Issuu on Google+

Informativo do Colégio Santa Marcelina Ano V - Nº 14 - Setembro de 2010 páginas

3

2

página

V Santa Mundi.

O mundo das simulações

páginas

5

página

4

página

Deus está nos detalhes.

The Crazy "Godinha"

8

página

9

Diário do Conde Drácula

A fábrica de instrumentos musicais

11 páginas

Machado de Assis


R E F L E X Õ E S

EDITORIAL Liberdade para chamar jornal Caíque Pinheiro - Ex-aluno

Nem vou me prolongar na tentativa de explicar a sensação que me toma, enquanto estudante de jornalismo e habitante do Marcelina por 13 anos, quando volto ao Colégio e vejo um “Santa Marcelina em Notícias” já na décima quarta edição. O Boletim informativo, que nos corredores é chamado de jornalzinho do colégio, gera um sentimento de boa inquietude, de reflexão iminente, que, agora, compartilho com vocês. Na faculdade de comunicação, já em 2009, quando iniciei meu curso, entendi que jornais impressos, com os quais me relaciono melhor, estão inseridos em uma rotina produtiva como qualquer outra empresa desse nosso mundão capitalista sem porteiras. Jornal que não é vendido e que não vende seus patrocinadores, fecha. É por essa razão que todos têm, em seu discurso institucional, o argumento da imparcialidade: ser parcial tende a afastar leitores que não concordam com sua opinião, e afastar leitores é como afastar os patrocínios e, portanto, diminuir suas chances de se manter no mercado. O “Santa Marcelina em Notícias” não é um produto mercadológico, portanto, tudo quanto acabei de dizer não vale pra ele. Mas ele deixa de ser jornal por isso? Ouso levantar a questão. Vejo textos assinados, editorial, periodicidade, um projeto gráfico bonito, folhas agradáveis ao toque, diversas abordagens, embora todas sejam orientadas por um estilo único... Se colocar a seu lado o “Super Notícia”, ou a “Folha de São Paulo”, notarei semelhanças: há nesses jornais matérias assinadas, editoriais, um projeto gráfico para cada e abordagens diferenciadas para temas diversos. Por outro lado, o papel jornal não é agradável ao toque, a periodicidade desses veículos de comunicação é diária, eles recebem patrocínios e isso, lamentavelmente, pode interferir no conteúdo produzido. A rotina dos jornais diários é bastante complexa, intrinsecamente relacionada a um prazo que, veja a ironia, chamamos “dead line”. Não é incomum que jornalistas devam cumprir, por dia, mais de 3 pautas (assuntos a serem abordados em matérias) antes que se encerre seu tempo. E há que se enfrentar todas as dificuldades impostas por quem não revela determinadas informações, ou as informa com distorções que podem comprometer o jornalista, o jornal, o leitor e o personagem da matéria, se forem publicadas. Deve-se seguir a linha editorial do jornal para o qual se escreve, dar satisfações a um editor ao qual o repórter está subordinado e com o qual busca soluções para casos difíceis, sempre lembrando do que um professor deve ter dito em sua trajetória: a imparcialidade é o horizonte ético do jornalismo, ainda que esse horizonte seja inalcançável, por diversos motivos. Pude notar que os escritores do “Santa Marcelina em Notícias” não têm prazos curtos para produzirem seus textos, o que se reflete em um cuidado gramatical que alivia os leitores, vez por outra assustados por encontrarem bizarrices de todo tipo nos jornais diários. Os autores têm o privilégio de fazer com que seus textos dialoguem com páginas bonitas e que não deixam partes de si na mão de quem as toca. Sobretudo, os que escrevem para esse jornal (jornal?) podem fazê-lo com uma liberdade, que, acreditem, os jornalistas vivem para buscar.

2

O Mundo das Simulações

Ian Sager Queriroz - 1º B - EM

Com uma história de quase noventa anos das primeiras simulações da Liga das Nações, os modelos têm, hoje, mais de 400 mil estudantes participando das várias simulações a cada ano em todo mundo, de acordo com a ONU Os modelos das Nações Unidas, mais conhecidos como MUN’s, são uma forma eficaz de escapar ao aprendizado formal de sala de aula, através da vivência de situações reais pelo aluno. Os MUN’s são realizados por estudantes de diversos níveis de ensino em todo o mundo, com o objetivo de aprender e se divertir em simulações de reuniões e conferências internacionais ligadas a assuntos de grande importância mundial. Durante o evento, os participantes inserem-se no papel de diplomatas, chefes de Estado, personalidades históricas ou afins, em diversos âmbitos de negociação multilateral, discutindo fatos relevantes da história ou da atualidade. Dessa forma, precisam seguir a formalidade de vestimentas e falas, os procedimentos de discussão e argumentação e a formação de decisão coletiva, contrapondo os interesses individuais do Estado ou entidade que representavam. A prática de simulações começou na década de 1920, nos Estados Unidos, com discussões estudantis baseadas no modelo de discussões da Liga das Nações. Com a fundação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945, surgiu o primeiro modelo secundarista norte-americano, o Harvard United Nations. A partir de então, os MUN’s (Models United Nations) se tornaram populares e se espalharam pelo mundo, mobilizando mais de 400 mil estudantes todos os anos. No Brasil, a modelagem é uma atividade bem mais recente, tendo início no final dos anos 90. Porém, apesar de recente, há uma cultura de participação presente entre os estudantes, ganhando cada dia mais adeptos, sendo adotada não apenas em faculdades, mas, também, em colégios.

