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NOTÍCIAS

COMPILAÇÃO DO CONTEÚDO PUBLICADO NO SITE WWW.GONZAGA100.COM


Fotos | Acervo Memorial Luiz Gonzaga


ÍNDICE CENTENÁRIO DE GONZAGÃO SERÁ FESTEJADO NO EXU E NO RECIFE 08 | Entrevista - Dominique Dreyfus 16 | Entrevista – Elba Ramalho 19 | Legado de Gonzaga é debatido na Torre Malakoff 20 | Entrevista - Chambinho do Acordeon 22 | Filme explora a relação entre Luiz Gonzaga e Gonzaguinha 24 | No Sertão, forró começou na feira de Timorante 26 | Marcelo Melo: “Gonzaga mexeu com o imaginário das pessoas” 28 | Parque Aza Branca agora é patrimônio público 30 | Oficinas começam no Exu com boa procura e interesse da população 33 | Museu do Estado abre suas portas para Gonzaga 34 | Grupo Magiluth emocionou o público com “Luiz Lua Gonzaga” 36 | Mesa debateu a influência nordestina nas músicas de Gonzaga 38 | Forró embalou o pátio da Casa da Cultura na terça 39 | Diversidade cultural no palco e na plateia do Parque Aza Branca 42 | um exemplo de empreendedor 43 | Alvorada gonzagueana abriu dia do centenário no recife 44 | Estreia do Palco Gonzagão emocionou público no Exu 46 | Fazenda Araripe vira meca de forrozeiros no aniversário de Lua 06 |


Gil celebrou Seu Lula por quase duas horas de show 50 | Com a praça cheia, o Recife prestou sua homenagem a Lua 52 | Gonzaga foi reverenciado em sua casa 54 | Selo comemorativo e estátua de Gonzaga foram entregues no Exu 55 | Gonzaga sobrevive em seu público 56 | Parque Aza Branca não deixou ninguém parado 58 | Praça do Arsenal virou uma grande sala de reboco 60 | Elba canta a coragem do nordestino através da obra de Gonzaga 62 | Bodocó recebeu Cinema na Estrada 63 | Viajando (e tocando) num pau de arara 64 | Poetas pernambucanos homenagearam Gonzaga 66 | Mistura de ritmos marcou a última noite de shows no Arsenal 68 | Palco Gonzagão se despediu com festa do público do Exu 70 | Maciel Melo levantou o público com clássicos de São João 71 | Missa homenageou os 100 anos de Gonzaga 72 | Emoção e chuva no encerramento do centenário de Lua 74 | Coco de Umbigada celebra Velho Lua com festa em Olinda 75 | Com cantorias, aula em homenagem a Gonzaga anima o Arraial 76 | Programação 48 |


N912

Notícias : Gonzaga 100 / textos Chico Ludermir ... [et al.] ; fotos Ricardo Moura ... [et al.]; projeto gráfico, diagramação e ilustrações Adeildo Leite. – Recife : Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco, 2013. 93p. : il. Obra editada com encadernação em vê, título da capa “Gonzaga 100”. 1. SAFONEIROS – PERNAMBUCO – HISTÓRIA. 2. GONZAGA, LUIZ, 1912-1989 – COMEMORAÇÕES. 3. GONZAGA, LUIZ, 1912-1989 – BIOGRAFIA. 4. GONZAGA, LUIZ, 1912-1989 – FOTOGRAFIAS. 5. GONZAGA, LUIZ, 1912-1989 – OBRAS ILUSTRADAS. 6. MÚSICOS – BRASIL – HOMENAGENS. 7. CANTORES – BRASIL – HOMENAGENS. 8. MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. 9. DREVFUS, DOMINIQUE – ENTREVISTA. I. Ludermir, Chico, 1989-. II. Moura, Ricardo. III. Leite, Adeildo. CDU 78.071.2 CDD 780.92

PeR – BPE 13-345


N o t Ă­ c i a s

Gonzaga 100


27|11|2012

Centenário oficial de Gonzagão será festejado no Exu e no Recife Programação intensa de shows, apresentações, espetáculos e outras ações vai de 10 a 16 de dezembro Falar sobre Luiz Gonzaga no ano do seu centenário é como tentar listar todos os temas e ritmos cantados e tocados por ele, com os respectivos desdobramentos que aconteceram com o forró, desde a invenção do baião até os dias de hoje. Não é uma tarefa das mais simples, muito menos cabe num texto só. Luiz Gonzaga é grande, é uma vida inteira, um mito. De quem se fala sem medo de esgotar o assunto. Para completar, foi nascer no último mês do ano, no dia 13, dia de Santa Luzia. Daí o nome, Luiz. Nascer no final do ano, sobretudo neste 2012, que é o ano do seu centenário, deu a chance para que todas as homenagens fossem ocorrendo ao longo dos meses. E que agora, em dezembro, a festa de aniversário se tornasse o ápice de todas as celebrações dedicadas a Gonzaga e seu afortunado universo musical. O Governo de Pernambuco, através da Secretaria de Cultura e da Fundarpe, promoveu diversas homenagens ao Rei do Baião, desde o início de 2012 até aqui. A semana do aniversário, na qual foram investidos mais de R$ 3 milhões, será a culminância de todas as homenagens. Do dia 10 ao dia 16 de dezembro, várias ações artísticas e shows ocorrerão em palcos de Exu – Parque Aza Branca, Palco Gonzagão (no Módulo Esportivo de Exu) e Fazenda Araripe – e no Recife, na Praça do Arsenal da Marinha. Entre as maiores atrações que serão oferecidas à população das duas cidades estão os shows de Gilberto Gil, Daniel Gonzaga, Joquinha Gonzaga e Dominguinhos (todos 8

no dia 13, no Palco Gonzagão); Baile do Gonzaga, Fagner, Alceu Valença e Targino Gondim (todos no dia 13, na Praça do Arsenal da Marinha, no Bairro do Recife), além de muitos outros nomes importantes do forró brasileiro. A programação completa do Centenário de Gonzagão, bem como a cobertura da festa, com textos, fotos e vídeos e reportagens especiais sobre o artista, estão disponíveis neste site, especialmente criado para a ocasião.

Dia de Festa O dia do aniversário de Gonzagão, 13 de dezembro, começa no Recife, com a Alvorada Gonzagueana, às 5h, no Cais do Porto (próximo ao Cais de Sertão Luiz Gonzaga). Haverá salva de tiros de bacamartes, seguido de apresentações de quadrilhas juninas, aboiadores, banda de pífanos e grupos de xaxado. O Espaço Cultural Alberto da Cunha Melo – tradicional reduto gonzagueano, no bairro do Bongi – será a concentração da caminhada Sanfona do Povo. Cinquenta sanfoneiros partirão em direção à Praça da República, tocando músicas de Gonzaga, até o Palácio do Campo das Princesas. Às 9h30, eles seguem em caminhada para o Marco Zero e depois para a Torre Malakoff, onde se revezarão em curtas apresentações até às 17h.

Projeto Meu Araripe No sábado (15), no Parque Aza Branca, diversos sanfoneiros da região do Araripe se revezam no palco, no projeto


intitulado Meu Araripe. Participam desta grande homenagem os sanfoneiros Os Gonzaguinhas, Fuá Carvalho, Zezinho de Exu, Ana Paula, Forrozeiros de Gonzagão, Maurício Jorge, Leonardo Luna (CE), Edgar de Cedro, Baião Mais Eu, Sandra Leandro e banda Sotaque Nordestino, que fará a base instrumental do show.

Gonzaga nos equipamentos culturais O centenário de Gonzaga se estenderá pelos equipamentos ligados à Secretaria de Cultura. A partir do dia 11 de dezembro, diversas exposições e mostras abordarão o imaginário gonzagueano. Na Torre Malakoff, será instalada a exposição “Gonzaga empreendedor”. No Museu de Arte Sacra de Pernambuco (Maspe), é a vez da exposição “Os Santos de Gonzaga.” No Museu da Imagem e do Som (Mispe), haverá a exposição “Discos de Gonzaga”. No Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC-PE), um conjunto de instalações interativas e debates, intitulados “Ser tão conectado”. O Espaço Pasárgada dará vez ao Sarau Gonzagueano. No Museu Regional de Olinda (Mureo), haverá arrastão com boneco gigante de Gonzaga pelas ruas do Sítio Histórico e apresentação de coquistas. No Museu do Estado de Pernambuco (Mepe), o projeto Reencontrando Luiz Gonzaga irá promover série de exposição, debates e shows. Na Casa da Cultura Luiz Gonzaga (que recentemente recebeu este nome em virtude do centená-

rio do Rei do Baião), haverá encontro de sanfoneiros e de quadrilhas juninas. Para o Teatro Arraial já estão programados dois espetáculos: “Lua baião” (dança) e “Cantigas do sol” (teatro). O projeto Cine Cabeça, em cartaz no Cinema São Luiz, exibirá o filme “Gonzaga, de pai para filho”.

Formação cultural Não bastassem todas as apresentações e homenagens, na esteira do conceito do circuito Festival Pernambuco Nação Cultural, promovido pela Secult/PE e Fundarpe, o centenário de Gonzagão também será um momento para formar profissionais na área cultural. Uma série de oficinas, ligadas ao universo de Luiz Gonzaga, ocorrerá no período da festa, no Exu e também no Recife. “Xilogravura” (com José Lourenço), “Xaxado” (com o grupo Cabras de Lampião), “Iniciação aos oito baixos” (com Luizinho Calixto), “Cinema de animação” (com lançamento da animação “A volta da Asa Branca”, de Lula Gonzaga), “A simbologia da moda através da indumentária de Luiz Gonzaga” (por Rebecca Menezes e Roberta Duarte) e outras oficinas serão ministradas no Colégio Municipal Bárbara Alencar. No Recife, haverá um workshop de confecção de capas de CDs de forró (de Paula Valadares) e Cinema Ágil Digital – Imaginando Luiz Gonzaga (com Jaime Fonseca).

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Gonzaga ĂŠ a cama musical na qual me deito


10|12|2012

ENTREVISTA

Dominique Dreyfus Por Chico Ludermir Fotos Costa Neto

De volta ao Brasil para as comemorações do centenário de Luiz Gonzaga, Dominique Dreyfus, autora da principal biografia do Rei do Baião (“Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga”, 1996), ainda escancara um sorriso doce quando fala de Luiz. Poderia não ser, mas, conhecendo a fundo vida e obra do “Pernambucano do Século”, Dominique se tornou ainda mais admiradora do seu personagem. “Ele era extraordinário”, afirma. Francesa de nascimento, a escritora e jornalista tem sua história ligada ao Brasil desde sempre. Seu avô, representante de porcelana francesa na América do Sul, se aposentou no Brasil e atou forte os laços de sua família com o Brasil. Dominique foi criada em Garanhuns e estudou no Colégio 15 de Novembro, onde seus pais ensinavam por conjuntura de um pós-guerra que deixou seu país em crise. “O Gonzaga é a cama musical na qual eu me deito. A mamadeira na qual eu bebi”. Quinze anos depois de lançada a biografia, Dominique relembra o dia em que se encontrou com Gonzaga na frente do Teatro de Santa Isabel para passar dois meses hospedada em sua casa, no Exu.


Biógrafa de Luiz Gonzaga esteve no Recife para as comemorações do centenário do seu personagem

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Foto | Acervo Memorial Luiz Gonzaga

Gonzaga100 De onde veio a ideia de fazer a biografia de Luiz Gonzaga?
 Dominique Dreyfus - O livro do Gonzaga me chegou de repente, quando ele participava de um grande festival de música brasileira em Paris, no ano de 1985. Eu já tinha visto vários shows de Gonzaga e sempre era uma emoção. Ele estava na minha vida desde que eu tinha 2 anos, quando eu cheguei ao Brasil. Então, eu, toda emocionada, comecei a escutar. Eu estava no meu canto sozinha quando entrou Gonzagão, todo vestido de couro, com aquele vozeirão. Depois de tocar umas três músicas, disse que estava cansado. “Tou ficando velho e a sanfona é meio pesada”. Então levaram um banco para ele tocar sentado. Na hora em que ele falou isso, me veio um insight. E eu pensei: “Mas é mesmo, ele está ficando velho e, a qualquer hora, ele pode morrer. E, até hoje, ninguém escreveu nada bem aprofundado sobre ele. Quem poderia fazer a biografia dele? Ora, eu mesma. Eu gosto dele, eu conheço a música brasileira, eu tenho uma formação de pesquisadora, tenho tudo pra fazer. Vou fazer”.

Gonzaga100 Como foi o contato com ele para fazer a biografia? Dominique - Depois do show, fui ao camarim, mas estava cheio de gente. Deixei para depois. Consegui o endereço dele por Gonzaguinha, que era mais próximo, e escrevi para o Gonzagão, explicando que eu era uma jornalista francesa criada no Brasil e que eu tinha interesse em fazer a biografia dele. Disse que achava que ele era uma figura importante da cultura nordestina e brasileira e que, se ele concordasse com esse meu projeto, eu alugaria uma casa no Exu por dois ou três meses para ficar perto dele e fazer a pesquisa. Ele demorou uns três meses para responder, porque estava fazendo uma turnê, mas, de repente, chegou uma carta assinada do velho, escrita à máquina, dizendo que estava muito honrado e feliz com ideia de uma francesa escrever a biografia dele. Claro que ele aceitava e que nada de alugar casa, eu ficaria hospedada na casa dele na Fazenda Aza Branca e que comeria muita buchada e carne de bode com ele. A partir daí, ficamos em contato, organizando minha vinda. 13


Gonzaga100 E quando você chegou…? Dominique – Combinamos que eu chegaria no início de julho e ele marcou que nos encontraríamos em frente ao Teatro de Santa Isabel. E eu passei recentemente por lá e fiquei me lembrando (ela ri meio emocionada): eu esperando e, de repente, o carro que encostou e desceu Gonzagão. Gonzaga100 Como você fez para publicar o livro? Dominique - Fiquei julho, agosto e um pouco de setembro entrevistando ele, a família e os amigos. Depois voltei para a França. Eu tinha pedido uma licença de três meses ao jornal onde eu trabalhava na época, e chegara a hora de voltar à França. Minha ideia era publicar o livro lá, então comecei a procurar um editor. Mas nenhum se interessou. Gonzaga era totalmente desconhecido por lá. Quando eu vi que ninguém queria saber disso na França, botei tudo num baú e fechei. Passaram alguns anos, Gonzaga morreu, e, um dia, em 1992, eu recebi um telefonema de um amigo querido, Tárik de Souza, do Jornal do Brasil, que me disse que ele assumira a direção da coleção “Ouvido musical” que a Editora 34 tinha decidido fazer, e queria inaugurá-la com uma biografia do Gonzaga. 14

Gonzaga100 Como uma francesa escreve a biografia de Luiz Gonzaga? Dominique - A conexão começou no dia em que eu cheguei aqui. Até os 13 anos, estive mergulhada na música brasileira. Então, essa música me impregnou e fui embora daqui com meus discos. Tinha estudado violão com um professor brasileiro que me ensinava a tocar toadas. Mesmo quando eu saí do Brasil, eu mantive o contato com o país. Em 1978, quando teve a anistia, a primeira coisa que eu fiz foi comprar uma passagem e vir ao Brasil. Nunca programei que iria escrever a biografia do Gonzaga. Foi realmente naquele show que me bateu a ideia de que ele estava ficando velho e que eu tinha a consciência da importância dele para a música e a história do Brasil. Eu achei um absurdo que ninguém tivesse escrito nada sobre ele. O Gonzaga é a cama musical na qual, criança, eu dormi, a mamadeira na qual eu bebi. A infância é a coisa mais forte na vida da gente. Não é que ele me lembre a infância. Ele é a base da minha infância. Uma metáfora do Nordeste, que é a minha cultura básica, a cultura que me impregnou na infância.


Gonzaga100 Como pesquisadora de música, você é capaz de elaborar o que o repertório de Luiz Gonzaga revela do Brasil? Dominique - Ela revela tudo do Brasil. Vamos pegar “Asa branca”. Conta da seca e uma seca não resolvida. Um país no qual o governo não se interessa nem um pouco por uma região. Que permite que uma população pobre tenha que percorrer quilômetros e quilômetros a pé e de pau de arara para irem trabalhar no Sudeste, para comporem as favelas. Ele fala da espera, da solidão. Em uma música, ele conta todo um processo da sociedade rural nordestina, o que é a vida de um povo rural do Nordeste. Gonzaga100 O que fez de Gonzaga um ícone? Dominique - Tem gente que nasce para ser uma estrela. Tem um porte, criatividade, imaginação, carisma, genialidade, talento, voz maravilhosa, generosidade com o público. Ele foi um homem que soube como transformar, com sutileza, uma música rural numa música urbana, sem perder a essência. Soube, mais ainda, transmitir isso para o público com o qual ele sabia lidar de uma maneira extraordinária. Gonzaga100 Qual a importância de Gonzaga para o Nordeste? Dominique - Ele é o rei. O Nordeste tem figuras assim. A Vox Populi costuma citar como grandes figuras do Nordeste o Padre Cícero, Lampião, ambos figuras controversas, e Luiz Gonzaga. Eu prefiro colocar Luiz Gonzaga ao nível de João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos e José Lins do Rego.

Gonzaga100 Como foi conviver com ele…? Dominique - Foi um privilégio enorme. Um dos grandes da minha vida. Poder me aproximar de uma figura tão impressionante como o Gonzaga. Convivi com uma pessoa fora de ordem, extraordinária. Acho que aprendi muito com ele. Tenho belíssimas lembranças. É um trabalho a que eu me dediquei muitos anos. Uma convivência que se prolongou. Gonzaga, para mim, morreu várias vezes. Quando terminei de transcrever as entrevistas, chorei muito. Quando entreguei o manuscrito da biografia, também chorei. Era como se estivesse me despedindo dele de novo. Gonzaga100 Quando se lembra dele, do que mais se lembra? Dominique - Eu lembro dele falando: “Ih, Francesa, tu é danada! Já sabe disso?” ou “Francesa, você tem que ligar para sua família, né?”. Mas ele queria era ligar pra Zuíta (sua amante). E eu ia com ele pra telefônica. Uma imagem que eu tenho muito forte, não sei por que, é ele andando de carro. Ele, de repente, me dizia: “Francesa, vamos embora”. E a gente entrava na van. Ele tirava a sandália de couro do pé direito e botava em cima do tabelier contra o vidro e ficava olhando a paisagem. Eu tenho essa imagem. Às vezes, a gente conversava; outras vezes, ficava calado. E volta e meia, o vozeirão de seu Luiz cantando rompia o silêncio. Era arrepiante! Outra lembrança que eu tenho é ligada à comida. Ele gostava muito de comer, mas ele sempre tinha uma coisa para reclamar: que a comida não estava bastante quente, ou que não tinha bastante sal. Aí ele levantava e ia para a cozinha ensinar como se tinha que fazer à cozinheira! “Eu não sei cozinhar, mas eu sei explicar”, ele dizia. 15


Gonzaga100 E como é voltar ao Brasil? Dominique - É muito prazeroso e emocionante mergulhar de novo nessa história de Gonzaga. É um pouco como reviver um episódio passado. É possível que este centenário seja o momento que vai fixar a transformação do homem no mito. Todo mundo tem ou quer ter a lembrança de um encontro com ele, de algum causo que ocorreu. O mito já começa assim. Para mim, que vivi toda essa aventura com ele, tenho que tomar cuidado para não entrar na mitologia. Ele vai se tornar cada vez mais um mito. Como Padre Cícero e o Lampião.

