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Informativo Oigalê www.oigale.com.br

Ano 2 | Edição 4 | 2º semestre de 2010 Porto Alegre/RS | Distribuição Gratuita

desde 1999


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Porto Alegre 2010 | Distribuição Gratuita

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7º Encontro de Articuladores da Rede Brasileira de Teatro de Rua Giancarlo Carlomagno Articulador da Rede Brasileira de Teatro de Rua/RS

editorial Buenas, aqui estamos de novo, em nossa 4ª edição, levando um pouco de informação e cultura, mas agora temos boas novidades e queremos dividir com o nosso público. A Oigalê é hoje no Brasil uma referência de teatro de rua, e coerente com nosso trabalho de pesquisa no universo regional estamos partindo para um novo passo: o projeto “Oigalê – A busca de um teatro de rua pampiano”. Queremos aprofundar a pesquisa desenvolvida pela Oigalê desde 1999, que é o trabalho do ator de teatro de rua, mambembe, mesclado ao contador de causos, lendas, histórias e contos da região pampiana (Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina). A busca de uma linguagem e dramaturgia própria. O principal objetivo deste novo projeto é dar continuidade ao trabalho de pesquisa da Oigalê, voltado para uma política pública de cultura, democratizando bens culturais como apresentações de espetáculos em ruas e parques que já foram vistos em 15 estados brasileiros, Argentina e Portugal nestes últimos anos. Porém, nestes 11 anos de trajetória, a maior dificuldade foi a dedicação a estes três tópicos: pesquisa, manutenção e montagem de espetáculo. Com este novo suporte de patrocínio contemplado na Seleção Pública do Programa Petrobras Cultural, pretendemos desenvolver nosso trabalho com um pouco de tranquilidade e dignidade. Investiu-se tempo e vida nesta década, mas para que assim possamos cada vez mais caminhar em direção da qualificação e do primor teatral é chegada a hora de poder mostrar o quanto é importante o processo de trabalho teatral que a Oigalê desenvolve a nível regional. Por ser ímpar na região Sul, e o quanto isso pode se tornar cada vez mais importante para a pesquisa de práticas dramatúrgicas e de linguagem cênica contemporânea de nosso país, estamos começando um novo momento. Levaremos apresentações do espetáculo de teatro de rua O Negrinho do Pastoreio a 10 cidades do interior do Rio Grande do Sul na fronteira da Argentina e Uruguai no segundo semestre de 2010. Buscando um intercâmbio e, assim, desenvolvendo uma pesquisa de campo, ficando mais alguns dias em cada cidade visitada para pesquisar e codificar o trabalho campeiro, captar imagens, buscar histórias, lendas e causos. O Negrinho do Pastoreio levará junto com a Oigalê um toco de vela para acharmos uma história, um conto, um causo ou uma lenda que se transformará em teatro e se vancê que está ai parado lendo estas linhas tem algo para contar, solte o verbo e venha dividir conosco esta história. Envie para a Oigalê: oigale@terra.com.br Porém o projeto não para por aí. No primeiro semestre de 2011 será desenvolvida uma oficina teatral de rua em nosso espaço de trabalho e ocupação cênica, o Hospital Psiquiátrico São Pedro no Bairro Partenon, na periferia da cidade de Porto Alegre. E em 2012 festejaremos os 13 anos da Oigalê com a estréia de nosso quinto espetáculo de teatro de rua, fruto desta pesquisa e trabalho cotidiano de teatro de rua, levando 20 apresentações à grande Porto Alegre. Oigalê, tchê, que venha outra década e novas histórias. Nos encontramos na rua, pois ela é nossa. E na essência de nossas vidas “a rua” é cultura pública.

e x p e d i e n t e Jornalista Responsável: Lisete Ghiggi - MTB 4685 • Coordenação do Informativo: Ilson Fonseca e Hamilton Leite • Projeto Gráfico e Diagramação: Carlos Tiburski Revisão: Paola Opptiz • Arte de Capa: Vera Parenza • Colaboradores da Edição: Jane Schoninger, Ilson Fonseca, Hamilton Leite, Giancarlo Carlomagno, Carla Costa e Vera Parenza • Impressão: Jornal Pioneiro • Tiragem: 2.000

