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Ensaios Mundos Possíveis

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Hip-Hop: potência do discurso e território Roger Deff

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ROGER DEFF A organização do espaço urbano, as características que tornam determinada região da cidade mais ou menos valorizada, seguem lógicas de cunho social e racial. A organização da cidade em centro e periferia nada mais é que a reprodução da desigualdade no espaço físico, onde o centro, enquanto espaço valorizado, é reservado a quem tem melhores condições econômicas, em sua maioria pessoas brancas. Já a chamada periferia, caracterizada pelo conjunto de espaços afastados do centro e com condições estruturais precárias, é, obviamente, ocupada por pessoas com menor renda, negras em sua maioria. A organização das cidades reproduz as desigualdades, é reflexo delas. No país em que prevalece o mito da democracia racial, a cisão entre brancos e negros é notável em vários aspectos, inclusive quando fazemos perguntas como: quem tem (exerce) o direito à cidade? Quem, de fato, usufrui das melhores condições dela? Nessa discussão em que questões como identidade, território e o próprio direito à cidade se colocam, o papel das manifestações culturais urbanas, em especial o papel do Hip Hop, têm caráter transformador, justamente por questionarem esses lugares. A arte não é a solução definitiva para as mazelas que aí estão, mas ela contribui para a possibilidade de outra cidade, mais plural, criando condições para que a parcela que permanece sem acesso possa questionar, criticar um modelo social e econômico tão excludente. É a existência destes movimentos que dá para a periferia um novo sentido, transformando-a em centro, a partir do ponto de referência de quem produz arte e discurso. Este fenômeno cultural global conhecido como 2


Hip Hop mudou radicalmente a forma como jovens pretos e pobres se vêem. Ainda que não altere a estrutura desigual que está colocada, essa cultura de rua contribui para a valorização da história da diáspora, para a construção de noção de pertencimento à cidade, para a continuidade da existência, valorização e reconhecimento do território. São essas e outras reflexões que quero trazer com este texto, passando pela origem dessa cultura, seus símbolos e sua chegada ao Brasil. “HIP HOP, VELHO AMIGO DA ESTRADA...” O Hip-Hop nasceu no Bronx - Nova York, em 11 de agosto de 1973, de forma despretensiosa, a partir de uma festa organizada por dois jovens imigrantes jamaicanos, Clive Campbell (o lendário DJ Kool Herc) e sua irmã Cindy Campbell. Esse movimento cultural nasceu assim, de uma celebração que reuniu cerca de 50 pessoas num pequeno apartamento situado num bairro em escombros, tomado pela violência em suas diversas dimensões. Nasceu sem nome, originado de pessoas invisibilizadas e socialmente negligenciadas que, sem saber, estavam dando início a uma nova e potente forma de identidade coletiva. Mas os fundamentos daquele movimento só seriam organizados posteriormente, em 12 novembro de 1973. O jovem Kevin Donovan, líder de uma das gangues que dominava o South Bronx, a Black Spades, compreendeu, após uma viagem para a África com a qual foi agraciado após vencer um concurso literário da Unesco, que as pessoas daquele local - negros estadunidenses, imigrantes latinos e demais rejeitados da América branca anglo-saxônica precisavam se unir. Em sua viagem, conheceu 3


ROGER DEFF um líder que lhe explicou como as guerras tribais acabaram por fortalecer o processo de colonização europeia na África. Compreender esse paralelo mudou radicalmente sua visão sobre o próprio contexto. O Bronx, além da pobreza, estava dividido pelos embates entre gangues rivais, que muitas vezes resultavam em mortes, o que equivalia às guerras tribais no continente africano. Em sua viagem, Donovan pôde relatar a realidade do bairro em que vivia a alguns líderes tribais e pôde perceber que se tratava de uma guerra entre iguais, que precisavam se organizar e cessar o conflito. De volta aos Estados Unidos, Donovan, agora autobatizado Afrika Bambaataa, funda a Universal Zulu Nation, a instituição que nomeou como Hip Hop a cultura que reunia as quatro artes de rua: break, DJ, MC e grafitti – e acrescentou um quinto elemento, que funcionou como argamassa que unificaria tudo, o conhecimento. A sabedoria empírica pregada ali objetivava que jovens, latinos, pretos e pobres parassem de se matar pela guerra territorial entre gangues e se unificassem em torno de algo que tinha como principal finalidade transformá-los em potências dentro de suas comunidades; as armas seriam substituídas por microfones, pick-ups e latas de spray. No lugar abandonado pelo Estado, onde o sonho americano não acontecia, nasceu algo que mudaria as vidas de jovens marginalizados indo além dos guetos norte-americanos. Literalmente hackeando o sistema, a música e a dança se propagaram através da indústria cultural. Discos, filmes e videoclipes foram os veículos para a disseminação de códigos de comportamento, de uma filosofia de autopreservação e de enfrentamento das desigualdades. O que, inicialmente, soava como 4


