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papel L E P ap Everton Almeida

gesto


papel L E P ap

Everton Almeida


Ă€ Fernanda e ao Miguel, com amor.


No papel cabe O que não se diz na face por medo ou covardia A desconfiança no dito registrado em cartório O valor de troca na moeda sem lastro

No papel cabe A jura fiel da face que não vejo

No papel não cabe

O valor do dito que não exige registro

Tudo o que se fala e não se escreve

A letra amorosa num coração vermelho

A presença do ato seus efeitos de fato

O traço inocente do humano desenhando-se

A seiva das árvores de sua celulose

Cabe o que eu quiser o lastro que eu lhe der tudo o que compensar a seiva viva perdida todo verde vivo que em folha branca se pinte

pa pe l


ap ep l Seiva ressecada folha branca a comportar toda voz ausente


No Egito de antigamente antes do Cristo antes do Escrito a trama da fibra sustentava finas folhas verdes Dormitavam no caule delgado regado do Nilo sedimentos de Áfricas altas desertas de certas origens não ditas benditas desreveladas de cheio silêncio preenchendo o universo o anverso da folha afora

Fez-se então a folha branca lápide do verbo livro dos Mortos e o homem viu que era boa pois prendia o inapreensível inadvertida ilusão de saber do som mais do que os ouvidos

pa pi ro


ap ip or Verbo vivo é som Escrito na folha-lápide é carne que morre


seis dobras no papel engenho inocente e a redescoberta do antigo sonho: perder o peso da existĂŞncia questionando a gravidade revelando o desejo de apenas ser livre do chĂŁo brancas as asas no alto leve o vento voo no ar

ae ro di n mi ca


ea or id Ân im ac

Céu azul imenso Plana a folha do menino tão livre do chão


O capitão mira a linha do horizonte Não pensa no destino Não mede a direção do vento Não sabe da lua dona das marés que abalam que confortam Não sabe das estrelas que de longe iluminam a jornada preocupadas com rumos impensados

Não sabe do sol nas alturas desmedidas no astrolábio Sua vista só alcança o brinquedo o encanto o presente a bombordo a estibordo quando a vida é ainda barquinho de papel no chão azul da sala de estar

In fâ n ci a


nI âf n ic

No olhar do menino todo chão, em sendo azul, é mar infinito


Meu avô escrevia cartas de amor por analfabetos Meu avô traduzia (em letras poucas que tinha guardadas como farinha no árido sertão) o muito sentir que traziam pobres namorados tímidos iletrados brutos de ser tão mudos de pena

Se soubessem ah... se soubessem ler-escrever quem diria por escrito seus amores? Eles mesmos? Descobririam que a pena sempre é menor quando não finge a própria dor

Se r tã o


eS r ãt o

No bruto sertão em folhas duras e secas também se escreve amor


Marcha soldado! Acode a bandeira! Salva do fogo a pátria em perigo! Marcha, não pares! Marcha soldado! Marcha soldado! Atende ao sinal! Salva do fogo o quartel que incendeia! Salva essa pátria! Mas salva também sua própria cabeça, senão ela queima, pois é de papel.

Ma rc h a


aM cr h a

A marcha nĂŁo para A bandeira deu sinal Parou-se afinal?


Finge um ator o que não sente ou talvez sinta: A dor de outro O que em si próprio é labirinto Finge um ator toda tristeza que já passou como bagagem de sofrimento que mais apura seu fingimento

Finge um ator toda alegria que não conhece ou talvez ria de sua dor de ser humano de fantasia Tantos papeis finge um ator que se confunde sua verdade com seu labor de ser sujeito tão fingidor

Pe r so na


eP r os an

Todo o fingimento nĂŁo ĂŠ mera fantasia ao ser fingidor


O ri ga mi

A Sadako Sasaki

Sua pele papel de seda a bomba de Hiroshima queimou Suas asas grandes de tsuru (Ave sagrada Milenária Alvo papel pintado de sangue) a bomba cortou Gesto inaceitável no origami do tempo Mil tsurus se dobrem em seu nome E que a mágica de mudar folha em pássaros dobre corações para a paz eternamente


O ir ag im

Tempo absoluto Grande papel colorido de dobrar a vida


O que quero o que uso tem valor: Casa Carro Viagem Computador O que tenho e que troco não tem: Cheque Cartão Dinheiro Vintém Promissórias que não como que prometem que terei o que quero o que quis o que sempre quererei e não tenho

Se além de tudo que quero e uso que tenho e troco no entanto o que tenho o que troco é nada desencanto o que sou Papel nenhum prometerá o que não tenho de valor de maior: O que vivo O que sinto O que amo

Pa pe l mo e da


aP ep l om e ad

Na hora da morte Tolo se toca da efĂŞmera falsa promissĂłria


Poema Canto pousado de pássaro em folha Artificial Mancha legível no quadro Branco de amônia que o verde de árvore lavou

Quantos necessários pra entender a contradição? Quantos pra deixar o branco Higienizado Civilizado Capitalizado vingar o verde de pássaro pousado em galho Natural Ilegível?

Quantos Pra alcançar silêncio sábio de ouvir Vento Assobio Farfalho Mato gargalhando Sabiá-laranjeira chamando chuva na copa que o sol respira Síntese Perfeição?

Po e ma pá ss a ro


oP e am áp ss a or

Um pássaro preto canta no olho do ipê branco cor papel


Profile for Curupira Cartonera

Papel  

Papel  

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