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Curso: Pedagogia da Amorosidade

MÓDULO 1

Amorosidade: ações, condutas e movimentações em prol da reconciliação com nossa humana condição

GPEC – Educação a Distância | Professor João Beauclair


Amorosidade: ações, condutas e movimentações reconciliação com nossa humana condição

em

prol

da

“(...) é crucial sermos capazes de compartilhar nossos julgamentos, nossos pressupostos e ouvir os dos outros.” 1 O movimento que originou este trabalho foi o de sistematizar reflexões e contribuições sobre a necessária formação humanística em nosso tempo, onde a presença de temas complexos tais como interconectividade, teia da vida, amorosidade, valores e direitos humanos, práxis educativa, ecologia humana, aprendizagem e relações interpessoais nos desafiam ao pensar, ao sentir e ao buscar reflexões com o intuito de contribuir para o debate acerca da inserção da Amorosidade - compreendida como uma potencialidade humana de sermos, cotidianamente, solidários uns com os outros. 2 Assim, uma Pedagogia da Amorosidade é necessária, pois o resgate da amoroso é tarefa essencial, cada vez mais vital no nosso tempo presente: tempo de reconstrução de caminhos que nos leve ao autoconhecimento, a auto-aceitação e a autoconsciência. Nossa tarefa maior, em processos de formação pessoal, é o aprimoramento de todos, perpassando pelo conjunto de valores, pela visão de mundo e nos conscientizando das múltiplas influências presentes nas relações sociais. Aqui se justifica os múltiplos motivos de pensarmos no tema, a partir dos desafios presentes na contemporaneidade, no intuito de criar condições para que possamos esperançar, no estabelecimento do diálogo competente e amoroso capaz de estabelecer condições para a construção de novos caminhos, que nos façam sentipensar3 num outro tempo humano, mais fraterno, solidário e justo. 1

BOHM, David. Diálogo: comunicação e redes de convivência. São Paulo: Palas Athena, 2005, p.94. 2 Ideias iniciais sobre o tema da Pedagogia da Amorosidade estão presentes em um trabalho anterior: BEAUCLAIR, João. Amorosidade e Psicopedagogia: algumas reflexões e contribuições ao debate. Publicado em 21/01/2005, originalmente no site http://www.psicopedagogia.com.br/artigos/artigo.asp?entrID=632 3 Sentipensar refere-se ao "processo mediante o qual colocamos para trabalhar conjuntamente o pensamento e o sentimento (...), é a fusão de duas formas de interpretação da realidade, a partir da reflexão do impacto emocional, até convergir num mesmo ato de conhecimento a ação

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A palavra amorosidade possui o significado de qualidade do que é amoroso e, com ela podemos encontrar inúmeras possibilidades de interlocução com outras tantas palavras, tais como liberdade, continuidade, individualidade, mocidade, identidade, visibilidade, possibilidade, particularidade, profundidade, validade, universidade, maturidade, substancialidade, subjetividade. Entretanto, em termos de proposição de uma Pedagogia da Amorosidade, no contexto da pós-modernidade, é inevitável nos apoiarmos na Interdisciplinaridade como referencial teórico que nos conduza por este caminhar. A concepção de conhecimento global que a Interdisciplinaridade propõe é algo vivo e exercido em nossas cotidianidades, em nossas buscas pela unidade do saber, que se perdeu ao longo dos tempos da modernidade (FAZENDA, 1991). Um pressuposto interdisciplinar básico neste processo situa-se no acreditarmos que, nenhum modo de conhecer, de saber, é tão somente racional, pois conhecer e saber acabam por ser, isso sim, espécies de ininterruptos diálogos com outras formas de perceber a vida e a complexidade de seus movimentos. Pensar a amorosidade exige “a ousadia da busca, da pesquisa: é a transformação da insegurança num exercício do pensar, num construir” 4. Tal exigência emerge, em cada um de nós, de modo distinto e será em nossos projetos pessoais que poderemos ser capazes de novas percepções, inserindo-nos em movimentos de sistematização do vivido e, com isso, desejosos de ampliarmos nossas relações com o mundo, a partir de maneiras novas de percebermos as relações conscientes entre pessoas e entre pessoas e coisas, como nos ensina Fazenda (2005:17). Nos desafios da contemporaneidade, caracterizada pela globalização, alguns temas se inserem na agenda social deste nosso novo tempo. Tempo este complexo por excelência, pois nele convivem avanços em diferentes campos da criação humana até antes inimagináveis, ao lado de amplos processos de exclusão social, miséria, pobreza, desemprego, guerras e violência em níveis alarmantes: a vida, em nosso pequeno planeta azul, está ameaçada e urge a construção de novas maneiras de pensar alternativas para a reversão de tal quadro. Nunca, em nossa evolução como espécie hominídea, ameaçamos tanto a Vida quanto no momento presente. Alertas oriundos dos diferentes pontos do globo terrestre nos mostra a emergência do retomar a dimensão cuidadosa do humano e amplia nossas percepções para a tomada de consciência da permanência da opressão em nosso planeta. Tudo isso, indubitavelmente, justifica a busca por uma Pedagogia da Amorosidade, pois somente com o amor podemos vislumbrar possibilidades concretas de mudança, de ruptura com o quadro e o sistema atual, com os paradigmas de vida e comportamento que necessitam de transformação, de libertação. de sentir e pensar". TORRE, Saturnino de La. Sentipensar: estratégias para un aprendizage creativo. (mimeo), 2001. 4 FAZENDA, Ivani C. Arantes. Práticas interdisciplinares na escola. Cortez Editora, 10 ed. São Paulo, 2005, página 18.