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e 01 a 06 de maio de 2010, na cidade de Canoas/RS, a Rede Brasileira de Teatro de Rua e seus articuladores de 26 estados da nossa federação voltaram a se encontrar. Dessa vez, conseguimos concretizar uma idéia antiga e há muito tempo almejada: a de realizarmos um encontro latino-americano e de unirmos a parte artística com a política. Foram seis dias intensos, com a participação de mais de uma centena de comparsas do teatro de Rua Brasileiro e latino-americano (Argentina e Colômbia). Iniciamos o 7º Encontro realizando pela primeira vez uma mostra nacional de teatro de rua. Foram 16 apresentações (13 grupos gaúchos, 01 capixaba, 01 catarinense, 01 pernambucano e 01 argentino) nos três primeiros dias. Sempre após as apresentações, realizamos debates para uma análise dos trabalhos, buscando não só observações e sugestões, mas uma conversa franca entre amigos. Nem sempre isso foi possível. É bem difícil o dom e a clareza na fala e mais difícil ainda

assimilar as críticas. Mas este também esta sendo um aprendizado da nossa rede. Saber falar e, principalmente, saber ouvir. Munidos de muita energia positiva e de um espírito agregador, iniciamos nosso encontro de debates políticos. Começamos nos apresentando uns aos outros, pois o 7º Encontro conseguiu concretizar a participação de praticamente todo o Brasil, ficando de fora somente a Paraíba. Cada articulador falou um pouco da realidade de cada grupo/estado/país, das nossas dificuldades e diferenças, mas acima de tudo, do que nos aproxima. Nesse mesmo dia realizamos uma ação conjunta na Assembléia Legislativa do estado do RS, onde ocorreu uma audiência pública com o governo federal (MINC). Foi bonito ver a Rede Brasileira de Teatro de Rua marcando presença nacionalmente e colocando publicamente ao Ministério da Cultura suas necessidades. No segundo dia realizamos um debate com o colega e agora diretor de artes cênicas da FUNARTE, Marcelo Bones e com integrantes da Secretaria de Políticas Culturais do MINC sobre a construção

de políticas públicas para o teatro de rua. Após três dias de debates muito produtivos, com alguma serenidade e muita divergência de idéias, encerramos o Encontro com a definição do Centro-Oeste (Mato Grosso) como a sede do 8º Encontro da RBTR, a elaboração da Carta do Rio Grande do Sul com mais de uma dezena de reivindicações e a apresentação de mais um espetáculo de teatro de rua (Rio Grande do Norte) seguido de uma grande confraternização regada a vinho, churrasco, intervenções, dança e muito bom humor. Nesses últimos anos, o grande ensinamento dos encontros da Rede Brasileira de Teatro de Rua tem sido a importância de estarmos conversando constantemente. Somos semelhantes, mas diferentes e as nossas diferenças são os nossos pontos positivos. A diferença tem nos unido e nos fortalecido. Estamos crescendo, amadurecendo, aparecendo e reafirmando a necessidade de uma nova ordem por um mundo socialmente justo e igualitário. Viva o teatro de rua!!!

Parcerias para ampliação de

possibilidades artísticas Jane Schoninger Coordenação Técnica de Cultura Sesc-RS O Sesc/RS vem desenvolvendo projetos de circulações de ações culturais nas diversas linguagens: literatura, música, cinema, artes cênicas e visuais. Esse formato de disponibilização de bens culturais busca ser um mecanismo transformador e ampliador dos efeitos que a cultura possibilita nas comunidades, fazendo com que os profissionais da cultura encontrem suas consciências artísticas através de novos caminhos, do conhecimento da diversidade existente e possibilitando que o público descubra a rica produção que há nesse país. Com o intuito de ampliar o oferecimento de bens culturais às comunidades, parcerias são firmadas com grupos e coletivos de artes, como a Oigalê. Nesse sentido, a Instituição estabelece condições para que possa levar os trabalhos até o interior do Estado. Nessas situações, o coletivo desenvolve suas pesquisas, projetos e/ou novas construções, possibilitando ainda, a participação das comunidades locais, através de suas apresentações. Nos últimos anos, a Oigalê vem se tornando referência do teatro de rua no Brasil, o que demonstra o comprometimento com o fazer artístico, aproveitando como troca e crescimento de sua proposta. A realização de parcerias para a ampliação de atividades artísticas nas cidades vem de encontro a uma situação que podemos afirmar sem muito erro: o interior do país sofre de uma invisibilidade cultural, quando comparado aos grandes centros. A produção cultural e o público local acabam ficando deficientes por falta de incentivo e os circuitos de cultura vêm para contribuir com essa situação. A necessidade de uma mobilização através de parcerias culturais busca, em especial, fortalecer e valorizar uma platéia formada para o consumo de bens culturais. Com o desenvolvimento dessas parcerias e de atividades descentralizadas busca-se atrair a atenção para o interior do Estado, investindo e atendendo a demanda existente nas comunidades locais e o crescimento das produções culturais do nosso Estado.