Gonzaga100 Como foi participar da festa de centenário? Dominique - Em termos pessoais, foi uma honra ter sido convidada. É realmente muito emocionante o retorno que recebi do público brasileiro. Como eu e o livro vivemos separados – eu na França, ele aqui no Brasil –, acaba que eu não acompanho a vida dele. Quando eu chego no Brasil, sempre me surpreendem as coisas lindas que me falam do livro e o carinho que recebo dos leitores. E assim foi na festa do centenário. Às vezes, até parecia que a festa era minha! Foi também muito prazeroso ver a mobilização do estado de Pernambuco em torno do Gonzaga. Aliás, não só Pernambuco como o Brasil inteiro. De um ponto de vista profissional, foi muito interessante, pois participei de vários eventos que me deram oportunidades de voltar a refletir sobre aspectos da vida e da obra de Luiz Gonzaga para as palestras e os debates de que participei; de ouvir a palavra de colegas pesquisadores, de músicos, etc., ou seja, de ouvir novos testemunhos, outros pontos de vista. Pude ver que havia novos livros, novas pesquisas sobre o Gonzaga – alguns me foram presenteados, outros eu comprei – e regressei à França com o dobro de bagagem! Gonzaga100 Que importância esta festa tem para a história de Luiz Gonzaga? Dominique - Acho que a celebração do centenário de Luiz Gonzaga foi a homenagem indispensável a um grande homem que faz parte da história do país. Seria um escândalo deixar em branco essa data. No entanto, além da homenagem, esta celebração permitiu mostrar e até mesmo ensinar às novas gerações que não conheceram Luiz Gonzaga um capítulo importante da história cultural, musical, social do Brasil.

As últimas duas perguntas desta entrevista foram feitas em março de 2013, especialmente para esta publicação. 16


Luiz Gonzaga é muito mais do que um maravilhoso sanfoneiro, mÚsico, cantor. ele é uma figura emblemática do Brasil. Por isso, a celebração era imprescindível, obrigatória. 17


Fotos | Acervo Memorial Luiz Gonzaga

“Gonzaga mostrou para o Brasil um outro Brasil�

Elba e Lua nos anos 1980

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09|12|2012

ENTREVISTA

Elba Ramalho Por André Zahar

Em 1980, quando começava a despontar como cantora, Elba Ramalho conheceu pessoalmente Luiz Gonzaga. A partir do primeiro encontro, numa recepção de hotel, as trajetórias deles se cruzaram em diversos momentos e renderam parcerias, como o sucesso “Sanfoninha choradeira” (Luiz Gonzaga/João Silva, 1984). A cantora paraibana, que gravou em 2002, quando o amigo faria 90 anos, o disco “Elba canta Luiz”, volta a homenagear o mestre na noite da próxima sexta-feira (14/12), na ocasião do seu centenário no Exu, a terra natal de Gonzaga. Em uma programação repleta de discípulos do rei, Elba sobe ao Palco Gonzagão. Em entrevista realizada por e-mail, Elba Ramalho diz que pressentiu em 2010 que estaria na terra natal do Rei do Baião no ano de seu centenário. Conta ainda que, para além dos palcos e estúdios, o convívio dos dois chegou ao ponto de Gonzagão ter sido um dos primeiros a segurar seu filho recém-nascido, em 1987. Em suas palavras, Lua foi um gêniozzz que “mostrou para o Brasil um outro Brasil”. “Desde que me entendo por cantora, acho que não existe um único show meu em que eu não tenha cantado Luiz Gonzaga”, diz Elba. 19


Gonzaga100 O público pode esperar no Exu o repertório do disco “Elba canta Luiz”? Elba - E muito mais. Tenho feito minha reverência em todos os shows este ano. Estou abrindo o show com “Sanfona branca”, de Benito di Paula, e emendo com “Viajante”, “Estrada de Canindé”, “Numa sala de reboco”, e não paro mais.

Gonzaga100 Você conheceu pessoalmente Luiz Gonzaga no início de sua carreira como cantora. Pode falar deste encontro e do que ele representava pra você? Elba - Primeiro, desde a infância, eu já escutava Luiz Gonzaga, como todo nordestino que ficava ao lado do rádio. Depois que eu já tinha disco gravado, acabei me encontrando com ele na recepção de um hotel e, desde o primeiro momento, ele foi muito carinhoso comigo. Nossa amizade se consolidou, e ele estava ao meu lado no nascimento do meu filho. Eu estava no oitavo mês de gravidez, tinha acabado de fazer um grande show em Campina Grande (PB) juntamente com o Seu Luiz, Fagner e outros artistas. No dia seguinte, já era uma tradição nesta época de São João, um grande almoço na casa da minha irmã, em Campina Grande. Seu Luiz me ligou cedo de manhã para o hotel, me acordou chamando para irmos para a casa de minha irmã. Chegamos e a farra não tinha fim. Muito forró, muita dança, até que a bolsa estourou…. Todo mundo correndo para o hospital. Inclusive ele! Luiz Gonzaga foi uma das primeiras pessoas a segurar meu filho no colo e entoar os seguintes versos: “Cabeça grande é sinal de inteligência, agradeço a providência em ter nascido lá” (da música “Baiano burro nasce morto”, de Gordurinha, 1959).

Gonzaga100 Quais músicos vão acompanhá-la no show? Haverá participações especiais? Elba - Não tenho nenhuma participação definida. A minha banda de sempre é que vai me acompanhar. Certamente vamos ter vários forrozeiros na cidade e vou gostar de receber outros parceiros que estejam participando da festa.

Gonzaga100 E o que ele representa para a cultura nordestina? Elba - Não só para a cultura nordestina, para cultura do nosso país. Ele foi um gênio, como Villa Lobos, Caymmi e Tom Jobim. E ainda se tornou um grande ícone da cultura popular com suas vestes, seu estilo e suas canções. Ele mostrou para o Brasil um outro Brasil.

Gonzaga100 Após participar de outras homenagens aos 100 anos de Luiz Gonzaga ao longo deste ano, como é se apresentar na cidade natal do Rei do Baião no mês de seu aniversário? Elba Ramalho - É um presente para mim. Um presente para o povo. E uma homenagem para o Rei. Em 2010, me apresentei no Exu, no dia 13 de dezembro, e tinha muito claro em minha mente que, no ano do centenário, eu iria me apresentar na terra de Luiz Gonzaga. Quase como uma peregrinação, eu tinha certeza de que eu iria cantar na terra dele, neste momento tão especial. Desde que me entendo por cantora, acho que não existe um único show meu em que eu não tenha cantado Luiz Gonzaga.

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Da esquerda para a direita: Santanna, Genaro, Paulo Wanderley e Dominique Drey11|12|2012

Legado de Gonzaga é debatido na Torre Malakoff Músicos e pesquisadores participaram de ciclo de seminários sobre Lua Por Chico Ludermir Foto Ricardo Moura

“É impressionante como Gonzagão cantou tudo do Sertão”, começou Santanna, o Cantador, no seminário “Luiz Gonzaga: a enciclopédia sonora do Nordeste”, realizado na segunda-feira (10/12), na Torre Malakoff, no Bairro do Recife. Junto com ele, o também músico Genaro e os pesquisadores Paulo Wanderley e Dominique Dreyfus caminharam por vida e obra do “Pernambucano do Século”, com a mediação do poeta José Mauro Alencar. Foi senso comum da mesa que, até Gonzaga, a imagem que se tinha do Nordeste era tão negativa que nem ele imaginava ser possível tocar aqueles “sambas” que ele cantava com o pai. “Ele só tocou o Sertão por insistência de estudantes cearenses, mas todo mundo gostou e aplaudiu, e ele percebeu que isso poderia interessar”, explicou Dominique Dreyfus, autora da biografia “Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga”. Segundo ela, o Rei do Baião criou, a partir da música tradicional do Sertão, uma música urbana. Depois que descobriu que “podia” cantar o Nordeste, Gonzaga acabou virando especialista. Desde os ritmos, temas, motes até a própria formação de sua banda. “Ele queria colocar nos músicos dele a cara do seu lugar”, disse San-

tanna. Por isso, buscou inspiração nas bandas de pífano. A sanfona assumiu o lugar do instrumento de sopro, e os pratos deram lugar ao triângulo. “Do mesmo jeito que os americanos descobriram a trindade guitarra, baixo e bateria, Gonzaga descobriu a sanfona, a zabumba e o triângulo”, emendou o Cantador. “A obra de Luiz Gonzaga é uma enciclopédia do Nordeste, mas, ao invés de ser em livro, é em música. Fala de gastronomia, geografia, fauna e flora. Descreve costumes, conta das danças, e, até nas músicas de amor, o que seria universal, ele canta o Nordeste”, disse Dominique. “Ele era um codificador do Nordeste”, completou Santanna. Com a obra vasta de Gonzaga, os palestrantes passaram também pelo seu posicionamento político. “O que importa é o que ele fez. E o que a obra dele revela é que ele era um homem que reclamava das injustiças e tinha uma bela ideologia, e é isso que a gente tem que ver”, defendeu Paulo Wanderley, colecionador de discos e acessórios do ídolo. “Do jeito que era a a situação na época, Gozanga tinha que pedir ajuda a quem encontrasse primeiro”, completou Genaro, que tocou com Luiz no consagrado Trio Nordestino. 21


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Gonzaga100 Como foi viver um ícone da música como Gonzaga no cinema? Chambinho – Foi muito emocionante. Eu sabia da responsabilidade de representar o grande Gonzaga. Tive que deixar de lado o Gonzaga lenda, rei, mestre, e encará-lo como um personagem. Se eu não fizesse isso, não conseguiria representá-lo. Mas, acima de qualquer sentimento, me senti um privilegiado, foi uma honra imensurável ter nas mãos essa missão. 11|12|2012

ENTREVISTA

Chambinho do Acordeon Por Dora Amorim Foto Divulgação

No meio de 5 mil concorrentes, o sanfoneiro Chambinho do Acordeon ganhou do diretor carioca Breno Silveira o papel de Luiz Gonzaga no filme “Gonzaga: de pai para filho”. De origem piauiense, o sanfoneiro nasceu em São Paulo e, pela primeira vez, trabalhou como ator no cinema. No início do processo para a escolha do elenco, Breno Silveira foi em busca de atores que pudessem aprender a tocar sanfona para ser o Rei do Baião, mas logo percebeu que só um sanfoneiro poderia dar vida a um dos maiores músicos do País. Nesta quarta-feira (12/12), Chambinho do Acordeon se apresenta no Palco Gonzagão, no Exu, com um repertório baseado nas canções do sanfoneiro pernambucano, exatamente na semana em que comemoramos o centenário de nascimento de Lua. No filme, Chambinho é o grande responsável por interpretar as canções de Luiz Gonzaga e dar vida ao sanfoneiro.

Gonzaga100 Como foi a preparação para o papel? Chambinho – Eu me preparei por mais de seis meses, estudei muito! Todos os vídeos da produção, todo o material visual, de áudio, as leituras, tudo. Depois fiz aula de dança, expressão corporal, fonoaudiologia, tratamento com otorrino, e emagreci 10 quilos. Foi uma transformação muito grande para chegar ao personagem. Gonzaga100 Qual era a sua relação com Gonzagão antes de interpretá-lo? Chambinho – Gonzagão sempre foi minha referência musical. Eu era e sou fã, muito fã. Ele sempre esteve presente em minha vida, suas músicas eram (e ainda são) tocadas em todas as festas da minha família. Gonzaga100 O que você está preparando para o concerto desta quarta (12/12)? Chambinho – Bem, quero fazer uma homenagem a ele e a todos que gostam de Gonzaga. Quero que cada um que esteja ali assistindo sinta um arrepio de lembrar do Gonzaga e uma alegria imensa em poder homenageá-lo. Acho que ele se alegra quando vê a multidão cantando suas músicas em coro. Gonzaga100 Para você, qual o papel que Gonzaga ocupa na música brasileira? Chambinho – Gonzaga urbanizou a música nordestina. Ele apresentou para o Brasil e o mundo nossa música de raiz. Ele foi, com certeza, um dos maiores músicos que o Brasil já teve. 23


Chambinho do Acordeon vive Luiz Gonzaga no filme de Breno Silveira 11|12|2012

Filme explora a relação entre Luiz Gonzaga e Gonzaguinha Dirigido por Breno Silveira, “Gonzaga: de pai para filho” será exibido no dia do centenário Por Dora Amorim Foto Divulgação

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Dois músicos que cantaram suas lutas e popularizaram suas crenças. Um deles cantou sobre o povo do Nordeste, a seca e a saudade do Sertão. O outro cantou para um Brasil repleto de proibições. Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, pai e filho, trazem a música brasileira na história, ao mesmo tempo em que protagonizaram uma relação bastante tumultuada. Interessado por cinebiografias que exploram o universo familiar, como fez em “Dois filhos de Francisco”, o cineasta carioca Breno Silveira assina a produção “Gonzaga: de pai para filho”, sobre a relação entre os dois músicos. Na próxima quinta-feira, quando Gonzagão completaria 100 anos, o filme terá uma das suas exibições mais especiais, no Parque Aza Branca, no Exu – uma das locações da obra. Com cuidado estético e apoiado nas canções do Rei do Baião, Breno Silveira fala da conturbada relação do sanfoneiro com o seu filho Gonzaguinha, interpretado pelos atores Alison Santos e Giancarlo di Tommaso e pelo gaúcho Júlio Andrade. O último deles, inclusive, é um dos destaques da produção. Além da semelhança física com o cantor e compositor Gonzaguinha, ele impressiona por conseguir incorporar as singularidades do músico: seu jeito de caminhar, o ar crítico, a forma como se portava nas apresentações. “Gonzaga: de pai para filho” mostra ainda como Gonzaguinha, mesmo bastante afastado do pai, queria reconhecer a sua história a partir da figura do Rei do Baião. Breno

Silveira quis fazer o filme depois que teve acesso a fitas cassetes com conversas entre o pai e o filho. Nos encontros, Gonzaguinha queria saber da relação de Gonzaga com a sua mãe e da sua infância no Exu. Essas passagens estão presentes no filme e mostram o renascer da relação entre os dois, num dos momentos mais significativos da produção, protagonizados por Adélio Lima, como Gonzagão, e Júlio Andrade, como Gonzaguinha. O “querer saber” do filho permeia toda a produção. É assim que ficamos sabendo que Gonzaga passou anos no exército, mas nunca atirou em ninguém. Sabemos que ele deixou o Exu, pois se apaixonou pela filha do coronel da cidade. Sabemos ainda que conheceu a mãe de Gonzaguinha em um bairro boêmio do Rio de Janeiro. Sabemos que o homem bruto do Sertão sofreu e muito para se adaptar ao “moderno” e nunca teve problema em cantar para os “milicas”, em plena ditadura militar, enquanto o seu filho se transforma num dos representantes da liberdade no País. “Gonzaga: de pai para filho” tem o mérito de apresentar ao público brasileiro um dos seus maiores defensores, a partir da interpretação de três atores: Land Vieira, Chambinho do Acordeon e Adélio Lima. Mesmo se aproximando dos dramas novelescos, o filme não passa vergonha, como achavam os críticos – quando as gravações foram anunciadas. É uma obra que sabe se comunicar com o seu público e faz isso bem! 25


Grupos locais embalaram pĂşblico na feira de Timorante.

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brincou, antes de tomar o microfone e entoar uma música de sua autoria sobre a Festa do Vaqueiro, que ela organiza em Timorante todo mês de janeiro.

12|12|2012

No Sertão, forró começou na feira de Timorante Artistas locais abriram grade musical na terça (11/12), em Timorante, distrito do Exu Por André Zahar Fotos Eric Gomes

De que os talentos brotam no Sertão do Araripe ninguém duvida. Luiz Gonzaga foi o mais conhecido e nos mostrou a importância de regá-los, para que possam crescer e dar frutos. Daí o simbolismo de terem sido artistas locais a iniciarem, na manhã da terça-feira (11/12), a programação musical da festa do centenário de Gonzagão no Exu. Por iniciativa do projeto Cultura Livre nas Feiras, da Secretaria de Cultura de Pernambuco, Ivonete Ferreira, Léo Barros e Hellen e Mistura Nordestina se apresentaram na feira livre de Timorante, distrito da cidade onde nasceu Luiz Gonzaga. O projeto ajuda a valorizar o artista local, dando a oportunidade de tocar num ambiente tradicionalmente frequentado por toda a cidade: as feiras livres. Compareceu uma plateia de cerca de 100 pessoas de todas as idades. Uma das mais empolgadas era Maria Mirtes de Deus, de 67 anos, que dançou ao som da sanfona de Léo Barros. “Só não estou adorando mais porque não estou cantando”,

Assim como outros conterrâneos, Maria Mirtes traz na memória histórias de Seu Lua. Segundo ela, sua mãe, Rosina Alves, vendia tripa de gado para Seu Januário, pai de Luiz Gonzaga, fazer buchada. “Tinha show de Januário no sítio de minha avó, Henriqueta, na Rua Velha. Depois que ele se cansava, pedia para Luiz, que então tinha uns 12 anos, tocar. Ele era tão pequeno que se sentava e as pernas não tocavam no chão. Eu tinha 4 anos nessa época. Quando eu fiz 18 anos, vi Luiz tocando em cima de caminhão na praça de Timorante”, contou. Responsável pelo primeiro show do dia, Ivonete Ferreira, 29, resumiu parte da trajetória dos artistas populares, que frequentemente fazem eco à história de Gonzagão. Ela, que trabalha em plantações para ajudar a família, aprendeu a tocar violão sozinha. Após passar cerca de nove anos pegando o instrumento emprestado, acaba de comprar o seu próprio violão, em oito prestações que ainda não terminou de quitar. Para tocar no palco armado na Rua Nelson Araújo, ao lado de barracas de frutas e carne, Ivonete preparou um repertório de MPB. Foi a primeira vez que tocou para o público de sua cidade: “Tem gente que nem sabia que eu triscava violão”, revelou. Ivonete destacou ainda a importância de projetos como o Cultura Livre: “Quando tem um evento desses, é preciso abraçar. As oportunidades são poucas, não dá pra desperdiçar”. Depois dela, foi a vez de Hellen Maria Souza Alencar, 14 anos, tocar forró pé de serra ao lado do grupo Mistura Nordestina. A banda de Exu deu destaque para clássicos de Luiz Gonzaga, como “Vem morena”, “Hora do adeus” e “Cintura fina”. O forrozeiro Léo Barros, também do Exu, completou o tributo ao Rei do Baião, e botou o povo para dançar tocando sucessos como “Numa sala de reboco”, “Sabiá”, entre outros. 27


Mediada por José Mauro, com microfone, mesa foi composta por Marcelo Melo, Chico Bezerra e Anselmo Alves

12|12|2012

Marcelo Melo: “Gonzaga mexeu com o imaginário das pessoas” Seminário “Luiz Gonzaga - 100 anos do Rei do Baião” aconteceu na Torre Malakoff Por André Zahar Fotos Eric Gomes

A multiplicidade de assuntos a serem discutidos sobre a obra e a vida de Gonzagão foi ressaltada no seminário “Luiz Gonzaga – 100 anos do Rei do Baião”, que aconteceu na tarde desta terça-feira (11), na Torre Malakoff, em frente à Praça do Arsenal, no bairro do Recife. Com a participação do radialista Xico Bezerra, o jornalista Anselmo Alves e o músico Marcelo Melo, do Quinteto Violado, a conversa mediada por José Mauro Alencar girou em torno da importância do centenário de Gonzaga. Para aqueles que reclamam sobre a quantidade de celebrações em torno do centenário do Rei do Baião, Marcelo 28


Alencar deu a resposta: “Gonzaga não era só um sanfoneiro, não era só o Rei do Baião. Ele mexeu com o imaginário das pessoas, com o urbano, o amor, a tristeza, a covardia. Tudo isso ele mexeu, e ele mexeu porque ia buscar nos poetas aquilo que ele queria dizer. Outra pessoa veio, uma vez, me dizer: ‘Não sei por que esse pessoal fala tanto de Luiz Gonzaga, que, na verdade, era um analfabeto, nunca escreveu um verso’. É preciso ter a compreensão pra entender o poeta que teve a capacidade de traduzir no verso o sentido das coisas…. Esses poetas todos não teriam nunca o realce se não fosse através da voz de Gonzaga. Então são todos esses valores que a gente tem que ter a consciência crítica para observar”.

