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Ensaios Mundos Possíveis

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UM MUNDO SEM ROSTO Cao Guimarães

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CAO GUIMARÃES O que é um buraco?... Um buraco é uma ausência rodeada de presenças. (...) Um fantasma é, com efeito, um buraco: mas um buraco ao qual atribui-se intensões, uma sensibilidade, costumes; um buraco, ou seja, uma ausência, mas uma ausência de alguém, não de alguma coisa, rodeado de presenças, de presenças de alguém ou de alguns. Um fantasma é uma ausência rodeada de presentes. E como é a substancia esburacada o que determina a forma do buraco e não a ausência que rodeia esta presença, assim, quando atribuímos intenções, costumes e uma sensibilidade a um fantasma, estes atributos não residem no ausente e sim no presente que rodeia o fantasma. 1

Em abril de 2015, fiz uma exposição na Galeria Nara Roesler, em São Paulo, que se chamava “Depois”, onde apresentava algumas séries fotográficas e um vídeo, nos quais a questão da ausência da figura humana era central. Nela apenas pressentíamos o humano (em rastros, como na séria fotográfica “Steps”, ou na voz de um homem listando apelidos inusitados de pessoas no vídeo “Palace Hotel”).

1 Daumal, Rene. Patafisica de los fantasmas. Em: ‘Patafisica. Epítomes, recetas, instrumentos & lecciones de aparato. Buenos Aires: Caja Negra Ed, 2013. p.215.

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Pouco mais de um ano depois, mais precisamente em novembro de 2016, realizei nova exposição individual na mesma galeria, desta vez no Rio de Janeiro, cujo título era “Retroatos”. Tratava-se de uma série de fotografias e vídeos povoadas de pessoas sem rosto (borradas, desfocadas ou de costas). A estranha sensação de percorrer o espaço da galeria em meio a imagens de várias pessoas sem rosto era algo angustiante.

No início de maio deste ano, quase quatro anos depois, eu estava isolado em um balneário uruguaio por causa do Coronavírus. Já fazia 40 dias que eu não ia a um centro urbano, quando tive que ir a Montevideo para resolver um problema prático. Me deixaram em uma avenida onde tive que caminhar umas dez quadras até o lugar onde ia. O comércio funcionava normalmente, as vitrines das lojas e seus produtos, as bancas de revista e 3


CAO GUIMARÃES as manchetes do dia estampadas nas capas dos jornais, o familiar barulho dos automóveis, o cheiro de torta frita, o rumor dos passos, os passeios cheios de gente. Mas alguma coisa me era inédita e estranha: não havia rostos. As pessoas não tinham rosto. A quase totalidade das pessoas estavam usando ‘tapa-bocas’ para se protegerem de um vírus. Um mundo sem rosto, uma rua sem rosto, um corpo sem rosto. Fui tomado por uma sensação de tristeza infinita. O rosto é o lugar do corpo onde os sentimentos melhor se manifestam. E como perceber a tristeza em corpos sem rostos? Um corpo sem rosto já é em si uma coisa triste. É como uma casa sem janelas. Estas dez quadras percorridas a pé na Avenida 8 de Outubro, em Montevideo, foi a condensação simbólica de um sentimento que de alguma forma eu andava pressentindo desde alguns anos.

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A rua é o lugar da alteridade por excelência. Um dos meus maiores prazeres é perambular pelas ruas das cidades observando os rostos das pessoas. A rua é o lugar onde nos perdemos e nos achamos no rosto do outro, onde cada movimento de lábio contraindo as bochechas num sorriso, cada trincar de dentes, cada lágrima que cai é um microacontecimento tecendo a rede fenomenológica mais prosaica, crua e próxima do humano. Cada rosto projeta um filme infinito (como certamente pensavam os cineastas Carl Dreyer e Andy Warhol), um continuum interminável de sentimentos e sensações, escavando abismos profundos, planícies solares, lombadas sutis, curvas abruptas na superfície maleável da pele facial. São estas talvez as nossas formas mais remotas de comunicação, antes das palavras, que nada mais são que a concatenação sequenciada dos movimentos da língua e dos lábios sob a ação do ar.

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CAO GUIMARÃES

Não é apenas um vírus que nos está roubando o rosto, obrigando-nos a escondêlo sob máscaras estilizadas. Nosso rosto já está sendo roubado (anulado talvez seja uma palavra mais apropriada) por nós mesmos há algum tempo. Uma espécie de auto-sabotagem contraditória em sua essência, pois ao buscarmos o rosto perfeito estamos perdendo a perfeição do rosto. Pois a própria ideia de perfeição é limitadora e contenciosa. A perfeição de um rosto deveria ser a consequência de um movimento centrífugo, a materialização facial de algo que vem de dentro, e não a colagem artificiosa de um ideal de rosto (uma máscara). Um rosto é, ou deveria ser, ilimitado, incontinente e explosivo. Sua sagração ser a confirmação de nossa imperfeição, de nossa transitoriedade. A busca artificiosa por um rosto perfeito nos desumaniza, nos virtualiza. Ao buscarmos a imagem de um rosto que 6


surpreenda, afundamos numa previsibilidade absolutamente superficial. A previsibilidade está estampada em nossas máscaras, das quais temos dificuldades de nos livrarmos. O rosto, sua profundidade, suas escavações, estão achatadas na superfície vitrificada das telas. Da mesma forma o tempo está perdendo sua profundidade. A sensação (principalmente durante a quarentena forçada pela pandemia) é de que o futuro está se achatando no presente e no passado (as reprises do futebol e das telenovelas na TV, os sonhos cada vez mais remotos, etc.). O vírus está nas ruas, onde os rostos já não estão mais. O vírus não está nas redes, onde os rostos viralizam cada vez mais.

