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Arte Correio hoje? Notas para uma possível estética da comunicação postal

pela rede. Lembre-se, nesse aspecto, que o olfato é um sentido importante para muitos dos trabalhos de um artista como Guy Bleus e que obras de Arte Correio como as caixas de SEDEX (figura 4), de Gilbertto Prado, ainda não podem ser teletransportadas ou exibidas em todos os seus elementos materiais, mesmo nos mais sofisticados equipamentos. No mundo da internet, o fim da “aura” do objeto único, conforme preconizado por Benjamin (1987, p.165-196; 2012, p. 9-40), atingiu, talvez, a sua máxima expressão, com a possibilidade de milhões de acessos on line a um mesmo arquivo (uma “obra”) guardado remotamente em um lugar, na verdade, inacessível e desconhecido. Ainda que se possa argumentar que cada reprodução local, no caso, é uma nova produção, mediada por diferentes dispositivos e usos, não há há muitas dúvidas de que se chegou a um ponto alto da reprodutibilidade técnica. Mas uma “mensagem” de Arte Correio pode escolher mais livremente se quer ser única, ainda que inserida em um circuito em que passe por muitas mãos e leituras (que podem ou não interferir nela, numa forma de interatividade direta), ou se desdobrar em reproduções, “correntes”, em que cada exemplar traz inscrita indelevelmente a ambiguidade entre matriz e cópia. Nesse sentido, pode-se prestar a uma crítica dos limites da “desmaterialização”, apontar o fetichismo que se enovela em determinadas apreciações críticas daquilo que se faz na internet. É discurso corrente que o teatro permite uma interação mais próxima com a ação encenada, uma apropriação mais direta do que há de físico na atuação, um encontro com o momento único que se constroi em cada encenação e que não poderá nunca ser reeditado, ainda que uma mesma peça se encene mil vez com a mesma companhia. A Arte Correio pode estar, desse modo, em muitos sentidos, para as demais formas de art communication, assim como o teatro está para o cinema e a TV. Outro aspecto ligado à materialidade das atividades do correio que não pode ser esquecido é a proximidade com a geografia, que pode ser expressa em termos como

Gilberto Prado, caixa de SEDEX, sem título, s.d.

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Revista Postais 02 - 2014  

A Revista do Museu Correios Dossiê - Arte Postal Artigos de Adriana Santana, Almerinda da Silva Lopes, Altemar Henrique de Oliveira, Antonio...