“A cada fala, a cada linha de livro, a cada verso de música, a gente fica impressionado com a genialidade dele. Ele sempre se juntou com gente que complementou sua arte. E tudo que fez, fez muito bem feito. Uma vez eu estava conversando, não sei se era com Maciel [Melo] ou com Petrúcio [Amorim]. Mas lembro que disse: ‘Mas, rapaz, Gonzaga lascou a gente, porque tudo que ele fez foi tão bem feito, que o que a gente for falar agora nem vai ter mais graça’. (risos) Então a gente faz sabendo que todos nós estamos aquém da capacidade, da genialidade de Gonzaga”, adicionou Xico Bezerra.

Durante a palestra, Marcelo Alencar destacou as razões que fazem de Gonzaga uma figura tão importante, homenageada durante um ano inteiro pelo centenário do seu aniversário (13/12). “Ele é de uma grandiosidade artística que a gente tem que realmente tirar o chapéu, e eu tenho o prazer de dizer a vocês que eu tive o privilégio de conviver com ele. É uma grandeza que a gente tem na vida artística nacional”, complementou o músico.

Para os debatedores, o centenário de Luiz Gonzaga foi importante principalmente por romper barreiras regionais, ressaltando a importância do músico não só no Nordeste, mas na música brasileira e mundial. “Gonzaga está voltando com a força total e trazendo a beleza dos violeiros, cantadores, tudo, como um deus imaginário. Tenho uma certa crítica apenas aos ‘gonzagueanos’ muito conservadores, porque Gonzaga tocou guitarra, tocou com órgão, ele não era conservador, era transgressor”, afirmou Anselmo Alves.

Alselmo Alves concordou com o colega e acrescentou: “É muito interessante a reflexão do centenário de Luiz Gonzaga, porque ele está na padaria, nos cinemas, em todos os lugares. Gonzaga é uma entidade, mas gosto da dessacralização dele. Não tem como falar do sertão sem citar Gonzagão no meio. Acho que quem melhor o defendeu foi Patativa, que diz que ‘Gonzaga foi o sertão de carne e osso’”.

“Há pouco tempo, eu vi um depoimento de Gilberto Gil onde ele dizia: ‘se não fosse Gonzaga, eu não era ninguém’. É muito forte isso, mas é o tamanho da importância dele. Gil inclusive começou tocando sanfona. O que tento dizer é que essas coisas são suficientes pra gente perceber que tudo o que acontecer nesse centenário e posterior a esse centenário é louvável e meritório”, finalizou Marcelo Melo. 29


Governador Eduardo Campos assina decreto que transforma Parque Aza Branca em ĂĄrea de utilidade pĂşblica, no Exu-PE

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13|12|2012

Parque Aza Branca agora é patrimônio público Governador do Estado assinou um decreto para o espaço que guarda a memória de Lua Foto Eric Gomes

Aproveitando a data oficial do centenário de Luiz Gonzaga, o governador do Estado, Eduardo Campos, assinou um decreto que torna o Parque Aza Branca de utilidade pública. O anúncio foi feito na tarde desta quinta-feira (13/12), no próprio parque, que, um dia, abrigou Gonzagão e, até hoje, é considerado um santuário para os seus seguidores e fãs. O governador ressalvou que, há oito meses, negocia com os proprietários do Parque Aza Branca – responsáveis por manter parte do acervo de Gonzagão, durante anos. “Temos que ter o parque como um patrimônio público para que a história de Luiz Gonzaga possa continuar de geração em geração”, reforçou ele, ao falar da importância desta ação. A cerimônia contou ainda com o lançamento de um medalhão confeccionado pela Casa da Moeda, em comemoração ao centenário, e do selo produzido pelos

Correios, também em homenagem ao centenário, que será comercializado em todo o Brasil. O prefeito do Exu, Leo Saraiva, ressalvou ainda a importância do centenário para cidade e para a cultura nordestina, sem deixar de agradecer aos fãs que cruzaram fronteiras e vieram ao Exu celebrar o aniversario de Luiz Gonzaga. O Secretário da Cultura Fernando Duarte e o Ministro da Integração Nacional Fernando Bezerra também estavam presentes na cerimônia. Logo após o anúncio, foi exibido o filme “Gonzaga: de pai para filho”, do cineasta carioca Breno Silveira. O Parque Aza Branca estava cheio para a sessão, o público acompanhou todas as canções e se emocionou ao ver a história de Gonzagão e Gonzaguinha na tela de cinema. O longa-metragem teve locações no Recife e na própria cidade do Exu. 31


Eric Gomes

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Marcelo Soares

Eric Gomes Oficinas de animação, oito baixos e xilogravura compuseram a grade formativa no Exu. Destaque à esquerda: Caíque, de apenas 8 anos.


12|12|2012

Oficinas começam no Exu com boa procura e interesse da população Ações de formação cultural estimulam a criatividade da população da cidade sertaneja Por André Zahar Fotos Eric Gomes e Marcelo Soares

Aline Gonçalves de Lima, de 20 anos, começou a desenhar croquis de roupas antes de saber o que é a profissão de estilista. Aprendeu sozinha e, atualmente, já tem mais de 800 desenhos acumulados em casa. Nesta terça-feira (11/12), ela era uma entre as alunas da oficina de moda realizada no Exu, por ocasião do centenário de Luiz Gonzaga. Mas Aline está longe de ser um caso isolado. Nas salas do Colégio Municipal Bárbara de Alencar, onde estão sendo oferecidos, para mais de 50 inscritos, esse e os outros cursos (xilogravura, cineclubismo, cinema de animação, oito baixos e patrimônio), é fácil encontrar talentos natos em busca de aprimoramento. Iniciada dia 5/12, a oficina de oito baixos, por exemplo, reúne desde o pequeno Caíque Bezerra de Carvalho, de 8 anos, até a professora de biologia Ana Varcan, de 24. Os dois compartilham a mesma paixão por Lua e pelo instrumento que ele tocou no começo da carreira. Caíque deseja fazer carreira como sanfoneiro e piloto de helicóptero. Já Ana levou seis alunos seus para fazerem o curso e, animada com as aulas, comprou o seu próprio fole.

Durante as aulas, o sanfoneiro Luizinho Calixto utiliza um método próprio, para que, até o final da semana, aprendam duas músicas de Gonzaga – “Asa branca” e “Assum preto” – e o “Parabéns para você”, para tocar, no domingo (16/12), na missa do Parque Aza Branca. O sanfoneiro já esteve no Exu em 2010, ministrando um curso de uma semana, e em 2011, para tocar. Pretende voltar ano que vem. “Quando eu vier de novo, a semente estará plantada”, disse. “Assum preto”e “Asa branca”, ao lado de “A volta da asa branca”, também são algumas das canções de Gonzagão utilizadas como trilha sonora na oficina de animação que tem Lula Gonzaga, homônimo do Rei do Baião, como facilitador. Tal como Luizinho Calixto, ele também se gratifica em abrir, desde 1981, portas para alunos de escolas públicas que geralmente não possuíam qualquer noção sobre o assunto abordado antes do curso. Ao final das aulas, será exibida a animação “A volta da Asa Branca”, produzida por alunos de oficinas em diversas cidades do estado ao longo do ano. 33


Lula destaca que alguns de seus ex-alunos hoje trabalham no cinema ou na indústria de videogames. Esse pode ser, quem sabe, um caminho a ser seguido por Antônio Gevisson dos Santos, de 16 anos. Em sua segunda aula, ele caprichava nas canetinhas coloridas ao desenhar uma animação sobre a música Forró de Zé Buchudo. “Eu desenho desde pequeno, mas nunca fiz curso. Soube da oficina pelo rádio e vim para cá. Talvez, no futuro, eu queira ser professor de arte”.

Na aula desta terça, Aline, que deseja fazer faculdade de design de moda, preparou um croqui de um colar utilizando a ideia de um cinto de munição e a estrela de seis pontas dos chapéus de cangaceiros. “Eu já queria trabalhar com roupas inspiradas na nossa cultura, mas ainda não tinha formação”, disse.

Na oficina “A ressignificação da indumentária de Luiz Gonzaga”, a designer Roberta Duarte e a historiadora Rebecca Menezes abordam a estética das vestimentas de Luiz Gonzaga e os expoentes do mundo da moda que buscaram inspiração na temática nordestina. “A maior importância é ensinar os alunos a valorizar o território deles, para que saibam aplicar estes elementos de forma ampla”, diz Roberta. 34

Marcelo Soares

Na oficina de xilogravura, Zé Lourenço enfatiza que a técnica empregada para ilustrar cordéis hoje movimenta um comércio bem mais amplo – está presente, por exemplo, em camisas, canecas, azulejos, bolsas e capas de CD. O grafiteiro Sérgio Oliveira, 28, levou a esposa, Leila, de 21, e o irmão, Edgar, de 27, que também participam de sua equipe, para assistirem às aulas. Esta oficina é mais uma atividade para o nosso currículo”, diz.

Oficina de xilogravura no Colégio Municipal Bárbara de Alencar


12|12|2012

Museu do Estado abre suas portas para Gonzaga Exposição conta com livros, discos e até sanfona de oito baixos Foto Ricardo Moura

O Museu do Estado de Pernambuco (Mepe) abriu suas portas na terça (11/12) para a exibição da mostra “Luiz Gonzaga, Rei do Baião”, com uma coleção de objetos relacionados à vida e obra do ilustre sanfoneiro do Exu. As peças apresentadas fazem parte do acervo pessoal do colecionador Paulo Vanderley, um bancário que, há vinte anos, se dedica a reunir diversos objetos relacionados a Gonzaga. “Aqui nós temos apenas uma mostra do meu acervo, cerca de 10%, dos livros, revistas, discos e outros registros que tenho. Mas fiz questão de selecionar os objetos mais raros”, comenta Paulo. Entre esses objetos especiais, o visitante poderá ver a sanfona de oito baixos dada por Luiz Gonzaga a Arlindo dos Oito Baixos, um dos sanfoneiros mais tradicionais sediados na nossa região metropolitana. Também é possível ver réplicas de diversas roupas usadas pelo próprio Gonzagão, como gibão e chapéu de couro, e diversos vídeos de performances do sanfoneiro.

Abertura da exposição ” Xote, Maracatu e Baião” no Museu do Estado de Pernambuco

Paulo, que morou três anos no Exu quando era menino, teve contato direto com Gonzagão e, até hoje, vive os ecos de sua presença. “Luiz Gonzaga foi muito influente na minha formação como cidadão. Na enciclopédia musical dele, estão presentes o debate sobre a terra, sobre a sociedade, as desigualdades, o amor, etc. No Exu, meu pai chegou a comprar um carro dele”, relembra. Na opinião de Anselmo Alves, curador convidado pelo Museu do Estado para montar o recorte da mostra, “Paulo é a maior referência em memória de Gonzaga”. Foi ele, inclusive, que deu assessoria ao filme “Gonzaga: de pai para filho”, em cartaz em cinemas de todo o Brasil. A homenagem ficou completa com as apresentações musicais de Leda Dias e do músico Ari de Arimatéa. 35


Grupo Magiluth apresentou a peça em frente à Torre Malakoff 12|12|2012

Grupo Magiluth emocionou o público com “Luiz Lua Gonzaga” Espetáculo sobre o Rei do Baião resgatou o imaginário gonzagueano Por Gabriela Alcântara Fotos Ricardo Moura

“A grandeza de Luiz Gonzaga não cabe dentro de um filme”, afirmou diversas vezes o diretor Breno Silveira, ao falar de seu longa “Gonzaga – de pai para filho”. Mas, se existe um espaço infinito que comporta bem a entidade gonzagueana, esse espaço é o imaginário popular. E é seguindo essa premissa que os rapazes do Grupo Magiluth montaram o espetáculo “Luiz Lua Gonzaga”, apresentado na noite de terça-feira (11/12), na Praça do Arsenal, no Bairro do Recife. “A gente não queria fazer desse trabalho um especial de televisão, a gente queria mesmo era botar o Luiz Gonzaga a partir das nossas memórias. Trazer o que tinha dentro da gente, da nossa infância, o interior, o São João, 36

que é uma coisa que está dentro do imaginário de todo mundo que é daqui de Pernambuco. Claro que não tem como escapar da figura dele, que é uma coisa muito forte, então, dentro desse trabalho, a gente trouxe muitas referências, lemos a biografia da Dominique Dreyfus, assistimos documentários, para trazer essa atmosfera para o trabalho”, afirmou o ator Giordano Castro. Montado em três meses, a partir do Prêmio Funarte do Centenário Luiz Gonzaga, o espetáculo alcançou o desejo de seus criadores. Com uma cenografia tão simples, aos modos gonzagueanos, “Luiz Lua Gonzaga” cativou de imediato o público da Praça do Arsenal, que até compartilhou com os atores a saudade dos momentos da in-


“um relato de como o povo nordestino partilha os mesmos costumes de Gonzaga”

fância, dos causos familiares que estão presentes nos festejos juninos, entre outras lembranças. E são as memórias que levantam as conversas dos personagens, que esperam “o homem” vir de volta ao seu Sertão para uma grande festa. Sem imaginarem que o visitante não chegará, eles desfilam lembranças lúdicas e poéticas, convidando o público a interagir a todo momento. Sem perder o ritmo, a peça do Magiluth atinge o objetivo de não ser mais uma biografia do Rei do Baião, mas, sim, um divertido relato de como o povo nordestino partilha os mesmos costumes de Gonzaga até hoje. Misturando as canções do Lua com experiências dos atores e da plateia,

o espetáculo de rua se entrega ao acaso de forma prazerosa. Ao final de sua fala como personagem e ator, ele revelou que sempre lembrará de “Onde o Nordeste garoa”, música do Rei do Baião que fala de sua cidade natal, Garanhuns, que seus pais cantavam como canção de ninar até os seus 10 anos. Para a sertaneja Odília Nunes, que assistiu ao espetáculo com a filha e alguns amigos, o trabalho foi um belo presente. Há quase 17 anos sem visitar o Sertão do Pajeú, onde nasceu, ela diz que se divertiu e se emocionou: “Sou sertaneja e estou superemocionada. Acho que consegui voltar para a minha terra, mesmo estando fisicamente aqui no Recife. Foi lindo”. 37


12|12|2012

Mesa debateu a influência nordestina nas músicas de Gonzaga Jornalista, poeta e músico conversaram sobre a obra do Rei do Baião Fotos Ricardo Moura

“A história de Gonzaga é a história do Nordeste, é a história dos nordestinos”, afirmou Dominique Dreyfus, durante o debate “Formação cultural do povo sertanejo”, que aconteceu na tarde da terça-feira (11/12) na Torre Malakoff, bairro do Recife, no centro. Acompanhada do compositor Onildo Almeida e do poeta José Mauro de Alencar, a jornalista francesa conversou sobre as influências da cultura nordestina nas canções do Rei do Baião. Visivelmente presente nas vestimentas de Gonzaga, a cultura dos vaqueiros sertanejos é encontrada também nas suas músicas e em alguns comportamentos. “Gonzaga adotou o chapéu de vaqueiro e, na música, entre outras coisas, o aboio”, afirmou Dominique Dreyfus. Compositor do sucesso “A feira de Caruaru”, Onildo Almeida concordou e acrescentou: “O aboio é uma canção que o vaqueiro tem na garganta e que solta na hora de tanger o gado. E que emociona. O aboio é como uma lágrima que cai, é muito bonito. E Gonzaga traz isso para a sua música”.

José Mauro e Dominique Dreyfus debateram na Torre Malakoff

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Outro traço forte de Luiz Gonzaga destacado pelos debatedores era a dualidade entre a influência dos coronéis e dos cangaceiros. Negro e de família pobre, o Rei do Baião tinha “um pé em cada lado”, afirmou Dominique Dreyfus. “Ele sempre falava que gostava da autoridade. E, ao mesmo tempo, tinha admiração pelo herói, pelo mito do cangaceiro. E tinha também esse lado um pouco subversivo, como o Lampião. Então ele retomava todas essas características da sociedade nordestina, os vaqueiros sofridos, os


bandidos que se revoltavam e a disciplina. Ele tinha tudo isso no vestuário, no canto e no comportamento”, defendeu a jornalista. Na opinião de Onildo Almeida, o cangaço estava presente na vida de Gonzaga e vice-versa. “Há quem diga que Lampião tirava de quem tinha pra dar a quem não tinha. Essa atitude era simpática a Luiz Gonzaga. Ele sempre achou que isso era certo. Não enveredou para endeusar essa coisa, porém valorizava. E foi inspirado nisso que ele criou a sua indumentária, para mostrar a sua música nordestina, a música do seu povo, através do chapéu de couro, do gibão, e enriquecida liricamente com a sua sanfona”, complementou. Os palestrantes lembraram também curiosidades de Luiz Gonzaga, como a religiosidade, muito mais presente em suas músicas do que no seu comportamento cotidiano. “É curioso quando se convive com o Gonzaga.… Ele cantou muito todos os santos, São José, São Pedro. E, na prática, foi ele quem financiou, acho, os vitrais da igreja do Exu. Ele criou a Missa do Vaqueiro, uma missa muito linda. E, ao mesmo tempo, na convivência que eu tive com ele, ele nunca ia pra uma missa, não tinha uma atitude religiosa. Então, a obra dele era mais de uma referência às crenças, à cultura, mas não era obrigatoriamente o modo dele de fazer”, afirmou Dreyfus. A mesa lembrou ainda a relação de Gonzaga com a música dos repentistas, cancioneiros típicos do Nordeste. “Ele sempre falou que a base do baião que ele criou com

Humberto Teixeira foi exatamente o rojão que os repentistas tocam. Eles fazem um bordão, um trechinho instrumental, enquanto a voz vai lançar a próxima estrofe. E foi esse ritmo que Gonzaga pegou para fazer o baião dele, a base mesmo da inspiração dele é o repentista”, esclareceu Dreyfus.

“A história de Gonzaga é a história do Nordeste, é a história dos nordestinos” Dominique Dreyfus

“O que mais me admira no repentista é que ele não fez nenhuma faculdade, nenhuma universidade, mas, quando se reporta ao mar, ele conhece todos os peixes, cita nome por nome. E eles mostram o que sabem cantando o verso. Isso está na veia do nordestino. Nossos violeiros são realmente verdadeiros professores. E Luiz Gonzaga, faço questão de dizer, está presente em todos esses aspectos. Porque Gonzaga, através do seu baião, da sua música, retrata tudo isso também”, finalizou Onildo Almeida. 39


que dá para a Rua Floriano Peixoto, na terça-feira (11/12), as atrações do Centenário de Gonzaga atraíam a atenção de turistas, trabalhadores e transeuntes, interessados pelos ritmos que embalaram o mestre Luiz Gonzaga. Pela manhã, Seu Nikanor, sanfoneiro, acompanhado por zabumba e triângulo, passeava de raio a raio do prédio da Casa da Cultura, prestando sua homenagem. A apresentação foi um presente que ele fez questão de dar ao mestre que lhe inspirou até no nome, já que ele faz questão de ser chamado de Seu Nikanor, assim como Gonzaga era chamado por muitos de Seu Luiz, em tom de respeito.

