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Marileide Meneses Silva

2. “Se não houvesse espaço para os sinais identitários da cidade, o conceito de “lugar”, segundo a visão de Marc Augé, seria substituído pelas cidades imaginárias, os “não-lugares” que podem ser, ao mesmo tempo, uma única cidade ou todas.” (AUGÉ, 1994, p.74).

Essas visões urbanas puras e impuras na obra de Nelson surgem nas representações da cidade. Representações que se refiram ao passado, ao período que vai da belle époque ao entre-guerras e que se confunde parcialmente com a infância do autor na Aldeia Campista, Zona Norte do Rio de Janeiro. A cidade como era, a cidade das relações sociais ordenadas, a cidade dos valores só foi conhecida por meio de livros e da pesquisa em periódicos. Essa cidade pode servir para outra representação, a cidade contemporânea de Nelson, de sua vida adulta, cidade vivida e observada por ele nas ruas, no Maracanã, em bares e restaurantes, em festas, na redação dos jornais, no espaço público. É importante lembrar que a singularidade dessas representações nos textos de Nelson não atribui a sua obra caráter de busca de identidade ou de consciência nacional. O que visualizamos é a cidade como referência central, como “lugar”2. Nessa perspectiva, a cidade rodrigueana é o Rio de Janeiro e outros rios de janeiro, ela é qualquer uma, e, sendo assim, nenhum cenário se faz necessário para localizar as identidades. Ela é o espaço polifônico formado pela variedade de vozes e é também o palco de uma guerra de acontecimentos e relatos. Ainda sob esse aspecto, Nelson sabe onde as cidades dentro da cidade começam ou terminam. A cidade ainda é cidade nela e além dela. Em Nelson se vislumbra a multiplicidade de identidades, locais e relatos que, a um só tempo, são todos e nenhum. Assim, a cidade visível de Nelson é imaginária porque engloba todas as outras nela mesma. Isso não significa dizer que sua cidade não possui identidade, ao contrário, ela possui a “cara de todos”, a profusão de movimentos e silêncios de humanidade.

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Outra representação, frequente na obra desse autor, é a do espaço privado, a que se faz sentir nos corações e mentes dos indivíduos em suas relações mais íntimas. Todas essas representações, se analisadas em conjunto, são reveladoras da visão de mundo de nosso autor e de sua caracterização da cidade como palco privilegiado para a encenação dos dramas humanos.

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Revista Postais 05 - 2015  

Revista Postal N. 5 - 2015 Dossiê Documentos Fundadores Artigos de Bernardo Arribada, Candida Malta Campos, Diego Salcedo, Luiz Guilherme...

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