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ESCRITOR, HISTORIADOR E COLECCIONADOR. É ALEMÃO, MAS CONSIDERA-SE «LUSITANO». CHAMA-SE RAINER DAEHNHARDT E EXPÕE NESTE MOMENTO DEZ MIL PEÇAS DA SUA COLECÇÃO Textos de FILOMENA MARTA Fotografias de LUÍS FILIPE CATARINO A LONGA alameda de uma quinta em Belas, uma tabuleta as obelisco. Um pouco-sinal um mais à frente repousa um dó1men encimado por uma enorme estátua de um javali. Não é um parque arqueológico, é o caminho que leva a uma casa rodeada de canhões, grandes taças de bronze e potes de especiarias. Tesouros e indícios de que esta não é uma casa vulgar. Vamos entrar no museu privado de Rainer Daehnhardt. Um homem a quem o nome alemão não rouba a alma lusitana, que o tomou um estudioso da História de Portugal e um dos maiores coleccionadores de armas antigas. Foi no ano da graça de 1941 que Rainer nasceu, a 7 de Dezembro, na Áustria anexada pela Alemanha, em plena II Guerra Mundial. Uma pátria por acaso: os pais tinham casado em Lisboa. Ele alemão e descendente de uma família de diplomatas e militares radicada em Portugal há mais de duzentos anos; a mãe por -tugesa,nàcidaem berço abastado. A Suécia é o destino da viagem de núpcias e o casal passa a fronteira alemã na semana em que rebenta a guerra. O passaporte do pai vale-lhe a incorporação imediata. E tirado do comboio e metido numa farda para combater. A mãe fica sozinha num país que não conhece, com uma língua que não fala. Foram anos difíceis. Para sobreviver, recorre à única coisa que sabe fazer: os vestidos das suas bonecas. De máquina de costura ao ombro, percorre as quintas e faz cortinas e aventais para

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as camponesas a troco de um ovo ou de um pouco de leite. E ainda hoje recorda com emoção os tempos em que os tiros e as bombas eram os companheiros da sua vida.

COLECCIONADOR NATO RA o fim da guerra e corria o ano de 1945. Com 4 anos, Rainer começa a apanhar as Earmas que estavam à sua volta, espalhadas pelo chão. Mas, numa Alemanha dividida em zonas de ocupação, a posse de uma arma era uma sentença de morte. Razões de sobra para que até o mais destemido sentisse medo. O primeiro rasgo de coleccionismo de Rainer termina com os troféus enterrados e esquecidos. Hoje não gosta de armas modernas, mas a sua colecção conta com alguns milhares de exemplares antigos. A primeira espingarda de pederneira custou-lhe 400 escudos,, tinha Rainer 16 anos e vivia já em Portugal. E com. naturalidade que diz ter «começado do zero». Por causa do divórcio dos pais, teve de pagar os seus próprios estudos, e começou a regar o jardim da vizinha, em Cascais. Depois, comprou Atlas incompletos dos séculos XVII e XVIII, que já só valiam pelos mapas soltos. Emoldurou-os e começou por vendê-los aos professores. Acabou os estudos com 21 anos e 400 peças na colecção. Quis ter algum tempo para sentar-se e pensar no que faria com o ►

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► resto da sua vida. Para financiar esta fase

de reflexão, resolveu vender as peças que possuía, mas os antiquários ofereciam muito pouco. Revoltou-se ao pensar que tentavam aproveitar-se de si, pagando «ninharias por peças que valiam muito mais dinheiro ». Foi então que decidiu arrendar uma loja em Cascais, durante os três meses de Verão, onde pudesse comercializar as suas. antiguidades. Uma decisão de sucesso. Os três meses pro ano seguinte abria a segun--longarm-seno da empresa. Aos 35 anos tinha 14 firmas, e chegou à conclusão de que «estava a traba-

lhar de uma forma medonha». Vendeu uma dúzia de lojas aos empregados, mantendo apenas uma especializada em cartografia e outra em armas antigas. Reformou-se jovem, para ter mais tempo para os estudos.

