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Márcio Alves Roiter

12. Muitos exemplos: a loja de departamentos O Guarany, da rua Gonçalves Dias esquina com a rua do Rosário, no Rio, especializada em “camisas e chapéus, roupas para banho de mar, cama e mesa, perfumaria”, as Ferragens Cacique, a Fundição Tupy, aguardente Ypioca, queijos Catupiry... Disputavam espaço com as denominações de origem francesa, onipresentes na vida brasileira das primeiras décadas do século XX. 13. Le Corbusier (1887-1965) confessa, entretanto, que para construir o “Cabanon” (tradução livre: barracão), sua casa de verão em Rocquebrune Cap-Martin se inspirou nos barracos das favelas brasileiras. E foi no Rio, em 1929 que viveu um tórrido romance de verão com Joséphine Baker. Ambos voltavam de temporadas em Buenos Aires, a bordo do Giulio Cesare, com destino ao Rio de Janeiro. Os cadernos de viagem e as cartas conservadas na Fundação Le Corbusier comprovam o affair. Se Le Corbusier não se dedicou ao Nativismo, chegou bem perto. 14. Archimedes Memória (1893-1960) foi o arquiteto carioca que mais se destacou na vertente eclética, aí incluídas diversas manifestações de cunho nacionalista. O neocolonial, abordado por ele e seu sócio Frances Francisque Cuchet em diversos projetos, como a sede do Clube Botafogo de Futebol e Regatas, ou o demolido Theatro Cassino no Passeio Público, conviveu com as construções de estilo eclético, cujos principais exemplos são o Palácio Tiradentes, hoje Assembléia Legislativa carioca, ou o Jóquei Clube da Gávea.

Em mais um caso de disputa pela representação no exterior de uma linguagem nacional, o Nativismo sai vitorioso durante a exposição O Mundo Português, em 1940, que ocupou grandes espaços à margem do rio Tejo, em Lisboa. O Pavilhão Brasileiro, projetado pelo célebre arquiteto português Raul Lino, recebe decoração interior em feérico estilo Marajoara, assinado pelo mesmo Roberto Lacombe, preterido para a New York World’s Fair15. Desde o início do século XX, ainda sob os efeitos do Art Nouveau, nosso pintor e designer Eliseu Visconti (1866-1944), após freqüentar em Paris as aulas de Eugène Grasset, retorna ao Brasil disposto a inovar na Arte Decorativa local. Infelizmente sem muito sucesso, pois o gosto nacional era aquele denunciado por Ronald de Carvalho. Visconti utiliza temas de inspiração marajoara numa série de vasos, produzidos no ateliê Ludolf, e que só serão expostos em 1926, na Galeria Jorge, no Rio de Janeiro. Muito natural que do Estado do Pará e do Estado do Amazonas surjam artistas com discurso nativista, e entre os principais estão Theodoro Braga (1872-1953) e Manuel Pastana (1888-?). São de Theodoro Braga vasos em metal trabalhado, repuxado, com técnica semelhante à produção do francês Jean Dunand, identificados por Pietro Maria Bardi e hoje nas coleções do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, explorando a temática Marajoara. Theodoro Braga vai ao extremo de encomendar ao arquiteto Eduardo Kneese de Mello sua residência em São Paulo, nos anos 1930, como um painel de utilizações possíveis dos temas marajoaras, desde o exterior da casa até a decoração. Tudo se integra na mesma vertente Art Déco de influência marajoara: pisos em madeiras exóticas brasileiras, grades, móveis, papéis de parede, luminárias, objetos... Não sem razão foi por ele batizada de “Retiro Marajaora”16. Manuel de Oliveira Pastana foi discípulo de Theodoro, e ao lado de uma produção

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Revista Postais 05 - 2015  

Revista Postal N. 5 - 2015 Dossiê Documentos Fundadores Artigos de Bernardo Arribada, Candida Malta Campos, Diego Salcedo, Luiz Guilherme...

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