Page 1

Ano 18 • Edição 105 • Maio/Junho 2016 • Conselho Regional de Psicologia do Paraná

S O I M Ô C MANI AIS! NUNCA M Psiquiátrica a rm fo e R a d o ã ç A consolida úde mental e os rumos da sa

MARCUS VINICIUS DE OLIVEIRA SILVA:

PSICOLOGIA E EMPREENDEDORISMO:

Uma homenagem à vida de luta pela Psicologia e pelos Direitos Humanos

Como ter sucesso abrindo o seu próprio negócio


S U M Á R I O

ANUNCIE na Conselho Regional de Psicologia 8ª Região (CRP-PR) Produção

DIVULGAÇÃO VIA SITE

ESPAÇOS COMERCIAIS

Para anunciar gratuitamente cursos, eventos, vagas de trabalho e sublocação e consultórios no nosso site, acesse: www.crp.org.br/pagina/cadastro-para-divulgacao

Para anunciar, confira a Tabela de Anúncios. *Valores conforme espaço de veiculação, descritos abaixo. Arte enviada pronta, em JPG, nas medidas do anúncio, com sangra 5 mm e resolução 300 dpi.

Mais informações: comunicacao08@crppr.org.br

04

E D I TO R I A L

05

M E N SAG E M DA COM I SSÃO R E G I O N A L E L E I TO R A L

Contato: Informativo Bimestral do Conselho Regional de Psicologia 8a Região (ISSN - 1808-2645) Site: www.crppr.org.br • Avenida São José, 699 CEP 80050-350 • Cristo Rei • Curitiba/PR Fone/Fax: (41) 3013-5766 • E-mail: comunicacao08@crppr.org.br

06

Tiragem: 15.000 exemplares Impressão: Primagraf Indústria Gráfica. Jornalista responsável: Ellen Nemitz (17.589/RS) Estagiária: Débora Dutra Comissão de Comunicação Social do CRP-PR: Bruno Jardini Mäder e Paula Matoski Butture • Revisão: Bruno Jardini Mäder, Célia Mazza de Souza, Angelo Horst e Ellen Nemitz

10

Projeto gráfico: Agência Cupola Rua Celestino Jr, 333 • CEP 80510-100 São Francisco • Curitiba/PR Fone: (41) 3079-6981 • Site: www.cupola.com.br E-mail: falecom@cupola.com.br

Conselheiras e conselheiros

1/2 PÁGINA 4 cores 20,5 x 13,8 cm R$ 975,80

PÁGINA INTEIRA 4 cores 20,5 x 27,5 cm R$ 1.960,00 4a capa R$ 2.800,00

RODAPÉ 4 cores 20,5 x 6,9 cm R$ 583,80

Ana Lígia Bragueto, André Luis Cyrillo, André Luiz Vendel, Anita de Castro Menezes Xavier, Bruno Jardini Mäder, Cleia Oliveira Cunha, Denise Ribas Jamus, Fernanda Rossetto Prizibela, Guilherme Bertassoni da Silva, Juliano Del Gobo, Luciana de Almeida Moraes, Luiz Antônio Mariotto Neto, Luiz Henrique Birck, Maria Stella Aguiar Ribeiro, Mariana Daros de Amorim, Nayanne Costa Freire, Paula Matoski Butture, Renata Campos Mendonça, Rodrigo David Alves de Medeiros, Rodrigo Soares Santos, Rosangela Maria Martins, Sandra Mara Passarelli Flores, Solange Maria Rodrigues Leite, Vanessa Cristina Bonatto.

CO L U N A P OT

1° de maio – Dia do Trabalho: uma história de desafios e um trabalho de reflexão da CPOT

13

15

Preço da assinatura anual (6 edições): R$ 30,00 Os artigos são de responsabilidade de seus autores, não expressando necessariamente a opinião do CRP-PR.

CO L U N A D E AVA L I AÇ ÃO PS I CO LÓ G I C A

Avaliação Psicológica Infantil – um processo com suas particularidades

18

26

29

33

CO F O R I E N TA

Prestação de serviço online: credenciamento de site CO L U N A É T I C A

Reflexões sobre a pergunta: qual é a ética em uma escuta? C A PA

Manicômios nunca mais! A consolidação da Reforma Psiquiátrica e os rumos da saúde mental H OM E N AG E M

Marcus Vinicius de Oliveira Silva: uma homenagem à vida de luta pela Psicologia e pelos Direitos Humanos E N T R E V I STA

A Psicologia e o empreendedorismo : Como ter sucesso abrindo o seu próprio negócio ARTIGO

Acolhimento de idosos com transtornos mentais em Instituições de Longa Permanência: uma discussão necessária


E D I T O R I A L

E L E I Ç Õ E S

Editorial

Mensagem da Comissão Regional Eleitoral às(os) Psicólogas(os) paranaenses

A relação entre o CRP-PR, a categoria e a sociedade

Na relação entre o Conselho Regional de Psicologia

que respondam a demandas da sociedade.

do Paraná (CRP-PR) e a categoria, verificamos dois

O CRP-PR, como autarquia pública, pode e

caminhos: em alguns momentos, há estreito afina-

deve desempenhar um papel de articulador des-

mento; em outros, temos a impressão de haver uma

tes interesses, uma vez que isso beneficiará toda a

abissal distância.

sociedade. Neste sentido, a gestão É Tempo de Di-

Neste ano, teremos processo de eleição de re-

que primem pela relação de desenvolvimento da

Nos momentos em que há necessidade de defesa

álogo não tem poupado esforços ou recursos. É o

presentantes tanto no âmbito municipal como em

profissão perante as demandas sociais contem-

da profissão, tanto na esfera profissional/individu-

que temos chamado de “entrar no trilho da orien-

nossa categoria profissional. Em janeiro de 2016,

porâneas ao nosso exercício. E com este intuito,

al quanto na esfera institucional, o CRP-PR é uma

tação”, em contraposição ao caminho da fiscali-

uma Comissão Regional Eleitoral (CRE) foi orga-

a CRE tem mantido reuniões frequentes para se

referência para Psicólogas e Psicólogos. Isso pode

zação quase que exclusivo das gestões anteriores.

nizada do Conselho Regional de Psicologia do Pa-

ambientar com os processos eleitorais anterio-

ser observado, por exemplo, quando há um abuso de

No início da gestão, encontramos espaços es-

raná (CRP-PR), composta por três Psicólogas(os)

res e acessar os trâmites necessários para a re-

um gestor frente à função da Psicologia e a(o) pro-

vaziados de participação. Procuramos inovar com

efetivas(os) – Cláudia Cibele Bitdinger Cobalchi-

alização do pleito. Além de se dedicar à elabora-

fissional procura auxílio pela Comissão de Orien-

ações descentralizadas e participativas e temos

ni (CRP-08/07915) (Presidente), Rafaela Mayer de

ção e efetivação das etapas do processo eleitoral, a

tação e Fiscalização (COF). É comum encontrar-

tido um resultado bastante animador. Ações te-

Moraes (CRP-08/14068), César Rosário Fernan-

CRE esteve representada no Encontro Nacional de

mos consenso de que as(os) profissionais se sentem

máticas e regionais, que discutam problemas

des (CRP-08/16715) –, e pelas(os) suplentes Na-

Presidentes das Comissões Regionais Eleitorais,

respaldadas(os).

concretos da prática profissional em sua territo-

tália César de Brito (CRP-08/17325), Bruno Mori

realizado nos dias 18 e 19 de março em Brasília,

De forma diversa, quando recebemos queixas e

rialidade, proporcionam a construção de posicio-

Porreca (CRP-08/16860) e Joyce de Fátima Lozo-

publicou o edital de inscrição para as chapas con-

reclamações, tanto de forma institucional quanto

namentos que só pode ser feita na interação e co-

vei (CRP-08/20735).

correntes à gestão e tem se dedicado à redação de

em conversas pessoais, percebemos que as(os) pro-

laboração CRP-categoria.

Característica dessa equipe: profissionais já

informações para orientar sobre a participação do

fissionais sentem o CRP-PR distante quando soli-

Nos meios de comunicação, procuramos ousar

engajados em alguma dimensão de representati-

profissional eleitor e para garantir a igualdade de

citam algo como um retorno do investimento sim-

unindo o dinamismo das redes sociais com a serie-

vidade da categoria e que aceitaram se aproxi-

divulgação das plataformas de gestão das chapas.

bolizado pela anuidade. Nestas solicitações, estão

dade e referência que o CRP-PR precisa ter. Con-

mar do Conselho de forma mais participativa ao

Em calendário a ser executado, estão previstos

presentes temas relacionados a mercado e condi-

vidamos a categoria a acessar e interagir conosco

orientarem a condução desse processo democrá-

a formação de subcomissões eleitorais nos postos

ções de trabalho.

pelos nossos perfis nas redes sociais em que esta-

tico. A juventude, marca do grupo, não prejudica

de votação, treinamentos, previsão de organiza-

Nestes casos, é necessário observar que a força

mos presentes e também pelo site. Nossa mais re-

a seriedade com que foi assumida a tarefa de or-

ção e informações sobre votos pela internet e por

de uma profissão no mercado de trabalho não se dá

cente ação, com vistas a aproximar a Psicologia e a

ganizar e fazer efetivar o exercício da cidadania

correspondência, realização dos debates dos gru-

apenas pela atuação do CRP-PR, mas que há outros

sociedade, é uma grande campanha de divulgação

por meio da eleição de gestão do CRP-PR.

pos candidatos ao CRP e CFP, entre outros.

componentes importantes: a participação da acade-

da profissão em rádio. Desta forma, ao estimular

Participar desse momento, de forma a ga-

Psicóloga(o), fique por dentro do processo

mia, com produção de conhecimento e pesquisas re-

a procura pela Psicologia em diversas fases e mo-

rantir as informações necessárias e as condições

eleitoral no site do CRP-PR (www.crppr.org.br).

levantes; organizações independentes, como asso-

mentos da vida, esperamos ampliar as possibili-

para instalação de um processo idôneo, faz com

Atualize seus dados cadastrais e garanta o direito

ciações e sociedades de Psicólogas(os); mobilização

dades de trabalho para as Psicólogas e Psicólogos e

que a CRE assuma o compromisso de potencia-

de participar das eleições do Sistema Conselhos

sindical; e ainda métodos e técnicas de intervenção

ampliar a qualidade de vida das pessoas.

lizar a escolha representativa de Psicólogas(os)

de Psicologia!


COLUNA DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA

COLUNA DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA

Avaliação Psicológica Infantil

emergiu em uma das dimensões do desenvolvimento

quer forma, entende-

infantil, mas que não deixa de refletir o funcionamento

-se que há um aspecto

Um processo com suas particularidades “Quando encontramos os caminhos adequados para que as crianças se expressem, descobrimos que elas têm informações preciosas a nos revelar.”

