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A saga da arte de Victor Brecheret: novas perspectivas da origem do modernismo à modernidade nos cenários de São Paulo e da Escola de Paris.

Consegue tirar dela toda a boniteza emotiva, toda a vida interior que ela possui. Ando entusiasmado. Palavra. (ANDRADE, 1926b)

De forma coerente, Mario finaliza esse importante texto pontuando o caráter pouco teórico da escultura de Brecheret. Não se fundamentando nos conceitos da crítica, mas no “caminho da humildade”, a sua arte se expressa mediante suas próprias obras: A escultura de V. Brecheret é aprofundadamente desinteligente. Não consigo descobrir nele esse “esprit de recherche” cheio de intençõesinhas esteticas que os criticos franceses - et pour cause! - julgaram descobrir na Dansarina, no Sepultamento e na Carregadora de Perfumes. V. Brecheret é compreensivel que nem água. Não carece de explicações porquê não procura nada. Porém descobre porque obedece. Obedece desinteligentemente, por paixão. Por isso que atinge os deslumbramentos duma intuição da pedra. (ANDRADE, 1926b) Finalmente, de forma bastante poética, ele enfatiza a intuição da pedra, da luz e da arquitetura nas obras de Brecheret, e com acerto cita Baudelaire no seu conceito da arte na modernidade, de que a Escola de Paris e, portanto, a arte de Brecheret é exemplar, isto é, a difícil união entre os elementos eternos e a mobilidade e variabilidade do instante da vida moderna. Em sua frase final, cita o nome de um quadro de Matisse, que é Luxe, calme et volupté, onde as qualidades dos grandes e refinados nus de Brecheret entram em sinergia com essa pintura: Intuição da luz. Intuição do profundo, do comovente, das realidades superiores. E ainda intuição da arquitetura. [...] Pingando no solo a estalactite da Dansarina, somando a estalagmite da Ascenção, continuando a rocha na Banhista de pedra-de-França e na Fauneza Adormecida, erguendo o menhir da Piedade de granito belga, arredondando o seixo fluvial da Cabeça de Virgem, arremessando com a funda o Pássaro corta-vento, elevando a coluna da Carregadora de Perfumes e a colunada das chorosas no Sepultamento, jamais V. Brecheret não destroi nem fragiliza ambientes. Os acalma e solidifica. E os embeleza e ordena. Victor Brecheret realiza um mundo que Baudelaire apenas sonhou. Nas criações atuais do escultor brasileiro tout n’est qu’ordre et bea[u]té Luxe, calme [et] evolupt[é].(ANDRADE, 1926b)

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Revista Postais 04 - 2015  

Revista Postal N. 4 - 2015 Dossiê Cartas e Correios no Antigo Regime Artigos de Bernardo Arribada, Caroline Garcia Mendes, Daisy Peccinini,...

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