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Márcio Alves Roiter

Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade. Oswald de Andrade 1. “O Guarani”, ópera de 1870, de Carlos Gomes (1836-1896), estreou no La Scala de Milão, consagrando seu autor, cuja estadia na Itália era custeada pela bolsa oferecida por D. Pedro II. Foi inspirada no romance de mesmo nome, de José de Alencar, publicado em formato de folhetim, entre fevereiro e abril de 1857. A ópera de Carlos Gomes pode ser considerada como a primeira manifestação artística brasileira a receber unânime aplauso mundial. E sua trajetória na vida do país a coloca como nosso primeiro item pop, extrapolando as salas de concerto. A protofonia de “O Guarani” passou a fazer parte da memória coletiva brasileira popular em 1935, quando é criada a emissão radiofônica “Hora do Brasil”, em cuja abertura ecoa a música de Carlos Gomes, num programa de uma hora de duração que ia ao ar de segunda-feira a sábado, com noticiário oficial divulgado pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda, a partir de 1937), em todas as estações de rádio do país. Mesmo depois da saída de Getulio Vargas, em 1945, o programa sobreviveu. Hoje, de segunda a sextafeira, se chama “A Voz do Brasil”, e vem tendo sua obrigatoriedade contestada. A história contada por Alencar já entrara nas telas dos cinemas brasileiros em 1916, através de uma produção de Vittorio Capellaro, mas em 1920, outra apresentação, de Luiz de Barros e Alberto Botelho consagra o romance de Ceci e Peri, desta vez com cenas filmadas na propriedade de Henrique e Gabriella Bensanzoni Lage, hoje conhecido como Parque Lage. Diversas versões de “O Guarani” para o cinema são conhecidas, a última delas dirigida por Norma Benguell em 1997.

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Os acordes da abertura de O Guarani – quase um segundo Hino Nacional Brasileiro, peça obrigatória dos concertos na data nacional de sete de setembro, ouvida até em procissões religiosas – abrem com toda sua pompa e plumas de araras e tucanos nossos comentários sobre o genuíno Art Déco brasileiro1. Sons que remetem à busca de uma identidade nacional, à brasilidade das origens, e que segundo Lucio Costa (1997) “[...] contrapõem a nossa mais autêntica seiva nativa, as nossas raízes, à seara das novas ideias oriundas do século XIX [...]”. Se o Romantismo da segunda metade dos anos 1800 busca inspiração nas histórias, lendas e crenças dos verdadeiros donos do Brasil – os índios –, será nas décadas de 1920 a 1950 que a modernidade nacional se veste – ou tenta se despir das influências europeias – com temática indígena em total sintonia com a vanguarda intelectual tupiniquim. “Tupi or not Tupi”, exclamava um dos principais mentores do Modernismo brasileiro, Oswald de Andrade2. Vem da pena de outro participante da Semana de Arte Moderna de 1922, o crítico e poeta Ronald de Carvalho, um protesto, publicado em 3/7/1921, em O Jornal: A Arte Decorativa no Brasil ainda está no seu primeiro balbucio. Apesar dos variados motivos que o artista pode colher nas lendas do nosso país e nos deslumbramentos da nossa natureza, ainda preferimos a imitação cômoda e amável da pacotilha estrangeira. Não costumamos olhar para o que temos à mão [...] Cumpre-nos, agora, desde que ninguém ouse disputar nosso título de campeões no preparo de maionese arquitetônica, variar o menu com outro manjar mais discreto. Por que não aproveitam nossos artistas os motivos ornamentais da fauna, flora, e da riqueza da indumentária nacional? Ainda não

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Revista Postais 05 - 2015  

Revista Postal N. 5 - 2015 Dossiê Documentos Fundadores Artigos de Bernardo Arribada, Candida Malta Campos, Diego Salcedo, Luiz Guilherme...

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