Issuu on Google+

2 Ano 4


APRESENTAÇÃO

A você, leitora e leitor de Espaço Mariano, muita paz e alegria em Cristo, Senhor de nossa vida e missão. O segundo número de 2013 nos oferece conteúdos para ler, refletir, rezar e iluminar nossa caminhada comprometida no anúncio do Reino. Irmã Monica nos motiva a perceber o jeito de Jesus envolver em sua missão pessoas insignificantes na época, mas que são profundamente amadas por Ele. Lucas evidencia no seu Evangelho que também Maria de Nazaré faz parte deste grupo de pessoas. Jesus, conhecendo tal realidade defenderá as mulheres e as acolherá entre os seus discípulos e discípulas. Maria, a Mãe de Jesus, acolhe o convite de seu Filho e, com ela, outras mulheres ao longo da história deixam-se envolver pelo amor de Deus, tornadose suas discípulas. Entre estas, destacamos Elisa Andreoli e Dolores Inglese, da Família religiosa das Servas de Maria Reparadoras, reconhecidas como “veneráveis” pela Igreja. Por sua vez, Pe. Marcus intensificando e ampliando o tema do seguimento a Jesus Cristo situa-nos no contexto do Evangelho de Lucas, explicita com clareza seu jeito de anunciar a Boa Nova para pessoas oriundas do paganismo grego-romano, conduz-nos a ampliar o coração, o conhecimento, a fim de dar continuidade, hoje, à missão de Jesus e dos primeiros discípulos, pois a salvação é oferecida a todas as nações, culturas e mentalidade diferentes! Lucas apresenta também a grande viagem missionária de Jesus. Ele deixa a Galileia, inicia seu caminho no povoado dos samaritanos, a terra de pagãos, e o culmina em Jerusalém. Pe. Marcus evidencia como o Evangelho de Lucas não se contém num único lugar ou com poucas pessoas, ele se espalha e cresce de forma surpreendente, e os discípulos são continuadores da missão de Jesus. Neste sentido, acolhemos com alegria um escrito de Irmã Luisa Gatto smr, sobre a paixão de uma continuadora da missão de Jesus: Madre Elisa Andreoli que, a exemplo de Maria, a Mãe solícita e atenta, fundamenta sua opção de vida no amor a Deus e no serviço aos irmãos e irmãs. Seu empenho apostólico nasce de um impulso interior de tornar conhecido o amor de Jesus Cristo

pela humanidade e que “Ele seja amado e servido por milhões de corações”! É a graça de Deus, como a semente lançada na terra, que lentamente vai se espalhando e gerando a vida em todas as situações, culturas e nações. O evangelista Lucas não se limita à vida de Jesus, mas prossegue seu escrito narrando a continuidade da missão Dele por meio dos discípulos. Jesus evidencia também Maria de Nazaré e outras mulheres que O seguem corajosamente e O anunciam. Hoje, nós somos os/as convocados/as a ser discípulos e discípulas de Jesus Cristo e testemunhar o seu amor incondicional pela humanidade segundo o projeto de Deus Pai. “O amor de Cristo nos impele (2Cor 5,14). Seja este amor que dá sentido à nossa vida e nos envia para a missão! A Redação

I. “... e o nome era Maria” (Lc 1,27)

Mulheres: Elisa, Dolores. E uma “figura de mulher”, mãe, amiga... Em algumas cenas significativas, os quatro evangelistas, mostram o Mestre envolvendo pessoas. E sabemos que Ele escolheu aquelas mais insignificantes da época: crianças, pobres, estrangeiros, mulheres com “vários estilos”: viúvas, estrangeiras encontradas em adultério, endemoninhadas, encurvadas, doentes! Todas essas pessoas, amadas e muito amadas por Ele. A mulher, no tempo de Jesus, segundo o autor José Antonio Pagola, “era valorizada, sobretudo por sua fecundidade e seu trabalho no lar. Sobre ela recaía a educação dos filhos pequenos, a confecção das vestimentas, a preparação da comida e demais tarefas domésticas” (cf. Jesus aproximação histórica,Vozes, 2011, p. 67). 2


Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, faz parte dessa “descrição”. Mas esta definição não se pode entender como único e oficial retrato da mulher, e nem Daquela “... cujo nome era Maria” (cf. Lc 1,27). Nas civilizações e culturas, existem interferências favoráveis a mudanças de comportamento, de classificações, de definições e por causa disso, podemos afirmar que à luz da educação recebida, Jesus de Nazaré, mais tarde defenderá as mulheres contra as discriminações e as acolherá entre seus discípulos. E com certeza Maria Mãe que o acompanhou em toda a sua vida, tece com Ele o caminho trilhado nas opções feitas ao anunciar o Reino de Deus. Façamos agora o passo para o centro da nossa reflexão: Seguir Jesus Cristo como discípula, corresponde então, compreender-se e compreender outra mulher a partir desse eixo de envolvimento e cuidado que na experiência de Elisa e Dolores existe e perceberemos. Antes apresentaremos quem são essas duas mulheres mencionadas. Entre si amigas. Na Congregação das Servas de Maria Reparadoras, são irmãs, mestras, mães – madres – na linguagem típica da época. Na atualidade, para a Igreja universal, mulheres veneráveis! Em processo para a beatificação, por serem discípulas e por terem convidado outras mulheres a inspirarem-se continuamente em Maria, Mãe e Serva do Senhor. Tanto Elisa Andreoli como Dolores Inglese, nascidas na Itália no século dezoito, foram vocacionadas na espiritualidade da Ordem Servos de Maria. Elisa Andreoli, em 1900, inicia a Congregação das Servas de Maria, e com Dolores Inglese, a Reparação mariana torna-se uma característica peculiar dando estilo específico ao grupo de mulheres que aderem ao seguimento de Jesus Cristo como Servas de Maria Reparadoras (SMR). A mãe Maria, para Elisa Andreoli como para Dolores Inglese, é aquela inspiradora no seguimento, no anúncio de quem é o Filho, no serviço aos mais pobres à luz da prática de Jesus Cristo. Ambas, no seu tempo, com as interpretações e orientações da doutrina da Igreja oferecidas na época, colocam na vida de cada Irmã SMR, o jeito de ser mulheres com o olhar fixo Nela, e seguir o Cristo. Todas duas, orientando, e descobrindo como ser; exortando e

corrigindo o caminho já trilhado em tantos lugares italianos e além Europa; nas Filipinas, na África, no México, em 4 Países da America Latina. Igualmente, sensíveis às indicações do início do século vinte, contribuíram para que a “figura de Maria”, não parasse no então conhecido. E hoje, quem se aproxima das SMR, além de conhecer as veneráveis Elisa e Dolores – afirmação feita pela Igreja universal –, conhece Maria como mãe sim, todavia, a (re)descobre à luz do Amado, fruto do seu Ventre como ...

3

4

a irmã nossa que vive na comunhão dos santos e das santas; caminhante na fé como afirmam, Claudete Beise Ulrich e Sonia G. Mota “soube unir fé com prática uma vez que compreenderá o projeto de salvação e aceitará participar dele” (cf. Maria mãe de todas nós. CEBI, 2013); inspiradora porque seguidora, como Maria mulher de Cléofas e outras mulheres que estavam aos pés da Cruz (cf. Jo 19,25); Joana, Maria e Marta irmãs de Lázaro, Lidia; Maria Madalena a discípula amada, e aquelas mulheres que não receberam nomes nos escritos do Novo Testamento. Quem se aproxima dessas mulheres Elisa Andreoli e Dolores Inglese, recebe, (re)conhece, (re)descobre Maria de Nazaré, porém não permanece no receber. No entanto, internaliza socializa, partilha, agrega saberes de uma “figura de mulher”, mãe, amiga..., cujo nome era MARIA!

