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julho/agosto de 2015 | n o 4

www.bahiaciencia.com.br

Lista vermelha

Pesquisadores apresentam relação de animais e plantas sob risco de extinção Inselbergs

Bahia tem a maior concentração de ilhas terrestres do país Estaleiro Enseada

crise ameaça investimento em tecnologia depois de ceifar milhares de empregos entrevista

Edivaldo Boaventura O educador multidisciplinar

Contra a dor, pelo movimento Experiências com células-tronco do próprio paciente revertem dor provocada por lesões ósseas e articulares


outros olhares

Tempo e imagens de Viga Gordilho Memória IV, livro da Academia de Ciências da Bahia (ACB) que documenta as atividades de divulgação científica da instituição em 2014, em especial as palestras de acadêmicos por ela promovidas, teve lançamento em 9 de junho, na Sala dos Conselhos da reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA). À frente do evento estava o presidente da academia, o ex-governador Roberto Santos. O volume denso, 214 páginas, com jeitão de obra técnica, de repente surpreende, corta expectativas certas, abre uma porta inesperada para o encanto, movida pela artista plástica Viga Gordilho. Que trabalho estético é este que instaura uma atmosfera tão onírica a entrecortar de tempos em tempos o discurso técnico e científico? Ouçamos Viga em seu “Tempo gerúndio” (página 8):

“Caminhando, compartilhando, fotografando, pintando, incrustando... compartilho arte e natureza em um tempo gerúndio, visando potencializar as peculiaridades da paisagem de cada lugar que transito em cidades ribeirinhas.” E ainda um pouco: “Nessa caminhada, venho capturando paisagens e recolhendo fragmentos para eternizá-los com banho de ouro, prata ou cobre em outro tempo/espaço, frágil e precioso. São como pistas plurais que indiciam pontos de deslocamentos ou entrelaçamentos paisagísticos, podendo semear reflexões sobre o desmatamento gradativo das nossas florestas”. A melhor forma para obter o livro, tomar contato com o trabalho contínuo da ACB e uma amostra do trabalho de Viga Gordilho é pedi-lo à instituição.

série: “Tempo gerúndio”, 7 módulos: fotografia, pintura, fibras, conchas, ouro, prata e cobre, 20 cm x 14 cm, 2014

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16 16 Entrevista Edivaldo Boaventura O educador e professor fala da importância do ensino a distância, de sua trajetória pessoal e acadêmica e do trabalho para criar as universidades do Estado da Bahia (Uneb) e Estadual de Feira de Santana (Uefs) 24 Capa Terapia com células-tronco livra pacientes de dores provocadas por lesões ósseas

Seções

3  Outros olhares 7  Carta da editora 8 Rememórias 11 Cartas 12  Poucas e boas 80  Historia em quadrinhos

44 Conjuntura 32 Simpósio Especialistas apresentam diagnósticos agudos e soluções possíveis para autoridades, pesquisadores e empresários, em evento sobre a propensão da Bahia a inovar 36 Empreendedorismo Alunas de escola técnica de Recife criam um game sobre uso racional da água e ganham menção honrosa em torneio na Califórnia

produção do conhecimento 38 Biodiversidade Lagartinho-do-abaeté está entre as 328 espécies da fauna baiana que estão ameaçadas de extinção, segundo pesquisadores 44 Geologia De um anterior terceiro lugar, o estado da Bahia tem hoje a maior concentração de inselbergs, as ilhas terrestres

Artigo

59  De repente, Grafeno, por João Marcelo Ramos da Rocha

capa

Ilustração: Mauricio Pierro

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76 pesquisa e desenvolvimento 49 Indústria Naval Contratos, projetos industriais e empregos são sugados pela tormenta gerada nas investigações da Operação Lava-Jato 52 Indústria Naval Estaleiro em Maragojipe se orienta pela produtividade para dar vida nova à construção naval na Bahia e se lançar no mercado global

60 Tecnologia Embalagens biodegradáveis, feitas com biopolímeros e nanocristais de celulose, ajudam a preservar mangas destinadas à exportação

cultura e humanidades 64 Homenagem Consuelo Pondé de Sena: o vulcão da Bahia adormeceu

68 Matéria na Modernidade Conversas filosóficas no sul da Bahia 70 31ª Bienal de Arte de São Paulo Arthur Scovino, artista visual fluminense radicado em Salvador, revigora a desgastada linguagem da instalação 76 Intervenção Urbana Máscaras afro-brasileiras de Renato Silveira foram exibidas no Minhocão, a conhecida via elevada no centro de São Paulo

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www.bahiaciencia.com.br ISSN 2358-4548

