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Pindorama modernista - influência indígena no Art Déco brasileiro

exploramos convenientemente a maravilhosa terra que os nossos antepassados descobriram e povoaram. Precisamos, nesse passo, voltar as costas ao litoral, e olhar rosto a rosto a imensidade silenciosa dos sertões. Não está ali todo o Brasil, mas está um Brasil poderoso e deslumbrante que ainda não conhecemos. (CARVALHO, 1921)

Os clamores por Tupã de Ronald de Carvalho foram ouvidos, e em fevereiro de 19223 a brasilidade tenta se casar com a contemporaneidade, através da Semana de Arte Moderna. Uma estética absolutamente brasileira acaba emergindo, ainda na década de 1920, identificada por diversos sinônimos: Nativismo, Indianismo, Indigenismo e o curioso “matavirgismo” – a partir de mata virgem, cunhado por Mario de Andrade numa carta a Tarsila do Amaral4 – são termos que tentam definir, antes de mais nada, um nacionalismo com todas as letras. Esse nacionalismo será tratado, paradoxalmente à luz do Art Déco, estilo europeu, sobretudo francês, consagrado na Exposição Internacional das Artes Decorativas e Industriais Modernas de Paris, 19255. A marca principal do Art Déco era a geometrização de temas abstratos e figurativos, absorvendo parâmetros do Cubismo – que, desde 1907, com as Demoiselles d’Avignon de Picasso, já fora instaurado –, mas tornando estes traços palatáveis à burguesia emergente. Trata-se de estilo pleno de releituras de culturas exóticas – África, Japão, Tailândia6 – e antigas – egípcia, grega, asteca, maia, inca – que ocupou no mundo um amplo espectro geográfico. Podemos dizer que foi o primeiro estilo verdadeiramente globalizado, a se aproveitar dos meios de comunicação modernos como o cinema, a imprensa, o rádio, o telégrafo, o telefone e a televisão, bem como dos novos meios de transporte modernos – os transatlânticos velozes, seus incipientes concorrentes do ar, os aviões ( flying boats, barcos voadores) e dirigíveis. O mundo tinha pressa de informação, de estar up to date... De Xangai a Buenos Aires, de Paris a Tel-Aviv, do Rio a Nova York – na arquitetura, artes decorativas, moda, design, cinema, literatura, e até

2. Oswald de Andrade (1890-1954) é um dos atores principais da cena Nativista brasileira. Intérprete de um Brasil orgulhoso de suas origens, publica, no curso de sua vida, diversos manifestos com títulos que pretendem imediata compreensão, como o “Manifesto da poesia Pau-Brasil”, editado no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em 1924, e o “Manifesto Antropófago”, de maio de 1928. Casado com a pintora Tarsila do Amaral, foram na década de 1920 a “realeza” do movimento Nativista brasileiro 3. A Semana de Arte Moderna de 1922, realizada em São Paulo, no Teatro Municipal, entre 11 e 17 de fevereiro, se hoje é considerada determinante no Modernismo brasileiro, à época não teve grande impacto. Foi uma ação entre amigos, patrocinada por ricaços paulistas que não queriam ficar atrás do que se fazia na Europa em termos de Arte Moderna. Mas sem dúvida nenhuma se tornou um marco na valorização dos temas nacionais, entre eles os derivados da cultura indígena. Dentre os expositores, em arquitetura, pintura, escultura, no entanto, só Vicente do Rego Monteiro apresentou trabalhos diretamente relacionados ao tema.

Pórtico atribuído a Correia Dias, Edifício Amazonas, projeto de Santiago e Kiritchenco, 1934, Rua Fernando Mendes, Copacabana, Rio de Janeiro. Foto Instituto Art Déco Brasil

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Revista Postais 05 - 2015  

Revista Postal N. 5 - 2015 Dossiê Documentos Fundadores Artigos de Bernardo Arribada, Candida Malta Campos, Diego Salcedo, Luiz Guilherme...

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