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Em Paulo Freire encontramos interessante reflexão que vem de encontro a este raciocínio: “(...) o ato de amor está em comprometer-se com sua causa. A causa da libertação. Mas este compromisso, porque amoroso, é dialógico (...) como ato de valentia, não pode ser piegas, como ato de liberdade não pode ser pretexto de manipulação, senão gerador de outros atos de liberdade. A não ser assim, não é amor. Somente com a supressão da situação opressora é possível restaurar o amor que nela estava proibido. Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os homens, não me possível o diálogo. 5 Com isso, é possível afirmar que o desafio da amorosidade é essencial para o resgate da Vida e da Educação no novo milênio: Vida e Educação compreendidas em suas dimensões plurais, complexas, interdependentes, multifacetadas, multidimensionais. Figura C desafios ]No entanto, por onde devemos começar a atuar? A proposição da autoria me conduz a afirmar que devemos começar atuando em nós mesmos, reelaborando processos de resgate de valores que nos sirvam para nos humanizarmos, onde possamos estar em contato com as nossas essencialidades humanas, que iluminam nossas esperanças e nos fazem trilhar caminhos onde a amorosidade, a solidariedade e a nossa humanidade estejam em lugar de destaque no que se refere ao que, de fato, ainda vale a pena nos engajar. Mesmo que estejamos vivendo um tempo de incertezas, temos que acreditar em nossas finalidades, em nossos ideais, em nossas ideias e em nossos valores e, diuturnamente, seguir apostando em cada um deles, nutrindo-os com esperanças de dias melhores, com a utópica caminhada que poderá, sempre, nos levar a sentir a probabilidade de construção de um novo mundo. Uma esperança gestada no poético de nossas existências e na caminhada pelo campo do improvável: “Esperar o improvável, apostar e trabalhar na direção de nossas finalidades e de nossos valores é mais reconfortante do que se curvar diante do fato consumado e apenas sobreviver.” 6 Uma Pedagogia da Amorosidade deve se basear nesta espera do improvável, focando numa Educação com o papel de protagonizar movimentos importantes na vida dos sujeitos humanos, que atuam na magia e na complexidade do ensinar e do aprender para a formação e a transformação. Com a Pedagogia da Amorosidade, é preciso superar antigos paradigmas, baseados em concepções que não dão mais conta da compreensão de nossa realidade. É vital, hoje, formar para a ampliação dos conteúdos, para a pesquisa permanente, com metodologias ativas para desenvolver movimentos de 5

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra, 32 edição. São Paulo, 2002, p.80, grifo meu. 6 MORIN, Edgard. O método: V A humanidade da humanidade: A identidade e humanas. Sulina, Porto Alegre, 2002, p. 37.

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autoria, conhecendo princípios e valores abertos capazes de nos fazer construir um novo modo de ser e “estarjuntocom” 7, uma práxis pedagógica e psicossocioeducativa pautada no provisório, no movimento, nas nossas tantas incertezas. Uma Pedagogia da Amorosidade é essencial num tempo de construção do hoje a partir do que herdamos com a nossa trajetória humana e civilizacional, que gerou tantos bons frutos nos múltiplos campos do conhecimento. Para tanto, urge a dimensão do cuidado, nas certezas e incertezas dos rumos incertos, nas verdades mutáveis e nos fragmentos plurais percebidos a partir da complexidade do viver uma nova era, que nos desafia na busca de práticas pedagógicas e psicossocioeducativas coerentes com este novo tempo para O Ser, O Saber, O Conhecer, O Conviver, O Amar. Um novo tempo para O Sonho, A Integralidade, A Autoria, O Coletivo, A Objetividade, A Subjetividade, A Vida, A Totalidade. Será com uma Pedagogia da Amorosidade que poderemos nos capacitar para o improvável, criando diretrizes contributivas ao resgate de valores esquecidos nos currículos formais e oficiais tais como a cooperação, a ética e a solidariedade. Tais valores podem e devem ser aprendidos e percebidos como imenso desafio no nosso tempo.