ETERNO ESTUDANTE

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OS 14 anos, Rainer escreve o primeiro artigo de carácter científico, sobre um achado de moedas romanas feito por si, quando ajudava nas escavações arqueológicas do castelo de Saalburg. A vida académica foi dividida entre a Alemanha e Portugal, onde tira o curso politécnico em Línguas e Ciências na Escola Alemã de Lisboa. Num só mês aceita ser examinado em 15 disciplinas, entre as quais recebe cinco notas de 20 e oito de 18 valores. Depois, faz o curso de História com 20 valores. Mas ainda não sabe se quer ser arqueólogo ou professor. O que realmente desejava era estudar a evolução da Humanidade através das armas. Tal cadeira não existia em nenhuma Universidade do Mundo. Resolve inventá-la. Vai aos principais museus de armaria antiga europeus e americanos. Estuda com a Master of the Worshipful London Gunmakers Company. Financiou a sua própria formação e tomou-se um autodidacta. Mais do que um historiador, Rainer considera-se um eterno estudante: «No fundo, ain-

da sou o mesmo estudante que era aos 21 anos. No fundo, ainda vou pensar no que quero ser quando for grande.» A voz tie Rainer Daehnhardt torna-se reservada quando fala sobre si. Os seus olhos azuis fixam o nosso olhar constantemente, e o sorriso é breve, quase tímido: «Estou sempre a estudar, tenho uma fome enorme de saber. Sou perfeitamente capaz de me levantar às quatro da manhã, mergulhar nos livros e, de repente, dou-me conta de que já é hora de jantar do dia seguinte. Porque cada pergunta que me surge leva-me a um caminho enorme, até ter a resposta. Mas nesse caminho encontro mais vinte portas para outros conhecimentos. E vou-as abrindo, umas atrás das outras, e vou tendo mais e mais acesso. Mas cada nova resposta abre-me vinte novas perguntas. Por isso, a fome de saber está sempre presente.» Era um homem de aspecto jovial e barba grisalha que esperava à porta, com um caloroso cumprimento de boas- vindas. A tarde arrastou-se enquanto a conversa saltava das experiências pessoais para a história de um canhão ou de uma armadura, de um documento régio ou de uma espada. E Rainer ia-se reve-

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lando frontal e dinâmico. Alguém que acredita em si, no que diz e como diz. Não esconde entusiasmo, principalmente quando fala da sua «querida Lusitânia», e baixa um pouco a voz, porque é assim que se fala dos amores:

«Portugal é a minha pátria adoptiva. Se uma pessoa tem uma pátria porque lhe saiu no berço, por força das circunstâncias, é o que calhou. Mas se uma pessoa se identifica com uma pátria por escolha pró como o amor conquistado. E isso é-priaé quase diariamente acarinhado, re conquistado e refortalecido. Tem um significado muito mais profundo.» Também profunda é a admiração que sente por um povo «que conseguiu, de facto, ocupar um espaço único ». E não receia falar bem de Portugal, embora saiba que «muitos consideram isso esquisito ». Mas Rainer troca o medo pelo orgulho: «Nunca me senti alemão. Sinto-me lusitano, que é uma coisa bem diferente. Há um tipo de português que se sente luso onde quer que esteja. Para quem o que diz o passaporte é secundário. Que tem uma grandeza de alma e que está bem consigo mesmo, com essa grandeza de alma. E, na sua grandiosidade, na capacidade de encontrar soluções em qualquer parte distante do Mundo, consegue ser uma pessoa de muito nível, de muita categoria. Esta gente mostrou do que foi capaz, e não devemos pensar que já não há gente desse género. Porque há.»

Quem o conhece não lhe poupa elogios. É considerado pelos seus amigos um homem inteligente, com uma excelente cultura geral e profundos conhecimentos de História, principalmente da portuguesa. «É um defensor

acérrimo de Portugal e dos portugueses», refere Brito e Abreu, almirante e amigo de Rainer há 30 anos. «Faz coisas incríveis por amor a este país, à arte e à cultura. Até para ajudar pessoas em certas institui como eu nunca vi. Podia ganhar mui--ções, to dinheiro.., mas não », conta Paula, mulher de Rainer há cinco anos e mãe de dois dos seus cinco filhos. Mas a medalha também tem o seu reverso e, se há quem não hesite em enaltecer as virtudes de Rainer, também não falta quem acorra a apontar-lhe defeitos. Difícil é encontrar quem queira falar, preferindo quase todos calar opiniões menos abonatórias. Consciente de que não desperta somente amizade, Rainer comenta o facto sem dramas nem rodeios: «Da parte das entidades oficiais portuguesas existe em relação a mim uma certa divisão de opiniões. Algumas pessoas muito simplesmente têm aquilo a que se chama em português uma dor de cotovelo medonha. A todos os sítios onde vão, o Rainer já lá esteve, o Rainer é amigo deles e conhece-os a todos... e isso cria uma situação de algum constrangimento. Atrapalha.» Também Rainer Daehnhardt tem passado por alguns constrangimentos. Apesar de confessar que «não ligo


