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Informativo de 10 anos

www.oigale.com.br Ano 1 | Edição 1 | 1º semestre de 2009 Porto Alegre/RS | Distribuição Gratuita

uma década de teatro OIGALÊ ESTREIA

Estreia dia 04 abril no Teatro do SESC, Centro de Porto Alegre, o espetáculo Era Uma Vez... uma fábula assombrosa

XÔ DE TEATRO

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É MUITO LINDO DE SE VER! Depoimento dos músicos que fizeram parte da nossa trajetória

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O NOSSO OFÍCIO Histórico da Oigalê

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LENDAS E CAUSOS

OUÇA-ME!

Entrevista com os fundadores

Renato Mendonça e Ana Marta Meira falam sobre o grupo

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Vai começar

o Xô de

Teatro!

Se fazer teatro em grupo é uma tarefa peculiar. Fazer um jornal sobre um grupo teatral não é para menos! Eis o nosso desafio nesta que é a primeira edição do Informativo Oigalê: contar 10 anos de história em quatro páginas. Nas páginas que seguem, trazemos um pouco do que consideramos relevante no nosso jeito de fazer teatro. Mostramos brevemente por onde passou nossa trajetória na coluna O Nosso Ofício e em Lendas e Causos os três fundadores da Oigalê nos falam sobre a construção do grupo, sua política de funcionamento e suas escolhas. Em Oigalê Estreia poderão conferir um

pouco sobre o novo espetáculo que estreia em abril e na Agenda fiquem por dentro da programação que a Oigalê preparou para este ano de comemorações. Contamos com muitos amigos que gentilmente enriqueceram este jornal com suas contribuições. Temos as ilustrações de Cláudio Elias, os depoimentos de Renato Mendonça, Ana Marta Meira e dos diversos músicos que fizeram parte da história da Oigalê. Lembramos sempre daqueles que não só compactuaram conosco da loucura de criar uma publicação, como também colocaram a “mão na massa”

para que ela acontecesse efetivamente. É desta maneira que vamos inscrevendo nossa tradição dentro do teatro e permanecemos acreditando e apostando no teatro de grupo. Para o qual o ser humano é matéria primordial. Onde a avaliação se torna tarefa diária. Onde as diferenças somam, adicionam, completam, apesar de todas as dificuldades. Onde o fazer teatral é o significado mais importante. Onde continuar é o verbo a ser conjugado. Oigalê! Uma década de Teatro de Grupo. Tenham uma boa leitura!


Arquivo/Oigalê

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Porto Alegre 2009 | Distribuição Gratuita

O nosso ofício

A

trajetória da Oigalê iniciou em 1999. Seis pessoas se reuniram para a montagem do espetáculo Deus e o Diabo na Terra de Miséria. No início não havia a intenção de formar um grupo, apenas a proposta de começar esta montagem cênica. Havia, sim, o desejo de mostrar através desse trabalho a cultura, os costumes, as lendas, o lugar onde o grupo nascia: o sul do Brasil, o Rio Grande do Sul. Então, mergulhou-se na pesquisa e resgate de contos e lendas da cultura gaúcha, buscando atingir uma expressão universal através da identidade regional. Essa pesquisa continuou e deu origem ao projeto

intitulado Trilogia Pampiana. Nasceram, além de Deus e o Diabo na Terra de Miséria, os espetáculos Mboitatá – A Verdadeira História da Cobra de Fogo (2001) e O Negrinho do Pastoreio (2002). Todos eles criados para a rua. O processo de criação das trilhas sonoras desses três espetáculos foi determinante para instituir uma das características fundamentais do trabalho da Oigalê dali para adiante: a música executada ao vivo pelos atores. A Oigalê passou a circular e a marcar presença pelos parques e praças de Porto Alegre e do Brasil e foi nesse processo que se firmou enquanto grupo. Ao mesmo tempo começou a elaborar e realizar projetos com intuito

De pé, da esquerda para direita: Paulo Brasil, Giancarlo Carlomagno, Hamilton Leite, Anna Fuão e Ilson Fonseca Agachadas: Simone Rasslan, Carla Costa, Juliana Kersting e Roberta Darkiewicz. Sentada, no centro: Vera Parenza

de construir uma política cultural de intercâmbio e troca com outras cidades e estados. O grupo participou de mostras, encontros, corredores culturais e apresentou seu repertório nos principais festivais do Brasil. Mas a Oigalê não veste somente bombachas! E a inquietação por pesquisar outras fontes teatrais abriu caminho para a montagem dos espetáculos: Cara Queimada (2002), o primeiro para sala; A Máquina do Tempo (2005),

Ouça-me!