mero entretenimento se fortaleceria e daria visibilidade a narrativas há muito silenciadas. O nome de sonoridade musical/elétrica, “Hip Hop”, que batizaria toda aquela cultura, veio depois, em 1978, o crédito é dado a pessoas como Afrika Bambaataa, Keith “Cowboy” Wiggins e Grandmaster Flash. O Hip Hop ganhou o mundo e tornou-se símbolo de identidade, resistência e território. Artes de rua, novas expressões da diáspora negra, foram criadas a partir de elementos inusitados, a exemplo da apropriação da tecnologia, transformando toca-discos em instrumentos musicais ou trechos préexistentes de fonogramas em novas músicas, subvertendo o conceito de obra original e dando o poder a jovens no mundo inteiro para criarem a partir de recursos escassos. Versos e rimas tornaram-se a forma de propagar realidades invisíveis, ferramenta na luta contra o apagamento da memória e da história da juventude negra. Num tempo em que as redes sociais estavam muito distantes de se tornarem uma realidade, o rap possibilitou que a história fosse contada em primeira pessoa pelos sujeitos que, de fato, vivenciaram aquela realidade e desta vez não precisariam ter suas trajetórias contadas por terceiros. Permitiu que se apropriassem da própria narrativa, transformando as condições precárias em que viviam em espaço de discussão, afirmando a relevância da sua arte sem que precisassem da legitimação externa. Não por acaso, Chuck D, rapper, líder do grupo norte-americano Public Enemy, chamou o rap de “CNN negra”, referindo-se ao popular canal de notícias dos Estados Unidos, no qual, assim como em outras emissoras, os problemas da comunidade 5


ROGER DEFF negra eram abordados a partir de uma ótica externa a eles. O Hip Hop chegou ao Brasil nos anos 80, através do sucesso fonográfico de Rapper’s Delight, do trio Sugarhill Gang, de Nova Jersey, e de filmes como Flashdance, Break’in, Beat Street e videoclipes de artistas como Lionel Richie e Michael Jackson. A indústria cultural serviu de “cavalo de Tróia” para a disseminação de uma verdadeira tecnologia social, cujo maior poder estava justamente em ressignificar o contexto social, mudando de forma radical a realidade das comunidades. O termo “tecnologia social” não é empregado aqui por acaso, mas pela capacidade dessa cultura oriunda das ruas de se constituir como manifestação artística autônoma, sem precisar do aval de quem está do outro lado, ainda que utilize os recursos da grande mídia para ampliar o alcance da sua mensagem. A sofisticação está nesse fluxo, da arte produzida por pessoas negras sendo absorvida também nos bairros brancos. Tratase de tecnologia social no sentido mais literal da palavra, pois trata-se de conhecimento construído pelas bases e compartilhado de forma coletiva, guardando similaridades marcantes com as culturas africanas, como a transmissão do conhecimento através da oralidade, num lugar em que os MCs (Mestres de Cerimônia) assumem o papel de verdadeiros griots contemporâneos ao contar a própria história e registrá-la por meio de fonogramas, de discos ou da partilha de seus versos de forma direta em shows. O outrora “não lugar”, invisibilizado e relegado ao esquecimento, é reconhecido, transformando em território. Periferia, nome utilizado para se referir aos espaços afastados do processo de urbanização, 6


