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Romance e burguesia: a realidade despida de significado

Sergio Pires/FSA

O romance, gênero literário altamente difundido nos tempos atuais, possui raízes e características que o grande público desconhece. A forma contemporânea, na qual diversos personagens interagem, é algo relativamente novo quando comparada às diversas expressões artísticas da escrita que a humanidade experimentou. Na antiguidade clássica, por exemplo, época das tragédias, epopeias e herois, o caráter moral presente na linguagem em questão, exposta por meio de um único indivíduo que permeia toda a trama, era predominante. A organização do romance é realizada por meio de uma série de acontecimentos que ocorrem numa sequência de tempo. Dentro deste período, diversos núcleos (ou grupos de personagens) desencadeiam papeis de mediadores da história, contemplando a narração principal. “Nesta forma literária há uma totalidade extensiva dos objetos. A apresentação das figuras e situações ocorre simultaneamente”, esclarece Leandro Cândido de Souza (foto),

professor de pós-graduação na Fundação Santo André. Em outros gêneros literários, a multiplicidade também estava presente. Todavia, as relações experimentadas pelos personagens eram delineadas pela presença de um único indivíduo que assumia o posto de mediador dos conflitos. “Na epopéia também existia essa relação, mas havia a figura de um herói que por si só encarna todo o contexto”, explica Leandro, que complementa apontando o porquê da mudança de parâmetros: “No mundo burguês fica impossível apresentar um herói que encarna a totalidade de um lugar onde está inserido, devido à decadência dos valores e da própria cultura. Existe certa hostilidade à produção de uma vida culturalmente autêntica”.

existentes. Não expressam as relações de mútua determinação entre sujeito e objeto e, assim, promovem uma defesa do mundo existente por apresentar seus personagens isolados das relações que o determinam”, diz Leandro. Assim, a prosa da época burguesa é fruto do inevitável desaparecimento tanto da atividade espontânea quanto da ligação imediata do indivíduo com a sociedade. A tradição cultural ocidental no campo da literatura, segundo Leandro, “sempre foi marcada pelo realismo. Seja na epopeia clássica, na tragédia ou romance burguês. As vanguardas operam não uma superação dessa tradição, mas uma ruptura, essa é a problemática”. No romance realista, os personagens, assim, esArte e vanguarda tão ao mesmo tempo em “O problema das vanguar- comunhão e oposição ao das, ou modernismo, na mundo. A forma interior passagem do século 19 para do romance não é senão o o século 20, é que seus re- percurso desse ser que, a cursos de construção sem partir da submissão à renarrativa acabam abdican- alidade despida de signifido da apresentação das al- cação, chega à clara consternativas concretamente ciência de si mesmo.

O militar de esquerda

Nascido em 27 de abril de 1911, no Rio de Janeiro, Nelson Werneck Sodré se destaca não somente pela contribuição ao conhecimento histórico do Brasil. A formação intelectual do carioca ocorreu por meios inesperados a um pensador de esquerda, sendo completamente estruturada pelo ensino militar. A origem de seu pensamento não foi empecilho à vasta obra que deixou, e suas ideias contemplam desde a teoria econômica até análises literárias. “Nos anos de 1920 a formação militar era bastante ampliada, incluindo línguas, literatura e etc.. Havia uma abertura humanística”, explica Marcos Silva, profes-

sor de história na Universidade de São Paulo (USP). Foi nesse contexto que Sodré se educou. A boa formação, no entanto, não foi o suficiente para impedir as críticas. “Ele não teve formação acadêmica, o que era comum na época. Nunca foi professor de universidade e acredito que por esse motivo foi tão pré-conceituado, tratado como um autor sem importância e superficial”, analisa Silva, que complementa o problema indicando o fato de Sodré ter uma orientação intelectual ligada a Marx. “O marxismo nos últimos 30 anos tem sido vítima de muitos preconceitos. Chegam a dizer que acabou; o que é um erro”.

Argentina e seus demônios A professora Silvia Elena Alegre esteve presente no encerramento da Semana de Sociais, ocorrido na livraria Alpharrabio, em Santo André, para tratar do tema: Crônica de tempos difíceis – Aspectos da história contemporânea na Argentina. Silvia – que se diz “brasileira por adoção” – veio da Argentina para o Brasil em 1976, refugiada do golpe militar e do endurecimento da repressão. A historiadora lembrou a identificação social que os movimentos de esquerda, inclusive os movimentos armados, tinham junto à população argentina. Diversos militantes dos movimentos armados estavam inseridos em outras lutas sociais como o movimento estudantil, trabalhista e de gênero, por exemplo, e todos sabiam que os militantes participavam da luta armada. Esse fato, além de facilitar a penetração dos movimentos armados na sociedade, facilitou também a identificação de seus membros por parte dos militares que deram o golpe. A ditadura militar na Argentina, que é marcada pela dura repressão (o número de desaparecidos no período chega a aproximadamente 30 mil), teve

uma curta duração se comparada ao Brasil (1976 a 1983). Silvia afirma que a Argentina foi pioneira na recuperação da memória dos tempos da ditadura, uma vez que logo com a abertura política, em 1983, foram julgados e presos os generais de alta patente. Porém, a discussão sobre o papel tanto dos militares quanto da esquerda no processo ocorreu de forma despolitizada, resultando em teorias como a dos “dois demônios”, segundo a qual a sociedade civil estava no meio de uma guerra entre a esquerda armada e as forças militares, ou com a vitimização dos militantes desaparecidos, com movimentos como o das Mães da Praça de Maio. No momento atual, ao mesmo tempo em que o Brasil discute a Comissão da Verdade para investigar os crimes de sua ditadura militar, na Argentina, segundo Silvia, está ocorrendo uma retomada das discussões e das pesquisas sobre a ditadura militar, de uma forma que não havia sido feita até então. As discussões estão avaliando o papel dos militares e da esquerda armada no processo da ditadura de uma forma mais politizada.

Jornal de Ciências Sociais  

Jornal elaborado por alunos e Colegiado de Ciências Sociais da Fundação Santo André

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