Page 1


Havia lágrimas no rosto de Chloe no momento em que ela se sentou, olhando para a escuridão. Lágrimas que ela secou com os punhos, num gesto quase infantil. Porém, tudo indicava que naquele momento deixara de ser criança, transformando-se em mulher. Eu me deixei levar por um sonho infantil, pensou Chloe. Ignorei os avisos de todo mundo, de pessoas que o conheciam muito melhor do que eu. Para mim, todos estavam sendo injustos comparando-o ao irmão, um homem que nunca dera um passo em falso.


Darius pediu que eu confiasse nele, e foi o que eu fiz por alguns instantes, embora não tivesse qualquer razão para fazê-lo. Eu era jovem, boba, deixei que me tocasse, que me beijasse, e acabei me esquecendo do que queria para minha vida. Cheguei a pensar que ele me amava, que poderia ser a minha cara metade. Ela tremeu, abraçando o próprio corpo e pensando: não vou cometer o mesmo erro outra vez.


Querida leitora, Fugir do próprio destino pode ser uma atitude equivocada, já que ele nos segue aonde formos. O tempo trouxe de volta a governanta Chloe Benson à casa da família Maynard. O problema é que ela ficou novamente exposta ao charme do mulherengo Darius Maynard, inclusive correndo o risco de perder sua inocência. Não perca nenhum detalhe desse romance sobre a honra e o desejo! Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books


Sara Craven O FIM DA INOCÊNCIA Tradução Rodrigo Peixoto

2013


CAPÍTULO UM

– CHLOE,

P RECISO que

você viaje conosco. Conto com você – disse a sra. Armstrong, os olhos azuis e límpidos completamente arregalados. – Imaginei que soubesse disso. Ela fez uma pausa, depois disse: – Além do mais, pense numa coisa... um verão inteiro no sul da França. E nós estaremos um bom tempo fora. A villa será só sua. Não é tentador? – Claro que sim – respondeu Chloe Benson. – Mas como eu já disse, sra.


Armstrong, tenho os meus planos. E continuar trabalhando naquela casa, embora fosse um trabalho agradável e lucrativo, não está entre eles, pensou Chloe. – A sua oferta é boa, sra. Armstrong, mas não aceito. Obrigada. – Estou muito decepcionada – disse a sra. Armstrong, com cara de quem estava a ponto de desmaiar. – Não sei o que o meu marido vai dizer. Ele dirá: “Que pena, minha velha”, depois voltará a ler o Financial Times, como sempre, pensou Chloe, tentando não deixar aflorar um sorriso. – Se for uma questão de dinheiro – disse a sra. Armstrong, curvando


ligeiramente a sobrancelha. – Caso queira me fazer uma oferta melhor, tenho certeza que chegaríamos a um acordo. Não, Chloe queria dizer, o que me move não é o dinheiro, mas sim o amor. E ficou feliz pensando em Ian, lembrando-se do seu namorado de ombros largos, alto, cabelos castanhos ondulados e lindos olhos azuis. Chloe estava louca para cair nos seus braços dizendo: “Voltei para casa, meu querido, e dessa vez para sempre.” Mas ela fez que não, dizendo: – Não é nada disso, senhora. Eu simplesmente resolvi dar uma guinada na minha carreira.


– Que desperdício. Você é ótima no que faz. Chloe ficou pensando: Sério, sra. Armstrong? Sou boa fazendo o quê, exatamente? Organizando a casa, conhecendo um pouco a mente dos homens, dirigindo o trabalho dos demais empregados? Seja lá o que estivesse acontecendo em Londres, o bilionário Hugo Armstrong queria a sua casa sempre em ordem. Não queria saber dos problemas do dia a dia, não queria lidar com as contas de casa: queria que os seus convidados sempre fossem tratados da melhor maneira possível, num ambiente


luxuoso, como se estivessem num hotel cinco estrelas. Em poucas palavras, ele queria a perfeição, e com um esforço mínimo de sua parte – o que Chloe sempre lhe proporcionou trabalhando ali. Ela sabia que era jovem para o cargo, muito exigente, mas era inteligente, tinha energia e era boa organizando o trabalho. Aliás, suas referências de trabalhos anteriores atestavam tudo isso. As responsabilidades eram muitas, as horas de trabalho também, mas seu incrível salário era mais do que recompensador por tantos inconvenientes.


Claro que não lhe restava tempo para a vida pessoal. Natal e Páscoa eram datas repletas de atividades na casa. Aliás, Chloe não pôde ir à festa de trinta anos de casados dos seus tios Hal e Libby, pois os Armstrong tinham marcado um jantar para o mesmo fim de semana, e ela era peça fundamental do evento. Naquele mês, seu salário foi aumentado com um bom bônus, embora não tenha compensado a pena que sentia ao perder aquela ocasião tão especial entre os seus parentes queridos, a única família que tivera na vida. Chloe sentiria culpa eternamente por não ter estado presente.


Mas ela sabia que, enquanto estivesse por lá, teria de dedicar-se exclusivamente ao trabalho. Porém, isso duraria apenas mais uma semana. Ela pedira demissão. Os Armstrong vão ficar um tempo perdidos quando eu não estiver por perto, pensou Chloe, voltando aos seus aposentos. Mas ninguém é insubstituível, e a agência Belgravia conseguirá um novo funcionário. O computador da casa era constantemente atualizado com as compras, os fornecedores e técnicos necessários ao seu funcionamento. Ele registrava também as preferências de


comida da família, os caprichos, bem como um histórico completo do que fora oferecido aos convidados nos últimos seis meses e os quartos de hóspedes que ocuparam. A minha sucessora vai adorar herdar toda essa organização, pensou Chloe, satisfeita. Eu vou sentir falta dos meus aposentos, foi o que pensou ao fechar a porta e dar uma olhada em volta. Embora fosse um quarto pequeno, era muito bem decorado e luxuosamente equipado. A cama era enorme e contava com uma cozinha em perfeito estado. Seria estranho voltar a dormir


naquele quarto modesto da casa dos seus tios, com tia Libby oferecendo água o tempo todo, mesmo quando Chloe não precisava, e vindo dar boa-noite... mas não ficaria muito tempo por lá. Talvez Ian me convide para morar com ele antes do casamento, pensou Chloe. E se fizesse isso, ela aceitaria sem pensar duas vezes. Aliás, já era hora de premiar a paciência do namorado. Na verdade, ela não entendia como ele esperara tanto tempo. Aos 25 anos, e ainda virgem, ela estava começando a imaginar que era uma espécie em risco de extinção. No entanto, permanecera assim por


escolha própria. Sua pele suave, seus olhos castanhos com cílios largos e sua boca carnuda atraíam a atenção de muitos homens desde a adolescência. Chloe tinha 16 anos quando Ian apareceu na casa dos seus tios para fazer um estágio em veterinária, e desde o primeiro momento ela esteve certa de que tinham sido feitos um para o outro. Quando se formasse em veterinária, ele voltaria para trabalhar na propriedade dos tios. E em pouco tempo seremos um casal, pensou Chloe, com um sorriso no rosto. Assim que Chloe terminou a universidade, Ian quis se casar, mas ela


achou que não era hora. Queria viver um tempo sozinha. Queria trabalhar numa revista de notícias, mas o mercado estava fechado, por isso se ofereceu num agência de trabalhos domésticos. Grande parte dos seus amigos de faculdade trabalhavam em bares ou restaurantes para ganhar um dinheiro, mas Chloe, aproveitando tudo o que aprendera com tia Libby, resolvera lançar-se no mundo da limpeza e organizações domésticas, trabalhando bem cedo todas as manhãs e ganhando reputação de confiável, rápida e eficaz. Ian não gostou muito ao saber que Chloe recebera uma proposta para


trabalhar na casa dos Armstrong. – É muito longe daqui – disse ele. – Imaginei que encontraria algo mais perto, que finalmente poderíamos ficar mais tempo juntos. – Eu sei – disse ela –, mas também é uma oportunidade de ganhar mais dinheiro. – Mas eu não ganho tão mal – respondeu Ian, nervoso. – Você não vai passar fome. – Claro que não – disse Chloe, beijando o namorado –, mas você sabe quanto custa um casamento hoje em dia? Meus tios me ajudaram muito durante toda minha vida, mas não posso pedir


que me paguem isso... Além do mais, o tempo passa rápido, você vai ver. Mas não passou, e não foram poucas as vezes em que Chloe se pegou pensando se não aceitara um trabalho que a consumia demais, já que os Armstrong esperavam que estivesse sempre pronta para o serviço. No ano anterior, a comunicação com Ian e com a família se resumira a cartas rápidas e telefonemas. O que não era suficiente, claro. Mas isso logo seria passado, pensou Chloe. Finalmente poderia se concentrar no futuro e na sua vida de perfeita sobrinha


e esposa. Graças às suas economias, não precisaria procurar outro trabalho. Pelo menos imediatamente. Ela tomaria o tempo que fosse preciso. Encontraria o trabalho perfeito e seria ótima fazendo o que quer que fosse... até o momento em que resolvessem formar uma família. Será perfeito, ela disse a si mesma, suspirando de felicidade. Chloe esperava que o café ficasse pronto quando ouviu batidas na porta. Tanya, a babá dos gêmeos dos Armstrong, abriu a porta e enfiou a cabeça dentro do quarto, dizendo: – Os rumores já estão correndo... Por


favor, diga que é mentira, que você não vai embora... – Eu vou embora, sim – respondeu Chloe, sorrindo. – Que tragédia! – disse Tanya, caindo sentada numa cadeira e esticando as pernas, com expressão desconsolada no rosto. – Quem vai me consolar quando os gêmeos me deixarem louca? – E onde eles estão agora? Amarrados a uma cadeira no quarto? – Foram numa festa com a mãe... uma festa onde só entram mães... – Coitada da anfitriã – disse Chloe, servindo o café. – Pense em mim... Eu estarei sozinha


com os bebês no sul da França quando Dilys e Hugo forem dar os seus passeios de iate. A única coisa que me consolava era saber que você estaria por perto. Imaginei que ela fosse te convencer... – Ela tentou – respondeu Chloe, oferecendo um café à amiga. – Mas não conseguiu... Eu quero minha vida de volta. – E já tem um trabalho novo? – Não. Na verdade, vou me casar. Tanya olhou diretamente para os dedos de Chloe. – Com aquele veterinário? Mas eu nem sabia que vocês estavam noivos. – Na verdade, ainda não é oficial. Eu


não estava preparada quando ele me propôs casamento, mas hoje sinto que é a coisa certa a ser feita – disse Chloe, sorrindo. – Eu vou me casar. – Mas a vida num vilarejo não é muito diferente de todo esse glamour e agitação que temos por aqui? Chloe fez que não, respondendo: – Eu nunca me deslumbrei com nada disso. Conheço minhas prioridades, e sempre enxerguei esse trabalho como um trampolim. Eu quase não gasto nada do que ganho... exceto quando vou cortar o cabelo, quando vamos ao cinema ou comemos uma pizza juntas... Tenho um bom dinheiro guardado no banco. O


suficiente para me casar e ajudar nas melhorias das terras de Ian, que estão precisando de uma modernização. Juntos, vamos deixá-las em perfeito estado. Tanya ergueu as sobrancelhas, perguntando: – E o Ian, será que pensa a mesma coisa? Chloe suspirou, respondendo: – Ele costuma dizer que uma cozinha precisa de um fogão, uma pia e uma geladeira de segunda mão. E também que um banheiro velho é sinônimo de antiguidade. Mas eu vou educá-lo... – Boa sorte, então – disse Tanya,


erguendo o café como quem faz um brinde. – Talvez ele tenha montado uma cozinha nova para a sua volta. Já pensou nisso? – Ele ainda não sabe que eu vou voltar. Quero fazer uma surpresa. – Meu Deus! – disse Tanya. – Você deve sentir muita segurança nele. – Eu sinto segurança em nós dois – respondeu Chloe, serenamente. – Não vejo a hora de voltar a Willowford. Eu sinto muita falta de tudo aquilo. – Deve ser um lugar e tanto para que você abra mão da Riviera Francesa – disse Tanya. – O que tem de tão especial por lá?


– Na verdade, não é a típica cidade pequena de cartão-postal – disse Chloe, franzindo a testa. – Não temos telhados de palha e a igreja não é tão antiga... Embora a prefeitura seja considerada uma obra de arte. – E tem um senhor com bigode que vive rondando a cidade, atrás das solteironas? – Não acredito que Sir Gregory faria esse tipo de coisa – disse Chloe –, mesmo que não sofresse de artrite. – Ele é casado? – Viúvo – respondeu Chloe, fazendo que não com a cabeça. – Tem filhos?


– Dois. – Dois herdeiros – disse Tanya. – Como sempre... Chloe mordeu o lábio inferior, dizendo: – Mas a herança do segundo não será tão grande. A família é rica, mas ele se transformou em persona non grata. – Ah... – disse Tanya, com os olhos brilhando. – Agora estou começando a entender. Mas o que aconteceu? Chloe afastou o olhar, respondendo: – Ele teve um caso com a esposa do irmão mais velho. Acabou com o casamento deles. Foi uma história sórdida, suja. E foi deserdado pelo pai.


– E o que aconteceu com essa mulher? – Fugiu. – E eles moram juntos? Ela mora com o... como é mesmo o nome dele? – Darius – respondeu Chloe. – Darius Maynard. Mas acho que ninguém sabe onde ela está nem o que aconteceu com ele. Na verdade, acho que ninguém se importa com isso. Tanya respirou fundo, antes de dizer: – Vejo que essa cidade atrai muitas paixões e desejos ilícitos. Agora entendo por que você resolveu arregaçar as mangas. Aliás, o herdeiro precisa de uma nova esposa, certo? E ele não seria mais interessante do que um veterinário


do interior? – De jeito nenhum – respondeu Chloe, terminando de tomar o café. – Honestamente, acho que foram poucos os que culparam Penny naquela história. E Darius tinha má reputação por lá. – Que tipo de má reputação? – Foi expulso do colégio. Bebia, jogava, estava sempre metido com o pessoal da pesada, divertindo-se com gente que falava mal dele pelas costas. – Chloe deu de ombros. – Havia também rumores de que estaria envolvido em coisas piores... Brigas de cachorro, por exemplo. O que é ilegal. Ninguém ficou com pena quando ele foi embora.


– Sendo assim, ele parece bem mais interessante que o irmão – disse Tanya, terminando o café e se levantando. – Eu preciso ir. Enquanto os monstrinhos estão fora, queria limpar a estante de brinquedos. Sozinha, Chloe lavou as xícaras de café e colocou-as para secar. Não saberia dizer por que contara tudo aquilo a Tanya. Tinham se passado sete anos desde aqueles acontecimentos. Porém, de repente, lembrou-se do rosto daquele homem, um rosto bronzeado, arrogante, com nariz e bochechas pronunciados, esculpidos, e uma boca grande e sensual. Sob uns


cabelos loiros revoltos, os olhos verdes encaravam o mundo a distância, com desdém, como se o julgasse. Mas todo mundo, incluído o pai, o considerou culpado. Ao cometer adultério e enganar o irmão, foi obrigado a exilar-se, embora isso provavelmente não tenha sido duro para Darius Maynard, pensou Chloe. Ele sempre se manteve à margem. Willowford era muito pequena para ele. Mas é perfeita para mim, pensou Chloe, mordendo o lábio inferior. É um local decente, com habitantes decentes. Um lugar onde plantar raízes e criar uma nova geração. Foi um ótimo lar quando


eu era pequena, e lá conheci Ian. É um local seguro, arrematou. Sir Gregory faz parte daquele mundo, ela pensou. Trata-se de um homem esquecido, mas tão sólido quanto sua casa. Um pilar da comunidade, como se costuma dizer. E Andrew Maynard seguia os mesmos passos. Era um homem convencionalmente ainda mais bonito que o irmão mais novo, e muito educado. – Graças a Deus que eles não têm filhos – disse tia Libby, baixinho, quando o escândalo veio à tona. Mas Darius sempre fora diferente. Era a ovelha negra. Um saco de


surpresas. Sempre com um sorriso sarcástico no rosto. Meu Deus... olha como a pequena Chloe cresceu. Quem diria...? De repente, ela notou que agarrava a borda da pia com força, tanto que os seus dedos doíam. As lembranças podem ser duras. O melhor é deixar que tudo siga o seu curso natural. Concentre-se, disse a si mesma, impaciente, voltando à sala. É hora de esquecer tudo isso. Aquelas histórias eram antigas e deveriam permanecer escondidas no passado. Se não escondidas, pelo menos


ignoradas, como se Sir Gregory tivesse tido apenas um filho, e como se esse filho nunca tivesse se casado com a honorável Penelope Hatton, uma mulher que caíra em tentação. Ela parecia a coisa mais linda que eu vira na vida, pensou Chloe. Todos pensávamos a mesma coisa. E acho que sentíamos inveja dela. Mas tudo mudara. Hoje, sou eu quem está em busca de uma família junto ao homem que amo. Caso ela soubesse disso, seria a sua vez de sentir inveja. NÃO PARARA de chover desde que ela saíra de Colestone, mas o céu finalmente parecia clarear e um sol fraco surgia


entre as nuvens. Para sua surpresa, ficara muito triste ao deixar a casa dos Armstrong. Afinal de contas, passara os últimos anos dedicada a ela. Embora pudessem ser indolentes e ególatras, os Armstrong foram generosos à sua maneira, e Chloe gostava dos seus companheiros de trabalho. No carro, numa bolsa colocada no assento do carona, estava o relógio que a família lhe dera como presente de despedida, e Chloe quase fora às lágrimas ao agradecê-los, dizendo que o exibiria em local especial na sua futura casa.


– Quanto a você – ela murmurou a Tanya –, saiba que vou precisar de uma madrinha de casamento. – Eu adoraria – respondeu Tanya, também num murmúrio –, desde que não esteja presa por maus-tratos a gêmeos. A sua sucessora no trabalho já havia chegado – uma viúva de quarenta e poucos anos e aparência jovem. Ela fizera pouco caso dos sistemas computadorizados de Chloe, dizendo ter seus próprios métodos. Ao mesmo tempo, passara um dedo nas frestas de uma janela, procurando pó inexistente. A vida naquela casa, pensou Chloe, poderia ficar bem mais interessante no


futuro. Parou num bar à beira da estrada para comer um sanduíche de presunto e tomar um café, antes de encarar as duas horas finais de viagem. Animada com o que teria pela frente, Chloe mal podia comer. Ao tomar um segundo café, procurou o celular na bolsa. Ligou para tia Libby dizendo onde estava e a que hora chegaria. Embora sua tia parecesse estar como sempre, Chloe notou algo estranho no seu tom de voz. – Aconteceu alguma coisa? – ela perguntou, finalmente.


Libby Jackson hesitou, mas respondeu: – Você já falou com Ian? Avisou que está voltando para casa, e que dessa vez será para sempre? – Eu quero fazer uma surpresa, tia Libby. Você já sabe disso. – Sim, minha querida, eu sei – disse tia Libby, fazendo mais uma pausa. – Mas acho que uma mudança tão brusca de planos, algo que o envolve tão plenamente, merece ser avisado com antecedência. – Eu não concordo. A menos que ele esteja sofrendo de um grave problema de coração e possa morrer de susto –


disse Chloe, sorrindo. – Foi isso o que aconteceu? – Deu me livre – disse a tia. – Quando o vi pela última vez, Ian parecia mais forte que um touro. Mas eu não gosto dessas festas surpresas que as pessoas costumam organizar. Acho que divertem mais quem organiza do que quem as recebe. É minha opinião, minha querida. Tudo bem, pensou Chloe, digitando o número de Ian. Mas caiu na caixa de mensagem. Ele estaria no trabalho. Chloe deixou um recado e desligou. Tentou ligar para a casa dele, mas também caiu na secretária eletrônica.


Por culpa da minha tia, pensou Chloe, Ian estará esperando por mim. Acabouse a surpresa. Ela sorriu e guardou o celular, imaginando o sorriso no rosto de Ian quando a visse, o calor do seu abraço, o toque dos seus lábios sobre os dele. Ter esperado tanto valera a pena, pensou Chloe. E agora estava de volta, para sempre. Restavam alguns quilômetros pela frente quando a luz indicando falta de gasolina no tanque acendeu no painel do carro. O que era estranho, pois há quinze minutos estava com metade do tanque cheio.


Chloe franziu a testa. Qual seria a informação correta? Sem dúvida, teria de levar o carro à oficina do Sawley para que ele desse uma olhada. Por sorte, estava quase chegando à estrada principal e pararia num posto que havia logo à frente. Quando ela chegou, as três bombas estavam ocupadas. Chloe ficou na fila, esperando sua vez, mas desceu do carro para esticar as pernas. E foi então que viu, estacionado logo à frente, aquele carro com placa familiar. É o jipe do Ian, pensou, feliz. E estava com o capô aberto. Portanto, era


Ian quem estava de costas para ela, com as pernas metidas numa calça jeans. Chloe imaginou que ele notaria a sua presença e olharia para trás, mas parecia muito concentrado no que fazia. Ela se aproximou. Quando estava bem perto, esticou uma das mãos e acariciou seu traseiro e pernas. O homem deu um salto, xingando ao bater com a cabeça no capô. Ao mesmo tempo Chloe deu um passo para trás, rezando para que um buraco abrisse no chão e ela caísse bem no fundo da terra. Mas o chão permaneceu intacto, e lá


estava ela, de pé, com a boca aberta, assustada ao ver o homem que girava o corpo, com aqueles cabelos loiros revoltos e olhos verdes matadores. – O que foi isso? – perguntou Darius Maynard, num tom repleto de fúria. – Você ficou louca?


CAPÍTULO DOIS

CHLOE DEU mais um passo para trás, sentindo um calor invadir seu corpo, dos pés à cabeça, e talvez além. Meu Deus, eu quero acordar, ela rezava, frenética, imaginando que aquilo só poderia ser um pesadelo. Porém, como não podia falar, murmurou: – Você... você! O que você está fazendo com o jipe do Ian? – Uma pequena correção – disse ele, brusco. – Este jeep é meu há oito


semanas. Ian queria um modelo mais novo e eu comprei este. – E você está de volta há dois meses? – Seis, na verdade – respondeu ele. – Caso seja do seu interesse, srta. Benson. Ela ficou ainda mais corada, se é que isso era possível. – Eu... eu não sabia. O que estaria acontecendo? Ele não fora banido da cidade para sempre? Teriam se esquecido de tudo? Sir Gregory não parecia ser o tipo de homem de que aceita um filho pródigo de volta. E o que pensaria Andrew, o marido enganado? Acima de tudo, por que ninguém lhe


dissera nada? Por que Ian não comentou: “Sabe, eu vendi meu jeep, e para ninguém menos que Darius Maynard.” – Por que você saberia? – perguntou Darius, dando de ombros. – Está fora há muito tempo para saber o que acontece por aqui. – Eu estava trabalhando. – Como a maior parte das pessoas – disse ele. – Ou está querendo valorizar o seu esforço? Não vou entrar nesse jogo, pensou Chloe, engolindo a resposta impetuosa que tinha na ponta da língua. Não vou me nivelar por baixo. Claro, ele tem razão. Por mais que eu


questione ou ache estranho, a sua volta não é da minha conta, e vou me lembrar disso. – Claro que não – ela respondeu, olhando para o relógio. – Aliás, preciso ir embora. – E respirou fundo antes de se desculpar: – Eu... sinto muito pelo que aconteceu. Foi um grande engano. – Deve ter sido mesmo – disse ele. – Afinal de contas, nós nunca chegamos a esses termos, certo? Aliás, eu não sabia que você tinha tanta intimidade com Ian... – Você também parece ter o que fazer – disse ela, virando de costas e se despedindo: – Adeus, sr. Maynard.


Ela entrou no carro, ligou a ignição e seguiu em direção à Willowford Road. Estou tremendo como vara verde, pensou Chloe, e isso é ridículo. Sim, eu banquei a idiota, mas se tivesse sido qualquer outra pessoa tudo terminaria bem, sem problemas. De todas as pessoas do mundo, Darius era a última que ela queria ver. Mas lá estava ele, bem no seu caminho. Chloe queria ignorá-lo, mas morariam na mesma cidade pequena, e isso seria impossível. Por outro lado, ela pensou, a volta de Darius poderia ser temporária. Ele sempre ficava meses fora de casa e


talvez não planejasse passar muito tempo por lá. Além do mais, Chloe estaria muito ocupada planejando seu casamento e sua nova vida para pensar na vida alheia. Tinha rodado quase dois quilômetros quando a luz da gasolina voltou a acender e o carro começou a diminuir de velocidade. Xingando baixinho, Chloe parou no acostamento. Quando estava no posto, só pensara numa coisa: fugir. E foi o que fez, claro. Ela poderia usar o celular, enviar uma mensagem ao tio Hal ou a Ian, mas isso faria com que se sentisse uma idiota


pela segunda vez no mesmo dia, destruindo os planos de uma volta triunfal a Willowford. O melhor seria voltar andando. Porém, ao colocar a mão na maçaneta da porta, viu pelo retrovisor que aquele mesmo jipe se aproximava, passando ao seu lado. Sentiu um grito silencioso se aproximando da garganta. Darius parara, saíra do carro e se aproximava. Não, não, não! Aquilo não podia estar acontecendo. Não era possível. – Algum problema? – Não, nenhum problema – ela


respondeu. – Eu só... estava pensando. – Pena que não tenha pensado em abastecer quando estava no posto – comentou Darius, ácido. – Imaginei que tivesse parado para isso, não para me cumprimentar daquela forma estranha. Aliás, por que você parou? – Não se preocupe – respondeu Chloe. – Eu me viro. – Vai tentar encontrar petróleo num desses campos, talvez? Eu nunca deixaria uma donzela desamparada. – Sobretudo quando você causou... – Não seja malvada, srta. Benson. Que comportamento tão pouco apropriado para uma pessoa que


pretende se casar com o veterinário da cidade. Ela mordeu o lábio inferior, antes de dizer: – Eu e Ian Cartwright estamos noivos. – Meus Deus! E ele sabe disso? – O que você está querendo dizer? – perguntou Chloe, furiosa. – Nós somos noivos e vamos nos casar no final do verão. – Você é quem sabe... – disse ele, em tom suave. – Mas espero que não esteja confundindo as coisas. Você já não é uma adolescente para acreditar em contos de fadas. – Como você ousa... Como?... Suma


daqui, quero ficar em paz. – Mas antes quero oferecer ajuda a uma vizinha – disse Darius, aparentemente tranquilo. – Este jipe é a diesel, como você deve se lembrar, mas eu tenho um galão na mala, e acho que uma caminhada até o posto de gasolina, sob essa brisa suave da tarde, seria ótima para acalmar o seu ânimo. Ele fez uma pausa, depois perguntou: – O que você me diz? Aceita ou prefere esperar a passagem de outro cavalheiro? Ela preferia dizer que não, mas mordeu o lábio e aceitou, dizendo: – Obrigada.


– Essa mordida de lábio deve ter doído – disse ele, em tom de brincadeira, antes de voltar ao jipe para pegar o galão. Ele estava exatamente igual, pensou Chloe, espantada, observando-o caminhar. Aqueles sete anos não o afetaram em nenhum sentido. Mas como isso seria possível? Ele não tinha consciência, não se arrependia de tudo o que causara, das vidas que arruinara. Ela pegou o casaco no banco do carona e saiu do carro. Enquanto amarrava o sapato, Darius voltou com o galão. Ele olhou para a quantidade de


bagagem e assobiou, dizendo: – Meu Deus, a rainha está de volta a Willowford. Você realmente pretende voltar de vez? – Pretendo – respondeu Chloe, deixando o casaco em cima da mala mais secreta. Ao fazer isso, porém, as suas mãos tremiam. – Tenho muitas razões para voltar. – E eu não... – disse ele, sorrindo, mas com um olhar duro. – Aliás, é isso que você quer sugerir, certo? – Isso não é da minha conta – respondeu Chloe, esticando a mão para pegar o galão. – Vou te devolver, pode ficar tranquilo.


– Pelo correio, imagino... – disse ele, dando de ombros. – Não se preocupe, eu tenho outros. E agora, sinto muito, mas preciso ir embora – disse Darius, caminhando em direção ao jipe, mas depois voltando. – Que tenha um ótimo reencontro com seus amigos e família, srta. Benson – disse ele, em tom suave. – No entanto, quanto à paz que você mencionou... eu não contaria com ela, pois você não é muito de paz, certo? No fundo, eu sei que não é. Mas acho que você ainda não percebeu. Ele entrou no jipe e deu a partida, deixando-a de pé na estrada, com o


coração saltando no peito. – VOCÊ PERDEU peso – disse tia Libby. – Não – respondeu Chloe, abraçandoa novamente. – Peso exatamente o mesmo que há um ano. Juro. Ela deu uma olhada na confortável cozinha, com sua grande mesa de madeira e o armário que guardava a coleção de porcelana azul e branca da tia, depois suspirou. – Meu Deus, como é bom estar em casa. – Ninguém a obrigou que estivesse fora – respondeu tia Libby, pegando a água que colocara para ferver e enchendo o bule.


O seu tom era de brincadeira, mas o seu olhar era sério. Chloe deu de ombros. – Eu recebi uma oferta irrecusável. Você sabe disso. Além do mais, aprendi muito vendo como vivem os milionários. – Este vilarejo vai parecer muito acanhado comparado ao mundo dos ricos. – Muito pelo contrário. Eu pertenço a este lugar – disse Chloe, fazendo uma pausa antes de continuar. – Aliás, Ian ligou? Eu aceitei o seu conselho e telefonei, avisando que estava chegando. – Acho que ele está em Farsleigh hoje, onde o sinal de celular é péssimo.


A tia passou-lhe um prato com pão de passas. – Que maravilha – disse Chloe, pegando um pedaço do pão e sorrindo, querendo esconder sua decepção com Ian. – Você preparou tudo isso para receber a filha pródiga? – E fez mais uma pausa, respirando fundo. – Como vão as coisas por aqui? Como vão todos? – Ela tentava soar tranquila. – Alguma novidade importante? – Nada de mais – respondeu a sra. Jackson, servindo o chá. – Acho que Sir Gregory finalmente está melhor. Pobre homem... – disse ela, suspirando. – Que tragédia! Não sou uma mulher


supersticiosa, mas essa família parece estar amaldiçoada. Chloe a encarou, e o sorriso que antes estampava no rosto desaparecera. – O que você está querendo dizer? Tia Libby parecia surpresa, e respondeu: – Eu estava pensando no Andrew, claro... Morrer naquele acidente estúpido... – Andrew Maynard... morto? – perguntou Chloe, encarando a tia. – Não pode ser! – Sim, minha querida. Você não leu nos jornais? Aliás, eu contei numa das minhas cartas.


