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Ensaios Mundos Possíveis

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Imaginar a falta.1 Paulo Pires do Vale

1 Uma primeira versão deste texto foi publicado no jornal do Festival de l´incertitude (org. Paulo Pires do Vale), Fondation Calouste Gulbenkin, Paris, Septembre-Décembre 2016

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PAULO PIRES DO VALE “Ter falta de imaginação é não imaginar a falta” Frase escrita, em 1968, numa parede de Paris

1. Porque se temem a incerteza e o vazio, as instituições (os poderes) procuram assegurar as consciências e promover uma estabilidade (ilusória). Privilegiam a segurança, as certezas garantidas pela autoridade e a constituição de identidades (aparentemente) fortes. Por isso, as instituições são, nas palavras de Michel de Certeau, “seguradoras que protegem contra a questão do outro, contra a loucura do nada”2. Ou seja, contra loucura da falta. Certeza e segurança estão, assim, associadas à repetição do já-conhecido, ao hábito, à tradição recebida, tantas vezes tida como “intocável” - e são uma forma de neutralizar a diferença, o outro, a proposta que põe em causa o estado das coisas presentes. Uma das frases escritas nas paredes de Paris em 68 foi: “Le sacré, voilá l´ennemi!”. O sagrado não apenas divino, mas no sentido etimológico: aquilo que é separado, intocável, inquestionável - isso, é o verdadeiro inimigo da imaginação: o império do passado é “religiosamente”/escrupulosamente mantido e repetido, despossessando o homem de si mesmo e do poder de imaginar a sua vida. Sagradas são, neste sentido, as ideias feitas, as fórmulas repetidas, os “lugares-comuns” do pensamento que não se ousam por em causa, o poder das instituições. Neste 52º Festival de Inverno de UFMG, pelo contrário, celebramos a imaginação e a incerteza como o espaço espaçoso dos possíveis. Queremos louvar a plasticidade (sinal de vida) e não a rigidez (reflexo da morte). Queremos sublinhar a 2 Michel de Certeau, Histoire et psychanalyse entre science et fiction. Paris, Gallimard, 1987, p.146.

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importância daquilo a que Nietzsche chamou Força plástica3: a força activa que permite a alguém desenvolver-se de maneira original e independente, de transformar em si e de assimilar o passado e as influências que recebeu, de curar as suas feridas, de reparar as suas perdas, de enfrentar o incerto. O poder frágil da metamorfose. 2. Diante da incerteza, a imaginação pode/ deve propor outro estado de coisas, outro “horizonte de possibilidades” (outro Mundo, porque o Mundo é sempre um horizonte de possibilidades finito, determinado pela educação, pela cultura, pelos preconceitos, pelas experiências pessoais…). Mas antes de qualquer proposta, é necessário saber enfrentar a falta, ser capaz de imaginar a falha sem cair na tentação de a tapar (por medo do vazio, do nada) com as respostas já seguras, gastas e retardadas. A falta, aquilo que nos falta, remete para o necessário desequilíbrio introduzido num sistema: um desacerto que perturba e subverte a ordem. Depois de experimentar esse desequilíbrio não podemos já regressar sossegados à antiga ordem. Começa uma forma de outridade. A palavra “outridade” e o verbo “outrandonos” surgem no Livro do Desassossego, de Bernardo Soares/Fernando Pessoa - ligado, nas duas vezes, à palavra imaginação4 . Outrar-se é, assim, o movimento de um eu se tornar outro. 3 F.Nietzsche, “De l´utilité et des incovénientes de l´histoire pour la vie” in Oeuvres Philosophiques complétés II. Considérations inactuelles I e II. (org. G.Colli e M. Montinari). Paris: Gallimard – 1990, p.97 4 “Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos.” (Livro do desassossego 138), e “é por imaginação e outridade que as penso e sinto.” (LD 266)

