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Romulo Valle Salvino

territorialidade, territorialização, cartografia, entre outros, a maior parte deles carregados de construções imaginárias e sociais de intenso conteúdo antropológico. Em um momento que se fala de “poéticas do território” (BULHÕES, 2011), ações de Arte Correio podem ser conjugadas com outras que têm na web o seu espaço, utilizando, por exemplo, tecnologias de georreferenciamento. Buscando dar conta de um complexo de sensações que ficam entre a materialidade do que se toca e um conjunto de estados psicológicos, Letícia Pianowski assim se expressa: Além disso, o fato de receber um pacote, de tocar o papel, de sentir as texturas e odores, a duração da espera da resposta, adiciona mistério na correspondência postal. Cada troca é como abrir uma caixa de surpresa, que nos traz a inocência e a magia infantil. É brincar para tornar a vida menos monótona. Este é o grande mérito da Arte Postal, ter conseguido algo que foi sempre perseguido pelas vanguardas: unir arte e vida. (Pianowski, s.d.)

No trecho, emerge um outro aspecto do ambiente postal que se contrapõe àquele da internet: a existência do tempo, que apesar de marcado pelo sentido de urgência, não é mascarado pela ilusão do instantâneo e sim permeado pela expectativa, pela espera. No mundo dos correios, ter pressa e esperar são duas faces de uma mesma moeda, num construto em que a instanteidade pode ser apenas instrumento e não objetivo principal. Vilém Flusser alerta para o fato de que o correio baseia-se no princípio da esperança: Eu desconheço se já se desenvolveu alguma filosofia por meio da troca de cartas. Ela deveria partir de uma análise do esperar. Cartas são coisas por que se esperam – ou que chegam inesperadamente. Naturalmente, esperar é uma categoria religiosa: significa ter esperança. O correio fundamenta-se no Princípio Esperança. Os carteiros, esses gentis funcionários medievais, são anjos (de “angeloi” = mensageiros), e o que eles carregam são evangelhos (mensagens felizes amparada pelo correio) (FLUSSER, 2010, p. 116)

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As mensagens transmitidas pela internet não são, necessariamente, síncronas. Emails, postagens em blogs ou no Facebook não precisam ser lidas no mesmo momento em

Revista Postais 02 - 2014  

A Revista do Museu Correios Dossiê - Arte Postal Artigos de Adriana Santana, Almerinda da Silva Lopes, Altemar Henrique de Oliveira, Antonio...

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