Ela contara? Chloe se sentiu culpada, mas a verdade é que nunca lia as cartas da tia por completo. Ao saber que todos em casa estavam bem, deixava o longo texto de lado. – Eu... acho que perdi alguma das suas cartas. O que aconteceu? – Ele estava em Cairngorms, caminhando sozinho pelas montanhas, como sempre. Aparentemente, uma pedra rolou e ele foi atingido – disse tia Libby, tremendo. – Um horror. – E Sir Gregory? Tia Libby fez que não, dizendo: – Foi um choque. Chloe pegou sua xícara de chá e


tomou um gole. Tentou manter a voz em tom normal ao perguntar: – Acho que vi Darius Maynard quando parei no posto. Foi por isso que ele voltou? Ele é o herdeiro direto agora? – Acho que voltou mais por estar preocupado com o pai do que pela herança – respondeu tia Libby, com uma pitada de reprovação, e Chloe ficou corada. – Claro. Sinto muito, mas eu nunca... gostei muito dele. – Aliás, eu e seu tio somos profundamente gratos por isso. Darius sempre foi muito bonito, atraente... – Ela


suspirou, dizendo: – Mas a verdade é que cuidou muito bem de Sir Gregory. Contratou uma menina charmosa como enfermeira, e o velho homem parece mais tranquilo. Na verdade, ele reviveu. E o sr. Crosby, o corretor de imóveis, acha que Darius está se saindo bem no controle do patrimônio. Talvez tenha mudado nos anos que esteve fora. Eu não teria tanta certeza, pensou Chloe, pegando mais um pedaço do pão com passas. – E a sra. Maynard.... Penny. Eles ainda estão juntos? – Ninguém jamais ousou perguntar. Ela não mora naquela casa e não esteve


no funeral de Andrew nem na missa. – Tia Libby fez uma pausa, voltando a servir chá à sobrinha. – Aparentemente, a sra. Thursgood, da agência de correios, perguntou a Darius se ele estava casado... Sim, ela seria capaz de perguntar... Mas ele respondeu com um sorriso, dizendo: “Meu Deus, claro que não!”. A verdade é que a gente não sabe de nada. – Não seria uma surpresa – disse Chloe, finalmente. – Ele nunca pareceu o tipo de homem que se casaria. – Por outro lado, ele nunca se viu na posição de principal herdeiro antes... e isso talvez tenha mudado as coisas.


– Talvez – disse Chloe, dando de ombros. – Quem sabe ele esteja interessado nessa charmosa enfermeira... – Em Lindsay? – perguntou a tia, soando quase surpresa. – Não acredito que ela queira... – E quem ia querer? – perguntou Chloe, servindo-se de um pedaço de pão e um pouco de geleia de morango. – Se eu continuar comendo tanto, vou estar como uma baleia no dia do casamento. Tia Libby olhou para a sobrinha, depois para o prato, dizendo: – Que bobagem. Acho que você ficaria bem com uns quilos a mais. Os homens de verdade não gostam de


mulheres esqueléticas. Isso vale para tio Hal, pensou Chloe. Eles eram incríveis, a prova viva de como fazer um casamento dar certo. Caso o fato de não terem tido filhos tenha sido uma tristeza, nunca se queixaram, mantendo a casa e os corações eternamente abertos a Chloe desde o dia em que sua mãe, irmã de Libby, morreu de um súbito ataque de trombose, dois dias após ter dado à luz. Seu pai, um engenheiro da indústria petrolífera, estava voltando da Arábia Saudita para ver a esposa e conhecer a filha quando a tragédia aconteceu. Devastado pela perda, e com dois anos


de contrato de trabalho pela frente, seria impossível cuidar da recém-nascida. Para piorar a situação, ele era filho único e não tinha experiência com crianças. Combinaram que Chloe passaria a morar com ele quando o homem encontrasse um trabalho estável, mas um segundo contrato se seguiu ao primeiro. Numa conversa com os Jackson, notaram que ele se transformara num espírito livre, que gostava de viver assim, e que o máximo que poderia fazer era contribuir financeiramente para cuidar da filha. Muito depois, souberam que


conhecera uma americana e que se casaria novamente, e os tios ficaram preocupados, imaginando que perderiam a guarda de Chloe, mas isso nunca aconteceu. A noiva do seu pai reagiu mal à ideia de cuidar de uma filha do seu primeiro casamento, e Chloe permaneceu em Willowford. Certo dia, foi convidada a ir à Flórida para ver o pai e conhecer a madrasta, além dos gêmeos nascidos um ano após o casamento, mas a visita não foi agradável e nunca se repetiu. Daí em diante Chloe não passava de um nome num cartão de Natal. Ele


sempre preferiu esquecer a data do seu nascimento, mas Chloe não poderia culpá-lo, pois as lembranças eram dolorosas. Porém, em algum momento, ela teria de decidir quem a levaria ao altar: o pai verdadeiro ou tio Hal, que sempre a amara incondicionalmente. Isso seria duro. Quando terminou de tomar o chá, deixou a xícara e os talheres no lava louça, que ligou, e depois foi ver as mensagens no seu celular, mas não havia nada. Chloe suspirou, perguntando à tia: – Quer uma ajuda com o jantar ou


será melhor que eu vá arrumar as minhas coisas no quarto? – Sim, vá arrumar suas coisas, minha querida – disse a tia, com um tom estranho na voz. – Nós redecoramos um pouco o andar de cima, fizemos algumas renovações, você verá as novidades. Espero que não se importe. – Claro que não. Estou curiosa! – disse Chloe. No entanto, ao abrir a porta do quarto, sua reação foi de susto. Estava completamente diferente daquele ambiente aconchegante que ela adorava. O carpete rosa, pelo qual chorara para ganhar na adolescência,


desaparecera, sendo substituído por outro em tons de terra. O papel de parede colorido fora trocado por outro cor de creme, e as cortinas que ela mesma fizera, para combinar com o carpete, também tinham desaparecido. As novas eram azuis, no mesmo tom da colcha posta na cama de solteiro. A mobília familiar fora posta para fora, mas a pequena lareira continuava presente, junto a um armário também cor de creme e uma penteadeira com espelho, ao lado de uma estante antes usada para guardar os livros, brinquedos e demais objetos de Chloe. Era um quarto novo, alegre e muito


bonito, mas com aparência de quarto de hóspedes, pensou Chloe. Não restara quase nada da sua vida anterior por ali. E o banheiro, do outro lado do corredor, também mudara muito. A grande banheira de metal fora substituída por outra mais moderna, branca, que brilhava graças aos acessórios cromados. E um cubículo fora instalado no espaço restante, com uma ducha poderosa. As paredes e pisos, por sua vez, tinham sido recobertos de azulejos turquesa e branco. Mas por que tanta mudança? Os tios tinham ganhado na loteria?


Chloe pensava em tudo isso enquanto voltava ao quarto que já não era seu, embora a janela permanecesse no mesmo lugar e a vista para os campos continuasse exatamente igual. Meu Deus, pensou Chloe, impaciente. Você é uma adulta, e não uma criança para querer carpete rosa, uma coleção de corujas de porcelana e pôsteres de famosos. As coisas mudam. Aliás, você está a ponto de transformar completamente sua vida, então chega de reclamar, concentre-se. Ela desfez as malas com calma, depois guardou-as sob a cama e desceu.


Tia Libby tinha uma expressão tensa quando Chloe entrou na cozinha. – O que aconteceu? Vocês participaram de um desses programas de reformas de casa da televisão? Ficou incrível. Chloe sabia que seu sorriso não era tão entusiasmado, mas a tia parecia aliviada. – Não, minha querida. Eu e seu tio temos outro motivo para redecorar a casa. Nós resolvemos vender... – Vender? – O sorriso desapareceu do rosto de Chloe, sendo substituído por uma expressão de choque. – Vocês vão... vender esta casa? Meu Deus,


aconteceu alguma coisa? É culpa da crise? – Não, não, muito pelo contrário. Temos bastante trabalho, e esse é o problema. Seu tio já não é tão jovem... Nós fomos muito felizes aqui e ele sempre gostou do que faz, mas está pensando seriamente em se aposentar. Quer ter tempo para se dedicar a outras coisas. Pescar, por exemplo. Talvez volte a jogar golfe. E nós adoramos fazer caminhadas. Aliás, algumas pessoas já vieram ver a casa. Um dos amigos de Ian, dos tempos da faculdade, esteve por aqui. – Quer dizer que não se trata de um


plano para o futuro, certo? – perguntou Chloe. – Tudo indica que é um plano real, imediato. – Não é tão imediato, e você sempre terá um espaço, onde quer que a gente esteja. Nunca duvide disso. Mas agora você tem uma vida a seguir, e estamos felizes e orgulhosos por isso. – Mas não estão pensando em se mudar da cidade, certo? – perguntou Chloe, sentindo como se perdesse o chão. – É provável... – respondeu a tia. – Mas sempre pensei que vocês adoravam Willowford. – É um bom lugar – respondeu a tia,


fazendo que sim. – E foi ótimo para nós, mas não queremos terminar os nossos dias aqui. Já pedimos que avaliassem a casa, e com o dinheiro que vamos ganhar poderíamos nos mudar para qualquer outro lugar – disse tia Libby, sorrindo. – Uma aventura... – Certamente – disse Chloe, concordando. – Certamente... E eu... eu também tenho uma aventura pela frente, e não deveria julgar meus tios. – Começamos a fazer uma limpeza, como costumam dizer – comentou sua tia. – Ao longo dos anos juntamos muita coisa, muito mais do que precisamos, e


tem muita gente necessitada ao nosso redor... Ah, mas não doamos as suas coisas, minha querida. Guardamos tudo em caixas. Estão separadas, etiquetadas. Serão suas quando quiser levar. Vou ter espaço para guardar tudo na casa nova, pensou Chloe. Mas jogaria muita coisa fora, menos o urso de pelúcia que ganhara do pai e os livros da infância. Ela esperou pelo suspiro que sempre deixava escapar ao pensar no seu futuro com Ian, mas daquela vez ele não veio. Aliás, sua chegada por ali não fora como ela esperava. Claro que tudo fora um pouco estragado com aquela


confusão no posto de gasolina, e Chloe ainda não se recuperara completamente. Vou estar melhor quando me encontrar com Ian, disse a si mesma, e naquele instante o telefone da casa começou a tocar. – Deve ser para você – disse tia Libby, preparando a carne para o bolo salgado que colocaria no forno. – MAS O que aconteceu com o trabalho dos seus sonhos? – perguntou Ian, logo que terminaram os “que bom poder conversar com você”. – Foi demitida? Chloe estava assustada com aquela recepção. – Não, claro que não. Muito pelo


contrário. Eles queriam que eu viajasse ao sul da França com a família. – E você trocou essa viagem por Willowford? Incrível... Não, pensou Chloe. Eu troquei por você. Mas respondeu: – Era hora de vir para casa, de voltar para a vida real. Aliás, a que hora poderíamos nos ver hoje à noite? Ele suspirou e respondeu: – Hoje eu não posso, Clo. Tenho um encontro com um grupo de criadores de pônei, e preciso estar presente no lugar da sra. Hammond. Você poderia ter me avisado antes que chegaria... – E avisei – ela respondeu, à beira


das lágrimas. – Mas o que eu queria realmente era fazer uma surpresa. – E fez – disse ele. – Por que não reserva uma mesa para amanhã à noite no Willowford Arms? Por que não tomamos um drinque quando terminar o encontro de hoje à noite? Aliás, por que não nos vemos agora mesmo, nem que seja rapidamente? Com um sorriso forçado, ela respondeu: – Ótima ideia. – Eu te pego pouco antes das oito – disse ele, ríspido. – Preciso desligar. Estou esperando um telefonema dos


Crowford. O cachorro deles está a ponto de ter uma ninhada e parecem um pouco preocupados. Ian trabalhava 24 horas por dia, pensou Chloe ao desligar. Era uma vida parecida à do tio, e ela teria de se acostumar caso quisesse ser sua esposa. Ser veterinário é como ser médico, exceto que os pacientes não dizem o que sentem e sua carreira é baseada na confiança e na disponibilidade. Durante toda a vida, tio Hal cancelou vários jantares e encontros com amigos por conta do trabalho. Aquilo não era o fim do mundo. Amanhã será um novo dia, pensou


Chloe. Tudo terminarรก bem.


CAPÍTULO TRÊS

CHLOE SE deitou na banheira, sentindo o cheiro de óleo de gerânio que exalava da água quente. Em menos de duas horas estaria com Ian, e passaria o resto do tempo se arrumando como nunca antes na vida. Quero estar irresistível, ela pensou, sorrindo. Ao mesmo tempo, a sua volta não estava sendo tão fácil quanto ela imaginara, embora o abraço afetuoso do tio, no dia anterior, tenha sido um


bálsamo para a alma. Os dois pareciam ter entendido que Ian estava preso num compromisso e que por isso Chloe jantaria com eles. – Aquele cachorro é lindo, mas pode ser traiçoeiro. Espero que essa ninhada seja a primeira e a única – foi o comentário de tio Hal, que ao acordar, ainda na mesa do café da manhã, metendo o jornal dobrado no bolso do paletó, perguntou a Chloe: – O que você vai fazer hoje? – Passar o tempo, eu acho – respondeu Chloe, sorrindo. – Você poderia ir à casa de Lizbeth Crane, se quiser – disse o tio. – Ela


machucou o punho trabalhando no jardim e Jack está em Bruxelas. Você poderia levar a cadela deles para dar um passeio. – Claro – respondeu Chloe, sem pensar duas vezes. – Um passeio no campo com uma cadela tão adorável quanto Flare é exatamente o que eu preciso. Passarei por lá ao sair da agência dos correios. E seria uma experiência e tanto, pensou Chloe. – Quer dizer que você está realmente de volta? – perguntou a sra. Thursgood, fungando o nariz. – Eu sempre pensei que nos tivesse abandonado para


sempre. Imagino que tenha voltado por conta daquele jovem veterinário, certo? Por aqui, todo mundo diz que esse casamento já deveria ter acontecido. Não demore muito para se decidir, menina. Você não vai ser tão jovem daqui a algum tempo, e os homens fogem quando percebem isso. Chloe, percebendo que todos os que estavam na fila escutavam a conversa atentamente, pagou os selos e foi embora. No entanto, teria mais pela frente... Como precisava fazer compras, antes de ir à casa da sra. Crane, foi à Main Street. E ouviu algumas pessoas


repetirem: – Nossa, Chloe, como você está diferente! Porém, ao chegar à casa da sra. Crane, foi recebida com um sorriso delicioso, acompanhado de café e biscoitos caseiros, além do carinho de Flare. Mas... O passeio fora maravilhoso, o sol aquecia as suas costas, e Flare, abanando o rabo, seguia ao seu lado. Voltando à casa, já no portão, Chloe ouviu o barulho de um cavalo se aproximando. Deu uma olhada para trás e viu que


um lindo homem estava montado no cavalo. Ao perceber quem era aquele homem, ficou com um nó na garganta. – Bom dia – disse Darius, parando o cavalo e acariciando a crina. – Fazendo as visitas de praxe, srta. Benson? Imaginei que estivesse se exercitando em outro lugar esta manhã... num palheiro, com o seu prometido, por exemplo. Ela ficou furiosa e perguntou, em tom frio: – Você sempre precisa fazer comentários desagradáveis? – Muito pelo contrário, estou me referindo a uma atividade extremamente


agradável – ele respondeu, sorrindo. – Mas talvez você não considere... O que seria uma grande pena, uma perda de tempo – disse ele, olhando para a curva dos seios de Chloe, depois para sua cintura. Percebendo que ficava mais corada, Chloe curvou o corpo para segurar a coleira de Flare. – É questão de ter ou não interesse... – disse ele. – Mas por que você está passeando com o cachorro de Lizbeth Crane? – Estou sendo uma boa vizinha – respondeu Chloe. – Conceito que você não deve entender muito bem.


– Não mesmo, mas vou tentar deixar bem claro nos próximos meses – disse ele, fazendo uma pausa. – No entanto, se o amor verdadeiro realmente operou milagres e você está tentando ser uma boa samaritana, espero que estenda o seu raio de operações... Chloe abriu os lábios, querendo responder à altura, mas ele ergueu uma das mãos, dizendo: – Por favor, quero que me escute. Eu não tenho muito tempo para passear com Orion, especialmente porque costumo cuidar do cavalo do meu irmão, Samson... Mas você era uma ótima amazona nos velhos tempos, e se quiser


levar Orion para passear de vez em quando eu seria extremamente grato. Chloe o encarava, assustada. Nunca pensou que aquele homem poderia sentir gratidão. Nunca imaginou que fosse dado a elogios. – Sinto muito – disse ela –, mas será impossível. – E eu posso saber por quê? – Acho que você se esqueceu, mas eu preciso organizar um casamento – ela respondeu. – Vou estar muito ocupada. Ele pousou umas das mãos na cintura, parecendo meditar ao encará-la, e disse: – Não, eu não me esqueci. Mas estará ocupada o dia inteiro com isso? Quantas


centenas de pessoas pretende convidar? – Isso não é da sua conta – respondeu Chloe. – Aliás, Arthur ainda deve estar na sua casa, certo? Por que ele não leva Orion para passear? – Infelizmente, a artrite não permite. Mas ele ficaria arrasado caso eu o aposentasse e contratasse alguém mais jovem. Além do mais, e por razões óbvias, meu pai não gosta de mudanças, por mínimas que sejam. Chloe mordeu o lábio inferior, e disse: – Claro... claro. Aliás, eu fiquei muito triste quando soube do Andrew. Eu não sabia... – Ela respirou fundo. – Que


tristeza... – Além de triste, foi algo completamente estúpido e totalmente desnecessário – disse ele, com expressão dura. – Você não acha que está sendo muito duro... Seja lá o que tenha acontecido, ele era seu irmão. – Sim, eu talvez esteja sendo duro – ele respondeu, em tom frio. – Você tem razão. Este não é o momento de discutir se Andrew tinha ou não motivo para arriscar a vida em atividades ridículas e perigosas. No entanto, saiba que mantenho de pé o convite para que leve Orion para passear. Gostaria que


pensasse a respeito... que não recusasse simplesmente porque eu pedi. Se quiser, basta ligar para minha casa e Arthur deixará tudo preparado para você. E não se esqueça que Orion também ficará muito grato. Ele bateu com os calcanhares no cavalo e partiu. Chloe ficou olhando para ele, com a cabeça confusa. Claro que não poderia passear com Orion, mas a verdade é que o cavalo continuava incrivelmente lindo, e pensar em passear com ele pelos campos era uma grande tentação... No entanto, teria que resistir. Durante o dia, repetiu a mesma coisa


várias vezes, e ainda repetia ao sair do banho e secar o corpo, passando o hidratante que guardava numa linda caixa acetinada um presente da família Armstrong no último Natal. E continuava repetindo ao vestir uma linda calcinha de renda, a sua preferida, e ao perfumar braços e seios com uma colônia suave, mas deliciosa. E também ao maquiar-se e pentear o cabelo, formando ondas ao redor do rosto. Finalmente, escolheu um lindo vestido de crepe cor de creme, com um decote em V que deixava claro o fato de não estar usando sutiã. Muito descarado?, ela pensou,


preocupada, olhando-se no espelho. Ou estaria simplesmente perseguindo um objetivo, usando as armas necessárias? Na verdade, o que queria era deixar uma mensagem clara para Ian: era completamente sua. É absurdo sentir-se mal por algo que parece normal e correto, pensou Chloe, vestindo as sandálias de salto alto no mesmo tom dos brincos lápis-lazuli que pendiam das suas orelhas. No entanto, por algum motivo, parecia impossível não pensar assim. Ian estava na sala de estar, conversando com seus tios. Quando ele girou o corpo para responder ao “boa


noite” de Chloe, ficou de boca aberta. – Nossa, Clo, você está linda... parece saída de uma capa de revista. – Você também está lindo – ela respondeu, e não se referia apenas à roupa, mas também ao seu sorriso. Ian estava vestido para matar. Aliás, aquela seria a noite mais importante da vida deles dois. Vai dar tudo certo, pensou Chloe. Será maravilhoso. E ergueu o rosto, oferecendo os lábios a Ian, mas ele beijou sua bochecha. – Tenham uma ótima noite – murmurou tia Libby, abraçando-a,


quando Ian parou para dizer algo mais ao tio Hal. – Não vou esperar acordada. Chloe notou uma pitada de apreensão no sorriso da tia e devolveu o abraço, dizendo: – Não se preocupe, tia. Eu já cresci. Sei o que estou fazendo. Quando Chloe era adolescente, o Willowford Arms não passava de um pub de cidade do interior que oferecia boa cerveja, jogo de dardos e uma pista de boliche. Com o passar dos anos, sob várias administrações diferentes, o foco mudara. O salão ainda era tradicional, mas fora levemente reformado e


oferecia novidades. O menu não mudara muito, mas os ingredientes eram sempre frescos e a qualidade da cozinha recebera elogios em revistas locais e guias de restaurantes. Por isso, mesmo no meio da semana, as mesas vazias eram poucas. A equipe era de funcionários locais, e todos pareciam felizes ao rever Chloe. Talvez um pouco surpresos. Já Ian, notou Chloe, não era encarado com o mesmo entusiasmo. – A carne de porco afelia que o senhor comeu na semana passada continua no menu – uma das atendentes


avisou a Ian, levando-os à mesa, onde Chloe ficou surpresa ao ver que Ian pedira champanhe gelado. – Vejo que você fez algum planejamento – disse Chloe, enquanto a atendente servia o champanhe. – Aliás, que ótima ideia! – Precisávamos de algo especial para festejar a sua volta – disse Ian, brindando. – É muito bom te ver novamente, Clo. Faz tanto tempo... – Eu sei – disse ela, sorrindo. – Mas agora eu prometo: voltei para sempre. No entanto, preciso admitir que foi um choque saber que os meus tios reformaram a casa e que pretendem


vendê-la... – Eu também fiquei surpreso – admitiu Ian. – Mas... as coisas mudam. As pessoas também. O mundo funciona assim. E o seu tio, que sempre cuidou de tudo com tanta dedicação, merece um descanso. Claro, mas a verdade é que eu vou ficar sem teto. Você tem alguma sugestão para resolver o problema? No entanto, era cedo para ser tão direta, e Chloe resolveu comentar, em tom natural: – Fico feliz por eles. Ela ensaiara tantas vezes aquele encontro... e em todas as vezes o


imaginava dizendo: “É maravilhoso que esteja de volta, meu amor. Quero que fique comigo para sempre.” E depois pegando uma caixinha no bolso, uma caixinha de veludo... – Estou pensando em provar essa carne de porco tão famosa... – disse Chloe, lendo o menu. – Com acompanhamento de vegetais. – Boa escolha – disse ele. – Eu comi quando estive aqui com um futuro parceiro comercial. Queria convencê-lo de que não estaria se distanciando tanto da civilização... – E acho que fez bem. – Espero que sim. Ele é um cara


legal, e a esposa dele também. Ele é casado?, pensou Chloe, ao dizer: – Acho que eu deveria conhecê-la. – Claro – disse Ian. – Tenho certeza que ele está interessado em comprar a casa dos seus tios. Ele e Viv têm dois filhos, e um terceiro a caminho. Precisam de espaço. – Parece ótima ideia – disse Chloe, tentando ignorar o ressentimento num canto da sua mente, pois aquela casa também poderia ser ótima para sua vida com Ian. Eles também precisariam de espaço, e pelas mesmas razões. Ian tomou mais um gole de


champanhe, sentado naquela mesa à luz de vela, e pediu água mineral à atendente. – Não quer tomar álcool porque vai dirigir? – perguntou Chloe, pedindo uma taça de vinho tinto da casa. – Que pena, pois a noite está ótima, poderíamos caminhar. Aliás, sua casa fica bem mais perto daqui do que a casa dos meus tios... – Caminhar significaria passar por várias cortinas com olhos nos espiando – disse ele. – Não, melhor não. Um carro sempre oferece a ilusão de privacidade. – Aliás – disse Chloe –, eu soube que


você vendeu o jipe a Darius Maynard. – Ele estava procurando algo mais utilitário, e não os carros esportivos que sempre gostou de ter... Por isso resolvi vender. – Entendi... – disse ela. – Mas parece estranho... É estranho vê-lo de volta, como se nada tivesse acontecido. Ian deu de ombros. – O pai dele deve ter concordado, Clo. É um problema familiar, não temos nada a ver com isso. – Claro que não – concordou ela, brincando com a faca. – E entendo que Sir Gregory sofreu um baque. – E que baque... Mas dizem que está


se recuperando, embora tenha os seus momentos bons e maus. – Que bom. Eu sempre gostei dele, embora às vezes desse um pouco de medo – disse Chloe, fazendo uma pausa. – Eu costumava ir à casa deles na adolescência. Eu lia para a sra. Maynard, que estava doente. – Por quê? – Ganhei uma competição de poesia na escola, e ela era a juíza. Eu gostava dela. Era muito doce. Darius também passava um bom tempo ao lado da mãe. Eu sempre notei que era o seu predileto. Que bom que ela não viu a transformação do filho. Não viu o que


ele fez com o irmão. – Chloe mordeu o lábio. – A traição é uma coisa terrível. – É mesmo – comentou Ian. – Mas não conhecemos as circunstâncias. Talvez eles não tenham conseguido evitar. Quando os pratos chegaram, a conversa mudou de rumo, passaram a falar sobre a comida. Ian tinha razão sobre o porco, pensou Chloe, ao provar o primeiro pedaço. A carne fora cozida com vinho e viera à mesa acompanhada de arroz e vagem. De sobremesa, ela escolheu um mousse de chocolate preto com calda de vinho, e Ian comeu queijo e bolachas. – Você poderia ter pedido um pudim,


pois assim dividiríamos, como nos velhos tempos – disse Chloe. Ele abriu um sorriso tímido, dizendo: – Perdi a prática, eu acho... Pela milésima vez na mesma noite, Ian pegou o celular para ver se recebera alguma ligação. Que hábito mais chato, pensou Chloe, tomando a última colherada de mousse. – Tio Hal ficou de receber as suas chamadas esta noite, certo? – ela perguntou. – É verdade – ele respondeu, guardando o aparelho. – Mas estou esperando notícias da Kirsty, a cadela dos Crawford. Ela é ótima... ganha todos


os concursos, e talvez seja a sua única cria. Espero que dê tudo certo. Chloe ergueu as sobrancelhas, perguntando: – Mas ela não deu à luz ontem? – Foi um alarme falso – respondeu Ian. – No entanto, poderá acontecer a qualquer momento, e eles querem a minha presença, caso surja algum imprevisto. – Ian fez um sinal à atendente, perguntando: – Quer um café? Chloe respirou fundo, reunindo toda a coragem que precisava, antes de perguntar: – Por que não tomamos café na sua casa? O jantar foi maravilhoso, mas este


lugar é um pouco público para o nosso reencontro, não acha? – Chloe curvou o corpo sobre a mesa, tomando as mãos de Ian. – Precisamos passar mais tempo juntos... para conversar. – Claro que sim, e eu quero fazer isso – disse ele, imediatamente. – Mas não esta noite, Clo. Para começo de conversa, minha casa está uma bagunça. E... a gente não têm contato há um ano. Eu quase não recebi notícias suas. Aliás, estar do outro lado do país não ajudou muito, e nós dois estávamos muito ocupados. No entanto, você apareceu do nada e, francamente, essa era a última coisa que eu esperava acontecer.


Notando certa apreensão no rosto de Chloe, Ian disse: – Não que tenha sido ruim. Foi maravilhoso te ver novamente. Por favor, acredite no que estou dizendo. Mas devemos ir com calma... Temos que nos conhecer novamente.... antes de qualquer coisa. No silêncio que se seguiu à fala de Ian, Chloe podia ouvir o seu coração saltando no peito... Um alarme! A situação era terrível, tudo parecia fora de lugar. Os homens fogem quando percebem isso... As palavras da sra. Thursgood retumbavam na sua mente. Mas não,


aquilo não poderia estar acontecendo... não com eles dois... Chloe afastou as mãos, recostando-se na cadeira. Ao mesmo tempo, abriu um sorriso tímido que deveria demonstrar calma e assombro ao mesmo tempo. Ela não queria que Ian notasse o choque que sentira. – Na verdade, acho que você tem razão – disse ela, tentando soar tranquila. – Vai ser mais inteligente ir com calma. E poderia ser excitante. – Chloe fez uma pausa, antes de dizer: – Sei que você está lotado de trabalho. E eu... eu quero começar a procurar algo novo. Quanto ao café, prefiro


descafeínado. Aliás, só mais uma coisa. Para seguir na nossa linha, quando a conta chegar, eu faço questão de dividir. Tudo o que ela queria era sumir dali, carregando a bolsa e o xale azul e dourado que levara para se proteger do frio. Mas aquele encontro marcado pelo destino ainda não chegara ao fim. Ao se levantar da mesa, a primeira pessoa que viu, sentada ao lado da janela, foi Darius Maynard. Ele conversava, aparentemente de forma íntima, com uma menina que ela nunca vira antes, magra e muito atraente no seu vestido vermelho sem manga, com os cabelos loiros presos num coque.


Darius também a vira. Aliás, Chloe ficou com o coração na boca ao notar que ele se levantava da mesa, sorrindo. – Que ótima surpresa. Eu e Lindsay fomos ao cinema em East Ledwick e na volta resolvemos parar para tomar um drinque. Vocês querem se sentar conosco? – Eu agradeço, mas se você não se importa prefiro recusar o convite – respondeu Chloe, pois não queria que Darius sequer imaginasse as coisas que ouvira de Ian sobre o seu relacionamento nem expor-se à possível curiosidade daquela menina loira. – Tenho coisas para resolver amanhã...


– Mas a noite é uma criança – disse ele, em tom suave. – E você, Ian, por que não convence sua acompanhante? – Não – respondeu Ian, num tom gélido. – Quando Chloe resolve alguma coisa, ela nunca cede. Na verdade, eu também vou ter um dia cheio. Mais uma vez, obrigado pelo convite. – Parece que nada mudou – comentou Chloe, quando se aproximavam do carro. – Quem é a última presa de Darius? – O nome dela é Lindsay Watson – respondeu Ian. – É a enfermeira de Sir Gregory. A tal menina charmosa descrita pela


tia Libby, pensou Chloe. – Sob o mesmo teto... – disse ela. – Muito conveniente... – Não necessariamente – comentou Ian, ligando o motor do carro. – Afinal de contas, ele não é irresistível, certo? Quando chegaram à casa dos tios, ela o encarou. – Não vou te convidar para entrar, mas acho que mereço um beijo de boa noite... Ou deveríamos apenas nos cumprimentar? – Claro que eu quero te beijar – disse ele. – Qualquer homem gostaria de fazer isso. Aliás, o Darius te olhou de uma forma...