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PAULO PIRES DO VALE Não no sentido mais previsível da máscara, antes na construção permanente da identidade, de um eu que, afinal, é já outro, não apenas em relação a outros, mas diferença em si mesmo. Somos outridade radical, como revela a fórmulatítulo de Paul Ricoeur: “soi-même comme un autre”. Mas também uma comunidade se pode/ deve outrar… projectar-se, imaginar-se, tornarse outra - acolher esse outro. 3. Também em 1968, Pier Paolo Pasolini realiza e escreve Teorema5. Um filme com ressonâncias teológicas, que nos faz pensar na experiência íntima da falta, sem a querer esconder. Uma família italiana da burguesia industrial abastada, mas “pobre em espessura e tonalidades”, em tudo membros de um grupo social que os enquadra, reconhece e classifica, um dia, recebem em casa o anúncio de que um hóspede vai chegar. Parece esperado, já conhecido, mas há nele a dimensão do estrangeiro. Pasolini atribui-lhe a estranheza da beleza excepcional, o ser desprovido de mediocridade, o mistério - dele nada saberemos. O que ao longo do filme percebemos é que os membros daquela família serão transformados pela sua presença, pela relação com aquele hóspede estrangeiro. Para todos, tornar-se-à instrumento de reeducação: o que implica a desaprendizagem, a desordem e a reconstituição do seu mundo: o seu horizonte de possibilidades, e do modo de nele se orientar. O amor e a entrega ao hóspede misterioso não deixarão pedra sobre pedra. O hóspede vem destruir a ideia que tinham de si mesmo, 5 Pier Paolo Pasolini, Teorema. trad. de Ana Tanque. Vila Nova de Famalicão: quasi edições – 2005; pp.21-22. (romance escrito durante a realização do filme com o mesmo nome)

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e consegue-o porque, como lhe diz um dos membros, “tu te dás inteiro a cada um”. É uma estranha “presença consoladora” que destrói a lei dos papéis sociais para reconstituir a figuração que fazem de si, dos outros, da existência e mostrar que outros mundos são possíveis. Destrói sem maldade. Destrói porque a casa estava mal fundada sobre areia. A podridão escondia-se por detrás da fachada asseada, e ele revela a verdade. Sem sombra de mal. Ele não representa: ele é, simplesmente, aquele que é. E parte como chegou, de repente. Não voltará. Deixa-os consigo mesmo, a ter de lidar cada um à sua maneira com a sua ausência. Tornam-se santos, artistas, promíscuos, doentes... outros. O acolhido, afinal, revela-se como aquele que “estrangeira”. É o mediador que permite a cada um perceber o outro que transporta em si. Em 1968 era evidente para Pasolini, como para os estudantes nas ruas de Paris, que a mudança nunca poderia ser algo de mental ou pretensamente espiritual, desenraízada do corpo. A revolução da vida implica uma alteração da vivência incarnada, uma relação nova com o mundo através da fragilidade e força da sexualidade, da afectividade e do desejo. As verdadeiras revoluções não alteram apenas a linguagem, mas também o corpo. Aliás, ele é a porta da alter-ação, pessoal e social. Corpo em abertura. O modo de presença do hóspede estrangeiro é hospitalidade. Acolheu cada um e guiou-os para o deserto6, o lugar onde puderam sentir: “eu estou repleto de uma pergunta a que não sei responder”7. Experimentar a pergunta a que não se sabe responder, sentir que nos preenche, 6 E não por acaso, a citação que acompanha o filme e o livro é bíblica: Êxodo 13, 18. 7 Pasolini, Teorema, p.141

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PAULO PIRES DO VALE dar-lhe tempo, sem fugir dela ou retomar as respostas já-dadas, as certezas anteriores, é o início de algo novo. Ainda que doloroso. É preciso assumir esse vazio, essa falta. Fazer jejum de certezas. 4. Só se pode acolher se houver lugar para isso. Se não se estiver cheio (de si, de certezas e seguranças), se houver lugar vazio, ou seja, aquele que é capaz de ser ocupado por um ente, mas que não está ocupado. E Lao Tsé ensinava: “Molda-se o barro para fazer um vaso, é precisamente o que nele não existe que dá utilidade ao vaso. Furam-se portas e janelas para fazer uma sala, é precisamente o que nela não existe que dá utilidade à sala”. Esse espaço aberto, esse vazio, tem de ser criado. (E aqui posso acrescentar que as obras de arte têm essa função: não devem ser coisas acrescentadas ao mundo, forma de “mobilar” ou “decorar” o mundo, mas rasgões, fendas neste mundo, criações de vazio). É necessário criar vazios, espaços nãoocupados, que permitam que o outro, o diferente, venha. Que se imagine outra ocupação. Outro re-arranjo social, pessoal, urbanístico, económico… é preciso não esconder - ou melhor, é preciso imaginar primeiro a falta, a falha. Jean Genet diria “a ferida”, de onde nasce a obra de arte. Primeiro, é preciso, então, contra todo o poder seguro, esvaziar. Mesmo o poder seguro da identidade pessoal. Esta história revela-o bem, foi contada por John Cage ao pintor Philip Guston:

“quando começas a trabalhar, toda a gente está no teu atelier – o passado, os 6


teus amigos, inimigos, o mundo da arte, e acima de tudo, as tuas ideias – estão todos lá. Mas enquanto continuas a pintar, eles começam a sair, um a um, e és deixado completamente sozinho. Então, se tiveres sorte, até tu sais.” 8 O atelier, lugar externo e interno, é a abertura de um espaço para acolher o que vem. Esvaziar-se, mais do que simplesmente esvaziar. Nesse sentido, escreveu Cézanne, sobre a tarefa do pintor: “Toda a sua vontade deve ser de silêncio. Deve fazer calar dentro dele as vozes de todos os preconceitos, esquecer, esquecer, fazer silêncio, ser um eco perfeito.”9 Fazer calar as vozes dos preconceitos - reconhecer os pré-conceitos que nos habitam, que marcam a nossa relação com o mundo, a nossa leitura “certa” da realidade. Esta forma de esquecimento, de impessoalidade, de apagamento e destruição da imagem dada é um estado de abertura radical. Nesse sentido, o atelier é espaço de inquietação, de imprevisibilidade - de desassossego. De deixar o poder à imaginação. 5. Tal como os indivíduos, as comunidades podem, e devem, compreender-se neste modo de outramento e imaginação desassossegada. O que é a utopia senão outro nome para o desejo de um outro modo de ser? Um laboratório onde se testam possibilidades inesperadas. Um atelier. E essa possibilidade ficcional, lugar sem lugar, desassossega já este lugar existente, aqui 8 Philip Guston, Coleccted writings, lectures, and conversations (ed. Clark Coolidge). Berkeley: University of California Press, 2011, p. 30. 9 Cézanne in Élie Faure, Paul Cézanne seguido de O que ele me disse..., por Joachim Gasquet. Lisboa: Sistema Solar, 2012, p. 64.

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PAULO PIRES DO VALE e agora. Essa parece-me ser a sua principal função. Exercício de imaginação já presente e a criar desequilíbrios. Utopia concreta e já actuante - e para que tal aconteça, tem de se ser muito realista, de modo a se conhecer e julgar bem a realidade, as suas injustiças e necessidade de mudança, para propor uma outra realidade (também aí, a Utopia de Thomas More continua uma referência com os seus dois capítulos distintos). A Utopia é, assim, “um buraco na realidade” (Dora Garcia). A primeira função da utopia, indicou Ernst Bloch, é manifestar que o real não se esgota no imediato - o real tende para o que ainda não é. A ficção utópica, seja espacial seja temporal, é um laboratório de outridade. Na verdade, por ser uma ficção presente, por a podermos ler e conhecer, não é simplesmente inexistente ou sem lugar: está já a impregnar de sentido e desassossego este lugar que é o nosso. Adaptando a frase bíblica, podemos dizer sobre a ilha da Utopia o que aí é afirmado sobre o Messias: “Está já no meio de vós o que não conheceis”! (Jo 1, 26). Um “enclave”, chamoulhe Frederic Jameson: “o espaço utópico é um enclave imaginário dentro do espaço social real”10. Mas a nossa existência é isso: mistura permanente de realidade e ficção, um tecido de factos e interpretações, de matéria e palavras. E será possível uma cultura sem uma utopia como motor e direção? A utopia é “o que impede o horizonte de expectativa de se fundir com o campo da experiência”11. Ou seja, que não se confundam a esperança e a tradição; o desejável e o efectivo; o possível e o existente. Basta existir uma utopia 10 Frederic Jameson, Archaeologies of the Future. The Desire Called Utopia and Other Science Fictions. London - New York: Verso, 2007, p.15 11 Paul Ricoeur, Do Texto à Acção. Porto: Rés, s.d., p.384