A prática da(o) Psicóloga(o) na avaliação psicológica

possam ser utilizados pela(o) Psicóloga(o) e que sejam

infantil em diferentes contextos tem mostrado a im-

eficazes na avaliação dos fenômenos relacionados às

portância de utilizar este processo de maneira crite-

condições pertinentes ao desenvolvimento infantil nas

riosa para uma atuação psicológica de excelência, que

dimensões afetiva, cognitiva e social.

priorize o desenvolvimento saudável das crianças, bem

O tema em questão é fundamental diante das di-

como as orientações necessárias para a família e a es-

versas demandas que surgem no universo infantil, uma

cola. Todo o processo de avaliação psicológica objetiva

vez que hoje a criança é exposta a inúmeros desafios,

o conhecimento aprofundado sobre o(s) fenômeno(s)

seja em relação à aprendizagem ou às dimensões afeti-

psicológico(s) presente(s) na demanda.

vas. Ao se deparar com a avaliação em Psicologia infan-

Há grandes desafios atuais em relação à avaliação

til, a(o) profissional deve estar preparada(o) tanto téc-

psicológica infantil. Um destes desafios é a sociedade

nica como teoricamente para desenvolver um trabalho

em que as crianças estão inseridas, marcada pela era

competente, promovendo, assim, o alcance social da

tecnológica, com novas configurações familiares, difi-

avaliação psicológica, ressignificando sua função não

culdades significativas das figuras parentais de se di-

só para a Psicologia, como também, e principalmente,

ferenciarem em seus laços afetivos estabelecidos com

para o sujeito da avaliação, no caso a criança.

seus filhos, medicalização, entre outros aspectos, que

Identificar a etiologia da queixa, refletindo se está

indicam a importância da contextualização desta crian-

trazendo questões referentes ao contexto da aprendi-

ça no enquadramento realizado no processo avaliativo.

zagem ou socioafetivo, permite à(o) Psicóloga(o) ter

Outro desafio refere-se à existência de poucos

um direcionamento mais específico sobre os procedi-

instrumentos formais padronizados e validados que

mentos adequados a serem utilizados no processo de

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

dos sistemas em que a criança está inserida.

importante a se consi-

Desta forma, a competência profissional na avalia-

derar, independente des-

ção psicológica infantil diz respeito à capacidade de ex-

sa etiologia: a necessidade

plorar, compreender e interpretar o universo infantil.

de a(o) profissional ter um

Saber como sente, como pensa essa criança. Os recur-

manejo técnico aprofunda-

sos para essa prática devem ser facilitadores para que

do para que possa utilizar os

a(o) Psicóloga(o) consiga se aproximar a partir de uma

recursos lúdicos como facili-

linguagem adequada, uma atitude corporal que permita

tadores para a criação do vín-

aproximação, mas que também delimite papéis. Devem

culo e motivação para a pro-

também indicar caminhos para mediar as resistências,

posta avaliativa. Portanto, é

advindas da própria criança e também de seus respon-

importante que a(o) Psicólo-

sáveis, pois muitos deles, embora sejam os sujeitos

ga(o) tenha competência te-

contratantes da avaliação, retraem-se ao perceber que

órica e técnica ao atuar com

também são protagonistas do processo de avaliação.

avaliação

(COSTA e SANTOS,s.d. IN SOUZA, 2010)

6

avaliação. De qual-

psicóloga

infantil,

Dentro das especificidades desse processo, entende-

para que possa desenvolver um

-se que a capacidade da(o) Psicóloga(o) em considerar

pensamento clínico integrativo,

que a criança precisa ter um espaço para que ela própria

que facilite sua tomada de deci-

possa comunicar sua história é fundamental. Em mui-

são frente às diferentes demandas.

tos processos, constata-se que “as verdades” são con-

Pode-se imaginar que a criança em

sideradas apenas a partir do ponto de vista dos adultos

um processo de avaliação esteja diante de uma

e é deixada de lado a visão infantil sobre essas verda-

situação compulsória, pois a busca está sempre dire-

des que possivelmente levaram à busca por um proces-

cionada por seus pais ou responsáveis legais, e estes

so de avaliação. Por outro lado, a(o) Psicóloga(o) deve

devem sempre ser inseridos nesse processo, bem como

estar preparada(o) tecnicamente para considerar o uso

o contexto escolar. Como profissionais, mostra-se re-

da fantasia no universo infantil, pois, ao mesmo tem-

levante questionar: as dificuldades infantis surgiram

po em que ela possui um alto valor para o crescimen-

onde? Em casa? Na escola? Em ambos os contextos?

to e desenvolvimento infantil, ao investigar esse pro-

Há prejuízo em algum aspecto do desenvolvimento? Há

cesso, a(o) Psicóloga(o) poderá acessar e compreender

sofrimento para a criança? O sintoma produz sofrimen-

com maior profundidade esse universo. É fundamental

to no ambiente? Os adultos sabem manejar ou como li-

uma relação com a criança baseada na verdade, pois a

dam com sua impotência diante das dificuldades?

construção de um vínculo de confiança é necessária em

Os sintomas descritos inicialmente pelos respon-

qualquer faixa etária, sendo que a(o) profissional deve

sáveis pela criança são sinais fundamentais que pre-

considerar a capacidade de entendimento, de raciocínio

cisam ser compreendidos a partir de uma leitura sis-

e linguagem adequada.

têmica. Estes sintomas costumam sinalizar e focalizar

Embora a(o) Psicóloga(o) deva estar capacitada(o)

uma conjuntura de natureza dinâmica que auxilia a(o)

para identificar um conjunto de construtos que sejam

Psicóloga(o) a se posicionar diante da necessidade de

relevantes para cada caso que avalie, relacionam-se al-

compreensão dos fenômenos e processos psicológi-

guns fenômenos e processos psicológicos que podem

cos sem potencializar dificuldades, buscando um en-

ser investigados em uma avaliação psicológica infan-

tendimento do funcionamento de uma rede de relações

til, tais como: construtos cognitivos como atenção,

que pode estar sendo desvelada a partir do sintoma que

memória, inteligência e diversos tipos de raciocínio;

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

7


COLUNA DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA

construtos relacionais, como habilidades sociais, apego, estilos parentais, sentimentos de pertença; humor; características de personalidade; dependência; agressividade, entre outros. Os recursos que estão disponíveis à(o) profissional para avaliação infantil devem também ser estabelecidos a partir de cada caso. Algumas coisas são funda-

COLUNA DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA

SMHSC - Sistema Multimídia de Habilidades Sociais de Crianças

EAC-IJ - Escala de Auto Conceito Infanto-Juvenil

IJ,ETPC • Pirâmides Coloridas de Pfister Infantil •

ETPC - Escala de Traços de Personalidade para Crianças

Colagem • Jogo dos sentimentos • Jogos de azar e de

EOCA - Entrevista Operativa Centrada na Aprendizagem

habilidade • Jogo dos pensamentos • Jogo Sou X Não

EMCA - Entrevista Modular Centrada na Aprendizagem

fantoches, bonecos e livros, que promovem maior mo-

sou • Desenhos da família atual, real, ideal/cinética

WISC III - Escala de Inteligência Wechsler para Crianças 3ª edição

tivação e compreensão, mantendo o caráter lúdico tão

WISC IV - Escala de Inteligência Wechsler para Crianças 4ª edição

inerente a esta etapa do desenvolvimento dos infantes.

Demandas de aspectos relativos à aprendizagem

WAIS III - Escala de Inteligência Wechsler para Adultos

WASI - Escala de Inteligência Wechsler Abreviada

FENÔMENOS E PROCESSOS PSICOLÓGICOS

DFH III - O desenho da figura humana: avaliação do

Frases projetivas • EFE • HTP • CAT - A • ESI, SMHSC,EAC-

mentais: realizar uma ou mais entrevistas com os pais ou responsáveis legais; considerar, na entrevista com a criança, o aspecto lúdico de comunicação; usar testes psicológicos adequados em relação à idade e construtos a serem avaliados; estar em contato frequente com

Desinteresse e desmotivação

outros profissionais, como, por exemplo, professores, médicos, fonoaudiólogos. Além disso, a(o) Psicóloga(o) deve sempre treinar a expansão de seu olhar, tecendo uma observação cuidadosa durante todo o processo avaliativo. O quadro abaixo (Miranda e Oliveira, 2015) apresenta fenômenos e processos psicológicos, associando-os com as dimensões a serem avaliadas, o que

Queda no

Medo Timidez Inassertividade

Enurese Isolamento Ansiedade

Encoprese Tristeza, depressão

e demais

Sexualidade exacerbada

Insônia

os aspectos que foram apresentados oralmente pela(o)

PROLEC - Provas de avaliação dos processos de Leitura

Psicóloga(o).

ETDAH-AD - Escala de Transtorno do Déficit de Atenção e Hi-

Disfuncionalidade na aprendizagem

atenção, concen-

Lentidão na

Agitação em sala

tração, memória,

execução

de aula

raciocínio

EMA-EF - Escala de Avaliação da Motivação para Aprender de Alunos do Ensino Fundamental

EAVAP-EF - Escala de avaliação das Estratégias de Aprendizagem para o ensino fundamental

Considerando todos estes apontamentos e reflexões levantadas, a(o) Psicóloga(o) responsável por um processo de avaliação psicológica infantil deve compreender a relevância das particularidades deste contexto, buscando executar um trabalho com elevado nível de qualidade, o que favorecerá e reforçará intervenções que

* Sugere-se a consulta aos manuais dos testes psicológicos, pois existe di-

colaborem para um prognóstico positivo e saudável de

ferenciação nas amostras.

desenvolvimento infantil.

ESTRATÉGIAS

Espera-se que o presente texto sensibilize Psi-

Entrevistas com os responsáveis (família e escola) • Observações durante o processo • EOCA e EMCA • Técnicas projetivas psicopedagógicas • Jogos de azar e de habilidade • Frases projetivas • Testes intelectuais (WISC,WAIS,WASI) • DFH (Sisto, Wechsler) • Testes de atenção (BPA,D-2) • Testes de raciocínio (BPR-5) • TDE • Bender - SPG • Diagnóstico Operatório de Piaget

dagógico de avaliação: aprendizagem e nível operatório no conto Os Três Porquinhos • Escala de Avaliação das Estratégias de aprendizagem para o Ensino Fundamental

Vale enfatizar que a(o) profissional deve sempre consultar o SATEPSI (Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos) para se certificar daqueles instrumentos que estão invalidados, para fins de atualizações e também para constatar a inclusão de novas estratégias que possam ser lançadas. Entretanto, conforme já ressaltado anteriormente, não se acredita que a técnica possa sobrepujar e dispensar a realização de entrevistas, observações e um bom vínculo estabelecido com todos os participantes. Outro aspecto que caracteriza as particularidades desse processo diz respeito à devolutiva da avaliação, que pressupõe aquele momento em que, após a in-

cólogas(os) para a grande relevância de um processo de avaliação psicológica destinado ao público infantil, de modo que nunca supervalorizem a técnica em detrimento do vínculo interpessoal estabelecido com a criança e com todos aqueles que fazem parte de sua rede relacional. Além disto, que considerem que a comunicação com este público precisa de recursos intermediários e lúdicos para que a criança se sinta segura e capaz de revelar seus conteúdos, pois, após uma avaliação psicológica de qualidade, será muito mais acertado o encaminhamento das orientações e das intervenções psicopedagógicas e psicoterápicas que se façam necessárias.

tegração de todas as informações obtidas, é realizada a apresentação dos resultados verbais para o cliente (protagonista do processo), familiares e, algumas ve-

Esclarecimento sobre as siglas que aparecem no quadro acima:

Entrevistas com os responsáveis (família e adultos sig-

8

peratividade para crianças /para adolescentes e adultos

matemática

EMA-EF • Coleção Três Porquinhos – Material psicope-

ESTRATÉGIAS

leitura posterior e maior compreensão e reflexão sobre

TDE - Teste de Desempenho Escolar

lar, da mochila e da agenda • EAVAP-EF • ETDAH-AD •

Outros

e entrega por escrito aos responsáveis oportuniza uma

física e verbal

compulsões

mento técnico científico importante e sua elaboração

performance

• Avaliação multimodal • Análise do material esco-

Furtos

O laudo psicológico configura-se como um docu-

DFH - Escala SistoDesenho da Figura Humana

da leitura, escrita e

desempenho

pondo o uso de recursos lúdicos complementares, como

Agressividade

Obesidade Insegurança

de com erros e

ferenciada daquela com adultos, muitas vezes pressu-

Baixa

Dificuldades com

tude dos recursos que podem ser utilizados.

FENÔMENOS E PROCESSOS PSICOLÓGICOS

Medo e ansieda-

desempenho

pode auxiliar as(os) profissionais a identificar a ampli-

Algumas demandas de aspectos afetivos e sociais

Reprovações

desenvolvimento

infantil. Entretanto, a devolutiva infantil é bastante di-

nificativos) • Observações durante o processo todo •

EFE - Entrevista Familiar Estruturada

Hora de Jogo Diagnóstica • Desenhos livres e dirigidos •

HTP - “Casa, árvore, pessoa”, na sigla em inglês. Técnica projetiva do desenho

zes, também para o sistema escolar. Pondera-se que, ao longo do processo, a criança expôs à(o) Psicóloga(o) conteúdos que, de certa forma, vão sendo vivenciados e elaborados por ela. Portanto, a organização desse con-

CAT - Teste de Apercepção Temática-Forma Animal

teúdo para a criança é uma ação que prioriza sua saú-

ESI - Escala de Stress Infantil

de mental e preconiza o caráter preventivo da avaliação

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

REFERÊNCIA: MIRANDA, Vera Regina ; OLIVEIRA, Mari Angela Calderari. Estratégias de Avaliação Psicológica na Infância-Mesa Redonda. XV Encontro Paranaense de Psicologia: Londrina, 2015. 105 slides, color.