Desafio este que amplia sua dimensão no respeito ao outro e na compreensão das diferenças e da consciência ética, que deve nos despertar para o comprometimento cotidiano de cada um de nós, para o trabalho de construção de uma cultura de paz e não-violência nos tempos e espaços de nossas inserções e interações sociais. Por sua importância, uma Educação focada na perspectiva da amorosidade alia discussões voltadas para os Direitos e os Valores Humanos e permite-se a busca por referenciais interdisciplinares que nos conduzam para outras possibilidades de pensarmos a formação inicial e continuada de todos nós, além de, insistentemente, nos conduzir para processos de tomada de decisão que possibilite novas construções de diretrizes e estratégias metodológicas mais ativas, facilitadoras de movimentos de autoria de pensamento. 7

O vocábulo “estarjuntocom”: um modo de ortograficamente imaginar a dimensão ampla do fato de podermos estar, de fato, juntos uns com os outros.

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Como aposta metodológica é preciso: 

Usar estratégias participativas e cooperativas;

Analisar de modo coerente os conteúdos presentes nas múltiplas relações com os sujeitos da aprendizagem8;

Facilitar sentidos e significados solidariedade e da cooperação;

Fomentar movimentos que conduzam ao respeito pela diferente;

Considerar a diversidade de manifestações da cultura humana;

Promover consciências para o resgate da ética e do comprometimento com a cultura de paz.

para

o

desenvolvimento

da

Uma Pedagogia da Amorosidade preocupa-se com a criação de espaço vivenciais do “sentipensar”, a partir de atividades que se propõem a integrar o humano em suas dimensões plurais, contemplando práticas de trabalhos em grupos, ações de consciência corporal, ampliação de discussões com rodas e círculos de leitura e estudos, criação de espaços de discussão para elaboração e reelaboração conceitual, entre outros fazeres, sustentados e desenvolvidos numa metodologia interdisciplinar focada na imersão dos sujeitos da aprendizagem num “tempoespaço” de viver e conviver consigo mesmo e com os outros em sinergia 9. Uma Pedagogia da Amorosidade pauta-se no diálogo como desafio às práticas educativas humanas inseridas nos contextos culturais da sociedade capitalista que, no seu percurso histórico, desenvolveu uma trajetória repleta de explorações e imposições, dominações e discriminações, separando os processos do viver complexo e em demasia valorizando os aspectos da razão em detrimento dos aspectos da emoção. Se desejarmos, com todas as nossas verdades, uma nova Vida e Educação no novo milênio, urge superar processos e movimentos presentes no paradigma dominante, construindo possibilidades outros de ver, compreender e interagir com o mundo pois é essencial desenraizar a visão positivista que permanece viva em nosso modo de ser e estar no mundo, limitando e fragmentando o sujeito humano, ao valorizar excessivamente a razão e menosprezar a emoção. Não somos os únicos a acreditar na essencialidade do resgate das emoções para a superação do atual quadro que estamos vivendo: somos limitados culturalmente pelo fato de que, desde a mais tenra infância, somos absolutamente influenciados pela cultura dominante que possui a tarefa de 8

Em Psicopedagogia, defendemos que os atores da aprendizagem são os ensinantes e os aprendentes, compreendidos em suas diferenças como sujeitos, mas também como posturas e posicionamentos mutáveis, flexíveis e mutantes em cada um de nós, diante da busca pela construção do conhecimento. 9 BEAUCLAIR, João e CARVALHO, Seilla. Sinergia: Aprender e Ensinar na Magia da Vida (Uma Introdução). Publicado em outubro de 2009, no site da ABPp Associação Brasileira de Psicopedagogia: http://www.abpp.com.br/artigos/105.htm

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impor verdades e modelos, objetivada a repressão e normatização (ou se, preferirmos, a normalização). Tal processo nos afeta a tal ponto que Edgar Morin (1998) afirma que, neste movimento, a cultura dominante cala os que teriam a tentação de duvidar ou de contestar. 10 Com isso, amplia-se nosso desafio por uma Pedagogia da Amorosidade: de que modo ensinar e aprender a sermos, de fato, seres realmente humanos?