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para que uma pergunta se torne já presente e inquiete: e se? É esse desacerto, a possibilidade aberta, o que a utopia cria. A consciência de um mundo inacabado, não terminado, um descontentamento com o já existente no presente, apontando uma distância que nos põe a caminho. A presença de uma falha. Se a ideologia assegura, legitima, preserva e conserva; a utopia imagina e questiona. A utopia é um exercício de imaginação que propõe uma alternativa, variações imaginativas da sociedade. Uma subversão. Mesmo contra toda a esperança. 6. A imaginação faz surgir nas paredes do real portas inesperadas: com a possibilidade da sua abertura, com a incerteza do que está ou virá depois de ser aberta. Abre-se, assim, na situação presente, mesmo na mais desesperada, uma possibilidade de saída, de fuga, de um outro modo de ser. Mesmo para um condenado à morte, como nos mostrou Robert Bresson - que é o mesmo que dizer: para todos nós, mortais. Contra a atrofia da imaginação, queremos lembrar que “a imaginação é um modo indispensável de investigação do possível”12. Relembrar que ela é a nossa liberdade - mas sem esperar milagres. Interessa-nos o “impulso utópico” (Bloch) e promover uma hermenêutica utopista: não deixar de ler a realidade sob este ponto de vista crítico, a partir de chaves hermenêuticas utópicas. Deste modo, a utopia não é uma questão de espaço, nem mesmo de tempo - mas de ponto de vista; de instrumento de análise: “a consciência utópica quer ver 12 Paul Ricoeur, Philosophie de la volonté II. Finitude et culpabilité. 1. L´homme failible. Paris: Aubier, 1988, p.161

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PAULO PIRES DO VALE muito longe, mas no fim de contas não é senão para poder melhor penetrar a obscuridade próxima do vivido no instante, no seio do qual tudo o que existe está em movimento ficando ainda escondido de si mesmo. Noutras palavras: precisamos do telescópio mais poderosos, o da consciência utópica mais aguda, para penetrar a proximidade mais próxima”13. E se os “lugares sem lugar” forem, já aqui, o lugar instável e incerto de onde olhamos o estado de coisas presente? Mais do que a realização futura, a função da utopia é a crítica já do presente para aí compreender o intolerável. Procurar alternativas com uma “consciência antecipante” (Bloch). Nas mais diferentes perspectivas: educativa, política, organização da propriedade, produtiva, urbanísticoarquitectónica, tecnológica, religiosa, médica, artística, ecologista… A função das utopias é explorar possibilidades. 7. As utopias falham. É preciso aprendermos com essas falhas e assumir a sua fragilidade. Quando são impositivas e implementadas tornam-se fechadas e totalitárias, rapidamente revelam-se distópicas e trágicas (como a história, a literatura e o cinema nos mostraram). Ainda que pareçam proposta positivas de modelos ideais, são apenas “mapas e planos para ler negativamente, como o que pode ser realizado depois da demolição”14. Os modelos seguros são ainda formas de conforto contra a incerteza - busca de receitas fáceis e seguranças. A utopia não é a ideologia, nem um programa político, e 13 Ernst BLOCH, Le principe espérance. Trad. F. Wullmard, Paris, Gallimard, 1976, t. 1, p. 21. 14 Frederic Jameson, Archaelogies…, p.12

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não pode perder a capacidade plástica de desconstrução e autodesconstrução. Nem pode perder a sua autonomia em relação ao poder para realizar a sua função crítica. Não pode ser completamente absorvida pela realidade para poder exercer a sua função incómoda. Como a arte: a obra de arte é ficção, construção, uma mentira, dirá a realidade - mas é ela que permitirá aproximar-nos da vida mais próxima e tantas vezes obscura. Esta distanciação que a obra de arte introduz entre nós e a realidade, essa cisão do real consigo mesmo, essa retirada, é o que permite a abertura de um sentido novo. De uma porta. E nesse movimento, a mediação, a barreira, transforma-se em passagem. Inesperadamente. É muro que oferece a chave e uma porta imprevista. Sendo uma retirada, realiza-se no seio do mundo – não é fuga para um mundo à parte, mas fenda neste horizonte de possibilidades onde nos movemos. Uma retirada que prepara o regresso. Transgressão e reconstituição15. Como a que a utopia deve criar.

