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O governador geral e o secretário: Francisco Barreto, Bernardo Ravasco e a correspondência oficial

apenas em 1647 (no mês seguinte de sua nomeação como mestre de campo geral do Estado do Brasil) que encontramos pela primeira vez Francisco Barreto ser chamado de “fidalgo”. Nessa carta é possível perceber ainda como a descrição dos serviços e a demonstração de sacrifícios em nome da Coroa se faziam importantes para que as mercês fossem distribuídas: [...] depois de vir perseverar nas guerras presentes desde agosto de 643 a esta parte em Praça de Capitão de Infantaria, de Capitão de Cavalos e ultimamente Mestre de Campo de um terço nas fronteiras de Alentejo e Beira, acompanhando o Exercito as vezes que entrou por Castela em cujas Praças se assinalou por vezes matando e ferindo por suas mãos alguma gente do inimigo em que entraram pessoas de Conta na Embestiada (sic) de Valença de Alcântara receber em si duas balas e uma no cavalo [...]7.

Descrições como essa, exaltando os feitos ou origens dos nobres portugueses eram bastante comuns. Como escreveu Mafalda Soares da Cunha, “[...] o passado identificado, reconstruído e tantas vezes recriado, constituía lustro e honra fundamental à afirmação no presente [...]” (CUNHA, 2000, p. 59). Os serviços prestados e honras conseguidas são sempre lembrados e reforçados, para demonstrar a importância daquele vassalo enviado para determinado ofício. A expulsão dos holandeses, pela qual Francisco Barreto sempre foi lembrado não só por historiadores em diferentes períodos como também pelo próprio rei, ocorreu em definitivo no ano de 1654, tendo Barreto ficado responsável por reorganizar a capitania de Pernambuco como seu governador. Logo após, por carta do ano de 1656, foi agraciado com o ofício de maior prestígio do Estado do Brasil, o de governador geral. Além disso, também se tornou nesse ano membro do Conselho de Guerra 8 e recebeu autorização para fundar uma vila no Brasil “[...] onde lhe parecer mais conveniente naquelas capitanias para que ficará de juro e herdade na forma da lei mental [...]” 9. Podemos pensar que todas essas mercês foram uma tentativa de agraciar um vassalo que desejava voltar para Portugal, e

6. Idem a nota anterrior. 7. ANTT, Chancelaria de D. João IV, livro 17, fl. 347. 8. O Conselho de Guerra era parte dos órgãos que auxiliavam o rei na tomada de decisões, sendo este obviamente responsável pelas questões bélicas. Segundo Pedro Cardim “[...] o recrutamento [para estes Conselhos] fazia-se, fundamentalmente, com base na antiguidade e na nobreza da família de onde provinham os que deviam servir ao rei [...]” (CARDIM, 2002, p. 30). De acordo com António Manuel Hespanha, esse órgão era responsável do “[...] despacho das consultas dirigidas ao rei, nas respostas às cartas dos generais, na nomeação dos oficiais e ministros militares e na apreciação das petições particulares [...]”. Podemos pensar, porém que, devido à distância de Barreto do reino, sua nomeação teve um caráter simbólico, já que só pode assumir de fato sua função de conselheiro quando retornou a Lisboa (HESPANHA, 2004, p. 181). 9. ANTT, Portarias do Reino, livro 3, fl. 249. Barreto, apesar da mercê, não chega a fundar essa vila.

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Revista Postais 04 - 2015  

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