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Ensaios Mundos Possíveis

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Os usos da utopia: um ensaio sobre a liberação do “impossível” no pós-digital1 Pablo Gobira

Escola Guignard e Programa de Pós-Graduação em Artes (UEMG) Programa de Pós-Graduação em Gestão e Organização do Conhecimento (UFMG)

1 Estas reflexões surgem de pesquisa desenvolvida com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) e da Pró-Reitoria de Pesquisa e PósGraduação da Universidade do Estado de Minas Gerais.

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PABLO GOBIRA Como humanidade nos acostumamos a olhar para o “impossível” em busca de conquistá-lo. Buscamos conquistar o “impossível”, enquanto uma realidade imaginada, através de planos feitos a partir de nossos sonhos. De certo modo, com essa minha afirmação inicial, lembro os estudos de Sidarta Ribeiro, sobretudo o livro O oráculo da noite: a história e a ciência do sonho (2019), que discute o papel preponderante do sonho para os seres humanos e como mudamos o modo de sonhar nos últimos séculos. Os sonhos nos ajudaram a alcançar esse “impossível”. O “impossível” para um animal que alcançou a linguagem, a economia, a política em momentos iniciais da sua constituição. A busca pelo “impossível” nos permitiu chegar à realidade na qual nos encontramos agora. Nós chamamos esse “impossível”, muitas vezes, de utopia. A utopia foi pensada como um mundo imaginado, como um “não lugar”, como vemos através de Thomas Morus (2004). Um “não lugar” o qual poderíamos apenas querer alcançar e por ele sermos inspirados. Porém, no século XIX, vimos o início da relação entre o impossível e a utopia se modificar. No início do século XX, as vanguardas artísticas tiveram que voltar a relacionar o impossível e a utopia em um projeto sólido vinculado à transformação da realidade que passou a ser perseguida através do pensamento e de experimentos estéticos. É importante destacar que a noção de utopia trazida aqui – a partir do campo da arte e da sua relação com o restante da sociedade da qual a arte participa – está mais próxima da ideia praticada pelas vanguardas no segundo pós-guerra do século XX. Trato de “utopia” 2


como uma “ideia-praticada”, uma teoria-prática relacionando experimentos na sociedade com a compreensão do caráter estético que essa sociedade assimilou. De certo modo, é uma ideia de utopia como uma ação revolucionária para transformação da realidade no alcance do “impossível”. Para continuar a discutir utopia, preciso retomar alguns aspectos da minha formação acadêmica. Há cerca de 20 anos, eu acompanhei os momentos finais e heróicos da discussão sobre o “fim das utopias” enquanto me formava na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Era uma discussão vigorosamente presente nas disciplinas em que cursava, nos corredores da UFMG e em outros espaços públicos. Uma discussão ancorada nos acontecimentos históricos vividos nas décadas de 1980 e 1990 que são esteticamente reconhecidos na queda do muro de Berlim e na abertura da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. O “fim das utopias” foi lido por muitos autores – e ouvi com muito respeito nas vozes de muitos dos meus professores – como o fim da esperança2 para se construir realidades utópicas. Enquanto se tratava do “fim das utopias” o que eu enxergava era a liberação da ideia de “utopia” de um compromisso revolucionário. Desse modo, organizando as ideias apresentadas até aqui: vimos a utopia relacionada ao que permitiu à humanidade chegar até o modo de vida atual que é um “impossível” para um animal sem linguagem; 2 Lembro aqui a relação da utopia com a esperança desenvolvida por Ernst Bloch e sua noção de “utopia concreta”. Para aprofundar sugiro ver os três volumes de O princípio da esperança (BLOCH, 1996; BLOCH, 1995; BLOCH, 1986), para a noção de “utopia concreta” ver, em especial, o volume 1 (BLOCH, 1996).

