cinematográfica tem objetivos. Podem ser de ordem ideológica ou puramente narrativa. Às vezes são explícitos e outras implícitos, mesmo porque o cinema já esteve a serviço dos interesses de uma elite nazista nos tempos de guerra. Os objetivos dessa ou daquela produção cinematográfica nem sempre se traduzem apenas por meio da narrativa escolhido pelo diretor do filme, pode-se desvendar certas finalidades atentando-se aos recursos de ordem técnica, o posicionamento de uma câmera por vezes revela mais do que próprio discurso. Contudo, na tentativa de compreender os objetivos do filme “Tropa de Elite 2” a autora desta pesquisa analisará a obra de forma a contemplar tanto os recursos narrativos mais relevantes do filme. A análise de recursos técnicos não será efetiva nessa pesquisa. O intuito é aproximar-se do real discurso cinematográfico e compreender como os espectadores perceberam a obra. Compreensão que, majoritariamente, foge ao exame da linguagem cinematográfica, pois dependeria de um espectador mais atento e preparado. Mesmo não se tratando de um documentário o longa-metragem extraiu e representou fragmentos de uma realidade, mostrando a 11 milhões de pessoas detalhes que escapam as coberturas jornalísticas e que são ocultados pela censura. Com o segundo título “O inimigo agora é outro”, a obra revela, por meio das tais representações, o lado indigno da política brasileira, os bastidores da corrupção policial e, principalmente, como funciona o Sistema, aquele mencionado por Adorno e Horkheimer em A Dialética do Esclarecimento. Um organismo complexo que se articula em benefício da elite, que oprime e marginaliza as minorias, inviabilizando a conquista de melhores condições de vida e, consequentemente, a emancipação. O filme retrata a luta de um ex-capitão do BOPE (Batalhão de Operações Especiais), agora Sub-Secretário de inteligência, na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, para vencer o Sistema que mantém relações diretas com o tráfico de drogas e com a formação de milícias no estado. “Tropa de Elite 2 – O inimigo agora é outro” é uma crítica e propõe reflexão acerca dos problemas recorrentes de corrupção


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que são conhecidos pela massa, mas que frente às necessidades imediatas da maioria carente seguem impunes, até porque os agentes que deveriam garantir e preservar os direitos e deveres dos cidadãos são os mesmos que se corrompem em benefício próprio e, por decorrência, fortalecem o Sistema. 3.1 O Início A oração “Apesar das possíveis coincidências com a realidade este filme é uma obra de ficção” aparece na tela, logo no início do filme. Desta maneira, o diretor do filme se comunica com o espectador para enfatizar o caráter ficcional do “Tropa de Elite 2”. Tal postura implica a necessidade de distanciar a obra dos fragmentos da realidade representados no filme, como que numa forma de prevenir-se de possíveis retaliações, afinal, tais coincidências podem não ser meras coincidências. O longa-metragem tem como cenário a cidade do Rio de janeiro. Sob a óptica de um comandante do BOPE, narra as dificuldades enfrentadas por policiais honestos na guerra contra o tráfico de drogas, a formação de milícias e a corrupção de políticos e policiais. “Pode até parecer clichê de filme americano, mas é na hora da morte que a gente entende a vida. Eu dei muita porrada em viciado, esculachei muito policial corrupto, mandei um monte de vagabundo pra vala, mas não foi nada pessoal, a sociedade me preparou para isso e missão dada parceiro é missão cumprida”. Por meio deste discurso, o Comandante Nascimento inicia seu contato próximo com o espectador descrevendo seu perfil, o da representação de um policial honesto cuja luta é a de honrar seu papel na sociedade. Nascimento acaba de sofrer um atentado, seus inimigos tentaram eliminá-lo, contudo, não obtiveram sucesso. Apesar do interesse em afastar-se do BOPE, o comandante não encontrou substituto à altura, permanecendo no Batalhão durante anos até que algo mudou. Quatro anos antes da emboscada, Nascimento coordenava a operação para conter a rebelião dentro do Bangu I, o maior presídio de segurança máxima do Rio de Janeiro. Ali, num mesmo território, separados por galerias, estavam os mais poderosos comandantes do tráfico de drogas do estado. Três facções criminosas oponentes vivendo sob constante conflito na tentativa de impor seu poder e controlar o tráfico.