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PROCOM PROGRAMA DE APOIO A MODERNIZAÇÃO DO COMÉRCIO

Dinamização de empresas Projectos integrados Objectivos • Dinamização das empresas do sector do comércio (racionalização, inovação e expansão)

Destinatários

«Já gastei mais de 50 mil contos, so em direitos alfandegários, para trazer peças de volta a Portugal» bóia ao dinheiro », a verdade é que por vezes sente algumas aflições. Uma peça rara pode não só custar-lhe muito dinheiro como sair-lhe muito cara: «Já gastei mais de 50 mil

contos só em direitos alfandegários, que paguei ao Governo para trazer peças por tuguesas de volta para Portugal. Se fossem correctos, deviam entrar livremente. Mas não. Decidiram que só se as oferecesse a instituições oficiais é que entravam gratuitamente. Se não, é considerado uma importação de mercadoria. Como tal, o Rainer tem de pagar. E o Rainer paga.» Considerado generoso por quem o estima, acredita que ser nobre não é dom de nascimento. Para ele, os brasões não se usam nos dedos mas na alma: «A verdadeira no-

breza está dentro do ser humano. Não vem com o berço, mas com a ética que se cria dentro do homem. Tenho encontrado gente muito nobre entre gente muito simples, que não precisa de brasão absolutamente nenhum para ter o meu aval e a minha aceitação total.» Conversar com Rainer é como assistir a uma lição de História. O impulso é mais forte do que ele, e Rainer não resiste a explicar os pormenores históricos de determinada arma ou documento da sua colecção. É movido pela paixão, que se revela no ritmo e na entoação que imprime às palavras. Para ele, possuir é dividir: «É egoísta quem estuda e guarda

para si. É uma atitude egocêntrica que

• Empresas individuais ou associadas a grupos de empresas com volume de facturação anual s 10 milhões de contos • PME que participem no capital social de agrupamentos de PME, independentemente da facturação e forma jurídica destes

Area Geográfica Montante de Investimento do Projecto

Litoral Investimento >_ 30 000 contos Interior Investimento (expansão das redes comerciais): ? 30 000 contos Investimento: ? 100 000 contos Regiões autónomas Investimento: ? 30 000 contos

Tipos de projectos ■ Reorganização significativa das empresas

• Reforço da produtividade • Qualidade/diversificação da actividade comercial • Expansão e qualificação de redes de distribuição

Projectos Pontuais Objectivos • Modernização das empresas de fraca dimensão económica • Desenvolvimento regional (abastecimento e dinamização dos circuitos)

Destinatários • PME

Área Geográfica Montante de Investimento do Projecto Continente e Regiões Autónomas

>_ 10 000 contos < 30 000 contos

Tipos de Projectos • Apetrechamento técnico e tecnológico e modernização das estruturas físicas das empresas • Racionalização da actividade (redimensionamento, especialização ou diversificação) Para mais informações contacte:

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soas que levam os seus conhecimentos para a própria cova. Eu sinto alegria por partilhar os meus conhecimentos.» Poderá ser esta uma das razões por que os seus amigos o acham bondoso e com «um espírito altruísta fantástico ». E talvez por isso mesmo não se sinta mais do que um mel depositário» do que tem e do que sabe: «Houve quem tivesse isto antes de mim. Alguém vai ter isto depois de mim. Mas o facto de já ter conseguido trazer para Por armas portuguesas de 52 países dá--tugal -me alegria. No fundo, permite-me encontrar em certo grau uma razão de existência. Quando depois mostro isto numa exposição, ou num filme, ou quando publico um livro, estou a dar acesso a esse conhecimento a milhares de pessoas. Só por ter a chance de transmitir esse conhecimento já me dá um bocadinho de desculpa à minha existência.» Paula, mulher de Rainer, retrata-o como «um trabalhador incansável ». Agora, o trabalho é muito. Organizar mais de 10 mil peças para uma exposição requer uma dedicação quase total. Mas Rainer não descura o lar. Depois, Paula diz, a rir, que «fazem umas férias todos juntos ». A família é muito importante para o coleccionador. Quando uma das filhas do casal o procura para mos pequeno ferimento, o trabalho é inter--tra um rompido, porque «aquele dói-dói tem muita importância para ela». Afinal, o tempo chega para o estudo e para as brincadeiras nos escorregas que ele próprio montou no jardim.