Editora Mariluce Moura

OS PARCEIROS DA BAHIACIÊNCIA

Redação Mariana Alcântara (editora assistente), Edvan Lessa (repórter) Arte Marina Oruê (editora), Mayumi Okuyama (projeto/consultoria) Colaboradores Bruno Marcello, Dinorah Ereno, Domingos Zaparolli, Fábio Marconi, Fabrício Marques, José Bento Ferreira, Léo Ramos, Mariana Sebastião, Maurício Pierro, Mauro de Barros, Nádia Conceição, Nara Lacerda Ferreira, Sérgio Mattos, Tessa Moura Lacerda

Universidade Federal da Bahia

Tiragem  12.000 exemplares Impressão  Grasb - Gráfica Santa Bárbara Produção gráfica - Hamiltom Jimmy Distribuição  Jornal A Tarde É PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL DE TEXTOS E IMAGENS SEM PRÉVIA AUTORIZAÇÃO

Contato cartas@bahiaciencia.com.br Tel.: 55 11 3876-7005 Para anunciar comercial@bahiaciencia.com.br Para assinar assinaturas@bahiaciencia.com.br

Bahiaciência é uma revista bimestral da

Aretê Editora e Comunicação Rua Joaquim Antunes, 727, conj. 61 CEP 05415-012 Pinheiros, São Paulo, SP Tel.: 55 11 3876-7005

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ALGUMAS CONVERSAS NO começo des-

te ano e a apresentação, em seguida, de uma proposta para viabilizar a parceria entre a Aretê Editora e Comunicação, empresa que publica a Bahiaciência, e importantes instituições de ensino e/ou pesquisa do estado da Bahia, prepararam os primeiros acordos destinada a assegurar a continuidade de uma revista baiana de divulgação científica de alto nível. O que se propõe aos candidatos a parceiros é fazer uma assinatura anual de um pacote de 500 exemplares da revista para destiná-los a dirigentes da instituição, líderes de grupos de pesquisa, laboratórios, bibliotecas e outras unidades em que haja interesse nessa leitura. Em contrapartida, afora os devidos exemplares, se oferece duas páginas para livre uso da instituição parceira no corpo da revista, com layout diferenciado, sem prejuízo das reporta-

gens pautadas pelo corpo editorial com foco em produções da referida instituição. Lançada em 2014, com tiragem média de 12 mil exemplares, Bahiaciência destina-se a praticar um rigoroso e atraente jornalismo científico para apresentar aos leitores de distintas áreas, em linguagem clara, as contribuições da pesquisa desenvolvida na Bahia para o conhecimento científico em suas diversas áreas, inclusive as humanidades, e para a inovação no setor produtivo, no contexto do país e do mundo. Tem como norte contribuir vivamente para o debate profícuo sobre as vias contemporâneas do desenvolvimento de um estado tão fortemente marcado por suas singularidades culturais. Nesta edição 4, temos a honra de apresentar nossos primeiros parceiros: a UFBA e a Fiocruz-BA.


carta da editora

Por entre crises e retomadas Mariluce Moura

É um prazer escrever nova carta aos leitores de Bahiaciência depois de um silêncio involuntário de nove meses pelo meio impresso – sim, porque em seu sítio eletrônico, www.bahiaciencia.com.br, a revista continuou ativa e dando conhecimento ao público das mais relevantes notícias e debates sobre a ciência, o desenvolvimento tecnológico e a inovação que têm lugar na Bahia. Devo lhes dizer que foram tempos duros o dessa travessia no nevoeiro, em que a estratégia de levar o barco devagar, como sabiamente recomendado por Paulinho da Viola em Argumento, tornou-se imperativa. Nesse meio tempo, a gráfica que imprimiu as três primeiras edições da revista, em Recife, fechou as portas. E a retomada da indústria naval da Bahia, objeto da reportagem de capa da edição que sairia em dezembro passado, transformou-se em crise profunda, marcada pela demissão de quase 6 mil pessoas da Enseada Indústria Naval, e pelo desencaminhamento de um notável investimento por ela feito em transferência direta de tecnologia do Japão para a Bahia. Optamos por manter, nesta edição, a reportagem feita em fins do ano passado, precedida por novo texto do jornalista Domingos Zaparolli que atualiza essa complexa e difícil história, como se poderá conferir a partir da página 49. Mas, dificuldades à parte, Bahiaciência está na rua de novo para ser publicada a cada dois meses. E o que possibilita isso é o apoio concreto e precioso à ideia de uma revista baiana de divulgação científica por parte de importantes parceiros – agentes centrais da produção do conhecimento, da busca de novas tecnologias e da geração de inovação, no estado da Bahia. A lista está sendo aberta pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz-BA) – ver página ao lado –, graças ao empenho direto, respectivamente, do reitor João Carlos Salles e do diretor Manoel Barral Netto. O suporte de outras instituições está em fase de acerto e certamente terá se efetivado na próxima edição da revista. Isso posto, é mais que tempo de abordar esta edição em termos propriamente editoriais, começando pela bela reportagem de capa, a partir da página 24, sobre a pesquisa de uso de células-tronco na recuperação de lesões ósseas e articulares, provocadas, sobretudo, pela anemia falcifor-

