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Fátima Maria de Oliveira

afastava-o da aventura de inventar para si um destino memorável num momento em que a recém-fundada República brasileira lutava para afirmar, segundo as configurações da elite, nossas especificidades e o direito à modernidade, ancorando-se em teorias deterministas e evolucionistas que nos condenavam a considerar atrasada e bárbara grande parte da população mestiça e negra. Some-se a isso o fato de que o mercado de empregos era escasso, em especial, para aqueles que se dedicavam a escrever nos jornais e/ou pretendiam ingressar no circuito de autores de literatura. O fato de ser filho de escravos negros, ele próprio nascido escravo, vivendo em um momento de ampla difusão de teorias raciais no Brasil, torna-o, como tantos outros negros, estigmatizado no meio social, e no caso particular de Cruz e Sousa, dotado de notáveis dons intelectuais e artísticos, a exclusão estendia-se ao plano da realização de sua obra de poeta simbolista. O Simbolismo brasileiro foi durante muito tempo considerado “[...]corpo estranho, excrecência exótica, no conjunto de nossas letras[...]” (MURICY, 1987, p. 20). A estranheza amplia-se quando encontramos como principal representante dessa manifestação estética, entre nós, um negro, filho de escravos, vindo de uma província do sul. Como exemplo de incompreensão para com o desenvolvimento de uma nova linguagem poética, pode citar-se a demolidora apreciação do crítico José Veríssimo sobre Missal, o primeiro livro publicado por Cruz e Sousa, quando de seu lançamento em 1893: “É um amontoado de palavras, que dir-se-iam tiradas ao acaso, como papelinhos de sortes, e colocadas umas após outras na ordem em que vão saindo, um raro desdém da língua, da gramática e superabundante uso das maiúsculas” (VERÍSSIMO apud GUIMARÃES, 1997, p. XXII).

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Para o respeitado crítico, soavam estranhos aqueles versos em que nada havia do sentimento lírico parnasiano dominante e, principalmente, em que se esgarçavam as significações reconhecíveis, tanto mais que vinham de um poeta negro em luta contra o que se considerava inferioridade, herdada da raça.

Revista Postais 02 - 2014  

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