Na época das selfies, a realidade parece ter se tornado uma espécie de espelhamento infinito, como quando entramos em um elevador com paredes de espelho, onde nossa imagem se multiplica ao infinito. Aprisionados neste jogo especular, sem acesso à paisagem exterior e muito menos à paisagem interior, presos na superfície perniciosa de nossa 7


CAO GUIMARÃES imagem multiplicada, o elevador simula um movimento qualquer, de subida ou de descida, mas na verdade está parado dentro de um shopping-center.

A questão da representação através da imagem ou da acentuação do valor da imagem de um rosto em detrimento do rosto real está muito bem expressa no conto “O Retrato Oval”, de Edgar Allan Poe. Nele o autor conta a história de uma jovem que deu a vida para agradar o esposo, um artista desejoso de pintar seu retrato. Permanecendo sentada por muito tempo posando para o artista, ela foi perdendo paulatinamente a saúde e o espírito. Ao 8


terminar seu retrato o artista, completamente fascinado por sua obra, toma um susto ao ver diante de si sua esposa morta. Estaremos posando para o mundo como a modelo do conto de Edgar Allan Poe? Nossa imagem está se tornando mais importante que nós mesmos? Onde estão as pessoas reais? Qual destes rostos que você me oferece é seu rosto verdadeiro?

O rosto é uma superfície esburacada. Estes buracos são por onde nossos 5 sentidos atuam, na verdade nossos principais instrumentos de percepção da realidade. Os olhos, o nariz, o ouvido, a boca e os poros da pele (que é essencialmente o órgão do tato). Por estes buracos somos constantemente permeados pelos estímulos do mundo exterior. Se hoje passamos a maior parte de nosso tempo conectados ao mundo exterior através de uma tela (de computador, celular, iPad, etc), a consequência natural disso será um atrofiamento irreversível de nossos sentidos. Não faz muito tempo que as formas de se relacionar, de conhecer uma pessoa por exemplo, foram mudando de forma bastante 9


CAO GUIMARÃES abrupta. Geralmente nos relacionávamos de forma presencial, ou seja, com os corpos (e os nossos sentidos) ativos em sua plenitude. Estamos em um bar, eu e alguém que vejo pela primeira vez. Um sentado de frente para o outro. Diante de nós uma mesa com bebidas e tira-gostos. Meus sentidos estão atentos aos estímulos que a situação provoca. Toco sua pele ao cumprimentá-la ou quando meus lábios tocam sua face. Meus olhos percebem o jeito que ela se senta, meio de lado, com as pernas cruzadas. A espuma do chopp redesenhando seus lábios. Ela demora um pouco para usar sua língua para limpar a espuma dos lábios. Percebo que ela come as tiras de filé separando as de cebola no canto do prato (meu palatos intui a rejeição do dela ao gosto da cebola). Sinto o cheiro do seu perfume mesclado com os odores de fritura que vem da cozinha. Sinto uma leve vibração pois suas pernas não param de balançar embaixo da mesa, o que indica que deve estar meio ansiosa. Percebo, durante a conversa, intervalos de silêncio constrangedores que interferem na cor de sua face, numa paleta que vai do marrom ao rosáceo. E quando faço um elogio à sua pessoa ela teima em olhar para o lado como não se fosse com ela. Ao ir embora ela não sabe se aceita a minha carona, percebo isso pois seus dois pés estão virados para dentro. Finalmente aceita a carona e a cidade vira um filme que passa pela janela do carro, pontuado pela beleza de seus comentários tímidos. Não vou descrever aqui a mesma situação de conhecer alguém com a intermediação de telas de celular ou computador. Mas posso imaginar o quão reduzido torna-se desta forma o repertório 10


de estímulos sensoriais disponível para se conhecer alguém.

Estamos paulatinamente perdendo nossos sentidos e com eles nossos rostos vão perdendo expressividade, nos fazendo aproximar da condição última de fantasma, um grande e único buraco suspenso sobre nosso tronco, uma ausência rodeada de presenças artificiais, utilizando máscaras para tentar inutilmente preencher o vazio inevitável de nossas existências.

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CAO GUIMARÃES

Cao Guimarães Marindia, Uruguai, 2020

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Publicado em 19 de setembro de 2020 – Ensaios Mundos Possíveis Cao Guimarães é cineasta, artista plástico e escritor. Com produção intensa desde o final dos anos 1980, tem obras em numerosas coleções prestigiadas como Tate Modern (Reino Unido), MoMA e Museu Guggenheim (EUA), Fondation Cartier (França), Colección Jumex (México), Inhotim (Brasil), Museu Thyssen-Bornemisza (Espanha), dentre outras. Atualmente, está editando o seu décimo longametragem, intitulado Espera.Este texto foi escrito exclusivamente para o 52º Festival de Inverno.

Para citar este conteúdo: GUIMARÃES, Cao. Um mundo sem rosto. In: FESTIVAL DE INVERNO DA UFMG, 52º, 2020, Belo Horizonte. Ensaios Mundos Possíveis. Belo Horizonte: DAC/UFMG, 2020. Disponível em: <https://issuu.com/culturaufmg>. Equipe curatorial do 52° Festival de Inverno da UFMG: Diomira Faria, Fabrício Fernandino, Fernando Mencarelli, Fernando Rocha, Mônica Ribeiro e Verona Segantini.

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Um mundo sem rosto  

Um mundo sem rosto é um ensaio escrito por Cao Guimarães para o 52º Festival de Inverno UFMG, realizado em setembro de 2020. Para citar este...

Um mundo sem rosto  

Um mundo sem rosto é um ensaio escrito por Cao Guimarães para o 52º Festival de Inverno UFMG, realizado em setembro de 2020. Para citar este...

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