Ian tomou-a nos braços, com uma boca exigente, embora ela esperasse suavidade, doçura... Aquele era o momento com o qual tanto sonhara... o momento que tanto desejara... No entanto, parecia complicado responder à altura, ainda mais com a língua de Ian querendo abrir os seus lábios... Quando Ian tentou tocar os seios de Chloe, ela se afastou, empurrando o seu peito e dizendo: – Ian... não. Por favor... – Qual é o problema? – ele perguntou, aproximando-se novamente. – Não é isso o que você quer... não foi para isso que nos encontramos?


Não dessa maneira... aliás, nunca deveria ser dessa maneira... – Eu gostaria que tudo acontecesse como nós dois queremos. Entenda isso, por favor. Aliás, honestamente, eu acho que não te conheço mais. Você parece um estranho, e eu não gosto do que sinto. Não sei como lidar com isso. Seguiu-se um silêncio. Finalmente, Ian suspirou, dizendo: – Sinto muito, Clo. Você vai pensar que eu fiquei louco. Acho que isso aconteceu porque ficamos muito tempo separados. O melhor seria nos esquecermos desta noite e começar tudo


de novo. Ele tinha uma expressão estranha, quase de culpa, mas talvez fosse a impressão deixada pela luz fraca. – Boa ideia – disse ela. Ele fez que sim, dizendo: – Eu ligo amanhã. – Ótimo – disse Chloe. – Boa noite, então. Ao caminhar em direção à porta de casa, ela ouviu o motor do jipe sendo ligado e sentiu as pernas bambas. – Voltou cedo – disse tio Hal, fazendo palavras-cruzadas no jornal e ouvindo música na sala de estar. – Foi divertido? – Como sempre – ela respondeu,


alegre, sentando-se na sala. – O que você está escutando? – Mozart, claro. Uma seleção das melhores árias. A minha preferida começa agora – disse ele, aumentando um pouco o volume. – A condessa lamentando a perda da felicidade, em Fígaro. “Doce sono I bei momenti.” – Ah, claro... eu me lembro – disse Chloe. – Quando você nos levou a Glyndebourne, no aniversário da minha tia. Foi lindo. – E Chloe citou: – “Onde estão os lindos momentos de alegria e prazer? Para onde foram esses votos feitos por uma língua enganosa?” Ele fez que sim, dizendo:


– Um momento sublime da arte. A música pungente e a melancolia da ótima soprano capturaram os dois, que ficaram em silêncio. A ária não saía da cabeça de Chloe, que subia as escadas, voltando ao quarto. Talvez não fosse a melhor coisa para escutar naquelas circunstâncias, ela pensou, preparando-se para dormir. Mas nada fora realmente perdido. Simplesmente resolveram começar de novo. E em pouco tempo, junto a Ian, reencontraria aqueles “momentos de alegria e prazer” que não tinham desaparecido. Estariam esperando por


ela em algum lugar. Tudo vai terminar bem, ela disse a si mesma, virando-se de lado e fechando os olhos. Eu sei que sim.


CAPÍTULO QUATRO

– EU CONHECIa charmosa enfermeira d e Sir Gregory ontem à noite – disse Chloe, observando a tia limpar a cozinha. – Ela estava no Willowford Arms, tomando um drinque. – E o que você achou? – perguntou a tia. Chloe deu de ombros, respondendo: – Ela parecia interessada no filho do seu paciente e herdeiro... – Você está querendo dizer que ela estava com Darius? – perguntou a tia,


erguendo a sobrancelha. – Os dois são solteiros, certo? E ela é loira, como Penny. Ele mantém o padrão. – Eu nunca notei uma preferência específica – disse a tia, em tom seco. – Mas Lindsay Watson é uma menina adorável, além de muito competente e sensata. Darius poderia encontrar alguém bem pior... – E muitas vezes encontrou – disse Chloe, tentando pegar um pedaço da torta preparada pela tia. – Essa eu preparei para o chá, senhorita. Se está com fome, tem muita fruta aí na mesa.


– Tudo bem, minha tia querida – disse Chloe. – Mas o que Sir Gregory pensaria ao saber que seu filho e sua enfermeira... – Acho que ele ficaria agradecido – respondeu tia Libby, sem pensar duas vezes. – Já é hora desse jovem se casar e construir uma família. É a sua obrigação. Acho que seria melhor para todo mundo. Além do mais, seria ótimo para Sir Gregory ter netos. Assim ele ganharia uma razão para viver. A enfermeira Swann, que passa algumas noites com ele, diz que Sir Gregory se chateia, perde a paciência... e isso não ajuda em nada a sua recuperação.


– Não mesmo – concordou Chloe. – Entendi. No entanto, ela não acreditava que Sir Gregory ficaria mais contente com netos loirinhos à sua volta. E pensar em Darius como um homem casado... isso era ainda mais estranho. Chloe pegou uma maçã, que mordeu, dizendo: – Vou a East Ledwick mais tarde. Queria fazer uma visita à agência onde eu costumava encontrar trabalho durante as férias. A tia girou o corpo, encarando-a. – Mas você queria descansar por um tempo...


Chloe deu de ombros. – Sim, eu queria, mas mudei de ideia. Não estou acostumada a ficar parada. Levar o cachorro de Lizbeth para passear é muito divertido, mas é pouco para mim – disse Chloe, sorrindo para a tia. – E você não quer me ver chateada e sem paciência como Sir Gregory, certo? – Deus me livre – respondeu a tia. – Mas, por outro lado, não vejo necessidade de sair correndo em busca de trabalho. Se quer estar ocupada, você poderia me ajudar em casa. Aliás, eu nunca gostei do papel de parede da sala de jantar, e pensei em trocá-lo por outro. – Não seria melhor deixar que Lloyd


e sua esposa, os novos donos da casa, decidam o papel de parede que gostariam de ter? – perguntou Chloe. – Lloyd e sua esposa? – perguntou a tia, secando as mãos no pano de prato. – O que você está querendo dizer? Chloe jogou o que restara da maçã no lixo, dizendo: – Segundo Ian, é bem provável que eles comprem a casa. – Sério? – perguntou a tia. – Claro que vai depender da oferta que façam. Eu e o seu tio estamos querendo tirar o máximo proveito possível. E não queremos abusar de Ian e dos seus amigos.


– Nossa tia Libby – disse Chloe, engolindo em seco. – Que modos mais duros... – Você acha? – perguntou a tia, sorrindo. – A verdade é que sua volta revelou que a mudança de casa será dura. Não quero me arrepender. – E não se arrependerá – disse Chloe. – A mudança será ótima para vocês dois. Para provar isso, aceito ajudar na nova decoração. Ainda que não da forma como eu esperava, pensou Chloe, reprimindo um suspiro. NAQUELA MANHÃ, ela levou Flare por um novo caminho, pois não queria


reencontrar Darius nem conversar sobre a noite anterior. Na volta, parou na oficina de Sawley, pois queria fazer uma revisão no seu marcador de gasolina. – Ouvi dizer que você voltou – disse Tom Sawley, acendendo o computador e procurando um horário livre. – Amanhã à tarde, pode ser? Caso eu não consiga consertar, devo ter uma peça de reposição. Algumas coisas não mudam nunca, pensou Chloe, reprimindo um sorriso. Por exemplo: a habilidade de Tom para conseguir qualquer peça necessária ao conserto de um carro, independente da


marca ou ano de fabricação. Aquela oficina era como a caverna de Aladim, pensou Chloe, no exato momento em que uma sineta avisava a chegada de um novo cliente. Dando uma olhada para trás, viu que Lindsay Watson entrava na oficina, vestindo saia e blusa branca. Ao seu lado, Flare ergueu o corpo, como se a reconhecesse. Chloe pousou uma das mãos na cabeça de Flare, dizendo: – Sente-se, querida. – E sorriu para Lidsay. – Nós fomos apresentadas ontem à noite. Eu sou Chloe Benson. Lindsay ficou levemente corada, dizendo:


– Eu me lembro. Eu sou a enfermeira de Sir Gregory, imagino que saiba... – Sim, eu sei – respondeu Chloe, achando estranho aquele distanciamento. Sem dúvida, o famoso charme da enfermeira não se aplicava a todo mundo. – Obrigada, Tom. Volto amanhã. Passarei às 14h para deixar o carro. Seguindo em direção à porta, Chloe teve de manter a mão firme, pois Flare puxava a coleira com força, querendo se aproximar de Lindsay, mexendo o rabo violentamente. – Sinto muito – disse ela, sem fôlego. – Espero que não tenha problemas com cachorros.


– Não tenho muita experiência – disse a enfermeira, dando um passo atrás. Essa mulher é um pouco fresca, pensou Chloe. Pena que não tenha conhecido sua antecessora, que era uma pessoa muito gentil. – Vamos – disse Chloe a Flare, que não parava de olhar para trás, fungando em direção à porta da oficina. Ela sentiu uma pitada de desapontamento. Adorava passar horas com Tanya, e ter uma amiga da mesma idade em Willowford seria ótimo. Mas a enfermeira não parecia disposta a fazer amizade. Talvez Lindsay Watson esteja apenas


protegendo o seu território, pensou Chloe, tentando ser compreensiva. Após devolver Flare à dona, voltou à casa. É possível que Lindsay não tenha gostado de ver o seu encontro com Darius interrompido por outra mulher. Pode ficar tranquila, Lindsay. Nem nos meus piores sonhos eu me aproximaria de Darius, pensou Chloe. E não vou contar à minha tia que a sua querida enfermeira não é tão adorável quanto ela pensa. ESSES BOLOS caseiros são especiais, pensou Chloe, enquanto comia um belo pedaço acompanhado de um bom café. Era dia de mercado em East Ledwick,


e ela e tia Libby passaram horas procurando tecidos para a nova cortina da sala de jantar. Finalmente, a tia decidiu que o seu preferido era o primeiro que tinham visto, mas notou que a sobrinha estava cansada e disse: – Vá tomar um café e comer algo calórico, eu te encontro às 16h, no Memorial da Guerra. Chloe a obedeceu, pois estava realmente exausta. Tia Libby era perfeccionista e a semana fora dura, removendo camadas de papel de parede antigo com todo o cuidado. E o trabalho consumiu muitas


horas. Mas o efeito final foi ótimo, com as paredes em tom arenoso, cálidas, em perfeita harmonia com o teto branco. Um trabalho perfeito, pensou Chloe, satisfeita. E as novas cortinas, que talvez levassem à casa nova, ficariam lindas. O trabalho fora um sucesso também em outros sentidos, pensou Chloe, pois tivera a chance de pensar um pouco no seu relacionamento com Ian durante a execução. Ainda lhe restava uma pitada de desapontamento pelo que acontecera no primeiro encontro. Mas a verdade é que


ela fora cabeça dura ao aceitar aquele trabalho por dinheiro, embora Ian não estivesse completamente de acordo. Sim, ele estava certo, pensou Chloe. Eu deveria estar focada no nosso relacionamento. Por que não notei? Deixei o trabalho me absorver tanto que Willowford se transformou numa espécie de mundo perfeito. Eu quase me esqueci que essa cidade é habitada por pessoas reais, pessoas que precisam da minha atenção, da minha presença. Eu deveria ter brigado por mais dias de folga, deveria ter mantido maior contato, e não aceito todos os bônus oferecidos pelos Armstrong para


trabalhar horas extras. Sempre que surgia um problema, eles ofereciam dinheiro e eu, estúpida, aceitava. Mas Chloe teria tempo de consertar tudo aquilo. Estivera com Ian duas vezes durante a semana anterior, e sempre para tomar um drinque tranquilo, sem nunca buscar maior intimidade, mantendo a calma. Ele não a convidara à casa, mas ela não esperava que o fizesse. Vamos com calma, pensou Chloe. Assim ganharia a corrida. Ela pegou a conta e foi pagar no caixa. Nesse exato momento, a porta do


café foi aberta e entrou Lindsay Watson, que notou a presença de Chloe e ficou paralisada. Qual é o problema dessa menina? Chloe forçou um sorriso, dizendo: – Boa tarde, Lindsay. Está procurando alguém? – Ah... não – respondeu a enfermeira. – Eu só queria tomar um chá, mas não imaginei que estivesse tão cheio. – Normalmente fica assim... e mais em dia de mercado. Mas a minha mesa está livre, lá no canto. – Obrigada, mas não quero incomodar. Na verdade, estou com pressa. Adeus, então.


E saiu do café, desaparecendo na rua. Espero que seja uma boa enfermeira, pensou Chloe, porque em outros aspectos é bem estranha. Ainda era cedo para o encontro marcado com a tia, por isso resolveu ir à agência de empregos. O gerente, no entanto, foi educado, mas bem direto, dizendo: – Não temos nada disponível neste momento, srta. Benson. As pessoas estão evitando contratar serviço doméstico por conta da crise econômica. Pena que você tenha pedido demissão do seu trabalho sem antes ver como anda a situação do mercado. Aliás, seria mais


fácil conseguir algo em Londres. Isso era exatamente o que ela não queria ouvir. Chloe agradeceu, levantouse e foi embora. – Está de volta ao mercado de trabalho, srta. Benson? Fico impressionado! Ela respirou fundo ao ouvir aquela voz familiar. Ao girar o corpo, viu Darius Maynard se aproximando, vestindo o mesmo jeans e a camiseta que pareciam ser o seu uniforme ultimamente. E ergueu o rosto, encarando-o. – Alguns de nós temos de trabalhar para sobreviver, sr. Maynard – ela


respondeu. – Nem sempre o dinheiro cai no nosso colo. Ele ergueu as sobrancelhas, dizendo: – Imaginei que o casamento fosse resolver isso... – Mas se enganou – ela retrucou, rapidamente. – As coisas já não funcionam dessa maneira. – Sinto muito se dei uma impressão errada, minha querida, mas eu também trabalho para sobreviver. E faço isso há um bom tempo. – Jogando, eu suponho... Como nos velhos tempos. – De várias maneiras – ele respondeu, aparentemente calmo. – Durante algum


tempo trabalhei no estoque de uma loja, na Austrália. Depois em corridas de cavalo, em Kentucky. O meu último emprego foi num vinhedo francês. Tudo perfeitamente respeitável. Aliás, caso queira o meu currículo... Ele fez uma pausa, desafiando-a com os seus olhos verdes, para depois dizer: – Na verdade, acho que é hora de pararmos de nos insultar dessa maneira. Você não se lembra de quando nos tratávamos bem, de quando éramos amigos? Tudo o que ela queria era ir embora, sumir dali. E sabia que precisava fazer isso.


Mas ficou parada, como se estivesse pregada ao chão, olhando para ele... Mas um carro buzinou, e isso devolveu a fala a Chloe. – Éramos? – ela perguntou. – Eu não me lembro... Ele a encarava, os olhos franzidos, depois deu de ombros, dizendo: – Tudo bem... Aliás, me disseram que você não esteve no estábulo. Imagino que tenha tanto ódio de mim que não queira exercitar o meu cavalo. – Eu estive ocupada ajudando minha tia – respondeu Chloe. – Por que não pede ajuda à sua namorada? Àquela menina que estava com você no outro


dia? – Porque ela está em casa ajudando o meu pai. – Mas parece livre esta tarde. Há pouco entrou no Tea Room procurando por você. – Sério? – perguntou Darius, franzindo a testa. – Mas eu acho que ela não sabe montar. Pelo menos não sabe montar tão bem para cuidar de Orion. – E eu sei montar tão bem? Ele suspirou, respondendo: – Claro que sim, Chloe. E não venha com joguinhos. Aliás, quero fazer um trato: caso avise com antecedência quando virá, juro que ficarei bem longe.


Que tal? Promete ao menos pensar na proposta? – Prometo – respondeu Chloe, olhando para o chão. – Eu... eu vou pensar. Mas pensaria realmente? Queria se envolver com aquela família? Eles não deveriam ter nada a ver com sua nova vida. Na verdade, deveriam ser cuidadosamente excluídos dela. A CAIXA marcada “roupas” estava em cima de todas as outras. Parece esperar por mim, pensou Chloe. O peso indicava o que estaria lá dentro – suas botas, casacos, coisas


pesadas, coisas que não usava há anos, mas ainda assim guardadas, embora sem qualquer necessidade. No fundo, ela preferia que tudo aquilo tivesse sido doado à caridade ou vendido, mas não teve sorte. Deu uma olhada nas roupas, uma olhada crítica, pensando: nada disso deve caber em mim, já não sou uma garotinha. Mas a verdade é que as calças legging, por exemplo, ainda vestiam perfeitamente, moldando as suas pernas da melhor forma possível. Não teria desculpas para jogá-las fora e comprar novas.


A blusa azul, no entanto, não passava dos seus seios bem mais volumosos que antes. Melhor jogar fora, ela pensou. Arrancou os botões de madrepérola da blusa e jogou-a na lixeira. Pronto, tarefa cumprida. – VOCÊ DEMOROU – disse Arthur, ao lado de Orion. – Estou esperando há uma semana. O sr. Darius pediu que avisasse que foi a Warne Cross ver umas novas terras que comprou. Você está pensando em ir até lá? – Não – respondeu Chloe, subindo no cavalo e esperando que Arthur ajustasse o estribo. – Pensei em dar uma volta pelo parque, depois subir a colina.


– Será um ótimo passeio, pode ter certeza – disse Arthur, acariciando a crina do cavalo. – O sr. Darius o comprou na França. Foi amestrado. É um animal cheio de energia, mas tem bom coração, ao contrário do outro que temos por aqui... Aliás, não sei por que o sr. Andrew o comprou. Ele poderia acabar quebrando o pescoço numa montaria. – Mas Andrew era um bom cavaleiro – disse Chloe, acariciando Orion, que estava ansioso para partir. – Sem dúvida – disse Arthur –, mas se arriscava demais. Eu avisei, muitas vezes, mas ele não ligava.


Arthur fez uma pausa, depois disse: – Fico feliz que esteja de volta, Chloe. Você e Orion vão se dar muito bem, tenho certeza. – Caso contrário, ele terá de voltar para casa sozinho – respondeu Chloe, sorrindo e girando o cavalo de direção, preparando-se para sair. Orion tentou tomar algumas liberdades durante o passeio, mas logo notou que com aquela menina no seu lombo não havia espaço para tal comportamento, e seguiu as suas ordens. Quando chegaram ao topo da colina, Chloe parou. Sentiu vontade de gritar de satisfação.


Lentamente, fizeram o caminho de volta, os dois em perfeita sintonia. O passeio fora muito mais longo do que ela planejara, e ao se aproximar do estábulo esperava encontrar Arthur, por isso começou a pensar num pedido de desculpas, mas o homem não estava por lá. Tudo bem, ela pensou. Nos velhos tempos, costumava fazer tudo aquilo sozinha, conhecia o procedimento. Ao tirar a sela de Orion e oferecer água ao cavalo, percebeu um par de olhos negros por perto. Era um lindo cavalo, muito forte, o famoso Samson. Chloe começou a conversar com ele,


em tom calmo, repetindo o seu nome, e o cavalo se afastou, relinchando. Ela se aproximou, dizendo: – Que beleza... que menino lindo. O que foi? – Não se arrisque. Ele quer que você se aproxime para arrancar um pedaço do seu braço – disse Darius, na porta do estábulo. Dessa vez, foi Chloe quem deu um passo atrás, dizendo, meio sem fôlego: – Imaginei que você estivesse em Warne Cross. – E estive – respondeu Darius –, mas não poderia passar o dia inteiro por lá. Caso continuasse fazendo perguntas


estúpidas ao Crosby, ele pensaria que estou ficando louco. Darius entrou no estábulo, bloqueando a porta. – E Arthur, foi almoçar? – Acho que sim – respondeu Chloe, girando o corpo para pegar a sela de Orion. – Eu... queria levar isso de volta... – Deixa, eu mesmo guardo. – Não. – Não se preocupe, minha querida. Não quero que se machuque. Você é uma mulher prometida àquele jovem veterinário. – E isso faz de mim uma mulher


inatingível? Acho que o seu irmão não pensaria a mesma coisa... – Não – respondeu Darius, em voz baixa. – Não mesmo. Mas você não deveria ter tocado nesse assunto... especialmente aqui, neste momento. Seguiu-se mais um daqueles silêncios estranhos. Chloe tinha a estranha impressão de que poderia ouvir o barulho do seu sangue percorrendo as veias. – Sinto muito – disse ela, com voz trêmula, assustada. – Eu não tinha o direito... nem motivo para falar sobre isso. – Não? – perguntou Darius,


aproximando-se. – Você juraria que não? Ela engoliu em seco, dizendo: – Eu já pedi desculpas. Devia ser suficiente. – Suficiente? Que palavra mais estranha, Chloe... ainda mais frente às memórias que nós dois compartilhamos. Ela ergueu o queixo, seu coração parecia um tambor. – Eu só me lembro de uma menina, quase uma criança, que um dia fez uma bobagem, mas que foi salva de uma vida de arrependimentos no último minuto. – Não foi bem assim, Darius – disse ela, respirando fundo. – E se der mais


um passo eu vou gritar até que Arthur escute e venha correndo. Durante alguns instantes ele ficou completamente parado, depois moveu o corpo para um lado, recostando-se numa grande caixa de madeira. Chloe passava ao seu lado, encarando-o, quando ele disse: – Um dia, minha querida, você saberá quem está mentindo. E quando isso acontecer, quero assistir de camarote... Até logo. Chloe, tentando desesperadamente não correr para o carro, tomou as palavras de Darius como uma ameaça.


CAPÍTULO CINCO

– NUNCA MAIS – disse Chloe, socando o volante e trincando os dentes. – Nunca mais. E seguiu para um dos seus lugares favoritos, dirigindo no piloto automático. Porém, tendo chegado lá, estacionou e o carro imediatamente lhe pareceu um ambiente ínfimo, claustrofóbico. Abriu a porta e saiu, ficando de pé, respirando fundo, querendo se acalmar. À sua frente, a terra descia até o local


onde o rio Willow, brilhante sob o sol, seguia seu caminho pelo vale. Ela desceu uma trilha estreita até a água, parando pouco antes, agachando-se e pousando o queixo nos joelhos. Quantas vezes ela fora de bicicleta até ali, para nadar nas águas calmas à sombra das árvores e depois tomar banho de sol naquela mesma pedra? Talvez tenha escolhido o pior refúgio para aquele dia. Afinal de contas, ali não conseguiria se esquecer das velhas lembranças, especialmente daquele sonho que tivera para sua vida, do qual, felizmente, despertara a tempo. Com o passar dos anos, aprendera a


concentrar-se num futuro que lhe daria estabilidade e felicidade real. Deveria ater-se às coisas com as quais crescera e que importavam de verdade na sua vida. De certa forma, o passado lhe ensinara uma boa lição. Porém, desde que voltara para casa, não conseguia se livrar da terrível sensação de que tudo estava mudando. Era como se estivesse ficando sem chão. Se soubesse que Darius estava aqui, nunca teria voltado, pensou Chloe, fechando os olhos. Pelo menos não definitivamente. Imaginei que o passado estivesse enterrado... E se tivesse lido as cartas da tia


Libby com calma... Ela ficou pensando no grau de envolvimento de Ian com Willowford. Seria tarde demais para persuadi-lo a começarem uma vida nova em outro lugar? Claro que ele nunca saberia o porquê, e que explicação poderia dar sem levantar suspeitas? Aqueles votos feitos por uma língua enganosa... As palavras da condessa Almaviva não saíam da sua cabeça. Chloe sentiu um nó na garganta. Mas claro que não fizera qualquer voto. Na verdade, não acontecera nada com


Darius, garantiu a si mesma, numa espécie de desespero. Nada. Nunca. Mas poderia ter acontecido, e facilmente. Muito facilmente. E disso eu não consigo me esquecer. Nunca me esquecerei. Por que me aproximei tanto da casa dele hoje? Por que sucumbi ao convite de cavalgar aquele lindo animal? Será que os acontecimentos do passado não me ensinaram nada? Como eu não percebi o que estava acontecendo? No entanto, pensou Chloe, passando uma das mãos pelos cabelos, o comportamento de Darius sugere uma razão para a hostilidade de Lindsay


Watson. Algo poderia ter sido dito ou sugerido que a fizesse enxergar Chloe como uma rival. Mas eu não poderia chamá-la num canto e dizer: “Francamente, você está muito enganada. Se quiser ficar com o sr. Maynard, vá em frente. E desejo muito boa sorte, pois será necessário.” E rapidamente lembrou-se que ninguém saberia dizer se Penny estava fora de cena. Poderia estar espiando tudo dos bastidores... Chloe se levantou e voltou ao carro. Não quero estar sozinha, foi o que ela pensou ao girar a ignição. Queria focar-se e precisava ver Ian,


sentar-se à sua frente e conversar calmamente, como nos velhos tempos. Talvez fosse o momento de repensar alguns planos. Caso Ian não estivesse na mesma sintonia, por que voltara a Willowford? Talvez o melhor para nós dois fosse trabalhar longe daqui, pensou Chloe, imediatamente. Eu poderia sugerir isso a ele, e poderia fazer com que soasse como uma aventura, uma possibilidade de plantar novas raízes antes de formarmos uma família. Mas preciso vê-lo cara a cara. Convencê-lo de que não seria uma loucura da minha parte.


Ela se lembrou que Ian costumava voltar à casa para almoçar, a menos que estivesse muito ocupado. Em vez de ficar esperando um convite, talvez fosse o momento de fazer uma visita surpresa. Eu teria feito isso um ano antes... por que não fazê-lo agora? Carpe diem, era o que ela costumava dizer. Aproveite o dia. Porém, não havia nem sinal do jipe de Ian estacionado no lugar de sempre. E as portas e janelas da casa estavam todas fechadas. Chloe suspirou. Já engrenara a marcha à ré quando um impulso fez com que desligasse o motor e saísse do


carro. Aproveitaria a viagem para dar uma olhada na sua futura casa, mesmo que temporรกria, e ver o caos onde Ian vivia metido. Claro que vou dar um jeito nesse caos, pensou Chloe, com um sorriso no canto da boca. A cozinha e a sala de jantar ficavam na frente da casa, e a sala de estar e o escritรณrio de Ian na parte dos fundos, ao lado de um pequeno jardim. Abraรงando o prรณprio corpo, Chloe resolveu dar uma olhada na cozinha. Mas sรณ vou conseguir enxergar se as janelas estiverem limpas o suficiente, pensou, movendo o nariz.


E estavam. Aliás, estavam tão limpas que ela podia ver tudo lá dentro, até mesmo a sala contígua. Com os olhos arregalados, Chloe notou potinhos de ervas no beiral da janela, uma pia nova, cerâmicas num pequeno armário, um fogão branco e brilhante e uma mesa quadrada de madeira, com uma fruteira no centro. Aliás, o ambiente não estava apenas arrumado, parecia limpíssimo. E aqueles potes de ervas? Para Chloe, omeletes eram o máximo da sofisticação culinária de Ian. A sala de jantar estava igualmente limpa, com uma mesa de carvalho, seis cadeiras e um aparador. Tudo


perfeitamente ordenado. Os móveis não eram novos e tampouco poderiam ser chamados de antiguidades, mas as suas superfícies estavam polidas, brilhantes. Sobre a mesa, dois candelabros e um vaso de flores. Chloe deu um passo atrás, franzindo a testa, assustada. Se aquilo era um caos, a casa dos seus tios seria um chiqueiro. Nada fazia sentido. Ela deu a volta, seguindo em direção aos fundos. Viu a sala de estar, com um sofá cor de creme e uma poltrona da mesma cor, tudo novo. E também o escritório, com mesa, computador e armário. Tudo em perfeita ordem.


Onde estaria a imundície que ela esperava encontrar? A única resposta plausível era a de que Ian se envergonhara e contratara uma equipe de limpeza industrial para colocar tudo em ordem. Mas uma equipe dessas faria apenas o básico. O que ela via só poderia ser fruto do esmero do próprio Ian. Eu disse a Tanya que queria surpreendê-lo, pensou Chloe, mas acho que ele quis fazer a mesma coisa... e conseguiu. No entanto, quando for convidada a visitar a casa, direi estar surpresa e lhe darei os parabéns. Ela sempre imaginou aquele lugar


assim... exceto pelo sofá cor de creme, mas isso seria coisa de homem. A verdade é que Chloe não participara do processo de reforma da casa. Portanto, mesmo não querendo, era impossível não sentir uma pitada de frustração. Ele poderia ter comentado que estava planejando fazer mudanças, pensou Chloe, triste. O que teria feito no andar de cima? Talvez fosse melhor nem saber. A casa parecia convidá-la a entrar, mas estava trancada, o que Chloe confirmou ao tentar girar a maçaneta da porta dos fundos.


A sua futura casa a excluía... Era como se Chloe fosse uma intrusa condenada a observar tudo do lado de fora. Embora soubesse estar exagerando, não conseguia deixar de pensar em tudo isso no caminho de volta à casa dos tios. ONDE MAIS uma desagradável surpresa esperava por ela. – Um convite – disse tia Libby. – Um jantar na casa de Sir Gregory! Quando a sra. Maynard estava viva isso era comum, mas depois... Esse tipo de ocasião merece uma anfitriã, e a esposa de Andrew nunca deu a impressão de ser boa nisso.