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Nesse cenário, o traficante Beirado, representado pelo cantor Seu Jorge, invade as galerias inimigas para executar seus rivais. O batalhão encontra-se em prontidão para interromper a carnificina iniciada pelos prisioneiros. Surge então o personagem Fraga, representante legítimo dos Direitos Humanos que, como tal, discorda das políticas utilizadas pelos policiais do BOPE nos momentos de contenção dos confrontos dentro dos presídios. Ao saber da iminência das ações dos policiais das forças especiais, Fraga, com a autorização do governador do Rio de Janeiro, desloca-se até Bangu I na tentativa de impedir a execução dos presidiários. Mesmo com as advertências do Comandante, Fraga entra na prisão e inicia uma negociação com Beirada, enfatizando que poderia assegurar a vida do traficante, sem que houvesse repressão por parte dos policiais se o prisioneiro encerra-se a rebelião. No entanto, antes mesmo de revertida a situação o Capitão Mathias, num impulso contra as ordens de Nascimento, elimina o traficante que derrama sangue sobre a camisa de Fraga. Esse dia mudou a história do Fraga, do Rio de Janeiro e, principalmente, do próprio comandante. Ao tentar conter barbárie potencialmente semelhante à ocorrida realmente no Carandiru, em São Paulo, que repercutiu na mídia, o governador do Estado do Rio de Janeiro não poderia supor que a resolução dos fatos tomasse rumos inversos. A morte do traficante resultou em manchetes no mundo inteiro. E em tempos de eleição tudo é feito na tentativa de angariar votos. 3.2 O Meio Ao ser responsabilizado pela morte de Beirada, os representantes do governo exigiram a exoneração de Nascimento, mas, nas palavras do próprio comandante, “para o povo, bandido bom é bandido morto”. Assim, para não contrariar a opinião popular os políticos do Rio de Janeiro encaixam Nascimento na Secretária de Segurança Pública do Estado. O comandante anuncia: “Na Secretaria de Segurança eu não iria lutar só contra o tráfico eu iria poder enfrentar o Sistema”. Surge a personagem Clara, jornalista polêmica do Rio de Janeiro, procurada por André Mathias, ex-capitão do BOPE, no intuito de reverter sua punição em função do conflito no Bangu I e voltar ao Batalhão. Fraga aproveita a visibilidade dada pela mídia e se candidata ao cargo de Deputado. Um policial honesto, empenhado em combater o crime, incomodou as lideranças. Em tese, Nascimento à frente da Secretária de Segurança acabaria com a farra dos políticos


