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Volume 1, edição 1 Goiânia, junho de 2013

O linhão Pré-requisito para a leitura deste jornal:

Goiânia, Goiás, historicidade e contradições Goi â orig nia – a em e refle suas xões

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“O pensamento moderno ocidental é um pensamento abissal. Consiste num sistema de distinções visíveis e invisíveis, sendo que as invisíveis fundamentam as visíveis. As distinções invisíveis são estabelecidas através de linhas radicais que dividem a realidade social em dois universos distintos: o universo “deste lado da linha” e o universo “do outro lado da linha”. A noma t E divisão é tal que “o ouática tro lado da linha” desa- tem parece enquanto realida: um de torna-se inexistente, e é ogramesmo produzido como pr ra inexistente. Inexistência ma pa do significa não existir sob além e qualquer forma de ser l relevante ou compreensívisíve l! vel. Tudo aquilo que é visíve n i produzido como inexis7 Pág. 0 tente é excluído de forma radical porque permanece exterior ao universo que a própria concepção aceite de inclusão considera como sendo o Outro. A característica fundamental do pensamento abissal é a impossibilidade da copresença dos dois lados da linha. Este lado da linha só prevalece na medida em que esgota o campo da realidade relevante. Para além dela há apenas inexistência, invisibilidade e ausência nãodialéctica” (p.25-26). (In: SANTOS, Boaventura de Sousa Epistemologias do Sul. Portugal. Editoral Almedina, 2009)

Tecendo ideias e pensando o futuro. Estão prontos para costurar? ...em movimento

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O LINHÃO

Goiânia – a origem e suas reflexões Celso Pinto Soares Júnior A primeira fonte econômica do Estado de Goiás foi o As bandeiras, assim como os hinos, são utilizadas coouro e este foi responsável pela transferência da capital mo símbolos. Para os países, estados e cidades eles são de Goiás, afinal, a cidade de Goiás em plena estagnação vistos como a representação máxima de um povo, a exdo ciclo aurífero não mais atendia as elites pressão de suas raízes histórico-cultural, dominantes e políticas da época. Fazia-se meio ambiente, entre outros. Para a capital necessário a busca por novas fontes de ride Goiás, percebemos que estes, que requeza e manutenção das oligarquias exispresentam a goianidade, expressam a cultentes. Apoiado ao discurso do então presitura imponente do domínio das terras, hoje dente da República, Getúlio Vargas, em um denominadas de Goiânia. movimento conhecido como Marcha para o O hino da cidade é formado por expresOeste, o interventor do estado Pedro Ludosões como “Que plantaram em pleno servico Teixeira lança em 24 de outubro de tão”, de fato a cidade não surgiu a partir 1933 a pedra filosofal e em 02 de agosto de do povo aqui instaurado e sim foi planta1935 cria o município denominado Goiânia. da/imposta por políticas dominantes que Este movimento tinha como objetivo levar o viam na região as características propícias progresso e a ocupação para a região Centro para o fortalecimento e continuidade das – Oeste. Levar a ocupação? E o povo que forças oligárquicas. Em outro trecho diz vivia nestas terras? Neste momento as poque “Pela gente goiana foi feita”, o que se pulações interioranas e indígenas se tornacontradiz com a história da cidade, pois os ram invisíveis ao contexto econômico e projetos urbanísticos foram baseados na político. O progresso instaurado e o povo dizimado. Vi- escola francesa e em seguida pela inglesa, não levando mos este discurso invisibilizado na agricultura, por parte em consideração as características e necessidades do das forças econômicas nos dias atuais, ignorando o di- povo que aqui residia. reito a terra a quem é de direito. Na bandeira da cidade, percebemos que O município de Goiânia se expande, no não houve a representação de seu povo e/ centro a dicotomia de ideais, observado pelo ou de lutas sociais, mas sim a representacontraste entre os monumentos “Ao Bandeição fiel das forças opressoras que conquisrante e as Três Raças”, o primeiro, de três taram a região. É visível a importância metros de altura, a representação fiel de um dada a figura dos bandeirantes, mortes, bandeirante imponente, armado e conquistaenganos, corrupções impostas como repredor, o segundo, de sete metros, a união entre sentação de um povo. A flor de lis tem os povos e a miscigenação a qual originou o como objetivo representar o poder. Quem povo goiano – branco, índio e negro. Salvo é o detentor deste poder? Com certeza é a beleza artística de ambos, o monumento uma minoria que chancela a continuidade “Ao Bandeirante”, certamente é o mais codas forças representadas nestes símbolos. nhecido e lembrado pela população goianiense, e que acaba por invisibilizar o que de fato ele representa: a imposição e a morte de povos, justificado pelo desenvolvimento. Arte: Fotógrafa Clarice Alves Capital de Goiás, símbolos e identidade. Goianidade é uma expressão que não encontramos no dicionário, mas remete as características, tradições e história dos cidadãos que nasceram ou que moram em Goiânia. Uma vez que a construção desta cidade se deu em um momento de políticas autoritárias, cabe uma reflexão: as raízes foram preservadas dos que aqui residiam antes da chegada da cidade? Não vemos presentes na cultura da capital os traços dos mineradores e indígenas que ajudaram a construir a história. A goianidade é incorporada a partir da construção da capital, a partir das representações do Estado.


