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Escrevo-te dolorosamente aflito: cartas de Cruz e Sousa aos amigos

que me serve é o de amanuense, que tem um vencimento maior do que o lugar que exerço atualmente. [...] O momento é de decisão e eficácia. Já longo e doloroso tempo tenho aguardado uma melhora na vida. (CRUZ E SOUSA, 2000, p. 829)

A melhora aguardada pelo poeta não chegará. A doença da mulher, a morte do filho, o aumento crescente do custo de vida e, finalmente, a sua própria doença tornam a vida cada vez mais dolorosa. As cartas tornam-se uma sucessão de pedidos de socorro material e moral aos amigos, como verificamos nesta carta a Alberto Costa de maio de 1896: Meu caro amigo. [...] Ouso insistir no pedido que lhe fiz por carta, pois acho-me na maior angústia e não tenho outro recurso senão importuná-lo mais uma vez. Peço-lhe encarecidamente que me sirva, se não em toda ao menos na metade da importância que eu lhe solicitei. As minhas contrariedades e aflições avolumam-se cada vez mais. / O amigo não pode calcular certamente nem a metade da situação por que estou passando.[...] (CRUZ E SOUSA, 2000, p. 831)

Os pedidos de Cruz e Sousa denunciam a exclusão vivida pelos negros que se viram despojados de qualquer benefício social depois da Abolição. Abandonados à própria sorte, desvalorizados como mão-de-obra e como cidadãos, os negros tornam-se, no entender das elites, perigosos ou inúteis, verdadeiros fardos sociais. Para Cruz e Sousa, cujo sofrimento se atualizava a cada dia diante de seus olhos, na miséria experimentada pela família e na humilhação a que se expunha para sobreviver também como artista, a doença, manifestada pela tuberculose, é o modo de seu corpo dizer que as forças estão se esgotando. Foucault lembra o ensinamento de Nietsche em A genealogia da moral: Pensamos [...] que o corpo tem apenas as leis de sua fisiologia, e que escapa à história... ele é formado por uma série de regimes que o constroem; ele é destroçado por ritmos de trabalho, repouso e festa; ele é intoxicado por venenos – alimentos ou valores, hábitos alimentares e leis morais simultaneamente; ele cria resistências. (FOUCAULT, 1984, p., 27)

Em suma, o corpo também é histórico, ele é a superfície de inscrição dos acontecimentos. 153

Revista Postais 02 - 2014  

A Revista do Museu Correios Dossiê - Arte Postal Artigos de Adriana Santana, Almerinda da Silva Lopes, Altemar Henrique de Oliveira, Antonio...

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