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corruptos, impediria o tráfico de drogas e quebraria o Sistema. No entanto, este mecanismo se reorganiza para atender as novas necessidades. Os policiais corruptos, formados em milícias, encontraram alternativa para recolher o dinheiro das comunidades carentes da cidade. Os miliciantes iniciaram o processo de execução dos chefes do tráfico para controlar e prestar serviços aos moradores das favelas, “arrecadando” muito mais capital. O personagem Rocha é apresentado ao espectador como membro poderoso da milícia na cidade. A organização corrupta passa a resguardar os direitos do cidadão, mediante determinada taxa, função que deveria ser realizada pelo Estado. O filme estabelece uma relação paradoxal, isto é, as forças policiais corruptas oferecem proteção às comunidades contra suas próprias ações perversas. Em quatro anos o Sistema dominou quase toda a zona oeste do Rio de Janeiro. Nascimento percebe que as ações do BOPE apenas têm servido aos interesses deste mecanismo. O crescimento das milícias tornou-se a plataforma de eleição do candidato Fraga, ao passo que os candidatos corruptos usufruíam dos resultados trazidos pelo Batalhão, no combate ao tráfico de drogas, para se reelegerem. O governador do Rio de Janeiro, o secretário de segurança pública e o deputado Fortunato estavam diretamente ligados aos membros das milícias com objetivo de conquistar votos nas comunidades. Nesse momento, o espectador mais atento é direcionado à reflexão sobre os anos em que o voto de cabresto era prática comum no país, pois no Brasil e no mundo eleição é negócio e o voto é a moeda mais valiosa. O bairro Tanque era o último reduto do tráfico, tinha muito dinheiro e voto, mas a milícia não conseguiria dominá-lo sozinha. Para conquistar este objetivo os miliciantes roubaram as armas da delegacia de polícia do bairro para que a ação fosse considerada prática dos traficantes. O Batalhão de Operações Especiais é então designado para reaver os armamentos e garantir a reeleição do governador Guaraci. A complexidade e organização do Sistema são exacerbadas quando o diretor do filme revela a manipulação existente no planejamento da invasão dos policiais do BOPE ao bairro Tanque. Mathias foi reincorporado ao Batalhão pelo interesse dos altos políticos, que não hesitaram em matá-lo ao prever o problema que o agente causaria aos interesses dos representantes corruptos.

3.3 O Fim


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A jornalista Clara descobre o esquema arquitetado pelo governador em parceria com as milícias no Tanque. Revela todas as descobertas ao Deputado Fraga, ainda por telefone (grampeado anteriormente pelo Subsecretário de Inteligência, Nascimento), mas a milícia empenhada em esconder os vestígios do crime, executa-a. Todavia, o problema agora era maior, um deputado da Casa estava ciente dos fatos, um representante dos Direitos Humanos e da legalidade. O Comandante Nascimento ao descobrir toda a trama observa que “o Sistema é pautado pela política e a política só respeita a mídia. Só que dessa vez a milícia tinha matado uma jornalista. O Sistema teria que correr atrás”. Inicia-se o processo de queima de arquivo. Fraga seria executado por ser a única testemunha capaz de revelar as ações escusas da polícia em conjunto com os políticos. Na tentativa, Rafael, filho de Nascimento com Rosana – agora esposa de Fraga – é baleado. O Deputado Fraga consegue então iniciar uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), em época de eleição, para investigar os crimes cometidos pelos políticos e miliciantes. Nascimento é convocado a depor, revelando as atrocidades cometidas pelos representantes da lei, em seus diversos níveis de hierarquia, atestando o poder do mecanismo tão amplamente discutido por Adorno e Horkheiner. No desfecho do filme, vê-se um comandante mais maduro e consciente acerca de seus novos desafios, que ultrapassam o combate aos traficantes de drogas. Nascimento enxerga que sua missão dentro da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro é contra o Sistema. Brasília surge ao espectador em plano geral (aberto) e por meio da narrativa de Wagner Moura cada indivíduo dentro das salas de reprodução cinematográfica é convidado à questionar as próprias concepções sobre a atuação dos políticos brasileiros, da polícia e, principalmente, do Sistema: “ Agora me responde uma coisa: Quem você acha que sustenta tudo isso? É e custa caro, muito caro. O Sistema é muito maior do que eu pensava. Não é a toa que os traficantes, os policias, os miliciantes matam tanta gente nas favelas. Não é a toa que existem as favelas. Não é a toa que acontece tanto escândalo em Brasília, que entra governo sai governo e a corrupção continua. Para mudar as coisas vai demorar muito tempo. (...) ainda vai morrer muito inocente”. É sensato ressaltar que o lançamento do filme ocorreu em época de eleições presidenciais, isto é, possivelmente, ao assistirem a obra, mais de 11 milhões de pessoas