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Escolhi ser goiano!

Estação Ferroviária, Praça do Trabalhador, Centro

Museu Zoroastro Artiaga

O crescimento de Goiás tem atraído pessoas de todo o mundo em busca de novas oportunidades e qualidade de vida. Desta forma, a população de Goiânia tem se transformado com a inserção de novos hábitos e costumes. Exemplo disso são as histórias dos imigrantes. Entrevistamos uma italiana de 64 anos, aposentada e que preferiu não ser identificada na reportagem. Ela mudou-se para o Brasil após seu filho se casar com uma goiana e já está a oito anos na cidade. Ficamos surpresos com a visão que a mesma tem da Capital de Goiás. Ela relatou vários fatores que chamaram e ainda chamam sua atenção, entre eles o apego dos goianos à cultura popular e às tradições. Ao questioná-la sobre as obras históricas de arquitetura da

cidade, ela destacou o “Monumento às Três Raças”, localizado na Praça Cívica, por considerá-lo o mais representativo, já que demonstra a miscigenação que deu origem à formação da cidade e que ainda hoje constitui a sua maior riqueza. Sobre a diferença cultural entre sua cidade natal e Goiânia, ela declarou que a história da Itália, em particular, tem raízes bem mais antigas que abrangem culturas arcaicas com seus mitos, ritos e linguagens artísticas que estão presentes ainda hoje nos costumes daquele povo.

a sua gente reescreve está história, buscando sua própria identidade, mesmo que aos seus olhos sejam constantes as imagens de imposição e conquistas.

Teatro Municipal

Fique por dentro É hora de conhecer! Através de seus pontos turísticos a cidade de Goiânia expressa a sua cultura e resgata o sentimento de goianidade em seus cidadãos. Mesmo que a cidade tenha se originado através das forças opressoras, hoje

Museu Antropológico de Goiânia – UFG Imagens: Google imagens

Goiás: folclore, raízes, linhas e reflexões... Suellen de Kássia Lemos dos Reis Os saberes do povo da nossa região apresentam elementos específicos ligados a expressões e tradições enraizados que foram passados de geração a geração. Muito do que se ouve é interiorizado e passado a diante sem um mínimo de reflexão e questionamento, podendo ainda ser modificado pelas vozes que ecoam estas informações que em forma de estórias, histórias, lendas e mitos expressam seus juízos de valor conforme a historicidade de cada indivíduo. Ao analisarmos certas lendas e mitos podemos observar fortes marcas de desrespeito a culturas, gêneros, classes sociais, à “raças” entre outras minorias, que são colocados à margem da sociedade dominante, e esta mesma sociedade que exclui é a que cria e reproduz essas lendas, no nosso Estado esta linha abissal é muito forte, pela própria história de povoamento que ocorreu, havendo o lado do dominador e o lado do dominado. Como exemplo desta reflexão que venho propor após esta leitura, elucido um ícone do folclore nacional, o Saci-Pererê que é um negro, tem apenas uma perna, fuma cachimbo, rouba galinhas e possui grande astúcia em traquinagens em geral. Quanta depreciação em um só ser! Observe a caracterização: negro, fuma cachimbo, ladrão de galinhas, deficiente físico. Seria um típico representante do malandro brasileiro? Mas quem já se perguntou o porquê dele ter apenas uma perna? Alguma criança que conhece esta lenda saberia responder este questionamento? Será que ele era doente? Foi castigado a ponto de perder esta perna? Ou apenas surgiu assim? Após estas indagações que podem ou não ser um dia respondidas e refletidas, venho expor algumas lendas goianas extraídas de uma fonte regional, e acredito que após a leitura das mesmas haja indagações como as acima apresentadas no exemplo do Saci-Pererê. Boa leitura excelentes reflexões!


