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Márcio Alves Roiter 4.Tarsila do Amaral (1886-1973) pode ser considerada a musa do Nativismo brasileiro na pintura das décadas 1920 a 1940. Do casamento com Oswald de Andrade, não só surgiu a marca “Tarsiwald”, como retratos de um Brasil ancestral. Talvez seu mais conhecido óleo, o “Abaporu”, hoje na coleção do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, coleção Constantini, desde o termo indígena que o batiza, reflete a preocupação de Tarsila com o imaginário da selva brasileira. De um dicionário tupi-guarani foi retirado seu título: Aba: homem; poru: que come. E foi dele que o Manifesto Antropofágico se alimentou. Oswald de Andrade, que recebia a tela como presente de aniversário, em 11 de janeiro de 1928, exclamou: “Isso é como fosse um selvagem, uma coisa do mato”. Tarsila aprendeu na sua temporada parisiense a valorizar as “Artes Primitivas”, hoje denominadas “Artes Primeiras”. Em seus contatos com Brancusi (de quem adquiriu uma escultura, “Prometheus”, de 1911) Picasso, Léger, Lhote, Gleizes, Matisse – todos admiradores das “Artes Primeiras” – absorveu este apreço, e imediatamente o transpôs para sua origem, uma terra de índios, de rico folclore, um mundo mítico ainda inexplorado na década de 1920. Mario de Andrade (1893-1945), poeta, escritor, crítico e pesquisador do folclore brasileiro, foi, ao lado de Tarsila e Oswald, um dos pilares do Modernismo brasileiro. Se o Nativismo tem um herói, esse seria Macunaíma, personagem central do livro de mesmo nome, editado em 1928. Definido pelo autor como “a aceitação sem timidez nem vanglória da entidade nacional”, Macunaíma é uma rapsódia brasileira onde a muiraquitã (amuleto indígena) é também protagonista. As aventuras do “herói sem nenhum caráter”, mistura das raças negra, branca e índia, em busca desse talismã percorrem as páginas deste que foi considerado o livro mais importante do nacionalismo modernista brasileiro.

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na música, a busca de inovação e de progresso tecnológico definiu as primeiras décadas do século XX. Um capítulo à parte merecem os paquebots7, que disseminaram mundo afora o estilo Art Déco, verdadeiras embaixadas flutuantes de seus países de origem, com o melhor do progresso tecnológico nas máquinas e sistemas de funcionamento, com o melhor das artes decorativas, e, o mais importante, abertos ao público (mediante a compra de tíquetes) em cada porto em que atracavam. Eram essas visitações um belo reforço nas finanças das companhias marítimas. Os passageiros desembarcavam, e subiam a bordo os habitantes dos portos, ávidos das novidades, de câmera e bloquinho em mãos, e assim muitas casas e interiores surgiram obedecendo à estética dos transatlânticos. Não surpreende que tantos prédios espalhados pelo mundo reproduzam a estética streamline de decks, janelas de escotilha – em suma, a cartilha arquitetural dos navios. O maior, o mais luxuoso, o mais rápido dos ícones da navegação Art Déco se chamou Normandie e entre 1938 e 1939 saiu da rota costumeira Le Havre (França) – South Hampton (Inglaterra) – Nova York e veio ao Rio trazendo norte-americanos que se dispuseram a pagar até 130 mil dólares pelas melhores cabines, num cruzeiro de Carnaval, esquecendo o inverno do hemisfério Norte em meio à folia carioca8. Mas voltemos à Taba. A maior ilha fluviocosteira do mundo, Marajó, na Amazônia brasileira, teve diversas fases de desenvolvimento, antes da chegada dos colonizadores portugueses. A mais importante, e que se estenderia de 400 a 1350, denominada Marajoara, deixou uma herança de artefatos finamente decorados, como urnas, vasos, bancos, esculturas, tangas, adereços e talismãs, em pedra, terracota, cerâmica e argila. No início do século XX, as novas invenções – automóvel, avião, hidroavião – aliadas ao espírito aventureiro de muitos arqueólogos, historiadores, antropólogos, jornalistas,

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Revista Postais 05 - 2015  

Revista Postal N. 5 - 2015 Dossiê Documentos Fundadores Artigos de Bernardo Arribada, Candida Malta Campos, Diego Salcedo, Luiz Guilherme...

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