O Colégio Santa Marcelina de Belo Horizonte, por exemplo, adotou a ideia das simulações e desde 2007 realiza o Santa Mundi. A ideia veio dos alunos modeleiros do 3º ano de 2007, que, para não perder o ponto da Semana de Arte, criaram o projeto do Santa Mundi e o usaram como uma oficina. No ano seguinte, quando o projeto ia morrer, um pequeno grupo de alunas o salvou e o mantém até hoje. Nos MUN’s, o processo de aprendizado se dá através da experiência efetiva, na qual o estudante aprende os processos da esfera internacional enquanto os “constrói”. Ao colocar os estudantes no papel de negociadores, diplomatas e personalidades históricas, os modelos possibilitam o desenvolvimento da argumentação, da oratória, da concentração e do trabalho em grupo, através de diálogos e negociações. Entre as maiores simulações no Brasil, para alunos do Ensino Médio, estão os seguintes modelos: ONU Jr. – “Esse ano contaremos novamente com 8 comitês e também teremos 3 eventos paralelos: Festa Cultural, Festa Temática e Confraternização. Na Festa Cultural os delegados celebram as diferentes culturas de todos os países que são representados no ONU Jr. e quem monta a festa são os próprios delegados. Cada um contribui com alguma coisa: comidas típicas, cartazes, apresentações etc. A Organização contribui com muita música e comida para manter todos animados. A Festa Temática é uma espécie de festa à fantasia. A Organização sempre propõe um tema para os delegados curtirem a festa e decora o salão inteiro de acordo com ele.” <http://www.onujr.com/>

Pedro Palhares - 1º B - EM

EXPEDIENTE – SANTA MARCELINA EM NOTÍCIAS – ANO 5, Nº 14 Diretora Pedagógica: Irmã Belarmina Andrade – Diretora Administrativa: Irmã Marinez Rossato – Coordenadora Pedagógica Geral: Eliane Veloso – Editores: Igor Freitas de Queiroz e Luiz Fernando Lima Braga Júnior. Tiragem trimestral: 2000 exemplares – Endereço: Alameda das Falcatas, 505, São Luiz, Pampulha, CEP 31275-070 – Belo Horizonte / MG. Fone: (31) 34414988 – Fax (31) 34974189 – Homepage: www.colegiosantamarcelina.com.br - Arte, Impressão e Fotolito: Lanna Projetos Gráficos Ltda. E-mail para contribuições: jornal@csmbh.com.br.


FA LA ND O

SOBRE

EDUCAÇÃO

V Santa Mundi A quinta edição do Santa Mundi, simulação interna do Colégio Santa Marcelina, na qual os participantes representaram delegações dos países pertencentes à OEA (Organização dos Estados Americanos), teve início na noite do dia 24/06. Foram quatro dias de evento, envolvendo não apenas os alunos, mas, também, vários estudantes universitários. O evento de abertura iniciou-se com um discurso da Ir. Belarmina e apresentação dos responsáveis pela realização do projeto: Lídia Generoso – secretária acadêmica –, Jacqueline Tôrres – secretária administrativa – e Frederico Faria – diretor chefe do comitê –,

também conhecido como Cedê. Ao longo do evento, foram debatidos quatro tópicos: a questão haitiana, a questão de Honduras, o tratado de Tlatelolco e a questão energética nas Américas. Dadas as dificuldades de se estabelecerem acordos diplomáticos, nem todos os tópicos foram resolvidos plenamente, mas foi possível estabelecer discussões extremamente produtivas sobre questões atuais e, ao mesmo tempo, enriquecer as experiências e conhecimentos de mundo dos participantes, o que contriubui bastante para uma ampla formação do indivíduo. Os delegados exercitaram, também, a capacidade de se expressar em público, de redigir docu-

mentos oficiais e de solucionar problemas diplomaticamente, mas o rigor formal exigido não foi capaz de retirar do evento a descontração dos delegados. Dentre as discussões feitas, o tópico “um” – a questão haitiana – teve, em seu projeto de resolução, a determinação de cooperação mútua entre os países membros da OEA frente à recuperação do Haiti, após o terremoto do início deste ano; o tópico “dois” – questão de Honduras – gerou polêmica sobre a legitimidade das eleições hondurenhas, assim como o retorno da mesma à organização e, devido a divergência de opiniões entre os delegados, não se alcançou um acordo a respeito

desse tópico; sobre o terceiro – o tratado de Tlatelolco –, houve a produção de uma carta à Agência Internacional de Energia Atômica e de um Projeto de Declaração; no último, por sua vez, os delegados chegaram rapidamente a um consenso redigindo e legitimando um Projeto de Resolução. A quinta edição do Santa Mundi foi, portanto, mais uma etapa positiva no processo de formação dos alunos e no exercício de habilidades que serão importantes em sua vida tanto para resolução de situaçõesproblema, quanto no mercado de trabalho. Por Barbara Maia e Joana D’Arc 3º ano B - EM