9


COLUNA POT

COLUNA POT

1° de maio Dia do Trabalho Uma história de desafios e um trabalho de reflexão da CPOT Texto elaborado pela Comissão de Psicologia Organizacional e do Trabalho, composta pelas Psicólogas Andressa Roveda (CRP-08/08990), Bianca dos Santos Scheifer (CRP-08/20316), Glauce Thais Barros (CRP-08/22208), Patrícia Metz da Fonseca Lemos (CRP-08/21374) e Patricia Cristina Wolpe (CRP-08/12729).

10

Nesta edição, abordamos um dos temas mais

da República, João Goulart, sancionou a lei nº

importantes para a Psicologia: trabalho e orga-

4.119/62, que tornava a Psicologia, de direito,

nizações. Interessante saber que, numa situação

uma profissão.

de crise prolongada como esta que o país vive,

O dia 1º de maio foi uma homenagem às

Psicólogas(os) podem contribuir de maneira im-

pessoas que se dedicaram aos primeiros movi-

prescindível e com extrema competência.

mentos de luta por melhores condições de tra-

Nos dicionários, o trabalho é concebido como

balho, com muito sofrimento e violência, provo-

um conjunto de atividades exercidas pelas pes-

cando um marco histórico no mundo, resultado

soas em busca de um determinado fim. As re-

da união popular e do senso de cidadania. Para

lações entre as pessoas e o mundo do trabalho

nós da Comissão Temática de Psicologia Orga-

estão no foco da Psicologia Organizacional e do

nizacional e do Trabalho (CPOT), esta data tem

Trabalho (POT), um campo da ciência que tem

como intuito provocar uma constante reflexão

pouco mais de um século de existência, apesar

nos trabalhadores e a intitulamos como referên-

de a profissão só ter sido regulamentada em 27

cia para contextualizar as práticas da Psicolo-

de agosto de 1962, quando o então Presidente

gia vinculadas ao mundo trabalho. Embora seja

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

facilmente vinculada a um dos feriados nacio-

cujo objetivo é contemplar sua atual diversidade

nais, é importante nunca se distanciar do seu

da área e posicionar a aproximação de dois ei-

real significado, pois esse momento foi decisi-

xos que envolvem os fenômenos psicossociais:

vo para a consolidação das leis e a implantação

os fenômenos Organizacionais, enquanto espa-

destas na melhoria das relações trabalhistas, que

ços sociais estruturantes das relações coletivas,

atingiram várias profissões no campo de traba-

e o Trabalho como atividade básica, construção

lho, incluindo a das(os) Psicólogas(os). As co-

de identidade e agente transformador.

memorações alusivas à data são realizadas em

Todos os campos de ações da POT pas-

eventos festivos e manifestações que apontam

sam pela essência do trabalho e sua represen-

um largo caminho ainda a ser percorrido.

tação simbólica na vida das pessoas e do modo

A aproximação da Psicologia dos contextos

como vivenciam tais experiências. As interven-

laborais remete ao mesmo tempo ao movimento

ções circulam nos trabalhos formais e informais

da Psicologia na busca de sua consolidação no

em todos os tipos de organizações, de naturezas

campo científico, entre o final do século XIX e

diversas (governamental, não governamental,

início do século XX. O processo da industriali-

instituições privadas, não privadas), assim como

zação, no qual a concepção de trabalho passou a

se ocupa a entender e contribuir na ausência de

ser regida pelo viés da produção e pela sociedade

trabalho e nos fenômenos como terceirização e

de consumo, causaram intensas transformações

desemprego.

em todos os segmentos da sociedade. As situa-

O trabalho e as organizações, de uma manei-

ções novas e desafiadoras que advieram dessas

ra peculiar, fazem parte da vida dos indivíduos

relações de trabalho necessitavam de entendi-

e a(o) Psicóloga(o) inserida(o) neste campo de

mento e organização, pois se tratava de compre-

atuação passa a priorizar um trabalho de me-

ender o comportamento do homem moderno e

diador de interesses e objetivos entre os atores

os fenômenos psicossociais emergentes.

envolvidos.

As bases teóricas da Psicologia tiveram gran-

Na atualidade, todos os aspectos que inte-

de influência neste processo de entendimento,

gram a vida dos indivíduos e grupos são ex-

mas foi o campo aplicado desta ciência, através

periências vividas em um cenário de rápidas e

de métodos e técnicas psicológicas, que se con-

constantes inovações, representando um desa-

solidaram neste cenário. Em um primeiro mo-

fio de renovação constante em que a tecnologia

mento, isso foi muito direcionado aos processos

vem orquestrando novas formas de se relacio-

de mensuração e investigação quantitativa com

nar e produzir. Diante desta complexidade, há

o foco na produtividade, mas gradativamen-

uma necessidade de se ampliar o diálogo com

te conquistou espaço para atuar nos âmbitos do

outras áreas do conhecimento, sendo enfatizada

comportamento e da cultura organizacional.

a atuação multidisciplinar para a compreensão

Foram muitas as denominações que acompanharam as transformações de cada época. Depois

do comportamento humano na estrutura e funcionamento das organizações.

de uma razoável evolução histórica, que come-

Há uma preocupação por parte da CPOT em

çou com o nome de Psicologia Industrial, Psi-

perceber questões atuais relacionadas ao traba-

cologia Organizacional e Psicologia do Trabalho,

lho no campo da Psicologia como: imperativo

a área foi se alargando para chegar a essa con-

das competências, o trabalho nômade e a ter-

formação mais abrangente, denominada Psico-

ceirização; aumento gradativo de assédio moral

logia Organizacional e do Trabalho, termo mais

e de afastamento laboral por doenças vinculadas

utilizado por muitos autores expoentes da área,

aos transtornos mentais; equidade de gênero;

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

11


COLUNA POT

COF ORIENTA

promoção de uma real inclusão das pessoas com de-

assunto e, sim, promover um diálogo quanto às impli-

ficiências; as novas tecnologias e o impacto nas rela-

cações citadas no texto.

ções interpessoais; o aumento frenético dos índices de

Há muito trabalho a ser feito pela(o) profissional

desemprego, que já vem trazendo seus efeitos sociais

da Psicologia, assim como uma urgência em se am-

como desvalorização salarial e de benefícios; a insta-

pliar o suporte teórico através da pesquisa.

bilidade e estresse no ambiente corporativo; e a redu-

E você, o que pensa a respeito?

ção das equipes que impelem a sobrecarga de tarefas.

Convidamos você, leitora e leitor, a fazer parte da

A intenção não é finalizar questões sobre este

CPOT e debater conosco este e outros temas!

REFERÊNCIAS: ZANELLI, J. C.; BORGES-ANDRADE, J. E.; BASTOS, A. V. B. (Org.). Psicologia, organizações e trabalho no Brasil. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

MALVEZZI, S.. Psicologia Organizacional: da administração científica à globalização - uma história de desafios. São Paulo: USP, 2000.

Revista Diálogos, ano 4, número 5, 2007.

SERRES, M.. A Lenda dos Anjos. São Paulo: Aleph, 1995.

Série técnica: manual de psicologia organizacional / Marta Naguel, Regina Denck. - Curitiba : Unificado, 2007.

Revista Psicologia: Ciência e Profissão, volume 10, número 1, Brasília, 1990.

CALDAS, M. P.. Enxugamento de Pessoal no Brasil: podem-se atenuar seus efeitos em empresa e indivíduo? RAE – Revista de Administração de Empresas, São Paulo, v. 40, n. 1, p. 29-41, jan/mar 2000.

CBO - Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho.

Prestação de serviço online: credenciamento de site Comissão de Orientação e Fiscalização Jefferson Simomura (CRP-08/11521) Orientador Fiscal

Desde 2012, o atendimento online passou a ser

“Sou professor e Psicólogo Clínico há 10 anos, e re-

regido pela Resolução CFP nº 011/2012. Esta re-

centemente recebi uma proposta para supervisionar

solução regulamenta os serviços psicológicos re-

outros profissionais a distância e atender clientes da

alizados por meios tecnológicos de comunicação

clínica de maneira eventual (numa viagem temporá-

a distância e o atendimento psicoterapêutico em

ria ao exterior). Tive conhecimento da necessidade da

caráter experimental. No entanto, ainda há vários

criação de um site e gostaria de aproveitar este meio

questionamentos por parte da categoria com re-

para divulgação de todas as minhas atividades profis-

lação a esse serviço.

sionais como professor de Psicologia e Psicólogo Clíni-

Percebemos a importância de abordar esta te-

co. Como devo proceder?”

mática pouco discutida entre a categoria devido a alguns questionamentos que chegam até o

Primeiramente, vamos definir quais ativida-

Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CR-

des podem ser realizadas no atendimento online:

P-PR). Portanto, o caso fictício a seguir servirá como base para que possamos sanar as dúvidas:

12

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

Todas as orientações das diversas abor-

13


COF ORIENTA

dagens teóricas, desde que não ultrapasse 20 encontros ou contatos virtuais, síncronos (necessária presença do remetente e destinatário simultaneamente) ou assíncronos (não depende da presença simultânea do remetente e do destinatário na comunicação); •

Processos prévios de seleção de pessoal (entrevista, análise curricular, entre outros);

• •

COLUNA ÉTICA

serão ofertados; 5. Informar sobre a vulnerabilidade do meio eletrônico; 6. Informar quanto ao sigilo profissional de acordo com o CEPP; 7. Informar o número máximo de encontros permitidos; 8. Informar sobre o público-alvo – caso for

Aplicação de testes devidamente regula-

atender criança ou adolescente, orientar

mentados por resolução pertinente;

sobre a necessidade de autorização dos

Supervisão do trabalho de Psicólogas(os),

responsáveis;

realizada de forma eventual ou comple-

9. Serão permitidos somente quatro links:

mentar ao processo de sua formação pro-

para o site do CRP-PR, para o site do Con-

fissional presencial;

selho Federal de Psicologia (CFP,) para o

Atendimento eventual de clientes em trân-

CEPP e para a Resolução CFP nº 011/2012;

sito ou de clientes que momentaneamente

10. Colocar a informação que o site está em

se encontrem impossibilitados de compa-

processo de credenciamento no CFP;

recer ao atendimento presencial.

11. Poderá conter artigos, desde que haja referência bibliográfica e o assunto es-

Lembrando que as atividades citadas acima devem ser pontuais, informativas e focadas no

teja estritamente relacionado à prestação do serviço online.

tema proposto e que não devem ferir o disposto no Código de Ética Profissional do Psicólogo (CEPP). As outras atividades, como palestras, cursos e atendimento clínico presencial, não podem ser divulgadas no mesmo site, pois este precisa ser

Já a divulgação deste site de atendimento

Diante dos impasses éticos apresentados à Comissão de Ética nos últimos anos, temos buscado promover reflexões

online poderá ser feita em qualquer outro meio

que destaquem a importância de uma conduta e uma prática essencialmente éticas no campo da Psicologia. Ao longo

de comunicação.

destes debates, permeamos diversos temas, múltiplos espaços e novas demandas. Ainda assim, notamos que é perti-

Assim que o site estiver pronto, a(o) profis-

nente fazer um retorno à origem ou àquilo que corresponde à essência do fazer da(o) Psicóloga(o): a palavra, a escuta.

sional deverá acessar http://cadastrosite.cfp.org.br

Premissa maior da prática da(o) Psicóloga(o) em qualquer área em que se encontre, a escuta é a ferramenta essen-

Na prestação de serviços online, é importan-

e realizar o processo de cadastramento. O pro-

cial para o trabalho. Para além do simples ouvir, a escuta é o que diferencia e qualifica a(o) profissional da área, na

te que a(o) profissional se atente aos seguintes

cesso de avaliação é feito pelo CRP-PR, que terá

medida em que permite a compreensão isenta de julgamento daqueles que nos demandam.

critérios:

um prazo de 60 dias para a emissão de um pa-

exclusivo para prestação dos serviços online.

Para esta reflexão, a Comissão de Ética convidou o Psicólogo Antônio Fumagalli Junior para dialogar sobre o assunto.

recer. Se o parecer for favorável, o site receberá 1.

O site deverá possuir domínio próprio,

um selo certificando o cadastro que será emitido

geralmente com final “.br”;

pelo CFP. Caso contrário, a(o) profissional será

2. Deverá constar no site o nome completo, número de registro e minicurrículo; 3. Deverá conter a definição de orientação online; 4. Descrever de forma clara os serviços que

orientada(o) e terá um prazo de 20 dias para realizar as adequações. Em caso de dúvidas, a Comissão de Credenciamento de Sites do CRP-PR está à disposição através do e-mail credenciamentosites@crppr.org.br.