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puderam reavaliar sua contribuição para o fortalecimento do Sistema. Visto que o voto, assim como a razão questionadora, são as mais eficientes ferramentas para derrotar este organismo. 3.4 A Pesquisa de Recepção A pesquisa de opinião tem se mostrado instrumento tão valioso para a sociedade contemporânea, que, muitas vezes, deixa de ser compreendida como técnica de medição da opinião pública para tornar-se a própria expressão desta. Sua aplicação extrapolou os limites do campo político, no qual despontou com maior intensidade, e, hoje, tornou-se reconhecido método de investigação científica para a maioria dos campos de conhecimento, inclusive para a Comunicação Social. (NOVELLI, 2006, p. 164)

Para esse estudo é de suma importância a realização da pesquisa de recepção. Por meio dela será possível definir resposta embasada sobre a contribuição do filme “Tropa de Elite 2” para o processo de emancipação ou alienação dos indivíduos. A pesquisa foi aplicada no universo acadêmico, mas especificamente na Universidade Nove de Julho e a amostragem foram alunos de primeiro e segundo semestre dos cursos de Comunicação Social – Jornalismo e Publicidade e Propaganda. O motivo desta escolha devese ao fato dos alunos ainda não terem adquirido repertório teórico-crítico. A maior parcela desses universitários vive o processo de transição no qual estão deixando o raciocínio de massa para desenvolveram uma razão questionadora. Foram contemplados apenas os alunos do período da manhã que totalizam 318 discentes. Contudo, teve-se como amostragem 14% desse total, isto é, foram realizadas 46 entrevistas que permitiram compreender como o filme foi recepcionado por esses indivíduos. O questionário é composto por 11 perguntas fechadas (vide apêndice A) que foram elaboradas baseando-se nas críticas tanto da Escola de Frankfurt quanto dos Estudos Culturais, no sentido de obter as respostas que permitam ratificar uma ou outra escola no que diz respeito a seus estudos sobre os produtos culturais, nesse caso o cinema. Os índices percentuais contribuíram para entender se “Tropa de Elite 2” agregou conhecimento e informação aos espectadores.

O cinema é visto por muitos como um produto cultural quer tende a alienar e/ou meramente entreter seu público. No entanto, no que compreende os aspectos que mais chamaram a atenção dos espectadores entrevistados sobre o filme, 55% dos alunos avaliam


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que o fator que mais chama atenção no filme é o roteiro, cuja temática aborda a corrupção policial e a violência. Apenas 4% consideram que o aspecto mais relevante do filme é sua semelhança com as produções hollywoodianas. É interessante destacar que 0% dos entrevistados apontou como aspecto de maior relevância o fato de “Tropa de Elite 2” ser um filme com muita ação. O que pode ser observado com maior grau de compreensão no Gráfico 1.

Gráfico 1 – Aspectos que mais chamam atenção no filme

Esses resultados retificam a noção de que os indivíduos vêem nas produções cinematográficas apenas seu caráter de entretenimento. Conforme apresentado no Gráfico 2, 87% dos entrevistados acreditam que o filme é o retrato de uma realidade do Brasil, isto é, comparando-se os dois gráficos pode-se afirmar que a maioria dos pesquisados se interessaram pelo filme justamente por ele representar a realidade do país, realidade que, na maioria das vezes, torna-se próxima por meio dos veículos de comunicação de massa.


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Gráfico 2 – O filme é o retrato de uma realidade brasileira?

“Tropa de Elite 2”, enquanto representação de fragmentos da realidade, possibilitou a aproximação de aproximadamente 11 milhões de pessoas com temas polêmicos, tais como: formação de milícias, corrupção de políticos, tráfico de drogas, censura à imprensa e, principalmente, a organização é lógica do Sistema. Temas que se abordados pelos meios de comunicação de massa, possivelmente, sofreriam censura ou seriam tolhidos pela política editorial do veículo. Estas afirmações não concluem que o filme é reprodução máxima da verdade, mas que, enquanto obra de ficção, “Tropa de Elite 2” tem muito mais liberdade de expressão do que os veículos tradicionais. Outro dado importante para essa pesquisa diz respeito à mudança de percepção e comportamento que o filme orientou nos espectadores. Questionados sobre a possível mudança quanto ao nível de interesse sobre o tema corrupção, o cerne do longa-metragem, 31% dos entrevistados afirmaram que passaram a se interessar mais pelo tema depois de assistir filme, conforme aponta o Gráfico 3. Apenas 9% passaram a se interessar menos pelo tema. Por meio destes resultados pode-se dizer que o filme não contribuiu à alienação dos espectadores. Contrariando as afirmações de Adorno e Horkheimer, a maioria dos alunos afirmou que após assistirem ao “Tropa de Elite 2” mudaram positivamente seu nível de interesse, isto é, os espectadores ao terem contato com a obra não mantiveram uma postura