Renato Mendonça

:-) Jornalista da Zero Hora

Oigalê é uma referência ao imperativo do verbo ouvir, em espanhol. Poderia ser traduzido como “Ouça-me”. E, nesses 10 anos de atividade, o grupo Oigalê já foi ouvido em lugares que muita gente jamais ouviu falar: Santana, no Amapá; Porto Iguazu, na Argentina; Bodocó, em Pernambuco; Jales, em São Paulo; Santo Antônio Jesus, na Bahia. No total, um público estimado em 300 mil almas. Para quem acompanhou a trajetória da Oigalê, e tive a oportunidade de fazer isso como editor de teatro do Segundo Caderno da Zero Hora, isso era mais que esperado. E não apenas pela qualidade inegável do repertório de peças do grupo, fruto de investimento continuado no aperfeiçoamento do elenco e da abordagem original que suas montagens tem, na maioria buscando uma aproximação com o universo gaúcho. O diferencial do grupo é entender que o que está em cena é resultado final de uma série de etapas, que os artistas via de regra evitam, desprezam ou ignoram. O Oigalê, não: o grupo está atento às políticas culturais públicas, sabe a importância de um espaço, entende a importância de expor o trabalho a outras platéias. Ouçam o Oigalê. Sempre vale a pena. Sempre dá prazer.

e x p e d i e n t e Jornalista Responsável: Lisete Ghiggi - DRT/RS 11.419 • Equipe do informativo: Anna Fuão, Juliana Kersting, Roberta Darkiewicz e Vera Parenza • Ilustrações: Cláudio Elias Projeto Gráfico e Diagramação: Carlos Tiburski • Revisão: Paola Oppitz e Raurício Barbosa Colaboradores da edição: Ana Marta Meira, Cristiano Hanssen, Gustavo Finkler, Tonho Crocco Jackson Zambelli, Mateus Berger Kuschick, Renato Mendonça, Simone Rasslan, Paulo Brasil Impressão: Jornal Pioneiro • Tiragem: 5.000 exemplares

peça que trata da preservação do planeta; Uma Aventura Farroupilha (2006) no qual se experimentou a interação entre a técnica do teatro de sombras com o teatro de ator. E eis que após nove anos, o primeiro personagem criado pelo grupo, o ferreiro Miséria, retorna para mais uma farsa gaudéria: Miséria, Servidor de Dois Estancieiros (2008). A livre adaptação do clássico da Commedia dell’Arte, trouxe para a cena

Ana Marta Meira

todas as características do teatro de rua que a Oigalê veio experimentando ao longo deste período. Atualmente o grupo vive o processo de criação do espetáculo Era Uma Vez... uma fábula assombrosa, baseado no livro do cartunista e jornalista Claudius Ceccon “Era Uma Vez... Fábulas Políticas”. A peça, projetada para sala, aprofunda a pesquisa do teatro de sombras relacionado ao teatro de ator.

