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Almerinda da Silva Lopes

4. Alberto Harrigan, primogênito de família de hábitos burgueses de pequenos comerciantes estabelecidos em Vitória, por ser pardo (filho de pai de ascendência inglesa e de mãe de família baiana, de ascendência africana), por assumir a homossexualidade numa época em que isso constituía enorme tabu, e por optar em seguir a carreira artística, desobedecendo a vontade paterna, que o enviou na adolescência ao internato D. Pedro II, no Rio de Janeiro, para completar os estudos e cursar medicina, sofreu enorme preconceito, inclusive dos familiares. Para não afrontar ou frustrar inteiramente a determinação do pai, preferiu tolher a própria vocação e o desejo de cursar a Escola de Belas Artes, em favor da Biologia, embora nunca atuasse nesse campo.

Ao enviá-las a colegas e dirigentes de museus e outras instituições culturais, a maiorias das vezes em atendimento a convites para participar de mostras, Harrigan destacava nos trabalhos observações como: “interfira e envie a outro artista”, ou “favor não devolver”. Essa ideia de troca gerou a formação de arquivos de imagens, particulares e públicos, que permitem entender hoje a proposta desse e de outros artistas postais, tornando-se precursora de uma tendência que vem se afirmando na contemporaneidade: o conceito de arquivo como objeto de arte. Vale ressaltar, finalmente, que por diferentes razões, entre as quais a própria especificidade, precariedade e efemeridade desse gênero de objeto artístico, e pelo seu caráter subversivo - o que faz com que não se deixe aprisionar ou confinar nesta ou naquela tendência ou corrente artística de conceitos fechados ou estanques -, os trabalhos de Arte Postal do artista, enquanto desdobramentos ou derivações da arte conceitual até o momento permanecem praticamente sem ser estudados. E como observa Chateau (1998, p. 21), “ [...] o discurso sobre arte passa necessariamente por considerações sobre seu conteúdo ou papel sócio-histórico [...]”. Considerações Finais Analisando hoje a citada participação de Alberto Harrigan na XVI Bienal Internacional de São Paulo (1981), na sala especial dedicada pelo curador da edição do evento, Walter Zanini - seja através do catálogo institucional, seja através do conjunto de trabalhos ali expostos, doados pelo mesmo curador ao Centro Cultural São Paulo -, a presença do artista na mostra é significativa de diferentes maneiras, mas principalmente porque permite sintetizar as premissas pelas quais sempre lutaram os artistas postais. O capixaba enviou uma mesma imagem de sua autoria a vários destinatários, que consistiu na reprodução de uma fotografia do artista trabalhando em seu ateliê -, com a

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Revista Postais 02 - 2014  

A Revista do Museu Correios Dossiê - Arte Postal Artigos de Adriana Santana, Almerinda da Silva Lopes, Altemar Henrique de Oliveira, Antonio...