me que inferniza a vida de adultos jovens. O líder desse importante estudo e pesquisa aplicada é o médico ortopedista, professor da UFBA, Gildásio Daltro. O autor da reportagem é Edvan Lessa, jovem e talentoso jornalista que integra a mais que enxuta equipe profissional responsável pela produção editorial de Bahiaciência. Além da capa, duas outras reportagens da seção “Produção do Conhecimento” são da lavra desse profissional que neste momento trata de dar continuidade à sua formação com o mestrado em jornalismo científico e cultural do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor-Unicamp), o mais conceituado do país. Refiro-me aos textos sobre a lista de espécies animais e vegetais ameaçadas de extinção (página 38) e sobre os inselbergs, ilhas terrestres de que o território baiano é o maior repositório no país (página 44). Na seção “Pesquisa e Desenvolvimento” o destaque vai para a reportagem de Mariana Alcântara, outra competente jornalista que agora integra o time fixo da Bahiaciência, sobre o desenvolvimento de embalagens biodegradáveis para a exportação de mangas na forma fresh-cut (sem casca e sem caroço), feitas com biopolímeros e nanocristais de celulose (página 60). A coordenadora do projeto é Bruna Machado e o ambiente para o desenvolvimento do projeto é o Laboratório de Alimentos e Bebidas do Senai-Cimatec. Por fim, além de recomendar a leitura da entrevista de Edivaldo Boaventura, feita por mim (página 16), e do último texto escrito por Guaraci Adeodato, especialmente para a Bahiaciência e enviado apenas três dias antes de seu precoce falecimento (Rememórias, página 8), chamo a atenção também para: os quadrinhos de Bruno Marcello nas três páginas finais da revista; o texto sensível de Sergio Mattos sobre Consuelo Pondé (outra grande perda de uma professora e querida amiga), abrindo a seção “Cultura e Humanidades” (página 64); o texto filosófico de Tessa Moura Lacerda, com ilustração/interpretação livre de Nara Lacerda Ferreira (página 68) e os textos sobre artes plásticas de José Bento Ferreira (página 70). E seria injusto não recomendar a vocês um olhar especial às fotografias de Léo Ramos e Fábio Marconi e ao trabalho de arte de Marina Oruê e Mayumi Okuyama. Boa leitura! bahiaciência | 7


rememórias

JOSÉ ADEODATO DE SOUZA

língua portuguesa. Assim, suponho que ele tenha iniciado seus disciplinados esforços nesses campos, antes mesmo da sua gra-

UM mestre da Obstetrícia e DA Ginecologia

duação em medicina, que continuaram incansáveis ao longo da sua curta, mas intensa, existência. Na Faculdade de Medicina exerceu distintas atividades docentes e realizou vários concursos, seguindo um progressivo amadurecimento e aprimoramento profissional, com responsabilidades crescentes. O mais importante foi aquele para catedrático de obstetrícia e ginecologia, uma das cátedras mais antigas da Faculdade de Medicina, onde exerceu sua docência

Desde a infância ouvi muitas referências elogiosas a José Adeo-

de 1902 a 1911.

dato de Souza, meu avô paterno, que muito me orgulhavam.

Entre estas atividades foi chefe da Enfermaria Militar Provi-

Diziam-me que era exímio e brilhante professor, clínico e cirurgião

sória, na Faculdade de Medicina, durante a Guerra de Canudos,

competente e habilidoso, pai de família extremoso, pessoa boa,

e preparador, por concurso, de anatomia médico-cirúrgica, de

vibrante e alegre. Mas estas falas constituíam flashs sobre facetas

1896 a 1902 (Médicos Ilustres da Bahia e de Sergipe, site), que

pontuais de sua vida ou de sua personalidade. Faltava-me formar

lhe valeu boa solidez nesse campo.

uma visão mais integrada e compreensiva desse homem que não

Segundo meu pai, seu aluno: “Era um dos mais destacados

tive o privilégio de conhecer. Tentei traçar isso aqui, partindo de

anatomistas de seu tempo. Quando preparador de anatomia,

informações verbais de pessoas que o conheceram de perto, de

além das aulas que era incumbido de dar por dever de ofício,

familiares e de uns poucos escritos sobre ele, sem explorar o ma-

ministrou muitos cursos particulares, que lhe melhoravam os

terial documentado no Memorial da Faculdade de Medicina e sem

recursos financeiros, que eram poucos naquela fase da vida”.

