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Esta reunião de poemas vem a público pela primeira vez, já que eles estavam esquecidos em algum livro de manuscritos do autor. O conceito de ‘poema pré-verbal’ foi criado pelo poeta e editor sanjoanense Walther Casteli Júnior na segunda metade da década de 1970, quando este e o autor residiam em São João da Boa Vista-SP e puderam desenvolver juntos alguns projetos. Ambos foram atores na montagem teatral amadora “Enquanto Houver Espetáculo”, com poemas de Cecília Meireles, que abriu a 1ª Semana Guiomar Novaes, em 1976. Em outra oportunidade, foram roteirista (Walther) e diretor (Clovis) no curta-metragem “Gente Boa”, trabalho premiado com Menção Honrosa no Festival de Bilbao, Espanha, em 1977.


Calco em meu pulso uma gilete nova e o teu sangue flui indelÊvel do meu passado. O lençol, minha cama, estas paredes se avermelham de plasma. - Então pensavas que podias ficar?


Incessante apelo o meu corpo estende. Rumoreja o baço, enternece o gesto, porém, o pensamento insiste. E é através do sangue que a insônia prossegue. - Ah, teu ouvido morto, que ao meu grito esquece.


Quando colei tuas estampas no meu corpo eu era a prรณpria natureza por fora - Asfixia, quero รกgua, รกgua!


Essas pessoas humildes que buscam, toda tarde, seu nascente, não o encontram. Vêm rindo e no céu cansado uma estrela expira, querem luz, mas a fé expira: o sol festeja o seu morrer constante. - Vamos! De que adianta aí sentado?


A vida arde Em flamas volatiliza a nossa paciência. Somos os impacientes sobre a face da vida. Os cães sobrevivem As árvores sobrevivem e a vida nos arde. Abissais crateras nos ocultam do calor da vida e expõem o nosso sangue revolto em ardência, silencalado. As aves sobre voam Os animais sobre saltam - Acaso julgaste que morrer não dói?


Não, o que mata não é estarmos na cruz, mas os lagartos que do chão nos assaltam na ânsia de alcançar os nossos pés. No ermo, alheio ao tempo em que se instalam esses paus meu Deus, a melodia me encanta. Teu peito incômodo fulge, ó distante, em meu pensamento acomodado. Dos teus dedos e do teu invisível instrumento cresce uma poeira de chão que me cega e que substitui a dor dos pregos, o sentido que outrora aguçado e o coração, escravo em vertical. - Meu Deus, a melodia me encanta!


A noite é lua. Esses comuns objetos já não se prestam paisagem. Decantam as ambições, recuam os desejos. Farta assim, repleta assim a vida prossegue sonsa. Não há carinho, tampouco esperanças de... Os insetos, pobres, correm atrás de luzes, meu coração é um passivo incendiário de ilusões. - E onde está você, que não se deixa procurar?


Como somos escassos em meio a tanto tempo por gastar. E como é pequeno nosso brinquedo, enquanto revolucionam no vácuo miríades de pensamentos. Somos homens atentos ao palpável. O etéreo mundo, que tem chave especial, resvala em nossa ingenuidade, o nosso lazer, de seres mais altos em ingenuidade. - Ah! Ah! Ganhei mais um ponto seu.


Ah, minh'alma imensa! Retém o pulso do teu coração. Minh'alma pulsa. Estás assim preso numa gelatina trêmula. E, estátua que és, pulsas. A transparência das minhas impossibilidades. O galpão vazio a ausência de teto a imensidão, sepulcram-me em meditar assustadoramente inofensivamente, os teus olhos. - Essa luz que somente chega até o meu corpo.


A carranca espera o teu riso. Duvidas? Então provo! Vê minhas mãos? Calos só... Caminho árduo, ó distante. Passo inútil, ó distante. E tu: teu nome é - distante. Estilhacei meu ego pelo teu vivi paixões inadiáveis e bruscas decepções de amor. Que inútil, inútil alquimia. Porém, a utilidade? Apanhar flores e colocá-las em estantes remontar o brinquedo das desilusões peça a peça. Enquanto meu coração brinquedo que o mundo esqueceu de quebrar. - Posso dissolver teu perfume com meu ácido.


Quando você vem de homem mostra o gesto e o sorriso sérios, meu pensamento rebola e eu me faço sua filha. Quando é noite em seu dia, quando de menino o seu traço adulta, então me recolho e peço peço, peço, peço. Porque sua alminha está escondida e só minha infância lhe abre a risada. Daí, depois do encantamento, você esquece o seu nome e eu esqueço que és homem. - Olha, tenho um segredinho para lhe contar. Para o Leu e a Verinha


A noite está séria, porém vazia. Estão na rodoviária - antro - homens de uma constante voz de adeus. Trazem nas malas as roupas enroladas, embrulhados sonhos de crepom. São divindades em busca do mistério, são atrozes e infantes. Cabeças baixas, mão em cruz, no peito, a respiração... As paredes suam lençois, fronhas cheirosas, o neon destila pôr-do-sol, alvorada, meio-dia em ponto: Luzes. Aplainadas nos ladrilhos estão as vozes dos pedintes, vendedores de bilhetes, viajantes, adormecidas, quase visíveis. Sussurram que hão de voltar. Incomoda uma baça nuvem de desinteresse. Recrudesce. O pensamento, gasto em explicações, emudece. - Hunf! Em noite assim não se deve partir. Para o Walther Castelli Júnior


Meu circo caminha no gume, alto dando gestos aqui para a assistência. O palhaço sustém o ar do peito. O domador liberta o jeito sério. A bailarina despenca das pontas e o bilheteiro ri. Aquele ponto no arame é o astro. Os cachorrinhos amestrados e os cavalos ensinados já repetem fora de cena a lição paulatina. No fim do fôlego a assistência aplaude. O corpo, depois do vôo, dá um baque no chão da terra. O bilheteiro prepara os trocados para o suspense de amanhã. - Senhoras e senhores, temos o prazer...


Clovis Vieira nasceu em São João da Boa Vista, estado de São Paulo, Brasil, no dia 1 de outubro de 1952. Desde cedo, ainda no ginasial, demonstrou facilidade com as letras, tendo vencido alguns concursos de Poesias e Crônicas em sua cidade e nas da região. Interessou-se por diversas áreas da Arte e da Cultura, como Teatro, Música, Literatura, Fotografia, Artesanato. Antes desta obra virtual, editou “Trans Figura Ações”, em parceria com a fotógrafa sanjoanense Sílvia Ferrante. Clovis é membro da Academia de Letras de São João da Boa Vista, cadeira nº 44, tendo como patronese a poeta Cecília Meireles.


Verbal  

Livro de poemas sanjoanenses pré-verbais.