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Ofélia Queiroz e Fernando Pessoa(s): cartas de amor correspondência não correspondida

O discurso amoroso, e sobretudo as cartas de amor, são um emblema da solidão, e no caso das correspondências entre Ofélia e Fernando Pessoa, temos um retrato estrutural de um discurso que, nas palavras de Roland Barthes (2003, p.13) sobre o “como é feito este livro” Fragmentos de um discurso amoroso, “[...] oferece como leitura um lugar de fala: o lugar de alguém que fala de si mesmo, apaixonadamente, diante do outro (o objeto amado) que não fala [...]”. Nos textos das cartas de amor, pode parecer que não há nada a dizer. Mas Roland Barthes nos alerta que esse ”nada” é dito para ”alguém” em especial. A carta de amor, portanto, mesmo sendo um nada, o é para alguém, e não para um mero qualquer um, dá forma ao discurso amoroso e vira recurso substancial dos enamorados. Fernando Pessoa reclama da falta de encontros ”reais”:

Selo emissão conjunta Brasil - Portugal, 2012. Acervo - Museu Nacional dos Correios

Não me conformo com a ideia de escrever; queria falar-te, ter-te sempre ao pé de mim, não ser necessário mandar-te cartas. As cartas são sinais de separação - sinais, pelo menos, pela necessidade de as escrevermos, de que estamos afastados (PESSOA; QUEIROZ, 2013, p. 63 - carta de 22/03/1920)

Esse movimento que leva um discurso sem importância a tomar a forma de uma linguagem capaz de emocionar faz com que a carta de amor, para Barthes, seja ao mesmo tempo “vazia”, por ser codificada, e expressiva, por estar “cheia de vontade de significar o desejo”. Nesta mesma carta, Fernando Pessoa justifica seu comportamento epistolar: 165

Revista Postais 02 - 2014  

A Revista do Museu Correios Dossiê - Arte Postal Artigos de Adriana Santana, Almerinda da Silva Lopes, Altemar Henrique de Oliveira, Antonio...

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