Ir. M. Monica Coutinho, smr Rio de Janeiro


Nesse ano de 2013, a liturgia nos convida a acompanharmos a missão de Jesus a partir das narrativas do evangelho de Lucas, que caracteriza bem Jesus como orante e missionário. O terceiro evangelho foi elaborado por volta do ano 75 dC, por um autor que se baseou no evangelho de Marcos (escrito por volta do ano 65 dC), em uma coleção de ditos de Jesus (a fonte Q) comum a Lucas e a Mateus e em uma tradição própria. Percebemos essas três influências percorrendo os relatos evangélicos em paralelo com os outros dois sinóticos: há textos oriundos de Marcos (a tentação no deserto), há outros que se encontram apenas em Mateus e em Lucas (as bem-aventuranças) aventuranças) e outros que há apenas em Lucas (as parábolas sobre a misericórdia em Lc 15). Lucas não conviveu com Jesus terreno. Ele foi um companheiro do apóstolo Paulo (Cl 4,14; Fm 24; 2Tm Tm 4,11), investigou os testemunhos antigos (Lc 1,3) e redigiu seu evangelho para pessoas oriundas do paganismo grego-romano, romano, sobretudo, para comunidades fundadas por Paulo, Silas e Timóteo. A obra de Lucas é uma “história” como os gregos a entendiam: uma longa narrativa de fatos bem ordenados. Por isso, Lucas não se limita à vida de Jesus, mas prossegue seu escrito o narrando a continuidade da missão de Jesus por meio dos discípulos no livro dos Atos dos Apóstolos (compare: Lc 1,1-4; At 1,1-2). Como todo autor do Novo Testamento, Lucas tem sua atenção central na salvação realizada por Jesus Cristo. Desde o início, a salvação é anunciada: “Hoje, nasceu para vós o salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). Trata-se se da salvação aguardada desde os antigos pais até os contemporâneos de Jesus e que se estende também para os pagãos, aqueles que não pertenciam ao povo da antiga aliança. A salvação se universaliza, supera as divisões entre as diferentes classes sociais (Lc 7,50; 8,48; 13,10-17; 13,10

19,10; At 17,4) e é oferecida a todas as nações de culturas e mentalidades diferentes (Lc 2,30-31; 31; 3,6; At 13,46-47). No final do primeiro século, quando Lucas escreve, as comunidades experimentavam um grande desafio desa no anúncio da mensagem de Jesus. A obra de Lucas é perpassada pela missão: primeiramente a de Jesus (Lc)) e, em seguida, a dos discípulos ((At). A missão é preparada pelo próprio Jesus (Lc ( 9,1-6; 10,1-12; 14,1524; 24,47-48), 48), que envia seus discípulos para pa pregar o evangelho, curar as doenças e anunciar o Reino. Os discípulos realizam verdadeiramente essa missão após a Ressurreição de Jesus, sob impulso do Espírito Santo (At 1,8). A abertura da obra lucana assinala a passagem do antigo tempo da promessa para ara o novo tempo da realização das esperanças do povo em Jesus Cristo. Os capítulos 1-2 1 põem em paralelo João Batista e Jesus, o anúncio e nascimento dos dois personagens principais da nova aliança: o precursor e o realizador. Em 3,1-20, há a pregação do Batista atista que indica e confirma que Jesus é o Messias esperado, batizando-o batizando para ele iniciar sua missão (3,21-4,13). 4,13). O Espírito Santo vem sobre Jesus e o Pai o aclama como seu Filho amado (3,22). Lucas se atenta em apresentar tudo que diz respeito a João antess de passar para Jesus. Só em 9,7 9,7-9 aludirá brevemente à morte do precursor. Galileia é o lugar de partida da missão de Jesus (4,14 (4,14-9,50). “Ele voltou para a Galileia com a força do Espírito Santo e sua fama se espalhou por toda região circunvizinha” (4,14). (4,14 Naquela região, um dia ele visita a pequenina Nazaré, segue o costume comum do povo, vai à Sinagoga e lá proclama um trecho de Is 61,1-2. 2. Depois, ele se senta e diz com todos com olhos fixos nele: “hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura” Esc (4,21). A realização do cumprimento das promessas de Deus ao povo iniciou, Jesus estreia com parte do povo atento a sua mensagem e outra parte rejeitando-o e se enfurecendo com o que ele apregoava (4,28). Jesus percorre aquela região realizando sua vocação, visitando os povoados distantes, encontrando-se encontrando com pecadores e prostitutas, optando pelos menos favorecidos e manifestando com as obras o Reino de Deus anunciado. Seu itinerário de pregador segue pela Galileia até ele tomar o caminho

