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Raul Pompéia. O Ateneu e o romance psicológico T. A. Araripe Jr.

Cultura e Barbárie Desterro, 2013


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Raul Pompéia. O Ateneu e o romance psicológico Araripe Jr. seguido de Raul Pompéia como esteta Araripe Jr.

Raul Pompéia Araripe Jr.

Glória latente Raul Pompéia

Prefácio ao tratado do verbo de René Ghil Stéphane Mallarmé

Cultura e Barbárie Desterro, 2013


Capa Tadeu Meyer, sobre desenho de Leonardo Da Vinci Diagramação Alexandre Nodari Revisão Flávia Cera coleção anima Coordenação editorial: Alexandre Nodari e Flávia Cera Conselho Editorial da Cultura e Barbárie Alexandre Nodari, Diego Cervelin, Flávia Cera, Leonardo D’Ávila e Rodrigo Lopes

A662r Araripe Júnior, T. A. (Tristão de Alencar), 1848-1911 Raul Pompéia : O Ateneu e o romance psicológico / T. A. Araripe Jr. – Desterro [Florianópolis] : Cultura e Barbárie, 2013. 88p. – (Coleção Anima) Inclui bibliografia ISBN: 978-85-63003-10-2 1. Pompéia, Raul, 1863-1895. O Ateneu – História e crítica. 2. Ficção brasileira – História e crítica. 3. Ensaios brasileiros. I. Título. CDU: 869.0(81)-31.09 Catalogação na publicação por: Onélia Silva Guimarães CRB-14/071

Editora Cultura e Barbárie www.culturaebarbarie.org | editora@culturaebarbarie.org Caixa Postal 5015 - 88040-970 - Florianopolis/SC Vendas www.culturaebarbarie.org/catalogo livraria@culturaebarbarie.org


Sumário

Raul Pompéia. O Ateneu e o romance psicológico [1888-1889] Araripe Jr. .......................................................................................... 7 I. O maquinista .................................................................................

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II. A máquina .................................................................................... 30 III. Auto-intoxicação psíquica. Arte. Máquinas de sensações de ordem objetiva e de ordem subjetiva Pânico literário de Raul Pompéia. Estilo. .............................

Raul Pompéia como esteta [1897] Araripe Jr. .......................................................................................

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Raul Pompéia [1906] Araripe Jr. ........................................................................................ 76

Glória Latente [1888] Raul Pompéia ................................................................................... 82 Prefácio ao Tratado do Verbo de René Ghil [1886] Stéphane Mallarmé ........................................................................... 86


Nota dos editores: Raul Pompéia. O Ateneu e o romance psicológico foi publicado originalmente de forma seriada no Novidades entre 1888 e 1889. Para essa edição, optamos por incluir outros dois textos de Araripe Jr. sobre Raul Pompéia, bem como uma crônica deste e um prefácio de Mallarmé, cruciais para a argumentação do autor. Para o estabelecimento do texto, decidimos interferir o mínimo possível, limitando-nos a atualizar a ortografia e corrigir erros evidentes de tipografia. Sempre que necessário e possível, cotejamos a versão presente nas edições críticas com as originais, privilegiando estas. As notas de rodapé numeradas são dos autores. O que está entre colchetes é da lavra dos editores.


Raul Pompéia. O Ateneu e o romance psicológico Araripe Jr.

Novidades, 6 de dezembro de 1888

A inteligência destes artigos depende da acomodação que venham a encontrar no espírito do leitor as seguintes proposições: A – A obra de arte é uma máquina de emoções. B – Há uma perspectiva interior que todo o artista procura reproduzir no espírito de outrem. C – Essa reprodução não se pode fazer, na arte escrita ou falada, senão pela ordem direta do discurso; daí uma sintaxe superorgânica, alma de todo o livro ou peça literária. D – Os órgãos capitais dessa sintaxe são o acento periodal e a elipse interior; é por meio deles que conseguem exercer a sua ação especial os temperamentos, que mais geralmente se dividem em subjetivistas e objetivistas. E – O estilo é a resultante, em parte imprevista, do conflito entre o temperamento de cada indivíduo e o mecanismo das formas literárias já criadas por um povo, por um grupo ou por uma escola. F – Não é impossível reduzir todos estes princípios à lei que os gramáticos denominam de menor esforço, e que Spencer, na mecânica mental, designa sob o nome de economia de funções.