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Lendas Goianas

Pé-de-garrafa

Romãozinho Romãozinho era um negrinho muito levado que, depois de muito aprontar, tornou-se uma espécie de diabinho. Tudo começou no dia em que ele foi levar comida para o pai, que trabalhava longe na roça, e no caminho resolveu comer os pedaços de frango e deixar os ossos no prato. Ao encontrar o pai, Romãozinho disse que sua mãe havia mandado só aquilo e que o frango tinha sido comido por um homem que ia se encontrar com ela todos os dias, assim que ele saía. Enfurecido, o pai de Romãozinho foi depressa para casa e, lá chegando, encontrou a mulher só, a costurar roupas, mas mesmo assim, ele lhe deu uma tremenda surra. Romãozinho assistiu a tudo aquilo morrendo de rir, mas quando sua mãe viu, ela jogou-lhe uma praga, afirmando que nunca mais ele conseguiria ficar quieto. Desde então, Romãozinho percorre os sertões fazendo arte e maldades, jogando pedras nas pessoas e casas, roubando coisas e assustando animais e crianças.

O abismo das sexualidades Luiz Fernando Ferreira Machado Nas escritas de Boaventura de Sousa Santos pelo pensamento pósabissal, são inúmeros seus exemplos de linhas abissais de ordem étnica e cultural causadas por diferentes contextos do colonialismo. No entanto, ao falar da discriminação e do preconceito como mecanismos de manutenção dessas linhas, e por que não dizer de aumento dos abismos, ele nos possibilita a reflexão em torno de outras diferentes realidades de desigualdade. Nesse texto, tentarei instigar os leitores a refletir as questões da sexualidade rumo à possibilidade de identificar linhas abissais, em particular a que diz respeito à orientação sexual. Devemos ter a clareza da particularidade que tem esse tema, visto que, diferentemente de outras características do ser humano, não se sabe ao certo ainda o início, os permeios e o final da sexualidade. Este tema não só é muito importante de ser discutido nos ambientes educacionais e de formação de professores, como tem ganhado cada vez mais espaço nas mídias e nas rodas de conversas de uma grande parte da sociedade.

O Pé-de-Garrafa é um selvagem cabeludo, mas tem somente um pé, o esquerdo, e deixa no solo uma pegada redonda. Adora aparecer para as pessoas nas matas e desaparece a seguir deixando quem o viu arrepiado. Negro d'água Habita as margens dos rios dos cerrados, é todo negro e tem a cabeça pelada e mãos e pés de pato. Aparece entre pedras, à tardinha ou em noites de luar, a canoeiros e pescadores e tenta virar a canoa. E não adianta nem atirar porque bala não entra nele. Rodeiro Habitante do Vale do Araguaia, trata-se uma arraia gigantesca, que, desperta, ataca pessoas, embarcações, além de animais, nas praias do rio. Referências Consultadas Teixeira, José A. Folclore Goiano. São Paulo: Editora Companhia Nacional, 1979. Imagem: Google