– Sei... – disse Chloe, mordendo o lábio inferior enquanto lia a carta escrita com a letra imponente e inconfundível de Darius. Depois deixou escapar um breve suspiro, perguntando: – Que desculpas poderíamos dar para não ir? – Não seja boba, minha querida – respondeu a tia, imediatamente. – Isso é o equivalente a um convite real. A sra. Vernon trouxe a carta, dizendo que Sir Gregory está preparado para receber visitas. E isso é uma ótima notícia, embora provavelmente ele não esteja presente no jantar. – Mas eu não posso ir – disse Chloe. – Tenho planos para a próxima quarta-


feira... com Ian. – Sendo assim, acho que é hora de mudar os seus planos – retrucou tia Libby, decidida. – Ian também foi convidado, e como os anfitriões são nossos clientes, ele não poderá negar... Aliás, nenhum de nós poderá recusar este convite. É o preço a pagar por manter um negócio numa cidade pequena. Vendo a expressão de contragosto no rosto de Chloe sua tia fez que não, e seguiu em frente, dizendo: – Pelo amor de Deus, minha querida, serão apenas algumas horas, e a sra. Denver cozinha tão bem... Qual é o


problema? Não posso dizer, pensou Chloe, dando de ombros e respondendo: – Digamos que não estou muito interessada na reabilitação de Darius Maynard. E acho que o jantar se centrará nisso... O próprio Darius lhe dissera que estava tentando ser um vizinho exemplar. Estou sendo novamente manipulada, pensou Chloe, e não gosto nada disso. A única coisa que a deixava um pouco mais tranquila era pensar que Lindsay Watson sentia a mesma coisa. – É possível, considerando que


Darius é o principal herdeiro. No entanto, se o pai dele aceita a situação, quem somos nós para reclamar? – perguntou tia Libby. – Ele era muito jovem quando tudo aconteceu. Todos fizemos bobagens na juventude. Vinte e cinco, pensou Chloe. Darius tinha 25 anos na época. A idade que eu tenho hoje. – Pode ser... – foi a única resposta de Chloe. Mas não quero me arrepender de nada outra vez. Aliás, não pretendo me arrepender nunca mais... NAQUELA NOITE, foi com Ian a East Ledwick. Jantariam num pequeno bistrô


recém-inaugurado e com ótima fama. – Qualquer noite dessas, quero que cozinhe para mim – disse Chloe, dando uma lida no cardápio. – Você conhece as minhas limitações... – disse Ian, pedindo uma garrafa de vinho espanhol ao garçom. Sua casa parece dizer o contrário, ela pensou, mas acabou dizendo: – Conheço, mas noto certo toque... intrigante ultimamente. Aliás, qual é a sua opinião sobre os avanços da nossa nova relação? Ele ficou corado e perguntou: – O quê? Mais uma vez, não era a resposta que


ela queria ouvir, mas Chloe insistiu. – Acho que já é hora de considerarmos um novo futuro, de conversamos sobre o que queremos para as nossas vidas. Ian, mexendo nos talhares, disse: – É verdade... Mais cedo ou mais tarde... Ele não facilita as coisas, pensou Chloe. – Ajudaria caso eu assumisse que me equivoquei ao aceitar aquele trabalho? Que não deveria ter passado tanto tempo longe daqui? – Você tinha os seus motivos, Clo. Queria ganhar um bom dinheiro. Não


posso culpá-la por isso. – Mas eu tenho a sensação de que voltei para um mundo diferente – disse ela. – Um mundo que não entendo. – A verdade é que nada fica parado no tempo... As circunstâncias mudam. As pessoas mudam – disse ele, sorrindo. – Aliás, você não deve ser a mesma pessoa de antes. – Mas voltei para recuperar a minha vida – disse ela. – Imaginei que você soubesse disso... Ian estava a ponto de responder quando olhou para a porta, arregalando os olhos. – Acho que será uma grande noite –


disse ele, ficando de pé. Chloe nem precisou girar a cabeça para saber o que acontecera. O nó que sentia no estômago lhe dizia tudo. Meu Deus, isso não pode estar acontecendo mais uma vez... – Que ótima surpresa – disse Darius, quando ele e Lindsay se aproximaram da mesa de Chloe e Ian. Lindsay estava vestida de preto naquela noite, deixando sua pele pálida e cabelos claros ainda mais etéreos. Darius se vestira de maneira casual, com calça cargo e camisa vermelha aberta no colarinho, além de um suéter fino sobre os ombros. Porém, de alguma


maneira misteriosa, conseguia eclipsar todos os outros homens presentes no restaurante. – Por que não unimos nossas forças? Aceitam ser meus convidados? Chloe podia pensar em vários motivos para negar, e Ian também, com certeza, mas ficou assustada com a pronta resposta do seu acompanhante, que disse: – Claro que sim, será um prazer. As sábias palavras da tia Libby sobre os negócios em cidades pequenas explicavam o que acontecia. Mas será que realmente não havia qualquer limite?


Pouco depois, ela estava sentada à frente de Darius. Concentrou-se ferozmente no cardápio, tentando não ouvir o que diziam nem as palavras entusiasmadas de Darius ao ver o vinho que Ian escolhera. Eu poderia inventar uma dor de cabeça e pedir para voltar para casa, pensou Chloe, mas Darius perceberia minha mentira, e isso poderia ser pior do que ficar sentada ali, com os pés metidos embaixo da cadeira, evitando o mínimo contato com ele. Na verdade, eu deveria me manter indiferente, embora odiasse aquela


intromissão num encontro que estava a ponto de ficar mais quente... Tudo indicava que começaríamos a conversar coisas interessantes. Chloe suspirou e pediu salmão defumado e um filé ao ponto. Uma comida simples, convencional. – É a primeira vez que vocês vêm aqui? – perguntou Ian. Darius fez que não, respondendo: – Viemos na inauguração. O dono é meu amigo... o nome dele é Jack Prendergast. – Darius olhou para Chloe, que deixara de se esconder atrás do cardápio, e disse: – Você deve se lembrar dele, da última festa na minha


casa... Um homem alto, ruivo, sempre com um sorriso estampado no rosto? Chloe tomou um gole de água antes de responder: – Eu não me lembro muito bem daquela noite. – Que pena – disse Darius, em tom suave. – Tenho certeza que ele não se esqueceu de você. Aliás, a próxima festa na minha casa será inesquecível. Chloe o encarava, e perguntou: – Você pretende dar uma nova festa? Por quê? – Porque parece a coisa certa a ser feita... Acho que um vizinho deve fazer essas coisas. E ajudaria a espantar


alguns fantasmas. Aliás, o meu pai gostaria disso. Mesmo com todos os convidados sabendo que, no dia seguinte à festa anterior, você fugiu com a esposa do seu irmão? – Eu não estive presente nessa festa – disse Ian. – Era uma festa de aniversário? – Sim, em memória da minha trisavó Lavinia – respondeu Darius. – Ela foi uma mulher reconhecidamente linda no século XIX, adorada pelo Príncipe de Gales e por vários outros homens. Mas era fiel ao marido, e a cada ano festejava o seu aniversário com um


grande baile, com convidados vindos de todos os cantos do país. As gerações seguintes mantiveram a tradição, mas o número de convidados diminuiu. Na época da minha mãe, só vinha gente daqui. Mas continuava sendo uma festa incrível. Como você pode dizer essas coisas sabendo o que fez?, pensou Chloe. Você arruinou a vida de várias pessoas? Será que não se arrepende? – Mas Sir Gregory não vai achar isso muito... caro? – ela perguntou. – Muito pelo contrário. Ele está animado – respondeu Lindsay. – A preparação da festa será uma forma de


deixar a vida de Sir Gregory mais agitada. E você é a enfermeira dele, pensou Chloe, deve saber do que ele precisa... ou estará mais preocupada em ser a acompanhante de Darius, a responsável por abrir a pista de dança? – Tomara – disse Chloe, bebendo um gole de vinho. A chegada do primeiro prato aliviou a tensão, pois passariam a conversar sobre a comida. Chloe comeu o seu salmão por inteiro, assim como Darius, mas Lindsay mal tocou na sua torta de queijo e Ian não parecia muito feliz com os camarões


que escolhera. – Então – peerguntou Ian, quando o garçom levou os pratos embora –, como vai Samson? Continua indomável? – E olhou para Chloe, dizendo: – Eu cuidei da ferida na sua pata quando ele tentou fugir do estábulo, há alguns meses. Samson precisou ser sedado para que pudéssemos nos aproximar. Darius deu de ombros, dizendo: – Continua sendo o mesmo temperamental de sempre, mas agora parece dirigir a sua raiva ao resto do mundo. Arthur vive assustado... No entanto, é um cavalo muito ágil e salta como ninguém. Estou pensando em


canalizar sua ferocidade, queria enviálo para um treinamento na Irlanda. Algumas lindas fêmeas poderiam aplacar sua sede. – Coitadas das fêmeas... – comentou Chloe, e Darius sorriu. – Eu sabia que você se preocuparia com elas – disse ele, e Chloe se recostou na cadeira, sem dizer nada. Um pouco mais tarde, ao comer o seu filé, que estava delicioso, pensou que poderia se casar com Ian e estar em lua de mel no dia da festa. Isso resolveria vários problemas. Seria uma possibilidade... Quando terminassem de comer,


quando finalmente estivesse sozinha com Ian, faria a proposta. E se atiraria nos braços do amado com fúria, oferecendo tudo o que ele queria. Chloe imaginou Ian beijando-lhe a orelha, as bochechas, os lábios úmidos. Imaginou as mãos de Ian percorrendolhe o corpo... deixando-a louca. E imaginou a voz do seu amado dizendo: “Meu Deus... Minha querida, meu anjo, você sabe o que está fazendo comigo?” Por um momento, Chloe sentiu seu corpo quente, o rosto corado... Estava a ponto de suspirar quando ergueu os olhos e viu Darius. Os olhos


dele eram como esmeraldas, intensos... Chloe viu a curva sensual da sua boca, os dedos de Darius acariciando a taça de vinho... Horrorizada, percebeu que carícias eram aquelas de que estava se lembrando... O pior era que ele também parecia notar. Os dois compartilhavam as mesmas memórias, os mesmos segredos. E isso a deixava indefesa. O espaço vazio entre eles pareceu ser preenchido por uma súbita descarga elétrica. Chloe moveu as mãos com força, como se quisesse negar alguma coisa, e


esbarrou na sua taça de vinho, fazendo com que o líquido esparramasse na toalha branca da mesa. – Meu Deus, sinto muito. Eu sou tão estabanada. Deveríamos jogar sal... ou vinho branco na toalha...? Ela ficou de pé, balbuciando desculpas para todos, até para o garçom que abrira um sorriso, dizendo que não se preocupasse, retirando os pratos vazios e trocando a toalha, aproveitando para entregar-lhes o cardápio de sobremesa. Quando Ian tentou servir mais vinho, ela recusou. – Acho que já bebi demais... ou você


está disposto a pagar o serviço de lavanderia para todos nós? – perguntou, sorrindo, tentando fazer uma piada e querendo que o homem silencioso do outro lado da mesa acreditasse que o que fizera fora culpa do vinho. Aliás, para enfatizar sua decisão, Chloe não quis sobremesa, apenas café. Depois se aproximou de Ian, tocando a manga de sua camisa e comendo alguns pedaços da sua sobremesa. Queria demonstrar intimidade, e talvez restaurar um pouco da sua calma. Quando Ian olhou para o relógio, dizendo ser tarde demais, ninguém disse nada. Darius fez um sinal com a cabeça,


pedindo a conta ao garçom. Do lado de fora do restaurante, eles se despediram naturalmente, com Ian expressando uma exagerada alegria. Lindsay foi a primeira a se afastar do grupo, aproximando-se do carro estacionado bem perto. Darius sorriu e a seguiu, dizendo: – A noite foi ótima. Espero que possam vir à minha casa na semana que vem. Parecia ser um convite educado, de praxe, mas Chloe sabia que não... Reconhecera a maldade sob aquela pátina de cortesia, e ficou parada, tremendo por dentro, observando Darius


se afastar. Ao sentar-se calada no carro de Ian, que tambĂŠm permaneceu calado durante todo o caminho de volta, uma pergunta desesperada tomou de assalto a sua mente: O que fazer? Meu Deus, o que fazer?


CAPÍTULO SEIS

CHLOE NÃOconseguiu conciliar o sono aquela noite. Não tentara reatar a conversa interrompida com Ian ao chegar em casa. Sentiu-se obrigada a oferecer-lhe café, mas ficou aliviada quando ele não aceitou. Ian deu um beijo rápido nos seus lábios e foi embora. Seus tios faziam palavras-cruzadas quando ela surgiu à porta da sala, dizendo boa noite. Chloe foi ágil, pois não queria que tia Libby notasse algo


estranho. Mas não poderia mentir para si mesma, não poderia negar a confusão na sua cabeça. Deitou-se na cama, procurando um ponto confortável no travesseiro, mas o lençol parecia oprimi-la. Finalmente, afastou-o e se levantou, vestindo um roupão de algodão antes de se sentar ao lado da janela, que estava aberta. Mas não corria brisa e a lua era grande no céu claro. Chloe se recostou na parede, fechando os olhos. Sempre imaginou que tudo aquilo estivesse acabado, terminado. Queria


relegar o passado ao fundo da sua mente, acalmar seus demônios e fazer com que dormissem. Mas tudo parecia confrontá-la novamente... No entanto, já era hora de dar um basta, pensou Chloe. Não posso permitir que lembranças sem sentido interfiram na vida que escolhi viver... em tudo o que planejei e trabalhei para conseguir durante os últimos sete anos. Não posso permitir! Vou lidar com isso imediatamente, de uma vez por todas. E caso sofra, vou superar a dor. NAQUELE

DIA ,

tantos anos atrás, fazia o


mesmo calor, um calor pesado. E uma tempestade parecia a caminho. – Vai ao lago Willow outra vez? – perguntou tia Libby, naquela tarde que parecia ter acontecido há séculos. – Se for assim, melhor levar a capa de chuva. Acho que o tempo vai mudar. – Mas eu volto antes – respondeu Chloe, colocando uma toalha e um protetor solar na mochila. Sendo honesta, a verdade é que ela notava algo estranho. Estava de férias. Suas melhores amigas, Jude e Sandie, tinham viajado com as famílias, e teria muitas semanas pela frente antes de começar a


universidade. Para piorar a situação, Ian continuava participando daquele programa de pesquisa em Shropshire, e suas ligações esporádicas não eram suficientes... Ao mesmo tempo, sua expressão conseguira quebrar o gelo frente à tia Libby, que foi gentil, mas franca ao dizer: – Sim, ele é um menino decente. Eu e seu tio gostamos muito dele. Será um ótimo veterinário e provavelmente também um bom marido, mas acho que ainda é muito cedo para vocês dois pensarem em algo mais sério. Aproveite a juventude, minha querida. Apaixone-se


algumas vezes... Para isso serve ser jovem. Mas não se esqueça dos estudos nem se comporte mal com o Ian, ele não merece. O que sua tia queria dizer com isso? Impossível saber... Estava tudo bem com tia Libby, pensou Chloe, pedalando, mas ela provavelmente se esquecera o que significa ficar sem fôlego ao ouvir a voz de alguém, o que é notar o coração acelerado ao vê-lo entrar numa sala. Se é que um dia sentiu essas coisas... Os seus tios se davam bem, mas... Eu devia estar contente por ter encontrado o homem que amo, pensou


Chloe, embora isso não vá me tirar dos trilhos nos estudos. Pensou também que tia Libby deveria estar feliz ao ver a sobrinha descobrir habilidades domésticas. Chloe aprendia com prazer detalhes sobre as nada fashion artes de cozinhar, limpar, lavar e passar. Não era uma vocação deliberada, mas de certa forma a satisfazia. E qual é o problema em preferir a ordem ao caos? Quando chegou, o lago estava vazio, como muitas vezes acontecia durante a semana. Rapidamente, tirou a roupa, ficando de biquíni rosa, e mergulhou nas águas geladas, adorando aquela


sensação de frescor sobre a pele quente. Nadou até a margem oposta, depois voltou. Ao sair da água, sentou-se na pedra onde deixara estendida a toalha, secando o excesso de água dos cabelos escuros, penteando os fios com os dedos e erguendo o rosto ao sol. – Meu Deus... olha como a pequena Chloe cresceu. Quem diria...? A voz masculina a fez saltar. Chloe girou a cabeça, piscando os olhos, e o seu coração ficou a mil ao perceber quem se aproximara. Quase sem fôlego, ela perguntou: – Darius... ou melhor, sr. Maynard...


O que o senhor está fazendo aqui? – A mesma coisa que você. Ou pelo menos era esse o meu plano. Aliás, pode me chamar de Darius. Ele se aproximou ainda mais e ficou olhando para Chloe, parado com as mãos na cintura. Ela ficou corada ao notar que vestia um biquíni tão cavado. Adoraria estar usando o maiô das aulas de natação do colégio. Na verdade, teria sido mais inteligente nadar nas piscinas de East Ledwick. Chloe pegou as suas roupas, dizendo: – Eu... vou me vestir e deixá-lo em


paz. – Não. Por favor – disse ele. – A menos que queira fazer com que eu me sinta eternamente culpado por isso. Aliás, tem espaço de sobra para nós dois por aqui... e imaginei que fôssemos amigos. Aquilo só podia ser uma piada absurda, pensou Chloe, pois ela e Marius não eram amigos. Na verdade, ele mal a conhecia, o único contato que tiveram fora na época em que Chloe lia para sua mãe. Quando as leituras terminaram, Chloe o encontrou poucas vezes quando ia à casa dos Maynard para cavalgar um dos


velhos pôneis usados por Darius e seu irmão quando pequenos, e sempre se sentia insegura quando ele estava por perto. Nos últimos dois anos, praticamente não se viram. E se lembrou de uma cena na agência dos correios: – Ele está trabalhando fora – disse a sra. Thursgood, fungando o nariz. – Acho que está sendo pago para manterse longe daqui, afastado das besteiras. Tia Libby murmurou alguma coisa, mas Chloe sentiu que ela não entendera muito bem o que a carteira queria dizer com “afastado das besteiras”.


Mas Chloe já não era uma adolescente tímida, não devia ficar muda vendo aquele rosto másculo à sua frente. E não havia motivo para que ficasse nervosa com o encontro. Mas por que sua boca ficara seca, por que sentia um vazio no estômago? Continuaria sendo uma menina frágil? – Eu... imaginei que você estivesse fora, trabalhando... – disse ela. – E estive. Voltei ontem. Queria rever algumas pessoas, alguns lugares. – O sorriso de Darius parecia roçar sua pele. – Para minha sorte, a primeira pessoa que encontro é você. Ele começou a desabotoar a camisa e


Chloe olhou para sua toalha, agarrandoa com os dedos. Queria ir embora. Queria dar uma desculpa e... fugir. Ele era exatamente como a avó de Jude um dia descrevera... “Um pecado ambulante”. Na época, todos sorriram ao ouvir isso, mas naquele momento não parecia nada engraçado. Chloe se lembrou também de Sandie, que o vira num bar da cidade e o descrevera como “incrivelmente maravilhoso”. Quando Darius mergulhou no lago, Chloe pensou que seria uma ótima oportunidade para fugir. Mas talvez não


fosse o momento mais indicado... Aliás, ela não queria dar a impressão de que se sentia mal ao seu lado. Até porque não havia razão para isso. Nenhuma razão. No final das contas, resolveu pegar o protetor solar e passar nos braços, ombros e na linha dos seios, finalizando nas pernas. Quando ele voltou, usando um calção preto e tirando o excesso de água do rosto, ela colocava a tampa no protetor. – A água estava boa? – perguntou. Ele fez que não, dizendo: – Boa não, estava ótima. Mas acho que será a nossa última chance de dar


um mergulho. Parece que vai cair uma tempestade, não acha? Quando ele pegou a toalha e começou a se secar, Chloe notou que sentia coisas que preferia ocultar. Ao mesmo tempo, notou que, embora fizesse calor, o céu começava a ficar estranho, meio nublado. Quando ele terminou de se secar, abriu a toalha na grama e se deitou bem perto dela. – Estou fora há algum tempo. Como vai a vida, srta. Chloe Benson? – ele perguntou. – Já começaram as férias? – Eu me formei, e me ofereceram uma vaga para estudar Inglês na


Universidade de Londres, mas ainda estão avaliando as minhas notas. – Sério? Nossa, isso é ótimo! – disse ele, sorrindo. – A sua família deve estar muito feliz. Muito orgulhosa. Ela sorria timidamente, dizendo: – Acho que sim. Eu também estou muito orgulhosa. – E o que pretende fazer se realmente se formar em inglês? Dar aula? Ela fez que não, respondendo: – Eu queria ser jornalista. Gostaria de tentar, pelo menos. Sempre gostei de escrever, e um dia, quando conseguir entender melhor a vida, queria escrever um romance.


– Isso merece uma celebração – disse Darius, ficando de pé e aproximando-se do seu Land Roover estacionado ali perto. Ao voltar, Chloe ficou assustada ao ver que ele trazia uma garrafa de champanhe e um copo de papel. – Não são taças de cristal... e o champanhe não está muito gelado, mas e daí? Ela engoliu em seco, depois perguntou: – Você sempre tem champanhe no carro? – Não – ele respondeu, abrindo a garrafa. – Foi um presente de despedida.


Para Chloe, tudo indicava que fora um presente feminino... Quando ele tirou a rolha, que fez um simples “pop”, ela comentou: – Imaginei que tivesse que sair voando, molhando todo mundo que estivesse ao redor. – Isso só acontece na Fórmula 1 – respondeu Darius, oferecendo um copo de papel a Chloe e sentando-se na mesma pedra. – Um brinde ao seu primeiro best-seller – disse ele, bebendo um gole no gargalo. Chloe hesitou, mas finalmente disse: – Foi muito gentil da sua parte, mas eu não deveria beber...


– Por que não? – ele perguntou, erguendo as sobrancelhas. – Você já pode beber legalmente... Isso não é uma droga e esse copo não está tão cheio. Você poderá andar de bicicleta sem qualquer problema. Não fique nervosa. – Não estou nervosa – ela retrucou. – Talvez esteja assustada. Mas não se preocupe. Eu conheço a sua tia e sei que ela pode ser durona... por isso não vou fazer nada de errado. Chloe foi traída por uma risada nervosa. – Melhor assim – disse Darius. – Não recuse um brinde ao seu sucesso! Ela ergueu o copo e tomou um gole,


sentindo as borbulhas na garganta. – Você fala como se fosse uma coisa certa. – Acho que eu acredito em você – disse ele. – Mas apostaria que a sua real vocação é para atriz, não escritora. Ela tomou mais um gole, perguntando: – Por quê? – Eu me lembro de quando você lia para minha mãe – disse ele, em tom calmo. – Você interpretava as palavras... vivia os personagens. Os livros ganhavam vida na sua voz... e ela adorava. Aliás, a minha mãe gostava muito de você. Chloe baixou os olhos.


– É muito gentil da sua parte dizer isso... Eu também gostava muito dela. Na verdade, fiz curso de teatro por algum tempo, mas lendo os livros comecei a me interessar pela forma como as histórias são estruturadas. Acho que prefiro escrever para outras pessoas interpretarem, entende? Ele fez que sim, perguntando: – Você ainda cavalga aqueles velhos pôneis? – Sim, mas por pouco tempo – ela respondeu, com um toque de tristeza na voz. – Arthur me disse que o sr. Maynard pretende vendê-los. Mas aqueles pôneis são adoráveis... muito


fortes e saudáveis. Eu... imaginei que gostaria de mantê-los para os filhos. Darius voltou a servir champanhe no copo de papel, dizendo: – Tudo indica que ele tem outros planos... E acho que também para a Moonrise Lady. – A égua da sra. Maynard? – perguntou Chloe. – Por quê? – Ela é muito nervosa. – Não... – retrucou Chloe. – Ela tem um ótimo temperamento. – Eu estava falando da dona, não da égua... Acho que Penny não gosta do mundo rural, prefere quatro rodas... – Ah... Que pena. Mas o sr. Maynard


é um ótimo cavaleiro. – Ele segue uma antiga tradição familiar. – E você, não gosta de cavalos? Não quer seguir a tradição? – perguntou Chloe, imaginando que seria culpa do champanhe, pois nunca perguntaria aquelas coisas. – Por sorte, eu não preciso seguir nenhuma tradição. Isso é um dever do Andrew. Mas eu acredito no progresso, acredito que devemos fazer o que precisa ser feito. Um raio repentino tomou conta do céu e Darius ergueu os olhos, franzindo a testa.


– Acho que é hora de nos vestirmos e irmos embora daqui – disse ele, quando mais trovão rugiu ao longe. – Vou me trocar lá embaixo, você pode usar as árvores. Temos que manter a decência, mas com agilidade. Ela hesitou, mas por poucos momentos. Estava fechando o zíper da calça quando um novo raio partiu o céu, e a chuva logo começou a cair com força. – Entre no carro – disse Darius. – Vou colocar a sua bicicleta na mala. – Mas eu... – Nada disso... Corra antes que fique empapada.


Chovia ainda mais forte, ela não teria saída. Sentou-se no banco do carona e esperou, com o coração a mil, enquanto Darius guardava a bicicleta na mala, junto à garrafa de champanhe. – O pior é que fomos avisados – disse ele, ligando o carro. – É uma pena que a celebração tenha terminado tão abruptamente. Mas, enfim, este é o verão inglês... – E olhou para Chloe, perguntando: – Você se molhou muito? – Estou bem – ela respondeu, com as mãos no colo. – É muita... muita gentileza sua. – E você acha que eu deixaria uma


futura ganhadora do prêmio Pulitzer pegar pneumonia? Chloe ficou corada. Mas não queria dizer besteira, por isso se calou. Quando chegaram na porta da casa dos seus tios, Darius disse: – Chegamos. Você está sã, salva... e seca. E obrigado, mas não vou aceitar uma xícara de chá, embora eu saiba que você está a ponto de me convidar para entrar. – E pegando a bicicleta na mala disse: – A gente se vê por aí. Aliás, quando o seu primeiro livro for publicado quero abrir outro champanhe... e vou te molhar por inteira, dos pés à cabeça.


Darius soltou um beijo no ar e entrou no jipe, deixando-a paralisada, sem ligar para a chuva. Tia Libby, que a esperava na entrada de casa, disse: – Minha querida, eu avisei... Você está ensopada. Vou preparar um banho quente. – Eu não estou molhada – respondeu Chloe. – Me deram uma carona. – Sinal de que ainda existe gente de bom coração por aí – disse a tia, seguindo para a cozinha. – Quem foi? Chloe tentou soar casual ao responder: – Darius Maynard, você acredita?


– Darius? – perguntou a tia. – Mas ele não estava trabalhando na Irlanda? Onde você o encontrou? – Ele voltou ontem – respondeu Chloe. – Nós nos encontramos no lago. Ele foi nadar. Assim como eu. – Sei – disse a tia, num tom que sugeria não ter gostado da história. – Ele deve estar de volta para o baile... Estão começando a distribuir os convites. Chloe olhou para a tia, dizendo: – Você fala como se fosse melhor que ele se mantivesse longe daqui. – Talvez... – respondeu tia Libby. – Sempre que Darius está por perto acontecem coisas estranhas, e dizem que


a última foi grave. Nem tudo foi culpa dele, claro, mas a última, sim. Sua tia fez que não, depois voltou a falar: – A verdade é que ele é muito diferente do pai e do irmão mais velho. E ser o segundo na linha de sucessão não deve ser fácil para ele. Talvez por isso seja tão rebelde e viva sempre ao limite, à margem da lei. – À margem da lei? Eu não entendo... – E nem precisa – respondeu tia Libby. – O importante é ficar longe dele, minha querida. Aliás, eu sei que ele é muito atraente... – Mas não faz o meu tipo – disse


Chloe, em tom decidido. Os Maynard pertenciam a um extrato social diferente, por isso era muito pouco provável que os seus passos se reencontrassem. Poucos dias depois, surgiu o boato de que Darius partira novamente, dessa vez para Londres. – Sempre fugindo – disse a sra. Thursgood. – Não consegue ficar quieto por mais de uma semana. Desculpa, mas você pediu seis ou doze selos? Para Chloe, a notícia serviria para não andar sempre preocupada com a possibilidade de topar com Darius na próxima esquina.


Além disso, como ele não estava em casa, aceitou o convite de Arthur para dizer adeus ao pôneis. – Ainda não acredito que o sr. Maynard tenha vendido esses pôneis – disse ela, suspirando. – Eles ainda têm muita vida pela frente. Aliás, a Moonrise Lady também foi vendida... – Pelo menos partirão para lares onde serão amados, isso faz sentido – disse tio Hal, acariciando o ombro da sobrinha ao se levantar da mesa. – Se quiser, eu posso te levar até lá de carro, mas você terá de voltar caminhando. Chloe trocou rapidamente de roupa. Seu tio a deixou na porta da casa dos


Maynard. Ela subia em direção à porta principal quando ouviu uma buzina. Era Penny Maynard. – Entre no carro – disse ela. – A subida é longa. Como sempre, Penny estava linda, com seus cabelos loiros caídos sobre os ombros, ondulados, e os olhos violeta emoldurados por cílios perfeitamente maquiados. Sempre fora magra, mas parecia ainda mais. E as feições do seu rosto eram perfeitas. – Sinto muito que os pôneis estejam indo embora – disse ela, pisando no acelerador. – Afinal de contas, você é a


única pessoa que se preocupa com eles. Mas Andrew finalmente se deu conta que eles não servem de nada para a gente. Estamos decididos. – Sei... – disse Chloe, pois não queria cometer uma gafe fazendo um comentário que não soasse bem aos ouvidos da nora de Sir Gregory. – Os acordos pré-nupciais sempre costumam versar sobre dinheiro – disse Penny. – Mas acho que todo mundo deveria conhecer a real situação financeira da família, para que não haja decepções futuras. Você concorda comigo? – Não sei – respondeu Chloe. – Mas


acho que não devemos tentar controlar tudo... Aliás, conhecer melhor a outra pessoa é parte da diversão do casamento, certo? – Diversão do casamento? – repetiu Penny. – Sim, você tem razão. É isso mesmo. Ela parou o carro perto do estábulo e disse a Chloe: – Espere, eu quero que você saiba que estou muito feliz por ter cuidado dos pôneis e da Moonrise Lady. Eu realmente não sei o que fazer com cavalos. Dito isso, Penny pisou fundo no acelerador, levantando poeira, e Chloe


ficou observando a partida, assustada e envergonhada ao mesmo tempo. O que significaria tudo aquilo? Penny Maynard era seis anos mais velha que Chloe, que até então, como grande parte da população local, a admirava a distância. Nunca tinham conversado antes. E por que conversariam?, pensou Chloe. Eu sou uma mera estudante e ela, uma mulher casada. O máximo que ela poderia saber de mim é que sou sobrinha do veterinário que cuida dos animais da sua família. No estábulo, Arthur Norris estava acariciando Moonrise Lady. Como


sempre, acenou e sorriu para Chloe ao vê-la chegar, dizendo: – Os pôneis estão lá na frente. Eu preparei os dois. Eles nem imaginam o que têm pela frente... – Acho que tiveram sorte – comentou Chloe, acariciando a crina de Moonrise Lady e pensando que Penny Maynard não tinha a menor ideia do que estava perdendo. Pegou um plástico com maçãs e cenouras que guardava na bolsa e ofereceu aos pôneis, que comeram com vontade, agradecendo com carícias nos braços e ombros de Chloe. Quando Arthur apareceu com


Moonrise Lady, Chloe montou na égua, engolindo as lágrimas. Deram saltos simples, mas Arthur aplaudia, pois Lady era perfeita nas suas execuções. Repetiram a rotina. Mais uma vez sem qualquer falha. Porém, ao se aproximarem da última barreira, Chloe notou um movimento com o canto do olho. Alguém se aproximava. Sem pensar duas vezes, deu uma segunda olhadela, querendo confirmar a identidade da visita. Tentou recuperar a concentração, mas o ritmo fora quebrado e Lady parou abruptamente, lançando Chloe ao chão


com toda a força. Aliás, ela caiu aos pés de Darius Mayrnard.