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passiva ou inerte, mas, ao menos no que diz respeito ao tema corrupção, adotaram uma postura de crítica e reflexão que os levou ao aumento de interesse.

Gráfico 3 – O filme alterou seu nível de interesse sobre questões como corrupção?

Conforme aponta o Gráfico 4, 15% dos alunos declararam que o primeiro contato com o termo milícia foi por meio do filme. 39% deles se familiarizam com o termo por jornais/revistas e 22% em telejornais, ou seja, mesmo contato com inúmeros veículos de comunicação, até mesmo sites na internet, o filme obteve percentual próximo ao de telejornais, sendo que a televisão é o meio mais popular na casa dos brasileiros. De acordo o último Censo do IBGE (2000), 97% dos brasileiros possuem televisor em suas residências.


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Gráfico 4 – A primeira vez em que ouviu o termo milícia.

Considerando-se sites, jornais/revistas, telejornais e rádios é perfeitamente cabível afirmar que o filme obteve um percentual elevado. Afinal, de todos os citados meios, foi a obra cinematográfica que, em 15% dos casos, aproximou o contato do espectador com a temática da formação de milícias. Neste sentido, “Tropa de Elite 2” supriu a defasagem de informações sobre o citado assunto tanto no rádio (4%) quanto em sites (9%). Quanto ao entendimento sobre formação de milícias, 11% dos entrevistados declararam que o filme não ofereceu nenhuma contribuição à compreensão sobre o assunto, enquanto 59% pontuaram que já tinham informações sobre o tema, no entanto por meio da obra passaram a entender um pouco mais. 15% dos alunos concluíram que a contribuição do filme para o entendimento sobre milícias foi total, isto é, só compreenderam ao assistir o longa-metragem e 11% passaram a compreender mais sobre o assunto.


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Gráfico 5 – A contribuição do filme para o entendimento sobre milícias

Se houve avaliação sobre o nível de entendimento possibilitado ou aumentado por meio dessa obra cinematografia, pode-se concluir que para tal processo os espectadores, em algum momento, refletiram acerca do que foi transmitido pelo “Tropa de Elite 2”, o que novamente invalida a tese de que os produtos da indústria cultural apenas contribuem à alienação do indivíduo. A razão crítica é elemento que permite a mudança de certos comportamentos quando refletidos e questionados. De acordo com o Gráfico 6, 31% dos alunos entrevistados passaram a confiar mais na polícia depois de assistirem ao filme e 22% afirmam que confiam um pouco menos na polícia após a exibição.


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Gráfico 6 – A crença na polícia antes de assistir ao filme

Avaliando esses dados é interessante pontuar que o cerne do longa-metragem, como dito anteriormente, é o roteiro que aborda a temática da corrupção policial e de políticos, isto é, no decorrer dos 115 minutos de filme, o espectador tem contato com inúmeros personagens que representam esses indivíduos corruptos, contudo, apenas o personagem principal (Coronel Nascimento) é apresentado como policial honesto, cujo objetivo é eliminar as práticas criminosas. Contando com apenas um representante fiel à legalidade, o filme conseguiu com que 31% dos espectadores entrevistados passassem a confiar mais nas ações dos policiais, isto é, as pessoas, certamente, foram direcionadas pela simpatia com o personagem, mas puderam também questionar suas próprias percepções sobre a atuação da polícia no que compreende a vida real, pois 31% concluíram que acreditavam menos na polícia antes do filme, ou seja, elas se reavaliaram, questionaram a própria razão. O mesmo ocorreu quando os entrevistados foram questionados quanto à visão sobre os políticos. 48% afirmam que o filme não alterou a percepção sobre os políticos porque continuam desconfiando dos políticos, dado que é perfeitamente compatível com a abordagem do filme. Ao retratar a corrupção de políticos e policias seria incompatível que a maioria dos entrevistados passasse a confiar em suas atuações. Contudo, deve-se destacar que 37% dos