E a partir daqui já compartilho uma inquietude, o recorrente discurso da liberdade de expressão ou de opinião como justificativa para a socialização dos preconceitos. Defende-se o direito constitucional de manifestação livre para abusar-se dos discursos de subalternização dos que são diferentes de uma normatividade que hoje é imposta. Nesse sentido, surgem dois importantes aspectos para a relação com a teoria de Santos: a normatividade heterossexual e os discursos discriminatórios. A linha abissal aqui pode ser vista como a que divide os direitos e o lugar social dos heterossexuais e os direitos e o lugar social de todos os outros que fogem ao que é “normal” (inclusive aos estereótipos heterossexuais). Quem está “deste lado da linha” é digno de respeito e de seu lugar ao sol. Quem está “do outro lado da linha” é imundo, pecaminoso, menor, indigno. A definição do que é normal se aliena às subjetividades. As subjeti-

vidades incitam o questionamento do que é normatizado, levando a identificações. Transitoriamente, essas identificações vão resultando na formação de identidades (SANTOS, 1993). Isso vai ao encontro da formação recente de grupos, como o LGBTTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), que lutam pela igualdade de direitos. Mas ao passo que para alguns o abismo provoca o ativismo, para outros causa medo, traumas, limitações, com consequências muitas vezes desastrosas. Sem querer identificar culpados, pois não é esse o sentido do pensamento pós-abissal, pergunto: quem define essa linha? Quem diz o que é normal? É o mesmo indivíduo que tem a “liberdade” de chamar o outro de bichinha, marica, macho-fêmea, traveco. É o mesmo que usa a sua dita capacidade de curar homossexualidades para autopromover-se. É o mesmo que se vê com poder suficiente para definir quais são os direitos dos diferentes de si. Apropria da diferença do outro para reforçar o seu poder e usa a violência para colocar cada qual do seu lado. Exemplo claro é a discussão de âmbito mundial sobre o casamento igualitário. Os que se encontram “deste lado da linha” definem que nem todos podem oficializar a sua união em um dos maiores símbolos das sociedades, o casamento.


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Fato é que quem está do “lado de cá” se sente ameaçado com a igualdade de direitos e epistemológica, não porque é uma violência contra eles, mas porque a eliminação da linha implica no fim do seu poder e supremacia. O pensamento pós-abissal se distingue, assim, de um modelo globalizado de sociedade que tende à homogeneização, pois coloca as diferenças como pilar da constituição das relações igualitárias. Para isso, “o reconhecimento da

persistência do pensamento abissal é, assim, conditio sine qua non para começar a pensar e a agir para além dele” (SANTOS, 2010, p. 44). Fica então o convite aos leitores para que reflitam sobre todo este contexto em torno das sexualidades a partir do olhar de quem está “do outro lado da linha”. Rumo às ecologias!

Referências Consultadas SANTOS, B. S. Para além do pensamento abissal. In: MENESES, M. P.; SANTOS, B.S. Epistemologias do sul. São Paulo: Editora Cortez, 2010. p. 23-71. ___________. Modernidade, identidade e a cultura de fronteira. Tempo Social, Rev. Sociol. USP, São Paulo, v. 5, p. 31-52, 1993 (editado em nov. 1994).

A linha abissal e os marginalizados. É possível ir além da linha abissal? José Marcondes Alves de Oliveira

1.Quais são suas reflexões sobre a vida dos marginalizados na cidade de Goiânia? Primeiramente, pensar em marginalizados ou excluídos, é uma consequência do próprio pensamento abissal posto em tela por Santos. Os marginalizados ao mesmo tempo em que são considerados “marginalizados”, são fundamentais para manutenção do sistema. Deixe-me clarificar isso. Imagine os desempregados ou, subempregados. Formam o exército de reserva, que é utilizado para expansão da produção e explorado pelos empregadores para manter os baixos salários de quem está no mercado formal ou, até mesmo, por empresas para conseguir barganhas junto aos governos. Podemos dizer que são precariamente incluídos. Também podemos considerar que estamos analisando a marginalidade a partir do pensamento abissal, construído no decorrer do domínio europeu e do domínio capitalista. Seria possível o fim da “marginalidade” nesse modo de produção? A superação das fronteiras econômicas pressupõe a superação das fronteiras do pensamento, dos saberes dos povos, da cisão entre ‘nós e eles’. Porém vamos analisar a partir dos parâmetros convencionais. A “marginalidade” é produto das relações concretas de produção ao longo do tempo, relações que se tornam visíveis nas paisagens urbanas e na constituição de territórios diversos. O pensamento abissal aceita e trabalha para que na mesma cidade tenhamos condomínios fechados e favelas, precariedade do transporte público e milhões gastos para fluidez do transporte individualizado, salários milionários e salários precários, espaços culturais de luxo, subutilizados, e quadras de terra, descobertas e extremamente disputadas nos finais das tardes. Os marginalizados são assim considerados também nos