;-) Psicanalista

Mestre em Psicologia Social e Institucional/UFRGS, Doutoranda em Educação/UFRGS, Membro do GEARTE/UFRGS e coordenadora do Projeto Cidade das Crianças Em uma tarde de sábado, há vários anos atrás, em andanças pelo parque da Redenção com minha pequena sobrinha, tive o prazer de conhecer o trabalho dos Oigalê. “De onde vem esse barulho de tambores?”, ela me perguntara, curiosa. Encontramos o grupo em sua caminhada em direção ao chafariz da Redenção, onde representariam o Negrinho do Pastoreio. Seguimos a canção e o andar vagaroso e alegre dos artistas, que convidavam os frequentadores e visitantes do parque a assistir o espetáculo. O público que os seguia aumentava aos poucos, curioso com o efusivo convite, com as vestes gauchescas, com o sotaque carregado ao som dos tambores e da melodia. Desde essa cena inesquecível, que guardo na memória, a admiração que tenho pelo grupo só tem aumentado. Em seu trabalho de intensa dedicação e consistência e com uma aproximação extremamente respeitosa ao público de várias idades e grupos sociais que os assistem, os Oigalê fazem jus ao refrão da melodia que abre suas obras teatrais. Revelam, ao ar livre e ao sabor do vento, que o teatro de rua é uma forma inestimável de transmissão de histórias, cantos e alegria. Crianças e moradores em situação de rua, indígenas, habitantes de bairros vizinhos e longínquos, se reúnem em uma ode coletiva ao prazer que o grupo de teatro desvela, contando casos riograndenses, reativando memórias apagadas de nossa história e trocas coletivas que se desdobram ao longo dos espetáculos. Em meio a brilhantes e inusitados diálogos, muitas vezes improvisados a partir dos espaços ocupados - seja o palco ou a rua - e dos comentários e frases enunciadas pelo público, muitos risos se desprendem do cotidiano para ecoar ao longe, convocando cada um que passa a compartilhar a arte e a cultura com alegria e desprendimento.


Oigalê estreia

E

streia em abril o espetáculo Era Uma Vez... uma fábula assombrosa. A peça é uma livre adaptação das fábulas “O Progresso” e “O Lobo e a Ovelha”, retiradas do livro “Era Uma Vez... Fábulas Políticas”, da autoria de Claudius Ceccon. Nesse espetáculo a Oigalê arrisca uma nova expressividade em seu repertório: a ausência de textos falados. Nesta perspectiva a trilha sonora feita ao vivo que já faz parte da experimentação do grupo, toma a proporção de fio condutor da história e produz, juntamente com o teatro de sombras e o teatro de ator, a atmosfera das cenas. Era Uma Vez... uma fábula assombrosa é a história de uma cidade fictícia do interior de um país tropical que um dia é surpreendida com a pergunta de uma criança: “Porque não temos progresso?”. A peça incorpora uma das principais características da obra de Claudius, o questionamento, em lugar da moral/moralismo comumente encontrada/o nas fábulas. Nas palavras de Ana Maria Machado: “As fábulas de Claudius não dão lições de conformismo. Até nem dão lições, no sentido restrito da palavra. Mas ajudam a pensar em problemas. E cada um que trate de procurar o que está por baixo da história desses problemas (...). As fábulas de Claudius não são para crianças boazinhas, são para pessoas pensantes. De qualquer idade”. O espetáculo financiado pelo Fumproarte, segue a proposta do grupo de fazer um teatro “para toda a família” e estará em temporada todos os finais de semana do mês de abril no Teatro do SESC, Centro de Porto Alegre, sempre às 16 horas. CONFIRA A FICHA TÉCNICA Duração: 45min Texto: Claudius Ceccon Direção: Vera Parenza Elenco: Carla Costa, Hamilton Leite, Ilson Fonseca, Paulo Brasil, Roberta Darkiewicz Trilha Sonora e Preparação Musical: Mateus Mapa e Simone Rasslan Figurino: Alexandre Silva Cenário: Paulo Balardim Criação de luz: Giancarlo Carlomagno Arte Gráfica: Vera Parenza Produção: Oigalê - Cooperativa de Artistas Teatrais

Xô de teatro

Informativo de 10 anos

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Simone Rasslan “Xô de teatro é muito lindo de se vê…”, principalmente quando se sabe que o trabalho é fruto de um processo riquíssimo. Estou na Oigalê há uns três ou quatro anos e não conheço outro grupo que tenha a preocupação em proporcionar (e consiga pôr em prática) aos seus profissionais formação contínua em música, vivenciando um trabalho de educação musical a longo prazo. Acredito que o ator é um profissional completo e tem o seu corpo como instrumento. Nesse sentido, a música é uma ferramenta importante na interpretação e na compreensão não verbal do texto. É uma experiência onde aprendemos mutuamente. Parabéns pelos 10 anos! Sucesso sempre!