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alunos pontuaram que o após terem contato com a obra mudaram a visão sobre os políticos, confiando menos ainda nestes representantes.

Gráfico 7 – A visão em relação aos políticos depois de assistir ao filme


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CONSIDERAÇÕES FINAIS Pode-se afirmar que muitas produções culturais viabilizam o processo de alienação e massificação dos indivíduos. Afinal, a Revolução Industrial condicionou o mercado ao ritmo acelerado da reprodutibilidade técnica, cujo princípio está diretamente relacionado com as aspirações da média ou da massa. Contudo, avaliando as contribuições dos Estudos Culturais para esta pesquisa, constatou-se que ainda que o Sistema – um organismo articulado em benefício dos grupos dominantes – exerça poder sobre a cultura de baixo, há brechas ou falhas que permitem a inversão, não definitiva, das hierarquias sociais, isto é, a organização política dos grupos minoritários faz com que sua “presença” no seio da sociedade seja legitimada, dando espaço, voz e vez as culturas marginalizadas. É sensato afirmar que o Sistema não detém o poder absoluto sobre a razão dos indivíduos, uma vez que estes possuem identidades multiculturais e também influenciam o próprio Sistema, como que numa relação cíclica, pois este organismo, que representa em boa medida o mercado, se atém as demandas da sociedade, ou seja, ele se rearticula, elege novos representantes para as ideologias vigentes a fim de manter o domínio e garantir os lucros que sustentam a indústria cultural. Por meio do exame sobre as contribuições do filme “Tropa de Elite 2” para a aquisição e desenvolvimento da razão crítica ou mesmo à alienação dos indivíduos, contatou-se que as afirmações apocalípticas da Teoria Crítica sobre os produtos culturais não se aplicam ao filme citado. Sobretudo porque os pensadores desta escola desconsideram qualquer contribuição benéfica por parte da indústria cultural que apenas fabrica cultura de massa para assegurar a homogeneização dos seres sociais e mantê-los inertes quanto à existência do Sistema que os marginaliza e cativa. O longa-metragem aqui examinado mostrou-se um produto cultural que contribuiu para que os espectadores adquirissem repertório crítico, uma vez que em seu discurso alerta sobre as articulações perversas do mesmo organismo social (Sistema) feito outrora pelos estudiosos de Frankfurt, ou seja, um produto da cultura de massa levanta o debate acerca do próprio mecanismo de dominação.