pretender tecer sua completa biografia. ***

A cátedra de obstetrícia e ginecologia uniu, por muitos anos, o que se passou a considerar depois diferentes especialidades médicas, em vista dos avanços mais recentes nesses campos e

José Adeodato de Souza nasceu na cidade de Cachoeira, Bahia,

das diferenças nas questões tratadas. Uma reforma na estrutura

em 1873. Era filho caçula (o sexto) de Manoel Adeodato de Souza

curricular realizou a separação, em 1911, dessas duas cátedras,

(1842-1914) e de Mª Elisa Rodrigues de Souza, chamado de Zezi-

passando meu avô a ocupar a de ginecologia até 1925. Por isso

nho pela família. Seu pai, como descrevem minhas primas Miriam

é considerado por muitos o iniciador, na Bahia, da especialidade

Vilarinho e Lívia Teixeira (2012, pág. 35-40), era comerciante de

ginecológica, na qual se consagrou como um dos seus maiores

secos e molhados, administrador de fazendas, rábula famoso em

mestres, e a respeito da qual publicou alguns dos seus mais im-

questões de terra, com uma grande clientela distribuída em várias

portantes trabalhos, referidos adiante (Médicos Ilustres da Bahia

localidades do interior, mesmo além do Recôncavo baiano.

e de Sergipe, site).

A família desfrutava de condições de vida confortáveis. Mo-

Meu avô casou-se com Olívia Amélia Bacellar, em 4/12/1897,

rava num sobrado colonial amplo, com muitas janelas, típico das

aos 24 anos, dois anos após a sua graduação em medicina. Era

cidades do Recôncavo. Com isso, puderam propiciar boa forma-

pequena a diferença etária entre ambos, de apenas três anos; o

ção humanística e profissional a todos os filhos, que se desta-

que era incomum na fase histórica em que viveram, quando os

caram nas suas respectivas profissões (Miriam Vilarinho e Lívia

maridos costumavam ser bem mais velhos que suas esposas.

Teixeira, 2012, pág. 35-40). Era uma casa aberta aos amigos e parentes, tendo em alguns momentos acolhido netos órfãos.

Minha avó era natural de Feira de Santana, filha caçula de Antônio Evaristo Bacellar e Amélia dos Santos Pereira Bacellar,

José Adeodato de Souza veio completar seus estudos em

de um total de 11 filhos, tamanho de prole muito recorrente na

Salvador, colando o grau em medicina em 1895, na Faculdade

Bahia de fins do século XIX, mesmo na capital, que passava por

de Medicina da Bahia, aos 22 anos. Foram seus colegas de turma

alguma modernização nessa fase. Seu pai faleceu precocemen-

Egas Muniz Barreto de Aragão e João Américo Garcez Fróes,

te, aos 47 anos, em 16/2/1877, e sua mãe, viúva aos 35 anos, com

além de outros, que se tornaram também ilustres catedráticos

tantos filhos, lutou arduamente para conseguir realizar sua vi-

desta faculdade (Médicos Ilustres da Bahia e de Sergipe, site;

toriosa proeza de criá-los e educá-los segundo os padrões éticos,

José Adeodato de Souza Filho, 1978).

materiais e costumes familiares (Miriam Vilarinho e Lívia Teixei-

Sempre foi muito estudioso, tendo acumulado, através dos

ra, 2012, pág. 45).

anos, amplos conhecimentos na medicina e domínio de várias

Meus avós tiveram oito filhos, sendo que o primeiro, Heraldo,

línguas estrangeiras (francês, alemão, inglês, espanhol e italiano),

nasceu um ano após o casamento e faleceu por volta dos 8 anos.