5

6

II DISCIPULADO E SEGUIMENTO NO EVANGELHO DE LUCAS


para Jerusalém (9,51). Em seguida, Lucas apresenta a grande viagem missionária de Jesus (9,51-19,27), que deixa a Galileia e segue até Jerusalém, passando pela Samaria (terra de pagãos). Essa parte é o material mais original do evangelho de Lucas. O caminho começa no povoado dos samaritanos (9,51-53) e culmina em Jerusalém, onde convinha a morte de um profeta. Nessa parte, o evangelista demonstra suas preferências temáticas: a universalidade da salvação, a misericórdia e acolhida dos pecadores, o seguimento das mulheres, a ação do Espírito Santo em Jesus, a preferência pelos mais pobres e a oração como força motora da missão de Jesus. Em Jerusalém (19,28-24,53), a vida de Jesus chega ao termo, tudo se consuma na cidade aonde os judeus iam todos os anos para encontrar-se com Deus no templo. A morte e ressurreição de Jesus constituem a máxima manifestação do amor de Deus pela humanidade: o Filho de Deus que se fez homem por amor da humanidade, que viveu toda sua existência ofertando-se a Deus e às pessoas, é condenado à pena mais cruel daquele tempo. Entretanto, a morte não vence o amor, mas é vencida. Jesus é ressuscitado pelo Pai na força do Espírito Santo. O amor de Deus prevalece e supera a ira e o pecado humano. Lucas apresenta-nos Jesus por meio de uma viagem que começa na Galileia e termina em Jerusalém. Entretanto, a segunda parte da viagem (At), parte de Jerusalém, onde os discípulos ficaram reunidos por medo dos judeus, e chega a Roma com o apóstolo Paulo (At 28,16ss). Essa viagem representa a força dinâmica da mensagem de Jesus, que surge modestamente e se espalha para os grandes centros do Império Romano, semelhante a um fermento levedando a massa (Lc 13,20-21). O Evangelho não se contém num único lugar ou com poucas pessoas, ele se espalha e cresce de forma surpreendente. Os discípulos são continuadores da missão de Jesus. A estratégia do evangelista Lucas em anunciar a mensagem de Jesus por meio de um percurso demonstra, além de seu gênio literário, a atenção ao processo de fé dos seguidores de Jesus. Somos chamados a entrarmos nessa dinâmica de seguimento do 7

peregrino pregador da Boa-Nova, a passarmos pela Galileia, Nazaré, Samaria até Jerusalém, o lugar da profunda experiência da morte e ressurreição, fato marcante para os primeiros discípulos, a partir do qual compreendem todo o mistério da vida de Jesus. Jerusalém é o epicentro da fé em Cristo, onde culmina a manifestação do Messias e de onde parte o anúncio das testemunhas que o experimentaram verdadeiramente. Nós todos somos como Teófilo (amigo de Deus) e avaliamos a solidez dos ensinamentos que recebemos (cf. Lc 1,4), isto é, da fé que nos foi transmitida. Há tempos nos acostumamos a ouvir falar de Jesus e a ler os relatos da sua vida, mas pouco o conhecemos. Seguir Jesus Cristo é seguir o caminho da cruz, manifestar com atos a fé professada, percorrer as novas “Galileias” e “Samarias” com as mesmas disposições e opções do Mestre, acolhendo as possíveis consequências da escolha do Reino. Como naquele tempo, os autênticos cristãos de hoje são desafiados pela cultura pós-moderna a uma eloquente proclamação de que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e Salvador da humanidade. Nosso anúncio será eficaz se fizermos a experiência com o Ressuscitado que passou pela Cruz e que nos chama ao seguimento. Que nossa inteligência se abra para a compreensão do que está escrito (cf. Lc 24,45) e para o seguimento de Cristo. Somos as testemunhas dele nos tempos atuais impelidos pelo seu Espírito que o moveu à fidelidade ao plano do Pai. Pe. Marcus Aurélio Mariano, nj Fortaleza - CE Para refletir e partilhar: 1. A força dinâmica da mensagem de Jesus surge modestamente e se espalha, semelhante a um fermento levedando a massa. Como nós, hoje, somos continuadores/as da missão de Jesus? 2. A opção fundante por Jesus Cristo transforma a vida e impulsiona ao compromisso com o seu Reino. Partilhe como você experiência esta mudança = conversão em você. 8