R E F L E XÕ E S S O B R E A P E RG U N TA

Qual é a ética em uma escuta? Antônio Fumagalli Junior (CRP-08/14988)

14

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

15


COLUNA ÉTICA

O que se segue são reflexões e opiniões pró-

a possibilidade daquele que fala construir algo

o que é seu do que está ouvindo. Não vejo pro-

nos dizem? Estamos conseguindo suportar a

prias a partir da prática cotidiana de um Psicó-

novo para si – seja um saber, um efeito tera-

blemas, por exemplo, em encaminhar a um co-

realidade de seus discursos sem a ambição de

logo. Sem a preocupação imediata de fazer uma

pêutico, ou uma nova forma de se relacionar

lega um caso que esteja suscitando dificuldades

corrigi-los, ou algo do gênero? Deixo tais per-

discussão teórica ou legal sobre o tema, mas

com o mundo. Uma escuta não comporta, no

neste sentido. Isto é, inclusive, desejável.

guntas como provocações para aqueles que se

admitindo que ela exista e seja necessária.

meu ponto de vista, outra configuração. Qual-

Fazer tais considerações em uma publicação

O que entendo por escuta é um instrumen-

quer procedimento que busque incluir (de fora

para Psicólogos pode parecer algo nada origi-

to da prática que busca acolher, investigar, ex-

para dentro) um conceito, um valor ou um ideal

nal, uma obviedade neste campo, e ainda, no

A escuta, sendo uma oferta diante de uma

plorar e dar tratamento a demandas. Quando

naquele que está diante de nós não é propria-

fim, cair no senso comum sobre a necessidade

demanda, não se restringe somente a um ou

escuto alguém, parto da aposta de que este ato

mente uma escuta.

de quem se põe a escutar o sofrimento alheio

outro campo de trabalho. Lidamos com de-

também ser escutado através de um processo

mandas em qualquer campo de nossa prática.

terapêutico ou analítico.

Será que operamos com elas de forma ética?

questionam sobre as demandas que recebem e as respostas que oferecem a elas.

poderá produzir efeitos naquele que está diante

Mas operar neste nível é algo bastante exi-

de mim com sua demanda, desde que se propo-

gente e, em certa medida, desafiador para quem

nha a falar dela.

se propõe a receber demandas. Percebo que

Contudo, a experiência demonstra que nun-

Para concluir: em relação à pergunta sobre

Uma demanda se manifesta sob o que se

uma questão é prioritária e tende, de alguma

ca é demais fazer estas lembranças e, princi-

a ética em uma escuta, a minha resposta é que,

fala, nas entrelinhas do que se pede. Porque

forma, a se relacionar com todas as dificulda-

palmente, resgatar seus fundamentos, pois

diante de uma demanda, a oferta de uma escu-

nem sempre – ou na maioria das vezes – há

des para que se instaure uma escuta. Observo

existe uma tendência em simplificar tal ques-

ta é uma conduta ética. Seguindo o que entendo

coincidência entre o que é declarado na fala e o

que o mais exigente, e mais difícil, é aquele que

tão e a esquecer a repercussão que isso pode

por escuta, escutar é ético.

que se quer de verdade. Isso não quer dizer que

ocupa o lugar de quem recebe as demandas po-

causar em nossa prática. Por exemplo, quan-

a verdadeira questão não esteja na fala, pelo

der separar aquilo que ouve daquilo que é seu,

do se acha que essa problemática se restringe

contrário, está ali, e é por isso que se trata de

de sua pessoa (seus afetos, seus medos, seus

apenas à prática clínica.

escutar. Mas há que se escutar aquilo que uma

valores, sua moral, suas ambições, etc.). Para

fala carrega para além dela própria, e isso que

ser mais rigoroso: que consiga separar as de-

ridos em instituições de diversas natu-

ela carrega só poderá ser reconhecido na me-

mandas que ouve de suas próprias...porque elas

rezas e finalidades, permeadas por

dida em que se torna palavra, que se fala so-

existem. Lidamos com um material extrema-

discursos próprios. As instituições

bre isso. Por isso que quem escuta não pode se

mente delicado (poderíamos resumir simplifi-

públicas governamentais são as

furtar a interrogar e investigar aquilo que ouve.

cadamente que são as emoções e ações huma-

mais comuns. Nestas institui-

É neste ponto que incide a aposta de que o

nas) que tende a incluir nossa pessoa em suas

ções, deparamo-nos com de-

ato de escutar alguém poderá produzir efeitos

manifestações, e também porque este mesmo

mandas cada vez mais com-

naquele que fala, se ele vier a saber mais sobre

material opera em nós e tende a se manifestar

plexas e com casos-limite.

aquilo que diz ou faz (porque o que faz, seus

em nossas relações. Se minhas questões emo-

Estamos conseguindo ofer-

atos, também têm valor de palavra). Este é um

cionais entram em cena, minha escuta fica “vi-

tar de fato uma escuta para

princípio: que aquele que fala – que pede, que

ciada”, e diminui-se a chance (para não dizer

estas demandas? Consegui-

demanda – poderá vir a saber sobre si, inclusive

que se acaba) de que aquele que fala construa

mos reconhecer as deman-

sobre o que está demandando.

algo novo, porque já não se aponta para o que

das presentes nos pedidos

ele diz e sim para o que eu penso, ou sinto, so-

do juiz ou da instituição em

bre o que ele diz.

que trabalhamos, por exem-

Ou seja, em minha prática, escutar uma pessoa é, essencialmente, dirigi-la para o que

16

COLUNA ÉTICA

Vejo cada vez mais os Psicólogos inse-

ela própria está dizendo, apontar para as en-

Mas, também não concordo com aque-

plo? Comunicamos à família

trelinhas de suas palavras, ou de seus atos,

les que defendem uma neutralidade impessoal

qual é a sua verdadeira de-

avançar nisso. Escutar alguém é, de certa for-

quase absoluta do Psicólogo, em que qualquer

manda? Estamos, também,

ma, um instrumento prático para que aquele

reação que esteja longe dos padrões de descri-

conseguindo escutar nossos

que está diante de mim se escute, e possa reco-

ção é condenável. O que posso dizer aqui é que

pacientes/usuários sem co-

nhecer e saber sobre aquilo que estava afastado

o profissional esteja ao menos advertido de sua

locar nossas questões pes-

de seu conhecimento. O que a escuta produz é

tarefa, assim como possa reconhecer e separar

soais à frente do que eles

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

17


CAPA

CAPA

MANICÔMIOS NUNCA MAIS! A consolidação da Reforma Psiquiátrica e os rumos da saúde mental Ellen Nemitz

18

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

Às vésperas de completar 15 anos de existên-

uma vez que os manicômios sempre foram lo-

cia, a Reforma Psiquiátrica instituída pela lei

cais onde as pessoas ditas loucas eram jogadas

nº 10.216/01 passou por um grande teste de re-

pela sociedade e passavam muitas vezes a vida

sistência quando o Ministro da Saúde, Marcelo

toda sem contato com o mundo externo e sem

Castro, nomeou Valencius Wurch Duarte Filho

condições mínimas de dignidade humana. Ob-

para o cargo de Coordenador Nacional de Saúde

viamente, este modelo de tratamento não sur-

Mental, Álcool e Outras Drogas. Manifestantes

tia o efeito desejado, ou seja, não curava as pes-

ocuparam a sala da Coordenação, em Brasília, e

soas com transtornos mentais. Ao contrário, era

diversos atos foram realizados no país pedindo

comum que piorassem lá dentro e nunca mais

a exoneração de Valencius. O motivo? Ele é um

obtivessem a liberdade, sendo submetidas a si-

médico psiquiatra que defende o modelo ma-

tuações como receber sessões de terapia com

nicomial e foi diretor do maior hospital psi-

choques e viver em lugares insalubres e quase

quiátrico da América Latina - a Casa de Saúde

sem alimentação.

Doutor Eiras, em Paracambi/RJ, fechada defini-

Graças à luta de muitas pessoas, o modelo de

tivamente em 2012. Logo, sua gestão represen-

assistência à saúde, em especial à saúde men-

taria um risco às conquistas da Lei Antimanico-

tal, mudou muito no Brasil. “Vale lembrar que

mial. “Nomear como gestor nacional de saúde

os avanços conquistados estão inscritos em um

mental um profissional que não se alinha às

contexto mais amplo e aqui me refiro ao Sistema

lutas sociais tão arduamente consolidadas em

Único de Saúde [SUS]. Estamos escrevendo uma

políticas em prol do cuidado em liberdade da

outra história da saúde pública, e reescrevendo o

pessoa que sofre psiquicamente é inaceitável”,

cuidado à pessoa que sofre psiquicamente”, co-

diz Maria Lucia Boarini (CRP-08/IS-008), Psi-

memora a Psicóloga.

cóloga e professora da Universidade Estadual de

Mas, será que o modelo de atenção psicos-

Maringá (UEM). Apropriando-se da fala do psi-

social que existe hoje no Brasil dá conta de cui-

quiatra Paulo Amarante, um dos mais destaca-

dar com qualidade das pessoas com transtornos

dos defensores da Reforma Psiquiatra no Brasil,

mentais? Nós não queremos manicômios, mas

Maria Lucia diz que a nomeação de Wurch é um

será que estamos amadurecidos o suficiente para

ataque não apenas à Reforma Sanitária e à Re-

saber o que queremos?

forma Psiquiátrica, mas a toda luta por direitos,

Ainda segundo Maria Lucia Boarini, o mo-

democracia, respeito e dignidade dos cidadãos

delo que temos hoje é suficiente para dar con-

neste país. “É algo muito sério, que está agre-

ta da demanda em saúde mental. Nos últimos

dindo a democracia, a liberdade, a participação.

anos, a Política Nacional de Saúde Mental, Ál-

Seguimos com o lema ‘Nenhum passo atrás,

cool e Outras Drogas e as resoluções e portarias

manicômios nunca mais’”.

decorrentes instituíram um modelo de atenção

O lema a que a Psicóloga se refere é a gran-

psicossocial que prioriza o cuidado em liberdade.

de marca do Movimento Antimanicomial hoje.

Sem tirar a pessoa com transtornos mentais ou

Não se pode negar a legitimidade desta causa,

que faz uso abusivo de substâncias psicoativas

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

19


CAPA

CAPA Foto: carlossam.blogspot.com.br

Foto: Prefeitura Municipal de Curitiba www.curitiba.pr.gov.br

de sua comunidade, o tratamento acontece principalmente nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que recebem as pessoas e oferecem tratamentos com equipes multidisciplinares. Os leitos em hospitais psiquiátricos foram bastante reduzidos – segundo o Ministério da Saúde, de 2010 a 2014 houve a redução de 17% do total de hospitais especializados em psiquiatria pelo SUS (eram 215 e, em 2014, o número caiu para 178) –, sendo que o tratamento migrou para os CAPS, Residências Terapêuticas, Unidades de Acolhimento e Consultórios de Rua, além da disponibilidade de leitos em Hospitais Gerais para atendimento à crise. Para Maria Lucia, porém, ainda há muito o que se fazer. “Esta proposta tem que deixar de ser discurso e se transformar em ato, tem que ser implementada e adequada-

do profissional não rompe com o

Psicologia, desconhece-se ou não se dá im-

termos um atendimento de qualidade, precisarí-

mente gerenciada. Aliás, em algumas regiões se-

modelo epistemológico que defende o isola-

portância à participação nos Conselhos de

amos aumentar a estrutura de atendimento com

quer foi implantada ou, salvo melhor juízo, em

mento como terapia e sua prática em nada

Saúde;

ambulatórios, hospitais-dia, mais vagas de de-

alguns municípios entende-se como atenção à

se difere do que se faz no hospital psiqui-

Talvez o maior e mais desafiante “gargalo”,

sintoxicação em hospitais integrais e hospitais

saúde mental o contrato de um Psicólogo que

átrico. Nada se faz em prol da dignidade,

na opinião da Psicóloga, ainda seja a trans-

gerais”, diz Burkiewicz.

deve atender à UBS, APAE, Conselho Tutelar. Até

da reconstrução da autonomia da pessoa

formação sociocultural, a mudança no nosso

O presidente da APPSIQ não quis emitir opi-

aí podemos entender que se caracteriza a inter-

que sofre psiquicamente. A Rede de Aten-

modo de conceber e lidar com o sofrimen-

nião sobre a nomeação de Wurch para a Coorde-

setorialidade. Ledo engano. Tais atendimentos

ção Psicossocial (RAPS) acaba produzindo

to psíquico. Tradicionalmente, a sociedade

nação Nacional de Saúde Mental, Álcool e Ou-

ficam circunscritos ao modelo médico tradicio-

uma caricatura do hospital psiquiátrico. A

acredita que a saúde mental é um problema

tras Drogas. No entanto, seu prognóstico para os

nal e sequer há vestígios de interdisciplinarida-

formação em saúde é, de fato, um grande

dos especialistas. Aliás, no imaginário social,

próximos anos não é bom. “Estamos vendo um

de. Ainda mais estranha à proposta da Reforma

desafio;

não só a saúde mental, mas a saúde em geral

aumento significativo de pacientes sendo afas-

Outro ponto a destacar é a quase ausên-

é um problema cuja solução está em mãos do

tados por doenças psiquiátricas, aumento da po-

CAPS, o hospital psiquiátrico e as comunidades

cia de CAPS 24 horas ou leitos psiquiátri-

especialista. “Por paradoxal que possa pare-

pulação de rua e carcerária com transtornos psi-

terapêuticas”.

quiátricos. Infelizmente, temo pelo pior”.