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I O maquinista Existe nesta capital um ilustrado professor de história que não pode ver o cronista Urbano Duarte sem que lhe acuda ao espírito a imagem do general cartaginês Aníbal. Talvez pelo mesmo processo de cerebração, sucede-me pensar no autor das Geórgicas sempre que me encontro com Raul Pompéia. Já o seu nome nos aproximava de Roma; a sua conversação, o seu temperamento transportam-me à corte de Augusto, levam-me até a coterie de Mecenas. É quase uma obsessão. Quando o encontro na Rua do Ouvidor, rubro, vergonhoso, vergado ao peso de uma responsabilidade literária de 40 séculos, levada ao cubo; ou o vejo, no círculo de amigos íntimos, expondo, assombrado e febril, uma teoria nova da arte, da arte que não chega para todos; ou o diviso de longe, metido para um canto, postado em uma esquina, a olhar para a corrente do povo, preocupado com a correção que a linha da vida tivera outrora; quando o imagino, no lar, estudando e escrevendo com o mesmo cuidado, com a mesma pudicícia que a moça poria em ocultar os seios de vistas indiscretas; com o sangue sempre agitado pelo entusiasmo dos grandes mestres, pela tortura das grandes coisas; perturbado pela enormidade da arte, reincidindo na idéia de buscar uma forma calma, que é, enfim, a tranqüilidade da própria consciência artística; seqüestrado do mundo, apesar de residente em pleno agora, a consertar o pince-nez, a fixar com a vista uma verdade que não há, através de um temperamento delicado e de uma literatura infinita, que o domina como se constituísse a única realidade da vida; quando, finalmente, o surpreendo a traduzir as suas dúvidas num riso seco, desequilibrado, paradoxal e ao mesmo tempo adorável, é força confessar que sinto-me vítima de uma ilusão estranha e penso que ao ouvido sussurra-me o sic vos non vobis de Virgílio. O mantuano devera ter sido assim! Repasso então as minhas reminiscências de crítico, e as palestras do monte Esquilino começam a viver em minha imaginação errática


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com essa tonalidade saudosa que constitui todo o encanto da arqueologia clássica. Como uma sombra simpática aglutinada ao Raul que todos conhecemos, aquela “doce natureza de criança, cândida, amável, de disposições sempre benévolas e pacíficas”, de que fala Teuffel, aquele optimus Virgilius bonus ut melior vir non alius quisquam, das odes de Horácio, surge-me como por encanto aos olhos e, por momentos, se a confabulação se prolonga até Petzoll, aonde – Capistrano de Abreu, com a acrimônia de Augusto, ridiculariza as pretensões estilísticas do primeiro Mecenas que aparece, julgo achar no Vale Cabral um Polião, e no Domício Gama, um Ovídio ou um Tibulo. Tal é a força ilusionista da figura virgiliana do original autor d’O Ateneu, que, em certas ocasiões, me parece até vê-lo na Via Ápia meditando a sua Eneida, titubeante, sob a preocupação da forma que teria de dar ao verso – Tu Marcellus eris. Estas impressões, embora pessoais, não perdem a sua legítima importância. Submetidas ao processo de análise e verificada a sua contigüidade com os caracteres objetvios dos trabalhos de Raul Pompéia que já são conhecidos do público, fazem-me chegar à evidência de que o novo romancista pertence a uma classe de temperamentos literários muito diversa da a que se filiam, na França, Balzac e Zola, e no Brasil, A. Azevedo. No estudo que publiquei nas colunas deste mesmo jornal em princípios do corrente ano, tratando do romance naturalista, asseverei, de passagem, que o caso do autor d’O Ateneu era perfeitamente o de um analista fino, sugestivo, e de um pintor delicado, incisivo, do notador de impressões pessoais mais sobressaltado que era possível imaginar nesta terra, aonde todos já são por si tão irrequietos. Pois bem, hoje, depois de lido O Ateneu e de ter estudado melhor a sua índole literária, não farei senão confirmar aquela impressão, declarando que esse novel escritor vai representar no próximo movimento artístico, no Brasil, papel idêntico ao de Daudet, talvez dissesse com mais acerto – ao de Bourget, em França. Raul Pompéia pertence à mesma família virgiliana que produziu Ovídio em Roma, Petrarca na Itálica; que produziu La Bruyère na