III

A Paixão pelo Reino de Madre Elisa Andreoli A fundadora das Servas de Maria Reparadoras participa da missão da Igreja para a glória de Deus e a salvação dos irmãos

«A Palavra do Senhor se espalhe rapidamente e seja glorificada» (2Ts 3,1). «Sem terdes visto o Senhor, vós o amais. Sem que agora o estejais vendo, credes nele. Isto será para vós fonte de alegria inefável e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação» (1Pd 1,8-9). Estas expressões dos Apóstolos Paulo e Pedro, citadas por Bento XVI na Carta de abertura do Ano da Fé «A Porta da Fé» n. 15, fizeram-me lembrar da paixão pelo Reino de Madre M. Elisa Andreoli, fundadora das Servas de Maria Reparadoras. Um ardor que se manifestou nela ao fazer tudo por amor do Senhor e pela maior glória de Deus, e no amar o seu «Esposo Jesus Cristo» acima de todos e de tudo. O amor é a dinâmica e a atitude fundamental de Madre Elisa. Bento XVI escreve: «É o amor de Cristo que enche os nossos corações e nos impele a evangelizar» (A Porta da Fé, n. 7). Para Madre Elisa, o empenho apostólico nasce de um impulso interior de tornar conhecido o amor de Jesus Cristo para que ele seja amado: «Finalidade da minha Congregação das Servas de Maria Reparadoras: que Jesus Cristo seja amado e servido; fazê-lo amar e servir, difundir a reparação mariana». As Constituições das Servas de Maria Reparadoras elaboradas no período das origens (1931) fixam o objetivo da nascente Congregação, dando como fim principal «promover a glória de Deus» e como fim especial «dedicar-se, sob o patrocínio de Nossa Senhora das Dores e com uma terna compaixão às necessidades espirituais e materiais do próximo, à instrução e educação das crianças e adolescentes..., como também à assistência dos enfermos e dos idosos...» (n.1-2). A atenção às necessidades

9

materiais e espirituais responde a uma única finalidade: a salvação integral da pessoa. Madre Elisa exprime sua paixão de estender o Reino através do anúncio do evangelho, na participação das escolhas pastorais da Igreja, na missão Ad gentes no serviço aos pobres, no recomendar sempre às Irmãs de anunciar o amor salvífico de Deus, no convite à conversão, de não excluir nenhuma categoria de pessoas. Ela escreve nas suas Memórias (= Agenda de anotações pessoais): «Em junho de 1933 duas Irmãs assistiam o cônsul do México [País que poucos anos antes havia desencadeado uma feroz perseguição contra a Igreja]. Elas o induziram à confissão e, depois, ele manteve a aproximação a este sacramento...; morreu cristamente». Com frequência as Irmãs trabalhavam muito, sem receber uma retribuição adequada, porém, Madre Elisa sempre anota: «elas estão bem contentes ao doarem-se na vinha do Senhor e salvar as almas» e isto era muito mais importante de tudo o resto, não obstante a pobreza dos meios de que dispunham. Impregnada de espírito evangélico, Madre Elisa tem consciência de que o empenho sem reservas não traz necessariamente frutos esperados. Portanto, exorta a usar duas armas infalíveis: a oração fervorosa e a caridade; confiar a Deus o tempo do amadurecimento e da colheita. Quando há êxitos positivos ensina, através de seu exemplo, a louvar e agradecer Deus e a Virgem Maria pela sua materna intercessão, considerando-se sempre sua indigna serva e instrumento. O ano de 1921 marca o início da missão Ad gentes (além das fronteiras italianas), desafio assumido «com santo entusiasmo» e com o envolvimento de toda a Congregação. A resposta ao apelo da Igreja missionária no Acre, Amazônia – 10


