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Arte Correio hoje? Notas para uma possível estética da comunicação postal

e possibilidades variadas para a expressão artística, mas cada uma dentro e por causa de determinadas limitações. Um artista precisa sempre mover-se entre muitos “nãos”, fazendo deles matéria para as realidades que cria. A falta de limites nos suportes impediria qualquer arte, assim como é impossível jogar xadrez fora de um tabuleiro (ainda que imaginário) e de um conjunto de regras. Mas um suporte tem de ser aproveitado e questionado ao mesmo tempo. A graça está justamente em mover-se dentro dos limites por ele impostos e fazer a diferença dentro deles, bem como, de vez em quando, quebrá-los. A diferença entre um e outro procedimentos é aquela entre o que Flusser (2011, p. 117) chama de artistas “clássicos” e “artistas românticos” (a que poderíamos chamar também “experimentais”). O artigo Arte Correio: uma nova forma de expressão, de Horácio Zabala e Edgardo Antonio Vigo, traz uma passagem bastante elucidativa nesse sentido: Quando se envia uma escultura pelo correio, o criador limita-se a utilizar um meio de transporte determinado para transladar uma obra já elaborada. Ao contrário, na nova linguagem artística que estamos analisando, o fato de que a obra deve percorrer determinada distância faz parte de sua estrutura, é a própria obra. A obra foi criada para ser enviada pelo correio, e esse fato condiciona a sua criação (dimensões, franquias, peso, natureza da mensagem, etc.).

Essa obra feita para o correio tem de ser consciente dos limites e potencialidades próprios dessa tecnologia, o que envolve também uma determinada relação com a materalidade do objeto a ser enviado e com as dimensões do espaço e do tempo. É diferente fazer uma obra para a internet, para ser fruída e propiciar uma interação em tempo real, e outra para ser enviada por um serviço que, a depender da modalidade do envio e do local de destino, pode variar de algumas horas a meses. Esse fato pode ser transparente, não percebido pelo artista, mas estar consciente dele pode abrir novas possibilidades estéticas e conceituais. Nesse aspecto, é interessante lembrar o artigo “Cartas”, de Vilém Flusser. Nele, o pensador, ao mencionar os telégrafos e a telefonia, lembra que o aparecimento desses

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Revista Postais 02 - 2014  

A Revista do Museu Correios Dossiê - Arte Postal Artigos de Adriana Santana, Almerinda da Silva Lopes, Altemar Henrique de Oliveira, Antonio...

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