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França de Luís XIV e Chénier na Revolução; família que faz pendant a outra não menos gloriosa, e que se caracteriza pela reflexão, senão, mesmo, pela preocupação. Como ninguém ignora, há homens de ação e homens de reflexão. A atividade poética não podia escapar a essa lei. Tanto existem artistas objetivistas como subjetivistas. O autor d’O Ateneu não se confundirá nunca com os artistas daquela classe. Vamos ver, pela lei dos contrastes, quais os caracteres que o separam profundamente do autor da Casa de Pensão. * Novidades, 11 de dezembro de 1888

Há, em matéria de estilo, um fenômeno que o retórico Quintiliano costumava designar pelo nome de aequalitas, – a correção monótona, destituída de antíteses.1 Quando O Ateneu foi publicado na Gazeta de Notícias, todos os cultores das boas letras se levantaram una voce para aclamar o autor como um estilista primoroso, um estilista correto. E os apreciadores desse estilo torturado tinham, incontestavelmente, razão; o que não quer dizer que Raul Pompeia padeça daquela tristíssima enfermidade de que falava o crítico romano. A aequalitas é um sintoma de anemia; indica falta de vida; e o autor d’O Ateneu é um pletórico, um nervoso, que, quando empunha a pena, está como o cavalo árabe, inquieto, sublevado, a arrancar, através do deserto, em direção ao primeiro oásis figurado em sua fantasia. O exame, portanto, de qualquer trecho do livro, habilita o menos prático em matérias desta ordem a classificá-lo como o produto de uma imaginação de artista valente, ávido de originalidade, exaltado pela reflexão, contido pelo escrúpulo e pela consciência da sua arte. Tanto basta também para nos convencermos de que não se trata de um escritor que desde logo se faça conhecer por uma enorme força impulsiva; de um romancista   Inst. Orat., X, I, 86.

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que, à feição do velho Dumas, se perca, se difunda, se objetive nas ações descritas ou imaginadas, transformando-se em um perfeito caleidoscópio, aonde o mundo exterior penetra tumultuariamente e se transforma em monumentos artísticos. Nada disto. Raul Pompéia, em um conto, recentemente dado à estampa no jornal já indicado, encarregou-se de traçar o seu próprio perfil no tipo de um poeta que, obsedado pela idéia de um poema, cujos lineamentos fosforizavam de longa data em sua cabeça, depois de desenvolvê-la discutindo consigo mesmo, avigorentando-a ponto por ponto, depois de fazê-la passar mentalmente por todos os processos de composição imagináveis, acabou por convencer-se de que toda a tradução do pensamento humano era uma queda satânica, um suplício de Prometeu, e que, neste caso, mais valia impedir que esse poema se cristalizasse no bico da pena do compositor.*2 Descer da região sagrada do Inexprimível, do sancta sanctorum da alma eleita, para degradar-se no chocalhar dos guisos desse carnaval chamado verso e na monotonia desse ruído estúpido chamado prosa, eis o que por mais de uma vez o autor d’O Ateneu terá pensado, sacudindo as armas de combate para um lado e evadindo-se para o inacessível dos seus sonhos boreais. É isto que se chama nostalgia da forma, e de que Eça de Quierós há pouco tempo nos deu um belíssimo espécime no seu Fradique Mendes. Os caracteres dessa natureza, tomados em globo, podem reduzir-se a uma classe muito ampla, – a daqueles que, por falta de energia nos centros de reação e coordenação, assediados pela multiplicidade das impressões do mundo exterior, cansados da catalogação dos fatos, da observação dos fenômenos, muitas vezes extenuados, outras tantas desesperados, refugiam-se no fundo de suas idéias e começam a espreitar os próprios estados de consciência e a estudar os movimentos da máquina produtora. Semelhantes temperamentos literários, ou melhor, tais hábitos mentais nem sempre encontram fibra que resista. Daí a misantropia de muitos poetas e escritores e a * Trata-se de Glória latente, incluído nesse volume (pp. 82-85).