P e q uenos

Laís Nogueira Vaz de Mello e

4

Sofia Moreira Mazzoni 6º ano B - EFII


C riativos

Faço arte no Santa

Deus está nos detalhes

Prof. Aloísio Rabelo

Perceber o contexto em que vivemos e assim ressignificar o mundo a partir das linguagens e seus códigos possibilita que a busca por minúcias faça parte do processo de criação. De autoria do arquiteto norte-americano de origem alemã, Mies Van der Rohe, a frase “Deus está nos detalhes” confirma a importância da experiência em Arte. No entanto não cabe o enganoso olhar apreciativo de que isso é belo ou não. Está em voga o processo e a educação do olhar. Ver a mão que descobre a densidade da argila, ver os dedos que envolvem o pincel com passadas ora longas ora curtas, ver o papel com linhas e círculos flutuantes... VER! Ver que o outro está aprendendo ao pegar a tesoura, utilizar a cola, usar toda a folha de papel, modelar com argila ou massinha. E nesse empolgante exercício do olhar, perceber o crescimento dos nossos alunos na leveza e sutileza do dia a dia. A delicadeza do instante eternizado no gesto e na leveza demonstra a intenção no processo e isso vai se tornando cada vez mais presente no cotidiano do aluno. Belezas que, às vezes, passam despercebidas por muitos olhos, que, acostumados com grandes gestos, esquecem-se de apreciar o que podemos chamar de garimpagem. É no exercício das linguagens da Arte que o corpo se torna parte fundamental e os gestos evidenciam a ação das sinapses estabelecidas diante dos estímulos e lembranças que construirão um novo olhar.

7


novos

Três momentos

por Raquel Viriato Pinto - 1º A - EM

Vida de Cicatrizes Vida sofrida Pela qual se tem que passar, Para algum dia Saber o que é amar. Cheia de armadilhas, Trapaças e deslizes, Feita da maldade De humanos infelizes. Porém, é dessas Cicatrizes e feridas, Que eu retiro minhas Lições aprendidas. Provas de que eu Vivi e lutei, E, acima de tudo, Sofri e amei.

Queimar do Passado Nem sempre o passado Ressurge para o mal, Às vezes nos faz Sentirmos bem, afinal. Assim como quando Você para mim voltou, Fazendo-me lembrar De que só cinzas restaram. Mas como uma Phoenix Cinzas voltam a queimar. Talvez o sentimento Também volte a reinar. Ao menos é isso Que espero que aconteça, Pois quero que você Comigo sempre permaneça.

Passagens e Lágrimas Releio minhas passagens, Revejo minha história. Não vejo tristeza, Tampouco glória. Chorei, sorri, Cheguei até aqui. Agora me pergunto: Para onde ir? Há muito o que olhar, Visitar e conhecer. Não importa se será Para rir ou sofrer.

6

A cada palavra uma lágrima, A cada verso uma cicatriz. Porém foi de tanto viver Que acabei me tornando feliz.

liter A T O S

Vestígios

Bárbara Dias Duarte de Carvalho – 1º A - EM

Qualquer dia, eu morava em um lugar, lá eu tinha uma amiga que era feita de pano. Eu não confiava em ninguém para seu cuidado. Isa era seu nome. Isa frequentava a escola assim como eu, frequentava as aulas de balé e me acompanhava nos passeios rotineiros na areia da praia, deliciava-se junto a mim com uma água de coco super geladinha. Pobre Isa, estava comigo em tudo que eu fazia e, mesmo que fosse para ser arrastada pela areia da praia,estava lá. Um dia, qualquer dia, meu pai disse que iríamos visitar a minha avó, e que seria uma visita longa. Longa. Eu havia ficado tão feliz que sabia que Isa estava feliz também. Chegamos à BH. Juro que haviam se passado séculos. Séculos. E a palavra longa já não se refletia em felicidade, espelhava saudade. Isa, que havia deixado aquele lugar com um incrível cheiro de maresia, cheiro o qual quanto mais se cheirava mais se podia sentir, parecia ter seu vestígio cada vez mais longe, mais de 500 km distantes. Acredito tê-la banhado com todos os tipos de detergente possíveis, tentando retomar o cheiro daquele lugar, daquela segunda realidade que precisava parecer viva. Cada vez mais, Isa perdia seu cheiro, perdia seus vestígios, seu sentido. Qualquer dia, minha avó me pediu que a acompanhasse em uma ida ao interior. Visitaríamos minhas primas. Queria que a visita fosse longa. Estávamos lá há mais de séculos. Séculos. E a única pessoa de