além de grego e latim, que lhe apoiavam o cultivo esmerado da

Os demais foram nascendo em pequenos intervalos de dois ou

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Buscando ativamente sua renovação e atualização acadêmica, passou em 1907 algum tempo em visita aos melhores centros e serviços de suas especialidades na França e na Alemanha, em companhia de sua esposa. Embora estudioso das ciências básicas, não foi um pesquisador ou um investigador, como o foram Pirajá da Silva, Nina Rodrigues, entre outros. Foi, antes de tudo, segundo meu pai, “...um professor com uma inteligência privilegiada e uma cultura humanística invejável. Júlio Adolfo, grande e famoso baiano, pai de nosso mestre José Olímpio e de nosso colega Júlio Olimpo, costumava emitir um conceito a respeito de Adeodato e que era muito repetido por outros: “Adeodato sabe muito e tudo o que sabe traz na ponta da língua”. E completava: “De fato, dificilmente se podia ouvir explanações, de improviso, com tanta segurança e precisão...” (José Adeodato de Souza Filho, 1978). Comentários como estes, ouvi, algumas vezes, do meu querido mestre Thales de Azevedo, seu discípulo e colaborador, que se graduou em medicina e se converteu, mais tarde, num grande e admirado antropólogo. Destacava-se não só nas aulas teóricas ou expositivas, mas também no ensino prático das técnicas e procedimentos de obstetrícia e ginecologia mais atuais e adequados, que realizava, provavelmente, através do envolvimento dos seus alunos e discípulos no âmbito de suas atividades em instituições médicas públicas, especialmente na Santa Casa da Misericórdia. Tinha grande segurança na atuação clínica na obstetrícia e ginecologia, era hábil cirurgião e obstetra, operava com grande destreza e segurança, e “...tido como um dos precursores da O professor em sua maturidade, com Olívia, em Berlim (1907)

estandardização cirúrgica, que tanto impulso trouxe à medicina operatória” (José Adeodato de Souza Filho, 1978), realizando o

três anos na seguinte ordem: Noélia, Herberto, Noêmia, meu pai,

Entre as contribuições que imprimiu à cirurgia ginecológica,

pequeno, um sobrinho de meu avô que ficara órfão de mãe,

a Histeropexia Ligamentar a Gilliam-Adeodato teve especial

Manoelito (Manoel Adeodato de Souza Menezes).

relevo e foi adotada por outros também fora da Bahia, como

Paralelamente à formação e educação do seu núcleo familiar, meu avô seguia o progresso acadêmico acima sintetizado e ampliava significativamente a sua clientela, descrevendo uma trajetória social ascendente, com repercussões favoráveis sobre os meios materiais de vida de toda a família.

salienta meu pai, que a assumiu como assunto de sua tese de doutoramento (José Adeodato de Souza Filho, 1978). Com esse elevado padrão de desempenho profissional conseguiu conquistar uma vasta clientela na Bahia. “Mais de 50 trabalhos científicos de grande valor foram pu-

Um dos seus hobbies principais era fazer objetos entalhados

blicados pelo professor José Adeodato de Souza, a maioria

em madeira, geralmente delicados e de bom gosto. Gostava

deles na Gazeta Médica da Bahia e no Brasil Médico, bem como

muito também de organizar festas dançantes e animadas em

na revista Gynécologie et Obstétrique, e outros periódicos es-

casa, para as quais convidava também alunos seus da faculdade.

trangeiros” (Médicos Ilustres da Bahia e de Sergipe, site).

Chegou a conhecer três de suas netas: Miriam, Nêda e Lívia,

fotos Acervo de família

primeiro parto cesariano na Bahia.

Heloisa, Mª Olívia e Hilda. A essa prole eles incorporaram, ainda

Três trabalhos se salientaram pelo mérito invulgar:

filhas de Noêmia. Um mês depois do nascimento de Lívia, ele

“Considerações sobre o Botão Endêmico dos Países Quentes”,

sofreu uma crise de cólica hepática. Operado de emergência ,

sua tese de doutoramento, estudo de uma doença que constituía

faleceu durante a cirurgia, em pleno vigor dos seus 57 anos

importante problema de saúde pública, hoje conhecida como

(Lívia Teixeira, 2012)

leishmaniose americana e praticamente vencida.

Na sua maturidade acadêmica, meu avô continuava um gran-

“Lições de Emenologia Clínica”, monografia de 250 páginas,

de estudioso e seus conhecimentos amplos e sólidos de medi-

editada pela Livraria Catalina, em 1913, que foi na época o es-

cina eram alicerçados em vasta cultura de ciências básicas, que

tudo mais completo e bem elaborado sobre a fisiologia e a

se desenvolviam com celeridade, sobretudo na Europa, a partir

clínica da menstruação, escrita em língua portuguesa, sendo

de fins do século XIX.

“emenologia” um neologismo por ele criado. bahiaciência | 9


“Propedêutica Ginecológica”, talvez o mais importante de

lada ou escrita. Nos últimos anos de vida vinha escrevendo

todos, também editado na Bahia, sendo considerado em todo

para o vespertino A Tarde uma série de artigos semanais, sobre

o país como um dos trabalhos clássicos no campo, ainda atual.

terminologia médica, com invulgar repercussão. Quando faleceu,

Nesse último trabalho fez uma linda dedicatória a meu pai, en-

tinha em elaboração um livro em que enfeixava, em forma ade-

tão um concluinte do curso médico (reproduzida em Lívia Tei-

quada, os assuntos publicados, estimulado pelos constantes e

xeira, 2012)

numerosos leitores”.