Psiquiátrica é a parceria “harmônica” entre os

cos em hospitais gerais para acolher a pes-

cer, o mosquito Aedes aegypti prova que não é

A Psicóloga destaca quais seriam os princi-

soa em situação de crise. A crise que ataca a

bem assim. A produção da saúde ou da doen-

Maria Lucia Boarini também acredita que o

pais pontos que levam a problemas na execução

pessoa que sofre psiquicamente desconhece

ça é também e, principalmente, uma produ-

futuro reserva problemas. Mas ela aponta justa-

do modelo, mas alerta que pontuar ‘gargalos’ ou

horários e feriados. Neste caso, em geral, só

ção coletiva, territorial”.

mente a nomeação de Wurch como um dos in-

responsáveis não dá conta da complexidade des-

existe uma porta aberta, a do hospital psi-

te processo. “A linearidade no sentido de causa e

quiátrico. Então, como consolidar a RAPS se

Para o presidente da Associação Paranaense de

temos outros fatos que podem se caracterizar

efeito é má conselheira”. Apesar destas conside-

seus equipamentos funcionam apenas no

Psiquiatria (APPSIQ), André Rotta Burkiewicz, o

como retrocessos em relação aos avanços con-

rações, ela destaca o que pode obstruir a conso-

horário comercial? “Como diz o ex-minis-

problema da saúde mental não está sendo tratado

quistados, como, por exemplo, a disseminação

lidação da rede de atenção psicossocial:

tro da saúde, Arthur Chioro, ‘isto é brincar

da maneira correta. Segundo ele, não há dúvidas

das internações compulsórias dos usuários de

de disputar projeto com o hospital psiquiá-

de que existia a necessidade de melhorar o sis-

drogas e o financiamento das Comunidades Te-

trico’”, diz Boarini;

tema de atendimento em saúde mental, princi-

rapêuticas pelo SUS”, diz. No entanto, ela lembra

A ausência do controle social é um fato que,

palmente os hospitais psiquiátricos com caracte-

que esta não é a primeira vez que a sociedade se

Psiquiátrica e acabam reproduzindo o me-

também, tem um impacto muito grande.

rísticas asilares, porém, a maneira como foi feito

depara com desafios e, com o engajamento cole-

canismo que ele próprio critica. A atuação

Em geral, e em especial a(o) profissional da

teria criado uma situação de desassistência. “Para

tivo, é possível transpor as dificuldades. “Diria o

Alguns profissionais de saúde não têm claro os princípios que orientam a Reforma

20

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

dícios de que teremos retrocessos. “Além disso,

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

21


CAPA

CAPA

velho Marx, no século XIX, que quando o proble-

cuidado com os grupos mais vulneráveis (crianças,

ma se põe, a solução já existe. Então, não é com

adolescentes, jovens, pessoas em situação de rua e

lágrimas ou lamentos que encontraremos a saída

populações indígenas), a prevenção do uso de álco-

necessária. E aqui vale lembrar que os avanços já

ol e outras drogas e também a Redução de Danos

conquistados são, em sua maioria, frutos de lu-

decorrentes deste uso (para saber mais sobre Re-

tas coletivas, envolvendo trabalhadores da saú-

dução de Danos, ver as edições 99 e 102 da revista

de, usuários, familiares, órgãos de classe e muita

Contato), além da reabilitação e reinserção social

determinação”.

das pessoas com transtornos mentais e problemas

Como citou a Psicóloga, a construção de um novo paradigma exige tempo e dedicação por parte daqueles que se propõem a mudar uma situação ruim. “Ainda estamos construindo este

CAMPOS DE ATUAÇÃO

Estratégias de Desinstitucionalização

Programa de Volta para Casa

Estratégias de Reabilitação Psicossocial

Iniciativas de Geração de Trabalho e Renda Empreendimentos Solidários e Cooperativas Sociais

Fonte: Ministério da Saúde

decorrentes do abuso de substâncias psicoativas. Para cumprir os objetivos propostos, existe uma complexa rede de atendimento composta por: COMPONENTE

CAMPOS DE ATUAÇÃO

Nacional de Saúde Mental (2001) e da IV Conferência Nacional de Saúde Mental Intersetorial (2010). Atualmente, é professor adjunto da UFRJ e suas pesquisas são no campo das políticas de saúde mental, álcool e outras drogas e atenção primária à saúde. Contato: Desde a Lei da Reforma Psiquiátrica, em 2001, quais os avanços que tivemos no cuidado em

O olhar da Psiquiatria

saúde mental? Pedro Delgado: Vamos completar 15 anos de vi-

O tratamento em saúde mental é, por natureza,

gência da lei nº 10.216/01 agora em abril [a en-

te muitos outros existirão. Ainda somos con-

Unidade Básica de Saúde

interdisciplinar. Médicos psiquiatras, Psicólo-

trevista foi feita em fevereiro de 2016]. É um bom

tra-hegemônicos. Ainda não conseguimos le-

gas(os) e terapeutas ocupacionais, por exemplo,

tempo para fazer um balanço. O principal avanço

var avante a questão dos hospitais de custódia e

Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF)

são especialistas essenciais no cuidado com as

vai além do campo do cuidado, e diz respeito a

tratamento psiquiátrico [nova denominação dos

Consultórios na Rua

pessoas com transtornos mentais ou sofrimen-

uma nova compreensão do tema do sofrimen-

Apoio aos Serviços do componente Atenção Residencial de Caráter Transitório

tos decorrentes do uso abusivo de álcool e outras

to mental e dos direitos do usuário de serviços.

drogas. Por isso, nesta edição da revista Conta-

Como diretriz ética e filosófica, a lei foi exten-

to, em que fazemos uma retomada das questões

samente acolhida entre profissionais de saúde e

envolvendo a Reforma Psiquiátrica, conversamos

da assistência social, e entre os operadores do

com o médico Psiquiatra Pedro Gabriel Godinho

direito. Não se discute mais, por exemplo, que

Delgado, que foi Coordenador Nacional de Saúde

a internação involuntária deva ser comunicada

Mental, Álcool e Outras Drogas entre agosto de

a uma instância de proteção de direitos, mesmo

2000 a dezembro de 2010.

que isto ainda se faça de modo imperfeito. Não se

projeto e os desafios existem e provavelmen-

manicômios judiciários]. Os hospitais psiqui-

Atenção Básica em Saúde

átricos produziram uma legião de pessoas cronificadas, infantilizadas, destituídas de vínculos

Centros de Convivência e Cultura

de qualquer natureza, sejam eles familiares, de amizade, etc. Ao segregar a pessoa que sofre psi-

esta pessoa a algo que se pode chamar de ‘morte

Centros de Atenção Psicossocial, nas suas diferentes modalidades (CAPS I, II, III, AD, AD III, i).

civil’. Como nos ensinou Franco Basaglia, o ícone

SAMU 192

quicamente do seu cotidiano diversificado, fonte de toda aprendizagem humana, condenamos

Atenção Psicossocial Estratégica

da Reforma Psiquiátrica no Brasil, ‘a liberdade é terapêutica’”.

Atenção de Urgência e Emergência

Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) compreende um conjunto de equipamentos para atendimentos de pessoas com transtornos mentais ou que fazem

Atenção Residencial de Caráter Transitório

em 2011 e vinculada ao Sistema Único de Saúde

promover os vínculos familiares durante o acom-

Serviço Hospitalar de Referência para Atenção às pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas

Estratégias de Desinstitucionalização

Serviços Residenciais Terapêuticos

dos pontos de atenção das redes de saúde no território, prezando pelo acolhimento, acompanhamenequipes multidisciplinares da RAPS é baseada no

Unidade de Acolhimento

Atenção Hospitalar

panhamento e garantir a articulação e integração

to contínuo e atenção às urgências. A atuação das

UPA 24 horas e portas hospitalares de atenção à urgência/pronto socorro, Unidades Básicas de Saúde

Delgado é formado em medicina pela Uni-

defende mais a institucionalização em hospitais

versidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), possui

de longa permanência. Ocorreu uma mudança

mestrado em Psiquiatria pela Universidade Fede-

indiscutível no estatuto jurídico dos pacientes

ral do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutorado em Me-

com transtorno mental, embora este seja ainda

dicina Preventiva pela Universidade de São Paulo

um processo em andamento. Quanto ao cuidado

(USP), além de ser pós-doutor pela London School

em saúde mental, a Reforma Psiquiátrica já vi-

of Hygiene and Tropical Medicine, da Universida-

nha se realizando antes da lei, mas deu um salto

de de Londres. Foi presidente da III Conferência

decisivo, que pode ser expresso em números. Os

Enfermaria especializada em Hospital Geral

(SUS), a RAPS tem como objetivos ampliar o acesso à atenção psicossocial da população em geral,

Sala de Estabilização

Serviço de Atenção em Regime Residencial

uso abusivo de substâncias psicoativas. Instituída

22

COMPONENTE

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

23


CAPA

CAPA

CAPS passaram de 200 para mais de 2.000; Re-

rede frágil, mesmo se tiver leitos para interna-

sidências Terapêuticas, que quase não existiam,

ção, não dará conta das situações de crise.

são mais de 600; a atenção básica incorporou a

muito negativos, porque paralisa o processo da Reforma, gera uma inconformidade quase unâ-

Pedro Delgado: Existe um conflito de concepções

nime entre os milhares de profissionais do cam-

saúde mental em seu elenco de atendimentos; os

Contato: O que precisaria ser feito, na sua opinião,

entre os que defendem a Reforma Psiquiátrica,

po, usuários e familiares e produz um desgaste

leitos psiquiátricos se reduziram de 60.000 para

para melhorar o tratamento que hoje é ofertado em

isto é, o atendimento no SUS, de base territorial,

desnecessário diante dos enormes desafios atu-

26.000; os profissionais de saúde mental incor-

saúde mental, álcool e outras drogas? Qual seria o

buscando promover a cidadania dos usuários, e

ais que a saúde pública tem que enfrentar, neste

porados na rede SUS já são mais de 30 mil. São

modelo adequado de tratamento, tanto para trans-

um atendimento mais baseado no modelo dos

contexto de recrudescimento de epidemias, des-

dados muito expressivos de um avanço real da

tornos quanto para quem faz uso abusivo de drogas?

ambulatórios de especialidades, sem base terri-

financiamento do SUS e grave crise política, com

torial, sem tomar como desafio central o cotidia-

ameaças à própria democracia. Ainda acredito

cobertura em saúde mental. Pedro Delgado: A resposta brasileira para o de-

no e a autonomia dos usuários, e muito marcado

que o Ministro saberá construir uma saída para

Contato: Quais são os gargalos na Rede de Aten-

safio do acesso ao tratamento em saúde mental

pelo reducionismo das terapêuticas biomédicas.

esta crise, que só serve aos adversários da Refor-

ção Psicossocial hoje? O atendimento às crises, por

me parece no essencial correta e ousada, tan-

Esta divergência já existia antes da lei de 2001, e

ma Psiquiátrica.

exemplo, é feito de maneira adequada? Você consi-

to que vem obtendo grande reconhecimento in-

me parece muito mais uma oposição entre práti-

dera que a estrutura que existe hoje dá conta de to-

ternacional. O “modelo” é muito bom: rede de

cas universalistas de saúde pública e práticas pri-

Contato: O que se pode esperar dos próximos anos na

dos os casos?

base territorial, com articulações intersetoriais,

vadas ou estritamente universitárias. Para mim,

atual conjuntura?

praticando uma clínica que busca a autonomia

o mais importante são as oposições e divergên-

Pedro Delgado: A estrutura que existe hoje não

possível dos usuários, compartilhando o conhe-

cias que se dão dentro do nosso campo, entre

Pedro Delgado: A questão central é superar a crise

dá conta de todos os casos. Em nenhum país do

cimento e o cuidado com os familiares e a so-

aqueles que fazem a Reforma Psiquiátrica. Penso

política, que afeta a estabilidade das instituições

mundo a cobertura assistencial é integralmente

ciedade. A base estrutural é a atenção primária,

que estamos conseguindo ampliar a participação

democráticas. Retomar o rumo do SUS, que vem

satisfatória. Mas no Brasil temos lacunas muito

especialmente a Saúde da Família, e o dispositi-

mais ativa dos profissionais de psiquiatria neste

apresentando dificuldades estruturais, especial-

importantes, a serem com urgência enfrentadas.

vo estratégico é o CAPS, em suas diversas con-

debate. Já existe um grupo de “Psiquiatras a fa-

mente de financiamento e de modelos de gestão.