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Com 1 Supr adyn por diet. Para Rainer não há tabus. Todas as perguntas exigem, obrigatoriamente, uma resposta: «Se uma pessoa quer saber, vai descobrir e tenta saber. E se os outros dizem que não é conveniente, isso não interessa nada. A verdade tem de vir ao de cima. Eu sou um total defensor da verdade. Doa a quem doer. Em Portugal, nunca tive problemas. Mesmo perguntas muito embaraçosas que fiz, as pessoas sempre tentaram o melhor possível para responder. Muitas vezes não tinham as respostas porque não as sabiam.» É assim que parte à descoberta do Mundo e de novas antiguidades: «Grande parte das viagens que tenho feito é exclusi vamente à procura de uma resposta a uma pergunta. Quando estudo uma batalha, estudo-a de todos os lados. Só chego à minha conclusão quando conseguir, realmente, um cerco de informações de todos os lados. Por que razão vou constantemente a África ou à Ásia? Para comparar conhecimentos que os nossos cronistas nos deram com os conhecimentos que os cronistas deles têm.» Os seus estudos nem sempre são bem aceites, e há até quem o critique e acuse de misturar o misticismo com a própria História. Mas Rainer não se redime, confessa trilhar caminhos pouco convencionais, dos quais não se arrepende: «Gosto de fazer estudos em muitas direcções e até gosto mesmo daqueles que são considerados pouco ortodoxos pelas hierarquias estatais. Mas como vivem num mundo de tais limitações, às quais eu não me submeto, ultrapasso muitas ►

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► vezes essas barreiras no sentido de en-

contrar soluções mais concretas.» Fala da sua imensa colecção com o carinho que o esforço lhe emprestou. Foram 40 anos de procura e recolha daquilo que hoje faz da sua casa um museu. As armas são um projecto antigo que perseguiu: «Lancei uma caça, há cerca de 27 anos, a todas as armas da Casa Real portuguesa. Consegui -as todas. Só por duas dei 400 armas em troca. As últimas demoraram 25 anos a conse guir. Pediram -me um valor completamente absurdo. Vendi cerca de 10 mil objectos da minha colecção só para reunir o capital necessário para comprar duas pistolas. Mas tenho-as. São as duas melhores pistolas portuguesas existentes. Consegui trazê-las de volta para Portugal.» E é precisamente pelas armas que Rainer Daehnhardt, o coleccionador, é conhecido. Uma menção que não deixa de ser honrosa, apesar de a sua colecção conter muitos mais tesouros históricos. Além dos milhares de armas que possui, tem muitos mais milhares de moedas e de livros. Só mapas relativos à expansão portuguesa são para cima de 3600. A sua maior colecção reúne mais de 500 mil exemplares de documentos manuscritos da História de Portugal: «É o problema das minhas limitações. Para ler todos os documentos que estão em meu poder necessito, no mínimo, de 300 anos. São limitações reais. Isso obriga-me a pegar em peças e vendê-las a uma instituição do Estado ou a um coleccionador, a alguém que esteja a estudar aquele período, porque eu não vou ter tempo para o fazer.»