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PABLO GOBIRA vimos a utopia recuperada pelas vanguardas como instrumento de luta; vimos a utopia vinculada aos avanços socialistas estatais no contexto da guerra fria no pós-Segunda Guerra Mundial. Hoje em dia vemos, mais claramente do que há 20 anos, que houve uma liberação da ideia de utopia de sua relação quase exclusiva com as organizações que propunham a revolução e também das que se compreendiam como vanguarda dessa revolução. Essas experiências humanas contribuíram para que a utopia vinculada àquele desejo humano pelo impossível se aplicasse em desejos específicos parciais diversos na sociedade. Ao olharmos para o campo das artes do início do século XX comparando-o com as vanguardas do segundo pós-guerra em específico veremos que a ideia de utopia sofreu um revés, passando a se sujeitar a um uso teórico-prático amplo na sociedade. Naquele momento do século XX em que a sociedade se organizava na bipolaridade entre um capitalismo concentrado no estado e um capitalismo difuso3 , vimos que a ideia de utopia foi identificada com o campo do capitalismo concentrado no Estado, tendo em vista a esperança de transformação que a ideia de “socialismo” tinha o potencial de representar. Representar, inclusive, é uma boa palavra, pois é através da ideia de representação que essa proposta de uma burocracia partidária-estatal operou em busca de uma utopia, mas uma utopia que, segundo essa burocracia, poderia ser vivida caso a humanidade passasse por esse modo de representação. Nesse sentido, 3 Sobre o capitalismo difuso e o capitalismo concentrado ou, ainda, espetacular difuso e espetacular concentrado, ver as teses 64 e 65 do livro A sociedade do espetáculo, de Guy Debord (1997).

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essa concentração do capitalismo estatal também guiou qual utopia era possível e como era possível realizá-la, sendo necessário seguir os seus meios e linguagem. Quando as imagens da queda do muro de Berlim aparecem, e os encontros de abertura da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas começam a ser noticiados, o polo que prendia a utopia aos regimes socialistas a liberta, intensificando a reprodução de seus usos. Como já mencionei, o uso das utopias já era realizado nas vanguardas artísticas do início do século XX, nas vanguardas do segundo pós-guerra e igualmente praticado tanto por atores dos países do capitalismo difuso, quanto pela burocracia partidária do capitalismo concentrado no estado. Porém, agora, o alcance das possibilidades desse uso é maior, tornando-o banalizado. Mas o que acontece se considerarmos a utopia como o “impossível”, o “irrealizável”? E se a utopia como o “impossível” for justamente o ponto fulcral? Não por acaso vemos o “impossível” se tornar o objetivo, por exemplo, no maio de 1968 na França4 e, mais próximo de nós, o vimos relacionado ao junho de 2013. Esses “impossíveis” não estão a serviço, eles estão para si próprios, constituem uma propriedade avaliada por sua autoconstituição enquanto existem. Porém, como sabemos, esses “impossíveis” foram postos a serviço quando perderam o seu uso para si e passaram a ser significações possíveis nas interpretações teóricas de diversas tendências, sendo que eles foram “impossíveis” gerados pela ação teórico-prática. 4 Basta lembrarmos das pixações nas paredes no maio de 1968: “Seja realista, exija o impossível!”

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PABLO GOBIRA Assim, as múltiplas ressignificações de momentos como o maio de 1968, na França, ou como o junho de 2013, no Brasil, acabam ilustrando o quanto a liberação da utopia do polo revolucionário possibilita a multiplicação da compreensão desses momentos na sociedade. Mas vamos voltar ao início desta reflexão. Eu afirmei que no final do século XX e até o início do século XXI era comum lermos teóricos desesperançosos ou que apostavam em uma teoria lida de modo descolado do cotidiano extra-acadêmico. Teorias que estavam libertas da necessidade de serem assumidas em relação com a sociedade ou para com a sua transformação total. O curioso é que estávamos praticando leituras teóricas amplas, de uma “nova filosofia”, que já tinha 40 ou 50 anos, e que proporcionou uma multiplicação ainda maior de teóricos, abrindo espaço para epistemes variadas e suas novas teorias. Estávamos às voltas com teorias críticas, o estruturalismo, o pósestruturalismo e os desdobramentos deles manifestos em estudos pós-coloniais, estudos culturais etc. Mas também, naquele momento da minha formação, tínhamos já a gestação dos textos centrais de teóricos que hoje têm uma grande recepção, tais como: Mario Perniola (2005, 2009, 2010), Giorgio Agamben (2002, 2013), Jacques Rancière (2009), Jonathan Crary (2012), Michael Hardt e Antonio Negri (2001), Paolo Virno (2002), Slavoj Žižek (1992) dentre outros. Todos eles propositivos de uma compreensão da realidade tendo em mãos uma teoria que busca afinidade com o cotidiano. Os teóricos anteriores passaram, após esse aparecimento, a terem leituras também propositivas na academia, muito devendo a esses novos autores nos fazendo lembrar de 6