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João Simões Lopes Neto in: Lendas do Sul, 1913

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aquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas; somente nas volteadas se apanhava a gadaria xucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos... Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias-doblas e mais muita prataria; porém era muito cauíla e muito mau, muito. Não dava pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no inverno o fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas e o minuano podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seus umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas. Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque o homem só dava para comer um churrasco de tourito magro, farinha grossa e erva-caúna e nem um naco de fumo… e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele estava lonqueando... Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino cargoso como uma mosca, para um baio cabos-negros, que era o seu parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvão e a quem todos chamavam somente o - Negrinho. A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem. Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio; depois conduzia os avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino, que o iudiava e se ria.

Um dia depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreira com um seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro que não, que não! que a parada devia ser do dono do cavalo que ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada, mil onças de ouro. No dia aprazado, na cancha da carreira havia gente como em festa de santo grande. Entre os dois parelheiros, a gauchada não sabia se decidir, tão perfeito era e bem lançado cada um dos animais. Do baio era fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não lhe viam as patas baterem no chão... E do mouro era voz que quanto mais cancha, mais aguente e que desde a largada ele ia ser como um laço que se arrebenta... As parcerias abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam aperos contra rebanhos e redomões contra lenços. - Pelo baio! Luz e doble!… - Pelo mouro! Doble e luz!... Os corredores fizeram as suas partidas à vontade e depois as obrigadas; e quando foi na última, fizeram ambos a sua senha e se convidaram. E amagando

o corpo, de rebenque no ar, largaram, os parelheiros meneando cascos, que parecia uma tormenta... - Empate! Empate! - gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a parelha veloz, compassada como numa colhera. - Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora! - gemia o Negrinho. - Se o sete-léguas perde, o meu senhor me mata! hip! hip! hip!... E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio. - Se o corta-vento ganhar é só para os pobres!... retrucava o outro corredor. Hip! hip! E cerrava as esporas no mouro. Mas os fletes corriam, compassados como numa colhera, Quando foi na última quadra, o mouro vinha arrematado e o baio vinha aos tirões… mas sempre juntos, sempre emparelhados. E a duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de supetão, pôs-se em pé e fez uma caravolta, de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passar, ganhando de luz aberta! E o Negrinho, de em pêlo, agarrou-se como um ginetaço. - Foi mau jogo! - gritava o estancieiro. - Mau jogo! - secundavam os outros da sua parceria. A gauchada estava dividida no julgamento da carreira; mais de um torena coçou o punho da adaga, mais de um desapresilhou a pistola, mais de um virou as esporas para o peito do pé... Mas o juiz, que era um velho do tempo da guerra de Sepé-Tíaraju, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo. Abanando a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem: - Foi na lei! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro, Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei! Não havia o que alegar. Despeitado e furioso, o estancieiro pagou a parada, à vista de todos, atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu contrário, estendido no chão. E foi um alegrão por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou distribuir tambeiros e leiteiras, côvados de baeta e haguais e deu o resto, de mota, ao pobrerio. Depois as carreiras seguiram com os changueiritos que havia.

O estancieiro retirou-se para a sua casa e veio pensando, pensando calado, em todo o caminho. A cara dele vinha lisa, mas o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda… O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma. E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho. Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim: - Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta dias ficarás aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros... O baio fica de piquete na soga e tu ficarás de estaca!