Gustavo Finckler

Jackson Zambelli

Trabalhar com a Oigalê me deu muita alegria. Era um grupo onde ninguém sabia cantar ou tocar, mas tinham a vontade de fazer tudo ao vivo. Deu logo pra perceber que tinham muita garra. E assim, as dificuldades foram pouco a pouco sendo derrubadas, em exercícios de musicalização e ritmo e também em longos ensaios onde os atores executavam as trilhas por mim compostas. Agora o nome da Oigalê é conhecido em tudo quanto é canto e eu fico feliz de ter participado de um trabalho tão consistente.

Cito sempre com muito orgulho um trabalho que realizei: “Ter participado da criação das canções e da preparação musical dos atores no primeiro espetáculo do grupo Oigalê”. E fico mais feliz ainda em ver a evolução que o trabalho musical do grupo apresenta. Desde que o grupo se formou, nunca mais parou de trabalhar e se aperfeiçoar. Sempre buscando os mais variados e melhores profissionais da área. Quem viaja com teatro pelo Brasil sabe que a Oigalê se tornou uma das referências da arte popular do nosso estado.

Tonho Croco

Arte/Claudius Ceccon

Nunca tínhamos feito trilha sonora para teatro; alguma coisa com cinema sim, mas o teatro tem essa característica viva, próxima das pessoas e diária. O desafio ficou ainda mais interessante quando o Hamilton, do grupo OIGALE fez o convite para participarmos da montagem do espetáculo ‘’Cara Queimada’’. Um texto forte, pesado e explosivo; características similares ao som da Ultramen. Na época estávamos em fase de pré-produção do terceiro disco e por coincidência tínhamos uma música que se chamava ‘’Oigalê’’ uma tentativa de DUB RURAL com sample de João de Almeida Neto. Mas não era esse o caminho que iríamos seguir e por sugestão da trupe Oigalê acabamos compondo uma trilha suja, agressiva e pesada, com influencias de hard core, doom metal e vocais guturais, bem mais condizentes com o conteúdo do texto. Indescritível a sensação de estar na platéia e ver/ouvir a nossa música somada com a atuação dos atores e com o desenrolar da trama. Posteriormente conseguimos sintetizar a trilha, que era divida em 7 intervenções em uma só canção, chamada ‘’Fantasmas’’, que acabou entrando no disco ‘’O Incrível Caso da Música que Encolheu e Outras Histórias’’.

Mateus Berger Kuschick Já conhecia a Oigalê das ruas da cidade. Sabia do trabalho inédito de trilha sonora que eles haviam feito no início do século com a banda Ultramen, para o espetáculo Cara Queimada, de teatro de sala. Além disso, sabia dos trabalhos que o Gustavo Finkler já havia feito com a Oigalê, por causa do CD Trilogia Pampiana que a cooperativa lançou registrando trilhas sonoras, todas feitas pelo Gustavo em parceria com os elencos das peças. Com exceção da trilha sonora com a Ultramen, a Oigalê sempre primou pela ideia de executar as canções e os efeitos de sonoplastia ao vivo, da melhor maneira possível musicalmente falando, já que são antes de mais nada um grupo de teatro que está ali para contar uma história, e não uma banda de música. Profissionalmente nos encontramos no final de 2007 para a montagem do espetáculo de rua

3 Cristiano Hanssen Uma Aventura Farroupilha foi o caminho mais longo entre dois pontos: um livro do imortal Scliar e uma peça que conta esta história encadeando encenações de carne e osso, cenas de bonecos e, ainda, de sombras. Não, esta peça não estava me pedindo apenas mais uma trilha. Assim como os personagens saíam da sombra para aparecerem encarnados, eu precisava que a música também se transportasse de um plano para outro sem parecer um erro de perspectiva. Algo como Escher e suas convincentes escadas descendo pra cima. Por isso o elenco teve de aprender a modular as tonalidades durante as canções e temas instrumentais. Algo que geralmente não acontece nos gêneros regionais gaúchos – predominantes nesta trilha –, o que ajudou a destacar estas transposições. No início, foi um parto, como tudo na vida. Cheguei a questionar se não era injusto com os atores inserir esta complicação a mais em suas vidas. Afinal, se fosse eu precisando entrar em cena, não ia querer sair do naturalismo, já que minha maior experiência dramática era simular dor de barriga pra não ir à aula chata da Tia Noêmia. Mas aí está a diferença que nos possibilitou esnobar o caminho mais curto: não estávamos partindo do zero. Há dez anos a Companhia vem tocando e cantando ao vivo em seus trabalhos. Por isso, pôde dar conta de um repertório cuja preparação me fez aprender um pouco mais sobre dedicação e compromisso.  Parabéns, Oigalê! Vida longa!

