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Ensaios Mundos Possíveis

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SONHOS DE OUTROS MUNDOS E OUTROS TEMPOS Kaká Werá

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KAKÁ WERÁ Um mundo pressupõe um território. Um território é reflexo de um mundo. Um mundo interior e exterior. Logo, o espaço territorial no qual um mundo se ocupa começa na dimensão interior, no imaginário de uma pessoa, um grupo, um coletivo. Os territórios são sonhados antes. São delineados por vales de crenças, virtudes, valores, cosmogonias. São fecundados pelos desejos mais ancestrais de segurança, sobrevivência e bem-aventurança. Assim, todo território material é a consolidação de um território imaterial que por sua vez é o engendramento de um mundo sonhado. Concomitantemente às invasões dos territórios materiais que começaram no século XVI por estes lados das Américas, houve - de um modo tão terrível quanto os genocídios sazonais de culturas humanas e ecossistemas - os atentados aos mundos preexistentes nos imaginários das civilizações milenares que aqui habitavam. Aquilo que na psicologia social é chamado de arquétipos fundantes de laços de pertencimento, de integração de valores e aprimoramento de virtudes foi igualmente solapado, destruído, e com o tempo quase que totalmente apagado da memória ancestral de vários povos, entre eles notadamente a antiga tradição Tupi. Foi no século XVI que se iniciou a ocupação (invasão) no mundo imaginal dos que viriam a ser os futuros brasileiros (descendentes dos praticantes do tráfico do pau-brasil). A ideia do índio como algo “nem gente e nem animal”, bom para ser escravo, que foi cultivada inicialmente pelo então cronista português da cidade do Porto, Pero Magalhães Gândavo, que escreveu Tratado da Terra do Brasil com a finalidade de estimular a imigração portuguesa e justificar a 2


escravização indígena. Foi ele que começou a construir através da escritura de seu livro um território exótico, em que habitavam monstros marinhos na costa de São Vicente e Santos, mulheres que se engalfinhavam com tais monstros, homens que comiam gente com requintes de feitiçaria e bárbaras crenças, entre outras tantas averiguações que ele dizia constatar a partir de sua estada na Bahia, durante dois anos de trabalho históricojornalístico a mando da Coroa. O território imaginário construído por Gândavo diz, de um lado, que os povos da Terra Brasilis são pacíficos e prestimosos, mas também “cruéis animais sem o uso da razão”, vingativos canibais e agressivos. “Vivem todos mui descansados sem terem outros pensamentos senão comer, beber e matar gente”, e ainda são “desonestos e dados a sensualidade”, mas vivem livres de cobiça e do “desejo desordenado de riquezas”. Atribuía aos Aimorés uma ferocidade terrorista, já que embrenhados nas matas eles se valiam de emboscadas contra outros índios e contra os portugueses. Para Gândavo, “os tapuias não devoram inimigos”: “Comem os parentes doentes, que matam quando percebem que a doença se assenhorou deles, julgando que não há melhor agasalho para os entes queridos que suas próprias entranhas”. Por isso, Pero Magalhães Gândavo era favorável a duas possibilidades com relação aos filhos destas terras da América: 1) o extermínio desses “bárbaros” ou 2) A sua completa escravização. Esse mundo criado por Gândavo vai ganhando notabilidade, credibilidade e chancela de autenticidade com o tempo, além de ser endossado pelos historiadores que o sucederam: Gabriel Soares (O Tratado 3


KAKÁ WERÁ

Descritivo do Brasil); Fernão Cardim (A Narrativa Epistolar e os Tratados da Terra e da Gente do Brasil); Ambrósio Fernandes Brandão (Diálogos das Grandezas do Brasil); as cartas dos missionários jesuítas escritas nos dois primeiros séculos de catequese (registradas posteriormente em antologias, como em As Cartas Jesuíticas, de 1933); e Hans Staden (Duas Viagens ao Brasil). Todas as obras publicadas na segunda fase da década de cinquenta do século XVI. Foi questão de tempo para que a dizimação e a exclusão do mundo imaginal ancestral se desdobrasse no mundo material, atingindo os territórios tradicionais e desestruturando os ecossistemas destes, como a Mata Atlântica, o Cerrado, a Amazônia. Além de reduzir uma população aproximada entre 10 a 20 milhões até o século XVI para quase 1 milhão nos dias de hoje, neste Brasil de 2020. Mas qual era o mundo desses povos? Que sonhos, que arquétipos, que valores, que virtudes? Quais as bases que fundaram as visões de mundo de civilizações que habitam aqui desde 12.000 anos atrás? Ou quem sabe desde 50 mil anos atrás? Será que passaram todos estes milênios comendo uns aos outros e brigando com monstros marinhos que rugiam com suas duas patas na beira do litoral? Poderíamos ficar sem saber por falta de exemplos documentais se uma das civilizações mais antigas das Américas, a tradição Tupi-Guarani, não revelasse a sua visão de mundo centrada no “Ayvu Rapyta”, através dos registros de Leon Cadogan, um estudioso e professor da Universidade Nacional de Assunción do início do século XX. Este teve anuência do pajé e cacique Pablo Werá para escrever os princípios 4


