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Ensaios Mundos Possíveis

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DENDORÍ: UMA POÉTICAMUITAS Ricardo Aleixo

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RICARDO ALEIXO 0 Este escrito não começa aqui. 1 Desde que completei 18 anos, em 1978, e já contarei 60 a partir do próximo dia 14 de setembro, minha principal atividade tem sido a confecção de mundos possíveis, isso a que em inúmeras partes do planeta se dá também o nome de poemas – sendo necessário registrar que são muitas as culturas que sequer se deram ao trabalho de inventar um nome para esse singularíssimo ato de, mais que “dar vida às palavras”, reconhecer o tanto de vida intensa e plena pulsa e se move dentro do que elas são todos os dias, o dia todo, mesmo quando em silêncio. 2 A palavra é que nos cria, não o contrário. Nos fala. Nos multiplica e, ao mesmo tempo, nos singulariza. O mundo só existe porque existe a palavra possível, a palavra possíveis. A palavra. 3 Dia desses eu encontrei um velho jornal com uma entrevista minha em que eu dizia ao meu interlocutor que “sou muitos, mas assino tudo como Ricardo Aleixo”. É de 2001 a entrevista, que foi concedida a um jornal de estudantes de comunicação de uma faculdade particular de Belo Horizonte. Me lembro que a pergunta tinha a ver com a pilhéria que fiz acerca de o meu primeiro livro, Festim, de 1992, sugerir 2


uma revista ou uma coletânea coletiva, dada a diversidade de estilos, fontes tipográficas e procedimentos técnico-formais explorados por mim. 4 Muito antes de começar a escrever, menino ainda, eu já conversava sozinho. Verdade seja dita, eu conversava mais sozinho do que com outras pessoas – mesmo as da família. Nada indicava que o meu futuro profissional estaria ligado à palavra e às inúmeras formas de publicizá-la: como escrita, via voz falada ou cantada, como imagem gráfico-visual. 5 Um dia, o imenso Ailton Krenak disse para uma nossa amiga incomum, Camila do Valle, também poeta e pensadora dos Brasis possíveis, que eu sou um “sujeito coletivo”. Saber disso me fez compreender que não era só comigo que eu conversava. Que não é só comigo que eu converso quando, sem mais ninguém em casa, disparo a falar. Ou a escrever poemas – de uns tempos para cá, comecei a sonhá-los. 6 Eu, que pela altura de 2015 já começara a falar em público da poesia como um “exercício radical de alteridade”, soltei no ar, um belo dia, a palavra “outrar-me” (“outrar-se”, “outrarmonos”), como o esboço de um pequeno programa poético-político. Também escrevi, na mesma época, o poema “Ancestral” – inédito em livro:

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RICARDO ALEIXO é quem vive no meio do tempo sem tempo. é quem veio e já foi e é também quem ainda não veio. 7 A realização de um poema como “Ancestral” me permitiu conferir quais caminhos eu trilhara até então, no tocante à questão da alteridade. O máximo que eu conseguira fora pensar, em resposta ao modo como as culturas do ocidente europeu lidam com o corpo, escrever um poema como “Outros, o mesmo”, ainda preso, de certa forma, a uma ideia vaga e acomodada de alteridade: “O corpo,/ esse trapo.// Ora, Pascal,/ por que não/ esse texto?// Pense bem:/ Poder ser/ outros, o/ mesmo sob/ re outros/ – um/ palimpsesto.”

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8 Esse poema faz par com o que o antecede no livro (Trívio, 2001) em que os publiquei, intitulado “Goetheana”, que apresenta uma maior ousadia no plano temático, ao deixar como indefinido o gênero dos/das amantes: “agora quem é quem aqui?// qual de nós dois será capaz/ de lembrar – um dia –/ quem era o rapaz/ agora e quem é a moça aqui?” 9 Toda essa questão da alteridade ganha novos contornos e matizes quando assumo, ao longo das últimas duas décadas, a performance intermídia como a minha forma principal de fazer arte. Progressivamente, a noção de texto veio e vem se expandindo no meu projeto linguageiro – já não designa “em princípio”, como diz Muniz Sodré, “algo que se ´tece´ com a língua, visando a exprimir uma significação”, mas uma tentativa de colocar em perspectiva relacional todos os elementos constitutivos da performance (a voz, o microfone, o gesto, o movimento, a iluminação, o design de aparência, a respiração, o tempo, o espaço, o público e, ainda, a palavra). 10 Tudo, numa performance intermídia, conforme a entendo e pratico, é “algo que se tece” e se traduz em alguma outra coisa, o que me leva, naquele espaçotempo multissensorial, tão aberto e desconhecido quanto irrepetível, a lidar com uma gama de energias vocais e corporais que até então eu havia identificado em mim – nem no meu 5