quem eu conseguia me lembrar era de uma prima minha, que sempre fora minha Amiga. De Amiga eu me lembrava. Contei-lhe que Isa perdera seu cheiro de maresia, e eu perdera minha segurança de uma lembrança. Não se sabe como pudemos ficar amigas tão rápido. Desejei que nossa amizade fosse longa, que qualquer dia continuasse a ser longa. Lembrando que esta história não é minha, tinha uma outra prima de quem eu não gostava, a Outra. A Outra roubara Isa. Escondera-a. Chorei como uma criança, tudo bem, eu era uma criança. O que importa é que o desespero gerou desespero, e a Outra devolvera Isa. Contudo, não perdera a oportunidade de ironizar minha segurança. Lembrou-me que a boneca não tinha mais cheiro algum, pra ela não tinha cheiro, eu ainda podia senti-lo. Minha prima, a Amiga, passou seu perfume em Isa e, agora, era mais algo a se lembrar, mais alguém a quem confiar Isa. Qualquer dia, você irá perceber que Isa é uma metáfora. É onde mantemos vivos nossos momentos, nossos amigos, aqueles que, mesmo distantes, deixam vestígios de que estão lá. Não vivemos para sempre, vivemos para sempre em forma de vestígios. Acredito que o sentido de viver é se transformar em um vestígio tão forte que, mesmo depois que o cheiro se for, continua mantendo os outros seguros. Acredite nisso também, ou não. Talvez dependa do seu ponto de interpretação.

Viver!

Ester Pinter Cordeiro – 2º B - EM

Não vivo para os outros Vivo para mim mesma Vivo para sonhar Vivo para dançar Vivo para comer Vivo para beijar Vivo cada dia Como único dia Como se amanhã não importasse Vivo para amar Vivo para sorrir Vivo para entender Vivo para descobrir Ontem acabou Hoje não se repetirá Amanhã? Amanhã ninguém Ninguém sabe como será Vivo para chorar Vivo para ler Vivo para ouvir Vivo para viver!

Horizonte

Clara Rodrigues – 2B - EM

Vejo frente a mim um horizonte Um horizonte triste e descontente Um horizonte machucado pelo amor Um horizonte desiludido e rancoroso Um horizonte que busca aquilo que ninguém bus Um horizonte que quer aquilo que ninguém qu Um horizonte que vê aquilo que ninguém vê Um horizonte amado que não sabe amar

Nada sei...

Vejo frente a mim um horizonte Vejo sua sombra a me encobrir Vejo o amor a me prender Onde está você para me proteger?

Eu tenho um jardim, mas não posso vê-lo Eu tenho uma casa, mas não posso habitá-la Tenho eu uma janela, pela qual não posso olhar o amanhecer da alvorada Mas, graças a Deus, tenho você, que me ensina a olhar adiante E seguir...

Vejo um horizonte frente a mim Um horizonte negro e sem fim Onde está o amor que me seduziu? O horizonte me traiu

Davi Farace - 3ºA - EM


sca uer

novos

liter A T O S

Silêncio

Dois momentos

por Jacqueline Torres - 3º A - EM

Melissa Bravo Fonseca – 2ºA - EM

Angústia e saudades num vidrinho

Ao reemudecer silêncios, E sombrear obscurezas, Encontro-te arraigada em mim, Como planta a asfixiar-me por sussurros. Lanço-me a um abismo de inexistências para achar-te: Ser inatingível pela proximidade do nada. À medida que te imagino, parte de mim abstém-se no espaço Como a preencher o vazio de sua imagem. Perscruto sua face na sofreguidão de defrontar-me com seus olhos, Mas esses surgem como vales de negror a se alimentarem do tênue brilho dos meus. Respiro à procura de preenchimento vapóreo, Mas sufoco-me com inanidades. Ao aproximar-se de mim, Sinto contra os meus, outros lábios. Voraz, Uma língua adentra minha boca em busca de algo que se torna cada vez mais seu: Minha voz. Em segundos, o veludo que te encobre desliza suavemente por seu corpo. Lânguidas serpentes cravejam em mim sua escurez. Como agulhas aflitas, seus dedos roçam a minha pele, A desfazer em trapos o que era tecido: Eu. Apacentando-se, você se transfaz em mim. Aos poucos, vou me esvaindo em lembranças, A transformá-las, agora, em suas. Com um pequeno e último esforço, ergo-me. Como se estivesse diante de um espelho, Vejo-me olhando o que, antes, era apenas minha sombra.

Infinito de mim Joana D’Arc - 3º B - EM

O sopro dos Ventos Lucas Negrisoli - 1ºC - EM

Acordo todos os dias com seu rosto na memória. Sinto um aperto que, certas vezes, dá um medo e, de tanto medo, surge a coragem para se lançar no dia que começa. Começa ou continua? Já que não sei ao certo se dormi ou se estava lá só deitada, com a cabeça fora dali. E desejo, a meu modo, com toda a vontade, que o momento de estar perto chegue logo, ainda que este seja o devaneio mais improvável. Ponho a cara à tapa, tomo um banho para desafogar as ideias, bebo o café sem sentir o gosto, visto uma roupa e vou à luta. Luto para não ser mais um no mundo, quero ser o diferente, quero que valha à pena, embora ainda não saiba nada o que isso signifique. Ah..., tem a hora perigosa do dia! A hora em que o vento muda e, junto com ele, os pelos eriçam,