espaços da cultura, como poetizou Eduardo Galeano, são os ninguéns: Que não falam idiomas, falam dialetos. / Que não praticam religiões, praticam superstições. / Que não fazem arte, fazem artesanato. / Que não são seres humanos, são recursos humanos. / Que não têm cultura, têm folclore. / Que não têm cara, têm braços. / Que não têm nome, têm número. / Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local. Tal desigualdade visível para quem está do lado de cá, “nos tristes trópicos”, do outro lado da linha ‘abissal’, aparece quando verificamos que o rendimento, a escolaridade, a expectativa de vida (esperança de vida), o índice de homicídio têm cor, gênero e etnia. Na cidade de Goiânia, onde ficam os espaços das religiões afro-brasileiras? Então, a cartografia urbana mantém as linhas do que é ‘civilizado’, e do que não é. A expansão urbana se dá nesta

res que continuarão a pagar suas prestações por muito tempo. Contudo, nos espaços segregados, os debaixo criam seus territórios zonas, territórios redes e sua própria cartografia. 2.Como é possível reduzir esta linha abissal existente em nossa cidade? A diminuição dessa linha abissal passa pelo questionamento da estrutura produtiva, da forma de organização social atual. Ter consciência histórica e de incompletude. Em termos pragmáticos os movimentos sociais e toda a sociedade devem pressionar cada vez mais para que tenhamos espaços democráticos, de participação efetiva das pessoas nos rumos da cidade. Isso pressupõe democratização dos meios de comunicação para que outras vozes tenham eco (enquanto isso o uso das redes) e, a democratização efetiva do planejamento urbano. Não podemos nos esquecer de que o movimento sem teto, o movimento sem terra, o movimento negro, os povos indígenas, dentre outros, já construíram uma importante história de luta e resistência que apontam para mudanças importantes tanto nas condições materiais de existência, quanto na epistemologia de leitura de mundo, alguns desses mostram que não são e, não querem ser objetos de estudo, mas sujeitos de novas formas de ler e viver. O camponês que luta contra monocultura, luta também por uma ecologia de saberes, estes camponeses que resgatam sementes crioulas, resgatam culturas. Não sei, assim como disse Boaventura Sousa Santos, se dentro do capitalismo podemos ter algo progressislógica. Como são pensados os lotea- ta, em amplo sentido. Mas rupturas mentos populares, sejam de progra- estão sendo construídas. mas oficiais de habitação, sejam de empresas privadas? Os pobres são Foto: Fábio Moreira de Araújo colocados o mais distante possível. Com o pretexto de valores acessí- Imagem: veis fomenta-se a especulação imobiliária, a cidade cresce por saltação <gempo.com.br/portal/> – loteamentos ficam para trás a es- Acessado em 04 de julho de 2013 às 18:45h. pera de valorização com os serviços públicos que atenderão aos morado-