Seu Nikanor animou a Casa da Cultura 12|12|2012

Forró embalou o pátio da Casa da Cultura na terça Durante comemoração do centenário, local vira palco para homenagear Gonzaga Foto Costa Neto

Neste mês de dezembro, a Casa da Cultura é um oásis musical no meio do corre-corre do centro do Recife. No pátio 40

À tarde, o forró tomou conta de um espaço montado no pátio especialmente para a apresentação de diversos sanfoneiros durante a semana. Nesta terça, passaram por lá Zequinha de Aleixo, Paulo dos Oito Baixos e Bidinga do Arcodeon. Muitos turistas se aproximavam, como Félix dos Santos, professor de capoeira, que fez questão de tirar foto com a família inteira ao lado do sanfoneiro Paulo, durante sua apresentação. Para Félix, que é de Salvador e estava levando sua família pela primeira vez à Casa, a apresentação é uma iniciativa muito boa. “Já vi a programação e pretendo comparecer a outros eventos, principalmente aos shows no Arsenal”, comentou. No fim da tarde, a Quadrilha Junina Tradição, do Morro da Conceição, fez uma apresentação especial ao som das músicas mais conhecidas de Gonzaga, como “São João na roça” e “Olha pro céu”. Muitos turistas, que chegavam das Ilhas Canárias no navio Costa Favolosa, fizeram questão de registrar a dança típica do período junino.


13|12|2012

Acima apresentação de xaxado Cabras de Lampião. Abaixo, público assistindo à Mostra Sertões.

Diversidade cultural no palco e na plateia do Parque Aza Branca Caboclinhos, xaxado e cinema para público da Bahia, do Ceará e Maranhão Por André Zahar Fotos Marcelo Soares

Apresentações de música e filmes no espaço do Parque Aza Branca, no Exu, entre as casas onde viveram Luiz Gonzaga e seu pai, Januário, mostraram, na quarta-feira (12/12), a diversidade do universo gonzagueano. Não só nas exibições do Caboclinho 7 Flexas, do grupo de xaxado Cabras de Lampião e do II Cine Exu – Mostra Sertões do Estado de Pernambuco esta pluralidade ficou evidente, mas também no público, que, além de Pernambuco, veio de locais como Bahia, Ceará, Maranhão e até de fora do país. De Juazeiro do Norte (CE), o poeta Pedro Bandeira, 74, foi um dos homenageados durante o II Cine Exu. O escritor, que acaba de lançar um cordel sobre o centenário de Lua – “Cem anos de Gonzagão: nascimento, vida e morte” –, foi um dos criadores da Missa do Vaqueiro, em 1970, junto com o Rei do Baião e o Padre João Câncio. Ele conta que conheceu Lua no Crato (CE) “procurando uma barraca 41


para comer baião de dois com pequi” e se lembra com carinho de quando foi recebido por Gonzaga no Rio de Janeiro. O sanfoneiro o levou ao programa de Flávio Cavalcanti e para as rádios cariocas. Em relação ao centenário, Bandeira comemora a produção cultural gerada pela data. “O mais importante são os filmes, livros, cordéis que estão sendo feitos. O que se diz o vento carrega, mas o que se escreve não morre”, assinalou. Diego Andrade, de 27 anos, de Juazeiro (BA), se considera privilegiado por poder, como consultor de vendas, estar toda semana no Exu. Ele é fã de Luiz Gonzaga e coleciona LPs do ídolo. “Desde 1945, na primeira gravação, até 1989, Luiz Gonzaga cantou o Nordeste de A a Z”, opina. Filha da exuense Suzana Teixeira, a norte-americana Lais Lacher, de 29 anos, moradora do Texas, se encantou com a apresentação de xaxado. Ela se disse empolgada com a oportunidade de se aprofundar na cultura da mãe, em especial no que se refere a Gonzagão. “Já conhecia algumas músicas de Luiz Gonzaga. Gosto muito de Asa Branca. Viemos por causa do centenário, e está sendo muito bom ver com meus olhos uma cultura tão diferente. Minha família aqui é grande e se junta todo dia para tocar forró. Já aprendi a tocar triângulo e zabumba. Talvez agora eu faça aula de sanfona”, afirma. 42

Cine Exu Durante o II Cine Exu, foram exibidos oito curta-metragens produzidos por comunidades dos sertões pernambucanos durante as oficinas do projeto Cinema no Interior. Presente na cerimônia, o presidente da Fundarpe, Severino Pessoa, elogiou a iniciativa do cineasta Marcos Carvalho, que coordena o projeto. “Fazer cinema no sertão é um sacerdócio. As dificuldades são muito grandes e a produção requer muito esforço. Temos que continuar investindo na produção do sertão e na formação de público”, disse Pessoa. Marcos Carvalho afirmou que o projeto, este ano, superou suas expectativas. “Fizemos oito oficinas no sertão, em todas as regiões. Foi muito sacrifício, mas valeu a pena. Na primeira edição, alguns curtas foram selecionados para festivais. Embora este não seja nosso objetivo principal, pela dedicação e talento das pessoas envolvidas, alguns filmes também podem fazer carreira”, apostou. Foram exibidos os filmes “Umbilina”, “Verde vento”, “O cavaleiro de São José”, “A promessa”, “O saco do velho”, “Amor ao pôr do sol”, “Zoma e Entra Lua”, “A casa é sua”. Com base na obra de Pedro Bandeira, este último foi produzido pelos representantes de todos os sertões em homenagem a Luiz Gonzaga. Também houve entrega de prêmios de melhor ator, atriz, coadjuvantes, figurino, produção, argumento, roteiro e filme, escolhidos por júris técnico e especial.


Xaxado A apresentação do grupo Cabras de Lampião, de Serra Talhada, contou a história do bando de Lampião e do ritmo do xaxado, criado por cangaceiros para se distraírem nos momentos entre os combates. Por conta do centenário, foi incluída uma introdução em versos, declamada pelo ator Carlos Silva, sobre a história de Luiz Gonzaga.

Irmã de Paulo Sérgio dos Santos, o Paulinho, sucessor do fundador José Severino dos Santos, o Zé Alfaiate, a dançarina Carla Andréa Santos representou o Brasil em seu diadema. Ela frisou a importância de a diversidade cultural do Nordeste estar representada na festa do centenário de seu maior expoente. “Além do forró, o caboclinho, o maracatu e outros ritmos fazem parte da cultura nordestina”, expressou.

Com base de zabumba, sanfona e triângulo, músicas como “Olha a pisada”, de Gonzaga e Zé Dantas, integraram o repertório do espetáculo, protagonizado por dez dançarinos e conduzido por quatro músicos. Diretora artística da companhia, Cleonice Maria, comemorou a receptividade do público no Exu. “Tivemos um público diferente, com pessoas de vários estados. Foi ótimo. Nada identifica melhor o Nordeste do que o xaxado, que acaba sendo uma linguagem unificada para toda a região”, afirma.

Caboclinho A agremiação Caboclinho 7 Flexas prestou sua homenagem a Luiz Gonzaga tocando Asa Branca no ritmo guerra, que caracteriza o folguedo. Mas também mostrou seus outros ritmos – baião, perré e toré. Ao som das melodias executadas em surdo, exeres, atabaque e gaita, apresentaram-se 40 integrantes.

Poeta Pedro Bandeira foi um dos homenageados do Cine Exu

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Salão da exposição Luiz Gonzaga Empreendedor, na Torre Malakoff 13|12|2012

um exemplo de empreendedor Na Torre Malakoff, exposição compartilha as invenções de Gonzaga e de outros pernambucanos Por Joana Pires Foto Costa Neto

Quem chega ao salão da exposição “Luiz Gonzaga Empreendedor”, na Torre Malakoff, organizada pelo Sebrae com o apoio da Fundarpe/Secult, encontra, já na entrada, um comentário do colecionador Paulo Vanderley, que resume esse lado pouco conhecido de Gonzaga. Está escrito: “Foi um gestor espontâneo e intuitivo. Era um cara que tinha uma visão, uma iniciativa empreendedora, instintiva. Ele ia vendo que as coisas iam dando certo, ia fazendo, ia criando, ia inventando. Quando as pessoas falavam que não ia funcionar, aí que ele queria fazer mesmo”. E essa fala aproxima a figura de Gonzaga de diversas outras pessoas que, assim como ele, tiveram a coragem de se aventurar na cultura pernambucana e fazer dela um meio de sobrevivência e, mais que isso, uma história de sucesso. Na Torre Malakoff, o visitante poderá ver exemplos de pessoas e iniciativas que caminharam nesse sentido. “O objetivo era materializar para o pequeno empreendedor como fazer uso da cultura como elemento na construção dos serviços com foco na economia criativa”, comenta o coordenador da exposição, Eduardo Maciel, gerente de comunicação do Sebrae. “Selecionamos Luiz Gonzaga como um exemplo empreendedor, por conta da empatia 44

que as pessoas têm com a sua história e a facilidade de aproximá-lo do cotidiano do público”, informa. Com a assessoria do consultor empresarial, professor Luiz Carvalheira, responsável pela fundamentação teórica da exposição, e da consultora Germana Uchoa, da área de economia criativa, a exposição foi definida em seis segmentos: moda, design, instrumentos e escolas musicais, música, entretenimento e gastronomia. “Escolhemos um grande nome de cada área e mais três pequenos casos para ilustrar nosso ponto de vista”. Entre os grandes nomes, está o chef de cozinha César Santos, do restaurante Oficina do Sabor, que trabalha com novas reformulações de receitas regionais, valorizando a cultura gastronômica local. Além dele, outras iniciativas são destacadas como “Jean do Mato”, dono do Restaurante do Matuto, em Salgueiro. Em um dos quadros da exposição, ele diz: “Gonzaga teve visão, atitude e acreditou no que ele sabia fazer, que era tocar e cantar o Nordeste”. A presença do Rei do Baião funciona como uma referência cultural para a exposição. “Para falar dele, não precisamos necessariamente nos referir ao gibão, mas à sua iniciativa de sempre buscar na cultura uma inspiração para a sua produção”, completa Eduardo Maciel. Também estão presentes na exposição os trabalhos do designer tipográfico Bugg, da designer de bijouterias Simone de Andrade, do dono de restaurante Seu Celé, do ilustrador Derlon, entre outros. A exposição permanece em cartaz até o dia 11 de janeiro de 2013. A entrada é gratuita.


Nação de Luanda lembrou relação de Gonzaga com o maracatu 13|12|2012

Alvorada gonzagueana abriu dia do centenário no recife Forró, xote, maracatu e baião para homenagear o Rei Por Gabriela Alcântara Foto Ricardo Moura

Os tiros dos bacamarteiros de Abreu e Lima anunciaram o nascer da quinta-feira (13/12), comemorando o centenário de Luiz Gonzaga na Praça do Arsenal, no Bairro do Recife. Enquanto o dia começava, sanfoneiros, maracatu e bacamarteiros se uniam para celebrar Gonzagão em um só canto, lembrando a canção “Pau de arara”, na qual Lua afirmava carregar “xote, maracatu e baião”. Foi com essa referência que o mestre Antônio Roberto Nogueira, do Maracatu Nação de Luanda, explicou a relação entre Gonzaga e o maracatu: “O xote, o maracatu e o baião são peças do mesmo jogo. O maracatu é muito mais antigo, vem de 400 anos. E depois foi chegando a bagagem de cultura grande, que trouxe o baião e o xote. Luiz Gonzaga foi o continuador do maracatu, do coco, de tudo. Luiz Gonzaga levou o maracatu também na bagagem dele, e isso a gente agradece. Gonzaga é um universo de musicalidade”, afirmou Nogueira. Depois do forró que reuniu os passantes do bairro em uma grande festa, um grupo de sanfoneiros se reuniu em fren-

te ao Palácio do Governo, na Praça da República, onde fez uma roda de forró em homenagem ao Lua. Entre as canções tocadas, sucessos como “Que nem jiló” animavam turistas e recifenses. No meio dos tocadores, estava a jovem Francieli Veredas da Silva, de 11 anos. “Comecei a tocar sanfona com 9 anos, gosto muito de Luiz Gonzaga. A música que mais gosto é ‘Asa branca’. Estou gostando muito da festa, valoriza também a sanfona, que muita gente não presta atenção”, afirmou a menina, que disse ainda fazer sucesso entre os amigos do colégio, que sempre pedem para ela tocar. Ainda mais novo, o pequeno Cauã Vilarin, de apenas 8 anos, estava acompanhado do pai, o sanfoneiro Ari de Arimatéa. “Ele já sabe tocar umas três músicas de Gonzaga, fico muito feliz. Gonzaga disse uma vez a Alceu Valença: ‘Não deixe o meu forrozinho morrer’. E a gente vê um menino assim, desse tamanho, gostando de tocar Luiz Gonzaga. Isso me deixa muito feliz”, afirmou o pai. Cauã, assim como Francieli, diz que gosta muito de “Asa branca”: “É uma música brasileira que fala muito bem do Sertão”, disse, sorridente. Ao falar sobre o que pensa em ser quando crescer, repete o que dizem os amigos do colégio: “Eles sempre me falam que vou ser artista!”. A festa para o velho Lua continuou ao longo da manhã, quando os sanfoneiros foram até o Marco Zero, onde ficaram se revezando até o final da tarde para celebrar o aniversário de Gonzaga. Muito forró e arrasta-pé. 45


Depois de Chambinho do Acordeon (acima), que interpretou Gonzaga em “De pai para filho”, Santanna (abaixo) fechou a noite

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Estreia do Palco Gonzagão emocionou público no Exu Festa contou com a Orquestra Sinfônica de Teresina, Danilo Pernambucano, Zé Nilton e Santanna Fotos Eric Gomes

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“Luiz Gonzaga é tudo”. A frase sussurada entre a plateia do Palco Gonzagão, montado no Módulo Esportivo da cidade do Exu, representa o sentimento do público em relação a um dos seus maiores “reis”. Na noite de quarta-feira (12/12), Luiz Gonzaga foi celebrado por vários artistas na estreia do Palco Gonzagão, que, até o próximo sábado, recebe atrações musicais para celebrar o centenário do Rei do Baião, comemorado oficialmente nesta quinta-feira (13/12).

Penúltimo da noite, Chambinho tocou “Parabéns” em ritmo de baião para Gonzaga

No meio da plateia, um grupo de pessoas vestidas de amarelo se destacava cantando as versões da Orquestra Sinfônica de Teresina, primeira atração da noite, que era acompanhada pelo humorista e cantor João Cláudio. Este grupo era formado por 26 pessoas, que saíram de Picos, no Piauí, para celebrar o Rei do Baião na sua cidade natal. “Luiz Gonzaga é a cultura viva da nossa música, é a nossa tradição. Meu pai cantava sempre ‘Asa Branca’ para mim e ainda me emociono muito”, lembra Maria José Cipriano. Ela está hospedada com os amigos e familiares no Juazeiro do Norte e saiu do Piauí para o Exu, especialmente para acompanhar as comemorações do centenário de Luiz Gonzaga.

Um dos grandes nomes da festa, o sanfoneiro Chambinho do Acordeon, que interpretou Luiz Gonzaga no filme “Gonzaga: de pai para filho”, do cineasta Breno Silveira, não decepcionou a plateia do Exu, que estava ansiosa para recebê-lo. De origem piauiense, o músico cantou “Parabéns para você”, no ritmo de baião, e ainda lembrou: “Gonzaga faz 100 anos e a sorte é nossa”. Chambinho apresentou as suas versões das músicas “Respeita Januário”, “Sabiá”, “17 e 700”, “A vida do viajante”, entre outras e saudou as pessoas de todo o Nordeste que vieram para o Exu celebrar a data.

A segunda atração da festa, o sanfoneiro Danilo Pernambucano, de Salgueiro, animou o público com versões das músicas “Meu pé de serra”, “Que nem Jiló”, “Hora do adeus”, entre outras. O músico subiu ao palco vestindo um gibão para homenagear Gonzaga e conquistou a simpatia da plateia.

Aniversário

O forrozeiro Zé Nilton também fez parte da festa e ressaltou a importância de Gonzagão. “Vamos cantar Luiz Gonzaga, que cantou o Brasil para o mundo e cantou o nosso Sertão. Ele falou da nossa roça e da nossa seca, e, graças a Deus, já voltou a chover”, lembrou o músico, emendando a fala com a canção “Asa Branca”.

Para fechar o dia de festa, Santanna correspondeu às expectativas do público, falou da sua relação com Luiz Gonzaga e lembrou do pai – que também nasceu no Exu.

No dia oficial do centenário, o Palco Gonzagão recebe atrações especiais que prometem marcar a história da cidade, como Daniel Gonzaga. Filho de Gonzaguinha e neto do Rei do Baião, o cantor é reconhecido pela semelhança com seu pai e vai ao Exu com um show que destaca a presença e importância da música na sua família. Dominguinhos, Gilberto Gil e Joquinha Gonzaga, sobrinho de Seu Luiz, completam a festa que começa a partir das 21h. 47


Sanfoneiros de todas as idades tocaram no lugar onde Luiz cresceu. Epitácio Pessoa (acima). Na página ao lado, Wanderson de Oliveira, 12 anos, e banda Chá Cutuba 13|12|2012

Fazenda Araripe vira meca de forrozeiros no aniversário de Lua No dia do centenário, músicos e admiradores de Gonzaga vieram de várias partes do Brasil Por André Zahar Fotos Marcelo Soares

No dia em que Luiz Gonzaga completaria cem anos, os shows na Fazenda Araripe, no Exu, confirmaram, nesta quinta-feira (13/12), que a cidade natal de Lua virou uma espécie de meca para forrozeiros de todo o País. As apresentações de músicos da região do Araripe e arredores atraíram para o local, onde fica a casa onde viveu Seu Januário (pai de Gonzagão), visitantes de Marabá (PA) até São Bernardo do Campo (SP), além muitas outras caravanas. Tinha até gente que pedalou 750 km para participar da festa. O arrasta-pé começou cedo, por volta das 9h30. No meio de músicos que chegaram a conhecer e tocar com Gonzagão, como Epitácio Pessoa e Vital Barbosa, um garoto de 12 anos chamou atenção logo na segunda apresentação, dos Cabas de Gonzaga. Wanderson Araújo de Oliveira toca triângulo feito gente grande. Começou aos 7 anos e já perdeu a conta de quantos shows já fez. “Eu ouvia as músicas no rádio e treinava sozinho. Quero ser artista, ter banda de forró”, disse.