os ouvidos falam, os olhos escutam os menores movimentos, a boca vê os gestos lascivos de adolescente em crise, em meio ao sem-querer de criança que há em mim, tudo à procura da mulher misteriosa que eu quero encontrar...para, enfim, TE encontrar. E, quando você não aparece, tudo se quebra, estou simplesmente só; a música já não diz mais nada, o que diz é a lágrima que escorre do vale dos meus olhos, vindo de um sentimento tão grande que não cabe mais em mim. O pensamento roda, minha nuca gira, que vontade de gritar algo inaudível! Cansada de tentar entender tudo, eu deito no velho sofá, procurando, nas cenas da TV, algo inútil o bastante para preencher o espaço que falta. E, assim que me percebo, de novo o despertador toca e acorda a sensação que dormia no infinito de mim.

No meu tempo, O mundo é um E cada um é por si No meu tempo, Pensar é crime E fazer não é mais ser No meu tempo, Amor é status E paixão é perdição No meu tempo, Verdade é ambição E mentir é a lei No meu tempo “é melhor queimar Do que se apagar aos poucos” No meu tempo, O Mundo é Ganância E a vida não é mais a razão E o sopro dos ventos É a maldição Daqueles que, contra o mundo, vão.

Ela está de novo com o celular no colo. Sentada de lado na poltrona do quarto, pernas transpassadas sobre o encosto para os braços, olhando a janela, que não é fechada há algum tempo. Quanto tempo estaria parada naquela mesma posição? 15 minutos? Uma hora? Não saberia dizer. Seu status do MSN diz “ocupado”, só para não ouvir os pedidos de atenção incessantes que vêm, que, na verdade, não vêm. Deixa-se ocupada para não ter que pensar em nada mais, só no trabalho, mas esperando que uma janela em especial se abra. E que não vai se abrir. Começa a se apegar a cada mínimo momento. Memórias falsas produzidas para acalentá-la. Lembra-se de cada sorriso que não foi dado, cada palavra não dita, cada dia... Agora, o relógio da sala caminha lento e barulhento, confundindo seus miolos. Talvez, se tivesse dito, se tivesse feito, se tivesse aceitado...Não aceitou. Olhou suas mãos e teve repulsa. Aquelas mãos, que serviam para tantas coisas, que abraçavam, que faziam carinhos, aquelas mãos, que podiam matar. Aquelas mãos, que haviam matado há pouco. Já as havia lavado diversas vezes, mas ainda podia sentia o cheiro de sangue que saia delas: cheiravam a morte e lírios... Havia, sim, assassinado de novo. Acabado, mais uma vez, consigo mesma. Arrancado seu coração do lugar ao qual pertencia e colocado em um vidrinho na parte superior de seu armário. “Nunca o devia ter tirado daí.”-pensava, ao encaixá-lo delicadamente entre as pilhas de revistas velhas. E, agora, via-se ali, meio sem chão, sem ação. Sentia a cabeça girando, respiração ofegante. Tinha feito a escolha certa? Ainda não tinha certeza, mas já esteve pior... E sabia que iria melhorar, uma hora ou outra...

Poema sem poesia Desculpem-me os que me lêem: Tentei escrever uma poesia, Não consegui. Sobrou o poema.

7


P E Q U E N O S

C R I AT I VO S

A fábrica de instrumentos musicais Ingrid Morow, Rochelli Ferraz e Luciana Carvalho

– Professoras do 1º período

Na aula de artes, as crianças registram os movimentos das músicas aprendidas em sala de aula.

A família participa também do projeto, “a fábrica de instrumentos musicais”. A turma do 1º período C assiste à apresentação com muito entusiasmo.

A turma do 1º período B confeccionando o seu pau de chuva.

A turma do 1º período B descobrindo o som do seu pau de chuva.

8

Alunos do 1º período C conhecem o instrumento pau de chuva.

Motivadas pelo interesse dos alunos por música e pelo fato de as turmas do 1º período receberem nomes de grupos musicais (Ziriguibum, Uakti e Tambolelê), realizamos um trabalho de valorização da cultura mineira, através do projeto intitulado “A fábrica de instrumentos musicais”. Durante a realização do projeto, as crianças conheceram um pouco mais dos grupos que nomeiam as turmas, além de conhecer e confeccionar instrumentos musicais com materiais recicláveis. Participaram, também, de diversas atividades, como: cantar, dançar, tocar instrumentos, escutar músicas, jogos de rimas e brincadeiras cantadas. Neste projeto, integramos o trabalho musical a outras áreas, já que a música mantém relação estreita e direta com as demais linguagens expressivas. Contamos com a participação dos professores de música e de artes, que, através de suas ideias, enriqueceram ainda mais o nosso projeto. Confiram alguns momentos deste trabalho!

Alunos do 1º período C apreciam exposição de instrumentos musicais.