física e simbolicamente, distantes dos centros de poder, ganha outro sentido, neste caso, o sentido é de identidade, de pertencimento, não de limitação e isolamento. No Brasil, artistas como Racionais, GOG, Thaíde, Retrato Radical, entre outros, popularizaram o termo periferia entre a juventude negra e pobre que, compreendendo o sentido político, legitimam a ideia como espaço de potência. O gueto se torna um lugar através do qual os jovens se identificam com orgulho, ainda que sigam marginalizados pelos setores socialmente privilegiados. Nos anos 70, o Brasil recebeu o “Black Is beautiful”, pelos bailes, pela música de James Brown, mas esse movimento estava muito distante da conotação política que teve para os negros norte-americanos, já que lá, para além da estética, todo aquele movimento de autovalorização era resultado de lutas, como as marchas pelos direitos civis, a criação do Partido dos Panteras Negras e a luta de pessoas como Angela Davis, Martin Luther King e Malcolm X, que se tornaram verdadeiras referências. Aqui, no Brasil, o movimento Black trouxe orgulho, autoestima para pessoas negras que vivem num país construído sob uma estrutura racista, o que, por si só já era muito poderoso, político e emancipador, mas foi a narrativa do Hip Hop que gerou as discussões sociais mais profundas entre os jovens, principalmente no seu período mais maduro de construção, que foram os anos 90, ganhando fôlego e complexidade nas análises de muitos artistas que vieram a partir dos anos 2000.

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ROGER DEFF A Periferia é o Centro O advento do Hip Hop no Brasil fortaleceu e muito a noção de periferia como espaço positivo, de Cultura com C maiúsculo, e aqui me refiro ao sentido valorativo da palavra no que se refere às manifestações, de arte relevante e, o mais importante, que tratase de relevância atribuída pelas pessoas das próprias comunidades, verdadeiros centros produtores de toda uma diversidade artística. É a periferia vista como local de pertencimento e fonte de toda uma cultura, centro de toda uma construção. É da periferia que a cultura explode, ecoando até o “centro” urbano, com suas manifestações artísticas sonoras e visuais. Além dessa reverberação das artes de rua, o Hip Hop fez com que a periferia realmente ocupasse o centro da cidade, transformando-o em território também, ampliando a noção de pertencimento e cidadania. A cidade, pensada e projetada para receber determinados corpos e manter outros sempre à margem, passa a ser ocupada, pela arte e por pessoas que foram ensinadas a entender aquele espaço apenas como lugar de trânsito, não de permanência. Foi dessa forma que a Belo Horizonte dos anos 80 viu a Praça da Savassi (região elitizada da capital) ser transformada em ponto de encontro de B.boys e B.girls (dançarinos e dançarinas de break). O mesmo aconteceu em São Paulo, na famosa Estação São Bento e em outras cidades do país; corpos negros passam a fazer parte daquela paisagem, atribuindo um sentido de diversidade àquele território. MCs, DJs e grafiteiros passaram a ocupar as regiões centrais com suas manifestações, assim como viram em filmes e videoclipes. Um dos exemplos mais marcantes dessa tomada 8


do centro pela periferia é o Duelo de MCs, realizado desde 2007 pelo coletivo Família de Rua, inicialmente na Praça da Estação (BH). No entanto, foi sob o Viaduto Santa Tereza que o encontro periódico de MCs tornou o Hip Hop um marco da ocupação do espaço público na capital mineira. Se antes os horizontes estavam restritos aos nossos respectivos bairros, seguindo uma lógica estrutural, social, racial e econômica que nos empurrava para as bordas, agora estes horizontes já não tinham limites e a noção é de pertencimento à cidade, ainda que compreendendo nitidamente a cisão social que nos separa historicamente dos espaços geográficos privilegiados. Território e militância “60% dos jovens de periferia sem antecedência criminal já sofreram violência policial, a cada 4 pessoas mortas pela polícia, 3 são negras...” (Racionais MCs - 1997) Esse é o texto que antecede a apocalíptica “Capítulo 4, versículo 3” do álbum “Sobrevivendo no Inferno” do grupo paulistano Racionais MCs. Lançado em 1997, já denunciava o abismo social e a violência sofrida pela comunidade negra. O disco é, até hoje, considerado um marco da música popular no Brasil, tamanho o seu alcance e seu impacto cultural. A obra encabeçada por Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e DJ KL Jay apresenta, através da música, a realidade vivida pelos pretos no Brasil de uma forma jamais vista antes. É injusto dizer que os Racionais foram os primeiros rappers a desnudar a crueza das diferenças sociais e a violência urbana e racial no Brasil. O rap nacional já levantava tais questões há alguns 9