CAPÍTULO SETE

– JÁ VI quedas mais elegantes – disse Darius, agachado ao seu lado. – Você acha que quebrou alguma coisa ou foi só um susto. – Foi... só um susto – disse Chloe, furiosa consigo mesma por ter sido tão idiota. – Mas te deixou um pouco desgrenhada – comentou Darius, em tom suave. Seguindo o seu olhar, Chloe viu que ao cair perdera alguns botões de pérola


da blusa, e que isso acabara revelando mais do que o necessário. – O que eu acho ótimo, na verdade – disse ele, num leve tom de brincadeira. – Mas o velho Arthur vai ter um ataque. À fúria que sentia, Chloe poderia somar humilhação, foi o que pensou ao tentar arrumar a saia. Para piorar, caíra justamente na frente dele. Foi um alívio quando a Moonrise Lady se aproximou do seu rosto, pois assim ela pode esconder a vergonha entre os pelos da crina do animal. – Sinto muito, minha querida – ela murmurou. – A culpa foi minha. – Ela sabe... – disse Darius, de pé,


limpando a elegante calça cinza dos restos de grama e oferecendo sua mão a Chloe. – Levante-se, menina, e volte... a cavalgar. Só assim você poderá recuperar a confiança de Moonrise Lady. Vai dar tudo certo. Chloe obedeceu sem dizer nada. Mas a verdade é que, com aquela mão estendida à sua frente, não teria escolha. Não estava acostumada a quedas. Sentia dores, e no dia seguinte notaria o estrago. Tudo o que queria era deixar cair as lágrimas e sair correndo. Dizer que cometera um erro por conta da inesperada chegada de Darius não seria boa desculpa.


Sentou-se meio sem jeito na sela, respirou fundo, acalmando-se, depois começou a cavalgar. Dessa vez a égua não cometeu qualquer erro, parecia caminhar numa trilha de veludo. Quando se preparava para desmontar, Darius se aproximou, agarrou sua cintura e ajudou-a a se manter firme, embora as pernas de Chloe tremessem um pouco. – Obrigada – ela tentou dizer, sem que ele percebesse o seu nervoso, mas Darius ainda segurava sua cintura e a voz saiu trêmula. Chloe deu um passo atrás e tirou o chapéu, soltando o cabelo. – Vou arrumar Lady.


– Arthur fará isso. Me pediram que te levasse à casa. Ela hesitou, olhando para o chão, vendo a grama que sujava sua roupa, e disse: – Mas eu deveria ir para minha casa. – Minha cunhada ligou para os seus tios avisando que você ficaria para tomar um chá – disse Darius, passando um lenço na bochecha de Chloe. – Aliás, você poderá se limpar um pouco. Ela ficou corada ao imaginar como estaria, mas aceitou o convite, embora não gostasse nada da perspectiva de aparecer daquela maneira aos olhos de Penny Maynard.


Chloe não entrava naquela casa desde a época em que lia para Lady Maynard, mas tudo parecia exatamente igual. Os retratos da família nas paredes, com suas molduras pesadas, e toda aquela decoração sóbria, interrompida apenas pelo arranjo de flores numa mesa lateral. Na sala de estar, Penny olhava para o lado de fora, observando o jardim. Quando Chloe se aproximou, ela olhou para trás, perguntando: – Meu Deus, o que aconteceu com você? – Eu caí – admitiu Chloe. – Por culpa de uma dessas doces


criaturas do meu marido? – perguntou Penny, em tom de escárnio. – Eu não acredito... E se aproximou antes de dizer: – Você está destruída. Vamos ao meu quarto, quero te deixar um pouco mais apresentável. – E olhou para Darius, dizendo: – Diga à sra. Vernon que traga o chá em vinte minutos, tudo bem? Seguindo Penny pelas escadas, Chloe se lembrou das visitas ao quarto de Lady Maynard, quando tinha apenas 14 anos. O quarto da senhora estava repleto de móveis pesados, antiguidades, mas o de Penny era o oposto. Estava decorado de forma moderna, em tons pastéis, com


uma enorme cama no centro. – Andrew deixou que eu escolhesse a decoração – disse ela. – É lindo – disse Chloe, mas totalmente fora de contexto nessa casa, pensou. Aliás, era impossível pensar no alto e forte Andrew Maynard vivendo naquele ambiente tão feminino, mas ele provavelmente faria tudo pela esposa... O banheiro foi outra surpresa, todo em ouro e marfim. Parecia um salão de beleza, ou talvez a Galeria dos Espelhos de Versalhes, pensou Chloe, vendo o seu reflexo no enorme espelho. A única coisa que parecia relativamente inteira


no seu corpo era a blusa, embora tivesse perdido alguns botões. – Pode tomar um banho, se quiser – disse Penny. – Temos uma pilha de toalhas por aqui. Procure algo limpo para vestir. Acho que usamos o mesmo número. – Não quero incomodar – disse Chloe, olhando para o enorme chuveiro num cubículo envidraçado. – Nada disso – respondeu Penny, imediatamente, mas com um sorriso que parecia um tanto forçado. – Desça quando estiver pronta. A cascata de água quente foi como um bálsamo para sua pele. Quando voltou


ao quarto, encontrou um jeans caríssimo esperando por ela, junto a uma blusa branca de seda de manga curta e um secador. O jeans vestia perfeitamente. Parecia uma segunda pele. Mas Penny era um pouco mais alta, o que obrigou Chloe a dobrar a barra. No entanto, a blusa era larga, o que não daria espaço a novos acidentes com botões, pensou Chloe, sentindo o rosto quente ao se lembrar do que acontecera. Novamente vestida, mas ainda envergonhada e sem jeito, sentou-se na penteadeira cheia de cosméticos e perfumes e penteou os cabelos.


Ao mesmo tempo, era impossível resistir à tentação de dar uma olhada no quarto. Lembrou-se da cama pesada de Lady Maynard, da elegante chaise longue junto à janela, onde a senhora passara grande parte dos últimos dias, e imaginou o que ela pensaria de toda aquela modernidade. Lady Maynard acreditava no poder da tradição. Algumas vezes, quando a leitura chegava ao fim e ela estava se sentindo bem, conversava com Chloe, recordando sua infância, que passara viajando por várias partes do mundo graças ao trabalho diplomático do pai. Também conversava sobre a história


daquela casa, embora admitisse com pesar que nunca seria finalizada. – Isso caberá a outra pessoa – dizia ela. E olha só o que aconteceu, pensou Chloe, desligando o secador de cabelo e se levantando da penteadeira. Ao descer as escadas, notou que a sra. Vernon levava o carrinho de chá à sala de estar. – Bem na hora – comentou Darius, deixando de lado o exemplar de Cavalos e cães de caça que lia e ficando de pé para receber Chloe. Os seus olhos verdes a observavam, percebendo que o jeans de Penny


moldava perfeitamente suas pernas e cadeiras. Chloe notou os olhares de Darius e ficou novamente corada. Com a cabeça erguida, aproximou-se da poltrona mais distante do sofá, onde ele estava sentado. Não gosto quando ele me olha assim. Não gosto do que sinto. Preferia que Darius nunca tivesse voltado de Londres. Aliás, eu não gosto dele. E ponto final. Penny era ótima anfitriã, muito atenta, oferecendo sanduíches de pepino, geleia e um bolo de limão ainda mais leve que o da tia Libby.


Como Penny conseguia se manter tão magra com tudo aquilo à sua disposição? Ela começou a conversar, dizendo que Chloe era muito sortuda, já que estudaria em Londres, uma cidade fantástica, muito divertida, e falou sobre teatros, salas de concertos, galerias e discotecas. Mas Chloe sabia que seria uma estudante sem dinheiro. No entanto, era melhor conversar sobre isso do que sobre outros assuntos menos agradáveis. Ainda assim, a tensão continuava presente naquela casa. E tal tensão nascia de Darius, que não


parava de observá-la, sentado do outro lado da sala, com a gravata de seda afrouxada no colarinho e o primeiro botão da camisa aberto, escutando cada palavra que era dita com um sorriso nos lábios. Chloe se lembrou do que tia Libby lhe dissera sobre ele viver sempre à margem da lei. O que teria feito? Por que fora enviado para longe de casa? Chloe não poderia perguntar nada disso, e ficou feliz ao se levantar, anunciando que era hora de ir embora, agradecendo o delicioso chá servido por Penny e recusando a carona, dizendo que voltar caminhando lhe faria bem.


– Vai ajudar a aliviar a tensão da queda – disse Chloe. – Mas quero que leve uma coisa. O convite da sua família para o baile de aniversário – disse a anfitriã, oferecendo-lhe um envelope branco quadrado. Imediatamente, Chloe percebeu que fora endereçado aos seus tios, claro, mas também a ela. – Obrigada – agradeceu Chloe. – Mas... eu preciso dar uma passada no estábulo antes de ir embora, pois deixei minha bolsa por lá... Mais uma vez, muito obrigada... e adeus. Saindo o mais rápido possível da casa, ela chegou ao jardim, mas Darius a


alcançou. – Não se preocupe – disse ela. – Eu conheço o caminho. – Claro que conhece – disse ele, seguindo-a ao estábulo. Ficou recostado na porta enquanto ela guardava o convite da festa na bolsa. Exceto os relinchos de Moonrise Lady, reinava o mais absoluto silêncio por ali. – Eu também quero te dar uma coisa – disse Darius, pegando um frasco no bolso e sorrindo ao ver os olhos arregalados de Chloe. – Não é uma droga para que você perca os sentidos. É arnica, para as suas feridas. Imagino que a sua tia também tenha em casa, mas


leve, para o caso de ser necessário. Ela aceitou o frasco, murmurando um agradecimento e guardando-o na bolsa. – Faço questão de te levar para casa – disse ele. – Não! A recusa veio rápida e imediata, e ele soergueu as sobrancelhas, dizendo: – Chloe, minha querida. Eu só quero provar que você pode confiar em mim. – Não se preocupe – disse ela. – Não será necessário. Sei que tudo não passa de uma grande brincadeira para você, mas não estou disposta a participar. Você poderia entender isso e... me deixar em paz.


– Não é uma brincadeira – ele respondeu. – Acho que você ainda não entendeu.... Ele deu um passo à frente, com as mãos nos ombros de Chloe. Ela ficou sem fôlego e ergueu as mãos, empurrando o peito de Darius, querendo se afastar. Precisava fazer alguma coisa... qualquer coisa... para detê-lo. Antes que fosse tarde demais... Mas ele curvou a cabeça para a frente, tomando os lábios de Chloe nos seus com precisão assustadora, explorando os contornos de sua boca como se fosse um território desconhecido.


Já era tarde demais. Talvez sempre tenha sido. Com uma das mãos pousadas na cintura de Chloe, aproximando ainda mais os seus corpos, ele começou a acariciar-lhe o pescoço, orelha, cabelos... As mãos de Chloe se transformavam em punhos, as suas pernas tremiam. Ela parecia a ponto de colapsar. Darius conseguiu abrir os lábios de Chloe, queria penetrar sua boca com a língua, levando-a a explorar terrenos que nunca antes visitara. A sua inocência estava em jogo, parecia impossível negar, talvez ela não


quisesse negar... O beijo de Darius ficava mais intenso, mais profundo, mais passional, arrebatando as terminações nervosas de Chloe. Ela pousou as mãos nos ombros de Darius, depois envolveu o seu pescoço. Sentiu a maciez dos seus cabelos entre os dedos. Mas uma voz no fundo da sua mente protestava contra tudo o que acontecia, dizendo que era errado, perigoso, uma loucura, e que ela devia interromper imediatamente o que estava fazendo. Mas tal voz logo se calou, e tudo o que restava era o silêncio. Ficaram de pé, com as bocas e os


corpos colados. Pela primeira vez, Chloe sentia a roupa como uma barreira. Percebeu os seios aflorando. Notou a masculinidade do peito de Darius. Queria se livrar das barreiras entre eles. Queria se livrar de tudo. Como se respondesse a um pedido silencioso, Darius deslizou uma das mĂŁos pelo corpo de Chloe, tocando gentilmente um dos seus mamilos rosados. Ela ficou sem ar, deixou escapar um ligeiro murmĂşrio, sentiu um calor repentino entre as pernas. Quase no mesmo instante, Darius murmurou algo que parecia ser o nome de Chloe, interrompendo o beijo e


começando a beijar o seu rosto, os olhos fechados, as bochechas, os cantos da boca, tocando-lhe a pele com o máximo de cuidado, como se fosse uma asa de borboleta. Ela o encarou, percebendo um brilho nos seus olhos verdes que a deixou assustada e excitada ao mesmo tempo. Mas ele falou, quase sussurrando: – Não... aqui não, minha querida. Assim não... E aproximou o seu corpo do dela, segurando-a firme por alguns instantes, com o rosto enterrado entre seus cabelos. Depois se afastou, olhando-a intensamente, e dizendo, baixinho:


– Vou te levar para casa. HAVIA LÁGRIMASno rosto de Chloe no momento em que ela se sentou, olhando para a escuridão. Lágrimas que ela secou com os punhos, num gesto quase infantil. Porém, tudo indicava que naquele momento deixara de ser criança, transformando-se em mulher. Eu me deixei levar por um sonho infantil, pensou Chloe. Ignorei os avisos de todo mundo, de pessoas que o conheciam muito melhor do que eu. Para mim, todos estavam sendo injustos comparando-o ao irmão, um homem que nunca dera um passo em falso. Darius pediu que eu confiasse nele, e


foi o que eu fiz por alguns instantes, embora não tivesse qualquer razão para fazê-lo. Eu era jovem, boba, deixei que me tocasse, que me beijasse, e acabei me esquecendo do que queria para minha vida. Cheguei a pensar que ele me amava, que poderia ser a minha cara metade. Ela tremeu, abraçando o próprio corpo e pensando: não vou cometer o mesmo erro outra vez. Mas a verdade é que o tempo não curara as feridas e a dor ainda pulsava no interior do seu corpo sempre que se lembrava do acontecido. Ao voltar para casa, aceitando a


carona, com o corpo em chamas e as mãos no colo, para evitar que tremessem, quis descer um pouco antes, e ele obedeceu, com a boca trincada, dizendo apenas: – A gente se vê. – QUER DIZER que você tomou um chá por lá – disse tia Libby. – Foi divertido? Chloe manteve o máximo possível a compostura, encarando a tia e respondendo: – Foi. A sra. Maynard é muito gentil, mas vou ter que lavar e passar a roupa que ela me emprestou. – E ofereceu o envelope quadrado à tia, dizendo: – Ela mandou isso para vocês.


Ao abrir o envelope e ler o convite, a tia soergueu as sobrancelhas. – Você também foi convidada, mas imagino que não queira ir. – Por que não? – Porque há pouco tempo falou mal desse baile, dizendo tratar-se de uma festa para velhos – respondeu tia Libby. Chloe ficou corada. – É... acho que eu falei isso, sim. – E mudou de ideia? – Talvez seja a minha única oportunidade de estar presente – respondeu Chloe, abrindo um sorriso forçado. – Assim eu poderia ver como realmente funciona esse baile. Quando


eu estiver na universidade vou ter que procurar um trabalho, e não passarei muito tempo por aqui. – É verdade – comentou tia Libby, ficando em silêncio por alguns instantes, depois suspirando, antes de dizer: – Vou aceitar o convite. Mas você precisará de um vestido, claro. – Conheço uma loja de aluguel em East Ledwick – disse Chloe, imediatamente. – E poderia dar uma olhada nas de segunda mão. Não deve ser muito caro. – Parece que você já se decidiu – disse a tia, em tom seco. – Podemos dar uma olhada no fim de semana, ver o que


encontramos. Mas a busca foi rápida. A dona da loja de aluguel de roupa deu uma olhada em Chloe e fez que sim, dizendo: – Você é magra e tem boa cintura. Acho que temos o vestido perfeito... E desapareceu nos fundos da loja, voltando com um vestido branco e prata, dizendo: – Este foi inspirado no filme Orgulho e preconceito, que vai estrear ainda este ano. Eu acho lindo. Quando Chloe se olhou no espelho, concordou imediatamente. – Ela é a perfeita protagonista do filme – disse a dona da loja. – Tem


algum cavalheiro querendo tirá-la para dançar? – Não – respondeu tia Libby, imediatamente. – Aliás, homens assim só existem nas páginas dos livros. Mas o vestido é muito bonito, ficou perfeito. Vamos levar. Uma loja de sapatos na High Street forneceu o toque final e Chloe voltou para casa animada, mas em silêncio, assim como tia Libby. Estavam quase na porta de casa quando a tia perguntou, abruptamente: – Da próxima vez que Ian ligar, por que não pergunta se poderia vir à festa? Pedindo com tempo, tenho certeza que a


sra. Maynard nos daria um convite extra. – Não será necessário – respondeu Chloe, olhando para a tia. – Ian não terá nenhum fim de semana livre por enquanto. – Mas não custa tentar – insistiu tia Libby, olhando de relance para a sobrinha. – Se você quiser que ele venha, claro. – Eu adoraria – respondeu Chloe. – Na verdade, estava pensando em ligar para ele hoje à tarde. Mas... – Impossível... – respondeu Ian. – Não temos substitutos por aqui, somos poucos.


– Tudo bem – respondeu Chloe. – Era só uma ideia... Porém, ao desligar, olhou-se no espelho e percebeu, envergonhada, que os seus olhos brilhavam muito para uma pessoa chateada. No dia seguinte, durante o café da manhã, ela disse, em tom casual: – Vou passar a roupa da sra. Maynard, é hora de devolver tudo isso. E quase me esqueci. – Mas eu não – comentou a tia, passando manteiga numa fatia de pão. – Já lavei, passei e pedi ao seu tio que entregasse. – Ah... – disse Chloe, olhando para o


prato, querendo esconder a decepção. – Eu não queria dar trabalho. – Deixa de bobagem – disse a tia. – Foi um prazer. Naquele momento, Chloe preferiu não pensar muito no assunto. Porém, olhando para trás, após tantos anos, percebeu que sua tia fizera a coisa certa, afastando-a do primeiro perigo da vida adulta que a rondava. No entanto, o pior já acontecera, deixando duras consequências, e Chloe teria de aprender a conviver com elas.


CAPÍTULO OITO

NA NOITE DObaile Chloe estava muito nervosa, mas o vestido caía ainda melhor do que na loja, e ela aproveitou para fazer um coque, revelando as linhas do seu rosto. – Você está linda, minha querida – disse tio Hal, assim que ela desceu as escadas. – Não é verdade, Libby? Será a rainha do baile, com certeza. Sua tia, elegante num vestido preto, com uma jaqueta até a cintura, sorriu e fez que sim. Caso ainda estivesse


preocupada, não disse nada. O baile aconteceu num salão nos fundos da casa, e no caminho Sir Gregory recebia os convidados, com Andrew Maynard ao seu lado, e a formalidade das suas roupas enfatizava a rigidez dos seus modos. Ele parecia um soldado num desfile, e não um homem à frente de um agradável encontro social. Mas a tensão de Andrew era compartilhada por Penny, que estava de pé ao seu lado, radiante num vestido fúcsia, mas o seu rosto era carrancudo, e o sorriso forçado. Quanto a Darius, nem sinal...


Quando Chloe parou na frente de Penny, dizendo um envergonhado “boa noite”, a mulher mais velha acenou com a cabeça, depois gritou: – Laurence. Um homem jovem e alto surgiu de um grupo que estava por perto, aproximando-se. – Sim, sra. Maynard. – Esta é Chloe Benson, filha do nosso veterinário – disse Penny. – É a primeira vez que ela vem ao baile. Quero que a apresente a pessoas da sua idade, por favor. Laurence não parecia muito animado com a perspectiva de ser baby sitter, e


Chloe, estranhando a atitude de Penny, deu a mesma impressão. Não era o que esperava daquele baile. E isso provava que poderia ser uma noite chata, pensou Chloe, acompanhando-o. As suas suspeitas foram confirmadas quando uma das meninas do grupo de Laurence, ao vê-la se aproximar, murmurou, mas em tom perfeitamente alto para que Chloe escutasse: – Viemos aqui para dançar ou desfilar lindos vestidos? – Quero que conheçam Chloe Benson – disse Laurence. – Ela mora nas redondezas. – Sério? – perguntou uma das


meninas, soerguendo as sobrancelhas. – Eu não me lembro de você na St Faiths – disse, referindo-se ao caro colégio feminino na outra ponta de East Ledwick, e Chloe fez que não, dizendo: – Eu frequentei a Freemont High School. – Ah – disse a menina. – Entendi... E acho que isso explica tudo. – Você imaginou que a noite de hoje seria um concurso de vestidos? – perguntou a mesma menina que murmurara, encarando-a. Corada, Chloe ergueu o rosto e respondeu: – Não. Eu simplesmente quis vir com


um vestido que gosto. E ficou encarando a oponente, como quem diz que o vestido de tafetá escarlate que usava não era nada apropriado a uma pessoa com pelo menos um quilo acima do peso ideal. – Claro – disse uma menina de cabelos castanhos e olhos amendoados. – O meu nome é Fran Harper – disse ela. – Aliás, você está linda. Clássica. Estão servindo um delicioso ponche na sala de jantar. Vamos? – E ao se afastarem, disse: – Não ligue para Judy ou Mary. Elas estão loucas pelo Laurence e acham que você poderia ser uma concorrente.


– Não! – respondeu Chloe, imediatamente. – Nós fomos apresentados pela sra. Maynard, que provavelmente só estava querendo ser gentil. – Certo – disse Fran. – Mas ela nunca foi muito gentil comigo. Parece uma mulher muito forte, se é que você me entende. Fran serviu dois copos de ponche e oferece um deles a Chloe, dizendo: – Um brinde à gentileza, embora às vezes seja algo improvável. Chloe bebeu com calma, sentindo um calor na garganta ao dar uma olhada no salão, mas tentando não passar a


impressão de que procurava alguém. Claramente, Darius não estava presente, e ela ficou um pouco desapontada. Que bobagem, disse a si mesma, era hora de voltar a si e aproveitar a noite, e não ficar pensando em coisas que poderiam ser perigosas. Mas sua visão do salão ficou restringida quando outras pessoas se aproximaram. Ela estava no meio de um grupo alegre, mais ou menos da sua idade, talvez um pouco mais velhos, já cursando a universidade, e todos pareciam interessados no que ela dizia. Logo depois foram à pista de baile, e


Chloe começou a dançar, primeiro com Bas, o irmão de Fran, que cursava o segundo ano em Cambridge, depois com vários outros garotos. Ela estava dizendo que precisava descansar um pouco quando sentiu um arrepio na espinha. Ao olhar para trás, viu Darius do outro lado da pista, dançando com uma mulher alta que usava um vestido verde esmeralda. O seu coração começou a bater com tanta força que Chloe ficou sem graça. Por sorte, também estava dançando, e não sentada numa cadeira, sozinha, esquecida por Laurence e seu grupo de amigas.


Aliás, ela não deveria se esquecer que poderia estar na companhia de Ian, o que seria ótimo... Mas por que olhava para o outro lado da pista, especialmente para alguém tão inalcançável? Tenho que parar com isso, disse a si mesma, um tanto desesperada. Tenho que parar agora, antes que faça uma bobagem. Pensando nisso, abriu um sorriso exagerado a Craig, o menino com quem dançava naquele momento, e o rosto do menino se iluminou. No entanto, a verdade é que poderia descrever fielmente cada uma das mulheres que dançaram com Darius


durante a noite. E ele nem parecia notar sua presença. Foi um alívio quando suspenderam a música para servir o jantar, que seguiu um estilo clássico, com pratos de salmão com maionese, presunto, carne, frango, patas de lagosta, tortas de cogumelo e aspargo, vários tipos de saladas, queijos e pães. Havia também tigelas de um delicioso mousse de chocolate e morango com chantilly. Chloe adoraria estar menos tensa, pois teria saboreado melhor a comida. Logo após o jantar foi feito um brinde de aniversário. De pé, em posição formal, estavam Sir Gregory, os dois


filhos e Penny Maynard, firme ao lado do marido, exibindo o mesmo sorrido forçado de antes. – Gostaria de fazer um brinde à minha bisavó Lavínia – disse ele, e sua voz profunda tomou conta do salão. – Também gostaria de incluir todas as outras mulheres que honraram a família Maynard, sem me esquecer da minha nora Penélope que, sem dúvida, oferecerá todo o seu chame e distinção aos nossos descendentes. Senhoras e senhores, um brinde às mulheres da família Maynard. E todos ergueram suas taças. Os olhos de Chloe, a ponto de tomar


um gole de champanhe, foram atraídos a Penny Maynard, que ficara corada com as palavras de Sir Gregory. No entanto, suas bochechas rosadas voltavam a dar lugar a uma aparência pálida, exceto nos pontos onde a maquiagem conseguia fazer o seu trabalho. Meu Deus, pensou Chloe, ela vai desmaiar. Mas não poderia fazer nada, pois estava do outro lado do salão. Quando deu instintivamente um passo à frente, percebeu que Penny girava o corpo e começava a caminhar lentamente, deixando os homens da família para trás. O momento de crise passara, mas


Chloe ficou perturbada. O que acontecera? Ela ficou feliz ao ver que a música recomeçara, e mesmo sabendo que os seus tios não teriam fôlego para ficar por ali até de madrugada, sentiu-se a própria Cinderela. Vou aproveitar o que me resta, disse a si mesma. Estava recuperando o fôlego e tomando um gole de limonada quando viu Laurence se aproximando, com um sorriso no rosto. – Vamos, princesa – disse ele. – Acho que é hora de dançar comigo, certo? – Sinto muito, meu caro amigo – disse outro homem, um jovem ruivo que surgiu


do nada. – Nós estamos prometidos, e algo me diz que deveríamos dançar a próxima música juntos. O desconhecido carregou Chloe em direção à porta aberta ao jardim. Ela tentou soltar o braço, dizendo: – Me solta. – Confie em mim, minha querida – disse o homem, segurando-a firme. – Eu não sou conhecido como Jack, o Honesto por acaso. – Eu não sei como você é conhecido – disse Chloe, tentando soltar o braço. – Por que não pergunta a um amigo que temos em comum? – disse o homem, girando o corpo de Chloe no exato


momento em que uma silhueta surgia das sombras. – Aqui está ele, entregue de bandeja, mas acho que você saberá o que fazer. Boa noite, meus queridos. E se afastou, deixando Chloe cara a cara com Darius. – Sinto muito por isso – disse Darius. – Mas sempre que me aproximo de você sou interrompido por uma razão ou outra, por isso resolvi pedir a ajuda de Jack. – Eu não entendo... – disse Chloe, sem saber se ficara sem fôlego por conta da brutalidade de Jack ou da surpresa de ver Darius. – Você me disse que queria ser


escritora, certo? – ele perguntou, em tom suave. – Se for verdade, melhor começar a exercitar a imaginação, srta. Benson. E pousou as mãos na cintura de Chloe, levando-a em direção às sombras. Embora uma voz no fundo da sua mente gritasse, dizendo que era hora de correr de volta para o salão, seus lábios pareciam loucos de vontade de serem beijados por Darius. Sua boca era quente e quase assustadora, e cada mínimo toque fazia as terminações nervosas de Chloe responderem imediatamente. Ela


pressionou o corpo contra o dele, passando os braços ao redor do pescoço de Darius e entregando-se ao delírio momentâneo. Deixou que a língua de Darius invadisse sua boca num transe decididamente sensual. Quando ele levantou a cabeça, parecia sem fôlego. – Meu deus, minha querida... Você não sabe o que está fazendo comigo. – Eu sei, sim – ela respondeu, num murmúrio. Como não saberia? Desde a última vez que se viram ela não pensava em outra coisa. Não... aqui não. Assim não...


As suas palavras, repletas de um desejo palpável, não a abandonavam. Ela queria saber... tudo. Com as pontas dos dedos, Chloe explorava os contornos do rosto de Darius. Depois tomou sua mão e beijoua, pressionando-a contra um dos seus seios, ouvindo o gemido que Darius deixava escapar ao acariciá-la. Com os dedos, ele tentava driblar o tecido do vestido. Porém, naquele instante, ouviram vozes de pessoas sorrindo por perto. Estavam acompanhados. – Não podemos ficar aqui – disse Darius, num tom de voz apressado. – Eu


preciso estar sozinho com você. Vem comigo? Ela fez que sim, mas o seu movimento de cabeça não passava de um tique nervoso, pois ao mesmo tempo se dava conta do que fazia... Darius tomou a mão de Chloe, atravessando uma trilha que cruzava o jardim até chegarem a uma porta lateral da casa. Lá dentro, chegaram a um corredor, e no final surgiram escadarias e uma porta. Chloe nunca vira nada daquilo nas suas visitas anteriores, mas algo lhe dizia qual seria o destino final. Pouco depois, Darius parou e abriu


mais uma porta, fazendo com que ela entrasse. Era o seu quarto, como Chloe imaginava que seria, embora apenas com a luz do abajur acesa não pudesse ver muita coisa. Com uma primeira olhada, percebeu que não era o ambiente que ela esperava. O cômodo era pequeno e os móveis, incluindo a cama, eram poucos. Não havia quadros nas paredes, e se não fosse por uma calça jeans sobre uma cadeira e alguns livros na mesa de cabeceira, Chloe imaginaria tratar-se de um quarto de visita. Um local temporário, ela pensou. Darius o usava quando estava ali, não


era um morador permanente da casa. Já livre do paletó e da gravata, Darius tomou-a nos braços e levou-a até a cama, tirando-lhe os sapatos e as meias de seda. Durante um tempo, ficaram deitados um nos braços do outro, trocando beijos e carícias, mas Darius começou a aumentar a intensidade dos toques, explorando o seu corpo sem medo, abrindo os botões do vestido e descendo a sua alça, revelando os seios de Chloe, que começou a beijar carinhosamente. Ela, de olhos fechados, deixou a cabeça caída no travesseiro, e um murmúrio escapou da sua garganta. Os


seus mamilos estavam mais rígidos do que nunca graças à língua de Darius. – Meu Deus... – ele murmurava, e Chloe ficou maravilhada ao sentir o cheiro do próprio corpo quando Darius voltou a beijá-la. Ele continuava a abrir os botões do vestido, queria vê-la nua. E Chloe o ajudava, pois queria sentir o corpo de Darius contra o seu. Ele também se livrara da roupa que ainda cobria parte do seu corpo, atirando-a no chão, ao lado da cama, e roçando o peito nu contra os seios arredondados de Chloe. Ela arqueou o corpo, aproximando-se


dele, querendo estar ainda mais perto, abrindo-se a um instinto que não conhecia, sendo guiada unicamente pelo desejo. Ele murmurava o seu nome, depois beijou-a com paixão, acariciando as suas costas e afastando a calcinha, tocando a pele suave de seu bumbum. Pouco depois, ela estava completamente nua nos braços de Darius, que a observava, analisando o seu corpo, dos mamilos aos pelos entre as suas coxas. – Você sabe o quanto é linda? – ele perguntou, num tom de voz que ela mal reconhecia. – Você é simplesmente gloriosa, radiante.