Jorge Luís Borges (2007) e o seu conto “Kafka e seus precursores”. O que quero dizer com tudo isso é que houve uma multiplicação de leituras de mundo. Se nos anos 1980/1990 a academia ainda era povoada com o “fim da utopia”, no princípio do século XXI se reproduziam visões de mundo que estavam abrindo espaço para novas utopias. Acontece que a perspectiva múltipla da realidade que vemos nesses vários teóricos, nessas várias teorias, ainda que sejam verificáveis em termos de método por várias áreas e em teses de doutorado, sobretudo, não implicam em uma alteração substancial da realidade em que vivemos. Não estou querendo dizer que são teorias ineficazes ou sem comprometimento, ou desengajadas ou quaisquer outros adjetivos que uma ideia ainda viva de militância pode impingir. Estou dizendo é que essa multiplicidade colabora com o contexto de liberação da utopia de um polo revolucionário único, tornando-a passível de ser usada livremente na sociedade. Todos esses autores e teorias são levantados aqui como modos de pensar. Vejo neles uma filiação aos métodos de refletir sobre a realidade que foram experimentados pela arte durante a virada do século XIX para o XX e expressos concretamente nos programas vanguardistas do início do século e no pós1940. Estas visões de mundo não realizadas, sobretudo as do Futurismo, do Dada, do Surrealismo e também das vanguardas como a Internacional de Artistas Experimentais, conhecida igualmente como CoBrA ou o Socialismo ou Barbárie – que não é vanguarda de arte –, mas também a Internacional Situacionista, acabaram por instaurar um regime de realidade múltiplo que foi visto 7


PABLO GOBIRA na academia por meio das multiplicações das teorias. Teorias essas que têm sim sua dimensão prática, sua ação, ainda que muitas vezes sejam ensinadas distantes dessas dimensões. E o que acontece, já no século XXI, com essa multiplicação das possibilidades de replicações teóricas como elas mesmas ou com leves ou profundas distorções? Há a multiplicação exponencial das possibilidades de uso da utopia como método de entender, ver e propor pautas para a realidade. Dessa forma, a proposição da mudança da realidade nas teorias pode demandar o impossível, mas os propositores aceitam o atingível. Esse é o alcance dos usos da utopia em nosso contexto em que ela serve para projetar o impossível de modo corriqueiro com a intenção de alcançá-lo parcialmente. A liberdade de uso da utopia está relacionada com a multiplicação das possibilidades de um uso instrumental, estratégico. O pensamento utópico aparece como modo de existir em nossa sociedade de diversidade epistemológica5 , pautada pela estética penetrada no cotidiano tal como apresentado e combatido pelas primeiras vanguardas do século XX e pelas vanguardas do segundo pós-guerra. O resultado concreto dessa multiplicação é termos utopias emancipatórias e separatistas diversas, utopias ligadas às lutas de gênero ou pela destruição do sistema de gênero, utopias

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Ou da potência dessa diversidade, alguns podem dizer.


afrocentradas etc.6 .7 É dessa forma que podemos afirmar que o uso da utopia não se restringe a teorias acadêmicas. Ele se dissolve, desde as vanguardas, para vários setores da sociedade. Observamos que quanto mais tecnocientificamente avançado é o setor social, mais esse uso é praticado. Assim, pensando mais próximo de nós temporalmente, gostaria de aprofundar no contexto tecnológico contemporâneo e nas transformações provocadas pelo avanço da industrialização no mundo. Mais especificamente, gostaria de relacionar tudo isso que mencionei até aqui com a ideia de pós-digital. Um pós-digital que é visto como um momento em que nos permitimos coligar tecnologias digitais com tecnologias pré-digitalização de modo fluido (CRAMER, 2014). Mecanismo que pode ser comparado a coligação de teorias diversas, dobrando-as para aproximá-las a partir de metáforas ou de seus próprios operadores conceituais.8 Com as tecnologias no contexto contemporâneo podemos pensar que não 6 Talvez seja interessante ver o artigo “Sensing the reality: reflections on artistic actions to defocus the real” (GOBIRA, SILVA, MOZELLI, 2020). 7 Não aprofundarei ou tratarei especificamente dessas utopias. É importante salientar que em alguns desses exemplos são levantadas bandeiras consideradas revolucionárias. Porém, devemos concordar que, nesses exemplos, expressam-se lutas variadas, desde a autodeterminação de um povo, passando por alterações de leis locais ou mudança de regimes políticos etc., sendo estes exemplos parte desse fenômeno de liberação da utopia de um polo único, permitindo que o seu uso seja expandido. 8 Essa fluidez das relações entre os produtos da indústria e entre as teorias nos leva, mais uma vez, a voltar à questão da liberação do uso da utopia de um polo único revolucionário. Será que podemos ensaiar que estamos criando e manifestando sinais de utopias diversas nas visões de mundo e nos vários protótipos industriais? Vemos que o uso da utopia se espalha livremente na sociedade, independente se a consideramos uma comunidade de espectros (ROMANDINI, 2012), uma sociedade de um humano sacrificável (AGAMBEN, 2002) ou, ainda, uma sociedade do espetáculo (DEBORD, 1997).