cosmogônicos da sua sabedoria ancestral, que parte da ideia de que o ser humano é uma entidade vibratória, algo bem semelhante ao que a atual física quântica sugere; que se adensou, corporificando-se na matéria. Essa mesma cultura ancestral foi classificada por sociólogos e antropólogos como Pierre Clastres e Florestan Fernandes como “teocrática”, ou seja, as relações sociais eram mediadas pela visão de mundo espiritual, na qual o Divino Mistério inspira e opera através da natureza e da intuição que vem do coração. Onde as relações sociais eram baseadas em acordos de convivência seguindo um princípio chamado “Tekoá”, que literalmente é chamado de arte do “bem viver”, mas que na prática significa uma justa relação entre o ser humano e a natureza; extraindo dela os recursos que não excedam os limites do necessário e reconhecendo nela a “Mãe” que nutre todas as espécies e vidas e que portanto deve ser honrada, respeitada e celebrada para que as futuras gerações recebam-na em condições da continuidade do fluxo da vida. Em outros tempos havia então um território extenso que enraizava esta visão de mundo por uma diversidade de ecossistemas: Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia. Isso pode nos levar a considerar a possibilidade de que para gerar futuros possíveis podemos nos basear em passados possíveis. Em passados que deixaram mais do que memórias sentimentais, mas também experiências fecundas de qualidade de vida e sabedoria. Poderíamos pelo menos nos inspirar nas referências de outros tipos de territórios e mundos, pois neste contexto não se trata de reviver, regredir ou repetir. Tratase de ter clareza e consciência de processos e 5


KAKÁ WERÁ experiências diversas para qualificar e ampliar possibilidades de sonhos futuros, refletindo e alinhando erros e acertos de uma gama ampla de modelos de vidas possíveis. Para isso, inicialmente é necessário “descatequizar” nossa visão de mundo herdado do passado seiscentista, construída a partir de uma idealização propagandística dos interesses imperiais da época: colonizar, explorar, escravizar. Em seguida é preciso abrir espaço para uma arqueologia dos arquétipos ancestrais para conhecer melhor a diversidade de visões de mundo, de territórios que marcaram épocas e lugares no Brasil. Por fim, é preciso sonhar um futuro inclusivo, tecido do melhor da experiência de cada cultura ancestral e contemporânea, dentro de uma vibração em comum: sustentabilidade.

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Publicado em 20 de setembro de 2020 – Ensaios Mundos Possíveis Kaká Werá Jecupé – Escritor, ambientalista e conferencista brasileiro de origem indígena tapuia. É fundador do Instituto Arapoty, empreendedor social da rede Ashoka de Empreendedores Sociais e conselheiro da Bovespa Social & Ambiental. Leciona, desde 1998, na Universidade Holística Internacional da Paz (Unipaz) e na Fundação Peirópolis. Este texto foi escrito exclusivamente para o 52º Festival de Inverno.

Para citar este conteúdo: JECUPÉ, Kaká Werá. Sonhos de outros mundos e outros tempos. In: FESTIVAL DE INVERNO DA UFMG, 52º, 2020, Belo Horizonte. Ensaios Mundos Possíveis. Belo Horizonte: DAC/UFMG, 2020. Disponível em: <https://issuu.com/culturaufmg>. Equipe curatorial do 52° Festival de Inverno da UFMG: Diomira Faria, Fabrício Fernandino, Fernando Mencarelli, Fernando Rocha, Mônica Ribeiro e Verona Segantini.

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Sonhos de outros mundos e outros tempos  

Sonhos de outros mundos e outros tempos é um ensaio escrito por Kaká Werá para o 52º Festival de Inverno UFMG, realizado em setembro de 2020...

Sonhos de outros mundos e outros tempos  

Sonhos de outros mundos e outros tempos é um ensaio escrito por Kaká Werá para o 52º Festival de Inverno UFMG, realizado em setembro de 2020...

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