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Aos 59 anos, o sanfoneiro Epitácio Pessoa, que acompanhou o velho Lua tocando triângulo em excursões pelo Nordeste, cantou músicas do patrão e contou causos vividos ao lado dele. Depois da apresentação, só lamentou a ausência do amigo na festa: “No centenário do Araripe, quando ele tocou aqui, eu tinha 11 anos. Não dava para pisar no chão”. Vital Barbosa, 60, também aproveitou sua apresentação para falar da convivência com o homenageado. Ele lembrou de quando ganhou uma sanfona de 120 baixos, trazida por Luiz Gonzaga do Rio de Janeiro, em 1975. “Ele era muito generoso. Distribuiu mais de 100 sanfonas pelo Brasil inteiro”, contou. Durante a festa, apresentaram-se ainda os Seguidores do Rei, Chá Cutuba, Flávio Baião, Leninho de Bodocó, Tácyo Carvalho, Coral de Aboios de Serrita, Donizete Batista, Antônio da Mutuca e Os Três do Cariri. Com direito a muito forró pé de serra, os shows foram pontuados por clássicos

de Gonzagão, com o devido destaque que a ocasião pedia para a música “Meu Araripe”. Na plateia, a devoção por Seu Lua também era grande. A escritora Raimunda Frazão, 61, veio de São José de Ribamar (MA) para fazer sua homenagem ao Rei do Baião, que o pai levou para conhecer no trem da Estrada de Ferro São Luís-Teresina quando ela tinha 4 anos. Perto dela, o cordelista Paulo de Tarso, de Tauá (CE), exibia os 11 livretos que fez sobre Lua desde 1989. Somente este ano, ele escreveu três: “Assim cantou Gonzagão”, “O Gonzagão centenário” e “Luiz Gonzaga e o estado do Ceará”. Já o baiano Roberto Encarnação, de 44 anos, não poupou esforços. Literalmente: pedalou de Salvador até Exu, percorrendo 750 km em sete dias. Chegou na última terça-feira (11/12). “Sou apaixonado pela obra de Lua, queria conhecer sua cidade. Estar aqui e respirar Luiz Gonzaga o tempo inteiro é um sonho”, comemorou. 49


No dia do centenário, Gil (acima) fez show em homenagem ao seu mestre e lotou a casa. Na página ao lado, Daniel Gonzaga cantou para o avô

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Gil celebrou Seu Lula por quase duas horas de show Também subiram ao palco principal do Exu Dominguinhos e Daniel e Joquinha Gonzaga Por Dora Amorim Fotos Eric Gomes

No dia 13 de dezembro de 1984, Gilberto Gil estava no Exu para celebrar o aniversário de Luiz Gonzaga, ao lado de nomes como Gonzaguinha, Dominguinhos e o sanfoneiro Waldonys, que só tinha 10 anos na época. À noite, quando foram para o sítio de Seu Lula, o baiano observou os sapos saltitando, o barulho dos trovões de longe e escreveu uma das suas maiores homenagens ao Rei do Baião: a música “Treze de dezembro”. Quando Gilberto Gil cantou essa mesma canção na noite desta quinta-feira (13/12), 50


zagão. “Quero cantar no pé da serra, nesta cidade que sempre me acolheu tão bem”, lembrou antes de entoar os versos de “No meu pé de serra”, uma das canções mais significativas do avô. Emocionado, Daniel ressalvou a importância de Luiz Gonzaga para a música e a história do País e cantou ainda “Vida do viajante”, “Xote das meninas” e “Riacho do navio”.

26 anos depois, o público do Palco Gonzagão acompanhou a homenagem entoando os versos: “E a treze de dezembro nasceu nosso rei/ O nosso Rei do Baião/ A maior voz do Sertão”. Quando Gonzagão completaria 100 anos, Gilberto Gil estava mais uma vez presente na terra natal do seu mestre, desta vez como um dos grandes nomes da festa do centenário. Durante a apresentação, o cantor baiano celebrou Seu Lula durante quase duas horas e incluiu no seu repertório canções significativas do sanfoneiro pernambucano, como “Óia eu aqui de novo”, “Xote das meninas”, “Respeita Januário” e “Vem morena”. E também fez toda a plateia dançar com músicas de sua autoria, como a canção “Vamos fugir”, uma das mais celebradas da noite. Seguidor de Luiz Gonzaga, Gilberto Gil não escondeu o entusiasmo por estar participando da festa do centenário. Ele comentou sobre a sua relação com Gonzaga e disse que considera o sanfoneiro um pai musicalmente. “Foi ele e a música dele, o alumbramento dele, o seu espírito elevado que me influenciaram na infância e me ajudaram a compreender a música”, lembrou. “Ainda é pouco tudo que a gente faça para homenageá-lo”, completou.

Noite A abertura da noite ficou por conta de Daniel Gonzaga, neto de Seu Lula, que animou o público do Palco Gon-

Dominguinhos, parceiro de Gonzaga e um dos maiores responsáveis por divulgar o seu legado até hoje, também fez parte do dia oficial do centenário. Ele começou o concerto afirmando que o centenário é apenas um número e que Seu Lula deve ser louvado independente das datas comemorativas. Num dos momentos mais significativos da noite, cantou “Asa Branca” e falou da seca: “Nunca foi tão necessário tocar ‘Asa branca’ novamente. A seca está muito grande e está matando tudo, mas não vai demorar muito para a água voltar a bater por aqui, e nós vamos parar de tocar um pouco esta canção”. O sobrinho de Gonzagão, Joquinha Gonzaga, fechou a noite e não deixou de homenagear o tio, com um repertório repleto das suas canções. Esta sexta é a vez de Joãozinho do Exu, Amazan, Elba Ramalho e Waldonys celebrarem o centenário no Palco Gonzagão, também a partir das 21h.

Público No dia 13 de dezembro, a cidade do Exu acordou diferente. Desde cedo, várias pessoas foram para as ruas celebrar o Rei do Baião e cantar as suas músicas. Há nove anos, Mira Vilas-Boas vem ao Exu, com um grupo de amigos, celebrar o aniversário de Seu Lula, na sua terra natal. No ano do centenário, não podia ser diferente. “Somos um grupo que gosta e faz forró. Então, para todos nós, Luiz Gonzaga é tudo. É mais que uma inspiração”, lembrou. Para José Manuel Filho, natural do Exu, Luiz Gonzaga mudou a cidade: “Ele foi uma astro do mundo. Ele fez a cidade do Exu ficar conhecida e maravilhosa para todos. Cheguei a conhecê-lo. Foi rápido e muito significativo”, completou. 51


Fagner (acima) emocionou o público com suas músicas e as de Luiz Gonzaga. Alceu Valença (na página ao lado) também mesclou seus sucessos aos do Rei do Baião

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Com a praça cheia, o Recife prestou sua homenagem a Lua Fagner, Alceu Valença e Targino Gondim fizeram os shows do tributo Por Joana Pires Fotos Cosa Neto

Era gente por tudo quanto é lado. Na frente do palco, nas ruas laterais, na Praça do Arsenal, em frente à Torre Malakoff. O aniversariante era ilustre e o povo fez questão de ir à festa. Luiz Gonzaga, que faria 100 anos ontem (13/12), se vivo estivesse, com certeza se sentiria homenageado ao ver aquelas pessoas todas contando seus causos, falando seus nomes – Seu Luiz, Gonzagão, o Rei do Baião. Na abertura da festa, diversos artistas se revezaram no Baile do Gonzaga para recepcionar o público, que não pa52

rava quieto. Tocaram um repertório cheio das músicas mais emblemáticas de Gonzagão e até o “parabéns”. O público se vestiu a caráter: era chapéu de vaqueiro, de cangaceiro, e todo tipo de indumentária. Valia tudo para prestar uma homenagem ao rei do Sertão pernambucano. Muita gente estava ali aproveitando as músicas de Gonzaga, mas também à espera das músicas próprias que artistas como Fagner e Alceu entoariam naquela noite tão especial.


Para Fagner, a oportunidade de estar em um show especial, numa noite dedicada a Gonzagão, também emocionou. “Foi maravilhoso ver os olhos das pessoas brilhando. Isso motiva muito, especialmente hoje, por conta do que estamos comemorando. Gonzaga me botou na cena de novo no Nordeste. Ele me disse ‘Vem cá, menino’ e me mostrou o forró”, contou Fagner enquanto atendia aos pedidos dos fãs. No palco, junto com ele, uma banda luxuosa conquistou o público com arranjos fortes e emocionantes. Entre os músicos, uma prata da casa, o Maestro Spok, completava a festa. “Toquei com Fagner há anos. Receber esse convite de tocar de novo com ele e na noite do aniversário de Gonzaga é maravilhoso. Não tive a felicidade de conhecer o Rei do Baião, mas tive a felicidade de trabalhar com um príncipe, que é Fagner, e tantos outros artistas influenciados por esse Rei, como Elba, uma princesa do forró. Agradeço a eles por não me deixarem perder o que eu tenho de mais precioso, que é a alma do meu povo”, expressou Spok.

Fagner começou e terminou o show com forró, mas conquistou o público mesmo quando cantou os grandes sucessos de sua carreira, como “Deslizes”, “Canteiros”, “Noturnos” e a divertida “Cartaz”, guardada para os momentos finais do show. Emocionada, a plateia do Arsenal cantou junto todas as músicas. “Esperei 46 anos por esse momento”, disse Márcio Arcoverde, com a voz embargada. “Na minha infância, meu irmão ouvia muito Fagner e eu não entendia o porquê daquilo. Só depois que cresci é que fui entender a força dessas letras”, confessou.

Logo em seguida, foi a vez de Alceu Valença fazer um show quase todo baseado no forró gonzagueano, mas trazendo também algumas de suas composições mais importantes. “Vem morena”, “Cintura fina”, “Karolina” e “Baião” dividiram palco com “Anunciação”, “Tropicana”, “Pelas ruas que andei” e “La belle du jour”. No meio da festa, Alceu fez questão de contar o dia em que conheceu Luiz Gonzaga: “Eu estava fazendo um show em Juazeiro e ele estava assistindo. Quando terminei o show, ele disse: ‘Alceu!’ E eu: ‘O senhor veio fazer show também aqui em Juazeiro?’ E ele: ‘Não, vim de novo do Exu só pra lhe ver’. Fiquei sem saber se ele tinha gostado da minha música, das guitarras. Então perguntei, e ele respondeu: ‘Adorei, Alceu. É uma banda de pífanos elétrica’”. No fim da noite, o sanfoneiro Targino Gondim, compositor da música “Esperando na Janela”, encerrou a celebração com mais forró. 53


Alcymar Monteiro foi um dos que fizeram show para Gonzagão 14|12|2012

Gonzaga foi reverenciado em sua casa Na noite do centenário do Rei do Baião, Parque Aza Branca também recebeu shows Por Chico Ludermir Foto Marcelo Soares

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A história de Gonzaga começou a ser traçada há exatos 100 anos, quando nasceu, no dia 13 de dezembro de 1912, na Fazenda Araripe. Conta-se até que uma estrela cadente rasgou o céu confirmando que o menino ia ter boa sorte. Se houve ou não o episódio astrológico não se sabe, mas de que o menino foi longe ninguém duvida. De uma vida tipicamente sertaneja ao sucesso absoluto em todo o País. Sucesso tão grande que foi capaz de mudar não só sua própria vida, como de toda uma cidade. O que se viu, na quinta-feira (13/12), no Exu, com milhares de pessoas reunidas para celebrar o centenário do seu filho mais célebre, foi a prova de que Gonzaga é, de fato, um marco do Sertão.


Em 1982, já no final da vida, o Rei do Baião voltou definitivamente à sua cidade natal para morar na Fazenda Aza Branca. O lugar, que ele fez questão de construir como um museu de sua própria trajetória, também foi palco, na noite de ontem (13/12), para a festa dos seus 100 anos.

cantarem versões sem que houvesse repetição. Alcymar lembrou que foi seu compadre Gonzaga, padrinho de seu filho, que lhe deu a dica de adotar uma identidade visual. Por isso que, mais uma vez, Alcymar apareceu todo de branco.

Se a obra de Gonzaga tem a cara de sua vida, estar no Parque Aza Branca nesse dia 13/12 foi talvez a forma de estar mais perto de Luiz. É lá onde está intacta sua última casa, com todos os seus móveis e quadros. É lá onde está o seu Juazeiro, em referência àquele que lhe inspirou para canções de amor. É lá ainda onde está o mausoléu com os restos mortais de Gonzagão. Mas, no dia do seu centenário, ele estava vivo. Vivo porque foi cantado e revisitado com tanto carinho por seus parceiros e admiradores. Vivo porque foi dançado por seus conterrâneos e por aqueles que vieram de longe para saudá-lo. Vivo porque foi celebrado, por seus contemporâneos ou não.

Público

Shows A noite de shows começou com um “parabéns” cantado por João Silva, um de seus maiores parceiros musicais, ao lado de Taís Nogueira. Teve até bolo dividido com a plateia e queima de fogos. Depois da primeira apresentação, que contou com a participação de Dominguinhos, João saiu do palco querendo ficar. “Quando estou aqui no Exu, parece que ele está aqui de novo”, disse o compositor, que tem cerca de 130 músicas com Gonzaga, dentre elas “Vou te matar de cheiro”, “Meu Araripe” e “Deixa a tanga voar”, que ele não poderia deixar de cantar. Quando Josildo Sá entrou no palco, já encontrou o terreno quente. E dançava gente de toda idade. Desde os que viveram o apogeu de Gonzaga aos que chegaram depois que o rei já tinha ido. Emocionado, Josildo prestou reverência ao seu ídolo. “Estar aqui hoje é muito emocionante. As minhas palavras de homenagem vão vir em forma de música”, disse, emendando mais forró. Com um repertório generoso, deu ainda para Alcymar Monteiro e Adelmário Coelho, que fecharam a noite,

Na plateia, Sr. Portela e D. Delma dançavam em meio a um sem número de casais. Vieram de Salgueiro (PE), no Sertão Central, com camisa especialmente feita para homenagear o rei. O público era tão repleto que contava ainda com exuenses, recifenses, paulistas, cearenses,… gente de gibão, bota e chapéu de couro, só para festejar. Ao lado da mãe, Hyalu e Hyago, de 6 e 7 anos, cantaram suas músicas preferidas. Para ela, “A Feira de Caruaru”. Para ele, “Respeita Januário”, que eles já sabem de cor. Na noite de quinta (13/12), Gonzaga provou mais uma vez sua universalidade, permitindo que todo mundo se esbaldasse ao som do seu repertório. E ainda teve gente que, 100 anos depois, jura que viu de novo caindo estrela cadente na noite do 13 de dezembro….

De pai pra filho No início desta mesma noite, a exibição do filme “Gonzaga: de pai para filho” lotou o Parque Aza Branca. O longa-metragem do cineasta carioca Breno Silveira teve uma das suas sessões mais especiais no Exu, uma das locações da obra. Na plateia, estavam os moradores da cidade e pessoas que conheceram Seu Lula. “Esse filme é bom mesmo”, sussurrou um espectador. “Esse menino se parece muito com o filho de Gonzagão”, lembrava outro. Observando a reação do público, era impossível não notar que todos, ao seu modo, acompanhavam todas as músicas do filme, seja cantando mais alto ou batendo o pé. Ao que tudo indica, “Gonzaga: de pai para filho” parece ter tido a sua aprovação no berço do sanfoneiro. 55


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Selo comemorativo e estátua de Gonzaga foram entregues no Exu Lançamento ocorreu também no Recife (PE), em Brasília (DF), Juazeiro do Norte (CE) e Entre Rios (BA)

No dia oficial de seu centenário, o Rei do Baião foi homenageado também pelos Correios, que enviou uma equipe para o Exu, no Sertão pernambucano, para o lançamento do selo comemorativo. A cerimônia aconteceu às 16h30 da quinta-feira (13/12), no Palco Juazeiro do Parque Aza Branca, e contou com a presença do diretor regional dos Correios, Pedro Mota Soares, além de outros nomes. Criado pelo artista Jô Oliveira, o selo comemorativo tem cerca de 300 mil exemplares. Ele foi lançado também no Recife, às 19h, no palco externo do Teatro Luiz Mendonça, em Boa Viagem, e nas cidades de Juazeiro do Norte (CE), Brasília (DF) e Entre Rios (BA). Um pouco depois, às 17h, o Parque Aza Branca recebeu a Assembleia Itinerante, cerimônia da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). Durante a Assembleia Itinerante, foram entregues dez medalhas do centenário de Gonzaga, uma delas in memorian a Francisco Parente, antigo administrador do Parque Asa Branca, que foi recebida por sua viúva, Clemilce Parente. Além disso, a Alepe 56

Selo lançado pelos correios conta com elementos de músicas de Gonzaga, tais como: mandacaru, asa branca e os verdes olhos de Rosinha

entregou o título de cidadão pernambucano ao músico Joquinha Gonzaga, sobrinho do Rei do Baião, que lutou para manter o acervo de seu tio no Exu. A celebração da Alepe se encerrou com a entrega de uma estátua em tamanho real de Gonzagão, confeccionada por J. Maciel, que ficará na entrada do Parque Aza Branca.


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“Gonzaga sobrevive em seu público” Em exibição no MEPE, diretor de “Luiz Gonzaga, a luz dos sertões” debateu com espectadores Foto Ricardo Moura

Para Anselmo Alves, Gonzaga sobrevive em seu povo

Quando chegou a hora de tocar, o músico Rock da Zabumba, que acompanhava Seu Neo do Arcodeon, confessou: “Eu num sei nem como é que vou tocar essa zabumba de tão emocionado que eu tô”. Ele tinha acabado de assistir ao documentário “Luiz Gonzaga, a luz dos sertões”, de Anselmo Alves e Rose Maria. A exibição fez parte do evento realizado no Museu do Estado de Pernambuco, na sexta-feira (14/02) para a celebração do centenário de Luiz Gonzaga. No encontro, o público pôde assistir à intervenção do realizador do filme. Na sua fala, Anselmo fez questão de destacar que a música de Gonzaga sobrevive por conta das pessoas. Idealizador do Memorial Luiz Gonzaga, no Pátio de Sao Pedro, Anselmo acha que há uma euforia muito grande para homenagear Luiz mas que essa overdose é boa porque abre espaço para o que é bom e para novas formas de ver sua obra. “Esse cente-

nário traz a oportunidade para isso”, opina. Em seu filme, conta com os depoimentos de familiares de Gonzaga e de personalidades ilustres como Gilberto Gil, Dominguinhos e Patativa do Assaré. Para Patativa, Luiz Gonzaga é a joia pernambucana. Na opinião de Gil, Gonzaga está entre as maiores referências na cultura popular brasileira. No final do encontro, Seu Neo puxou seu acordeon para fazer homenagem a Luiz também com música, bem como ele gostava. Neste sábado (15/12), o encontro continua com a palestra “A origem da sanfona no mundo, sua chegada ao Brasil e os diferentes sotaques nas regiões do País”, com Leda Dias. Logo depois, segue a exibição do vídeo “Raízes de fole”, de Amaro e Rafael Coelho. A noite será encerrada com a apresentação musical de Seu Adriano. 57


Com nova formação Quinteto Violado lembrou tempos antigos de parceria. Na página ao lado Zé Calixto no Palco Aza Branca e Edla (de xadrez) celebrando com amigos

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Parque Aza Branca não deixou ninguém parado Lugar onde Gonzaga viveu últimos anos de sua vida recebeu Quinteto Violado e Flávio Leandro Por Dora Amorim Fotos Eric Gomes

A relação entre o Quinteto Violado e Luiz Gonzaga é antiga. O primeiro álbum do grupo pernambucano, lançado em 1972, trazia versões das canções “Asa branca” e “Vozes da seca”, com belíssimos arranjos. “Luiz Gonzaga está presente na nossa história musical com muita força”, lembrou Marcelo Melo antes do concerto desta sexta-feira (14/12), no Palco Aza Branca. 58

O show começou com uma gravação de Gonzaga falando do Quinteto Violado e ressalvando que fez parte da história do grupo. “Estamos felizes por estar dando continuidade à nossa trajetória de homenagens ao Rei. A nossa sonoridade só existe graças às releituras que fizemos de Luiz Gonzaga. É muito bom estarmos no Exu, onde costumávamos vir com ele”, completou Marcelo.