ROGER DEFF anos, mas é importante enfatizar: nada com a mesma força impactante, dado o alcance e a repercussão deste que é o quarto e mais importante disco do grupo. Sem tocar nas rádios, sem relação com nenhuma grande gravadora, o álbum vendeu oficialmente meio milhão de cópias, para públicos que iam de manos a playboys, registrando realidades, visões de mundo e histórias de sujeitos marginalizados, sem romantização ou licença poética. A popularidade dos Racionais fortaleceu o surgimento de outros artistas do gênero país afora, boa parte deles com o mesmo ímpeto de denúncia e crítica social de Mano Brown e cia. A periferia, enquanto território, enquanto jeito de ser e estar, ganha tons mais definidos por meio dos relatos de seus novos portavozes, registrando a vida local assim como fez Carolina Maria de Jesus, com seu célebre livro “Quarto de Despejo”, mas com alcance do discurso ampliado, potencializado pelo poder de diálogo da música com o jovem. E, se antes a periferia tinha sua existência ignorada, sem “existir” enquanto paisagem na trama urbana, agora ela existe e é vista, devido à força da narrativa da música criada e difundida por pessoas oriundas destes espaços. A obra do Racionais MCs foi além da difusão fonográfica, sendo reconhecida também como literatura. Os versos de “Sobrevivendo no Inferno” foram do disco para o livro, demarcando e consolidando o lugar de produção intelectual que é de direito, direito à existência, registro e reconhecimento dessas narrativas que são representativas de mais de 52% da população.

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Cultura de empoderamento Uma reflexão interessante é pensar na potência de uma manifestação cultural como o Hip Hop. Ele é e foi um conjunto de símbolos capaz de atravessar fronteiras e mudar radicalmente a vida de pessoas em situação de desvantagem histórica e social em decorrência da violência, da pobreza, do crime, do analfabetismo e tantas outras mazelas que atingem os herdeiros dos quatrocentos anos de escravidão no Brasil. Um jargão comum entre os adeptos dessa cultura é “o Hip Hop salva vidas”. A frase está longe de ser um exagero. Na minha vivência com essa cultura ao longo dos anos, pude ver pessoas, nascidas e criadas em bairros carentes estruturalmente, vilas e favelas, construindo sua relação com a produção intelectual a partir da experiência com a cultura de rua, a própria produção dentro do Hip Hop, com as músicas, a dança, os textos capazes de descrever com profundidade a complexidade da vida contemporânea, não é outra coisa senão produção intelectual e, produzir a partir deste lugar, é revolucionário, principalmente quando vem de pessoas que foram historicamente privadas desta condição. Esse lugar, essa experiência, é o ponto de partida para a ocupação de outros espaços, historicamente negados, passando pela produção e registro de discursos que reforçam uma intelectualidade negra e periférica, servindo também como ferramenta de embate direto ao racismo e de valorização da comunidade. O rap, o Hip Hop como um todo, tal qual aconteceu no Bronx em seu contexto original, fez com que muitos jovens trocassem a violência pela arte, as armas por livros e discos, mudando de uma postura autodestrutiva para 11


ROGER DEFF uma visão de construção social, onde prevalece o entendimento de que a transformação está no coletivo e não no indivíduo, e esse torna-se o princípio norteador deste movimento. O Hip Hop contribuiu de forma marcante para a discussão racial, algo extremamente necessário num país como o Brasil, que construiu uma das formas mais escancaradas e, ao mesmo tempo, mais veladas de racismo, onde negras e negros precisam enfrentar um inimigo que raramente se declara e comumente nega o que é. A discussão sobre esse tema tão urgente não acontece nas escolas, principalmente nas escolas públicas, onde estuda a maioria dos alunos negros. Reconhecido por seu discurso antirracista, o rap brasileiro contribuiu de forma poderosa para que vários jovens compreendessem esse contexto e fizessem o caminho inverso, que é o de levarem para suas casas reflexões que os seus próprios pais não tiveram acesso. No álbum Sub-Raça (1993) o rapper brasiliense X (pronúncia em inglês), do grupo Câmbio Negro refuta os ataques racistas na música que dá título ao disco. O trabalho, ouvido nas periferias do Brasil, chegou a uma juventude negra que não tinha acesso a tais discussões nas escolas ou qualquer outro espaço: “Agora irmãos, vou falar a verdade A crueldade que fazem com a gente Só por nossa cor ser diferente Somos constantemente assediados pelo racismo cruel Bem pior que fel é o amargo de engolir um sapo Só por ser preto isso é fato O valor da própria cor 12