A turma do 1º período A, com a ajuda da enfermeira Miriam, descobriu que as batidas do nosso coração produzem o mesmo som do tambor


I N T E RT E X TO S

Paixão Fatal

Jéssica Hostalacio Silva - 3º B-EM

Diário do Conde Drácula 7 de maio*

Paula Fonseca – 8 º D - EFII

(Fragmento) Naquele dia, deixei um bilhete para o gringo dizendo que iria viajar para um suposto negócio, o que ele não imaginava era que não existia negócio nenhum. Na verdade, estava à procura de casas supostamente estranhas, para que, assim, pudesse fazer de bobo mais um gringo! Para não deixar suspeitas e ele continuar achando que eu sou apenas um cara com manias estranhas, tomei o cuidado de deixar uma bela mesa de café para ele, sem que me visse, é claro! Cheguei lá pelas sete da noite, o gringo estava lendo. Fiz um monte de perguntas para ele sobre a Inglaterra, afinal, a firma dele havia intermediado a compra de uma casa em Londres, para onde eu pretendia me mudar. Assinei o contrato. Era do meu interesse saber o esquema dos trens (o motivo prefiro não revelar ainda), então comecei a fazer perguntas com o pretexto de que queria levar logo meus pertences para Londres. Fomos para a sala de jantar e, mais uma vez, não jantei. Comecei a contar para o gringo conquistas de minha família, contei a ele que nossa família era nobre daquele lugar há mais de mil anos, acho

que ele ficou impressionado com isso. O galo cantou e, mais que depressa, dei um jeito de me retirar. Disse a ele que podia ficar à vontade no castelo, só não poderia entrar onde as portas estavam trancadas. À noite, quando entrei no quarto, Jonathan Harker estava com um espelho na mão, barbeando-se, foi quando eu disse: - Bom dia, meu amigo. Jonathan tomou um susto tão grande que se cortou com o espelho. Não consegui me controlar, pulei em direção ao gringo, minha vontade era de agarrar o seu pescoço! Controlei-me e disse a ele que o sangue dele era extremamente perigoso naquele lugar e que, com certeza, ali era muito diferente da Inglaterra. Imediatamente, tratei de me certificar de que todas as saídas para fora do castelo estavam trancadas. Tinha certeza de que, após o acontecimento, ele tentaria fugir. Eu não podia ter feito aquilo, minha atitude foi muito suspeita, mas, agora, não adianta mais me lamentar, o que eu podia fazer eu fiz, Jonathan Harker estava preso! Já era dia, entrei e meu quarto, como de costumo e adormeci.

* O texto foi escrito a partir da leitura do livro “Drácula”, de Bran Stoker. Os alunos do oitavo ano escreveram narrativas, sob a forma de um diário, pela perspectiva do próprio Conde Drácula.

Deixe-me provar de teu sangue, alimentar-me de tua carne, saborear tua limpa e ingênua alma. A madrugada chega, e, com ela, o meu anseio de ir à caça. Não me importa a tua dor, o teu medo, tua aflição. Desejo apenas o teu sangue, tua carne, tua alma. Dizem que o medo provém de uma deliciosa obsessão. Até que ponto você chegaria? Chega, chega mais perto. Deixe-me tocar tua nuca e transmitir-te toda a minha ansiedade. Vem, vem mais perto. Encosta-te em minha pele pálida e fria, e queime-me com o calor de teu corpo. Com um suave e delicado beijo, vou sugar de ti todos os teus sonhos. E, depois de passar toda a ilusão, e emergir todo o ódio, só te peço uma coisa: não ponha uma estaca em meu coração, pois a paixão já me trouxe ao inferno.

9


opinião

E S C O L A

Minha Vida no Santa Marcelina

Guilherme Ballesteros – 1º B - EM

Hoje em dia, é bem comum alunos mudarem constantemente de colégio, por má adaptação, dificuldade acadêmica ou, simplesmente, por estarem de “saco cheio”. No meu caso, foi totalmente o contrário. Em meu primeiro ano de vida, fui batizado na capela do Colégio Santa Marcelina, no qual estudo, desde o primeiro período, até os dias de hoje. Estou no primeiro ano do Ensino Médio e pretendo me formar nessa instituição, pois tenho a consciência de que ela já me deu ótima base para seguir minha carreira profissional e, ainda, me ensinará cada vez mais a crescer como pessoa e cidadão, educando-me e sempre, conso-

lando-me e me dando forças para reagir em situações ruins. Enfim, após 12 anos no colégio, o Santa Marcelina foi e está sendo a melhor escolha para a minha formação, tanto pessoal, quanto profissional. Por isso, pretendo estudar no colégio até me formar, tendo a certeza de que serei um bom competidor no mercado de trabalho, confirmo: Santa Marcelina, uma escolha para toda a vida.

