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Manoel de Oliveira e as cartas: uma história antiga

de Camilo trocadas com o pai. Num momento de modernidade sem par, Oliveira nos dá a ouvir o texto dessas missivas num plano longo, desprovido de presença humana e figurando apenas a roda da carruagem que leva Camilo. Oliveira dizia que, pela força do texto que as cartas traziam, um acerto de contas e reconciliação entre pai e filha, nada poderia atrapalhar a audição dessas palavras. Nada na imagem, portanto, compete com a leitura e escuta do texto, que, de maneira quase misteriosa, toma corpo na imagem através da literalidade e da maneira pausada como que a leitura é feita. Aqui, o texto postal toma uma supremacia ainda maior do que em A carta, pois o ser humano está excluído da imagem. No entanto, o texto ainda não é feito objeto, como é o caso em Amor de Perdição. A postura de filmar “o texto como coisa” é identificada com a tendência do cinema moderno. Ela foi reivindicada por diretores como Marguerite Duras, Jean-Marie Straub, Agnès Varda, Antonio Reis e Margarida Cordeiro, Robert Bresson e, de maneira mais explicita, por Eric Rohmer: [...] o texto do comentário dito em off e o texto dos diálogos não são os meus filmes, eles são coisas que filmo, do mesmo jeito que filmo paisagens, rostos, posturas e gestos. (ROHMER, 2004, p. 126)

Amor de Perdição é baseado num romance de Camilo em que dois jovens apaixonados, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, são impedidos de concretizarem o amor por causa da rivalidade das famílias. Por não poderem se encontrar, eles comunicam-se a maior parte do tempo por bilhetes e cartas. Os personagens do romance são, na verdade, personagens reais – Simão era um tio distante de Camilo. A ideia do livro surgiu quando Camilo encontrou na casa de um velha tia as cartas trocadas por ele com sua amada Teresa. Simão é preso por ter assassinado por ciúmes o primo dela; Teresa é enclausurada num convento pelo pai. Os dois não tinham outra alternativa a não ser a troca de correspondências. O filme segue escrupulosamente a estrutura narrativa e formal do

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Revista Postais 01 - 2013  

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