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Outro aspecto importante que legitima as contribuições de “Tropa de Elite 2” para a emancipação dos indivíduos diz respeito a mudança de percepção e comportamento após o contato com o filme. De acordo com a pesquisa realizada verificou-se que a maioria dos entrevistados passou a se interessar mais por assuntos como corrupção policial e formação de milícias, temas abordados no filme. A mesma maioria confirma a contribuição do filme para o entendimento sobre estes grupos de policias corruptos, ratificando a hipótese de a atmosfera lúdica criada pelo cinema envolve o espectador na trama, fazendo com que a receptividade e compreensão sobre estes temas tornem-se mais eficientes do que em meios tradicionais de comunicação, inclusive pelo uso de linguagem próxima a da massa, preenchendo de significado signos pouco desenvolvidos nos textos jornalísticos. Isto é, ao ser inserido no universo do filme o indivíduo passa a “vivenciar” – pois o apelo da imagem o aproxima da representação da realidade exposta no filme – situações que, em muitos casos, são distantes do seu cotidiano. Portanto, o filme “Tropa de Elite 2” favorece o processo de desenvolvimento ou criação da razão crítica dos indivíduos ao expor, com certo grau de realismo, fatos sociais que são negligenciados ou editados nos meios tradicionais de comunicação, pois a medida que existe um primeiro contato, mesmo por meio de uma obra ficcional, com temas legítimos de qualquer sociedade, o espectador é estimulado à reflexão, essencialmente porque no longametragem abordam-se aspectos sociais recorrentes. Aspectos que interferem na vida de cada cidadão. “Tropa de Elite 2” expôs a mais de 11 milhões de pessoas a representação da realidade dos grupos minoritários, apresentou as ações perversas do Sistema, levantou o debate acerca da corrupção policial e de políticos. Enfim, mostrou como funciona as comunidades carentes e baseado em quais interesses elas ainda existem. Para um país como o Brasil, de maioria analfabeta, com má distribuição de renda e sem muitas expectativas esse produção cultural, de “puro” entretenimento, possibilitou a reavaliação de conduta. Em iminência de eleições presidenciais um filme sobre política foi lançado e atingiu a maior bilheteria do país. Ainda que 10% dos espectadores do filme tenham refletido acerca do que ali foi exposto, muito foi conquistado com a emancipação destes indivíduos.


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Ainda que não definitivamente, o filme configura-se como um momento de ruptura do sistema, em que a cultura de baixo é representada para toda a sociedade, inclusive à alta cultura. Exibir as formas menos elitizadas de cultura é por em debate a urgência de mudanças nos moldes sociais e, principalmente, mostrar a vida dos indivíduos das culturas minoritárias aos demais integrantes da sociedade que, não fossem por essa representação, jamais teriam contato com essa forma de cultura. A imagem cinematográfica aproximou o contato entre realidades distintas, conduziu o debate para o campo político, mostrou a todos os indivíduos o que antes estava restrito às margens. No instante em que aproximadamente 11 milhões de espectadores tiveram contato com a realidade cultural da periferia, por meio do próprio desejo de conhecer o outro, sobretudo porque o filme é uma mercadoria e demanda interesse, a margem atingiu o centro. Tomando para si a posição principal na estrutura de dominação que privilegia os discursos de elite. Expor a cultura de baixo para o mundo, ainda que por meio de um produto cultural, foi um instante em que a inversão e o rompimento com os elos de dominação tornaram-se concretos, dando voz e vez aos membros das classes periféricas e conduzindo seus interesses e aflições para o centro.


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. ESCOSTEGUY, Ana Carolina. Cartografias dos estudos culturais. Uma Versão latinoamericana. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. FREITAG, Barbara. A Teoria Crítica ontem e hoje. São Paulo: Brasiliense, 2004. HALL, Stuart. Da Diáspora. Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: editora UFMG, 2011. INDÚSTRIA CULTURAL: revisando Adorno e Horkheimer. Movendo Ideias. Belém, v. 8, n. 13, p. 13-22, 2003. MARTIN, Marcel. A linguagem Cinematográfica. São Paulo: Brasiliense, 2007. NOVELLI, Ana Lucia Romero. Pesquisa de Opinião. In: BARROS, Antonio; DUARTE, Jorge. (Org.). Métodos e técnicas de Pesquisa de Opinião em Comunicação São Paulo: Atlas, 2006. O PENSAMENTO ÚNICO ou razão mitificada: apontamentos sobre Adorno e Horkheimer. Revista de Ciências Humanas da UNIPAR, Umuarama, v. 11, n°.1, 2003. SOVIK, Liv. Pensando com Stuart Hall. Em: GOMES, Itania Maria Mota; JANOTTI Jr., Jeder. (Org.). Comunicação e Estudos Culturais. Salvador: Edufba, 2011. TROPA DE ELITE 2. O inimigo agora é outro. José Padilha. Rio de Janeiro: ZAZEN, 2010. 1 DVD (115 min.), son., color.


