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Romulo Valle Salvino

É principalmente a partir da inclusão de um núcleo específico na XVI Bienal de São Paulo, em 1981, que a Arte Postal começou a frequentar mais amiúde os espaços institucionais no Brasil. Trazer os registros dessa arte para os museus, galerias e centros culturais não deixa, porém, de embutir uma certa ironia, quando se pensa que ela ganhou força entre os anos 1960 e 1970 justamente para questionar o sistema expositivo mainstream. No calor dos debates em torno da proposta daquela Bienal, a crítica Aracy A. Amaral já apontava essa contradição: Questionável é também a forma de apresentação da “Arte Postal” que, segundo o catálogo, “tem sido quase sempre rejeitada pelo sistema oficial das artes”. Pelo que Arte Postal significa, assim sempre deveria ser. Nesta Bienal, ao contrário, institucionaliza-se uma linguagem alternativa. Assim, uma atuação marginal mais ou menos criativa é desvirtuada, posto que seu canal de comunicação se processa em circuito paralelo ao do mercado ou das instituições oficiais. Arte Postal é a campainha tocar, um envelope ser entregue, sua abertura e leitura ocorrer na intimidade do receptor, assim como o preparo da resposta, ou a incorporação na mensagem recebida de dados fornecidos pelo mesmo receptor, que se torna também agente, com a devolução da mensagem pelo correio. (AMARAL, 2013, p. 430)

De acordo com Aracy Amaral, o “congelamento” de “obras” exibidas de forma ortodoxa seria inadequado: Agora, exibir o resultado dessa troca de maneira convencional é violentar esse circuito, neutralizá-lo [...] Interessante para a divulgação da Arte Postal seria exatamente não exibi-la como “desenhos”, mas registrar em publicação os diversos estágios dessa comunicação, talvez já em fase de saturação, mas própria de nossos dias, em seleção dos melhores exemplares, posto que somente interessam as peças que têm implícitas propostas incontestáveis. (idem, ibidem)

Ou seja, a exibição de “desenhos” não tinha como captar o movimento intrínseco ao fluxo criativo desse tipo de arte, aquele gesto-signo ou conjunto de gestos-signos que prenchia o espaço-tempo entre a concepção inicial de um objeto de Arte Correio, 254

Revista Postais 02 - 2014  

A Revista do Museu Correios Dossiê - Arte Postal Artigos de Adriana Santana, Almerinda da Silva Lopes, Altemar Henrique de Oliveira, Antonio...

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