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filosofia desalentadora de muitas escolas e de não poucos pensadores. De sorte que não erraremos se afirmarmos que a maior parte dos nostálgicos da forma terminam a carreira sistematizando a mais deplorável das loucuras, a verbolisia, isto é, o estilismo agudo. Pouco mais ou menos a enfermidade atribuída a Pope, – um estilo que perseguia um assunto. Compreende-se que essa inversão das leis naturais não pode chegar a resultados sãos. O desequilíbrio entre a aspiração e o poder de execução é a causa primordial de todas as aberrações de que as literaturas têm dado exemplos em várias épocas de suas respectivas histórias. É desse fundo comum que têm saído, outrossim, todas as manifestações do pessimismo até hoje conhecidas; foi daí que recentemente irrompeu a escola simbolista, essa nova forma do eufuísmo, que se traduz agora por um niilismo literário inominado. Ora, sendo evidente que neste mundo nada se perde, que tudo que se decompõe se recompõe, não é de admirar que o pessimismo sirva para alguma coisa. E, incontestavelmente, serve: – serve para pôr em xeque-mate o otimismo. Hipertrofia do eu, excesso de subjetivismo, na vida coletiva ele sempre aparece, como a noite depois do dia, para decompor uma grande luz e atenuar os efeitos das tendências objetivistas da humanidade. Tenho negado mais de uma vez que o pessimismo seja a característica do século XIX. Do modo por que ele existe, ou pelo menos tem sido definido nos tempos que correm, se deduz que não é uma novidade, nem, talvez, tão intenso como o que devastou épocas remotas. O pessimismo medieval e o terror da morte, tais quais nos são representados pela Dança Macabra, foram muito mais sérios e dolentes do que o que o Sr. Ramalho Ortigão encontrou ou pretendeu encontrar sem restrições na atual literatura do Ocidente, e Paulo Bourget limitou à plêiade dos psicologistas modernos. Seja como for, esse pessimismo de conserva e de vitrina, se é que existe, não passa de um acidente mínimo no movimento ascendente da humanidade, percebido por muito poucos, perdido no meio do entusiasmo do exército industrial que marcha cheio da própria


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força, mal comparável ao espírito de sistema que reina nas obras clássicas de Schopenhauer, Hartmann e Max Nordeau. * Novidades, 12 de dezembro de 1888

Raul Pompéia não é o que se pode chamar um pessimista; nem eu concordo que se dê esse nome a tantos outros psicologistas que a crítica tem apontado como tais. Um grande amor é sempre incompatível com semelhante estado psíquico; não seriam, portanto, os adoradores do belo, os apaixonados da arte, que haviam de escapar a essa lei: estes possuem em si uma fonte inexaurível de vida; e é quanto basta para que não queiram abandoná-la. A confusão feita pelos críticos nasce apenas de somarem duas quantidades heterogêneas. Não me refiro aqui, nem ao pessimismo religioso, nem ao científico, mas ao verdadeiro pessimismo, ao mórbido, – àquele que só pode terminar pelo suicídio: – ao pessimismo, enfim, que resulta da incapacidade para viver, da falta de inteligência e equilíbrio para compreender a vida, e de energia para reagir contra o ambiente. Neste caso, a própria natureza encarrega-se de eliminar o hóspede importuno; e é justamente o sentimento dessa hostilidade que o abate e o entristece. O pessimismo literário nada tem de comum com esse estado, se bem que possa prepará-lo pela surmenage. O homem não desespera enquanto crê nalguma coisa. Foi antecipando-se a essas tendências que o Budismo afundou a desesperação no cosmo (nirvana), diluindo a personalidade humana na universal. O Cristianismo fez a mesma coisa, decompondo-a no amor do pai eterno, e o Comtismo, no da humanidade. Só quando esses derivativos são insuficientes; quando nenhuma solução nos aparece com relação à vida; quando temos perdido totalmente o prazer do andamento, isto é, – esse impulso indeterminado, que nos leva a todos os pontos do horizonte da existência, independente de uma afeição

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Páginas iniciais de "Raul Pompéia. O Ateneu e o romance psicológico", de Araripe Jr. (Desterro: Cultura e Barbárie, 2013 - http://culturaeba...

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