Praticamente todo o show do Quinteto foi embalado pelas canções imortalizadas na voz de Gonzaga, como: “Tarde tristonha”, “Nem se despediu de mim”, “A volta da asa branca”. A versão de “Que nem jiló” do grupo, inclusive, era tida por Gonzaga como o arranjo mais bonito dessa canção. No final da apresentação, o baterista Roberto Medeiros pediu para o público cantar “A vida do viajante”, e o Quinteto se despediu do palco. A abertura da noite ficou por conta de três sanfoneiros: Zé Calixto, Luizinho Calixto e Trunvinca, que colocaram todo mundo para dançar forró. Um dos grandes representantes da sanfona dos oito baixos, Zé Calixto mandou um recado para o público logo no início do show: “Quero que todo mundo dance balançando o esqueleto na base do bucho com bucho”. E a plateia obedeceu. Outra atração da noite, o Trio Nordestino começou a sua estrada musical em 1957 e foi contemporâneo de Luiz Gonzaga. Hoje, com uma nova formação, o grupo está circulando pelo País com um show em homenagem a Seu Lula e não deixou de fora do repertório canções como “Xote das meninas”, “Numa sala de reboco”, “Na emenda”, “Asa branca” e “Pagode russo”.

do caixão dele à noite na igreja, era muito nova. A cada canto da cidade, em cada barzinho, havia um sanfoneiro cantando as músicas de Seu Lula. Até hoje, me arrepio ao lembrar deste dia”, contou. Hoje, Edla Silva voltou à cidade com mais três amigos para celebrar o centenário onde ele viveu. “O fato desta festa ser realizada aqui é perfeito, pois estamos na casa dele. Luiz é a nossa essência, nossa raiz. Ele falou deste povo sofrido do Sertão, mas que nunca deixou de se alegrar”, completou Edla, que nasceu em Araripina e mora em Petrolina. No meio do Parque Aza Branca, um grupo do Maranhão se destacava. Mais de 90 pessoas vieram ao Exu para celebrar o centenário e estão hospedadas em Bodocó. “Luiz Gonzaga representa a nossa infância, e o Parque Aza Branca é o melhor lugar para festejar Gonzaga. Fico emocionado de estar na sua casa”, lembrou Jonas Eloy, um dos representantes do grupo. “Hoje fizemos uma festa no centro, tocando sanfona e triângulo”, completou.

O forrozeiro Flávio Leandro fechou a festa no Parque Aza Branca e fez sua homenagem a Gonzaga. Neste sábado (15/12), Bia Marinho, Maria Lafaete, o projeto Meu Arararipe e Maciel Melo são as atrações do Parque Aza Branca.

Público Na noite desta sexta-feira (14/12), o público do Parque Aza Branca era um espetáculo à parte. Todos estavam se sentindo na casa de Gonzagão e não pararam de dançar e cantar as suas músicas. O parque abriga a casa, que um dia, foi do sanfoneiro, além do seu mausoléu e o Museu Luiz Gonzaga, sendo um ambiente perfeito para a celebração. Quando tinha 15 anos, Edla Silva veio ao Exu pela primeira vez acompanhar o enterro de Gonzagão. “Lembro 59


15|12|2012

Praça do Arsenal virou uma grande sala de reboco De Azulão a Nando Cordel, ninguém ficou parado na festa Por Gabriela Alcântara Foto Costa Neto

De cima da Torre Malakoff dava para ver todo mundo arrastando o pé

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“Todo tempo quanto houver pra mim é pouco, pra dançar com o meu benzinho numa sala de reboco”. A canção mais tocada de sexta (14/12) no Recife, “Sala de reboco”, um


dos maiores sucessos de Gonzagão, traduziu bem o espírito da noite na Praça do Arsenal. Para onde se olhava, havia um par arrastando o pé. Jovens, crianças, idosos, ninguém queria ficar parado. A animação começou com Azulão, que, com sua estatura pequena e voz poderosa, animou o público, dançando e fazendo caretas ao som de sucessos seus e do Rei do Baião. Entre as canções mais aplaudidas, estavam “Mané gostoso” e “Cabecilé”, que arrancaram risadas e aplausos dos presentes e da sua própria banda, diante da irreverência e animação de Azulão no palco. O cantor foi seguido por vários artistas do projeto Viva Gonzagão. Entre eles, estava o sanfoneiro Beto Ortiz, que levou consigo a filha de 7 anos, apaixonada pela sanfona, assim como o pai. Com chapéu de vaqueiro e vestido florido, a pequena arriscou alguns acordes de “Asa branca”, acompanhada pelo pai orgulhoso. “Ela foi quem me disse: ‘Painho, também quero fazer uma homenagem a Luiz Gonzaga!’. É isso que eu quero ver, uma criança tocando e escutando música de verdade! Eu não forço nada, ela que gosta!”, afirmou, sorrindo. A apresentação do Viva Gonzagão fechou com Santanna, o Cantador, um dos mais aguardados pelo público. O músico fez uma rápida e emocionante participação na homenagem a Lua, iniciando sua apresentação com uma declamação que exaltava o reinado de Gonzaga. Depois de cantar sucessos do Rei do Baião, Santanna fechou sua participação com um pot-pourri que foi de “Asa branca” ao hino de

Pernambuco, sendo acompanhado em coro pelo público do Arsenal. O penúltimo a se apresentar foi Assisão, que completa 50 anos de carreira e fez um grande show em homenagem a Gonzaga, afirmando que “onde ele estiver, certamente está agradecendo por todas essas festas em sua memória”. Sem deixar o público parado, o cantor emplacou várias músicas dançantes, como “Xote das meninas”, “Riacho do navio”, “Nem se despediu de mim” e “Forró pesado”, esta última gravada pelo Trio Nordestino, que se apresentou no Exu na noite de sexta (14/12). Fechando a noite, Nando Cordel divertiu o público, que teve que votar quais canções seriam tocadas na apresentação. “A noite é de Gonzaga, pessoal! O resto a gente deixa para outros shows!”, brincou o cantor. As músicas mais votadas arrancaram um coro emocionado do público, que cantou feliz os sucessos “De volta pro meu aconchego”, “Você endoideceu meu coração” e “Gostoso demais”. Como havia prometido, o músico homenageou o Rei do Baião, a quem diz dever muito do seu sucesso, cantando algumas das músicas mais conhecidas de Lua, como “Sabiá”, regravada por Nando em parceria com Gonzaga, no disco que leva seu nome, de 1999. Neste sábado (15/12), o Arsenal recebe os shows de Genival Lacerda e João Lacerda, Anastácia, Baião Polinário (com Jr. Black, Silvério Pessoa e Isaar, entre outros) e Petrúcio Amorim, que fecha a série de shows do centenário na Praça do Arsenal. 61


15|12|2012

Elba canta a coragem do nordestino através da obra de Gonzaga Em show histórico, a paraibana homenageou seu ídolo e amigo Por André Zahar Fotos Marcelo Soares Em misto de animação e emoção, Elba cantou Luiz.

Na comemoração do centenário de Gonzagão, e na cidade natal do Rei do Baião, Elba não cantou Luiz. Fez muito mais. Através da obra do filho mais notório do Exu, no Sertão do Araripe, Elba Ramalho cantou todo o povo nordestino. Numa apresentação em que não conteve as lágrimas ao entoar “Asa branca”, a cantora paraibana narrou a epopeia do homem e da mulher do Sertão, personificados na figura de Gonzaga, que, para ela, foi um “bravo sertanejo que sobreviveu a muitas dificuldades”. “O maior legado que Seu Luiz deixou para a gente é a coragem que todo nordestino tem. Coragem, amor pela vida e prazer de ser quem a gente é”, disse para a plateia. Logo na abertura, Elba homenageou Gonzagão nos versos de “Sanfona branca”, de Benito di Paula: “Luiz Gonzaga é de ouro / Aquele tom nordestino / A voz sai do coração / É ele o Rei do Baião, é Luiz / É cantador do Sertão”. O show, de uma hora e meia, foi quase totalmente dedicado 62

às canções consagradas pelo amigo e parceiro de estúdio e de palco. Elba evocou uma miríade de sentimentos, passando por saudade (“Qui nem Jiló”), alegria dos festejos juninos (“São João na roça”), carinho (“Sala de reboco”) e a dor da partida (“Asa branca”). Também houve uma versão nova para “Um bilhete pro Seu Lua”, de Gonzaguinha, citando o centenário do Rei. Após terminar a apresentação, em entrevista à rádio comunitária itinerante No PE do Ouvido, Elba falou do “aperto no peito” que sentiu ao cantar “Asa branca”: “Eu já chorei ontem e, no palco, quando comecei a cantar, não aguentei, não. Veio aquela emoção, aquela lágrima, aquele aperto no peito”, disse. “A obra de Luiz Gonzaga fala tudo. De ‘Acauã’ a ‘Assum Preto’, ‘Asa branca’, passando por ‘Estrada do Canindé’, ‘Juazeiro’,… tem todos os elementos que estão no nosso co-


ração: nossa dor, nossa alegria, a chuva e a seca, as plantas, as flores, os pássaros. Tudo está na obra de Luiz Gonzaga, é um espetáculo”, acrescentou.

Virtuosismo Mantendo aceso o público após o show de Elba, a terceira noite do Palco Gonzagão foi encerrada pelo sanfoneiro cearense Waldonys, que surpreendeu a todos já na chegada do Exu. Por volta de 17h, ele, que é piloto de avião e membro honorário da Esquadrilha da Fumaça, atraiu os olhares da cidade executando uma série de piruetas no céu com um monomotor, com direito a rasante sobre o Parque Aza Branca, onde ficam as casas nas quais moraram Luiz Gonzaga e seu pai, Januário. O show também foi eletrizante. Nele, Waldonys mostrou seu virtuosismo executando o hino do Brasil e muitos sucessos de Gonzagão, como “Asa branca”, “Óia eu aqui de novo” e “Olha pro céu”. Ao tocar esta última, houve queima de fogos. “Luiz Gonzaga é o norte de minha vida, o alicerce da minha casa musical e pessoal. Aprendi muito com ele e continuo aprendendo”, disse, em entrevista antes do show, o músico que Gonzaga apelidou carinhosamente de “garoto atrevido”. A noite contou ainda com shows de Joãozinho do Exu— que revisitou músicas menos conhecidas de Luiz Gonzaga, como “Vaca estrela e boi fubá” e “Mané gambá” — e de Amazan, de Campina Grande (PB), que preparou um pot-pourri de músicas emblemáticas do Nordeste.

Público Na plateia, a autônoma Marieta Luna Alencar, de 70 anos, representava um pouco da história do Exu e do Nordeste. Pertencente a uma família envolvida na rixa que, durante décadas, culminou em aproximadamente 80 mortes, inclusive de um irmão e um tio dela, Marieta deixou a terra natal sem levar nada.

Marieta Alencar veio de Campo Grande de volta para a terra natal para festejar o centenário

Atualmente mora em Campo Grande (MS), porém nunca deixou para trás suas origens. Este ano, veio ao Exu para celebrar o aniversário de um homem que, segundo ela, “sempre procurou o bem da nossa terra”. E que, segundo confirma, foi um dos que se empenhou para serenar os ânimos entre os Alencar e os Sampaio. “Faz 47 anos que eu fui embora por causa das brigas. Fiquei 28 anos sem voltar. Agora vim de Campo Grande ao Exu, novamente, para a festa de Luiz Gonzaga. Nosso rei merece”, afirmou. 63


Público assistiu a “Dia estrelado” (foto) e outros quatro filmes 15|12|2012

Bodocó recebeu Cinema na Estrada Um dos cinco filmes da mostra foi produzido na própria cidade

O filme, também gravado em Bodocó, está fazendo sua pré-estreia no Sertão do Araripe. O roteiro, que é baseado no romance do escritor bodocoense Cícero Belmar, lançado em 2001, é fruto de uma oficina do projeto “Cinema no interior”.

Por Chico Ludermir Foto Marcelo Soares

Na noite desta sexta-feira (14/13), a cantada Bodocó recebeu a Mostra Cinema na Estrada. No centro da cidade que permeia o imaginário das canções de Luiz Gonzaga, os seus habitantes lotaram as cadeiras dispostas na Praça da Matriz para verem a exibição de cinco curtas-metragens, todos de temática sertaneja. “Até o sol raiá”, de Fernando Jorge e Leandro Amorim; “Zé Monteiro – o homem que venceu as 5 mortes”, de Wilson Freire; 
”Dia estrelado”, de Nara Normande; “Exu de Gonzaga”, de Guida Gomes; e, por último, a grande atração da noite, o curta “Umbilina”, produção local, dirigida por Marcos Carvalho. Todos cativaram a atenção de um público eclético em idades e que não tirava os olhos da telona. 64

Para o diretor, foi muito gratificante ver o filme sendo passado na cidade em que foi feito, ao lado daqueles que participaram do processo. “Os integrantes estão aqui. Foram eles que decidiram a temática da sua cidade”, disse Marcos. A atriz bodocoense Alba Pierre estava emocionada após a exibição. “Estou muito feliz. É sempre um aprendizado”, definiu sua experiência Alba, que é artesã de profissão. Os pais de Belmar também estiveram presente e receberam homenagem. Neste sábado, a mostra itinerante segue para o distrito de Tabocas, na cidade do Exu, a partir das 19h. O Cinema na Estrada já passou por cerca de 80 cidades em 112 exibições ao ar livre em todo o estado. O evento é sempre gratuito.


15|12|2012

Viajando (e tocando) num pau de arara Como parte da programação do centenário e do projeto Cultura Livre nas Feiras, dez sanfoneiros reviveram o caminho de Gonzaga Por Chico Ludermir Foto Eric Gomes

“Quando eu vim do Sertão […...] só trazia a coragem e a cara, viajando num pau de arara”, dizem os versos cantados por Luiz Gonzaga, em composição de 1951 ao lado de Guio Moraes. Mais de meio século depois, dez sanfoneiros subiram no transporte que, durante muito tempo, marcou a ida dos retirantes nordestinos para o Sudeste brasileiro, para tocar essa e outras tantas músicas em homenagem a Gonzagão. Boiadeiro, Ênio, Joãozinho do Exu, William, Cosmo, Fagluze, Leo Barros, Jonnês, Edcarlos e Klebson Iran saíram na manhã do sábado (15/12) da Fazenda Araripe (Exu), de onde Luiz partia até 1930. Como parte das celebrações do centenário na cidade, reviveram o caminho que o Rei do Baião fazia, muitas vezes a pé ou de jumento, até a Feira do Exu. Com a poeira da estrada de barro subindo, os músicos tocaram “Xote ecológico”, “Sabiá”, “Respeita Januário”, “Riacho do Navio”, “Orélia.”…

Sanfoneiros durante o percurso até o centro do Exu

No triângulo, o músico Boiadeiro foi em pé, marcando aquele “tengo, lengo, tengo”, como fez durante os oito anos em que tocou com Luiz. Além dele, Ênio, que tocava zabumba, também fez parte dos músicos que acompanharam Gonzaga nos shows do Exu. “Toda vez que ele vinha ao Exu, ele já ligava: ‘os meninos tão por aí pra tocar comigo?’”, lembrou o trianguleiro. “Ele sempre tratou seus músicos muito bem. Era bom demais tocar com Gonzaga”, acrescentou, numa sessão de causos, que aconteceu em roda quando ainda estavam reunidos na fazenda, antes de partir tocando no pau de arara. De outra geração, o sanfoneiro mais novo do grupo, Edcarlos, também fez o trajeto. “Meu bisavô tocava com Januário”, contou o menino de 12 anos, explicando “de onde vem”. “Eu me interessei por causa de Luiz Gonzaga, que sempre escutei…”, disse o menino, reafirmando a importância de Gonzagão também para os mais novos. Quando os músicos chegaram à feira, por volta das 11h, feirantes e compradores aplaudiram, cantaram, dançaram…. Ainda mais quando o grupo tocou embaixo do coreto armado por trás da Igreja Matriz. 65


Poetas encheram o auditório de versos 16|12|2012

Poetas pernambucanos homenagearam Gonzaga

Mesa de Glosa improvisou para o Rei do Baião Por Joana Pires Foto Ricardo Moura

Assim como a música, a poesia fez parte da vida de Luiz Gonzaga, a poesia dos sertanejos que cantavam a terra seca e a aridez da alma de quem espera, um dia, o sertão florescer. Suas letras falavam das aves, dos homens, da dura realidade que viviam, de suas tradições, seus momentos de festa, sua vida cotidiana. Seus versos imorta66


lizaram o sertão brasileiro, trouxeram identidade ao Nordeste e levaram o Brasil a ser conhecido e reconhecido pelo mundo. Por isso, na comemoração do centenário de Gonzaga não poderia faltar uma celebração também em poesia. Foi o que aconteceu no sábado (15/12), na Mesa de Glosa, realizada na Livraria Cultura do Paço Alfândega às 16h. O evento, que tem percorrido todas as regiões do Estado, chegou ao Recife reunindo diversos poetas, poetisas e admiradores das letras regionais. Funciona como uma mesa de desafio, em que diversos convidados se reúnem para o improviso de poesias. Para isso, a cada rodada de improviso, eles recebem um mote— dois versos metrificados que são ditos na hora e que devem ser encaixados para compor uma décima, ou seja, uma estrofe de dez versos. “O desafio é encontrar a poesia nessa estrutura”, comentou Wellington de Melo, coordenador de Literatura da Secult-PE / Fundarpe. Esse tipo de encontro é uma tradição do Pajeú que tem sido levada por Pernambuco. “É um momento muito emocionante trazer para o Recife essas estrelas capazes de transformar oxigênio em poesia”, afirmou Wellington, em referência aos poetas convidados para compor a mesa: Henrique Brandão, de Serra Talhada; Alexandre Morais, de Afogados da Ingazeira; Zé Adalberto, de Itapetim; Caio Menezes, de São José do Egito; Gleison Nascimento, do Recife; Lima Jr., de Tuparetama; Clécio Rimas e George Alves, de Tabira. Entre um e outro improviso, poetas que estavam ali

apenas para assistir à apresentação eram convidados ao microfone para declamar algum texto ou poesia. O resultado foi um encontro marcado por trocas especiais, a troca das palavras. Os motes remetiam a temas diversos, como política, amor, coragem e, entre eles, o imaginário sertanejo, que acabou trazendo à tona diversas homenagens a Luiz Gonzaga. “Criei um mote que era ‘o trovão prepara a festa para a Asa Branca voltar’, baseado num trovão que ouvi no sertão na semana passada e que encheu o povo de alegria esperando a hora de chover”, comentou o anfitrião do encontro, o poeta Dedé Monteiro. O trovão sertanejo era alarme falso, mas, no sábado, ele virou poesia.