Meu pai também salienta outra faceta de meu avô que traduz o dinamismo de sua inserção na vida da sociedade local do seu

Teixeira, Livia A. S. e Vilarinho, Miriam, Livro inédito documental sobre

tempo: “...era considerado um grande purista da linguagem fa-

a genealogia e biografias das famílias materna e paterna das autoras.

Guaraci e a demografia na Bahia

ciação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep) lembrou que Guara , “graduada em serviço social em 1965, se aproximou da

Mariluce Moura

demografia no curso de especialização Formation en Développement que fez no Institut International de Recherche et de

O texto sobre seu avô para a Bahiaciência foi o último escrito

Formation en vue du Développement Haarmonisé (Irfed) em

por Guaraci Adeodato Alves de Souza — Guara, para quem teve

Paris, em 1967 e 1968”. Ela daria continuidade à sua formação

o privilégio de conhecê-la de perto. No fim da tarde de 7 de de-

com a especialização em dinâmica populacional, na Faculdade

zembro de 2014, ela me enviou um email no tom carinhoso de

de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP),

sempre. Dizia-me: “Maricota, não deu para mandar uma carta

em 1969, e em demografia, logo em seguida, no Centro Latinoa-

falando de meu avô como me pediu. Precisava ser algo mais

mericano de Población (Flacso/Celade) no Equador. Sua disser-

compreensível. Existiria mais coisa a dizer sobre ele. Tentei reter

tação no mestrado de economia na UFBA, em 1976, tratou de

o que considero o principal acessível. Agora segue um texto

“Migração e Subemprego em Salvador”.

enxuto em anexo sobre o qual pode fazer ou me indicar as mudanças necessárias. Beijão”.

No começo dos anos 1980, o doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), orientado por Maria Coleta Oli-

Respondi de pronto, dizendo-lhe que adorara e que não mu-

veira, lhe deu a oportunidade de elaborar o estudo “Sucessão das

daria nada, apenas o enquadraria nas normas de edição da re-

Gerações na Bahia: Reencontro de uma Totalidade Esquecida”.

vista. E acrescentava que precisava de uma bela foto antiga,

Ao lembrar esse dado de sua vida acadêmica, o texto da Abep

“daquelas que quem faz revista adora”. Mas resolvi telefonar para

qualifica Guara como “teórica extremamente séria e ambiciosa,

ela meia hora depois. Tinha que expressar mais vivamente minha

embora não canônica”. E define sua tese, primeiro, como um

alegria com esse texto que eu lhe pedira exatamente um mês

complexo repto teórico que faz parte de sua busca por uma for-

antes, num agradabilíssimo almoço de domingo no apartamen-

mulação a respeito da reprodução demográfica capaz de inter-

to de Anete e Rubem Ivo, escandalosamente aberto para a imen-

pretá-la, enquanto processo social e histórico. E em segundo

sidão da baía de Todos os Santos. Entre deliciosas conversas,

lugar, no plano empírico, como um esforço de reconstrução das

muitas risadas e doces lembranças, alimentadas por um extraor-

”experiências históricas de mudança na fecundidade e nos pa-

dinário cozido, ficamos diante do mar até o cair da noite, os

drões de procriação, associadas a alterações estruturais em outras

anfitriões, sua filha Any, Guara, Mirabeau — seu companheiro

dimensões da sucessão das gerações”.

havia 42 anos — e eu. Insistimos todos para que ela fizesse uma

Participante ativa do desenvolvimento da demografia no Bra-

rememória sobre o trabalho pioneiro do Adeodato avô, a que o

sil, Guaraci teve êxito em sua batalha pela inclusão dessa disci-

Adeodato pai daria adiante continuida-

plina no Programa de Pós-Graduação em

de. Ela relutava. No telefonema do dia 7

Ciências Sociais da UFBA. E conseguiu

me disse o quanto estava feliz por ter

também introduzir o questionamento de-

escrito o texto e me comunicou que

mográfico como linha de pesquisa de seu

arranjara uma foto maravilhosa para

Centro de Recursos Humanos (CRH), além

ilustrá-lo.