PORTUGUÊS DE LUXO RA inevitável regressar à Lusitânia. O RaiEtugal. ner historiador não se liberta jamais de PorPara o homem que «adora crianças

mas não gosta de mudar fraldas» e que «se empenha no trabalho», como refere a sua mulher, tudo retorna à ideia de pátria. No pensamento, nos objectos, no coração, na própria História: «Os lusitanos não nos deixaram

nada escrito. Quem nos fala sobre eles é o adversário, o romano. Júlio César diz que `nos confins da Península Ibérica existe um povo que não se governa nem se deixa governar'; Isto é 100 por cento actualidade.» É também por isso que acredita que o valor intrínseco lusitano permanece e que Portugal pode voltar a ser grande no Mundo: «De cada vez que Portugal está em perigo surge o lusitanismo. O lusitano tem a capacidade de se misturar com os outros sem se impor. Esta capacidade é extraordinária, e vejo

A sua colecção particular foi nacionalizada por Vasco Gonçalves uma grande probabilidade de que seja no meio dos lusos que vão surgir os guias espirituais da Humanidade... porque nós caminhamos para uma catástrofe gigante.» E é num momento de aflição total que reside a esperança de Rainer. Nessa altura, talvez «essa capacidade, esse gene, venha ao de cima e dê a algumas pessoas a genica para realmente cumprirem a tal razão de existência, da qual já Fernando Pessoa nos falava». A vida de Rainer tem sido rica em feitos e experiências. Em 1972, fundou a Sociedade Portuguesa de Armas Antigas, homologada pelo Governo de Marcello Caetano, da qual ainda hoje é presidente. Depois do 25 de

Abril, teve oito mandados de captura. A maior parte acabou em bem por haver oficiais seus amigos que lhe telefonavam a dizer: «Rainer, não esteja em casa.» Foi interrogado pelo COPCON e pela 5a Divisão. A sua colecção particular foi nacionalizada por Vasco Gonçalves, e no Museu Militar foram abertas quatro novas salas com a colecção de Rainer Daehnhardt. Em 1980, ajudou activamente na tragédia do terramoto dos Açores, enviando, à revelia das entidades oficiais, pedidos de auxilio aos principais Governos mundiais. A sua acção traduz-se em 27 mil contos vindos do estrangeiro, no apoio oficial da base americana das Lajes e na disponibilização de tendas e aviões para transporte do auxílio às vítimas. Em Maio de 1990, três meses antes da Guerra do Golfo, Rainer lança o primeiro alerta público divulgado em Portugal sobre a possibilidade de um conflito no Médio Oriente. Em 1992, assume-se publicamente contra a Comunidade Europeia, reunindo na sua quinta um grupo de patriotas para evocar a perda de independência de Portugal devido à integração na Europa. Rainer Daehnhardt já publicou mais de 50 livros e 300 artigos. Fez dezenas de conferências em Portugal e nos EUA, onde é professor convidado. É membro da Academia de Marinha, da Sociedade de Geografia de Lisboa, da Arms and Armour Society e da Ordnance Society, entre outras. Montou mais de uma centena de exposições culturais em diversos países. A última está patente na Cordoaria Nacional até Janeiro, sob o título «Em Busca de Cristãos e Especiarias». Em exibição estão mais de 10 mil peças da sua colecção particular, algumas delas nunca antes expostas. Chamaram-lhe um dia «português de luxo», um homem que se dá ao luxo de gostar e de fazer algo a favor deste país. Quem o ouve falar dá-se conta do amor que Rainer sente por Portugal. E parece ser sincero quando diz que «do que este mundo precisa é de lusos... para que haja sobreviventes ». Homem de amigos e de inimigos, de uma coisa não há dúvida: Rainer Daehnhardt é um homem de armas. De muitas armas. •

A exposi ao STÁ em exibição na Cordoaria Nacional, até 17 de Janeiro de 1998, a exposição intitulada «Em Busca de Cristãos e Especiarias», que pretende celebrar o aniversário da viagem de Vasco da Gama à Índia. Da colecção particular de Rainer Daehnhardt estão presentes cerca de 10 mil peças. Alguns dos objectos são únicos no Mundo, e há antiguidades expostas ao público pela primeira vez. O certame ocupa uma área de 300 metros quadrados e faz uma representação da

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História de Portugal através de documentos régios, moedas, esculturas, armas e artefactos que remontam ao início da Península Ibérica. A proposta partiu do GAMMA — Grupo de Amigos do Museu de Marinha, uma instituição com mais de 40 anos de existência e que aposta na glória da cultura naval portuguesa e na qualidade do Museu de Marinha. Durante muito tempo na penumbra, o GAMMA conhece agora um novo impulso pela mão do seu actual presidente, o almirante Fausto de Brito e Abreu.

Viagem no tempo  

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