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PABLO GOBIRA há apenas utopias múltiplas, mas existem realidades multiplicadas graças à assistência tecnológica. Assim, as utopias também se multiplicam quando temos, por exemplo: experimentos de design que permitem às plantas se reproduzirem9 ou quando temos robôs que possibilitam que as plantas se manifestem quando precisam de água ou sol10 , atualizando uma utopia das plantas; ou, ainda, quando nos desenvolvemos técnica e cientificamente a ponto de podermos pensar a nossa realidade com base nas possibilidades de uso cotidiano das nanotecnologias, das biotecnologias e das Tecnologias da Informação e Comunicação congregadas. Criamos um mundo bioimersível (GARCÍA, 2016; GARCÍA, BERNAL, HERNÁNDEZGARCÍA, 2018) em que o controle dessa realidade e da informação gerada nela é assistida por inteligências artificiais. Além da atuação no controle, estamos considerando a assunção desse novo modo de viver em que o nosso meio opera de maneira autônoma, com agentes como as inteligências artificiais criando esteticamente enquanto conforma e presentifica para nós algo que parecia, há pouco, o impossível. É justamente pelas possibilidades desse admirável mundo novo bioimersível que peço licença para comentar três exemplos que ilustram essa liberação dos usos da utopia de uma maneira definitiva. Esses exemplos estão ligados a uma composição estética próxima da arte e são eventos tais como o foram a 9 Ver: “Good Vibrations: These Sex Toys Are Made For Plants” em https://www.fastcompany.com/3036955/good-vibrationsthese-sex-toys-are-made-for-plants 10 Ver: “Vaso inteligente leva plantas até o sol e avisa quando elas precisam de água” em https://epocanegocios.globo.com/ Tecnologia/noticia/2018/07/vazo-inteligente-leva-plantas-ate-osol-e-avisa-quando-elas-precisam-de-agua.html

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queda do muro de Berlim e o fim da guerra fria representada na dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas .11 *** A humanidade sonha com o céu há milênios. O céu – seja ele visto como o lugar do paraíso ou como o universo inalcançável – é uma utopia reconhecida nas artes e na história humana. Há pouco mais de 50 anos esse céu foi alcançado. A humanidade foi representada através da presença do ser humano na Lua12. Um feito conquistado por meio de um projeto audacioso e complexo que envolveu desenvolvimento científico e tecnológico bem como a motivação da corrida armamentista durante a guerra fria. Com o primeiro passo dado para o alcance desse “não lugar” o ser humano se sentiu mais perto da possibilidade de habitar o céu, mesmo que ele permaneça sendo uma utopia para a maior parte dos seres humanos, ao mesmo tempo em que as agências espaciais do mundo apontam seus projetos para Marte. É por isso que os exemplos que comentarei estão relacionados ao espaço extraterreno. Alguns dos exemplos a seguir podem ser vistos como marketing das empresas e dos empresários envolvidos. Porém, os exemplos estariam mais próximos da arte, pois seus autores agenciam esteticamente a ação que explora uma utopia de maneira não 11 É interessante como a guerra fria é citada no contexto da pandemia de Sars-Cov-2, em 2020. A guerra fria é citada de maneira estética através da vacina produzida na Rússia apelidada de “Sputnik V”. Ver em: https://epocanegocios.globo.com/ Mundo/noticia/2020/08/porque-russia-batizou-vacina-do-novocoronavirus-de-sputnik-v.html 12 Apesar de termos a viagem à órbita terrestre antes de 1969, o passo do primeiro ser humano na Lua é muito mais representativo da presença humana no céu, principalmente pelo seu caráter estético explorado na transmissão ao vivo para todo o mundo.