Brasil, concretiza um ideal desde a juventude de Madre Elisa que ela mesma contou para uma Irmã: «a santa vocação missionária eu a tinha desde jovem, ansiava pelo desejo de ir distante em procura de almas, mas Deus viu que era melhor não atender-me. Porém, agora sinto consolação porque Ele me presenteou filhas generosas que, abandonando tudo, disseram felizes: “Ecce ancilla Domini!” (Eis a serva do Senhor!)». Madre Elisa não se preocupava com o número das pessoas salvas, mas em dedicar-se incansavelmente. Nas suas cartas às Irmãs missionárias declara que o motivo pelo qual elas estão no Brasil é o de «salvar muitas vidas». Além disso, ela escreve na sua Agenda de Anotações: «Senhor, dai-me a graça de uma sincera conversão, de aumentar o fervor na minha pequena Comunidade ao vosso amor e zelo para salvar muitas almas». Esta expressão ela a repetia com frequência para si mesma e para as Irmãs, onde quer que estivessem trabalhando, porque representava um dos objetivos principais da sua vida. É interessante notar que a conversão pessoal é considerada por Madre Elisa como base para o apostolado, princípio que Bento XVI exprime no discurso de abertura do Sínodo em outubro de 2012: «Não se pode falar da nova evangelização sem uma disposição sincera de conversão. O deixar-se reconciliar com Deus e com o próximo, é o caminho principal da nova evangelização». O nascimento da Congregação coincide com o período em que a Igreja procura valorizar, sobretudo na Europa, uma ordem social fundamentada nos valores cristãos enfraquecidos pela industrialização e pela Iª Guerra mundial. Portanto, o projeto social se reflete sobre o método e os objetivos da evangelização. Um dos meios para propagar a fé e os valores cristãos era uma cuidadosa organização apta para penetrar em todos os âmbitos da sociedade. Madre Elisa, em 1926, escreve para dom Todeschini: «Obediente à suprema autoridade eclesiástica faço-me um sincero dever de recomendar às superioras das cinco casas situadas nesta venerada diocese, para que se empenhem no desenvolvimento da ação católica e cooperem com zelo para difundir o Reino de Cristo na sociedade». Ao mundo feminino é confiada a missão de responder às 11

necessidades sociais da população com orfanatos, escolas, colégios..., onde a educação intelectual e profissional é acompanhada pela transmissão das verdades da fé e das virtudes femininas. Madre Elisa coloca-se em sintonia com o pensar da Igreja, mas não restringe o campo de apostolado somente dentro das obras. Ela empenha as Irmãs no anúncio direto através do catecismo, nas escolas, na paróquia e, na Amazônia, nas visitas às comunidades situadas no interior da floresta. Ela mesma exercita a catequese, visita famílias pobres, acolhe órfãos. Além disso, segundo Madre Elisa, o empenho para a expansão do Reino vai além do fazer. Às Irmãs obrigadas à inatividade por causa da idade ou saúde, ela as aconselha suprir «com a oração, a exata observância de seus deveres e a oferta do dia a dia». Ela sempre expressa sua convicção: «Aquilo que a nossa pequena obra não consegue fazer, a graça de Deus fará!». Graças à paixão pelo Reino que Madre Elisa deixou-nos como herança, a Congregação das Servas de Maria Reparadoras, nestes 113 anos de vida, se fez presente em 11 países, partilha a espiritualidade e o serviço apostólico com a Associação Nossa Senhora das Dores, deu a vida a um pequeno grupo missionário de leigos In Suartha (= Em Missão), que responde ao desejo de Madre Elisa «de ir distante, distante... à procura de almas», de quem está longe geograficamente, ou na condição de distância de Deus; um ir, portanto, que significa entranhar-se nos desertos espirituais e nas florestas culturais do mundo atual. Irmã Maria Luisa Gatto, smr Orvieto - Ciconia – Itália Cf. M. Luisa Gatto smr, in Riparazione Mariana, 1/2013, Rovigo, p. 2122.

12


Espaço Mariano nº 2 - ano 4