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Nações de Papel: os selos postais e as imagens fundacionais na América do Sul

essa temática já tenha sido alvo de inúmeros trabalhos, inclusive de historiadores filiados às gerações mais recentes da História política1, o limitado uso de tais fontes possibilita a percepção de nuances não vislumbradas ou pouco exploradas desse processo. A utilização dos selos postais como fontes para o estudo da construção dos Estados Nacionais Americanos, no século XIX, oferece novas e promissoras possibilidades ao historiador que pretenda se dedicar a essa análise. Uma primeira questão que destacamos, prende-se ao fato de os selos poderem ser encarados, simultaneamente como fontes históricas e como objetos de estudo.

1. Nesse sentido destacamos os trabalhos de Lucia Bastos Pereira das Neves, Jurandir Malerba, Sandra Jatahy Pesavento, José E. Burucua, Fabián A. Compagne e Mônica Quijada.

Enquanto fontes funcionam como veículos de imagens oficiais do Estado que, como tais, possuem a conotação de documentos e monumentos. Consideramos essas imagens como imagens oficiais, pelo fato de serem produtos deliberados do Estado, desenvolvidos a partir de discursos ideológicos comprometidos com projetos legitimadores do poder e da autoridade do mesmo. Enquanto objeto os selos podem ser entendidos como elementos inseridos em um conjunto de medidas de ordem administrativa, empenhadas na construção e legitimação de um determinado modelo de Estado - o Estado-Nação. Tais práticas legitimadoras envolviam a invenção de tradições, no sentido dado por Eric Hobsbawm ao processo (1997, p.9-23), o desenvolvimento de práticas e medidas administrativas e a produção de símbolos. Consideramos que a produção e utilização de selos postais, estaria intrinsecamente ligada a essas duas últimas questões. Se por um lado as reformas empreendidas nos serviços postais, a partir dos anos 40 do século XIX, evidenciavam uma tentativa de ampliar a presença e a autoridade do Estado, por outro o poder simbólico existente nos selos teriam o efeito de consolidar as novas relações de poder inerentes a esse processo. Nesse sentido vale destacar que a associação de imagens a um suporte como o selo, resulta em uma potencialização do capital simbólico do conjunto. Isso, pois além do capital inerente à imagem em si, ainda teríamos aquele pertinente ao próprio selo. 49

Revista Postais 02 - 2014  

A Revista do Museu Correios Dossiê - Arte Postal Artigos de Adriana Santana, Almerinda da Silva Lopes, Altemar Henrique de Oliveira, Antonio...

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