de nele implantar o Laboratório de Análises

Menos de 48 horas depois, na manhã

Sociodemográficas, do qual foi coordena-

de 9 de dezembro, Guara faleceu. No

dora até recentemente. O texto da Abep

texto em que deu a notícia da morte

ressalta que o laboratório funcionou também

dessa pesquisadora que foi “uma de suas

como um posto estratégico para Guara

mais ilustres e antigas sócias”, a Asso-

realizar atividades de extensão, como cur-

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sos, seminários e reuniões, com apoio da pró-

cartas

pria Abep, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional de Minas Gerais (Cedeplar) e do Núcleo de Estudos Populacionais da Unicamp (Nepo). “Todas estas inovações tornaram-se o núcleo de desenvolvimento de uma área de estudos de demografia na Bahia, até então inexistente”. A UFBA também prestou, cinco meses depois, uma homenagem significativa a Guaraci, dando seu nome ao auditório do Centro de Estudos e Pesquisa em Humanidades, o mesmo CRH pelo qual ela tanto batalhou. Antes da cerimônia de inauguracão da placa, suas contribuições científicas e acadêmicas foram objeto do seminário “Sociologia e Demografia: diálogos com Guaraci Adeodato”, aberto pelo reitor João Carlos Salles. O coordenador do CRH, Alvino Sanche, deu continuidade aos trabalhos e, em seguida, uma mesa-redonda presidida por Annete Ivo, com a participação de Maria Coletta, Inaiá Carvalho e Iracema Guimarães, todas respeitadas

Revista

demógrafas, debateu as contribuições de Guaraci Adeodato Alves de Souza – segundo a Abep, “uma das pioneiras que tornaram possível a constituição da demografia como área disciplinar em nosso país”. Seria impossível, contudo, dada a personalidade notável e esfuziante de Guaraci, abordar apenas suas contribuições intelectuais. O próprio texto da Abep cuidou de lembrar que se tratava de uma mulher “apaixonada, irreverente, engraçada, bem-humorada, séria, polêmica, extremamente responsável, politicamente engajada, ‘porreta’”. Sua família, especialmente seu marido e companheiro por 40 anos, Mirabeau Alves de Souza, suas filhas Beatriz e Mariana, seu neto Antonio, e seus muitos amigos – Guara era a melhor amiga de muita gente – seguramente acrescentariam a isso seu imbatível espírito guerreiro, sua vasta generosidade e sua capacidade de amar com espantosa largueza. Seu riso, sua gargalhada inconfundível e seu coração, digamos, “de manteiga” eram expressões desse seu ser. Nada a estranhar, assim, que uma associação de caráter profissional, como a Abep, tenha concluído seu texto com essas palavras: “Guara não vai deixar apenas saudades. Vai deixar um imenso vazio tanto na Abep quanto em nossos corações”. A amiga fraterna aqui assina embaixo.

w Li a primeira edição da revista e achei a proposta declarada precisamente realizada, inovadora na veiculação de informação científica/acadêmica de forma atraente, clara e de acessibilidade tão importante para todos. Traz ao conhecimento o saber contemporâneo e próximo do dia a dia numa cidade pioneira e hoje distante da divulgação dos centros onde se veicula a maior parte da informação científica ou dos eventos acadêmicos. Pura notícia, boas surpresas ao ler, do professor Zilton Andrade à Orquestra Neojiba. Da realização do Centro Tecnológico da Bahia, que deve alavancar a atividade de pesquisa para o desenvolvimento da região e do Brasil, ao risco à saúde humana provocado pelo desequilíbrio ambiental na baía de Todos os Santos, que

todos a protejam. Que seu empenho em editar a revista seja duradouro e alimentado por bons resultados. Armando Guzzardi

On-line

w Flaminia Mastrangeli_ Muito bom em tudo que faz. Professor, escritor, palestrante e sem frescura, sabe muito e não era arrogante. Simples e legal. Essa é a lembrança que tenho do meu professor de História João José Reis (Uma revolta dos negros muçulmanos) w Lazaro Viana_Enseada Indústria Naval: Até hoje estou sem acreditar que uma indústria dessa plenitude pode parar, sinceramente. Muito triste. (Enseada Indústria Naval: o gigante pede socorro) w Leon Silva_Vamos nos mobilizar, gente!” (Um centro de big data em saúde) bahiaciência | 11


poucas e boas

Adido agrícola na Rússia Antonio Alberto Rocha Oliveira, que há 35 anos é pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas, assumiu a função de adido agrícola da Embaixada do Brasil em Moscou. Museu Geológico da Bahia, que foi reaberto em 2014

Engenheiro agrônomo pela Universidade de Brasília (UnB), Oliveira é doutor em biologia pura e aplicada pela Universidade de Leeds, na Inglaterra, e fez pós-