TEORIA DO CONHECIMENTO

Pedro Willian Ribeiro Diniz 1º A - EM

10

Teoria do conhecimento é a concepção de cada pessoa das suas experiências de aprendizado e a expectativa na investigação e busca de um “conhecimento verdadeiro”. Cada pessoa enxerga de uma maneira diferente o “conhecimento verdadeiro”, seja sendo o segredo da felicidade, a origem de todas as coisas, o futuro de tudo e de todos ou, até mesmo, um conhecimento didático, frio, concreto, menos filosófico, sendo somente dados decorados por uma pessoa, que serão associados àquilo que corresponde ao que ela “aprendeu”. Não que esse conhecimento não seja importante, pelo contrário, nos dias atuais você não conseguirá ter um bom emprego ou qualidade de vida sem esses conhecimentos, o que ocorre é que muitos consideram esse tipo de “cultura” muito banal, pois é algo que pode ser absorvido e repassado por qualquer um apenas por meio de registros. O conhecimento verdadeiro seria algo que cada pessoa descobrisse a partir de reflexões próprias, algo que fosse associado a sua personalidade, um conhecimento que o pensador não precisasse expor a todos, visando a ser considerado intelectualmente superior. A Teoria do Conhecimento seriam os métodos ou caminhos de cada indivíduo aprender com suas experiências e/ou buscar outras fontes para se aprimorar física, espiritual e intelectualmente, pois o aprimoramento do ser como um todo é conhecimento, e o verdadeiro, é algo universal, que ditaria a cada um o pleno desenvolvimento, com o qual se teria uma maior capacidade de viver e aprender, sempre superando obstáculos e tirando lições deles.

N O

M U N D O

Correção fracassada

Bárbara Kapitizki - 1º A - EM

Ao entrar no ônibus, após ir ao médico, decido me sentar em um canto, com minha mãe. Passo por um homem em uma cadeira de rodas e acho algo normal, mas surpreendente. Na maioria das vezes, os ônibus não são bem equipados para transportarem pessoas deficientes. Sento-me, e minha mãe começa a tagarelar. Ao olhar para os lados, deparo-me com lágrimas caindo de uma cara fechada e desprovida de feições que demonstrassem qualquer tipo de emoção. Era ele, o homem na cadeira de rodas. Ele estava acompanhado por uma mulher, que lhe oferece um lenço, sem nada pronunciar. Assisto em silêncio àqueles gestos mudos. Algum tempo depois, a acompanhante começa a chorar também. Fico sem reação. Em algum canto da minha mente, ainda ouço minha mãe tagarelando ao meu lado, sem ter percebido nada. Por que estariam chorando? Não me permito sentir pena deles, mas não consigo, ainda assim, sinto. Acho-me covarde, mesquinha e preconceituosa. Sempre me disseram que sentir dó de alguém é um péssimo sentimento. Sinto-me ainda pior quando penso que seria melhor que fossem embora logo, para que a dor e a tristeza que estavam me atormentando naquele momento passassem. Odiava sentir tudo aquilo e, no meio de minhas reflexões, acabo por querer ajudar. Esqueço todo o resto à minha volta e preparo planos de ajuda. Toda a raiva de mim mesma, toda a tristeza e todo tipo de pensamento negativo se esvai. Decido, afinal, por levantar e me aproximar. Ao me levantar, minha mãe me puxa e diz que havíamos chegado no nosso ponto. Desço, carregando de novo toda a melancolia deixada para trás, segundos atrás. Vejo-os desaparecendo dentro do ônibus, até virarem um minúsculo ponto azul no meio de uma rua, em uma tarde de terça-feira modorrenta.


E S C O L A

N O

M U N D O

Machado de Assis

Andressa Prado de Miranda -2 º A.

No 2º ano do Ensino Médio estou tendo a oportunidade de conhecer Machado da Assis e sua obra, como “A mão e a luva”, “Dom Casmurro”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e entre outras. Em um outro ano tive que ler “O alienista”, mas não tinha maturidade suficiente para entender e analisar a complexidade, profundidade desse brilhante autor. Machado surgiu como um escritor romântico, mas explodiu no Realismo. Há, em seus textos realistas marcas, criações próprias, como o leitor implícito, a crítica à própria classe social, à burguesia, e à “mulher machadiana”. Das principais características, a que mais me chama a atenção é a sua forma de criticar. Não é uma crítica de qualquer jeito, é ácida, que só consegue ser percebida pelos que têm o senso crítico

Izabella Zuppo - 2º ano B - EM

aguçado. É incrível como ele joga pedra no próprio telhado de vidro. Muitas vezes, lia as histórias e não percebia nada de mais, até que pude me aprofundar nas aulas de literatura e desenvolver enorme gosto por Machado. Outro ponto forte é a mulher machadiana, que, a cada livro, parece ser a mesma, mas com outro nome. Chega a ser difícil descrevê-la, pois ela é intocável. Creio que ele as descreve como sendo tão dissimuladas, impetuosas, querendo romper com o padrão das mulheres representantes dessa classe burguesa, ou seja, por que elas tinham que ser tão “certinhas”, obedientes aos maridos, já que só esses podiam traí-las, por exemplo. Acredito que, como “suas mulheres”, Machado de Assis é intocável, quem somos nós, meros mortais, perto da sua genialidade.

