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Arte Correio hoje? Notas para uma possível estética da comunicação postal

a sua postagem e todas as etapas subsequentes de seu fluxo, fosse a simples entrega a um destinatário, a integração a uma mostra ou a sua repostagem, depois de sofrer interferências pelo destinatário e pelo serviço postal . Na abordagem de Aracy Amaral, todavia, desponta uma visão que se choca, por sua vez, com a própria proposta do circuito de Arte Postal, haja vista que, para muito de seus principais criadores, de acordo com uma visão democrática, libertária e utópica do que seria o circuito criativo, não fazia sentido a “seleção dos melhores exemplares”. Os limites dessa visão igualitária já eram apontados por Julio Plaza em seu texto para o catálogo de Arte Postal da XVI Bienal de São Paulo: [... ] engajar-se na Mail Art é tornar-se brother in mail pois a estrutura da Mail Art não é hierárquica e a idéia geral parece ser a aquisição constante e contínua de novos receptoresemissores para a inclusão na comunidade. A Mail Art democratiza a prática da arte, mas não consegue superar o impasse da dialética quantidade-qualidade. É que a arte (como já se viu em Marcel Duchamp) nada tem a ver com a democracia. (PLAZA, 1981, p. 10 –grife-se)

Todavia, é inegável a presença de vetores não só estéticos mas também políticos na configuração da Mail Art dos anos 1960-1980, vetores que não são marginais ou complementares ao processo, mas componentes essenciais dele. A visão democrática de que todos são iguais no circuito de produção/consumo (todos podem fazer Arte Postal), bem como a possibilidade de usar o correio (um serviço oficial) para veicular mensagens potencialmente subversivas eram bem atraentes, principalmente em regiões asfixiadas por didaturas mais ou menos fechadas, como eram os casos de grande parte dos países sul-americanos – inclusive o Brasil - naquele momento. Não esquecer isso é crucial para a compreensão histórica do fenômeno e para qualquer reflexão sobre os limites e potencialidades da prática desse tipo de arte nos dias de hoje6.

6. Falar sobre o potencial político e subversivo da Arte Correio não é afirmar que ela fosse sempre de esquerda, embora pudesse sê-lo majoritariamente. Para provar o contrário, Home (1999, p. 113-114) lembra o Fã-Clube de Adolph Hitler, de Pauline Smith.

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Revista Postais 02 - 2014  

A Revista do Museu Correios Dossiê - Arte Postal Artigos de Adriana Santana, Almerinda da Silva Lopes, Altemar Henrique de Oliveira, Antonio...

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