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Uma cidade de contrastes. Sobre educação e paixão! Fábio Moreira de Araújo Goiânia, a cidade eleita como uma das melhores capitais para se viver, reconhecida por suas belezas e paisagismo, é apontada como a capital que possui um dos melhores índices de qualidade de vida, segundo pesquisa do IBGE (2012). Carrega, no entanto, sob a sombra oculta do bandeirante seus contrastes. Esta é apontada, segundo o levantamento da ONU, como a 10ª capital do mundo e a 1ª a nível nacional com maiores índices de desigualdade. Dentre os principais aspectos que corroboram para a inserção da capital goiana nesse ranking estão às insatisfações com a saúde, o transporte e o crescente aumento da violência. E mais, uma cultura de classe média que visa o esbanjar ao priorizar o privado com olhar discriminatório ao público, como reflete o Prof. Aristides Moyses, PUC-Goiás (entrevista cedida à Assessoria de Comunicação (ASCOM) da UFG). Portanto, para modificar tais discrepâncias Paulo Freire (2010) reflete que educação é um ato político e esta pode ser a chave para as transformações sociais que propicia renovar a sociedade diante dos inúmeros contrastes. Nesta perspectiva, promovem-se reflexões a luz da música “Eu caçador de mim”, de Milton Nascimento. A análise desta música, em especial, relaciona-se com a intensa busca pela compreensão de algumas angustias

do ser educador no processo de luta contra as desigualdades: “Por tanto amor/Por tanta emoção/ A vida me fez assim/Doce ou atroz/ Manso ou feroz/Eu caçador de mim” Situados neste tempo-espaço buscamos em nossas raízes, raiz esta com passado brasileiro/goiano de grandes absurdos, mas gloriosos, à sombra de um bandeirante, símbolo de progresso e atrocidades humanas veladas, buscando em nosso “blefe cotidiano”,

entre pedacinhos, afirmar-se enquanto pessoa na vastidão da (in) consciência para formar e ser formado. “Preso a canções/Entregue a paixões/Que nunca tiveram fim/Vou me encontrar/Longe do meu lugar/Eu, caçador de mim”. É se entregando a paixões pelo o ato de educar que ensino o educando simples, humilde, triste, alegre, indagador, omisso, quieto, crítico ou distante, mas carregado de uma história que vai além de meus limites. Nesse processo denso e tenso encontro minha posição social para lutar por aqueles que são carentes, oprimidos e esfarrapados do mundo. Buscar pela força do diálogo a paz ao construir uma sociedade que busque refletir sobre suas falas e ações.

Para descontrair...

...e refletir

Em relação ao nosso folclore, de que forma as nossas crianças estão se apropriando destas lendas e mitos? E até onde o folclore internacional nos influencia?

“Nada a temer senão o correr da luta/Nada a fazer senão esquecer o medo/Abrir o peito a força, numa procura/Fugir às armadilhas da mata escura” A cada dia em sala de aula entregue à difícil, mas honrosa tarefa de educar gente e não “bichos” é que busca-se esperança em meio a indústria do medo instaurada nesta sociedade, cujo intuito é gerar lucratividade com o discurso de proteção. Como educador estarei em uma incessante procura justificada pelo nosso imenso vazio que resta ao peito e que buscamos preencher, mas que de modo algum será totalmente preenchido. E por não entendermos o outro o culpamos por não conseguir aprender, só que esquecemos que o outro também precisa ser preenchido, o que gera dor e revolta e recai em fuga a esta realidade. Aí residem as armadilhas do ato de educar. “Longe se vai/ Sonhando demais/Mas onde se chega assim/Vou descobrir/O que me faz sentir/Eu, caçador de mim” E por ser humano 'humanizado' é que tenho esperança em ver um mundo mais justo que amenize ou desfaleça a desigualdades sociais. Para tanto, busco, opto, insiro-me, rompo, reflito e transformo a realidade, buscando vencer o opressor que está em mim. E se não conseguir em vida, que esse seja vencido e superado pelas ideias e reflexões críticas que construí, mesmo que esteja em meu profundo silêncio, calmo, tranquilo e eterno. Referências Consultadas <http://www.ascom.ufg.br/pages/35495> aos 29 dias do mês de 2013, as 05h33min. Imagem: Google


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Etnomatemática: um programa para além do visível e invisível! Fábio Moreira de Araújo Existem barreiras invisíveis que impossibilitam enxergar o outro/outrem em meio à sua formação cultural. Tal fato é fortalecido pela sociedade ao utilizar o método disciplinar para formar o indivíduo, o que impossibilita enxergar para além do direcionamento do professor, gerando em falso juízo de valores. Estes indivíduos não podem ver, sentir e saber “de que cor a gaiola é pintada por fora”, diz D'Ambrosio refletindo metaforicamente sobre as gaiolas epistemológicas.

complexo jogo da vida, que é transdisciplinar, resta assim às disciplinas afirmar-se sobre as outras, o que não promove inter-relações e diálogo.