No que concerne a Educação efetivamente Humanística, está é uma das maiores, densas e tensas aprendizagens, pois o humanizar a si mesmo e aos outros se vincula a beleza do ato mesmo do educar. Uma Pedagogia da Amorosidade fundamenta-se na práxis educativa da liberdade, onde nos seja possível o reconhecimento de nossas subjetividades e a compreensão de nossas inteirezas como seres humanos sociais, históricos, culturais, políticos, religiosas, espirituais. Uma Pedagogia da Amorosidade fundamenta-se na feitura nossa, cotidiana, de nossas historicidades como sujeitos desejantes e eternos aprendentes que se reconhecem, não como determinados a uma destino insólito, mas sim como sujeitos condicionados e inconclusos, envolvidos com a perene aprendizagem de sermos, cada um a seu modo, tempo, feitos e jeitos, sujeitos autores de sua busca por novos saberes, sujeitos autores de procura pela humanização necessária, compreendida para além dos fundamentos biológicos da condição humana, Como humanos, somos dotados da imanente necessidade e capacidade de aprender a sermos seres humanos, pois de todos os animais que habitam o nosso planeta, somos os mais complexos e, de modo distinto das demais espécies, precisamos aprender a sermos humanos, a nos humanizar de modo permanente e necessitamos de continuadamente seguir aprendendo nos diálogos com os outros, com o mundo, na convivialidade, nas relações e nas interações.

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MORIN E. Determinismos culturais e efervescências de cultura. In: O Método IV. Porto Alegre. Sulina, 1998, p. 31.

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Tudo isso colabora, de modo inexorável, às nossas constituições como sujeitos vivenciando o contínuo e eterno processo do vir a ser: um sujeito humano que se constrói nas plurais relações que estabelece, superando-se e humanizando-se cotidianamente. Em tal pluralidade relacional, a essencialidade do diálogo se coaduna com o existir de cada um de nós, pois pela práxis do dialogar, do conversar, compartilhamos a vida que vinga nas e pelas relações, entrelaçando-se nas múltiplas dimensões que se presentificam em nossa humana constituição. Uma Pedagogia da Amorosidade valoriza a pluralidade dimensional humana, percebendo-nos como sujeitos biológicos, sociais, dialógicos, afetivos, cognitivos e indubitavelmente composto por muitas outras possibilidades de definição, num complexo conjunto de aspectos plurimultidimensionais entretecidos na constituição da totalidade que nos caracterizam como humanos. Nas multifacetadas vivências humanas, somos razão, emoção, afeto, delírios, técnicas: somos energia em combustão, letras e músicas, desgastes e entregas, corpos em danças, mentes em transes, magias em mitos, ritos e sacrifícios, prazeres e deleites na angústia essencial e existencial de estar preparando “outra vida além da morte”, (MORIN, 2001, p. 58-59), na consciência da finitude. Aprendemos e ensinamos em toda esta movimentação, plural e constitutiva de nossas subjetividades na busca pela compreensão mesma de nossas totalidades, tarefa para vida inteira. Numa Pedagogia da Amorosidade nos caberá perceber melhores condições para intercâmbios e interações entre:

Ensinantes  Aprendentes  Mundo Tais processos de trocas e interações somente podem ocorrer numa horizontalidade relacional e dialógica, portanto dialética. Como desafio do tempo presente, a prática pedagógica humana necessita de reflexão, problematização e contextualização, modos singulares de construção cotidiana que conduza mudanças, transformações. Como ensinantes do tempo presente, desafiados pelos dilemas coexistentes nos mundos relacionais de nossas atuações, cabe a postura propositiva de interligar mundos entre os saberes nossos e os saberes sistematizados, além dos nossos movimentos de aprender e de ensinar.

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Esta movimentação requer atitudes processuais de intercâmbios que se estabelecem ao longo de nossas intervenções na práxis do aprender e ensinar com amorosidade, mediando com afetividade e dialogicidade o encontro humano regido pela magia presente nesta relação. Portanto, a dialogicidade aqui referendada não pode ser reduzida a simples compreensão de que diálogo é a conversação que se estabelece no encontro entre dois ou mais sujeitos. Com ela, reaprendemos que é preciso objetivar-se e engajar-se em prol do envolvimento de todos, em prol da comunicação, fundamentada, alimentada e nutrida pela fé na humanidade, pela humildade e pela esperança em avanços significativos em nossa evolução planetária. A partir de nossas intervenções psicossocioeducativas, a partir de nossas vivências, onde quer que estejamos atuando e interagindo com o mundo - e suas complexidades-, interagindo com os outros, uma Pedagogia da Amorosidade nos exige sentipensar o trabalho docente e o trabalho social em todos os âmbitos, sob a perspectiva de enfrentamentos dos desafios da construção de uma pedagogia da amorosidade na contemporaneidade, tema do nosso próximo módulo.

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