Outras Conversas O sábado também foi o dia de retomar alguns aspectos históricos sobre a vida de Luiz Gonzaga. No Museu do Estado de Pernambuco (Mepe), a pesquisadora Leda Dias, uma das fundadoras do Memorial Luiz Gonzaga, ministrou a palestra “A origem da sanfona no mundo, sua chegada ao Brasil e os diferentes sotaques nas regiões do País”. No encontro, ela comentou a origem do instrumento, sua base na harmônica e a importância de Gonzaga na reformulação de um jeito próprio de tocar a sanfona. Na mesma tarde, no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC), em Olinda, aconteceram as rodas de conversa, debates recuperando aspectos discutidos na exposição de interatividade “Ser Tão Conectado”, na Mostra de Arte e Tecnologia do MAC, com a curadoria de Ricardo Ruiz. 67


Baião Polinário foi uma das atrações na última noite de shows no Arsenal. Na página ao lado, Isaar e Anastácia

16|12|2012

Mistura de ritmos marcou a última noite de shows no Arsenal Baião Polinário reuniu cantores contemporâneos em releitura de Gonzaga Por Gabriela Alcântara Fotos Costa Neto

Tango, rap, reggae e outros ritmos se uniram ao baião no matulão gonzagueano do sábado (15/12), quando a Praça do Arsenal recebeu a última noite de shows em homenagem ao centenário de Gonzaga. A mistura aconteceu graças ao Baião Polinário, grupo formado por vários artistas contemporâneos, entre eles Publius, Isaar, Rogerman, Jr. Black e Zé Brown. 68


A noite começou com um dos ícones da música pernambucana, Genival Lacerda. Acompanhado do filho João Lacerda, ele fez o público dançar e se divertir muito com sua excentricidade, tocando não só sucessos de Gonzagão como “Deixa a tanga voar”, mas também canções do seu próprio repertório. Sorridente, o público adorou cantar em coro “Radinho de pilha”, “Mate o véio” e “Severina xique-xique”. Com uma apresentação emocionante, Anastácia também subiu ao palco do Arsenal, onde foi ovacionada pelo público. Ela iniciou o show com uma canção composta em homenagem ao Rei do Baião, quando ele ainda era vivo. “Quando me ouviu cantar essa música, ele levantou a cabeça e perguntou: ‘Tu acha que eu mereço tudo isso?’. E eu disse: ‘Merece muito mais!’. Gonzaga pensava que o povo ia se esquecer dele quando ele morresse, mero engano. Ele está na memória dos nordestinos e de quem valoriza as coisas do Nordeste! E eu vou cantar Gonzaga enquanto tiver minha voz!”, afirmou, apresentando, em seguida, vários sucessos de Lua, como “Assum preto” e “Asa branca”, que emocionaram o público. Em seguida, o Baião Polinário subiu ao palco, surpreendendo o público. E se, de início, muitos não entenderam a mudança do forró para o groove de Jr. Black, logo foram cativados pelas novas versões das canções do Rei do Baião. “Perto do que foi Gonzaga, a gente está só engatinhando! Espero que vocês gostem!”, disse Isaar, antes de entoar sua versão para “Paraíba masculina”. Continuando com o caráter experimental que sempre esteve presente em Gonzagão, o Baião Polinário desmistificou as canções de Lua, trazendo também o rap do Alto José do Pinho, com o cantor Zé Brown, que colocou suas rimas em “Sanfona sentida” e “Estrada de canindé”. Rogerman também arriscou uma versão reggae para “No meu pé de serra”. “Ouvi dizer que Gonzaga, quando ouviu reggae pela primeira vez, perguntou: ‘Quem é que está fazendo esse xote metido a besta?’. E era simplesmente ‘Bobinho’! Nosso amigo Bob Marley”, brincou, conversando

com Publius. A apresentação contou ainda com Silvério Pessoa, Herbert Lucena e Mônica Feijó, que trouxe tango para “Noites brasileiras”. Fechando a noite, o cantor Petrúcio Amorim subiu ao palco após uma breve chuva, trazendo de volta o público, que chegou a fazer uma quadrilha debaixo d’água. Além das canções de Lua, como “Riacho do navio” e “Forró no escuro”, Petrúcio cantou também sucessos como “Meu cenário”. 69


Público se despede do Palco Gonzagão. Na página seguinte, Mestre Camarão e Cezzinha, que fez parte do “Sanfona de Januário”

16|12|2012

Palco Gonzagão se despediu com festa do público do Exu Durante quatro dias, o palco recebeu shows e animou o público do Exu. Na despedida, o projeto “Sanfona de Januário”, “Xote das meninas”, Novinho da Paraíba e Jorge de Altinho foram as atrações. Por Dora Amorim Fotos Marcelo Soares

Com mais de 60 anos de sanfona, o Mestre Camarão foi amigo e seguidor de Luiz Gonzaga. Na noite do sábado (15/12), ele abriu o projeto “Sanfona de Januário”, que reuniu oito músicos e sanfoneiros para homenagear Seu Lula, no último dia do Palco Gonzagão. Patrimônio Vivo do Estado de Pernambuco desde 2003, Mestre Camarão é, como Gonzaga, um dos maiores representantes da música regional nordestina. “É muito bom estar aqui celebrando um cabra que foi muito meu amigo. Costumava vir ao Exu com ele para as 70

festas”, lembrou Camarão. O sanfoneiro chamou o filho Salatiel Camarão para cantar “A triste partida”, música do poeta Patativa do Assaré e de Luiz Gonzaga. Mestre Camarão ainda brincou com o público e deu um CD para o espectador que soubesse o seu nome: Reginaldo Alves. Outro amigo de Gonzaga, Agostinho do Acordeon também fez parte do projeto e lembrou de quando o Rei do Baião o presenteou com uma sanfona, no ano de 1979. “Passei mais de 30 anos com a sanfona que ganhei de Gonzaga em Floresta. Ela ainda existe, mas só o restinho”, disse o pai


do também forrozeiro Josildo Sá. Agostinho ainda cantou as músicas “Paraíba” e “Tarde tristonha” para homenagear Gonzaga. O “Sanfona de Januário” reuniu ainda Dudu do Acordeon, Genaro, Zé Bicudo, Beto Hortis e Cezzinha. O último deles, inclusive, foi um dos mais celebrados pelo público com a sua versão de “Pense ne’u”, uma das músicas mais belas de Seu Lula. Cezzinha chamou ao palco o sanfoneiro Cícero Paulo, de apenas oito anos, que também participou do concerto de Dominguinhos na quinta-feira (13/12). “Lembro de mim jovem, na época que ia conversar com Genaro, Dominguinhos, Camarão. Tenho certeza que esse menino vai ser um grande sanfoneiro”, completou. Outro projeto da noite, o “Xote das meninas” era formado apenas por mulheres. “Luiz Gonzaga cantou o amor, a natureza e as mulheres”, lembrou Cristina Amaral antes de entoar os versos de “Adeus Iracema”, canção gravada por Gonzagão e o filho, Gonzaguinha. Liv Moraes, filha de Dominguinhos, também integrou o projeto e mostrou as suas versões das músicas “A dança da moda” e “A dança do pé de serra”, gravadas por Gonzaga. Quem ficou responsável por cantar a música tema do projeto, “Xote das meninas”, foi a forrozeira Nádia Maia. “Tudo que Luiz fez e cantou foi perfeitamente bem”, comentou antes da apresentação. O forrozeiro Novinho da Paraíba foi o terceiro da festa e ressalvou a importância de se celebrar o centenário e tornar conhecida a história de Luiz Gonzaga. No repertório, ele colocou o público para dançar com canções conhecidas, como “Vem morena” e “Paraíba”. Jorge de Altinho fechou a festa e as homenagens do Palco Gonzagão a Seu Lula.

Festa Durante quatro noites, o Palco Gonzagão festejou Gonzaga e recebeu concertos belíssimos, como o de Gilberto Gil e Dominguinhos, na quinta-feira (13/12), quando o sanfoneiro pernambucano completaria 100 anos. A festa

do centenário de Gonzagão fez com que a cidade do Exu recebesse visitantes de vários estados. Não era difícil encontrar na plateia do Palco Gonzagão pessoas da Bahia, do Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Maranhão. As ruas da cidade estavam cheias e, a cada esquina, se escutava forró pé de serra e baião. Todo o Nordeste veio celebrar Seu Lula na sua terra. Um viva para Luiz! 71


tes brasileiras”, “Aproveita, gente”, “Nem se despediu de mim”, entre outras. E intercalou os clássicos consagrados por Luiz Gonzaga com músicas próprias como “Caboclo sonhador”. Ao falar do mestre, durante o show, afirmou que “a música popular brasileira se divide em antes e depois de Luiz Gonzaga”.

Maciel Melo foi a grande atração do Parque Aza Branca no sábado (15)

16|12|2012

Maciel Melo levantou o público com clássicos de São João Além dele, outras 14 bandas cantaram Gonzagão Por André Zahar Foto Eric Gomes

“Pra se cantar Luiz Gonzaga é preciso ter no sangue a coragem de um povo farto de sol, à espera de que um dia a chuva venha. É preciso saber das crenças, dos costumes e ter o sotaque de quem traz na alma a aridez aguda de um povo sofrido, que depois de tudo continua sendo ainda muito forte”. Os versos, declamados pelo cantor e compositor Maciel Melo no Palco Aza Branca, no Exu, sintetizam o espírito das apresentações musicais realizadas ali na noite do sábado (15/12). Ao todo, Gonzagão foi cantado por 14 bandas nos mais variados ritmos, mas sempre com a mesma energia e o mesmo sotaque do povo do sertão. Melo, nascido em Iguaraci, no sertão do Pajeú, fez o último show, com um repertório para não deixar ninguém com saudade das noites de São João. Acompanhado por Josildo Sá, levantou a plateia com “Quer ir mais eu”, “Noi72

A noite começou com show de Bia Marinho, natural de São José do Egito. Ela privilegiou a diversidade musical de Gonzaga, mesclando o tradicional forró pé de serra com outros ritmos, como chorinho e polca. Ao lado dos filhos Miguel (pandeiro) e Greg (violão), a cantora caprichou no lamento ao incorrer em músicas como “Estrada de Canindé” e “Aquarela nordestina”. “Gonzaga passeou por vários ritmos. A influência dele é total para qualquer um que deseje viver de música”, observou após a apresentação. Depois dela, Maria Lafaete desfiou seu repertório de pé de serra construído em parceria com artistas da região como Leninho do Bodocó, Flávio Leandro e DiJesus. O show teve a participação de Sérgio Gonzaga, filho de Chiquinha, irmã caçula de Luiz. Ele prestou homenagem à mãe, falecida em 2011, e ao tio cantando composições como “Velho novo Exu”, “Penerô Xerém” e o xaxado “Óia eu aqui de novo”. Em entrevista após o show, Maria lembrou que, assim como Gonzagão, nasceu na Fazenda Caiçara, no Exu. “Respiramos o mesmo ar e pisamos no mesmo solo”, orgulha-se. O fole continuou a roncar com as apresentações de grupos da região do Araripe. A programação incluiu desde a cantora de Granito (PE) Ana Paula Nogueira, que se destacou no programa de TV “Ídolos”, até o conjunto Os Gonzaguinhas, no qual voz, zabumba, duas sanfonas e triângulo são executados por meninos de 11 e 12 anos, todos do Exu. No palco do Parque Aza Branca, os clássicos de Gonzagão foram revisitados ainda por Fua Carvalho, Zezinho de Exu, Forrozeiros do Gonzagão, Maurício Jorge, Leonardo Luna, Edgar do Cedro, Baião Mais Eu, Sotaque Nordestino e Sarah Leandro.


16|12|2012

Missa homenageou os 100 anos de Gonzaga

Desde as 5h, fiéis acompanharam missa em homenagem a Luiz Gonzaga

Ao som das músicas do Rei do Baião, fiéis se emocionaram Por Chico Ludermir Foto Eric Gomes

Ainda estava escuro quando começou a missa em homenagem ao centenário de Luiz Gonzaga, às 4h45 do domingo (16/12). Os fiéis de Cristo e de Gonzagão madrugaram para ver celebrado o maior ícone pernambucano no Parque Aza Branca, embaixo do Juazeiro, enquanto os passarinhos cantavam as primeiras horas do dia. O evento religioso foi celebrado pelo bispo da diocese de Salgueiro, Dom Magnus Henrique, junto com o administrador paroquial do Exu, o padre Domingo Pedra da Silva. O culto foi todo permeado pelo cancioneiro gonzagueano tocado por amigos e discípulos do Rei do Baião. Josildo Sá cantou o “Baião da Penha”; Waldonys, a “Ave Maria Sertaneja”; Joquinha Gonzaga, “Légua tirana”; e Santanna, o “Pai Nosso” de Luiz Gonzaga; enquanto comungavam os cristãos. Danilo Pernambucano apresentou a sua canção feita especialmente para o momento. “Há cem anos, o choro de uma criança preconizava, de forma afinada, que alguém estava chegando para cantar o Nordeste em suas alegrias e tristezas. As suas músicas tinham capacidade de alimentar a esperança do seu povo”, disse o bispo, prosseguido pela cantoria de Asa Branca,

em um dos momentos mais fortes da celebração que emocionou os espectadores. A questão da atual seca foi lembrada pelo clérigo. Segundo Dom Magnus, o povo continua cantando seus lamentos e esperando ouvir o ronco do trovão, que anuncia a chuva. “Luiz, a Asa Branca ainda não voltou. No ano do seu centenário, a seca assola o Sertão”, afirmou, fazendo referência à música “Volta da Asa Branca” que também foi cantada, junto ao coro de fiéis. “Luiz Gonzaga, vem cantar de novo para nos alegrar”, rogou o bispo. No altar, ao invés do Jesus crucificado, estava a imagem de Luiz Gonzaga sorrindo.

Homenagem Durante a missa, que foi transmitida ao vivo pela Rede Globo, o antigo administrador do Parque Aza Branca Francisco Hélinton Saraiva, conhecido como Béba, recebeu uma homenagem. Sua mulher, Clemilce, e seu filho, Francisco Hélinton Júnior, ganharam uma placa do presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernamcubo (Fundarpe), Severino Pessoa. Béba morreu este ano. 73


No último dia de festa, Targino Gondim tocou enquanto Giderson Silva, na plateia, se divertia a caráter. Ao lado, público se protegendo da chuva 16|12|2012

Emoção e chuva no encerramento do centenário de Lua Água caiu durante os shows da tarde deste domingo (16/12) no Aza Branca Por André Zahar Fotos Marcelo Soares

Um dos momentos mais emocionantes da comemoração do centenário de Luiz Gonzaga foi reservado para a tarde do domingo (16/12), o último dia de festejos. Sob a copa do juazeiro onde a missa anual em homenagem a Gonzagão foi realizada horas antes, o céu desabou por quase meia hora. A chuva torrencial caiu durante um dos últimos tributos ao Rei do Baião, no Parque Aza Branca, no Exu. E o povo do Sertão, que enfrenta uma das piores secas dos últimos 40 anos, não arredou pé. Continuou a dançar forró como se, além do aniversário do sertanejo mais notório, comemorasse as súplicas atendidas, a trégua líquida na judiação e uma esperança renovada para milhares de alazões. 74


A sequência de shows começou com João do Pife (Caruaru/PE), que acumula mais de 50 anos de carreira no Brasil e fora do País, e terminou com Targino Gondim, sanfoneiro que já recebeu premiações importantes como o Grammy (em 2001, com o álbum “Esperando na Janela”, de Gilberto Gil) e o 21º Prêmio da Música Brasileira (em 2010, pelo CD “Canções de Luiz”). A chuva começou por volta de 15h30, pouco depois de o cantor Ivan Ferraz dar início aos shows no Palco Juazeiro, no Aza Branca. Diante do mausoléu onde estão os restos mortais de Luiz Gonzaga, de seu pai Januário e da mãe, Santana, a apresentação começou com o pedido de um minuto de silêncio em homenagem a Gonzagão e seus familiares já falecidos. As primeiras gotas começaram quando, após “A vida do viajante” e “O xote das meninas”, Ferraz entoava “Riacho do Navio”. “Está chovendo. Deus está ouvindo as preces e Gonzaga está ajudando”, disse o cantor de Floresta (PE). Um dos mais empolgados em dançar na chuva era Giderson Tenório Silva, de 67 anos. Trajando uma vestimenta estilizada misturando elementos de Lampião e Luiz Gonzaga, com direito a chapéu de cangaceiro espelhado, bacamarte e calça com gravuras de cordel, ele se intitula “Capitão Tenório, defensor da cultura popular”. “Vivi uma seca em Caruaru quando tinha 10 anos. As coisas melhoraram muito no Nordeste através de Luiz Gonzaga. A chuva foi uma glória, sinal de que ele, até lá do céu, continua olhando por nós. Deve ter falado: ‘Vamos man-

dar uma aguinha para esse povo que vai dançar forró no pé de Juazeiro’”, brincou. O repertório de João do Pife foi dividido: metade dedicado a músicas de Gonzaga, como “Asa branca” e “Xote das meninas”; e o restante, às de sua banda, Dois Irmãos, como “Valsa de meu pai” e “Viajando pelo Brasil”. “É uma alegria muito grande estar aqui na data de aniversário de Gonzaga. A gente se sente reconhecido”, disse João do Pife após o show. Targino abriu o show com sua composição mais famosa, “Esperando na Janela”, destacando que foi inspirada em “Daquele Jeito”, de Luiz Gonzaga. O sanfoneiro não se limitou a tocar músicas de Lua, mas também contou episódios da história dele de forma dramatizada. E, como não poderia faltar numa festa de Gonzaga, o fole roncou a tarde toda. Bell Lima, Jaiminho de Exu, DiJesus e Claudiana di França tocaram forró pé de serra. Toinho do Baião, sósia de Luiz Gonzaga, celebrou o ritmo que consagrou o rei, e fez o povo lembrar do ídolo com sua aparência física e timbre semelhantes. O grupo de dança Xamego Bom apresentou um número de dança baseado em pássaros cantados por Gonzaga (assum preto, asa branca e sabiá). Já a dupla de aboiadores Chico Justino e Cícero Mendes também protagonizou um momento emocionante, fazendo o povo cantar “Asa branca” em coro. 75


21|12|2012

Coco de Umbigada celebra Velho Lua com festa em Olinda Mestre Pombo Roxo, Beth de Oxum e Zeca do Rolete conduziram a festa Por Gabriela Alcântara Foto Costa Neto

O coco tomou conta do Museu Regional de Olinda (Mureo) na quarta-feira (19), quando o espaço recebeu o grupo Coco de Umbigada, da comunidade do Guadalupe e seu entorno. Valorizando a tradição de seus antepassados, idosos, jovens e crianças dançavam e entoavam os cantos do coco. A festa foi uma das últimas celebrações ao centenário do Velho Lua, que certamente teria “vadeado” um pouco nesse coco. Durante a cantoria, o Mestre Pombo Roxo fez questão de incluir, na sua apresentação, músicas que compôs para Gonzaga. “O trem na estação chegou, traz de volta Gonzagão”, afirmava, seguido em coro pelos presentes. “O coco é primo do xote, forró, baião. Gonzaga foi protagonizado como Rei do Baião, mas ele tinha também cocos, xotes, e por aí vai”, afirmou a Mãe Beth de Oxum, para então emendar em versões de “Forró no escuro” e 76

Roda de coco lembrou aproximação entre Luiz e ritmos tradicionais

“Derramaro o gái”, canção gonzagueana sobre o coco. A noite contou ainda com apresentações de Mestre Zeca do Rolete e Mãe Lúcia de Oyá, entre outros que não deixaram a roda de coco ficar parada. Avó de algumas crianças que já ensaiavam os passos do coco, Mãe Lúcia de Oyá falou sobre a importância de preservar a tradição: “Todos os folguedos populares saíram dos terreiros, das senzalas. Hoje, elas ‘acabaram’. Continuam de outras formas, nos guetos, nas favelas, nos becos. E foi de lá que saíram todas as riquezas dos folguedos populares, como o coco, a ciranda, os maracatus, blocos, troças. E quando a gente tem um ícone como Luiz Gonzaga, que foi capaz de transformar em música a tristeza, a miséria do nordestino, e levar isso pro mundo, a gente tem mais é que reverenciar. Cultura não tem idade, pode ser aos três anos, como minha neta, aos 70, o que importa é que te faça bem”.