Não se aprende em faculdades ou colégios E ser negro nunca foi um defeito Será sempre um privilégio Privilégio de pertencer a uma raça Que com o próprio sangue construiu o Brasil” (X, CÂMBIO NEGRO, “Sub-Raça”, 1993). Num tempo em que o mito do brasileiro cordial se torna cada vez mais insustentável bem como o conceito de “democracia racial”, tão propalado ao longo da nossa história, as respostas a essas questões surgem em frases curtas, mas de grande impacto e poder simbólico, a exemplo do rapper mineiro Djonga, que declama em alto e bom tom “Fogo nos racistas”, num discurso que está em plena consonância com a juventude negra do século 21, uma que não precisa ser convencida de que o racismo é real. Há um movimento nítido, cada vez mais consolidado, no qual o rap tem um papel fundamental. A mudança que ocorre é de sujeitos, antes subalternizados por força do processo escravocrata e das desigualdades inerentes ao capitalismo, esses sujeitos tornam-se grupos com discursos de embate a essas realidades violentas. Ao sermos privados do contato com a nossa herança ancestral, do simbolismo da África em sua plenitude, tivemos que nos reinventar. A diáspora é isso, uma construção a partir de fragmentos na tentativa de reconexão com o lugar de origem. Algumas das respostas mais importantes a essas questões veio de uma cultura periférica, marginal, criada a partir de recortes dos mais diversos, desenvolvida a partir das ruas e da subversão das tecnologias. Impressiona pensar sobre a origem deste movimento, 13


ROGER DEFF quem são os seus protagonistas. O Hip Hop e suas formas de arte representam o que há de mais cosmopolita no mundo contemporâneo, interligando sujeitos de lugares diferentes e fazendo com que pessoas se vejam como parte importante e ativa do processo histórico e não figuras passivas como a história oficial faz parecer. Esse mosaico de saberes que evolui organicamente por meio da prática cotidiana e do aprendizado compartilhado possibilitou para toda uma geração de afro-brasileiros a percepção de que é importante que resistam e se mantenham firmes nas várias lutas que se colocam, a despeito do contexto social e político, de um sistema que nos quer excluídos. Dessas experiências, eu e muitos dos meus pares, ocupamos espaços de fala, não apenas nas ruas, mas em espaços historicamente a nós negados, como as universidades, e demais espaços de debate e, importante dizer, promovendo a legitimação dos discursos e dos corpos. O direito à existência está colocado, mas ainda é necessário que lutemos por ele e a arte é uma aliada importante nessa construção e nas várias desconstruções necessárias. “Eles torcem pra morrermos anônimos, porque a nossa rima é quebrada demais pra alguns metrônomos.” (KL JAY, “Estamos Vivos”, 2019).

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Publicado em 16 de setembro de 2020 – Ensaios Mundos Possíveis Roger Deff é MC e jornalista com especialização em Produção e Crítica Cultural pela PUC Minas. Atualmente é mestrando do Programa de Pós Graduação em Artes da UEMG, onde desenvolve pesquisa sobre o hip hop de Belo Horizonte. Lançou seu primeiro trabalho solo em 2019, o álbum Etnografia Suburbana, que tem a cultura de matriz africana e a resistência do povo negro como temas. É um dos fundadores da banda Julgamento, um dos mais antigos trabalhos de rap da capital mineira. Com o grupo, gravou os álbuns No Foco do CAOS (2008), Muito Além (2011) e Boa Noite (2018). Este texto foi escrito exclusivamente para o 52º Festival de Inverno.

Para citar este conteúdo: DEFF, Roger. Hip- Hop: potência do discurso e território. In: FESTIVAL DE INVERNO DA UFMG, 52º, 2020, Belo Horizonte. Ensaios Mundos Possíveis. Belo Horizonte: DAC/UFMG, 2020. Disponível em: <https://issuu.com/culturaufmg>. Equipe curatorial do 52° Festival de Inverno da UFMG: Diomira Faria, Fabrício Fernandino, Fernando Mencarelli, Fernando Rocha, Mônica Ribeiro e Verona Segantini.

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Hip- Hop: potência do discurso e território  

Hip- Hop: potência do discurso e território é um ensaio escrito por Roger Deff para o 52º Festival de Inverno UFMG, realizado em setembro de...

Hip- Hop: potência do discurso e território  

Hip- Hop: potência do discurso e território é um ensaio escrito por Roger Deff para o 52º Festival de Inverno UFMG, realizado em setembro de...

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