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A FEB pelos seus objetos: para uma leitura da cultura material

diferentes, marcadas pela guerra, exóticas no meio da população brasileira que ao mesmo tempo reverenciava-os e apartava-os do convívio social. Muitas memórias eram inenarráveis e ficaram ocultas no silêncio dos pracinhas (como ficaram conhecidos os brasileiros que participaram da Segunda Guerra Mundial) e na presença de objetos incompreensíveis, trazidos nos bolsos e bagagens. Com o tempo, os objetos trazidos pelos pracinhas foram encontrando caminhos diferentes: uns foram guardados com respeito para serem deixados à futuras gerações (que nem sempre se interessaram tanto por estes); outros se misturaram com os objetos do cotidiano se transformando em artigos de decorações ou brinquedos de criança (que menino na década de 1950 não gostaria de brincar com o capacete de verdade do pai?); há ainda os objetos que precisaram ser vendidos num mercado de colecionadores para que o pracinha e sua família não morressem de fome, ou ainda os que os descendentes, sem saber o que fazer com aquele monte de coisas velhas deixadas como herança, venderam ou doaram para desconhecidos; parte destes objetos chegou aos museus, disputou espaços de memórias e uns foram preservados, abandonados ou roubados dependendo da sorte de cada um. Independente do percurso de cada objeto, não podemos negar a carga informacional que cada um guarda em segredo. Uma das indagações que nos levou à esta pesquisa, foi entender o que motivou cada pracinha a guardar consigo em condições tão difíceis de sobrevivência, certos objetos, muitas vezes grandes, pesados e incômodos em longas caminhadas, colocando em risco sua própria vida, apenas para tê-los como lembrança daquela guerra. Que memórias tão importantes foram guardadas por aqueles objetos? Chegamos ao projeto em que se baseia este artigo, setenta anos depois da Segunda Guerra Mundial, quando as luzes dos últimos pracinhas já estão se apagando rapidamente e nem sempre o legado destes encontra respaldo nas futuras gerações. Curiosamente vem surgindo nos últimos anos um interesse maior pelo tema, seja por

Figura 1 - Cruz de Combate de 1ª e 2ª Classes. Acervo - Museu da FEB, Belo Horizonte

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Revista Postais 07 - 2016  

Revista Postal N. 6 - 2016 - Restauração da Agência Central dos Correios de Petrópolis. Artigo de Andréa Fernandes Considera, Erika Pereira...

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