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PABLO GOBIRA convencional, ao mesmo tempo em que abrem os sentidos de sua ação para interpretações e apreciações diversas. Além do reconhecimento milenar do espaço como utopia, as ações aparecem como uma manifestação do impossível quando não dialogam com a realidade de maneira objetiva. A sua “não objetividade” reside na “não identificação” com o cotidiano, com o reconhecido como “normal”. Vamos aos exemplos: *** Elon Musk é um empresário que é conhecido pela sua atuação visionária. Em fevereiro de 2018, usando um lançamento de foguete da empresa SpaceX, ele enviou um veículo Tesla Rodster vermelho ao espaço, em direção à Marte, ao som da música Starman, de David Bowie .13 Na verdade, o boneco colocado em frente ao volante do carro é que tem o nome inspirado na música. A ação foi propagada em vídeos e animação pelo canal do Youtube da empresa responsável pelo lançamento e pode ser reconhecida tanto como uma estratégia de marketing quanto uma demonstração da virtuose das empresas que foram capazes de realizar esse feito. Podemos ensaiar que, do ponto de vista das equipes responsáveis por enviar o primeiro ser humano à Lua, a realização da Tesla e da SpaceX é distópica, tendo em vista todos os percalços que envolvem um lançamento espacial tanto na década de 1960 quanto hoje. Porém, as motivações estéticas de uma ação de tamanha performance – e entenderemos “performance” no sentido de alto desempenho e no sentido reconhecido na arte – revela algo a respeito de como é possível usar uma utopia. 13

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Ver: https://www.whereisroadster.com/


*** Em setembro de 2018 o bilionário Yusaku Maezawa anunciou que financiaria a viagem de 6 a 8 artistas e designers para uma volta na órbita da Lua, prevista para acontecer em 2023 com o lançamento em foguete da SpaceX. O objetivo da ação é inspirar os artistas e designers durante a viagem pela órbita lunar para que, ao retornarem da viagem, produzam obras de arte. O projeto se chama Dear Moon e convocou, conforme seu website 14, um pintor, um músico, um diretor de filmes, um designer de moda dentre outros para a viagem. Podemos acessar, no website do projeto, o plano de voo em croquis, vídeos dos foguetes que serão utilizados, dentre outras informações. A própria viagem, em termos de performance, já é um feito que relembra o imaginado por Julio Verne (2005), bem como torna mais próximo os objetivos de diversas agências espaciais: a viagem extraterrena a passeio. O uso da utopia espacial é incrementado ao relembrar o lugar-comum da influência da Lua na arte, “inspirando” os artistas no decorrer dos séculos. Mesmo que essa ação não tenha ainda ocorrido, ela procura mobilizar os sonhos humanos. *** O terceiro exemplo que quero comentar é uma ação realizada, mas não totalmente bem-sucedida. O artista Trevor Paglen, em 2015, anunciou junto ao Museu de Arte de Nevada (nos Estados Unidos da América) que planejava lançar um satélite para orbitar o planeta Terra. Foi lançada uma campanha de arrecadação de recursos que alcançou o objetivo de financiamento da proposta. O nome do trabalho artístico que seria lançado 14