RICARDO ALEIXO corpo de todos os dias, nem no do performador em que me tornei desde os anos 1990 (se é certo que ainda posso estabelecer essa distinção, que remete à oposição dicotômica entre vida e arte, que para mim já não faz qualquer sentido). 11 E aí eu chego à formulação da Poética Dendorí. 12 Dendorí quer dizer “dentro do orí”, palavra iorubá que significa cabeça. Remete ao hábito que temos, em meu estado natal, Minas Gerais, de omitir, na pronúncia de uma frase ou expressão, a última sílaba de determinada palavra num processo que lembra de algum modo a “palavra-valise” (portmanteau) criada pelo escritor irlandês James Joyce, ou, ainda, aos neologismos de Guimarães Rosa. 13 Uma das representações gráficas do orí traz a imagem de pegadas humanas, como que a frisar a total conexão – não-hierarquizada – entre a cabeça e os pés. Estes iconizam o enraizamento e o fundamento ancestral, enquanto o microcosmo que é a cabeça propicia o vínculo da pessoa com o cosmo. 14 Dentro do orí sempre tem muitas pessoas. Quando não é pessoa que mora nele, é pessoa que passa por ele só para dar algum recado ancestral.

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15 Daí eu ter inventado a ideia de “pessoa-muitas”. 16 Pessoa-muitas ê mundo me dê licença sabença e bença que eu vim aqui aprender a ser pessoa-céu pessoa-ave pessoa-oceano pessoa-floresta pessoa-caminho pessoa-vento pessoa-bicho pessoa-noite pessoa-fogo pessoa-pedra pessoa-sonho pessoa-outras pessoas pessoa-muitas pessoas pessoa-mundo sem pressa nenhuma de aprender a ser o que estou sendo pessoa-mundo no mundo pessoa-muitas agora aqui aprendendo 7


RICARDO ALEIXO 17 A poética Dendorí o é, dentre outros motivos, porque não bole com a noção de rascunho: cada pessoa ou signo vibra no espaçotempo mais adequado. Um novo gesto não apaga nenhum outro que o tenha precedido. Tudo é agora. Neste INSTANTE INFINITO. 18 Dendorí é, sempre, um exercício de alteridade. Radical. E bem pode começar pela parte do corpo que nos sustenta, a que se eleva, raiz, desde o fundo mais fundo de tudo. 19 Dendorí: uma voz-redemunho e(m) um corpoencruzilhada. Ou: uma voz-encruzilhada e(m) um corpo-redemunho. 20 É dentro do orí que se ordena o disperso e se dispersa o que se encontra em ordem. 21 Toda pessoa é uma pessoa-muitas:

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MES MO QUAN DO SÓ EU SÓ AN DO EM BAN DO 22 O “eu”, na Poética Dendorí, já não reivindica uma singularidade (não se trata de um “eu lírico”), antes, frisa uma pluralidade descentrada, atravessada por muitos diferentes tempos. Ao mesmo tempo. 23 Dendorí me remete a um texto-tambor, “Orí”, que publiquei em 2001, no livro Trívio: tudocomeçaeacabanacabeça 24 O nome Dendorí é novo. Só o nome. A metodologia é anterior ao nome. E é tão velha quanto o corpo que me nasceu neste largo caminho de vida que tenho trilhado desde que saltei para fora da barriga de Íris.

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RICARDO ALEIXO 25 “Minha mãe me deu ao mundo e sem ter mais o que me dar me ensinou a jogar palavra no vento pra ela voar” 26 A quem pertence a palavra? A quem pertence o poema? A quem pertence o mundo? A quem pertence o possível do mundo? A quem pertencem os possíveis do mundo? E os mundos possíveis, de quem são? 27 Dendorí é a arte de conversar a distância com as pessoas a quem se quer bem. Converso assim com muitas pessoas. 28 Em 2017 eu fui à Suíça para fazer uma performance no Cabaret Voltaire e uma demonstração de processos criativos na Universidade de Zurique. Levei, para ler durante o voo, o livro de entrevistas de Ailton Krenak publicado pela editora Azougue na Coleção Encontros. De volta ao Brasil, passei e dias pensando no livro. Passagens inteiras me vinham à mente. Isso durou semanas, até se transformar numa grande vontade de conversar com Ailton. A vontade aumentava sem que eu tomasse a iniciativa de fazer contato com ele. Até que um dia, eu dentro de um ônibus a caminho de já não me lembro qual cidade, recebi uma mensagem de whatsapp, enviada por uma 10