21|12|2012

Com cantorias, aula em homenagem a Gonzaga anima o Arraial Mestre Camarão dividiu seus conhecimentos com o público Por Gabriela Alcântara Foto Costa Neto

Um grande baile, com sons diferentes que se unem com o objetivo de fazer boa música e não deixar ninguém parado. De acordo com Salatiel Camarão, filho do Mestre Camarão, essa é a origem da palavra baião, ritmo que ficou conhecido especialmente por conta de Luiz Gonzaga. Esse e outros depoimentos foram dados na aula-espetáculo “O Novo Gonzagueano”, apresentada nesta quarta-feira (19) no Teatro Arraial. Entre incríveis apresentações de Mestre Camarão e sua sanfona, que parecia tornar-se um brinquedo em suas mãos, Salatiel passava para o público alguns conhecimentos sobre a música de Gonzaga e também um pouco da personalidade dos músicos que conviveram com seu pai. Com muita poesia, a aula montada por Camarão traz conhecimentos vitais para todo bom gonzagueano. “Ainda não existia uma formação certa do baião, até que Gonzaga chegou ao Rio de Janeiro, levado por um amigo para tocar na noite. Quando ele estava tocando certa vez,

Com mais de 50 anos de carreira, Mestre Camarão tocou em aula-espetáculo

três universitários do Ceará o convenceram a tocar uma coisinha do ‘Norte’. E eles começaram a perturbá-lo, disseram que, da próxima vez que fossem ao bar, só dariam a gorjeta se ele tocasse umas coisinhas do ‘Norte’”, explicou Salatiel, lembrando o momento em que Gonzaga tocou o ritmo nordestino em festas do Sudeste. Quando colocou o pires para receber as gorjetas e viu que ele encheu muito rápido, Luiz Gonzaga pediu outro, que foi logo substituído por um prato, em seguida trocado por uma bacia de alumínio, que também se encheu. Nascia aí o reinado de Gonzaga, que percebeu logo o poder que tinha a sua música e o seu carisma. Os músicos lembraram ainda os vários traços que eram carregados no matulão de Gonzaga, como o aboio, canto entoado principalmente por vaqueiros do sertão pernambucano. “Foram essas influências, presentes na infância de Gonzaga – como as rezadeiras, os cantadores, violeiros, que ele trouxe para o baião”, afirmou Salatiel. 77


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P R O GR AM AÇ ÃO

e xu e recife 79


PRO GRA MA Ç ÃO

exu PALCO GONZAGÃO Módulo esportivo Quarta-feira 12 | 12

• Orquestra Sinfônica de Teresina, com João Cláudio – Danilo Pernambucano – Zé Nilton – Chambinho do Acordeon – Santanna

Quinta-feira 13 | 12

• Daniel Gonzaga – Dominguinhos – Gilberto Gil – Joquinha Gonzaga

Sexta-feira 14 | 12

• Joãozinho de Exu – Amazan – Elba Ramalho – Waldonys

Sábado 15 | 12

• Sanfona de Januário: Genaro, Beto Hortis, Agostinho do Acordeon, Camarão, Zé Bicudo, Mahatma, Cezzinha e Dudu do Acordeon – Xote das Meninas: Cristina Amaral, Edilza Aires, Irah Caldeira, Liv Moraes, Nádia Maia, Patrícia Cruz, Terezinha do Acordeon e Walkiria Mendes – Novinho da Paraíba – Jorge de Altinho

PALCO AZA BRANCA Parque Aza Branca Quinta-feira 13|12 Sexta-feira 14|12 Sábado 15|12

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• Taís Nogueira e João Silva (com participação especial de Dominguinhos) – Josildo Sá – Alcymar Monteiro – Adelmário Coelho • Luizinho Calixto, Zé Calixto e Truvinca – Trio Nordestino – Quinteto Violado – Flávio Leandro • Bia Marinho/Em Canto e Poesia – Maria Lafaete (com participação de Sérgio Gonzaga) – Projeto Meu Araripe – Os Gonzaguinhas, Fua Carvalho, Zezinho de Exu, Forrozeiros do Gonzagão, Ana Paula Nogueira, Maurício Jorge, Leonardo Luna, Edgar do Cedro, Baião


PALCO JUAZEIRO Parque Aza Branca Domingo 16 | 12

• Missa em homenagem ao centenário de Luiz Gonzaga Celebrada pelo Dom Magnus Henrique Lopes (Bispo da Diocese de Salgueiro) e Padre Domingos Pedro da Silva (Administrador paroquial do Exu) • João do Pife e Banda Dois Irmãos – Ivan Ferraz – Bel Lima – Jaiminho de Exu – Claudiana di França – Toinho do Baião – DiJesus

PALCO ARARIPE Fazenda Araripe Quinta-feira 13 | 12

• Seguidores do Rei – Os Cabas de Gonzaga – Chá Cutuba – Vital Barbosa – Epitácio Pessoa – Donizete Batista – Leninho de Bodocó – Tácyo Carvalho – Coral de Aboios de Serrita – Flávio Baião – Antônio da Mutuca – Os Três do Cariri

AUDIOVISUAL Quarta-feira 12 | 12 Parque Aza Branca

II Cine Exu Mostra Sertões do Estado de Pernambuco

Quinta-feira 13 | 12 Parque Aza Branca

Exibição gratuita do filme “Gonzaga, de pai para filho” Com a presença do diretor Breno Silveira

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AUDIOVISUAL (Cont.) Dias 14 a 15 | 12 Praça de Eventos de Bodocó 15 | 12 Distrito de Tabocas (Exu)

•Mostra Itinerante Cinema na Estrada PROGRAMAÇÃO - Boi Ventania (ficção, 14 minutos, PE, 2010), de Marcos Carvalho, Ednéia Campos e Herbert Santos - Até o Sol Raiá (animação, 12 minutos, 2008), de Fernando Jorge e Leandro Amorim - Zé Monteiro – O Homem que venceu as 5 mortes (documentário, 20 minutos, 2012, PE), de Wilson Freire - Dia Estrelado (animação, 17 minutos, 2011), de Nara Normande - Exu de Gonzaga (documentário, 20 minutos, 2012, PE), de Guida Gomes

CULTURA POPULAR Quarta-feira 12 | 12 Parque Aza Branca

• Apresentação do grupo “Caboclinho 7 Flexas”

DANÇA Quarta-feira 12 | 12 Palco Juazeiro (Parque Aza Branca)

– Apresentação “Xaxado, Meu Bem Xaxado – O Centenário de Luiz Gonzaga” – Grupo de Xaxado Cabras de Lampião (Serra Talhada-PE)

CULTURA LIVRE NAS FEIRAS Terça-feira 11 | 12

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Apresentações na Feira Livre de Timorante Ivonete Ferreira, Forrozeiro Léo Barros, Hellen e Mistura Nordestina


CULTURA LIVRE NAS FEIRAS (Cont.) Quarta-feira 12/12

• Apresentações na Feira Livre de Granito Poetisa Socorro Oliveira, Grupo Pisando no Terreiro (dança), Encontro de Aboiadores (Pedro Brígido e Antônio), Forró Raízes do Brígida

Sábado 15/12

Apresentações na Feira Livre de Exu • Roda de Contos e Prosa com Amigos do Araripe • Saída em Caravana no Pau de Arara com os sanfoneiros do Exu (William Sanfoneiro, Jonnes, Serginho Gomes, Boiadeiro Franco, Ed Carlos do Exu, Clebson, Mauro Sanfoneiro, DiJesus, Epitácio Pessoa, Vital Barbosa, Elmo Oliveira e Januário) • Causos contados por amigos exuenses de Luiz Gonzaga • Cortejo com a Banda Cabaçal Exuense, Grupo de Flautista Sabiás e a chegada no Pau de Arara com os sanfoneiros do Exu • Forró de encerramento com Joãozinho do Exu e convidados

FEIRAS DE CULTURA Sábado e domingo 15 e 16 | 12 Praça da Catedral de Exu

• Culminância do projeto Feiras de Cultura das Escolas Públicas, com participação de alunos de Araripina, Exu, Granito, Ouricuri e Trindade. Exposição de pesquisas sobre os patrimônios culturais de cada município e produções dos estudantes das redes públicas de ensino.

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FO RMA Ç Ã O

exu OFICINAS

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11 a 14 | 12 Colégio Municipal Bárbara de Alencar

Xilogravura Facilitador José Lourenço

11 a 13 | 12 Colégio Municipal Bárbara de Alencar

Cineclubismo Facilitadoras Natália Lopes e Marlova

10 a 14 | 12 Colégio Municipal Bárbara de Alencar

Cinema de animação e lançamento da animação “A volta da Asa Branca” Facilitador Lula Gonzaga

05 a 14 | 12 Colégio Municipal Bárbara de Alencar

Oito Baixos (Iniciação) Facilitador Luizinho Calixto

10 a 14 | 12 Colégio Municipal Bárbara de Alencar

A ressignificação da indumentária de Luiz Gonzaga Facilitadoras Rebecca Menezes e Roberta Duarte

12 | 12 Colégio Municipal Bárbara de Alencar

Patrimônio e Preservação Facilitadores Diomedes Neto e Mário Gouveia

10 a 11 | 12 Escola de Referência de Exu

Nas Teias do Patrimônio Facilitadores Diomedes Neto e Mário Gouveia


WORKSHOP 12/12 Colégio Municipal Bárbara de Alencar 12 e 13 | 12 em Exu-PE e no Crato-CE Mais informações no site www.gonzaga100.com

Xaxado Facilitadores Integrantes do Grupo de Xaxado Cabras de Lampião COLÓQUIO 100 ANOS DO REI DO BAIÃO

Oficina Cineclubismo Foto | Marcelo Soares Oficina de 8 Baixos, iniciação com Luizinho Calixto Foto | Eric Gomes Oficina de cinema de animação e Lançamento da animação “A Volta da Asa Branca” Facilitador | Lula Gonzaga Foto | Eric Gomes

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PRO GRA MA Ç ÃO

RECIFE PALCO ARSENAL Praça do Arsenal • Recife Antigo

Quinta-feira 13 | 12

Sexta-feira 14 | 12

Sábado 15 | 12

• Baile do Gonzaga Derico Alves, Karolinas com K, Ed Carlos, Sevy Nascimento, Carlinhos Monteverde, Fabiana, Cilene Araújo, Marcelo de Feira Nova e Duda da Passira – Fagner – Alceu Valença – Targino Gondim – Azulão – Viva Gonzagão Almir Rouche, André Macambira, Andrezza Formiga, Bia Marinho, Em Canto e Poesia, Roberto Cruz, Rogério Rangel e Santanna – Assisão – Nando Cordel – Genival Lacerda e João Lacerda – Petrúcio Amorim - Baião Polinário Isaar, Publius, Jr. Black, Zé Brown, Rogerman, Juliano Holanda, Pierre Leite, Guga Azevedo, Sanzyo, Carlos Amarelo, Júlio Cesar, Pablo Ferraz. Convidados: Silvério Pessoa, Hebert Lucena e Mônica Feijó. - Anastácia

TEATRO DE RUA Praça do Arsenal

Terça-feira 11 | 12

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Espetáculo “Luiz Lua Gonzaga” – Grupo Magiluth (Recife-PE)


LITERATURA

Sábado 15 | 12 Livraria Cultura Paço Alfândega

Mesa de Glosa sobre o imaginário de Luiz Gonzaga Com Alexandre Morais (Afogados da Ingazeira), Zé Adalberto (Itapetim), George Alves (Tabira), Caio Menezes (São José do Egito), Lima Júnior (Tuparetama), Henrique Brandão (Serra Talhada), Gleison Nascimento (Recife). Apresentação: Dedé Monteiro

AÇÕES ESPECIAIS

Quinta-feira 13 | 12 Praça do Arsenal Quinta-feira 13 | 12 Concentração na Praça da República

Alvorada Gonzagueana Apresentações de sanfoneiros, quadrilhas juninas, aboiadores, banda de pífanos, bacamarteiros, vaqueiros e xaxados Sanfona do Povo Caminhada de Sanfoneiros - Com Marcelo de Feira Nova, Jó Silva, Arlindo Moita, Geno Melo, Nerilson Buscapé, Vinicius, Néo, Zé Bicudo, João Carlos, Deda, Lenílson Filho, Patrício, Alisson, Thiago, Ceça, Mariano, Luizinho dos 8 Baixos, Severino dos 8 Baixos, Valkíria e outros. Percurso: Praça da República (Palácio do Campo das Princesas) ao Marco Zero (porto) 87


PAUTAS NOS EQUIPAMENTOS CULTURAIS Torre Malakoff Quarta-feira 12 | 12 Museu de Arte Sacra de Pernambuco (Maspe) Terça-feira 12 | 12 Museu Regional de Olinda (Mureo) Sexta-feira 14 | 12

Abertura da exposição “Gonzaga empreendedor” (Sebrae), com a apresentação musical de Benedito da Macuca. A exposição segue aberta ao público até 11/1/2013. Abertura da exposição “Os santos de Gonzaga”, com apresentação musical de Muniz do Arrasta-pé. A exposição segue aberta ao público até 11/1/2013.

• Exposição “Seu Lua no Mureo: 100 anos de Gonzaga, o rei do Nordeste”, de Cláudia Cassemiro. A exposição segue até 30/12/2012. …• Apresentação da Orquestra do Centro Educacional Musical de Olinda – Cemo e Arrastão do Mureo ao Maspe, com o Boneco Gigante de Luiz Gonzaga, de Sílvio Botelho, e a Orquestra Henrique Dias.

Terça-feira 18 | 12 Quarta e quinta-feira 19 e 20 | 12

Acervo do Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (Mispe) na Sede da Fundarpe de 10 a 21 | 12

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Lançamento do livro “Luiz Gonzaga – centenário do Rei do Baião”, de Edvaldo Arlego. Com apresentação musical de Augustinho do Acordeon. Coco de Umbigada e Grandes Coquistas cantam Luiz Gonzaga, com Mestre Pombo Roxo, Dona Glorinha, Zeca do Rolete e Mãe Lúcia de Oyá.

Exposição “Capas de discos de Gonzaga”.


Acervo do Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (Mispe) na Sede da Fundarpe (cont.) Terça-feira 12 | 12 Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC/PE) Quinta-feira 13 | 12 Sábado 15 | 12 Espaço Pasárgada Quinta-feira 13 | 12 Centro de Artesanato Terça-feira 11 | 12 Museu do Estado de Pernambuco (Mepe) Terça-feira 11 | 12 Sexta-feira 14 | 12

Apresentação musical de Eli Vieira. Apresentação musical de Paulinho do Acordeon.

Abertura da Exposição “Ser tão conectado”, dos artistas Ricardo Brazileiro, Ronaldo Eli e do Coletivo 192.198. A exposição segue até 5/1/2013.

Roda de conversa “Qual a influência do nomadismo na criação artística?”, com Ronaldo Eli, Ricardo Brazileiro e Jeraman. Moderação de Ricardo Ruiz. Sarau Gonzagueano, com Susana Morais, Clécio Rimas, Rita Marise.

Abertura da exposição “Xote, maracatu e baião”. Cerâmicas de Jacira Lucena. A exposição segue até 11/1/2013.

Abertura da exposição “Luiz Gonzaga, Rei do Baião”. Acervo de Paulo Vanderley. Apresentações musicais de Leda Dias e Arimatéa. A exposição segue aberta ao público até 31/12.

– Palestra “Luiz Gonzaga e a sua contribuição para a consolidação da identidade brasileira”, com Anselmo Alves. – Exibição do vídeo “Luiz Gonzaga, a luz dos sertões”, de Anselmo Alves e Rose Maria. – Apresentação musical de Seu Neo do Acordeon.

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Museu do Estado de Pernambuco (Mepe) (cont.) Sábado 15 | 12 Casa da Cultura Luiz Gonzaga de 01 a 05 | 12 de 11 a 29 | 12

Terça-feira 11 | 12

– Apresentação musical de Seu Nikanor e seu trio pé de serra.

– Exposição “Gonzagueando com a arte popular”. Acervo da Fundação de Cultura de Caruaru. – Encontro de Sanfoneiros de Oito Baixos, com Zequinha de Aleixo e Paulo dos 8 Baixos. – Apresentações de quadrilhas juninas.

Quarta-feira 12 | 12

– Encontro de Sanfoneiros de Oito Baixos, com Severino dos 8 Baixos e Zé Carlos dos 8 Baixos. – Apresentações de quadrilhas juninas.

Quinta-feira 13 | 12

– Lançamento do CD de Seu Nikanor. – Encontro de Sanfoneiros de Oito Baixos, com Aécio dos 8 Baixos e Tião dos 8 Baixos. – Apresentações de quadrilhas juninas.

Sexta-feira 14 | 12

Teatro Arraial Sexta-feira 14 | 12

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– Palestra “A origem da sanfona no mundo, sua chegada ao Brasil e os diferentes sotaques nas regiões do País”, com Leda Dias. – Exibição do vídeo “Raízes do fole”, de Amaro e Rafael Coelho. – Apresentação musical de Seu Adriano.

– Orquestra Sanfônica de 8 Baixos de Santa Cruz do Capibaribe. – Apresentações de quadrilhas juninas.

– Arraial Instrumental: Cláudio Rabeca homenageia Luiz Gonzaga. – Esquetes: “Lua do amor”, de Williams Santana; e “Contos de uma asa branca”, de Heron Villar.


Teatro Arraial (cont.) Sábado 15 | 12 Quarta-feira 19 | 12

– Espetáculo “Lua baião”, de Criart Cia de Dança.

– Aula-espetáculo “O novo gonzagueano”, com Mestre Camarão.

Cinema São Luiz de 23 | 11 a 20 | 12

– Exibição do filme “Gonzaga – de pai para filho”, de Breno Silveira – Conspiração Filmes.

Casa de Câmara e Cadeia de Brejo da Madre de Deus de 03 a 13 | 12

– Exposição “Gonzagueando com a arte popular”. Acervo da Fundação de Cultura de Caruaru.

Museu do Barro de Caruaru (Mubac) Quinta-feira 13 | 12

– Lançamento da exposição “Gonzagueando com a arte popular”. Acervo da Fundação de Cultura de Caruaru. A exposição segue aberta ao público até 12/1/2013.

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FO RMA Ç Ã O

RECIFE SEMINÁRIOS

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10 | 12 Anfiteatro da Torre Malakoff

“Luiz Gonzaga – a enciclopédia sonora do Nordeste” Facilitadores Dominique Dreyfus, Santanna, Genar, Paulo Vanderley. Mediação José Mauro Alencar.

11 | 12 Anfiteatro da Torre Malakoff

“Luiz Gonzaga – 100 anos do Rei do Baião” Facilitadores Xico Bezerra, Anselmo Alves e Marcelo Melo Mediação José Mauro Alencar.

11 | 12 Anfiteatro da Torre Malakoff

“Formação cultural do povo sertanejo” Facilitadores Dominique Dreyfus e Onildo Almeida Mediação José Mauro Alencar.

11 | 12 Anfiteatro da Torre Malakoff

“Formação cultural do povo sertanejo” Facilitadores Dominique Dreyfus e Onildo Almeida Mediação José Mauro Alencar.


OFICINA 10 a 14 | 12 Cinema São Luiz

“Cinema ágil digital – imaginando Luiz Gonzaga” Facilitador Jaime Fonseca Neto

RODA DE DIÁLOGO 13 | 12 Espaço Pasárgada

“Design de capas de CDs de forró” Facilitadora Paula Valadares

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FICHA TÉCNICA GONZAGA 100 - NOTÍCIAS Edição geral Chico Ludermir Edição de textos Olívia Mindelo e Chico Ludermir Textos Chico Ludermir André Zahar Dora Amorim Gabriela Alcântara Joana Pires Fotos Ricardo Moura Costa Neto Eric Gomes Marcelo Soares Chico Ludermir Direção de Arte Adeildo Leite Projeto gráfico, diagramação e Ilustrações Adeildo Leite Revisão Mariana Maris Colaboração Gabriela Valadares, Fernanda Cristina, Michelle de Assumpção. Gilberto Tenório, Tiago Montenegro, Mariana Melo, Giselly Andrade, Julya Vasconcelos.

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Caderno especial notícias gonzaga 100 anos