Disciplinar possibilita que o indivíduo limite sua forma de atuar na sociedade ao observar apenas um lado da verdade sob seus aspectos que é representativo sob a visão de um corpo Segundo D'Ambrosio(2013) “A transdisciplinaridade procura ententeórico de conhecimento. der o homem como uma realidade Esta visão tem sido passada ao lon- individual, social e cultural, inserido go do tempo pelos dominadores para na natureza, em busca permanente de que conhecimento ou verdade seja sobrevivência e de transcendência”. transferida de maneira acrítica e ahis- Portanto, para ir além das gaiolas tórica, não acessível aos não inicia- epistemológicas, do visível ao invisdos, por meio de seus códigos lin- ível, está o programa Etnomatemática como pensamento transdiciplinar. guísticos próprios (D'AMBROSIO, Sua raiz etimológica nos apresenta 2013). “modos, estilos, maneiras, artes ou O modo disciplinar possibilita forta- técnicas (TECNE = TICA) de explilecer o ódio entre as pessoas, pois car, entender , conhecer, aprender, busca enfatizar a verdade separada do lidar (MATEMA) com o meio e o ambiente natural, social, político, cultu-

Para observar...

...e refletir

ral (ETNO), incorporados nas tradições de um povo” diz D'Ambrosio (2013). Construir saberes e fazeres respeitando o outro, não sobrepondo-o; principalmente nos dias atuais em que o mundo está ameaçado por violência, fanatismo e uma economia ultrajante, é uma das vertentes do programa etnomatemática. Segundo Gromov (2010, apud, D'AMBROSIO, 2013) “A terra vai ficar sem os recursos básicos, e não podemos prever o que vai acontecer depois disso. Vamos ficar sem água, ar, solo, metais raros, para não falar do petróleo. Tudo vai, essencialmente, chegar ao fim dentro de cinquenta anos. O que vai acontecer depois disso? Estou com medo. Tudo pode ir bem se encontrarmos soluções mas se não, então tudo pode chegar muito rapidamente ao fim”. Portanto, este programa pode ser uma solução, pois “a etnomatemática obviamente transcende as linhas abissais. Na minha linguagem, a Etnomatemática está fora da gaiola”, reflete D'Ambrosio gentilmente em um email. Neste contexto, deixo um convite aos leitores acadêmicos e, especialmente, aos educadores goianos a compreender melhor este programa, pois, “Etnomatemática pode apresentar uma alternativa para a sobrevivência da população” (Carta de D'Ambrosio, 2012, ao 4º Congresso Brasileiro de Etnomatemática, CBEm4). Referências Consultadas Interview of Mikhail Gromov given to M. Raussen and C. Skau. Notices of the MAS, v.57, nº 3, March 2010, pp.391-409. Imagens: Google imagens


As linhas abissais no telão:

Django Livre

Quem quer ser milionário?

Invictus

V de Vingança

Homenageados da edição:

Nelson Mandela Boaventura de Sousa Santos

Paulo Freire

Ubiratan D’Ambrosio

José Pedro Machado e Rogério Ferreira *

Charges do abismo

Imagens: Google imagens * Foto: Fábio Moreira de Araújo

Agradecimentos Pró - Reitoria de Graduação (PROGRAD), Instituto de Matemática e Estatística (IME), Mestrado em Educação em Ciências e Matemática, Aos colaboradores José Marcondes Alves de Oliveira e Luiz Fernando Ferreira Machado.

Expediente Editores gerais, chefe e revisão: Celso Pinto Soares Júnior, Fábio Moreira d Araújo e Suellen de Kássia Lemos dos Reis. Criação e diagramação: Celso Pinto Soares Júnior, Fábio Moreira de Araújo e Suellen de Kássia Lemos dos Reis. Tiragem: 150 exemplares Contato: (62) 81947724/ (62) 85284224/ (62) 85458945.


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