amiga, um pequeno vídeo em que Krenak lia um trecho do meu livro de entrevistas – como o dele, também lançado pela Azougue. Ele estava numa livraria, em Belo Horizonte, creio que no começo de sua palestra, e dizia isto: “Estou com um livro do Ricardo Aleixo, que me achou enquanto eu passava aqui ao lado, ele saltou na minha mão pra dizer o seguinte (AK lê um fragmento sobre o silêncio)”. 29 Algumas semanas depois eu soube que o meu amigo estaria de novo em Belo Horizonte, para um debate no Teatro Francisco Nunes, e me organizei para ouvi-lo falar. Cheguei mais cedo e me juntei, no hall do teatro, a um animado grupo de pessoas queridas. Eu estava de costas para a porta de entrada. Ailton chegou e me abraçou por trás. Me virei para cumprimentálo direito e logo o abraço se transformou numa espécie de dança ritual da alegria e da amizade. Aquilo durou muito tempo, e talvez tenha ocupado só alguns poucos segundos de nossas vidas. De repente, com a expressão serena de sempre, Krenak disparou, me olhando nos olhos: “Eu pensei em você e você veio.” 30 Aconteceu maravilha Li o livro do parente pensei nele e ele apareceu Olha só quanta alegria olha que feliz sou eu olha só quanta alegria maravia aconteceu 11


RICARDO ALEIXO

Não aqui no Campo Alegre e sim numa livraria Olha que feliz sou eu olha só quanta alegria olha que feliz sou eu aconteceu maravia Eu virei livro um livro vivo uma floresta eu virei Saltei da estante na mão do parente e outra floresta me leu 31 Dendorí é um modo de viver a escuta ativa da intuição. No palco e em qualquer outro espaçotempo de vida viva. 32 Dendorí é, também, um elogio da multiplicidade e da simultaneidade como instâncias de um programa de resistência ativa. Aprendi com meu pai Ogum e com seu amigo Exu a nunca ficar parado para que o inimigo pense que tem sempre mais de um combatendo do meu lado 12


32 Dendorí: o reconhecimento de que a palavra é sagrada, tem força e é capaz de construir ou destruir mundos. 33 Quando soa a nossa voz o mundo velho ainda não desabou de vez. o mundo novo já emite alguns sinais. não há intervalo entre o que morre e o que nasce – dentro da mente (entre o que vês e o que não vês). o mundo novo é do velho mundo a outra face. os dois são de uma semelhança atroz. viver talvez seja questão de ser capaz de perceber qual deles fala quando soa a nossa voz. 34 Este escrito é uma pessoa. Muitas. Em movimento. & não acaba aqui.

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RICARDO ALEIXO Publicado em 17 de setembro de 2020 – Ensaios Mundos Possíveis Belo-horizontino de 1960, Ricardo Aleixo é poeta, artista visual e sonoro, performador, pesquisador das poéticas da voz e do corpo, cantor, compositor, ensaísta e editor. Publicou, entre outros, os livros Pesado demais para a ventania (Todavia, 2018), Antiboi (LIRA/Crisálida, 2017 – finalista do Prêmio Oceanos 2018) e Modelos vivos (Crisálida, 2010 – finalista dos prêmios Portugal Telecom e Jabuti 2011). Já fez performances na Alemanha, na Argentina, em Portugal, na França, no México, na Espanha, nos EUA e na Suíça. Trabalha atualmente na produção do podcast Poesia&, na escrita dos livros A três por quarto (de memórias, a ser lançado pela Todavia) e Campo Alegre (pela Coleção “BH – A cidade de cada um”, da Editora Contexto) e na elaboração da mostra individual Cada palavra em seus lugares – Uma reProspectiva. Este texto foi escrito exclusivamente para o 52º Festival de Inverno.

Para citar este conteúdo: ALEIXO, Ricardo. Dendorí: uma poética-muitas. In: FESTIVAL DE INVERNO DA UFMG, 52º, 2020, Belo Horizonte. Ensaios Mundos Possíveis. Belo Horizonte: DAC/UFMG, 2020. Disponível em: <https://issuu.com/culturaufmg>. Equipe curatorial do 52° Festival de Inverno da UFMG: Diomira Faria, Fabrício Fernandino, Fernando Mencarelli, Fernando Rocha, Mônica Ribeiro e Verona Segantini.

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