Primeiro, a atenção básica ainda funciona abaixo

figurações. Eu não mudaria o desenho, apenas

vor da Reforma Psiquiátrica” com mais de 400

Reconstruir os dispositivos de gestão descentra-

das suas potencialidades para a atenção em saú-

o aprofundaria radicalmente, corrigindo distor-

participantes, o que me parece estimulante. Des-

lizada da saúde mental, fortalecendo os colegia-

de mental. Segundo, os CAPS estão passando por

ções e lacunas, para responder aos novos desa-

ta forma, divergências que existem entre nós,

dos de coordenação e os movimentos de usuários

sérios problemas de gestão, com precarização

fios. Por exemplo: como atender as pessoas que

como, por exemplo, saber qual o papel do tra-

e familiares, para sustentar o avanço da Reforma

do trabalho e baixo investimento, tendo assim

sofrem com os transtornos mentais comuns, tais

tamento medicamentoso como parte da atenção

em tempos difíceis.

muito reduzida sua enorme capacidade de fun-

como as diversas formas de ansiedade, depressão

psicossocial, poderão ser debatidas em benefício

cionar como referência em saúde mental, para

e sintomas corporais, que afetam a todos nós em

da ampliação e aprofundamento dos diversos sa-

Contato: Depois de 15 anos de Reforma Psiquiátrica,

cada território. Terceiro, a estratégia de atenção

algum momento da vida? Isto exigiria uma am-

beres que compõem o campo psicossocial.

você acha que hoje o movimento está amadurecido

integral em álcool e outras drogas está sem di-

pliação da capacidade de acolhimento dos servi-

reção, confusa, premida pelas pressões institu-

ços, a implantação de inovações nas práticas e o

Contato: Você é psiquiatra e já foi Coordenador Na-

cionais e da mídia, e não pelas legítimas urgên-

aperfeiçoamento da formação técnica dos profis-

cional de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas.

cias da complexa tarefa que tem que enfrentar.

sionais. Outro desafio é melhorar a continuidade

Como vê a entrada de Valencius Wurch no cargo?

Quarto, a integração intersetorial é tímida, e, às

do acompanhamento de usuários com transtor-

vezes, inadequada. Os desafios da saúde mental

nos mais graves. No caso de álcool e outras dro-

Pedro Delgado: Tive a oportunidade de respon-

tável amadurecimento. São várias gerações que

são também oriundos da crise social, da vulne-

gas, a tarefa é bem maior, porque a rede existen-

der a esta pergunta em audiência com o Ministro

se engajaram na bandeira da “Sociedade sem

rabilidade, e as várias políticas estão pouco arti-

te é muito pequena e há uma visível confusão de

da Saúde e várias entidades, dia 5 de fevereiro.

Manicômios”, constituindo uma força social e

culadas, devido à baixa ressonância da convoca-

estratégias clínicas, além da tentação totalitária

Não tenho críticas específicas ao Valencius Wur-

política admirável. A conjuntura é difícil, ins-

ção que a saúde mental deveria fazer às políticas

representada pelas comunidades terapêuticas.

ch. Mas sua escolha para esta função foi, a meu

tável, imprevisível, exigindo a construção com-

ver, um erro de avaliação do Ministro, talvez

partilhada de estratégias bem pensadas, serenas,

sociais e à sociedade. Quanto às crises, as lacu-

24

x Hospitais”? Como você vê esta questão?

em relação ao que quer conquistar e ruma para um ponto certo? Pedro Delgado: São 15 anos da lei, e já 36 anos do movimento da Reforma Psiquiátrica. Há um no-

nas existentes devem-se à fragilidade da rede de

Contato: Ainda existe um embate de ideias entre a

por desconhecimento da complexidade do cam-

mas firmes. Claro que, no momento, o risco para

saúde mental em vários lugares, e pouca clareza

Psicologia e a Psiquiatria no sentido do que defen-

po da saúde mental no Brasil. Esta nomeação,

a Reforma Psiquiátrica é enorme. Mas temos

sobre a gestão destas situações mais agudas. A

dem para a saúde mental? Existe a dicotomia “CAPS

desde o primeiro momento, produz resultados

força coletiva para seguir no rumo certo.

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

25


HOMENAGEM

HOMENAGEM

Marcus Vinicius de Oliveira Silva uma homenagem à vida de luta pela Psicologia e pelos Direitos Humanos Ellen Nemitz

No início de fevereiro, o Psicólogo Marcus Vinicius de

em 1982. Fez alguns cursos de aperfeiçoamento e,

Oliveira Silva, conhecido como Marcus Matraga, foi

em 1996, concluiu o mestrado em Saúde Coletiva pela

assassinado no município de Salinas das Margaridas,

Universidade Federal da Bahia (UFBA), com a disser-

no Recôncavo Baiano. Até o fechamento desta edição,

tação “A Emergência da Cultura Psicológica na Bahia:

a hipótese mais provável apontada pela polícia local é

do pré-psiquiátrico ao pós-psicanalítico”. Em 1999,

de que Marcus Matraga teria sido vítima do crime por

iniciou seus estudos no doutorado em Saúde Coletiva

atuar com questões de conflito de terra na região. O

da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR)

Dedicou quatro anos à redação da tese “A invenção da

recebeu a notícia da trágica morte de Matraga com

profissão de psicólogo no Brasil: ideologia profissio-

profundo pesar. Ele era, além de excelente profissio-

nal e modernidade”. Recentemente, em 2011, Matraga

nal, um ativista pelas questões da saúde mental e dos

aprofundou ainda mais seus já vastos conhecimentos

direitos de todas as classes menos favorecidas.

no campo da Psicologia com um pós-doutorado con-

Com a intenção de prestar uma singela homenagem póstuma, mostramos neste texto mais sobre suas ações

cluído no Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

e seu legado. A intenção é, além de registrar o pesar

Ao mesmo tempo em que se dedicava ao aperfeiço-

pelo falecimento do Psicólogo e homenageá-lo, res-

amento acadêmico, Matraga atuou em diversos órgãos

gatar as causas pelas quais Matraga lutou durante sua

e teve importantes cargos ao longo de sua carreira.

vida, mantendo viva sua luta pelos Direitos Humanos.

Uma de suas principais atuações foi como professor universitário. Iniciou sua carreira como professor

Quem foi Marcus Matraga?

substituto na UFBA em 1991 e foi efetivado como pro-

Marcus Vinicius de Oliveira Silva, o Marcus Matra-

fessor auxiliar por concurso público no ano seguinte.

ga, nasceu em Minas Gerais e se graduou em Psico-

Em 2003, chegou ao cargo de professor adjunto.

logia pela Fundação Mineira de Educação e Cultura

26

Mas não foi apenas nas salas de aula que Matraga

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

deixou sua contribuição. No Ministério da Saúde, foi

A luta pelos Direitos Humanos

membro efetivo da Comissão de Acompanhamento do

O principal legado de Marcus Matraga foi, sem dúvida,

processo de Reestruturação da Assistência Psiquiátri-

a luta pelos avanços na saúde mental. A esta causa ele

ca Hospitalar de 2004 a 2006. Ainda na área da saú-

dedicou toda a sua vida. No livro “Loucura, ética e po-

de mental, teve uma participação no Conselho Nacio-

der”, organizado pelo CFP em 2003 a partir de diversos

nal de Saúde como membro da Comissão Nacional de

textos, Marcus dá a sua contribuição com o artigo “O

Saúde Mental (1999 a 2001) – na ocasião, ele era re-

movimento da Luta Antimanicomial e o movimento

presentante do Fórum Nacional de Trabalhadores de

dos usuários e familiares”. Uma nota de rodapé sobre

Saúde. Matraga foi também integrante da Comissão

o autor revela que Marcus Vinicius integrou a Comis-

Nacional de Reforma Psiquiátrica entre 1994 e 1997.

são Organizadora do II Congresso Nacional de Tra-

Colaborava, desde 1991, com o Núcleo de Estudos pela

balhadores de Saúde Mental, realizado em Bauru/SP

Superação dos Manicômios (NESM) e era membro do

em 1987 e a Coordenação Executiva Nacional do Mo-

Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas de Minas

vimento da Luta Antimanicomial de 1987 a 1989; foi

Gerais desde 2012. Neste período também se dedicou

um dos articuladores da Reunião de Rearticulação/Re-

a um projeto de pesquisa da Fundação para o Desen-

organização do Movimento Antimanicomial em 1990

volvimento Científico e Tecnológico em Saúde (FIOTEC)

na cidade de Salvador/BA e coordenador do I Encontro

sobre a implantação da RAPS (Rede de Atenção Psi-

Nacional da Luta Antimanicomial em 1993 também na

cossocial), projeto ligado à Coordenação Nacional de

capital baiana; foi o primeiro representante do Movi-

Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério

mento Antimanicomial na Comissão Nacional de Re-

da Saúde.

forma Psiquiátrica do Conselho Nacional de Saúde, em

Além de toda esta atuação intensiva em diversos

1994-1995; participou dos II, IV e V Encontros Nacio-

órgãos relacionados à saúde mental, participou ativa-

nais de Entidades de Usuários e Familiares e dos cinco

mente da consolidação da Psicologia no Brasil e teve

Encontros Nacionais do Movimento da Luta Antima-

diversos cargos de diretoria no Conselho Federal de

nicomial. Este pequeno resumo nos mostra que Mar-

Psicologia (CFP) nas gestões de 1988 – 1989, 1992 –

cus Vinicius foi, de fato, um dos encabeçadores de to-

1995, 1997 – 1998, 1998-2001 e 2004 – 2007 (chegou

dos os avanços que a política nacional de saúde mental

a ser presidente em alguns períodos). Também esteve

teve nos últimos anos, tendo participado dos primór-

em gestões dos Conselhos Regionais de Psicologia de

dios do que viria a ser a Reforma Psiquiátrica.