O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando. Ve i o o s o l , veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho, varado de fome e já sem força nas mãos, enleou a soga num pulso e deitou-se encostado a um cupim. Vieram então as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar, e todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas asas. O Negrinho tremia, de medo... porém de repente pensou na sua madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu. E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três-Marias: a estrela-d’alva subiu... Então vieram os guaraxains ladrões e farejaram o Negrinho e cortaram a guasca da soga. O baio sentindo-se solto rufou a galope, e toda a tropilha com ele, escaramuçando no escuro e desguaritando-se nas canhadas. O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de escárnio, Os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se enxergava: era a cerração que tapava tudo. E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

O menino maleva foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho. E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido. Rengueando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela acesa em frente da imagem e saiu para o campo. Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando cera no chão; e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareavam tudo. O gado ficou deitado, os touros não escarvaram a terra e as manadas xucras não dispararam... Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por diante a tropilha, até a coxilha que o seu senhor lhe marcara. E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu... Gemendo, gemendo, o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagaram-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxains ladrões; porém pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo

chupou o beiço e tocou a tropilha a galope. E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não. chorou, e nem se riu.

fora, retouçando e desguaritando-se nas canhadas. O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos não estavam lá... E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou...

O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho... dar-lhe até ele não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo escorrendo do corpo… O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora Nossa, deu uni suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que morreu... E como já era noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o estancieiro mandou atirar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o sangue e os ossos... E assanhou bem as formigas, e quando elas, raivosas, cobriam todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-la é que então ele se foi embora, sem olhar para trás. Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro… e que tudo isto cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno... Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e a casca das frutas. Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto. E três dias houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o mesmo sonho.

A peonada bateu o campo, porém ninguém achou a tropilha e nem rastro. Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo. Qual não foi o seu grande espanto, quando chegado perto, viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!... O Negrinho, de pé, e ali ao lado, o cavalo baio e ali junto a tropilha dos trinta tordilhos... e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não a têm, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu... Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo. E o Negrinho, sarado e risonho, pulando de em pêlo e sem rédeas; no baio,

Correu no vizindário a nova do fadário e da triste morte do Negrinho, devorado na panela do formigueiro. Porém logo, de. perto e de longe, de todos os rumos do vento, começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo... E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam notícia - da mesma hora - de ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pêlo, em um cavalo baio!… Então, muitos acenderam velas e rezaram o Pai-nosso pela alma do judiado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia, sem ninguém ver.

Todos os anos, durante três dias, o Negrinho, desaparece: está metido em algum formigueiro grande, fazendo visita às formigas, suas amigas; a sua tropilha esparrama-se, e um aqui, outro por. lá, os seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias. Mas ao nascer do sol do terceiro dia, o baio relincha. perto do seu ginete; o Negrinho monta-o e vai fazer a sua recolhida; é quando nas estâncias acontece a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e n&o vê ninguém, nem na ponta, nem na culatra.

Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho, sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas e desce às canhadas. O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto de vela, cuja luz ele leva para o altar da Virgem Senhora Nossa, madrinha dos que não a têm. Quem perder suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo -Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi... Foi por ai que eu perdi!... Se ele não achar… ninguém mais.


Por onde andaremos?

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Carla Costa

Atriz da Oigalê

agenda

Porto Alegre 2010 | Distribuição Gratuita

Agosto Dia 04 Dia 07 Dia 11 Dia 15 Dia 17

Etapa 1

15h 15h 15h 15h 15h

Praça Manoel dos Santos Rocha Praça Getúlio Vargas Praça da Lagoa Parcão Pq. Fermino Fernandes Lima Praça 22 de Outubro