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APÊNDICE A – FORMULÁRIO: PESQUISA DE RECEPÇÃO Modelo de Pesquisa de Recepção aplicado. O objetivo desta pesquisa é a coleta de dados para a conclusão da análise do filme Tropa de Elite 2 que comporá o trabalho de conclusão de Curso da pesquisadora. As informações contidas nesse questionário são sigilosas. Pesquisadora: Daiane Cristina Cezário E-mail: Daiane.c.cezario@gmail.com 1) Você assistiu ao filme Tropa de Elite 2? ( ) Sim ( ) Não*(Encerre o questionário) ( ) Não quero responder*(Encerre o questionário) 2) Quais aspectos do filme lhe chamaram mais atenção?(Podem ser marcadas até duas alternativas) ( ) História focada em temas tais como corrupção e violência ( ) Personagens com comportamentos possivelmente reais ( ) A atuação violenta dos policiais do BOPE ( ) O fato de ser um filme com muita ação. ( ) A semelhança com os filmes de Hollywood ( ) Não sei/Não quero responder ( ) Outros 3) O filme alterou seu nível de interesse sobre questões como corrupção? ( ) Sim, passei a me interessar mais pelos tema ( ) Sim, passei a me interessar menos pelos tema ( ) Não, continuo me interessando pelo tema ( ) Não, nunca me interessei pelo tema ( ) Não sei/Não quero responder 4) Você acredita que o filme é o retrato de uma realidade brasileira? ( ) Sim ( ) Não(Em caso de resposta negativa vá para a questão 6). ( ) Não sei/Não quero responder (Em caso de resposta negativa vá para a questão 6). 5) Que realidade é essa? (assinale mais de uma opção se for o caso). ( ) Formação de Milícias ( ) Corrupção Policial ( ) Realidade das áreas pobres ( ) Tráfico de Drogas ( ) Censura à imprensa ( ) Não sei/Não quero responder 6) Você se lembra qual foi a primeira vez que teve contato/ouviu falar sobre o termo “milícias”? (Assinale apenas uma alternativa) ( ) Em Sites ( ) Em Jornais/Revistas ( ) Em Telejornais


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( ( ( (

) Em rádios ) No filme Tropa de Elite 2 ) Não me lembro quando ) Não sei/Não quero responder

7) Você sabe o que são milícias? ( ) Sim ( ) Não *( Vá para a questão 9) ( ) Não quero responder *( Vá para a questão 9) 8) Assinale abaixo a opção que mais se encaixa com sua definição do termo. ( ) Grupos formados por políticos corruptos que atuam em beneficio próprio ( ) Traficantes de drogas ( ) Todos os bandidos ( ) Grupos formados por policiais corruptos que atuam em beneficio próprio ( ) Não sei/Não quero responder 9) Avaliando sua crença na polícia antes de ver Tropa de Elite2: ( ) Você acreditava mais na polícia antes de ver o filme ( ) Você acreditava um pouco mais na polícia antes de ver o filme ( ) Você acreditava um pouco menos na polícia antes de ver o filme ( ) Você acreditava menos na polícia antes de ver o filme ( ) Não sei/Não quero responder 10) Sua visão em relação a postura dos políticos mudou depois de ver o filme? ( ) Sim, passei a confiar mais ( ) Sim, passei a confiar um pouco mais ( ) Sim, passei a confiar menos ( ) Sim, passei a confiar menos ainda ( ) Não, não mudou ( ) Não sei/Não quero responder 11) O quanto você atribui ao filme Tropa de Elite 2 seu entendimento sobre o termo milícia? ( ) Totalmente, só compreendi assistindo ao filme ( ) Majoritariamente, foi com o filme que eu compreendi mais ( ) Minoritariamente, eu já sabia, mas o filme contribuiu para o entendimento ( ) Nada, o filme não contribuiu ( ) Não sei/ Não quero responder Nome: Telefone:____________ Curso: ( ) Jornalismo ( ) Publicidade Semestre: ( ) 1º Semestre ( ) 2º Semestre


Trabalho de conclusao de curso (tropa de elite 2)