E acariciava-le a cintura, depois começou a descer as mãos deliberadamente. Chloe gemia, e o seu corpo respondia liberando um calor no exato ponto que ele buscava alcançar. Ela cravou os dedos nos ombros musculosos de Darius, depois desceu as mãos até a sua cintura, abrindo a calça, descendo o zíper, sentindo o calor do seu membro ereto sob a cueca de seda. Darius se livrou daquela última peça de roupa e colou o seu corpo ao dela, fazendo com que Chloe sentisse a urgência do seu desejo entre as pernas nuas.


Ela deixou escapar alguns sons incoerentes, abrindo-se para ele. Darius tomou a sua boca, movimentando a língua ao mesmo ritmo que passeava os dedos sobre o seu corpo. Ela nunca sonhara com uma coisa daquelas. Ele sequestrava o seu corpo, alma e mente, deixando-a quente, molhada. A inocência de Chloe, em breves momentos, seria coisa do passado. E isso acontecia por estar nas mãos de um mestre na arte da sedução. E Chloe não resistia. Aliás, não queria nem saberia como resistir. Encontrando sua feminilidade, tocou-


a suavemente, deixando-a louca de desejo. Quando aquela exploração abriu espaço a uma leve e gentil penetração, o corpo de Chloe tremeu por inteiro. Ela estava à beira de uma grande transformação. – Estou te machucando? – ele perguntou, parando imediatamente de acariciá-la. – Não. Mas eu nunca... – ela conseguiu responder, com uma voz que não saberia dizer de onde vinha. Chloe esperava que ele a abraçasse, oferecendo segurança, dizendo que a transformaria em mulher de uma forma linda. Mas Darius ficou em completo


silêncio. Enquanto ela tentava reunir coragem para encará-lo, ele finalmente disse: – Claro. Eu devia ter notado... Mas estava cego, agindo como um egoísta. Chloe finalmente o encarou, com os olhos arregalados, percebendo uma pitada de medo na voz de Darius. – Algo errado? – ela perguntou. – Está tudo errado, eu diria – ele respondeu, afastando-se, pegando as suas roupas e deixando que ela visse o seu lindo corpo nu. – Mas a principal razão é que eu nunca deveria ter feito isso com você. Graças a Deus você me fez enxergar antes que fosse tarde


demais. – Não estou entendendo nada – disse ela, com voz trêmula. – Pensei que você me quisesse. – E quem não te quer, minha querida – disse ele, em tom baixo, quase inaudível. – Como eu já disse, você é linda... irresistível. Mas isso não é razão para roubar a sua castidade dessa maneira. – E por que me trouxe aqui? Ele respondeu de forma direta, cruel, e Chloe ficou corada, tanto que escondeu o rosto entre as mãos. Mas a verdade é que Darius nem olhava na sua cara.


– Sugiro que você se vista – disse ele. – Vou deixá-la sozinha, mas acho que precisará de ajuda com esses malditos botões. – Não se preocupe, eu me virei sozinha em casa – disse ela, vencendo o nó na garganta. – Então eu vou embora. Será melhor que não nos vejam descendo as escadas juntos. Quando sair, gire à direita, depois à esquerda no final do corredor, e você chegará à Grande Galeria. A partir daí você conhece o caminho – disse Darius, num tom impessoal, saindo do quarto com o paletó e a gravata no braço. À luz do abajur, o seu rosto


parecia carrancudo, sombrio. – Isso nunca deveria ter acontecido, peço que me perdoe. Acredite em mim, o melhor que posso fazer é ir embora. Algum dia, certamente, você entenderá. Não, pensou Chloe, quando a porta do quarto se fechou. Eu nunca entenderei. Nunca. Ela estava tonta, mas logo viriam o arrependimento e a dor da humilhação, e tudo o que Chloe queria era voltar imediatamente para casa. As suas mãos tremiam tanto que era impossível abotoar o vestido, mas finalmente conseguiu. O pior seria conviver com a ideia de


que oferecera tudo o que tinha a Darius e ele rejeitara, provavelmente por Chloe ter confessado a sua total inexperiência, o que teria feito dela uma mulher menos atraente. Ela deixara a bolsa no salão de festa, não poderia retocar o batom nem colocar um pouco de cor no rosto pálido. Ao descer as escadas, Penny Maynar apareceu. – Até que enfim. Os seus tios estão te procurando. Acho que estão querendo ir embora. – Obrigada. Não queria fazer com que me esperassem – disse Chloe, forçando


um sorriso. – Acho que tomei muito ponche, quis ficar sozinha um pouco. Penny deu de ombros, dizendo: – Essas coisas acontecem. O ponche foi preparado pelo Darius, e ele sempre exagera na dose. Mas você não parece muito mal. – Não. Sorte a minha – respondeu Chloe, mantendo o sorriso no rosto. Tudo o que ela queria era encontrar os tios e ir embora, para chorar no calor do seu quarto, em paz, em segredo.


CAPÍTULO NOVE

CHLOE FICOUparada ao lado da janela. Fazia frio, mas o clima não era a razão das suas lágrimas. Lembrar-se do que acontecera sete anos antes não fora bom para exorcizar os demônios. Na verdade, ela acabara de abrir uma ferida não cicatrizada. Ao sair do baile, explicou o desaparecimento à tia dizendo que se sentira mal após o jantar, provavelmente por culpa de algo que comera. – Você parece um fantasma – disse tia


Libby, franzindo a testa. – Nem pense em acordar cedo amanhã. Durma o máximo que puder. E no final das contas, já cansada de chorar, foi exatamente isso o que fez. Acordou por volta do meio-dia, tomou banho e vestiu um jeans e camiseta, mas o seu rosto continuava pálido e os seus olhos fundos de tanto chorar. Mais cedo ou mais tarde encontraria Darius, provavelmente em público, disse a si mesma, e isso parecia o fim do mundo. Ensaiou alguns sorrisos antes de descer as escadas. Ao chegar na cozinha, viu que o seu


tio já voltara à casa para o almoço. Os dois estavam de pé, perto da janela, conversando em voz baixa, mas ficaram mudos quando Chloe se aproximou. – Sinto muito. Interrompi alguma coisa? – Não... – disse tia Libby, que parecia não saber o que responder. – Acho que todo mundo já sabe. E devem conhecer todos os detalhes, tudo por culpa da sra. Thursgood. Chloe sentiu um súbito arrepio e perguntou: – O quê? O que está acontecendo? Meu Deus, será que alguém me viu saindo do quarto? Será que alguém


comentou alguma coisa? – Aconteceu um problemão na casa dos Maynard – disse tio Hal. – A sra. Maynard... Penny Maynard... deixou Andrew e fugiu com o irmão dele. Parece que foram encontrados juntos no quarto de Darius esta manhã, em “circunstâncias comprometedoras”. E sabe Deus há quanto tempo eles vêm fazendo isso... Dizem que foi um escândalo. Gritos, histeria, provavelmente tiros. No final das contas, Sir Gregory proibiu Darius de voltar para casa. E ele foi embora, levando-a junto. Ninguém sabe para onde.


Chloe sentiu um zumbido distante no ouvido. Era como se os seus tios estivessem no fundo de um longo túnel. Eu não posso... não posso... desmaiar... E tia Libby continuava falando: – Ontem à noite dava para ver que as coisas não estavam bem. Acho que ela e Andrew nem dançaram juntos. Mas todos os casais têm os seus problemas – disse ela, suspirando. – Eles formavam um lindo casal. Que tristeza. E que dor para Sir Gregory, que valoriza tanto a privacidade, ver sua família ser julgada em público dessa maneira. – Fazendo que não com a cabeça, sentenciou: –


Eles acabarão se divorciando. – Será inevitável – comentou o marido. Chloe engoliu em seco, perguntando: – Como... como vocês ficaram sabendo disso tudo? – Tracey, uma sobrinha da sra. Thursgood, estava ajudando na limpeza após o baile – respondeu sua tia. – Quando a confusão começou, todos escutaram. E ouviram claramente Sir Gregory gritando com Darius, dizendo que não tinha um pingo de decência e que, se não fosse embora sozinho, ele o arrastaria para fora de casa. Logo depois, Darius e Penny desceram com as


suas malas, entraram no carro e foram embora. A verdade é que Darius sempre foi a ovelha negra da família, e com certeza muita gente ficou feliz com essa partida. Ovelha negra, pensou Chloe. Mas como argumentar em contrário quando, apaixonado por outra pessoa, ele tentara seduzi-la tão descaradamente? Mas por quê?, ela se perguntava, sentindo-se mal ao pensar em Darius e Penny dormindo na mesma cama onde estivera horas antes. Quantas mulheres ele seria capaz de amar ao mesmo tempo? Chloe pensou que deveria ficar feliz


por ter revelado ser virgem. Talvez assim tenha conhecido o que restava de decência em Darius. Você é simplesmente gloriosa, radiante. Ao se lembrar dessas palavras, Chloe tremeu, sentindo um nó na garganta. Tudo o que ele fizera e dissera não significavam nada. Foram palavras ditas em vão. Darius preferia mulheres experientes, e não bobas, inocentes. Por isso interrompeu o que fazia, pensou Chloe. – Vamos comer – disse tia Libby, colocando um prato de salada no centro da mesa e cortando pedaços de uma


torta de bacon e ovos. E Chloe foi obrigada a comer, sentada na mesa, escutando o desenrolar daquela história. Comia bem lentamente, forçando para que os alimentos descessem pela garganta. – Penny Maynard deve estar fora de si – comentou tia Libby. – Como não estar feliz ao lado de um homem como Andrew? E que vida espera conseguir com essa fuga inesperada? Ela não estava feliz, pensou Chloe. Nunca esteve. Será que ninguém enxergava isso? Estava sempre tensa, no limite. Tio Hal deu de ombros, dizendo:


– Talvez fosse apenas um caso, mas é possível que tenham perdido o controle. A verdade é que agora eles só têm um ao outro. AINDA AO lado da janela, Chloe pensava: por que Penny não voltou com Darius? Estaria tudo terminado entre eles? Será que o perdão de Sir Gregory valia apenas para quem era do seu sangue, e por isso só permitira a volta do filho pródigo? E daí?, ela se perguntou, secando as lágrimas do rosto, fungando o nariz e se deitando na cama. Muito tempo se passou e todos somos pessoas diferentes, vivendo vidas diferentes. Eu


sei como será o meu futuro e com quem vou viver. O mais provável é que Darius também saiba. E caso tenha escolhido Lindsay Watson, provavelmente seu pai aprovará. Ela demorou para cair no sono, e quando finalmente conseguiu foi atormentada por uma série de sonhos que não a invadiam há muito tempo. Sonhos onde se via presa em cordas, incapaz de resistir, enquanto as mãos e boca de um homem exploravam o seu corpo com extrema sensualidade. Ao acordar, sua pele estava coberta de suor e seu corpo tremia. E na sua mente, embora ela não quisesse saber


muito bem por quê, continuavam latejando as palavras você é simplesmente gloriosa, radiante. – QUER DIZER que vão dar mais um daqueles bailes? – perguntou a sra. Thursgood, fungando o nariz. – Parece que estão atrás de confusão. E quem fugirá com quem dessa vez? Chloe, com expressão de pedra, deixou as cartas no balcão, dizendo: – Para a França, por favor. – França? – perguntou a sra. Thursgood, ajustando os óculos no rosto. – Está procurando trabalho por lá? – Não – respondeu Chloe. – Mas uma amiga minha está trabalhando na Riviera


Francesa. E isso não é da sua conta, sua velha fofoqueira, pensou Chloe. Mas a sra. Thursgood não desistiria tão fácil. – Darius Maynard esteve um bom tempo em Londres, às custas do pai. Ele não para quieto. Com certeza tem uma amante por lá. Chloe, percebendo que a fila aumentava, assim como aumentava o interesse das pessoas paradas na fila pelo que dizia a sra. Thursgood, mordeu o lábio inferior até sentir gosto de sangue, forçando-se a concentrar-se em Tanya.


O cartão-postal que recebera dois dias antes dizia: Esqueça os céus azuis. O vento sopra forte há uma semana, as crianças estão muito agitadas. Les parents foram para a Itália com uns amigos, e eu estou a ponto de enlouquecer. Socorro! Não sei como ajudar, pensou Chloe, recebendo o troco. Na verdade, fora complicado enviar uma mensagem positiva à amiga, principalmente por estar preocupada com tanta coisa que nunca poderia passar para o papel, como o baile do dia seguinte, por exemplo. Aliás, ela nem sabia se Darius estaria ou não presente.


Por aqui a vida anda agitada, ela escreveu. Eu estive dando uns passeios, cuidando de um cachorro, voltando à vida normal. Meu tio pretende se aposentar em pouco tempo, e por isso estou ajudando a redecorar a casa, que será vendida. Quanto tudo se assentar, eu e Ian vamos conversar com calma sobre a data do nosso casamento. Mas será que conversariam? Tinham se encontrado algumas vezes, mas o relacionamento parecia estático. Aliás, ela ainda não fora convidada à casa de Ian. Chloe queria confiar em Tanya, mas não sabia se deveria escrever tudo isso


num papel, como se dessa forma pudessem se transformar em assuntos ainda mais sérios. A verdade é que um casamento é para sempre, e Ian poderia estar simplesmente pensando no melhor para eles dois. Queria ter certeza... Mas qualquer dia desses, pensou Chloe, quando ele estiver em casa, vou aparecer por lá, levando comida e um bom vinho para jantar. – Ouvi dizer que os seus tios querem vender a casa – disse a sra. Thursgood. – E isso quer dizer que você também deverá se mudar, certo? – Eu vou ter tempo para pensar no que


fazer – respondeu Chloe, em tom frio, guardando as moedas na bolsa e seguindo em direção à porta. Do lado de fora, em segurança, respirou fundo. Mas como seria bom esfregar o convite do seu casamento na cara daquela fofoqueira, dizendo: “Já sei para onde vou.” Não era uma ideia muito civilizada, mas a sra. Thursgood tinha o dom de despertar os seus piores instintos. Lentamente, voltou ao carro. Planejara ir à casa dos Maynard, como fizera várias vezes após a fuga de Darius, dez anos antes, respondendo a pedidos de Arthur para que cavalgasse


Orion. No entanto, os comentários daquela mulher dos correios sobre Darius ter uma amante em Londres a deixaram furiosa e confusa. Quanto mais tempo Darius estivesse longe da sua vida, mais tempo estaria longe da sua mente. Afinal, o que os olhos não veem o coração não sente. Mas parecia impossível evitar a curiosidade de saber o que ele estaria fazendo... Nos dias que se seguiram, levando Flare para passear ou fazendo compras em East Ledwick, viu várias vezes Lindsay Watson, sempre caminhando com a cabeça baixa, como se pensasse


em coisas nada felizes... E Chloe podia imaginar a razão. De acordo com as fofocas locais, Sir Gregory melhorava a cada dia, e isso poderia significar que um dia não estaria mais trabalhando para ele. Talvez estivesse em busca de um novo trabalho. E caso nutrisse esperanças de se casar com Darius, o tempo se esgotava, especialmente com ele fora, em Londres. Talvez Lindsay também suspeitasse do que Darius fazia por lá. Eu deveria sentir pena dela? Isso seria impossível, pois Chloe já tinha os seus próprios problemas, as suas próprias preocupações.


Quando chegou ao estábulo, ficou surpresa ao ver Samson do lado fora, pronto para ser cavalgado. Ele claramente não gostava da situação, relinchando e se movendo de um lado para o outro. – Vou cavalgar Samson? – ela perguntou a Arthur. – De jeito nenhum, menina. O sr. Darius deixou bem claro que você deve ficar longe dessa fera. – Ah... ele falou isso? – Falou, sim. Na verdade, ele deixou bem claro, então pode esquecer. Samson vai embora amanhã para a Irlanda, e posso garantir que não vou sentir falta


dele... Tim Hankin costuma vir às tardes para cavalgá-lo, mas voltará ao exército. Para o Afeganistão, eu acho. – Tim? – perguntou Chloe, franzindo a testa. – Acho que eu não conheço... – É um bom menino – disse Arthur –, mas costumava ser muito agitado quando criança. O sr. Darius, que foi amigo de infância de Tim, o tirou de muitas encrencas, algumas pesadas. Chloe ergueu o queixo, dizendo, em tom frio: – Tudo indica que foram ótimos amigos. – Você acha? – perguntou Arthur, sorrindo. – Na verdade, tenho a


impressão que você não conhece muito bem o sr. Darius, minha querida. Agora peço que me dê licença, vou preparar Orion para que você possa cavalgá-lo. Chloe se recostou na parede, observando Samson, cada vez mais irritado. No estábulo, ouvia Arthur pedindo a Orion que ficasse quieto. É um cavalo muito ágil e salta como nenhum outro, foi o que disse Darius no restaurante. Mas vai para a Irlanda, pensou Chloe, e eu talvez nunca mais tenha a chance... Aliás, por que Darius pediu a Arthur que me proibisse que cavalgá-lo, como se eu fosse uma novata? Eu vou mostrar


a ele... vou mostrar tudo o que sou capaz de fazer... Não irei muito longe, darei uns saltos e volto para cá. Aproximando-se de Samson, ela disse: – Que cavalo mais lindo. Quero que me mostre do que você é capaz. Mas o cavalo não parava de relinchar e Chloe ficou paralisada. Poderia ser perigoso, ela pensou. Mas era hora de provar para si mesma que conseguiria domá-lo. Seria importante para o seu futuro, para a sua confiança. Murmurando bobagens sem sentindo, sem saber quem pretendia acalmar com aquelas palavras, ela ou o cavalo, Chloe


ajustou as rédeas. E então, como num passe de mágica, Samson ficou calmo, chegando a baixar um pouco a cabeça. Acho que ele precisava de um toque feminino, ela pensou, soltando-o e montando no animal. Por um momento, tudo ficou em silêncio, mas aquilo não passava da calmaria antes da tempestade, pois Samson estirou os seus poderosos músculos e girou o corpo com violência, como se quisesse arrancá-la de cima dele. Chloe tentava se manter firme na sela, pois se caísse poderia ser pisoteada por


aquele cavalo. No mínimo, terminaria muito machucada. Estava morta de medo, sem saber o que fazer diante de tamanha fúria, e ao longe pareceu escutar gritos masculinos. Um estranho apareceu por lá. Um homem alto, loiro, de ombros largos. Depois veio Arthur. Os dois tentavam agarrar Samson. E um par de braços surgiu perto dela, querendo tirá-la de cima do cavalo. Ela conseguiu descer, ficando longe do alcance de todos aqueles coices. Soluçando, mas aliviada, Chloe ergueu os olhos e viu o rosto pálido de Darius. Os seus olhos esmeralda a


fuzilavam. Ele parecia mais raivoso que Samson. – Você quer se suicidar ou algo parecido? – perguntou Darius, entre os dentes. Ela queria falar, explicar-se, mas era impossível vencer o nó na garganta. Darius ainda a abraçava e as suas palavras atingiram os ossos de Chloe. Ela começou a chorar. As lágrimas rolaram no seu rosto pálido. – Meu Deus – disse Darius, olhando para Samson, finalmente vencido pelos dois homens, e dizendo: – Tim, o carro da srta. Benson está lá fora. Leve-a para casa, por favor. Eu te espero no


Butchers Arms para tomar uma cerveja daqui a uma hora. Ela queria dizer que poderia ir embora sozinha, queria recuperar algo de dignidade, mas ao ver os olhos de Darius ficou muda. Tim Hankins a segurou com força, mas também com gentileza, ajudando-a a entrar no carro. Estavam a caminho da casa dos seus tios quando ele disse, em tom gentil: – Não leve o que Darius disse tão a sério, srta. Benson. Sim, você fez uma bobagem, mas cão que ladra não morde... Chloe limpava o rosto com os lenços


de papel que encontrara no porta luva, e disse, com voz ainda trêmula: – Ninguém nunca falou assim comigo. Ele parecia... me odiar. – O medo faz as pessoas cometerem loucuras – disse Tim. – E acho que Darius já esteve muito mais chateado comigo, pois eu merecia. – Não minta... – disse ela. – Não estou mentindo – retrucou Tim. – E não me orgulho do que vou contar, mas acho que você merece saber. Ele fez uma pausa antes de seguir, dessa vez em tom sério: – Aconteceu há muito tempo. Eu e Darius éramos amigos desde muito


novos. Mas ele ficou um tempo fora, na escola, depois na universidade, e eu fiquei chateado, pois não queria ser guarda florestal como o meu pai, e todo mundo esperava isso de mim. Resultado: acabei me juntando com um pessoal estranho. De alguma maneira, Darius descobriu... ele sempre descobre... No final das contas eu queria sair do grupo, pois o que eles faziam era fora da lei, uma crueldade, e eu não concordava. Mas tinha medo de me afastar, pois eles poderiam partir para cima de mim. – Você estava envolvido em brigas de cães? – perguntou Chloe, engolindo em seco.


– Exatamente. E Darius sabia que a polícia estava na nossa cola. Também sabia o que aconteceria com os meus pais caso eu fosse pego, por isso veio atrás de mim. Sabe Deus como, ele me encontrou, e se arriscou muito para salvar a minha pele. Quanto estávamos bem longe da polícia, ele gritou comigo, depois me bateu. E eu nem tentei me defender, pois merecia. Tim fez uma longa pausa. – No final das contas nos sentamos para conversar. No dia seguinte, Darius me levou ao posto de recrutamento mais próximo e eu me alistei. Entrei num regimento, cuidando de cavalos.


– Há rumores... sobre Darius... sobre brigas de cães – disse Chloe. – Eu sei, e sinto muito por isso. Mas Darius nunca se importou com o que as pessoas dizem. A verdade é que eu poderia ter sido preso, srta. Benson, e você poderia estar morta, com o pescoço quebrado. E como Darius viveria sabendo de tudo isso? Tim parou de falar e ligou o carro, sentenciando: – Vou te levar para a casa.


CAPÍTULO DEZ

– PAPELADA?

– PERGUNTOU Chloe. – Você se enrolou com uma papelada? Ah não, Ian... – Veja bem – disse ele, ao telefone, com voz grave. – Eu estarei presente neste jantar, mas não vou poder passar para te buscar. E você pode ir com os seus tios, certo? – Posso – respondeu Chloe, fazendo grande esforço. – Claro que posso. Mas aquele não era o problema. Ela queria chegar com ele, como se fossem


um casal, pois assim não teria de encarar Darius sozinha. Ela contava com a presença de Ian. Mas não queria revelar a Ian a estupidez que fizera ao montar em Samson. Talvez Darius estivesse certo, pensou Chloe, mas eu não posso contar isso a ninguém, nem mesmo aos meus tios. Aliás, eles não estavam em casa quando Tim a levou de volta. Por sorte, tinham deixado um bilhete dizendo que estariam fora e que o almoço estava pronto. Mas tudo o que ela conseguiu foi tomar algumas colheradas de sopa, pois


o seu estômago não aceitaria nada sólido. Ainda tremia por conta do risco que correra e do que acontecera em seguida. E não conseguia parar de chorar, mesmo repetindo para si mesma que Darius não tinha o direito de falar com ela daquela maneira. Pensou em inventar uma dor qualquer para não ir à festa no dia seguinte, mas Darius perceberia sua mentira. A batalha travada com Samson a deixara física e mentalmente abalada, por isso Chloe resolveu tomar um banho quente, demorado. E se a água quente foi capaz de relaxar seu corpo, também relaxou sua


mente, e ela começou a pensar em tudo o que Tim Hankin lhe contara, especialmente no que Darius fizera por ele. Chloe deveria ficar feliz ao saber que Darius não se envolvera em nada daquilo, mas isso não o transformava no anjo Gabriel. E Chloe não precisaria desculpá-lo. – Eu não deveria pensar nele. E não vou pensar. Mas precisaria que algo ocupasse a sua mente, e o trabalho costuma ser a melhor solução. Por isso lembrou que a sua tia lhe dissera que o jardim precisava de uma limpeza. Vestiu jeans


e camiseta e foi à luta. Os seus tios ficariam felizes com os seus esforços. Na semana seguinte, três corretores iriam ver a casa. Mas ao mesmo tempo começaram a fazer perguntas sobre os seus planos de futuro e Chloe não sabia o que dizer. Já é hora de eu e Ian pararmos de bobagens, disse a si mesma, no seu quarto, descansando do trabalho no jardim. Aliás, esse mesmo trabalho serviu de desculpa para dormir mais cedo, escapando de novas perguntas dos tios. Se realmente é hora de preparar o meu casamento, não devo perder tempo com os cavalos de outras pessoas, e


assim eu evitaria maiores problemas. Por mais estranho que pareça, ela dormiu profundamente, acordando revigorada. – Vou ao cabeleireiro, por conta da festa de hoje – disse tia Libby, no café da manhã. – Quer que eu peça a Denise um horário para você? Chloe fez que não, dizendo: – Vou lavar com um bom xampu e deixá-lo solto. Ian prefere assim. – Como quiser, minha querida – disse a tia. – Imagino que ele te levará à festa. – Sim – ela respondeu. Mas, não, Ian não a levaria. À tarde, seu tio chegou atrasado em


casa, dizendo: – Estive na casa dos Maynard, pois eles poderiam precisar de mim para preparar aquele maldito cavalo para a viagem. Mas Darius contratou gente da tal fazenda irlandesa e eles fizeram um bom trabalho. – Ah – disse Chloe, colocando o prato do tio na mesa com mais cuidado do que o normal, com o coração batendo a mil. – Eu... ouvi dizer que vão levar Samson. Vendo que o tio se servia com calma, percebeu que ninguém comentara sua visita no dia anterior. No entanto, isso não tornaria a festa


daquela noite menos estressante. Chloe usava um vestido lindo, que marcava todas as suas curvas, à altura do joelho e de mangas compridas, vermelho. Pintara os lábios e unhas da mesma cor, e usava brincos com uma pedra avermelhada que ganhara no aniversário de 21 anos. Estou vestida para matar, foi o que pensou ao se olhar no espelho. Deveria estar agradecida por ninguém ter comentado nada sobre o que fizera no dia anterior, mas estava muito apreensiva. Embora repetisse a si mesma que estava exagerando, era impossível livrar-se de tal apreensão.


CHLOE ESP ERAVAque Ian conseguisse se livrar rapidamente dos papéis e já estivesse na festa quando ela chegasse. Mas ao dar uma olhada rápida no salão perdeu as esperanças, sentindo um vazio no peito. Ian, cadê você quando eu mais preciso? Sir Gregory estava sentado numa poltrona ao lado da lareira. Embora estivesse resplandecente num terno verde escuro, seu rosto parecia abatido e a boca um tanto caída num dos lados. Chloe também reparou que, de alguma maneira, ele parecia ter encolhido. Ou talvez simplesmente parecesse pequeno


ao lado do jovem alto de pé ao seu lado. E esse jovem sorria, dizendo: – Senhora Jackson, é um prazer revêla. Todos se cumprimentaram, e Darius olhava diretamente para ela. – Chloe... – disse ele, inclinando a cabeça, num gesto perfeitamente educado. – Boa noite – ela respondeu, um tanto sem fôlego, depois foi cumprimentar Sir Gregory. Quando terminou de cumprimentar a todos, pegou um copo de suco de laranja na bandeja carregada por uma das empregadas da casa. Queria relaxar um


pouco. Mas só ficaria tranquila quando Ian chegasse. No entanto, ele parecia não ter pressa, e ela esperava que pelo menos chegasse antes do início do jantar. Quando a porta se abriu, ela olhou para trás, esperançosa, mas era Lindsay Watson. Ela usava um vestido azul marinho com colarinho e punhos brancos, e os seus cabelos loiros estavam presos num coque severo. Aparentemente, estava calma, era a mesma enfermeira eficiente de sempre, mas os seus olhos estavam arregalados e o seu rosto, vermelho. E como não estaria, pensou Chloe,


tomando um gole de suco de laranja para acalmar a secura da sua garganta. Todo mundo naquela sala devia estar careca de saber que ela queria ser a nova lady Maynard. Lindsay caminhou em direção a Sir Gregory, curvando-se, e ele fez que sim, sorrindo com óbvio esforço. Tio Hal se aproximou de Chloe, perguntando: – Cadê Ian? Tentei ligar para ele, mas não tenho sinal por aqui. – Vou lá fora, mandar uma mensagem de texto – disse Chloe, rapidamente. – Talvez tenha sido chamado para uma emergência.


– Mas por que não ligou para avisar? – perguntou o tio, e Chloe não sabia o que responder. Ela saiu para o terraço e começava a escrever a mensagem quando ouviu passos. Era Ian, que se aproximava, com o rosto carrancudo, preocupado. Ela perguntou: – Ian, onde você estava? E por que vem daí? – Ah, Chloe... Eu esqueci que é uma ocasião especial e estacionei perto do estábulo. É o hábito, eu acho. Ela respirou fundo e disse: – Pelo menos você chegou. Eu estava ficando preocupada.


Ele deu de ombros, dizendo: – Eu estava ocupado. E... perdi a hora. – Tudo bem – disse ela. – Tudo bem, eu entendo. Mas não. Na verdade eu não entendo nada e estou mais assustada do que nunca. Quero que você me tome nos braços e me diga que tudo terminará bem. Quero entrar nessa festa de mãos dadas com você, dizendo a todos que se perdeu no caminho, em tom de brincadeira. Mas eu sei que nada disso vai acontecer. E sei que, de alguma maneira, continuarei sozinha por aqui.