Internetês Clara Cordeiro Carvalho 2º ano A - EM

Hoje em dia, milhões de jovens do mundo inteiro têm acesso à internet e, nesse novo meio de comunicação, a linguagem adquire uma nova forma. A linguagem usada na internet é abreviada, pois, como a troca de informações acontece em tempo real, é necessária rapidez na digitação, além da facilidade de se escrever de modo simplificado. Os jovens e adolescentes são os principais autores da escrita simplificada. Devido às características da própria idade, os adolescentes têm grande facilidade de se adaptar aos novos códigos e símbolos. O internetês é usado principalmente em canais de relacionamento como Orkut e MSN e permite maior intimidade entre as partes envolvidas. Através de símbolos como “:), :(, :-X”, o estado de espírito de quem escreve pode ser transmitido ao leitor. A escrita abreviada da internet pode ser considerada como erro por aqueles que não estão acostumadas com ela. O internetês é feito para um suporte próprio, adaptado para uma determinada situação. Apesar de a linguagem desobedecer a norma culta, nela não há erro de ortografia. A linguagem da web segue os padrões da oralidade e, se duas pessoas dominarem o mesmo código, como o uso de “vc” em vez de “você”, ou o uso de “tc”, em vez de “teclar”, a troca de mensagens pode ser feita de forma eficiente. Essa forma de escrita é muito eficiente e não deve ser repreendida ou abolida. Os jovens devem apenas saber diferenciar ambientes onde elas podem ser utilizadas, como “chats”, de ambientes onde a norma culta da língua deve ser empregada, como escolas ou ambientes de trabalho.

11


E S C O L A

O poder da música Michelle Xavier Pereira - 3º B - EM

Passamos a vida toda escutando os mais variados sons e silêncios combinados de forma harmoniosa, criando uma arte chamada música, que é expressada pelos mais emocionantes sentimentos que viajam pela felicidade, tristeza, angústia, paixões, perdas, lembranças que não acabam mais. Assim, por que não lembrar da música que descreve uma situação, ou no sentimento que se teve quando ela tocou, ou no filme que transpassa o momento vivido? O ritmo, a melodia, que despertam expressões vivas, que regem dentro de cada um, como uma receita em que o resultado é uma surpresa, talvez mais intenso ou mais irreverente... A música, como diz um provérbio chinês, é um “remédio que prolonga a vida”.

12

Fernanda Bassalo - 3º B - EM

Existe, assim, a musicoterapia, que estuda a relação do homem com os sons, a fim de ajudar o aprendizado, a comunicação e a organização para melhorar as necessidades físicas, sociais e mentais da pessoa. É impressionante o que a música consegue fazer com o ser humano. Atividades como o canto, a dança, que ajudam a relaxar e são ainda divertimento, recomendadas também pelos psicólogos a pessoas que sofrem de algum tipo de problema ou distúrbio psicológico. A sensibilidade harmoniosa da música é uma força oculta que vai além dos limites da consciência, com dimensão esplendorosa, que vale a pena ser explorada, sendo um universo misterioso e inquietante. Afinal, quem não é apaixonado por música!?

N O

M U N D O

MUNDO RENOVADO Maria Luiza Gomes de Faria – 8º D - EFII

Seu corpo grosso e rude estava na beira de um precipício, do qual apenas algumas palavras resistiram. Suas páginas estavam aflitas e ele podia sentir as palavras reverberando. Ouviu os ponteiros do relógio que pareciam contar o número de palavras cujo significado ele mesmo desconhecia. Tudo estava mais lento e mais doloroso. Ouviu, também, o barulho de um lápis sendo conduzido por uma folha branca, delineando os traços que se transformavam em letras. Seu corpo, então, foi empurrado para o precipício, que lhe conduziria a uma morte lenta e dolorosa. Sentiu o vento em suas páginas, já desgastadas pelo tempo, e as palavras se agarrarem às folhas em uma vã tentativa de sobrevivência. Houve um baque no chão de madeira. O dicionário, que antes estava na queda mortal, havia encontrado o chão. Tentando se agarrar a alguma esperança, na vã tentativa de esquecer a dor que dilacerava a sua capa e as suas páginas, ele repassou o significado de suas palavras. Com uma surpresa inimaginável, notou que suas belas palavras haviam se modificado. Percebeu, também, que estas novas palavras eram pequenas e de mesmo significado que as antigas. Algumas letras simplesmente sumiram e, no alvoroço daquele acontecimento, o dicionário não pôde encontrar. O desespero foi coletivo, mas as novas letras eram muito medrosas para tentar mudar a situação. O dicionário foi socorrido por uma das mãos ao qual ele estava acostumado. Ele ficou temporariamente alegre de estar sendo socorrido, mas sua alegria se foi ao ser recolocado à beira do precipício. O dicionário quis protestar, mas apenas suas páginas tinham palavras. Quis, também, se matar, no intuito de acabar com seus últimos sopros de palavras, no entanto, ele não precisou, já que caiu novamente. E, assim, ele foi morrendo aos poucos, caindo e perdendo palavras. Durante muito tempo, foi maltratado, mas, à beira da morte, desejou apenas ser consultado novamente e/ou cair no chão, para se renovar.


Jornal Setembro 2010