Miséria Servidor de Dois Estancieiros, no qual eu trabalharia na criação e ensaios da trilha numa parceria com o Gustavo e com a Simone Rasslan. No acomodar da carruagem, ficamos eu e a Simone, que já trabalha regularmente com o elenco da Oigalê fazendo musicalização e preparação vocal há muitos anos. Não deixa de ser uma sorte que eu tive, de trabalhar com a Simone, pois ela já tinha uma história anterior de intimidade e conhecimento do elenco. Além deste fator, desde o início do projeto, o diretor pensou em reunir pessoas com habilidades teatrais, mas também com alguma noção de música (afinação, contato com algum instrumento, noções de ritmo), o que facilitou muito nosso trabalho. A direção foi de Hamilton Leite e teve no elenco grandes atores e pessoas: Caia, Paulo, Roberta, Pecoits, Juliana e Gian.


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Informativo - O que quer dizer Oigalê e como surgiu o grupo? Hamilton Leite - É uma saudação: Oigalê! Também vem do espanhol, oiga-lê: ouça-o. É a mistura na fronteira, do português com o espanhol. Vera Parenza - O Hamilton teve a idéia de montar Deus e o Diabo na Terra de Miséria e chamou pessoas com quem ele havia trabalhado, a Arlete Cunha, o Giancarlo e a Cintia Ceccarelli, depois chamaram eu e a Lila. No início, não existia a idéia de formar um grupo, a idéia era fazer um espetáculo. Como deu certo, a gente disse: “Vamos formar um grupo”, mas claro, como no início de cada grupo, bem confuso. Hamilton - Isso que a Vera disse é bem importante, pois começamos a fazer teatro e se desse certo continuaríamos. Depois de quase um ano de trabalho nos intitulamos um grupo. Informativo - De onde vem o interesse pela pesquisa sobre o universo da cultura pampiana? Hamilton - Eu achava interessante essa lenda presente em vários folclores latinoamericanos do homem querer enganar a morte. Então, quando soube que o personagem Miséria enganava a morte e ficava vagando pelo mundo, quis levar isso pra rua. Quando estava na Bolívia peguei a versão de Ricardo Guiraldes e dei sorte porque ele é quase que um gauches em espanhol. Adaptei, ainda na Bolívia, em 1998 e começamos o processo em 1999. Giancarlo Carlomagno ­­Chamamos pessoas pra dar aula de dança, de bolhadeira e de chula. Curtimos a nossa cultura, o regionalismo, mas somos da capital. Vera - Eu tenho a confessar que tinha preconceito com isso antes de começar a estudar. Mas pesquisando vimos o quanto esta cultura nos pertence e que não

precisa ser da forma como é passada pra gente. Podemos recriá-la a partir do nosso ponto de vista. Por exemplo, vem um grupo do nordeste aqui com um espetáculo folclórico e achamos lindo. O mesmo acontece quando saímos do nosso estado, temos a admiração das pessoas pelo nosso trabalho. Elas se interessam em saber como é a nossa roupa, nossa música, as palavras que falamos. Então, vemos o resultado, o retorno direto. Informativo - E com que motivação surge o espetáculo Cara Queimada? Vera - Não queremos ser um grupo que trata de uma só temática. E quando surgiu esse texto, Cara Queimada de Mayenburg, gostamos muito porque não tem final feliz, não era o que as pessoas esperam ver. Gian - Sabiamos que não teria muito público e apostamos na ideia de trazer um elemento estranho para o teatro. Hamilton - Por isso fizemos no Teatro de Arena, pois é subterrâneo, é no vão do viaduto, é no centro. Gian - O que foi muito legal nessa ocupação, foi que pudemos ensaiar praticamente um mês no local da apresentação. A luz foi composta com poucos refletores e ficou legal. Quando tu tens o mínimo, tem que usar a imaginação e tentar aproveitar o máximo possível do espaço, focando na ação mesmo, e isso foi um baita desafio pra gente. Informativo - Atualmente como o grupo se estrutura, se organiza? Hamilton - Estamos estruturados em dois lugares separadamente, o escritório, para produção e o Hospital Psiquiátrico São Pedro, nosso espaço de ensaio, de manutenção de espetáculos, de guardar figurino, cenário etc. É uma ideia que a gente constrói a um bom