Minas Gerais e Bahia (CRP-MG e CRP-BA) e integrou

Segundo a Psicóloga Ana Bock, que era bastan-

a direção da Comissão Nacional de Direitos Humanos

te próxima de Marcus Vinicius, ele “foi liderança im-

do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-

portante, ousada e ativa que, em nenhum momen-

-SP), além de ter sido coordenador do Centro de Re-

to, deixou de estar nela, preocupar-se com ela, agir,

ferências Técnicas em Psicologia e Políticas Públicas

construir propostas e aprimorar o projeto. Teve papel

(CREPOP) entre os anos de 2004 e 2007.

decisivo na aprovação da lei que extinguiu os mani-

Nos últimos anos, já como professor associado

cômios no país, atuou na coordenadoria nacional de

aposentado do Instituto de Psicologia da UFBA, era

saúde mental, realizou eventos ousados como o julga-

coordenador do LEV (Laboratório de Estudos Vincu-

mento simbólico dos hospitais psiquiátricos”.

lares e Saúde Mental IPSI-UFBA), diretor do Insti-

Na área de Direitos Humanos, o Psicólogo contri-

tuto Silvia Lane – Psicologia e Compromisso Social

buiu também com a organização de caravanas de vis-

e consultor eventual da área técnica de Saúde Men-

toria em instituições como os hospitais psiquiátricos,

tal do Ministério da Saúde. Além disso, dedicava-se

de atendimentos a idosos, de aplicação de medidas so-

a defender uma comunidade indígena que enfrentava

cioeducativas de privação de liberdade e muitas ma-

conflitos de terra com fazendeiros na Bahia.

nifestações em embaixadas e praças para alardear

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

27


HOMENAGEM

ENTREVISTA

alguma condição de desrespeito aos direitos. Marcus

colegas que o viram trabalhar em prol de tantos avan-

defendeu com veemência a inserção da Psicologia nas

ços. O coletivo Cuidar da Profissão, a Universidade Fe-

políticas públicas e buscou criar as condições para isto.

deral da Bahia, o CFP, a Escola Nacional de Saúde Pú-

Os seminários de Psicologia e Direitos Humanos, as

blica Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) – nas palavras de

várias mesas montadas em congressos que fortalece-

Paulo Amarante, um dos principais militantes pela

ram esta relação, o Banco Social de Serviços e o CRE-

saúde mental –, entre outros, divulgaram notas de pe-

POP são alguns exemplos desta atuação. “A ideia era

sar pela brutal e inesperada perda.

ampliar as fronteiras da profissão e da categoria in-

O CRP-PR também se manifestou, no dia 05 de fe-

cluindo muitos fazeres e saberes que, desenvolvendo-

vereiro, com uma nota divulgada no site, reproduzida

-se em vários locais de trabalho, não tinham o reco-

aqui como fechamento desta homenagem.

nhecimento como praticas da profissão. A “Mostra de Práticas em Psicologia: Psicologia e Compromissos So-

“É com muito pesar que recebemos a notícia do fa-

cial” foi a ação mais forte neste campo. A defesa dos

lecimento de Marcus Vinicius de Oliveira Silva, o Mar-

coletivos foi aspecto crucial do

cus Matraga. Psicólogo, militante

método desenvolvido”, conta

“Marcus foi imprescindível,

dos Direitos Humanos, conhecido

Ana Bock. Outro exemplo ci-

mas soube fazer isto a

de muitos. Uma figura ímpar na

tado por Ana é o movimento “Cuidar da Profissão”, cuja

partir da construção de

criação, em 1996, foi inicia-

coletivos, envolvendo muita

tiva de Marcus Vinicius, com

gente que pôde aderir e

o objetivo de desenvolver um

desenvolver com ele o projeto

projeto de intervenção na profissão que pudesse mudar seu

do Compromisso Social da

Psicologia Brasileira atual, exemplo e referência de uma profissão que atua em prol de justiça social. O Conselheiro do CRP-PR Luiz Antônio Mariotto Neto se lembra de quando o conheceu, em Dourados, durante um encontro em

rumo e constituir, no Brasil,

Psicologia. Marcus fará

uma Psicologia que estivesse

muita falta aos amigos e à

dígenas. “Ele foi uma das pesso-

voltada para as necessidades

Psicologia brasileira. Deixa

as que marcou este encontro, com

e urgências da maioria da população brasileira. “Com este

muitas saudades.”

projeto em mãos e com mui-

2013 sobre Psicologia e Povos In-

uma fala contundente, direta e irreverente”. Marcus era uma pessoa que

tos companheirinhos ao seu lado, pudemos colocar em

não se envergonhava de apontar o contrassenso de

prática o projeto que ficou conhecido como ‘Compro-

seus pares e de si mesmo. Hoje se fez prova de que o

misso Social’”, lembra Ana. “Em tudo isto Marcus foi

Brasil é um país perigoso para os que defendem a equi-

imprescindível, mas soube fazer isto a partir da cons-

dade e a dignidade de todos. Um assassinato covar-

trução de coletivos, envolvendo muita gente que pôde

de, de quem está disposto a pagar qualquer preço para

aderir e desenvolver com ele o projeto do Compromisso

manter-se no poder. Felizmente também há pessoas,

Social da Psicologia. Marcus fará muita falta aos ami-

como o Marcus, que dedicam suas vidas até as últimas

gos e à Psicologia brasileira. Deixa muitas saudades”.

consequências para que todos possam conquistar alguma dignidade.

A Psicologia perde um grande nome

Nossos sentimentos e solidariedade aos familiares

Com tantas contribuições para a Psicologia e para a

e colegas, tanto de profissão como de luta. Que a se-

área de Direitos Humanos, Marcus Vinicius conquistou

mente deixada por ele possa germinar em um futuro

amigos e admiradores por onde passou. Prova disso é

melhor, mais solidário e menos covarde. Em luto, con-

a emoção e tristeza que tomaram conta de entidades e

tinuamos em luta!”.

28

A PSICOLOGIA E O EMPREENDEDORISMO Como ter sucesso abrindo o seu próprio negócio Quando o estudante de Psicologia se forma e vai para o mercado de trabalho, muitas vezes enfrenta algumas dificuldades e fica com dúvidas sobre qual caminho seguir. Abrir um consultório ou uma empresa, buscar uma colocação em organizações, prestar concurso público ou até mesmo voltar a encarar os estudos em uma pós-graduação. São muitas as opções, todas elas carregadas de questionamentos e inseguranças. Para auxiliar neste momento importante de definição da carreira, conversamos com o contador e Psicólogo Cleverson Gonçalves (CRP-08/11037). Cleverson possui um escritório de contabilidade há 15 anos atua também com coaching de negócios, coaching financeiro e self coaching.

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

29


ENTREVISTA

ENTREVISTA

go formal, mas depois torna-se algo tão prazeroso e

cher esta lacuna da omissão, dá à sociedade a possibili-

desafiador, que para ambos tais comportamentos im-

dade conhecer seus serviços. Percebo que as áreas mais

pregnam definitivamente em suas vidas.

comuns de atuação dos Psicólogos tornam-se as voltadas para as empresas, o chamado Recursos Humanos.

Contato: O empreendedorismo é um caminho para to-

Já as menos exploradas são as de manutenção da quali-

das(os) ou existem pessoas que não “servem” para em-

dade de vida, envelhecimento, comunitária e educação.

preender? Que características a(o) profissional precisa ter para procurar o empreendedorismo? Estas características

Contato: O que é preciso saber para montar o próprio con-

são inatas ou podem ser desenvolvidas?

sultório ou empresa?

Cleverson: Absolutamente todos podem empreender,

Cleverson: Inicialmente é planejar, colocar no papel sua

é uma habilidade a ser desenvolvida. Observo muitos

ideia de empresa, desenvolver um minucioso plano de

que chegam no meu escritório reclamando e achan-

negócios. Neste planejamento deverão ser respondidas

do que não sabem empreender, mas logo saem dando

as seguintes questões: nicho a ser atuado, o que será de

passos significativos para isso. Digo que o pensamen-

fato agregado ao seu cliente ou paciente, quem é este

divulgar seus serviços e criar um planejamen-

to de não ser um empreendedor são crenças limitan-

cliente ou paciente, onde ele está, como será atendi-

to estratégico e financeiro, e isto é empreender.

tes, padrões de pensamentos equivocados, matrizes de

do e abordado e como será a remuneração dos servi-

Empreender é encontrar meios e estratégias para

fracassos, etc. Para ser empreendedor há a necessi-

ços. Tendo em vista a quantidade de profissionais de

fazer a diferença no mercado, definir nicho, levar

dade de ter iniciativa, buscar oportunidades, ter um

Psicologia no mercado, é fundamental que o Psicólogo

ao maior número de pessoas seus serviços e poder

senso excelente para correr riscos calculados, exigên-

encontre o seu diferencial, o seu nicho de atuação, dei-

contribuir de forma ampla com a sociedade, sem-

cia com a qualidade e ética, persistência, comprome-

xando claro ao seu cliente o que realmente irá agregar.

pre pautado na ética. Percebo nitidamente que os

timento, resiliência, estabelecer metas, planejar e mo-

Psicólogos estão perdendo gradativamente o pen-

nitorar. Portanto, são habilidade plenamente possíveis

Contato: Qual o primeiro passo para a(o) profissional que

Contato: Com a crise que o país vive, mais Psicólo-

samento de que divulgar seus serviços é um ato

de serem aprendidas. Além desses atributos, é neces-

deseja montar o próprio negócio?

gas(os) estão procurando o caminho do empreen-

amoral ou desleal, pois depende muito da forma

sário que o empreendedor tenha confiança e acredite

dedorismo? Você tem algum dado em relação a isso?

como você empreende e se coloca no mercado.

naquilo que está vendendo, goste de se relacionar com

Cleverson: Indubitavelmente o plano de negócios. Após

pessoas, dome seus medos e acima de tudo queira be-

definir o plano, buscar um contador de confiança para

Cleverson: O empreendedorismo tornou-se uma

Contato: Em geral, você percebe que as pessoas em-

neficiar o outro de forma sustentável, pois ser malan-

analisar a questão burocrática de abertura da empresa,

ciência fundamental para gerir e aprimorar os

preendem porque gostam e têm vocação ou porque

dro não é empreender.

fazer o planejamento tributário e definir outros itens

empresários, inclui-se aí, com certeza, os Psi-

não conseguiram um emprego formal?

cólogos. Universidades do mundo inteiro estão

30

concernentes ao administrativo. Contato: Empreender é um termo bastante geral. Quais os

disponibilizando cursos ou matérias que tra-

Cleverson: Inicialmente eu percebo que há uma

principais caminhos abertos à(o) Psicóloga(o)? Quais são

Contato: Em caso de sites e blogs, como deve ser feito o

tam deste assunto. Hoje, sem um mínimo de

necessidade, seja ela abrir ou ampliar seu negó-

os mais comuns e quais ainda não são muito explorados,

processo de marketing e divulgação de imagem?

noção das ferramentas do empreendedorismo,

cio, obter mais clientes, fazer seu portfólio che-

mas têm potencial?

qualquer negócio está fadado a falir. E, em mo-

gar a um número maior de pessoas, etc. A par-

mentos de crise e de uma globalização frenética,

tir desta necessidade há uma motivação para a

Cleverson: Acredito que o caminho para o Psicólogo em-

ção da imagem, seja através de site, blogs, redes sociais

através da internet e das mídias sociais, mostrar

busca de oportunidade e inserção no mercado.

preender é extremamente amplo, pois ainda existe o

ou demais veículos de comunicação, cada um com suas

de forma enfática qual é o seu produto ou ser-

E, neste processo, os empreendedores percebem

ranço de que Psicologia é tão somente para pessoas com

particularidades. Porém, independentemente do meio de

viço torna-se um tremendo diferencial. O Psi-

o quanto é gratificante e enriquecedor empreen-

transtornos mentais. Vemos uma sociedade com inú-

comunicação, a divulgação deve estar atrelada à missão,

cólogo também é um empreendedor e por isso

der, gerar riqueza, gerar empregos, trazer satis-

meros desafios psicológicos, tais como: ansiedade, me-

visão e valores do negócio, pautado na ética e na moral.

acabam por ser influenciados por esta onda. No

fação para mais pessoas, etc. Portanto, acredito

dos, depressão, neuroses, etc., e que muitas vezes não

Conforme mencionei acima, malandragem e venda en-

meu escritório atendo diversos profissionais da

que no início há os dois casos, os que tem vo-

sabem a quem recorrer ou a quem pedir socorro. Com o

ganosa não é empreendedorismo. Empreendimento está

área da saúde, os quais buscam alternativas para

cação e aqueles que não conseguem um empre-

processo de empreender, o Psicólogo acaba por preen-

fortemente atrelado à ética e sustentabilidade.

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

Cleverson: Existem diversas possibilidades de divulga-

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

31


ENTREVISTA

ARTIGO

Contato: De que forma é feita a administração e contabili-

de declarar determinados rendimentos poderá trazer

dade de um negócio?

aborrecimentos, multas e juros.

Cleverson: Há três frentes de trabalho, as quais devem

Contato: Que dicas você daria para a(o) Psicóloga(o) que

ser analisadas caso a caso e com muito cuidado. Se o

está começando agora obter sucesso?

profissional é liberal autônomo, deverá fazer um livrocaixa contendo todas as receitas e saídas provenientes

Cleverson: Ser um empreendedor hoje no Brasil é algo

do consultório, atentando-se para os dados dos clien-

para poucos, pois a burocracia, a carga tributária e a

tes, tais como: nome completo, CPF, endereço, data do

crise financeira, econômica, estrutural, moral e a ne-

recebimento; estes dados serão fundamentais para o

cessidade de todos os atributos que um empreende-

preenchimento da declaração de carnê-leão da Receita

dor precisa ter torna todo o processo muito desafiante.