Itacurubi/RS Garruchos/RS São Borja/RS Itaqui/RS Maçambará/RS

Setembro Dia 11 Dia 12

Etapa 2

Outubro Dia 10 Dia 14 Dia 17

Nova Petrópolis/RS Nova Petrópolis/RS

17h 17h 17h

Uruguaiana/RS Barra do Quaraí/RS Quaraí/RS

Mais informações sobre a agenda do grupo em www.oigale.com.br Carlos Silero

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ampa é um nome de origem indígena quéchua genericamente dado à região pastoril de planícies com coxilhas. Ocupa cerca de 63% do território gaúcho e se estende pelos territórios do Uruguai, pelas províncias argentinas de Buenos Aires, La Pampa, Santa Fé, Entre Ríos e Corrientes. No Brasil o Pampa também é conhecido como Campos do Sul, Campos Sulinos ou Campanha Gaúcha. Justamente nessa região do sul do país é que a Oigalê – Cooperativa de Artistas Teatrais escolheu realizar a sua pesquisa: “A Busca de um Teatro de Rua Pampiano”. Das paragens mais distantes desse imenso pampa é que vamos viajar. Descobrir no universo Sul/Sur a riqueza da história de famílias, contos e lendas de uma região habitada pela figura mítica do gaúcho que campeia o ermo e conversa com a solidão. São essas singularidades do pampa e sua geo­ grafia que vamos desvendar. Começamos com a pequena cidade de Itacuribi, um dos pontos turísticos mais bonitos da região da fronteira Oeste com um anel de pedra com várias quedas d’água. Após, partimos em busca de uma dramaturgia pampiana para a cidade de Garruchos, considerada um dos maio-

res pólos energéticos do Estado com 90% da sua energia exportada para a Argentina. No ritmo próprio das águas e no vaivém das chalanas a Oigalê cruzará o rio Uruguai para descobrir a cultura e a tradição popular dos “hermanos garruchos”. Em São Borja vamos conhecer a cidade que abrigou a primeira missão jesuíta dos Sete Povos das Missões. São Francisco de Borja foi o primeiro de uma série de sete retornos que trariam de volta ao solo gaúcho os guaranis catequizados. São Borja é ainda a terra de Getúlio Vargas e João Goulart, duas referências da política brasileira. Já em Itaqui vamos visitar o teatro Prezewodowski, um dos teatros mais antigos do Rio Grande do Sul (1883). Entre planícies e coxilhas, a mistura curiosa formada por portugueses, espanhóis, negros e índios. Aliás, o nome Itaqui tem sua origem na língua Guarani. A tradução literal é:

Ita = Pedra Ku’i = Areia ou “pedra d’água”, própria para afiar. Nesse giro pelo pampa gaúcho a cidade de Maçambará nos aguarda para encerrar a primeira etapa de pesquisa da Oigalê.

O nome Maçambará é emprestado de uma erva africana muito comum na região. A cidade teve o seu desenvolvimento a partir da chegada da estação férrea e emancipou-se de Itaqui apenas em 1995. É uma cidade nova em terra antiga! O que iremos encontrar? Quais as surpresas, as perplexidades que divisam entre os irmãos da Argentina e Uruguai? Enfim, quem é esse povo, o que resta do gaúcho que conhecemos por tradição e quem é esse novo gaúcho? Bem, essa é apenas a primeira fase do projeto da Oigalê “A Busca de um Teatro de Rua Pampiano” e até o final do ano ainda vamos conhecer as cidades de Uruguaiana, Quaraí, Barra do Quaraí, Santana do Livramento, Don Pedrito, Aceguá e Bagé. Esperamos voltar a Porto Alegre com a guaiaca cheia de histórias para contar e o coração repleto de amigos! Vale lembrar que este projeto só é possível graças ao patrocínio da Petrobras, parceiro da Oigalê até 2012, quando será montada uma nova peça fruto das nossas andanças pelo pampa gaúcho. Mas você também pode participar desde agora, basta acessar o nosso site em www.oigale.com.br e deixar o seu depoimento, a sua história. Te aprochega vivente!

Itaqui

Caça-palavras

População: 36.560 (IBGE) Bioma: Pampa Distância da capital: 670 km Site: www.itaqui.rs.gov.br

Itacurubi Macambará População: 4.375 (IBGE) Bioma: Pampa Distância da capital: 593 km Site: www.macambara.rs.gov.br

População: 3.712 (IBGE) Bioma: Pampa Distância da capital: 537 km Site: www.itacurubi.rs.gov.br

População: 63.035 (IBGE) Bioma: Pampa Distância da capital: 606 km Site: www.saoborja.rs.gov.br

Garruchos Caça-palavras: procure 50 palavras escondidas no diagrama Todas as letras são utilizadas. Solução no site em www.oigale.com.br

São Borja

População: 3.509 (IBGE) Bioma: Mata Atlântica e Pampa Distância da capital: 590 km Site: www.garruchos.rs.gov.br

Informativo Oigalê  

Jornal sobre a Oigalê - Cooperativa de Artistas Teatrais que aborda sobre o Teatro de Rua, Ocupação Cênica, Políticas Públicas para a Cultur...

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