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Escrevo-te dolorosamente aflito: cartas de Cruz e Sousa aos amigos

Da perspectiva atual, vê-se como João da Cruz foi objeto de profunda incompreensão, parte da qual seguramente se deu por ser negro e pobre numa sociedade em pleno processo de transição de seu modelo econômico e político. O mesmo fato ajuda a explicar as reações adversas que suas atividades como escritor e intelectual geraram. Desde Desterro, Santa Catarina, onde nascera como escravo, provocava ou admiração entusiasta ou o escândalo de quem não admitia que um jovem negro se candidatasse a intelectual. Desde sua província natal, o talentoso Cruz e Sousa buscava formas de ultrapassar as barreiras sociais impostas ao negro brasileiro e legitimadas pelas supostas verdades científicas em voga. O mesmo momento histórico que constrangia a vida do jovem João da Cruz, negro liberto, também lhe acenava para a liberdade em terrenos menos acanhados do que aqueles a que estavam condenados seus pais quando alforriados. Sua inteligência lhe permitia sonhar com reconhecimento, fama e glória, uma vez que a partir da década de 1870 a vida cultural brasileira alargava as possibilidades para jovens talentos literários com a expansão do periodismo e o surgimento de instituições que se queriam modernas e permitiam, portanto, que a carreira intelectual deixasse de ser miragem ou privilégio de classe. É assim que em 1888, por insistência do amigo e conterrâneo Oscar Rosas, Cruz e Sousa parte para a Corte em busca de uma posição destacada. Conseguira os recursos necessários para a viagem graças à generosidade do comerciante Germano Wendhausen, que juntamente com seu irmão Guilherme se ligara com entusiasmo ao movimento abolicionista catarinense. Um mês depois de feita a abolição, estava Cruz e Sousa na Capital do Império, onde viveria algumas primeiras desilusões. A maior delas foi a completa indiferença com que se viu tratado pelo antigo Presidente de Santa Catarina, Alfredo Taunay, então prestes a receber o título de visconde. Taunay, dois dias antes, conquistara a cadeira vitalícia de senador por Santa Catarina, que já representava na Câmara dos Deputados. Tinha ligações políticas com a província sulina e Cruz e Sousa trouxera, para ele, recomendações em que depositava vivas esperanças. Entretanto, escreveria do Rio de Janeiro, no próprio mês de sua chegada: 147

Revista Postais 02 - 2014  

A Revista do Museu Correios Dossiê - Arte Postal Artigos de Adriana Santana, Almerinda da Silva Lopes, Altemar Henrique de Oliveira, Antonio...

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