15 Na Décima das Cartas sobre educação estética, Schiller afirma que “quem não se atreve a abandonar a realidade, não chegará nunca a conquistar a verdade”. F.Schiller, Kalllias. Cartas sobre la educación estética del hombre. Ed. Bilingue. Barcelona: Antropos – 1990; p.193. E este abandono, este exílio, é posssível pela mediação da obra de arte: ela permite um confronto entre o conceito mascarado pela cultura de realidade, e o que a vida é na sua verdade nua. Teoria que ecoará, noutros conceitos, na interpretação que Paul Ricoeur faz da distanciação como essencial para a hermenêutica e a apropriação da obra: “quanto mais ampla for a retirada, mais vivo é o retorno ao real”. A obra é então a (des)construção que permitiria reconduzir, segundo Nietzsche, o reencontro com o dionisíaco, porque “a vida, no fundo das coisas, a despeito da variabilidade das aparências, permanece imperturbavelmente poderosa e cheia de alegria”. Por ela dáse a abolição dos abismo entre os homens – abismos politicos, sociais, civilizacionais…

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PAULO PIRES DO VALE 8. Viver é habitar na possibilidade16. É nesse aberto que somos lançados pelo nascimento, é ao estado de nascimento que voltamos recorrentemente durante a nossa vida, pois é essa plasticidade - força plástica - que nos permite viver: a vida é abertura. Não perfeição, mas incompletude. Também a construção da comunidade e das suas instituições pode aprender daqui - e das ficções utópicas. É nesse atelier imaginativo que construímos a comunidade que desejamos ser e a ideia de humano que apontamos. As utopias mais profundas e influentes não são sobre lugares, tecnologia exterior ou simples organização urbana e social, mas sobre o que o homem pode ser. Sobre a falta. Os utopistas aliam, habitualmente, uma capacidade realista de análise da situação a uma concepção positiva e optimista sobre o homem: confiam na sua capacidade de desenvolvimento e melhoramento. Incitam, então, a acções revolucionárias para atingir essa potencialidade. Essa é outra função utópica: produzir envolvimento comprometido, provocar a acção, não nos deixar de braços cruzados - revelar-nos a nós mesmos como capazes. Capacitam-nos. 9. Subversivas, as utopias, desejam lançar algum veneno de inquietação (Fernando Pessoa). Mais do que vender pão, oferecer levedura (Miguel de Unamuno). A arte tem esse poder: ser bolsa de resistência, capaz não só de propor respostas, mas de nos fazer pensar e sentir, já aqui e agora, a falta. Pode ajudarnos a perceber a necessidade de permanecer 16

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Emily Dickinson, Poesia 657


na abertura, de esperarmos sem esperar, sem pensar que sabemos já as respostas ou de onde virá o novo. O vento sopra onde quer…De onde menos esperarmos, ela poderá surgir. Nas margens das certezas e dos consensos. É preciso estar disponível. No aberto. Experimentar a sede sem correr a saciá-la. Ou seja, a permanecer no vazio sabendo que ele é um útero. Como alguém escreveu numa parede de Paris, em 1968: “ter falta de imaginação é não imaginar a falta”.

Publicado em 15 de setembro de 2020 – Ensaios Mundos Possíveis Paulo Pires do Vale é filósofo, ensaísta, curador e professor universitário. Desde 2019, é Comissário do Plano Nacional das Artes, estrutura de missão criada pelo Ministério da Cultura e Ministério da Educação de Portugal. Este texto foi escrito exclusivamente para o 52º Festival de Inverno.

Para citar este conteúdo: VALE, Paulo Pires do. Imaginar a falta. In: FESTIVAL DE INVERNO DA UFMG, 52º, 2020, Belo Horizonte. Ensaios Mundos Possíveis. Belo Horizonte: DAC/UFMG, 2020. Disponível em: <https://issuu.com/culturaufmg>. Equipe curatorial do 52° Festival de Inverno da UFMG: Diomira Faria, Fabrício Fernandino, Fernando Mencarelli, Fernando Rocha, Mônica Ribeiro e Verona Segantini.

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Imaginar a falta  

"Imaginar a falta" é um ensaio escrito por Paulo Pires do Vale para o 52º Festival de Inverno UFMG, realizado em setembro de 2020. Para cita...

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