Lendas e

causos

tempo – estamos no HPSP desde 2002 – que é a ocupação de espaços públicos ociosos. Existem vários espaços públicos que estão ociosos. Por que não fazer deste espaço um centro cultural com grupos de teatro? Então, é uma questão que viemos insistindo em todos os lugares que vamos. É muito melhor tu pegar um espaço público que está caindo aos pedaços. Dá para um grupo, ele levanta este espaço e o local se torna uma referência para aquela região. Gian - Sempre tivemos a ideia de cooperativar o trabalho, porém, não somos uma cooperativa formalmente. No início, com todas as dificuldades que se tem, acabamos abraçando todas as funções com exceção da trilha sonora. Os figurinos foram a Arlete, a direção do Hamilton, adereços da Vera e a Cíntia e assim foi. Divulgação nós fazíamos, fazemos até hoje. Não temos produtor, nós produzimos. Fomos, na verdade, crescendo nesta ideia e diversificando mais o trabalho de cada um na manutenção do grupo, seja numa página de internet, seja na criação das peças gráficas, seja costurando um figurino. Hamilton - Eu acho extremamente importante para se manter um repertório, a questão do espaço físico. Tu só vai conseguir manter um repertório, tu só vai conseguir guardar as coisas se tu tiveres espaço e com isso também a ideia é nunca degolar um espetáculo. Existem os lugares mais diferenciados para tu levar ele e os lugares onde tu levou, o próximo pode ir e aonde foi esse o próximo pode ir também. É óbvio que esse espetáculo muda, vai se adaptando no sentido de buscar uma evolução na música, na estética, no todo. Gian - Eu acho que isso também ajuda na sobrevivência

do grupo, que é isso que o Hamilton fala, que a gente não vive só de projetos específicos, a gente monta o Era uma vez... uma fábula assombrosa, agora em 2009, e daí no ano que vem não tem mais nada? Não, nós temos! caóticos e a partir de que ponto Chegamos aos 10 anos com sete nos organizamos para ter esse espetáculos, mais algumas retorno das instituições que oficinas, mais o que for possível. dizem: “Nossa! Como vocês são Quer que a gente crie alguma organizados”. Avançamos um coisa? Criamos! pouco e voltamos, e isso foi se Hamilton - O que mantém a dando ao longo desses 10 anos, Oigalê é a venda de espetáculo porque nós não temos regra e seja para instituições, prefeituras, estamos fazendo o caminho ao SESC, SESI, escolas, festivais - e os caminhar. editais públicos. Basicamente o que fomenta nossos espetáculos é o FUMPROARTE, que é de Porto Alegre, e alguns prêmios que a FUNARTE coloca na roda. O FUMPROARTE nos ajuda bastante em Porto Alegre, várias montagens nossas são bancadas por ele, ajuda na montagem do espetáculo. Vera - Nossa forma de organização Durante o acabou sendo ano de 200 9 a Oigalê estará dese um diferencial, nvolvendo diversas atividades. Neste prim não que sejamos e ir o semestre temos a se guinte agen muito da. organizados, mas estamos procurando Estreia do e spetáculo a nossa forma. Como Era Uma V ez... uma fábula os grupos são a ss o mbrosa, dias 4 e 5, 11 e 12, 18 formados por e 19, 25 e no Teatro d 26, o SESC, PO artistas, é difícil esta A. parte Festa de an administrativa que iversário do Grupo, dia 6. conquistamos. As vezes já Projeto de Residência aconteceu de eu Artística com o Gru po Galpão dizer: “Gente! . não vamos organizar Circulação dos espetá culos demais porque em repertó rio. regra demais não é grupo de teatro, a criação se dá no caos”. Então, até onde temos que ser

Atividades

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