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Tida Carvalho

Não te admires de certo laconismo nas minhas cartas. As cartas são para as pessoas a quem não interessa mais falar: para esses escrevo de boa vontade. A minha mãe, por exemplo, nunca escrevi de boa vontade, exatamente porque gosto muito dela. (idem ibidem)

De qualquer forma, quando não se pode falar, deve-se escrever. Contrariando aqui Wittgenstein, o que não pode ser dito não deve ser calado, deve ser escrito. Cartas frustradas Emissário de um rei desconhecido, Eu cumpro informes instruções de além, E as bruscas frases que aos meus lábios vêm Soam-me a um outro e anômalo sentido... Inconscientemente me divido Entre mim e a missão que o meu ser tem, E a glória do meu Rei dá-me desdém Por este humano povo entre quem lido... Não sei se existe o Rei que me mandou. Minha missão será eu a esquecer, Meu orgulho o deserto em que em mim estou... Mas há ! Eu sinto-me altas tradições De antes de tempo e espaço e vida e ser... Já viram Deus as minhas sensações... (PESSOA, 2008, p. 128)

Retrato de Fernando Pessoa bebendo no Abel em 1929.

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Fernando Pessoa e Ofélia dão um intervalo de nove anos nas correspondências amorosas escritas, de acordo com Pessoa, por ordens recebidas de emissários conhecidos como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e até Alberto Caeiro, e outros tantos emissários desconhecidos. Ofélia sabia que ele a amava muito, também sabia que se tratava de um estranho namorado, mas estava profundamente enredada nesse destino: amar um poeta que, além de poeta, era uma constelação de gentes, pensares, cismares. Segundo ela,

Revista Postais 02 - 2014  

A Revista do Museu Correios Dossiê - Arte Postal Artigos de Adriana Santana, Almerinda da Silva Lopes, Altemar Henrique de Oliveira, Antonio...

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