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Fátima Maria de Oliveira

Não tenho jeito pra memórias. Mas as cartas são sempre uma espécie de memória desque tenham alguma coisa mais nuclear e objetiva que arroubos sentimentais sobre o espírito do tempo. E as memórias em carta têm um valor de veracidade maior que o das memórias guardadas em segredo pra revelação secular futura. É que o amigo que recebe a carta pode controlar os casos e as almas contadas. Mario de Andrade

O crítico e escritor francês Roland Barthes (1915-1980) traz em suas reflexões, no campo da literatura, a ideia do autor como sujeito social e historicamente constituído, produto do ato de escrever. Para o autor de O rumor da língua é o ato de escrever que faz o autor e não o contrário. Nas palavras dele, logo no primeiro parágrafo de “A morte do autor”, trabalho publicado em 1968: “A escrita é esse neutro, esse compósito, esse oblíquo para onde foge o nosso sujeito, o preto-e-branco aonde vem perder-se toda a identidade, a começar precisamente pela do corpo que escreve” (BARTHES, 2004, p. 57). Nesse mesmo artigo, no entanto, Barthes faz a ressalva de que, em matéria de literatura, o positivismo, herdeiro da ideologia capitalista, ancorada no individualismo, outorgou a maior importância à “pessoa” do autor e, sendo assim, o autor ainda é soberano nos [...] manuais de história literária, nas biografias de escritores, nas entrevistas nos periódicos e na própria consciência dos literatos, ciosos por juntar, graças ao seu diário íntimo, a pessoa e a obra; a imagem da literatura que se pode encontrar na cultura corrente está tiranicamente centralizada no autor , sua pessoa, sua historia, seus gostos, suas paixões [...] (BARTHES, 2004, p. 58). 140

Revista Postais 02 - 2014  

A Revista do Museu Correios Dossiê - Arte Postal Artigos de Adriana Santana, Almerinda da Silva Lopes, Altemar Henrique de Oliveira, Antonio...

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