E pensou no olhar de Darius, naquele olhar esmeralda, e tremeu. Erguendo o rosto, disse: – Vamos entrar. Está na hora do jantar. COMO TIA Libby dissera, a comida estava maravilhosa. Nem Chloe, que não tinha fome, conseguiu resistir. Ian sentou-se ao lado de Lindsay Watson, na outra ponta da mesa, mas Chloe percebeu, aliviada, que ele conversava com o sr. Burton, que também estava ao seu lado. No entanto, ele parecia tomar mais vinho do que o habitual. Darius também parecia muito


ocupado na outra ponta da mesa, conversando animadamente com tia Libby e a sra. Vaughan. Ao mesmo tempo, Chloe percebeu várias olhadelas de Darius na sua direção, e tentou não devolver nenhuma, mas não conseguia tirar da cabeça a conversa que escutara no caminho da sala de jantar, entre Darius e Lindsay. – Por que está usando uniforme, Lindsay? – ele perguntou. – Você está de folga esta noite, lembra? – Porque é mais apropriado – ela respondeu, sem olhar para ele nem sorrir. – Sob tais circunstâncias... Claramente, Darius esperava que ela


se apresentasse como a sua futura esposa, e não como a enfermeira do seu pai, pensou Chloe, mordendo o lábio inferior. Quando o jantar chegou ao fim, Sir Gregory se levantou lentamente e, com óbvia dificuldade e desculpando-se por não participar da festa, convidou a todos a tomar um café na sala ao lado. – Doutor Vaughan diria que eu preciso acalmar os meus impulsos para aproveitar o futuro – disse ele. Chloe subiu com as outras mulheres para pentear o cabelo e retocar a maquiagem, mas ao voltar viu Darius no sopé da escada, e percebeu que a


esperava. Desconcertada, ela parou, sem saber se deveria continuar descendo, e o sorriso no rosto de Darius deixou claro que ele entendera o que acontecia. – Meu pai está descansando na biblioteca, mas gostaria de conversar com você. Caso seja possível, claro. – Ele quer conversar comigo? – perguntou Chloe, surpresa. – Quer. Ela ficou parada por alguns instantes, movendo a alça da bolsa. – Sobre o que aconteceu com Samson? – perguntou Chloe. – Não, nada disso. Você acha que eu


comentaria algo com ele? Você não me conhece... – Acho que não, mesmo – disse Chloe, respirando fundo. – Mas gostaria de dizer que sinto muito pelo que fiz, sei perfeitamente que eu não deveria... – Tudo bem – disse Darius. – Mas acho que a culpa não é só sua. Segundo Arthur, o que eu disse teve em você o efeito de sacudir um pano vermelho na frente de um touro. – Quer dizer que agora eu sou um touro? De qualquer maneira, obrigada por não ter dito nada ao meu tio... nem a ninguém. – Eu nunca fui fofoqueiro, Chloe.


– Não – ela respondeu. – Tim me contou o que você fez por ele... Aquela história das brigas de cães... – Contou? – perguntou Darius, dando de ombros. – Mas isso não importa, foi há tanto tempo. – Eu sei, mas as pessoas acham que era você quem estava envolvido na caso, e não ele. – Eu sei – disse Darius. – Pensam mesmo. Mas eu não ligo. – Como? – Isso é bom para que eu me convença de que não pertenço a Willowford, que o meu mundo está em outro lugar. – Mas você voltou...


– Por enquanto – disse ele, mais uma vez em tom baixo. – Mas o meu pai está nos esperando. Vamos? Sir Gregory estava com uma manta nas pernas, sentado ao lado da lareira. Seus olhos estavam fechados, mas uma das mãos batia no braço da cadeira. – Chloe está aqui, pai – disse Darius. – Ótimo – respondeu Sir Gregory. – Ótimo. Sente-se, minha querida. Por favor. Chloe sentou-se à sua frente, ouvindo a porta da biblioteca se fechar, e percebeu que Darius os deixara sozinhos. Seguiu-se um silêncio, mas finalmente


dir Gregory disse: – Minha esposa dizia que você era linda, e ela estava certa. Chloe ficou corada ao dizer: – Ela sempre foi muito gentil comigo. – Ela nutria grandes esperanças... Sempre achou que você deveria ter uma oportunidade de abrir as asas e voar. Imagino que ela tenha comentado sobre a sua vida, sobre as cidades e embaixadas onde viveu... – Sim – respondeu Chloe, sorrindo. – Ela me contou. E tudo parecia incrível... tão exótico, tão divertido. – Ela adorava viajar. Acho que nem ela sabia o quanto isso era importante na


sua vida – disse Sir Gregory, limpando o canto da boca com um lenço. – Quando nos casamos, planejávamos continuar fazendo isso. Queríamos ver o mundo juntos. Mas o meu pai morreu de repente e fomos obrigados a voltar para cá. E tudo mudou, claro. Uma casa como esta, uma propriedade tão grande, exige responsabilidades. É impossível virar as costas e ir embora. E eu adoro tudo isso. Ele suspirou, fazendo uma pausa antes de continuar. – Então nasceram os meninos, o que pareceu ser mais uma razão para continuarmos construindo a nossa vida


nesta casa. Sempre imaginei que Margaret gostasse, mas... ela não gostava da vida no campo, das obrigações. Willowford parecia uma prisão para ela. – Sir Gregory, eu não acho que... Ele ergueu uma das mãos, dizendo: – Por favor, minha querida, eu preciso te contar essas coisas. A minha esposa adoraria que eu fizesse isso. Pois você foi à universidade, ganhou o mundo, exatamente como ela queria que acontecesse. Mas os meus filhos disseram que você voltou, que pretende se casar e morar aqui. No entanto, é muito importante que você reflita se é


realmente isso o que quer. – É o único futuro que vejo... – E a ideia de ser escritora? Você se esqueceu disso? Chloe o encarou, sua respiração era cada vez mais entrecortada, dura. – Não, não exatamente – ela respondeu. – Mas casar não vai me impedir de escrever. Terei mais tempo livre. E Willowford sempre foi a minha única casa. Eu... sempre quis voltar para cá. Ele inclinou o corpo para a frente, com esforço, e encarou-a, perguntando: – E Willowford é a mesma de antes, das suas lembranças, ou mudou? E você,


será que é exatamente igual a quando foi embora daqui? – Sou – ela respondeu, sem pensar duas vezes. – Admito que muita coisa mudou por aqui, mas isso não importa, porque eu voltei para o homem que amo e quero ser feliz ao lado dele, como sempre sonhei. Seguiu-se um silêncio, depois ele disse: – Sei... – e recostou-se na cadeira forrada de almofadas, olhando para a lareira. – Se é assim, transforme os seus sonhos em realidade, minha querida. E tenha uma boa noite. Chloe ficou parada do outro lado da


porta, com os braços cruzados, na defensiva, tentando entender o que acontecera. Ela poderia jurar que Sir Gregory nem sabia da sua existência, mas conversaram como se estivesse preocupado com o seu futuro. Da mesma forma como antes fazia lady Maynard, uma mulher que sempre sentiu falta do mundo que deixara para trás, para quem a vida naquela cidade pequena era opressiva e chata. Mas eu não sou assim, murmurou Chloe. Não quero fugir. Eu pertenço a este lugar. Pertenço sim! – Chloe... O chão rangeu quando ele se


aproximou, e ela engoliu em seco, dando passos instintivos para trás. – Eu sei qual é o caminho para a sala – disse ela, encarando-o. – Não se preocupe. – Eu vim entregar um recado – disse Darius. – O seu namorado parecia um pouco alterado por conta do vinho e os seus tios acharam melhor levá-lo para casa. Ele virá pegar o carro amanhã. – E já foram embora? – perguntou Chloe, fazendo que não, assustada com o comportamento de Ian. – Mas como eu vou fazer para voltar para casa? – Os Vaugham moram lá perto. Eles disseram que poderiam te levar.


– Ah... obrigada – disse Chloe, embora aquela fosse a última coisa que queria ouvir. Era hora de voltar à festa, mas Darius não se afastava. Embora não interrompesse o caminho, era como se o deixasse bloqueado. Ela respirou fundo. – Ian não costuma beber tanto – disse Chloe. – Ele está... muito estressado ultimamente. – Imagino – comentou Darius. – Deve estar pensando no casamento. – Pode ser... Certas pessoas costumam se entregar à bebida quando sofrem algum tipo de pressão. Poderia


acontecer o mesmo com você. – Não creio – respondeu Darius, sorrindo. – Não quero passar o dia do meu casamento com uma ressaca. Muito pelo contrário, a minha esposa terá a mais completa e devota atenção. – Acho que esses detalhes não são da minha conta – disse ela. – E se você me dá licença... Preciso falar com os Vaugham. Não posso perder a minha carona. – Claro que não – disse Darius. – Mas o que você vai fazer, Chloe, quando não tiver para onde correr, quando ninguém mais puder te ajudar? O que acontecerá quando você perceber que


cometeu o pior erro da sua vida? – Eu sei – disse ela, com inesperada gravidade. – Sete anos atrás, quando eu era boba o suficiente para ouvir as coisas que você costuma me dizer... Eu me deixei levar. – Você está exagerando, minha querida – disse ele, em tom suave, mas com expressão dura, visível mesmo sob a fraca luz do corredor. – Os danos causados estão longe de ser irreparáveis, embora eu tenha sido um idiota ao interromper... Isso não acontecerá novamente. – Novamente? Você ficou louco? – Ainda não – ele respondeu,


mantendo o tom calmo. – Mas quando isso acontecer, vou te levar comigo. E tomou um dos seus braços, arrastando-a na sua direção. Depois passou os dedos no interior do vestido de Chloe, tocando a sua pele nua. Sentir Darius tão perto fez um calafrio subir pelo corpo de Chloe. Ele a beijou, depois baixou a cabeça, aproximando-se dos seus seios, afastando o tecido do vestido e sugando o mamilo que não parava de enrijecer. – Não. Meu Deus, não... – Aquelas palavras pareciam vir do nada. Chloe tinha um nó na garganta. Tentou afastá-lo antes que sucumbisse


completamente. Mas Darius passeava os dedos entre os seus cabelos, e conseguiu mantê-la por perto, encarando-a e dizendo: – Fica comigo esta noite. Eu posso inventar uma desculpa para os Vaugham. – Não – disse Chloe, arrumando o vestido com mãos trêmulas. – Nunca! E você não tem o direito de me pedir esse tipo de coisa, pois eu te odeio. Você... você me dá nojo! – Em outras circunstâncias... – disse Darius – eu te levaria para a cama agora mesmo. Mas preciso voltar aos meus convidados. Espero que se divirta e que passe uma boa noite em claro, sem


poder dormir. Ao terminar de falar, baixou a cabeça e roubou-lhe um beijo, um beijo suave, mas ao mesmo tempo lento, uma verdadeira agonia. – Até a próxima, Chloe – disse ele. E foi embora.


CAPÍTULO ONZE

– EU NÃO estava bêbado – disse Ian, irritado. – Mas admito que passei do limite, embora não tenha sido culpa minha. O nosso querido anfitrião encheu o meu copo muitas vezes. Mas você poderia ter pedido para parar, pensou Chloe. – Na verdade, acho que estou decepcionada porque não passamos mais tempo juntos – disse ela. – Eu te vi tão pouco nos últimos dias. – Com a aposentadoria do seu tio tão


perto, será inevitável – disse Ian, dando de ombros. – Tenho muito o que aprender sobre o negócio. Ao voltar para casa, esperava que os tios lhe dissessem algo sobre Ian, mas não. Eles nem mencionaram o assunto, preferiram conversar sobre a ótima comida e sobre as visíveis melhoras de Sir Gregory. Por outro lado, imaginou que Ian daria o braço a torcer, adotando uma posição mais humilde, mas também se enganou nesse sentido... A pressão do trabalho reduzira ainda mais o tempo que passavam juntos. Tomaram alguns drinques, jantaram


uma vez em East Ledwick e foram ao cinema juntos, mas Ian acabou dormindo no meio da sessão. Não parecia ser o momento ideal para conversar sobre o casamento, embora aquela situação não pudesse se prolongar infinitamente. Afinal de contas, ela voltara a Willowdford por ele, disse a si mesma, e precisava da sua salvaguarda, precisava de uma aliança para demonstrar a todos que o seu retorno era justificado. Em menos de dez dias chegaria o famoso baile de aniversário... Não posso permitir que ele volte a se


aproximar, pensou Chloe. Nunca! Tenho um plano de futuro e farei de tudo para cumpri-lo. Não vou ligar para nada mais. Nem mesmo para as estranhas palavras que Sir Gregory me disse. Aliás, muito menos para isso. No entanto, elas pareciam importantes. – OUVI DIZERque aquela enfermeira vai embora – disse a sra. Thursgood, com um sorriso. – Sir Gregory deve estar melhor. Mas acho que você nem liga para isso, certo? – Claro que fico feliz que Sir Gregory esteja se recuperando – respondeu Chloe, domando o tom da voz, mas com


o coração a mil por conta do que escutara. – Mas isso não é tudo... Aquela mulher, a viúva do sr. Andrew, vai voltar. Ela estará presente no baile. Parece que tudo está virando de cabeça para baixo. Na verdade, eu sempre imaginei que nunca mais a veria. Mas parece que é hora de perdoar... E talvez tenhamos mais um casamento se o sr. Darius resolver ficar com ela. – É – disse Chloe, num tom de voz que nem ela reconheceu. – Talvez. Depois pegou e foi embora no pilotoautomático, voltando ao sol. Penny... voltando a Willowford para


ficar com o amante, o homem em nome de quem um dia abandonara tudo. Mas seria novamente aceita como nora por Sir Gregory... Seria verdade? Poderia ser verdade? Se fosse, coisas inacreditáveis estavam acontecendo, e Lindsay Watson tinha toda a razão ao tirar o cavalo da chuva. No entanto, eu não posso fazer como ela, não posso ir embora. Tenho de estar aqui, vendo tudo isso acontecer. Meu Deus, vai ser duro conviver com tudo isso diariamente, fingindo não me afetar. Mas o que eu poderia fazer?


Chloe ficou parada, assustada com os próprios pensamentos. Naquele instante, chegou à conclusão de que o homem por quem se apaixonara de verdade há sete anos... o homem que não saía do seu coração, mesmo tendo feito tudo o que fez... era Darius Maynard. Sempre fora ele, e sempre seria. Todos os esforços de se esquecer de Darius foram em vão. Na verdade, ela fora novamente atraída a Willowford por aquelas lembranças, certa de que algum dia ele retornaria. Parece loucura, pensou Chloe, desesperada. Isso não está acontecendo


comigo, não pode estar acontecendo... Eu não vou permitir. Voltei para ficar com Ian, para construir um lar ao seu lado. Foi isso o que planejei para a minha vida, certo? Eu me sentia segura, sabia que ele estaria me esperando. Chloe respirou fundo, reconhecendo que se aferrara a tais esperanças, pois encarar a verdade seria impossível... Porém, pensando na conversa com Sir Gregory, ficou com uma pulga atrás da orelha. Ele sabia? Por isso tentou avisar que seria melhor se ela fosse embora para bem longe dali?


E a repulsa que Darius causava na sua tia? Ela também desconfiaria de alguma coisa? E Penny? Teria sido a responsável, pedindo a Darius que se envolvesse com uma jovem para abafar o caso que havia entre eles dois? Talvez eu não tenha passado de uma brincadeira para Darius... uma brincadeira que ainda não chegara ao fim... Felizmente, aquela história parecia alheia às antenas da sra. Thursgood. Ainda bem. Chloe se esquecera que ao entrar no correio deixara Flare amarrada num


poste, e ela latiu. Meu Deus, pensou Chloe, sentindo-se culpada, percebendo que ficara parada no meio da rua, como se fosse uma estátua, e que poderia ter morrido atropelada caso um carro tivesse virado a esquina. – O que fazer? – murmurou. – O que eu poderia fazer? Ela se lembrou da ideia de persuadir Ian a morar em outra cidade. Porém, dadas as circunstâncias, ele nunca aceitaria. Talvez fosse o momento de fugir sozinha. Se eu realmente o amasse, não o faria esperar tantos anos... teria me entregado


muito antes. Eu confundi tudo. E o tratei mal. Mas vou colocar tudo no seu devido lugar. A minha próxima prioridade será entrar em contato com o meu agente em Londres. Vou pedir que procure um trabalho em outro país da Europa. Talvez na América. Quero cortar o mal pela raiz. Não quero estar aqui para testemunhar nada. E a mudança dos meus tios me ajudará, pois nem eles estarão por perto. Pensou em Sir Gregory perguntando se ela ainda era a mesma pessoa que fora ao sair de Willowford. E eu disse que sim..., pensou Chloe,


triste, engolindo em seco. Mas a verdade é que, na universidade, demorei um ano para me esquecer de Darius e conseguir levar a vida adiante. E aqui estou eu, ainda apaixonada por ele e vendo o mundo desabar ao meu redor. E o pior é que já nem tenho a desculpa de ser apenas uma adolescente... Seja lá como esteja me sentindo neste momento, um dia estarei em outro lugar, bem longe daqui, recostada numa árvore, tomando banho de sol, e estarei curada. E talvez encontre espaço para um novo amor, para alguém em quem eu


possa confiar pelo resto da minha vida. O SEU vestido, clássico, comprido, de tafetá verde, estava dependurado na porta do armário. Foi a última coisa que viu antes de dormir, e a primeira quando acordou, na manhã seguinte. Chegara o dia do baile. Ela se sentou na cama, observando aquela roupa maravilhosa, protegida por um plástico. Aliás, não era o vestido dos seus sonhos e custava caro. Pior: certamente só o usaria uma vez, pois chamava muito a atenção e todos se lembrariam caso repetisse. Mas tudo bem, pois a nova Chloe


entraria em ação em menos de 24 horas, construindo uma vida nova. Claro que ainda havia arestas a aparar, incluída uma longa conversa com os seus tios, embora não pudesse ser totalmente franca sobre os motivos da sua fuga de Willowford. Mudanças de planos, era o que diria. Era o que poderia dizer. E o mais próximo da verdade. Mas Ian seria o primeiro a saber, e não seria nada fácil... principalmente porque na noite anterior tinham saído para tomar um drinque e tudo correra bem, como nos velhos tempos. Ele estava tranquilo e de bom humor,


chegando a dar-lhe um abraço afetuoso quando se despediram. Esse encontro fez Chloe pensar que a história entre eles poderia dar certo... No entanto, quando ele disse que não a levaria ao baile, tudo veio por água abaixo. Especialmente porque ela estava louca de vontade de dançar, de agir como uma menina normal... embora também pudesse inventar uma dor de barriga e desaparecer. Mas precisava ver Darius e Penny juntos, o futuro barão e sua senhora, e entender de uma vez por todas que não deveria nutrir esperanças, que era hora de seguir em frente com a sua vida.


Sentiu os músculos da garganta contraídos e fechou os olhos, querendo tirar Darius da cabeça. Mas lidaria com essa situação quando chegasse o momento, não sofreria por antecipação. Tentaria pensar em coisas menores. Nas pessoas e nos lugares de que sentiria falta. E daria adeus a Flare, claro. Aliás, Lizbeth Crane estava melhor e o seu marido acabara de voltar de Bruxelas. Eles já não precisariam de alguém para passear com a cadela. – Você foi incrível – disse a sra. Crane, abraçando-a efusivamente. – Não sei o que teria feito sem a sua ajuda.


– Foi um prazer – disse Chloe. – Aliás, imaginei que nos encontraríamos no baile. – Claro que sim, não perderíamos essa festa por nada – disse Lizbeth. – Sei que existem rumores pela cidade... e alguns deles, se forem verdade, poderiam causar muitos problemas. Mas tenho certeza que é tudo mentira, que não temos por que nos preocupar. Como John sempre diz, no passado a sra. Thursgood seria afogada no lago. – É bem provável – disse Chloe, forçando um sorriso e pensando em quanto teria viajado a fofoca sobre ela ter estado com Darius...


Pelo menos não parecia ter chegado aos ouvidos de Ian, pensou, levantandose da cama e se preparando para tomar banho. Não queria causar mais uma dor. Mas por que continuava mantendo a ilusão de que eram um casal? Chegara a hora de encarar os fatos. Eu estou usando Ian, pensou Chloe, triste, e isso não é certo. Preciso encarálo e dizer que está tudo acabado entre nós, mas mantendo de pé o convite para me acompanhar no baile. Claro que ele provavelmente diria que não, furioso. Mas era um risco que Chloe precisava correr. – Ian vai estar no centro hoje de


manhã? – ela perguntou ao tio, que tomava o último gole de café, já de pé na porta da cozinha. – Não, ele pediu horas livres por alguma razão. – Talvez queira descansar antes do baile – disse Chloe. – Na verdade, ele não parecia muito animado no último jantar... – comentou o tio. Mas a noite de hoje não vai ter nada a ver com aquele jantar, pensou Chloe, colocando uma fatia de pão na torradeira. Ela terminava de comer quando tia Libby apareceu na cozinha, apressada.


– Os corretores ligaram dizendo que querem trazer possíveis compradores às 11h, mas a casa está uma bagunça. A casa estava em ordem, e Chloe sabia disso, mas a sua tia queria que tudo estivesse imaculado. Ela se levantou, guardando o que usara no lava-louça e dizendo: – Vamos começar a arrumar, então. A casa ficará brilhando. – Mas você tem hora marcada no salão de East Ledwick. – Às 11h30. Antes posso ajudar um pouco na limpeza da casa. No caminho, teria tempo de ligar para Ian. E a verdade é que uma boa


manicure e maquiagem levantariam o seu humor. Era sempre ótimo relaxar nas mãos mágicas de Bethany, a dona do salão de East Ledwick, e quando a máscara foi removida do seu rosto Chloe se sentia muito melhor, embora a sua mente não parasse de ensaiar tudo o que diria a Ian. Mas ele não estava em casa. A porta e as janelas estavam trancadas, as cortinas fechadas e o carro desaparecera. Eu devia te ligado, pensou Chloe, voltando ao seu carro. E a primeira coisa que viu quando chegou de volta à casa dos tios foi que a


placa “vende-se”, cravada no jardim, ganhara uma tarja onde se lia: “vendida.” – Parece que temos ótimas notícias, certo? Vamos abrir um champanhe? Para sua surpresa, ninguém disse nada. Ao entrar na cozinha, encontrou tia Libby sentada à mesa, olhando para o vazio, com uma xícara de café intocada à sua frente. Meu Deus, pensou Chloe, imaginando que a tia se arrependera da venda. – Tia, quero que me escute – disse Chloe, finalmente. – Era o melhor que vocês poderiam ter feito, e tenho certeza que você também sabe disso, que


encontrará um novo e adorável lar... Mas tia Libby fazia que não com a cabeça, dizendo: – Não tem nada a ver com a casa, Chloe. É algo... muito diferente. – Ela fez uma pausa, respirando fundo. – Ian esteve aqui. Ele chegou logo depois que as outras pessoas foram embora. – Isso explica por que não o encontrei em casa – disse Chloe. – Ele deve ter vindo dizer que me levaria ao baile. – Não – respondeu a tia. – Ele não estará presente no baile. Na verdade, ele pediu uma semana livre, e abriu mão do salário. Tia Libby fez uma longa pausa, e


finalmente disse, numa torrente: – Ah, minha querida Chloe, ele foi embora com Lindsay Watson... Os dois pretendem se casar. – Ian... e Lindsay... Eu não entendo? – murmurou Chloe. – As fofocas começaram assim que ela chegou por aqui – disse tia Libby, em tom grave. – Mas eu não acreditei. Os dois eram solteiros e as pessoas costumam comentar... Aliás, as notícias correm numa velocidade incrível em Willowford. Mas os rumores persistiam... e você disse que voltaria, e parecia confiante no seu relacionamento, por isso eu resolvi não dizer nada.


Afinal de contas, vocês poderiam ter tido casos enquanto estavam separados... isso é comum hoje em dia. – Não – disse Chloe. – Eu não tive nenhum caso. Embora esteja apaixonada por outra pessoa, pensou. – Percebi que as coisas não estavam bem entre vocês – disse a tia. – E fiquei pensando se deveria contar alguma coisa, mas não quis interferir, e agora me arrependo... A verdade é que eles dois foram muito discretos. Tia Libby esticou o braço e pegou um envelope escondido sob a papelada do corretor.


– Ele deixou esta carta para você. – E levantando-se da mesa, disse: – Imagino que prefira ler sozinha. Eu deveria ter percebido desde o princípio. Aquela história sobre nos conhecermos novamente. As reformas na casa. A hostilidade de Lindsay e o fato de Flare parecer conhecê-la de algum lugar. Por que fui tão cega? E lembrou-se da sra. Thursgood dando o seu aviso de que os homens se cansam, falando sobre a possível mudança de Lindsay... Todo mundo sabia menos eu, pensou Chloe. Eu estava muito ocupada pensando em mim mesma.


O envelope continha uma única folha de papel, que dizia: “Querida Chloe, eu posso imaginar o que você estará pensando de mim, e não consigo me sentir pior do que estou. Desde o início, eu deveria ter contado que tinha conhecido outra pessoa, mas nunca parecia o momento certo. E a minha desculpa era que você estava longe, sozinha. “Não querendo te magoar, acabei magoando Lindsay, e tudo explodiu pouco antes do jantar. Tivemos uma terrível discussão e ela me disse que, caso eu não me decidisse, estaria tudo acabado.


“Também me disse que eu não deveria me preocupar muito com você, pois ela poderia jurar que havia mais alguém. Talvez você entenda o que ela quis dizer com isso. Seja lá como for, espero que seja muito feliz no futuro. Ian.” E fim de papo, pessoal, pensou Chloe, entregando a carta à tia e dizendo: – Não é assunto privado, apenas a confirmação de tudo o que você disse. – Ah, Chloe... Minha querida, eu sinto muito. – Não se preocupe – disse Chloe. –


Foi o melhor que poderia ter acontecido. Acho que eu idealizei Willowford como se fosse o céu, onde tudo estaria na mesma, esperando por mim. – Ela suspirou. – Uma espécie de Jardim do Éden particular. – ...onde a sra. Thursgood é a cobra – disse tia Libby. – Exatamente – comentou Chloe. – Mas claro que as coisas não são assim. Eu inventei tudo isso. E já começava a duvidar se queria mesmo continuar morando aqui. Acho que Ian me fez um favor. – Mas você parecia sempre tão certa de que ele era o homem da sua vida... e


eu gostava da ideia. De certa forma, isso aliviava minha culpa. – Culpa? Sua tia começou a mexer na pilha de papéis, alinhando-os com extrema precisão, e finalmente disse: – Ele escreveu. Queria o seu contato em Londres. Mas eu não respondi, então ele veio aqui... – Tia Libby – disse Chloe, nervosa. – Você está falando sobre... sobre Darius? Sua tia fez que sim, dizendo: – Ele disse que precisava te ver... que ia morar fora, mas que antes precisava conversar com você, contar algumas coisas que você precisava saber, coisas


que ele precisava explicar. Ele queria o seu endereço, o nome da sua faculdade. Ele... ele praticamente implorou. Chloe estava com a garganta seca, e perguntou: – E você respondeu? – Eu disse que ele já tinha causado muitos problemas, que não deixaria que te magoasse... Disse também que não acreditava que ele ainda tivesse coragem de aparecer em Willowford após tudo o que acontecera. E que deveria sumir daqui para nunca mais voltar, pois nem eu nem você o queríamos ver novamente. – E acho que ele se convenceu – disse


Chloe. – Pois foi embora. – Não sei porque estou contando tudo isso... especialmente agora. E não pretendia contar. Aliás, deve ter sido por isso que fiquei feliz com a história de Ian. Imaginei que você estaria segura ao lado dele. – Eu também – disse Chloe, dando um beijo na testa da tia. – Nós duas nos enganamos, mas você não precisa se martirizar por conta de Darius. Eu sempre serei grata por tê-lo mandado embora daqui. Respirando fundo, Chloe sentiu uma pontada no coração. O que acabara de dizer era apenas a primeira de muitas


mentiras que contaria nos dias que estavam por vir.


CAPÍTULO DOZE

A

tranquila quando Chloe desceu as escadas. De certa forma, a partida de Ian, embora tenha sido um choque, foi uma ótima desculpa para não ir ao baile, dizendo que não queria ver ninguém e que tinha muito o que pensar. Porém, a verdade é que não queria ver uma pessoa. Talvez duas, contando Penny. Claro que a desculpa de que tinha muito o que pensar era verdadeira. CASA

PARECIA


Precisava montar os seus planos e esperava uma onda de comentários sobre a partida de Ian no dia seguinte. Um prato cheiro para a sra. Thursgood. No entanto, fora complicado convencer os tios de que ficaria bem sozinha, dizendo que planejava tomar um banho quente e dormir cedo. Tio Hal considerava a decisão de Ian como uma traição, dizendo que nunca ficara tão decepcionado com uma pessoa. Aliás, ele também recebera uma carta de Ian, dizendo que tiraria uma semana de folga, abrindo mão do salário, para que pudesse se casar com Lindsay.


– Mas eu quero que ele suma para sempre – disse o tio. Os dois estavam preocupados com Chloe, convencidos de que ela estaria fazendo um enorme esforço para esconder sua decepção com Ian. Se ao menos Chloe pudesse revelar a todos que planejava fazer o mesmo... Com uma taça de vinho nas mãos, deitou-se no sofá. Sim, estava abalada por conta de tudo o que acontecera naquele dia, e uma voz no fundo da sua mente repetia: Por quê? Por quê? Por quê? Mas o que realmente não saía da sua cabeça era aquela discussão de tia


Libby com Darius. Só de saber que ele voltara a Willowford, com todas as repercussões que isso poderia gerar, para tentar conversar com ela, explicar... Mas como?, pensou Chloe. Como explicar o inexplicável, o indesculpável? Como justificar ter destruído o casamento do irmão, causando tanta dor? O baile daquela noite poderia ser uma tentativa de limpar a sua imagem. Mas seria possível? A vida de muita gente fora destruída, mas Chloe estava decidida a salvar a sua, tomaria uma rota distinta.


Penny continuava presente na vida de Darius, e provavelmente nunca saíra. Eis a dura realidade que Chloe deveria encarar. – Eu vou superar – disse ela. – Vou superar essa história. Tomou um gole de vinho, mas o gosto foi amargo, por isso deixou a taça de lado. Não poderia confiar no vinho para curar suas tristezas. Chloe ouviu o girar de uma chave na porta. Seus tios estariam de volta, provavelmente convencidos de que não poderiam deixá-la sozinha. A porta foi fechada e Chloe ouviu passos. Eram os passos de uma pessoa,


não de duas. Ela se sentou, apreensiva, olhando para a porta da sala, que foi aberta. Era Darius. – O que você quer? – perguntou Chloe. – Fiquei sabendo que o seu noivado terminou e que você estava muito mal para sair de casa – ele respondeu, sentando-se à sua frente, muito elegante na sua roupa de festa, com uma faixa vermelha na cintura que acentuava as suas formas. – Essa história é muito intrigante... E ficou um tempo olhando para os pés nus de Chloe, que imediatamente os tapou, encarando-o.


