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Escrevo-te dolorosamente aflito: cartas de Cruz e Sousa aos amigos

entregues a Nestor Vítor, antes de partir para a cidadezinha de Sítio, no interior de Minas, em busca de repouso e recuperação. No entanto, seu caso era irremediável e de lá voltará morto, acompanhado pela esposa, Gavita, e mais uma vez será acolhido pelos amigos que estarão à espera de seu corpo na Estação da Central, no Rio, no dia seguinte a sua morte que se deu no dia 19 de março de 1898. Retomo o fragmento de “A morte do autor”, citado na abertura deste trabalho em que Barthes configura a escrita como um espaço neutro, compósito, oblíquo, onde a identidade se esfuma, desaparece, assim como o corpo que escreve, e destaco a limitação de abordagens da obra de Cruz e Sousa, cujo interesse focar-se exclusivamente no texto literário, sem considerar o corpo e “a cor da tempestade de dilacerações que [o] abala” no cruzamento da vida (bio) e da escrita (grafia), da história e da cultura. Dilacerações e angústias são expostas nas cartas de cujos destinatários busca aproximar-se para torná-los testemunhas de um tempo em que um inexcedível poeta tem de valer-se da proteção e da generosidade dos amigos para sobreviver. As cartas do poeta constituem os derradeiros gritos com que busca escapar da “flor perigosa”, da “perigosa flor do esquecimento” (CRUZ E SOUSA, 2000, p. 161) e as cartas dos amigos chegam como “um clarim de anjo trazendo [...] belas novas, animação e coragem.” (CRUZ E SOUSA, 2000, p. 838) -- na definição poética de Cruz ao referir-se à carta de Nestor Vítor, recebida a menos de dois meses de sua morte em Sítio - completando-se assim a trajetória circular da correspondência.

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Revista Postais 02 - 2014  

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