Federal. Se houver uma empresa devidamente cons-

Caso você esteja em início de carreira e obtendo su-

tituída, com CNPJ, deverá atentar-se para a correta

cesso é sinal que já é um vencedor, por isso eu daria

emissão das notas fiscais, realização do livro-caixa e

a dica de persistir, aprimorar-se sempre, planejar e

juntada mensal de todos os documentos concernentes

nunca deixar de lado o comprometimento e a ética.

à empresa, para posterior envio para a contabilidade. A administração do negócio é de fundamental importância. Dedicar um tempinho para fazer o livro-caixa,

Acolhimento de idosos com transtornos mentais em Instituições de Longa Permanência: UMA DISCUSSÃO NECESSÁRIA

separar gastos da empresa dos gastos pessoais, efetuar os pagamentos, controlar os recebimentos, emitir

Carlos Ferraz Alves (Psicólogo CRP-08/03164)

recibos e notas fiscais é fundamental! Extremamente

O profissional escreveu a convite da revista Contato.

necessário! Depois do senso de empreendedor, a questão administrativa e financeira se torna o outro grande pilar de um negócio. Para isso, é fundamental buscar a assessoria de um contador de sua confiança. Contato: Como fazer o planejamento financeiro para que nada fuja do controle? Cleverson: Dedicar um tempo para análise cuidadosa das finanças, nunca procrastinar, pois o bônus do sucesso do negócio compensa (e muito) todo o ônus do tempo gasto com controles e monitoramento. Sempre se cercar de planilhas e controles eficientes. Caso não tenha tempo ou paciência de fato, busque delegar as finanças e administração para alguém eficiente nisto e de confiança, mas sempre tente gerenciar cuidadosamente, de perto. Não esquecer da máxima de separar os gastos pessoais do seu negócio. Procure sempre

por exemplo, é habilitada para cuidar das ne-

de transtornos mentais em Instituições de Lon-

cessidades comuns. Enfrentando turnos exaus-

ga Permanência (ILPIs) é uma tarefa complexa.

tivos, os profissionais enfrentam dificuldades

O tema é multifacetado e exige amplo conheci-

quando se deparam com situações de pacientes

mento em várias disciplinas.

com transtornos.

Tanto o Estatuto do Idoso como o Ministério

Somado a esta questão, entende-se que os

da Saúde deixam claro e de maneira inequívoca

demais funcionários da ILPI (como cozinheiros,

que idosos com transtornos mentais não podem

zeladores e auxiliares de limpeza, por exemplo)

ser acolhidos em ILPIs. Esta normatização tem

não têm obrigação de saber lidar com os idosos,

um motivo: idosos têm suas peculiaridades, pró-

ainda menos quando estes apresentam transtor-

prias da idade, e também personalidades distin-

nos mentais. Isso tudo os deixa sujeitos a atitu-

tas. Além disso, não raro apresentam comporta-

des e intervenções intempestivas que não acon-

mentos difíceis de serem entendidos e acolhidos

tecem por maldade, mas por desconhecimento,

com respeito e intervenções adequadas. Quando

preconceito ou mesmo medos.

o idoso é acometido por transtornos mentais, o

gastar menos do que ganha. Pense na sua aposentadoria. Outro item fundamental é ter consciência de que hoje a Receita Federal do Brasil possui inúmeros meios de saber quanto um profissional ganha e que deixar

32

Falar sobre o acolhimento de idosos portadores

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 4

problema é ainda maior. Há muito preconceito

Melhores tratamentos

e despreparo entre os profissionais da saúde, o

A evolução do tratamento de transtornos men-

que só aumenta as agruras das referidas insti-

tais gerou um grande ganho humanitário, pois

tuições e profissionais atuantes. A enfermagem,

separou criminosos de doentes mentais e depois

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

33


EDITAL

ARTIGO

os tirou dos “depósitos” de pessoas que eram

do desconhecimento) e, o mais difícil, interfe-

os manicômios. Hoje, os recursos medicamen-

rir na personalidade. Esta não é uma tarefa fácil

tosos são mais eficazes, possibilitando maior

nem mesmo nos consultórios, ainda menos com

estabilidade de comportamento. Infelizmente,

intervenções extemporâneas. Os que procuram

apesar de anúncios de “curas”, o que vemos na

mudar muitas vezes sucumbem; os “forçados”

prática é diferente. A intervenção médica deve

tendem a não mudar o comportamento.

Qual é o papel do sindicalismo na construção de um mundo mais justo e fraterno?

ser cautelosa, pois os pacientes idosos exigem doses mais ajustadas e, muitas vezes, as doses

O que fazer, então, para garantir os direitos es-

que ajudariam a conter um comportamento se-

tatutários dos idosos acolhidos em ILPIs e garan-

vero não são possíveis de serem administradas

tir também os direitos dos idosos com transtornos,

devido à idade, outras doenças, combinação de

ainda mais indefesos?

remédios e mesmo intolerâncias por diversos motivos. Os remédios, mesmo os de ponta, não

Encaminhar idosos com transtornos para

curam e nem sempre conseguem atenuar alguns

ILPIs é uma temeridade, pois abrimos o prece-

comportamentos.

dente para outras transgressões. Como cobrar-

Tratamentos adicionais como homeopatia,

mos o cumprimento de outras regras, se trans-

acupuntura, florais, musicoterapia, ginásticas,

gredimos esta? É pública e notória a ausência

diversões e passeios são instrumentos que me-

do Estado (quer em nível municipal, estadual e

lhoram a qualidade de vida dos idosos. Além

federal). As ILPIs particulares, que atendem um

disso, a intervenção da(o) Psicóloga(o) é sem-

público muito diferenciado, não deveriam exis-

pre necessária, pois remédios apenas não curam

tir. Apenas as entidades públicas deveriam ser

pessoas com transtornos, nem mesmos os cha-

mantidas – o mesmo vale para escolas e hospi-

mados neuróticos. Ou seja, a melhora depende

tais. A realidade, no entanto, é muito distinta,

de um processo de psicoterapia que tem de ser

sendo que há muitas instituições clandestinas e

aceito pela pessoa.

inadequadas ao cuidado com o idoso. Então, todo o cuidado é pouco quando

Convivência

apoiamos o envio de idosos com transtornos

Outro problema enfrentado no dia a dia das IL-

para onde não há recomendação legal, pois, de

PIs é a convivência entre os idosos. Aqueles

uma forma ou de outra, somos coniventes com

que apresentam transtornos dificultam mui-

a transgressão. Ao fazermos isso, “empurramos

to a convivência dos que estão lá por razões do

a sujeira para debaixo do tapete”, fazendo vis-

envelhecimento. Estes últimos têm medo, pre-

tas grossas à ausência do Estado e perpetuando

conceito, irritam-se com eles devidos aos seus

uma realidade perversa.

comportamentos bizarros, invasivos ou agressivos e, muitas vezes, instáveis.

34

Se o estatuto continuar sendo desrespeitado e o envio humanitário continuar sendo aceito

Estes mesmos comportamentos, com fre-

por diversos motivos, em breve as ILPIs “nor-

quência, fazem com que os profissionais sejam

mais” passarão a serem ILPIs de idosos com

afetados em seus julgamentos e intervenções

diversos transtornos. Como não existem ILPIs

– ainda que, por formação, isso não pudesse

exclusivas para acolher idosos com transtor-

acontecer. A reciclagem não resolve o problema.

nos, todos dormiremos com as nossas consci-

É preciso fazer algo mais profundo, que consiga

ências tranquilas. Tudo caminha na mais abso-

tocar em preconceitos (que geralmente advêm

luta normalidade.

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

Jornada de oito horas diárias, descanso semanal remunerado, férias de 30 dias com adicional de um terço do salário, licença-maternidade de 120 dias, seguro desemprego, 13º salário, depósito do FGTS…Pode até parecer que os direitos acima citados foram aprovados espontaneamente para beneficiar os trabalhadores e as trabalhadoras do Brasil. O processo que os regulamentou, no entanto, é diretamente marcado pela atuação do sindicalismo brasileiro. A presença dos sindicatos foi peça-chave na luta por direitos trabalhistas, políticos e sociais. Conhecer a história e as conquistas do sindicalismo é, também, se fortalecer para desenhar um futuro melhor para o país. O sindicato é a entidade que defende os interesses de determinada categoria profissional ou econômica. O termo vem da palavra francesa syndic, que significa “representante de uma determinada comunidade”. A aglutinação das/dos trabalhadoras/es em organizações sindicais começou com o desenvolvimento do capitalismo e da Revolução Industrial na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX. O principal objetivo era promover a solidariedade entre a classe trabalhadora extremamente pauperizada e enfrentar as degradantes condições de trabalho e de vida de homens, mulheres e crianças trabalhadoras. Os sindicatos brasileiros, por sua vez, surgiram após a abolição da escravidão em 1888 e da Proclamação da República em 1889, tendo sua criação permitida a partir de Decreto Legislativo assinado em 1907. Desde então, eles têm atuado diretamente nas dimensões econômicas, políticas, jurídicas e sociais que interfiram na vida de quem trabalha. O Brasil é e sempre foi um país de extrema desigualdade social. A organização da sociedade civil e dos trabalhadores continua sendo a principal engrenagem na luta por distribuição de renda. No período pós-64, os sindicatos mostraram ainda mais sua força. Não por acaso, os governos da ditadura militar, período mais sombrio da história recente do país, silenciou as entidades e assassinou dirigentes sindicais. A redemocratização do país, a aprovação da Lei da Anistia, as eleições diretas, a Constituinte e a Constituição de 1988 também foram conquistas do movimento sindical, que também tem como prerrogativa a luta pela aprovação de políticas públicas para além da pauta trabalhista. Nenhuma garantia se tornou realidade sem a ação dos sindicatos e, por isso, eles incomodam. Todos e todas que trabalham sentem na pele as consequências de uma jornada intensa, de uma estrutura distante da ideal, do ambiente de trabalho marcado por assédio moral. O sindicato incomoda justamente porque questiona a estrutura desigual do

CO N TATO E D I Ç ÃO 1 0 5

mercado de trabalho. Apesar de campanhas de difamação e estigmatização, não se pode negar: é por meio da organização da sociedade e dos sindicatos que se conquistam direitos econômicos, políticos e sociais. Crise econômica e retirada de direitos: qual é o papel do sindicato? A crise econômica recai sobre a população trabalhadora e cobra seu preço: mais retirada de direitos, novos ataques aos direitos humanos, mais desemprego, a ingerência das contas públicas e o aumento do custo de vida. Se o trabalho não for coletivo, a austeridade pode durar para sempre. Para nós do Sindypsi PR, é tempo de retomar a coletividade e a solidariedade. Passou da hora de olhar para o outro como igual, de dar um basta no desamparo. Pulsa a urgência de humanizar o olhar aos segmentos vulneráveis da população. Mais do que nunca, a coletividade é nossa única saída. Participe da construção do Sindypsi PR! Porque juntos somos mais fortes.

O sindicalismo brasileiro é baseado no sistema confederativo e formado por três tipos de instâncias. Sindicatos: é a entidade de primeiro grau e o núcleo do movimento sindical. Fica responsável por filiações, assembleias, mobilizações e negociações coletivas Federações e Confederações: entidades de segundo grau e grau superior, respectivamente. São atribuições delas a supervisão e a coordenação das atividades sindicais de um segmento de trabalhadores. Só podem representar categorias que não tenham sindicatos organizados.

Em junho de 2016, a guia de Contribuição Associativa do Sindypsi PR chegará à casa das psicólogas e dos psicólogos paranaenses. Ao recolher o valor, a/o psicóloga/o se torna filiada/o ao Sindypsi PR. O pagamento não é obrigatório. Além de contribuirem diretamente para o fortalecimento da entidade que representa a categoria no Paraná, as/os filiadas/os também têm direito a uma série de convênios firmados entre o Sindypsi PR e prestadoras de serviço. Confira no site!

R. Dr Muricy, 390 cj. 201, Curitiba/PR (41) 3224-4658 | www.sindypsipr.com.br www.facebook.com/sindypsi

35


S O I M Ô C I ANESQUECEREMOS MNÃO

105  
105  
Advertisement