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Cartas da FEB: entre a saudade e a guerra

Era preciso que a gente aí do Brasil assistisse a uma distribuição de correspondência aqui para ver o quanto vale uma carta. ‘Chegou correio’ é uma frase que mobiliza mais gente que qualquer ordem de general aliado ou inimigo. A cara do sujeito que não recebe carta nesse dia é uma cara de náufrago. O sujeito se sente abandonado numa ilha deserta – e nunca faltam outros sujeitos que, sem ligar para a sua amargura, ainda vêm lhe mostrar fotografias que receberam ou ler trechos de cartas que acham muito engraçadas ou comoventes – e que não comovem nem fazem rir de modo nenhum o pobre esquecido. (BRAGA, 1964, p.55)

Foram inúmeras as situações vivenciadas e os locais percorridos que só foram relatados pelos expedicionários posteriormente, pois situações do cotidiano não podiam ser descritas nas cartas por motivo de segurança. A censura foi necessária para garantir que não fossem citados conteúdos que pudessem comprometer as operações militares. Trechos como “tropas do país e de outras nações aliadas; navios e informações sobre navegação; operações militares; aeronáutica; fortificações e defesa da costa; condições meteorológicas” eram sumariamente suprimidos pela censura (ZARY, 2016, p. 203). Há cartas que denotam o medo do desconhecido. Muitas delas favorecendo a idéia de deserção a alguns soldados, mas que no desabafo escrito, testemunham os ensinamentos recebidos, o apoio dos oficiais e da tropa em um avante de coragem para que com determinação e fé prosseguissem na nobre missão recebida. Em outras cartas ficou clara a preocupação dos soldados com a tristeza de seus pais diante do contexto e do limiar entre a vida e a morte em que se encontravam. Para além da tristeza muitos caminhos também foram traçados pela distância. Casais enamorados aguardavam ansiosamente correspondências que poderiam conter juras de amor traduzidas na esperança do retorno ou em ciúmes inspirados pela ausência.

3. Trecho de carta enviada por Abgail Baptista de Souza ao soldado Aydo Martins de Souza em 23/05/1945. Acervo Particular Ernesto Adolfo Elias Paiva.

Com o coração transbordando de saudades escrevo-te mais estas linhas, para vêr se consigo suavisar a minha grande dôr. Como tens sido mau, procurando maguar - me com teus ciumes imperdoaveis. Não vês que é a ti que dedico toda a minha vida?3 41

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