– Enfim, a verdade é que resolvi vir até aqui para ver o que estava acontecendo – disse ele. – Mas eu apostaria que o desaparecimento do seu noivo não a tenha deixado muito preocupada, embora talvez tenha causado uma pequena ferida no seu ego... Mas para que fingir? – O que você sabe sobre isso? – perguntou Chloe, na defensiva, assustada com a sua repentina chegada e com todas aquelas acusações. – Mais do que você imagina – respondeu Darius. – Não se esqueça que fui um observador privilegiado desse triângulo amoroso.


– Não apenas um observador... você também estava flertando com Lindsay Watson. – Não. Pelo menos não da maneira como você imagina. Há vários meses, Ian prometeu que escreveria para você, contando tudo. Mas não fez nada disso. E você voltou, falando sobre casamento. Lindsay ficou muito triste, morta de ciúme. Ela precisava de um amigo. Aliás, também queria causar ciúme em Ian, e eu fui útil nessa história. – Mas como você conseguiu entrar aqui? – Sua tia Libby me deu a chave. Chloe engoliu em seco, dizendo:


– Eu não acredito. Ela nunca faria isso. – Tudo bem, eu a arrastei para o meio dos arbustos e consegui fazer com que me desse a chave. – E ela deu... – É possível que sua tia tenha a sensação que me deve uma... Mas talvez tenha se convencido quando eu disse que viria até aqui para tentar te arrastar ao baile, como uma Cinderela. – Me contaram coisas sobre você... e não são dignas de um Príncipe Encantado. – Tudo bem, esse tal Príncipe Encantado sempre me pareceu um idiota


ao deixar que a mulher da sua vida fosse embora por conta de um maldito relógio marcando meia-noite. – Sei... Mas acho que você deveria ir embora. – Sozinho? Nem pensar. Coloque o seu vestido e iremos embora juntos. – Não. Eu não vou fazer isso. Vou ficar aqui. – Para perpetuar o mito da noiva traída? – ele perguntou, fazendo que não com a cabeça. – Isso não funciona e você sabe muito bem. Se realmente estivesse tão louca por ele, não teria passado tanto tempo longe. Ele baixou o tom de voz, perguntando:


– Mas isso nunca foi um problema para você, certo? O pobre Ian devia estar subindo pelas paredes e você não conseguia enxergar o que estava na cara. Ele não queria se casar. Chloe se levantou, dizendo: – Cale a boca. Cale a boca agora mesmo. O que você sabe sobre amor e lealdade? Você nunca foi fiel na vida e não tem o direito de falar assim comigo. Não mesmo. Está me escutando? – E desde quando escutar é obedecer? – perguntou Darius. – Pense bem, minha querida. – Você não sabe nada sobre isso. Sobre nós. Nada. Eu amava Ian. Amava


mesmo. E nunca o traí... Seguiu-se um pesado silêncio entre eles dois, e Darius finalmente disse: – Essa será a sua última mentira, combinado? Vá trocar de roupa, caso contrário perderíamos o brinde de aniversário. – Por favor... por que está fazendo isso comigo? – perguntou Chloe, num murmúrio. – Conversaremos em outro momento... quando tivermos tempo. Talvez todo o tempo do mundo. Ela ficou sem fôlego. Tudo o que queria era bater em Darius, com toda a força, perguntando: “Se você me amava


tanto, por que fugiu com a sua cunhada? E como pode ficar de pé nesta sala, falando tudo isso, agora que ela voltou?” Mas Chloe não perguntou nada. Ela ergueu o rosto, desafiando-o. – Quem está contando mentiras agora? – perguntou Chloe, e girou o corpo, subindo as escadas. Darius a seguiu. Ela pegou o vestido verde dependurado no armário e tirou o plástico que o cobria. Após uma longa pausa, Darius comentou: – É lindo. E você ficará ainda mais


bonita. Vista por mim, minha querida. Por favor. Algo no tom de Darius fez as pernas de Chloe tremerem. Ela estava nua sob aquele roupão, e os dois sabiam disso. Darius já a vira nua antes, tocara, explorara o seu corpo, mas isso parecia ter acontecido há tanto tempo... Você é simplesmente gloriosa, radiante... Ela ficou paralisada, morta de medo e também de vergonha, pois em sete anos o seu corpo poderia estar diferente. E pensou em Penny, esperando por ele na festa...


Darius deixou o vestido sobre a cama e saiu do quarto, fechando a porta. Graças ao enorme decote, teria de usar uma roupa íntima bem pequena. Ao terminar de vesti-lo, pensou: nem assim eu confio plenamente em mim. Estava com as mãos muito trêmulas para maquiar-se. Usaria apenas um batom. Mas a verdade é que ninguém naquele baile esperaria vê-la radiante... Escolheu um brinco de jade, uma pulseira de prata que combinava com a sandália e respirou fundo, aproximandose da porta. Darius estava do lado de fora, apoiado à parede, mas esticou o corpo


ao vê-la. – Meu Deus, Chloe, você me deixa sem fôlego – disse ele, e os dois desceram as escadas e entraram no jipe, em silêncio. O BAILE NÃO era idêntico ao anterior, pensou Chloe. Antes parecia um evento exclusivo, mas aquela vez a impressão era a de que toda a cidade fora convidada, inclusive a sra. Thursgood e o marido, um homem de bigode que, ao contrário da esposa, praticamente não falava. Quando Chloe entrou no salão todos ficaram mudos. Mas ela ficou aliviada ao perceber que, pouco a pouco, as


conversas voltavam a tomar conta do ar. – Você conseguiu, eu estou aqui – disse ela. – Mas acho que deveria me aproximar dos meus tios, deixando-o livre... – Eu vou com você, preciso entregar as chaves. Mordendo o lábio inferior, Chloe o acompanhou até o canto onde os Jackson estavam de pé, conversando com uma loira que usava vestido azul claro. – Chloe – disse a mulher –, que prazer revê-la. – Penny... – disse Chloe, num murmúrio. – Quer dizer, sra. Maynard. Boa noite.


O momento que ela temia chegara, e numa circunstância pior do que jamais poderia ter imaginado. Penny sempre fora linda, mas aquela noite estava perfeita. – Você chegou bem a tempo, meu querido – disse ela a Darius. – O seu pai quer fazer o brinde. – Vou acompanhá-lo. Quer vir comigo? Acho que ele gostaria. – Tudo bem – disse Penny, sorrindo para os Jackson. – Peço licença por alguns minutos. Conversaremos mais tarde, enquanto todos estiverem se recuperando do choque. E olhou para Chloe, dizendo:


– A gente vai se ver muito no futuro, eu espero. Quando ela se afastou, Chloe perguntou à tia: – Como você pôde... Por que deixou que ele fizesse isso comigo? Ele me arrastou até aqui. – Eu não tive escolha – respondeu a tia. – Acho que sempre subestimei a determinação desse rapaz em conseguir o que quer. Na verdade, acho que todos nós subestimamos. Sir Gregory subia na baixa plataforma, segurando o microfone, com Darius e Penny ao seu lado. Quero ir embora, não quero escutar


nada disso, pensou Chloe, sendo obrigada a sorrir e aplaudir, como todos os presentes. Mas ir embora naquele momento seria chamar demais a atenção. Lentamente, Sir Gregory começou a falar: – É um grande prazer receber tantos amigos esta noite, neste que poderá ser o último baile de aniversário. Ele esperou os murmúrios se acalmarem, e continuou: – A minha recente doença me deu tempo para pensar, e eu pensei no passado e no futuro, chegando à conclusão de que a minha família


poderia não continuar morando aqui. Em primeiro lugar, manter esta casa é muito caro, exige muitos esforços. Porém, o mais importante foi perceber que o meu filho, o meu herdeiro, construiu uma vida fora daqui. Ele tem compromissos em toda a Europa. Não posso pedir que abandone tudo e abrace responsabilidades que ele nunca quis ter. Sir Gregory fez uma pausa. – Por isso decidi vender esta casa e grande parte da propriedade ao grupo Hatherstone. Em pouco tempo eles construirão um hotel, e se comprometeram em contratar gente


daqui, criando novos postos de trabalho. Será um novo começo para Willowford. Ele engoliu em seco, mas continuou: – No entanto, vou manter as terras de Warne Cross. E vou morar lá, numa casa que foi reformada especialmente para mim, para que eu possa viver confortavelmente o tempo que me resta. Espero que todos venham me visitar algum dia, bem como o meu neto, pois o meu filho e a mulher que em pouco tempo será a sua esposa me darão um neto. Tenho algo mais a dizer, mas... boa noite e que Deus abençoe a todos. Ah, vamos dançar! – Parece que não somos os únicos se


aposentando por aqui – disse tio Hal à tia Libby. – No entanto, não era isso o que eu esperava ouvir. – Não mesmo – comentou a tia, olhando para Chloe. – Talvez ainda exista algo a ser negociado. Chloe não os escutava. Ela só pensava que a venda daquela casa era uma novidade impensável. – Está abafado aqui dentro. Vou tomar um pouco de ar – disse Chloe aos tios. – Ótima ideia – comentou a tia. – Sei que as novidades foram um choque, minha querida. Mas você realmente não sabia de nada? Ela fez que não, dizendo:


– Não, eu não sabia de nada. Especialmente o detalhe de Darius estar a ponto de ser pai. – Está tudo bem, minha querida – disse tio Hal. – Hoje foi um dia repleto de choques, mas eu fico orgulhoso ao ver que você está se recuperando bem de todos eles. Fico muito orgulhoso mesmo. E você está linda. Chloe sorriu novamente, fez que não com a cabeça e saiu para a varanda. Nem parecia notar que Darius ajudava Penny a descer da plataforma, sentandoa numa das cadeiras do salão. Suspirando, Chloe foi em direção à escuridão.


CAPÍTULO TREZE

ELA FICOU parada por alguns instantes, respirando fundo e sentindo o cheiro das flores. Um pouco mais calma, desceu as escadas que levavam ao jardim, subindo cuidadosamente a barra do vestido. Havia um banco de pedra por perto, onde ela se sentou, olhando para o céu, rezando para ser enviada para bem longe dali. Mas sua calma foi interrompida pela voz de Darius, dizendo: – Chloe... cadê você? Sei que está por


aqui. Ela ficou gelada. Ele a seguira? O que foi que eu fiz? Que culpa tenho se Darius fez com que eu me apaixonasse por ele... e depois me deixou? E ele estĂĄ cortejando Penny na frente de todos... Ela tentava nĂŁo tremer, ouvindo cuidadosamente os passos de Darius pelo jardim. Ele parecia voltar para dentro de casa. Afinal de contas, deveria estar ao lado do pai e da mulher que carregava o seu filho. Decidida a ir embora, e quando chegasse em casa faria imediatamente as malas, Chloe se levantou, mas ouviu


uma frase dita em tom suave, triunfal: – Até que enfim! Darius não fora embora, estava quieto, esperando que ela se revelasse. Chloe tentou sair correndo, mas caiu quando o salto da sandália cravou na grama, ficando com um pé descalço. – Eu estava brincando quando te chamei de Cinderela, minha querida. – Acho que estou sem senso de humor... Na verdade, a minha meianoite já passou há muito tempo. Quero ir embora daqui. – Eu entendo – disse ele –, mas não posso ir embora agora por razões óbvias. Por que não esperamos um


pouco e fugimos juntos, amanhã de manhã? Ela tremia violentamente. E com fúria disse: – Porque isso não será possível. Aliás, nunca foi. Por favor, por favor, não diga essas coisas. Será que você não tem pena de mim? – Tenho, e demonstrei há sete anos, quando te deixei livre. Estava começando a fazer amor com você e notei que, caso chegássemos ao fim, eu nunca conseguiria te deixar, mas você era jovem demais para um relacionamento sério. Cursaria a universidade... sonhava com uma


carreira... tinha um futuro pela frente. Ele respirou fundo, depois continuou falando: – Eu disse a mim mesmo que não poderia roubar a sua chance de descobrir quem você realmente era nem o que queria da vida. Seria cruel e injusto da minha parte. A minha mãe me avisou isso. Ela amava o meu pai... mas sabia o quanto era complicado viver uma vida não desejada. Por isso eu fui embora para a França, no dia seguinte, sem você. Darius fez mais uma pausa, com o rosto trincado. – No entanto, tentei manter contato.


Sempre imaginei que, dando notícias constantemente, você um dia perceberia que o que queria de verdade era estar ao meu lado. E tudo o que eu tinha de fazer era esperar... Mas nós dois sabemos que isso não funcionou. Ela estava com um nó na garganta, com lágrimas nos olhos, mas disse: – Você me deixou... por ela. Chloe dizia as palavras que jurara nunca pronunciar. – Não – respondeu Darius. – Eu fui embora com ela, o que é muito diferente. E isso só aconteceu porque, por acaso, Andrew nos encontrou juntos no meu quarto. E o mundo veio abaixo,


claro. Andrew parecia um louco, gritando, xingando. E o meu pai parecia mais nervoso do que nunca, não queria ouvir explicações. Ele suspirou antes de dizer: – Eu já estava com as malas prontas, mas não poderia deixar Penny sozinha, por isso a levei a Londres. – E você poderia explicar tudo isso? – perguntou Chloe. – Agora é fácil – respondeu Darius. – Mas não aqui, precisamos de privacidade. Sem que ela pudesse pensar, Darius tomou-a nos braços, levando-a à mesma porta lateral de anos antes.


– Não... Eu não... – ela gritava. Quando a deixou de pé, Chloe estava sem ar, mas o encarava. – Como você ousa me trazer aqui... vocês fizeram amor neste quarto. Aliás, você não pensou duas vezes antes de dormir com Penny. E agora acha que eu sou obrigada a aceitar isso? – Não – respondeu Darius. – Você está enganada. Eu e Penny nunca dormimos juntos, nem neste quarto nem em lugar nenhum. Aliás, acho que o marido dela deve estar esperando. Você não o conheceu porque ele está lá em cima, cuidando do filho deles dois. – Penny... casada?


– E muito bem casada. O nome dele é Jean Pierre, um amigo com vinhedos na Dordonha. Eles se conheceram em Londres. – Mas ela queria ficar com você... – Ela veio comigo pois estava louca para se separar de Andrew. Foi o que aconteceu. – Por quê? Darius tomou a mão de Chloe, levando-a à beira da cama e sentando-se ao seu lado. – Eu e Andrew nunca nos demos muito bem. Ele era um homem solitário, o perfeito herdeiro que segue os passos do pai. Eu não. Ele não tinha muitos


amigos, e nenhuma namorada significou nada na sua vida. Quando ficou noivo de Penny, foi uma surpresa... pelo menos para mim. Eu não sabia que estavam juntos. Mas fiquei feliz. Ela era linda, poderia ser uma boa companhia. Mas quando voltei para casa notei que as coisas não estavam bem. Andrew parecia mais introvertido do que nunca e Penny era uma sombra da mulher que fora antes do casamento. Tentei conversar com ele... mas nada... Darius respirou fundo, e disse: – No baile de aniversário, percebi que tudo piorara. Dessa vez eu conversei com o meu pai, mas ele disse


que Andrew era um marido ideal, que Penny era um pouco neurótica e que a minha vida era uma desgraça pública, por isso eu deveria ficar calado. Darius tomou a mão de Chloe, acariciando-a, antes de dizer: – O que ele não sabia, e eu acabara de descobrir, era que a minha vida mudara para sempre desde o momento em que fui nadar no lago Willow e encontrei uma linda menina, uma menina que, sentada numa pedra, parecia esperar para que eu me apaixonasse por ela. Chloe baixou a cabeça, escondendo o rosto corado com os cabelos.


– E eu me apaixonei – disse ele. – Imediatamente. Aliás, nunca estive tão feliz em toda a minha vida. Pela primeira vez enxergava um futuro com alguém. E ao mesmo tempo Penny insistia, dizendo que queria conversar comigo. Eu mantinha distância, mas sabia que Andrew notava... Naquele dia, o baile terminou mais cedo do que o previsto, e quando eu subi ainda sentia o seu cheiro no meu travesseiro... Ele respirou fundo mais uma vez. – Disse a mim mesmo que fui um idiota deixando que você escapasse. Queria ir à sua casa e dizer: “Eu te amo, venha comigo, vamos nos casar


imediatamente.” – Você queria me dizer essas coisas? – perguntou Chloe, com voz trêmula. – E por que não disse? – Por todas as razães que já dei – ele respondeu. – E estava morto de medo, pensando que você poderia dizer negar. Naquela noite, dormi pensando em você. Quando alguém tocou o meu ombro, eu disse o seu nome. Queria que fosse um milagre... Ele fez uma nova pausa, depois seguiu: – Mas era Penny. Ela estava ao lado da minha cama, ainda usando o vestido da festa, e disse: “Quando você for


embora, quero que me leve. Vou ficar na casa da minha tia em Londres. E levarei apenas as roupas, não quero nada que Andrew tenha me dado. Não seria justo.” Eu não podia me levantar da cama, pois sempre durmo nu. Tentei acalmá-la, perguntei por que não sugeria que Andrew a levasse a algum lugar romântico... Ele sorriu. – Mas ela começou a chorar e caiu na minha cama. Ela chorava sem parar, dizendo que o seu casamento nunca fora real, que Andrew tentara fazer amor nas primeiras semanas, mas que não conseguira, e que eles dormiam em


quartos separados. Segundo Penny, o meu irmão nunca a amou, e se casou apenas para conseguir um herdeiro para a família. – Meu Deus... – disse Chloe. – Que horror. Aliás, deve ter sido um horror para os dois. – Mas o pior ainda estava por vir. Ela me disse que Andrew não era o tipo de homem com quem ela se casaria. Aliás, ele não era o tipo de homem com quem nenhuma mulher se casaria. Mas ele nunca admitiria, nem para si mesmo... Nesse momento a porta do meu quarto se abriu. Era Andrew, junto com o meu pai, e os dois nos encontraram abraçados na


cama. Darius fez uma pausa, dando de ombros. – Foi horrível. Ele gritava, dizendo que sempre suspeitara... Disse que nos encontrávamos em Londres, que ela não prestava. – Mas não era verdade – comentou Chloe, engolindo em seco. – Acho que foi uma maneira convincente que ele encontrou de se livrar de uma mulher que poderia lhe causar uma grande vergonha... Mas Penny não foi capaz de acusá-lo na frente do meu pai, e eu a respeito por isso.


– Pobre Penny, a sua vida se desmoronava e ela não conseguia dizer nada... Mas por que você está me contando tudo isso? Ela não vai gostar, certo? – Foi ela quem pediu. Sempre disse que, pedindo a minha ajuda, fez com que eu perdesse a minha família, a minha casa, a menina que eu amava. Ela quer pôr tudo em ordem. – E ela contou ao seu pai... sobre Andrew? – Não precisou. O próprio Andrew, antes de sair para seu último passeio, escreveu uma carta ao meu pai dizendo que há muito tempo percebera o que


realmente queria da vida, mas que não aceitava. Era uma espécie de traição à sua herança. Essa carta e a morte do meu irmão acabaram com o meu pai. Por outro lado, ao se recuperar, ele começou a enxergar a vida de outra maneira. E quando você voltou... – Mas você não foi muito gentil comigo no nosso primeiro encontro. – Você imaginava que eu fosse outra pessoa, depois disse que se casaria. Mas eu sabia que Ian e Lindsay estavam juntos, e imaginei que o estivesse usando para se manter longe de mim. – E acho que estava mesmo – disse Chloe, baixinho. – Eu não queria ser


magoada novamente. Tentei lutar contra os meus sentimentos, mas era impossível. Ao saber que Penny está grávida, imaginei que o filho fosse seu, e que vocês se casariam. A dor que senti foi tão grande que fugi. – Minha querida, só existe uma pessoa no mundo para mim. Como eu já disse, estava preparado para ser paciente, mas a minha paciência estava chegando ao fim... Eu te amo tanto, minha querida. Você vai continuar me obrigando a esperar? Ela curvou o corpo, aproximando-se de Darius, agarrando os seus ombros, pedindo um beijo.


As mãos de Darius tremiam ao tentar baixar o zíper do vestido de Chloe, que finalmente terminou caído no chão. Ela o agarrou, com as mãos entre os seus cabelos, oferecendo beijos apaixonados, tentando saciar aquele desejo há tanto tempo reprimido. E Darius acariciava o seu corpo, como se não acreditasse que Chloe estava ali... finalmente a ponto de ser sua. Ele beijou o lóbulo de sua orelha, e com as mãos tomou um dos seus seios, roçando o seu mamilo rosado, completamente excitado ao sentir o seu toque.


Ela murmurava o nome do amado, beijando a sua nuca. Os dois terminaram na cama, entre os lençóis. Ele começou a tirar a roupa, e ao mesmo tempo observava o corpo de Chloe, escondido unicamente atrás de uma pequeníssima calcinha. – Tira – ele pediu. E ela obedeceu, livrando-se lentamente da calcinha e sorrindo para Darius, que também estava nu. Finalmente, Chloe abriu os braços para recebê-lo. Chegaram ao êxtase juntos, mantendo um silêncio quase angustioso. Chloe era puro instinto, completamente aberta para


recebê-lo. Ao sentir a sua primeira penetração, quase dolorosa, jurou que nunca mais se entregaria a ninguém... apenas a ele. E ergueu a cintura, querendo satisfazê-lo, querendo que ele se esquecesse de todas as mulheres com quem tivesse estado antes. Mas a sua generosidade lhe rendeu um prêmio, pois a força do corpo de Darius gerava sensações inéditas para ela. Lentamente, ele mudou de posição, e Chloe começou a sentir ainda mais prazer. Um prazer muito íntimo. Percebendo o momento em que ele


entrava numa espiral de prazer, tentou resistir por alguns instantes, assustada com o que viria pela frente, mas acabou se entregando, presa de um êxtase profundo que a fez gemer. Pouco depois, foi a vez de Darius. Quando terminaram, ele a tomou nos braços, beijando a sua testa, murmurando palavras que ela nunca ouvira antes, nem imaginava que um dia escutaria. – Temos que nos vestir e voltar à festa – disse ele. –Será o último baile de aniversário e eu quero dançar com você. – E o que as pessoas vão dizer? – A verdade, provavelmente, mas e


daí? Não estaremos aqui quando a fofoca começar a correr. – Não? – Eu tenho que voltar à França amanhã. O vinhedo precisa da minha atenção. Mas talvez você não queira... Aliás, eu sei o quanto Willowford significa para você. Se quiser continuar morando aqui... tudo bem. A escolha é sua. – Willowford não significa nada para mim – ela respondeu. – Aliás, acho que nunca significou muita coisa. – Então, se eu te pedir que venha comigo, se eu pedir que se case comigo... o que você responderia?


– A mesma coisa que teria respondido há sete anos – disse Chloe, beijando-o antes de dizer: – Que a minha vida é sua e que estarei ao seu lado, onde quer que seja, hoje e eternamente. – Acho que você acabou de reescrever as juras de casamento – disse ele, beijando-a novamente.


O FIM DA INOCÊNCIA SARA CRAVEN – Qual é o sentido de discutirmos isso, Alison? Eu quero você aqui para a sua segurança e a do bebê. Se a imprensa descobrir quem você é e você ficar aqui sem a minha proteção, eles vão persegui-la constantemente. E o que poderia acontecer se você fosse perseguida pelos paparazzi? Você não tem nenhuma ideia de como eles podem


ser implacáveis e obstinados. Seus olhos escuros estavam sombrios, eram buracos negros sem fundo, intensos. Ela ficou paralisada por um momento. Então toda a profundidade simplesmente se foi, sua expressão se amenizou novamente. – Isso é uma... É uma possibilidade? – Você viu a imprensa no aeroporto de Washington. Aqui em Turan pode ser muito pior do que aquilo. – Ah. Ela realmente não tinha levado isso em consideração. Não acreditava que pudesse ser interessante para a mídia. Ela tinha visto como haviam sido


atraídos por Max no aeroporto, mas ele era... Bem, ele era digno de imprensa. Eles tinham amado sua esposa, mas ela era linda e talentosa. Alison realmente não tinha pensado que poderiam querer fotos dela. – Sim, “ah”. Eu não vou arriscar a segurança do nosso bebê. – Eu também não vou – disse suavemente, odiando que ele estivesse certo. – Eu vou lhe mostrar o seu quarto. Ele colocou a mão sobre suas costas e a levou gentilmente para fora de seu escritório, até um dos principais corredores do palácio. O toque casual


acendeu um fogo que incendiou o caminho a partir do ponto do contato até os dedos dos pés e subindo até a ponta dos dedos das mãos, percorrendo todos os pontos sensíveis. Uma pulsação forte e pesada entre suas coxas a fez se contorcer levemente, em um esforço para ganhar alguma distância e para acabar com a insistente sensação. Ela tentou se concentrar em algo diferente de seu toque. Um toque que não significasse nada para ele e que não devesse significar nada para ela. Olhou em volta, observando seu entorno e rangendo os dentes. A ala do palácio que haviam entrado era seus próprios


aposentos pessoais e, em vez de se assemelhar ao interior de um castelo gótico, tinha uma estética leve e moderna, semelhante à casa em Washington. As paredes eram de um branco brilhante, que contrastava com arrojadas obras de arte e mobiliário elegante e escuro. O decorador tinha bom gosto. Talvez fosse a esposa dele. O pensamento lhe deu um aperto no peito. Ele a levou a uma escada curva, enrolando o braço em volta de sua cintura e colocando uma das mãos sobre a barriga conforme caminhavam até o segundo andar. Ela achou o gesto


estranhamente reconfortante, o que a assustou. Quando chegaram, se afastou dele, n達o querendo que seu toque gerasse qualquer tipo de conforto. Ele a puxou novamente, colocando a m達o sobre a sua barriga lisa, empurrando lentamente a bainha de sua camisa para cima, com seus olhos escuros mirando os dela. Ele passou os dedos lentamente sobre a pele nua de sua barriga, como se tivesse o direito. N達o foi um gesto de posse, mas o reconhecimento de que eles compartilhavam algo especial. L叩grimas brotaram nos olhos de Alison. Era o filho dele que ela


carregava e não podia negar a conexão que ele sentia com o bebê ou a conexão que ela sentia com ele. Seu toque parecia adequado. Tão adequado que a ansiedade crescente que a corroía desde o telefonema sobre a confusão feita pelo laboratório foi momentaneamente mascarada pelo conforto que o simples contato lhe deu. Ela olhou para o lugar onde a mão se apoiava, a tonalidade dourada contrastava com sua pele pálida. Era fascinante, prendeu sua atenção, fez seu coração se apertar com uma sensação profunda que passava longe do desejo de algo simplesmente físico, mas isso


também estava lá. Parte dela queria que ele continuasse movendo a mão para cima, apalpasse seus seios, apertasse o mamilo entre os dedos. Olhou para cima tentando quebrar o feitiço. Seu rosto estava a centímetros do dele e ela estava impressionada com a perfeição de seus traços. Mesmo de perto, não conseguia encontrar uma única falha na boca sensual, no nariz e maxilar forte, nos olhos escuros e hipnotizantes. Percebeu que estava se aproximando dele, se inclinando, atraída por um instinto que não podia compreender ou controlar.


299 – ESPERANÇA VIVA – MAISEY YATES

O príncipe Maximo Rossi jamais esperava que uma confusão provocada por uma clínica de fertilização lhe daria um herdeiro. E agora a solteirona Alison Whitman não tem outra escolha senão ser sua esposa. 300 – CORAÇÃO DE ESMERALDA – LYNNE GRAHAM

Uma herança inesperada coloca novamente Rafael Cavaliere na vida de Harriet. Aproveitando-se de todo o seu


charme para tomar posse de metade da herança dela, Rafael a envolve em um inebriante caso. 301 – NOITE PERIGOSA – JENNIE LUCAS

A pequena e acuada secretária Lilley está prestes a realizar um conto de fadas: passar a noite com o desejado Alessandro Caetani. Será que a carruagem vai virar abóbora quando ela descobrir as reais intenções dele? 302 – UMA DISPUTA DE DESEJO – CAROLE MORTIMER

Drakon Lyonedes vai transformar o lar da família de Gemini em um hotel. Mas ela irá defender o que é seu. Quem


vencerá essa disputa? Os negócios ou o desejo? 303 – ÀS ÚLTIMAS CONSEQUÊNCIAS – MIRANDA LEE

Depois de um trauma, Scarlet King resolve provar para si que pode ter um bebê sem precisar de homem. John Mitchell sempre a desejou, mas só aceitaria ajudála a engravidar se fosse pelo método tradicional! 304 – FAMA IRRESISTÍVEL – CAROLE MORTIMER

Eva Grey tinha todos os motivos para detestar o poderoso e mulherengo Markos Lyonedes. Mas ao ser contratada para decorar a cobertura


dele, será bastante difícil ficar fora da cama dele! Últimos lançamentos: 295 – SEM ALIANÇA, SEM PASSADO – JANE PORTER

Humilhada em público pelo pai de seu filho, Emmeline se vê, de repente, abandonada. Para piorar, é confundida com sua irmã gêmea, a assistente do sheik Makin, a quem Emmeline terá de servir dia e noite! 296 – COMANDO DO CORAÇÃO – EMMA DARCY

Há quatro anos, Tina ficou grávida depois de um apaixonante caso com Ari


Zavros, um famoso playboy grego. Após saber do segredo, só havia uma solução para Zavros: seguir a tradição de sua família e casar-se com Tina! 297 – ATRAÍDO PELA VIRTUDE – MAGGIE COX

Jarret Gaskill é um impiedoso magnata do ramo imobiliário. Ele não desistirá de comprar a mansão High Ridge Hall, mesmo que para isso tenha de seduzir a nova inquilina: Sophia Markham. 062 – GAROTAS BOAS NÃO TÊM VEZ – NATALIE ANDERSON

Lena teve um desastroso romance no passado, e está tão imune a homem, que


nem os jogadores mais sexies da Nova Zel창ndia mexem com ela. Mas quando Seth aparece, o jogo vira completamente!


PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: THE END OF HER INNOCENCE Copyright © 2012 by Sara Craven Originalmente publicado em 2012 por Mills & Boon Modern Romance Projeto gráfico de capa: nucleo i designers associados Arte-final de capa: Isabelle Paiva Arquivo ePub produzido pela Ranna Studio


ISBN: 978-85-398-1226-4 Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4º andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921380 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


Capa Teaser Querida leitora Rosto Capítulo um Capítulo dois Capítulo três Capítulo quatro Capítulo cinco Capítulo seis Capítulo sete Capítulo oito Capítulo nove Capítulo dez Capítulo onze Capítulo doze Capítulo treze Próximos lançamentos


CrĂŠditos


o fim da inocencia sara craven  
Advertisement
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you