Ver em: https://dearmoon.earth/

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PABLO GOBIRA como satélite é Orbital reflector, uma escultura inflável em formato de obelisco. O satélite foi efetivamente lançado pela SpaceX, em 201815 e, segundo os responsáveis pela proposta, foi o primeiro satélite não militar, não científico e não comercial posto em órbita. Conforme o release disponível no website do projeto, o lançamento aconteceu, mas como eram vários satélites juntos no mesmo módulo não foi possível atribuir uma identificação específica para o Orbital reflector quando solto no espaço, impossibilitando a verificação da sua posição na órbita para que fosse inflado sem o risco de danificar outros satélites. A partir dessa ação o artista participou de debates, sendo questionado, inclusive, sobre se o seu ato não criou mais lixo espacial para poluir a órbita terrestre. Caso a escultura dentro do satélite tivesse sido inflada a expectativa era que a obra pudesse ser vista no planeta Terra a partir da reflexão da luz solar. *** Além da SpaceX aparecer como a responsável pelos lançamentos espaciais nos três casos, vemos a ideia de “performance” ser mobilizada junto ao céu como um “impossível” que está sendo alcançado. O uso da utopia é feito a partir da menção ou mesmo com o alcance desse “não lugar” extraterreno que povoa o imaginário humano. No release presente no website do Orbital reflector, afirma-se que a busca do impossível é central na ação: “Como o trabalho de seu predecessor histórico, o vanguardista russo Kazimir Malevich que buscou lançar objetos artísticos esculturais no espaço no início do século XX, Paglen ousou imaginar o impossível quando propôs o Orbital reflector.” 15

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Ver em: https://www.orbitalreflector.com/


A mobilização das equipes das propostas, do público em geral e do público financiador, dos stakeholders das empresas de Elon Musk etc., é realizada de uma perspectiva estética, o que carrega com mais significados esses projetos que trazem algo de impossível. As três ações revelam a visão do planeta, ou mesmo do sistema solar, como uma mídia utilizável, transponível, que pode ser pensada como um todo, sendo que o impossível extraterreno torna-se alcançável tanto por empresários como o Elon Musk e o Yusaku Maezawa quanto por artistas como Trevor Paglen. Os três atos, sejam eles concluídos ou não, estão manifestando uma realidade que é próxima da utopia evocada pela produção estética de gerações humanas anteriores à nossa. Do mesmo modo como um teto ou uma tela foram usados no renascimento por pintores, temos artistas e empresários que realizam seus trabalhos transformando o planeta em suporte, usando o firmamento como tela. *** Observo que esse uso da utopia está sendo feito por profissionais que são atores da indústria em geral – e não apenas das indústrias criativas. É justamente por isso que podemos trazer um outro exemplo de uso da utopia ainda mais próximo de nós e que é gerado pela evolução das indústrias, de seus produtos e serviços. O exemplo que quero discutir um pouco é o das cidades inteligentes. As cidades inteligentes vêm sendo pensadas como planos urbanísticos que apontam para utopias (TOWNSEND, 2013) a serem perseguidas 16 . 16 Como projetos de cidades utópicas as cidades inteligentes lembram a ilha do livro de Thomas Morus, portanto, para aprofundar na discussão sobre a relação entre a utopia, vanguardas e cidades inteligentes, sugiro ir até o artigo “Ciudades inteligentes

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PABLO GOBIRA Essas cidades fruto de um urbanismo planejado permitem solidificar a presença do meio bioimersível em nosso cotidiano, pois os usos tecnológico e científico para os projetos de cidades inteligentes não são feitos apenas a partir das Tecnologias da Informação e Comunicação, mas permitem a aplicação dos resultados científicos tanto da biotecnologia quanto das pesquisas em nanotecnologia. Como políticas públicas de municípios, estados e países ou como políticas de corporações ou consórcios delas, as cidades inteligentes são pensadas de modo utópico, com todas as propostas visando a melhoria da vida, muitas vezes em favor da preservação do planeta por meio da autossustentabilidade das cidades. Porém, em sua implementação temos a realidade do controle da informação e da biografia do indivíduo17 . Ainda que se tente contornar essa questão, vemos que é um projeto de cidade – portanto, um lugar que ainda não existe – cuja dinâmica serve a um propósito predominante em nossa sociedade que são as relações sociais de produção. Desse modo, o uso da utopia nesses projetos de cidades não deixa de as retornar ao eixo da cidade como espaço funcional da realidade. Com o uso da utopia pelos projetistas de cidades inteligentes vemos explícito a mutabilidade da cidade. Explicita-se a cidade como mutável em tempo real, sem dar um momento sequer para que o cidadão sonhe com o modo como a deseja, mantendo o papel do poder público e/ou das empresas membros dos consórcios projetistas da cidade como mediadores das transformações. A mediação y utopia: una guía de vanguardia para repensar las ‘smart cities’” (GOBIRA, SILVA, ANDRADE, 2020). 17 Para aprofundar na questão do controle ver Gobira (2018) e sobre o controle biográfico ver Gobira (2016).

