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Arte Correio hoje? Notas para uma possível estética da comunicação postal

Nesse movimento, a própria ideia do que seria arte, que vinha sendo continuamente questionada desde as vanguardas históricas, é colocada novamente na berlinda, de outras formas. “A Arte Postal transfere o foco do que é tradicionalmente chamado de ‘arte’ para o conceito mais amplo de cultura” (Freire, 2006, p. 68). Ou se poderia dizer: para um tipo particular de contracultura. As concepções mais comuns de arte, inclusive algumas das próprias vanguardas, são desconstruídas em várias frentes, por diversos questionamentos: da figura do artista (já que todos podiam fazer Arte Correio); do conceito de autoria (com obras de natureza coletiva, entre outras propostas)4; de certa noção de incomunicabilidade (já que a proposta era de uma arte-comunicação); da visão de uma arte que se materializava em um objeto-signo, substituída pela de um gestosigno, de acordo, aliás, com várias correntes criativas daqueles anos5. Ao se propor antes como cultura do que como arte, o movimento apresenta-se, na prática, como uma anti-arte. A sua abordagem anti-seletiva e massiva contribui com isso:

4. No âmbito da Arte Correio, uma das propostas que mais questionaram o conceito tradicional de autoria, a partir de meados da década de 1970, foi a dos nomes múltiplos. Consiste na “[...] idéia de que um único nome poderia ser usado por um grupo de indivíduos, várias revistas ou grupos musicais [...]” (Home, 1999, p. 117). O conceito foi retomado do movimento Dadá, em que tivera um papel secundário. 5. A ideia de que a Arte Correio substituiu o objeto-signo pelo gestosigno aparece na apresentação de Walter Zanini ao volume II do catálogo da XVI Bienal de São Paulo (Zanini, 1981, p. 7).

De uma perspectiva materialista, a Mail Art não é arte, apesar da insistência de muitos de seus praticantes. A natureza democrática da rede de Mail Art claramente a situa em oposição ao elitismo da arte (se arte estiver definida como a cultura da classe dominante). O grande número de pessoas envolvidas com Mail Art impede que o movimento seja reconhecido “oficialmente” como uma manifestação de alta cultura, pelo menos enquanto a ser praticado numa escala tão ampla. A maior parte dos movimentos artísticos [...] parece ter um número de membros variando entre cinco e cinqüenta; a Mail Art, em oposição, tem milhares de membros, Se pelo menos um movimento artístico formal e organizado tivesse centenas de membros já seria uma ameaça ao status da elite: os críticos de arte resistiriam em elevar tal massa de indivíduos ao pantheon de gênios, simplesmente porque tal elevação colocaria em xeque a categoria de “gênios” em si. (HOME, 1999, p. 116)

Talvez por esses motivos, quando se procuram textos sobre a história da Arte Postal - salvo os casos de alguns nomes marcados por uma posição de notória liderança ou mais intenso ativismo e que, por isso, lograram obter uma identidade própria dentro do 249

Revista Postais 02 - 2014  

A Revista do Museu Correios Dossiê - Arte Postal Artigos de Adriana Santana, Almerinda da Silva Lopes, Altemar Henrique de Oliveira, Antonio...

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