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das transformações não significa a diminuição da velocidade em que ocorrerão nas cidades inteligentes. O dinamismo, manifesto na velocidade da produção de informação e da necessidade dessa informação circular e ser acessível, pode incapacitar o desejo do impossível definitivamente, provocando no cotidiano uma diminuição – e poderia dizer que quase eliminação – da distinção entre o virtual e as possibilidades de sua atualização que se materializam no urbano18 . Muitas das vanguardas do século XX inventaram – ou ensaiaram inventar – as suas próprias cidades. Algumas vanguardas exigiam uma cidade própria através da transformação do uso que faziam da arte no seu tempo. São várias as cidades das vanguardas em que a dimensão estética artística teria um papel determinante: a cidade dos sonhos surrealistas; a cidade da velocidade futurista; a cidade da excursão dadaísta; a cidade da deriva, da psicogeografia e do urbanismo unitário situacionista são exemplos experimentais dessa junção entre a estética, a utopia e a cidade. O que vemos hoje é a realização dessa demanda urbana das vanguardas ser alcançada como paródia. Os projetos urbanísticos de cidades inteligentes manifestam o desejo de construir um “novo”. Esse novo surge através dos usos da ciência e da tecnologia. Como projeto há o indício de utopia, mas realizando-o no empenho de energia e recursos industriais eles se tornam algo cuja força de execução maior está no uso da esperança utópica que carregam. Não importa se são 18 Para a discussão sobre o virtual e o atual conforme trazemos aqui veja Pierre Levy (1996).

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PABLO GOBIRA cidades criadas do nada ou se são metrópoles nas quais se insere tecnologias digitais. Nas cidades inteligentes o que temos é o uso da utopia como recurso em projetos urbanísticos que podem ser anunciados como o impossível, mas são construídos como o esperado. *** Vislumbramos, com tudo o que eu trouxe neste ensaio, que entrarão em cena muitas outras utopias nos próximos anos. Algumas com características distópicas; outras mobilizadas em projetos estéticos ligados à arte; e outras, ainda, envolvendo questões de autodeterminação dos povos e etc. Vimos, neste ensaio, que com a liberação da utopia de um compromisso revolucionário há uma multiplicação de seus usos por atores diversos. Percebemos que a utopia como o impossível pode permanecer como aquilo que deve ser perseguido. Resta apenas descobrir como manter o impossível nesse lugar; um lugar que de fato mude de modo completo a realidade compartilhada: o lugar do “não lugar”.

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PABLO GOBIRA Publicado em 21 de setembro de 2020 – Ensaios Mundos Possíveis Pablo Gobira é professor da Escola Guignard (UEMG), do PPGArtes (UEMG) e do PPGGOC (UFMG). Coordenador de Câmara de Assessoramento de Ciências Humanas, Sociais, Educação e Artes da FAPEMIG. Membro pesquisador e gestor de serviços da Rede Brasileira de Serviços de Preservação Digital do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. Escritor e editor de livros e artigos. Pesquisador dos grupos “Estudos e Práticas de Preservação Digital” e “Núcleo de Estudos dos Acervos de Escritores Mineiros”. Atua: na curadoria, criação e produção no campo da cultura, artes digitais, ciências e jogos digitais; como professor em cursos de fronteira como o Curso de Engenharia de Máquinas Biológicas (UFMG, UEMG, UFV), Teatro em Movimento Digital (Rubim, UEMG, UFMG); curadoria de bienal, exposições e residências artísticas. É coordenador do Programa Institucional de Extensão (UEMG) Direitos à Produção e ao Acesso à Arte e à Cultura. Este texto foi escrito exclusivamente para o 52° Festival de Inverno.

Para citar este conteúdo: GOBIRA, Pablo. Os usos da utopia: um ensaio sobre a liberação do “impossível” no pós-digital. In: Festival de Inverno da UFMG, 52°, 2020, Belo Horizonte. Ensaios Mundos Possíveis. Belo Horizonte: DAC/UFMG, 2020. Disponível em: https:// issuu.com/culturaufmg. Acesso em: XX de setembro de 2020. Equipe curatorial do 52° Festival de Inverno da UFMG: Diomira Faria, Fabrício Fernandino, Fernando Mencarelli, Fernando Rocha, Mônica Ribeiro e Verona Segantini.

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Os usos da utopia: um ensaio sobre a liberação do “impossível” no pós-digital  

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