Museus da Bahia no guia internacional

-doutorado em fisiofitopatologia ções do Jardim Botânico, do Zoo-

na Universidade do Havaí. Ele

lógico, do Museu de Arqueologia

participou de um processo sele-

e Etnologia da Universidade Fede-

tivo com 195 funcionários do

ral da Bahia e do Museu Geológico

Ministério da Agricultura e de

da Bahia. Outros dois museus do

órgãos vinculados, como a Em-

Sete museus da Bahia estão rela-

guia estão em Feira de Santana: o

brapa e a Companhia Nacional

cionados no Guia de centros e mu-

Museu Municipal Parque do Saber

de Abastecimento (Conab), que

seus de ciência da América Latina

e o Observatório Astronômico An-

escolheu sete novos adidos agrí-

e Caribe, lançado em maio no 14º

tares. O Brasil abriga 268 dos 464

colas. “O adido agrícola tem co-

Congresso da Rede de Populariza-

museus e centros de ciência des-

mo tarefa principal identificar

ção da Ciência e da Tecnologia da

critos no guia, que está disponível,

oportunidades de exportação

América Latina e Caribe (RedPop),

em português e em espanhol, no

para os produtos nacionais, aju-

em Medellín, na Colômbia. Cinco

site www.redpop.org. “O Brasil é

dando o governo brasileiro na

ficam em Salvador. O Museu de

um dos países da região que têm

abertura e manutenção de mer-

Ciência e Tecnologia da Bahia, um

investido na criação e na manu-

cados”, disse Oliveira ao site da

dos primeiros museus interativos

tenção de museus de ciência”, diz

Embrapa. Uma de suas primeiras

de ciência no Brasil, criado em 1989,

Luisa Massarani, pesquisadora da

tarefas em Moscou foi dar apoio

é um deles. Ainda na capital baia-

Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)

para a visita que a ministra da

na, são listados os perfis e as atra-

e coordenadora do guia.

Agricultura, Kátia Abreu, fez à

Difusão da ciência reconhecida A Secretaria de Ciência, Tecnologia

tes, foi agraciada pela difusão da

e Inovação do Estado da Bahia (Sec-

ciência através de redes sociais, co-

ti) recebeu menção honrosa no 35º

mo o Facebook e o Twitter, em que

Prêmio José Reis de Divulgação Cien-

interage com os cidadãos. O primei-

tífica, do Conselho Nacional de De-

ro lugar no Prêmio José Reis coube

senvolvimento Científico e Tecno-

à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz),

lógico (CNPq), que neste ano foi

em reconhecimento aos canais de

concedido na categoria “instituição

comunicação em meios impressos,

ou veículo de comunicação”. A Sec-

eletrônicos e digitais que divulgam

ti, que disputou com 62 concorren-

conhecimento na área da saúde.

12 | julho/agosto de 2015

fotos •Raul Golinelli / Governo da Bahia  •Divulgação  •Wikicommons

Rússia, em julho.


Mais pesquisa no Nordeste O desempenho da região Nordeste foi um dos destaques do 10º Censo do Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil, divulgado pelo Conselho NaO Primeiro Passo para a Independência da Bahia, pintura de Antonio Parreiras

cional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Enquanto em 2004 os estados nordestinos abrigavam 14,2% dos grupos de pesquisa do país, em 2014 o quinhão

Lembrando a luta pela independência

elevou-se para 20,4%, quase o mesmo patamar da região Sul

O Centro de Memória da Bahia (CMB),

público a pontos na capital onde

(22,4%). Na Bahia, o número

vinculado à Fundação Pedro Calmon,

ocorreram batalhas pela indepen-

de grupos em atividade saltou

preparou uma programação intensa

dência. A data também foi o mote

de 728 em 2004 para 1.763 em

relacionada ao 2 de julho, data que

de uma nova edição do ciclo de pa-

2014. O avanço foi de 142%,

celebra a vitória dos brasileiros, em

lestras “Conversando com sua his-

bem acima dos 82% registrados

1823, na guerra travada na Bahia

tória”, aberto ao público, e o curso

nos números nacionais. Os

pela independência do Brasil. Entre

Ensino de história na Bahia, voltado

campos do conhecimento com

as atividades, aulas públicas itine-

para professores e estudantes de

maior aumento de grupos no

rantes foram realizadas nos muni-

história. Jacira Primo, diretora do

estado foram as ciências hu-

cípios de Cachoeira, São Félix, San-

CMB, também destaca o projeto “Dois

manas e as ciências sociais

to Amaro, Maragojipe, São Francisco

de julho em debate”, que ocorreu

aplicadas (ver quadro). O Cen-

do Conde e Caitité. A programação

em escolas da rede pública estadual,

so registrou um aumento na

em Salvador começou no dia 30 de

com atividades ministradas pelo his-

participação de mulheres no

junho. Uma aula pública do histo-

toriador Marcelo Siquara, que abor-

comando de grupos de pes-

riador Sérgio Guerra Filho, da Uni-

dou com os estudantes as batalhas

quisa no Brasil – elas eram 42%

versidade Federal da Bahia, levou o

e os heróis do 2 de julho.

dos líderes em 2004 e passaram para 46% em 2014. No total de pesquisadores dos grupos, homens e mulheres

O Censo 2014 dos grupos de pesquisa

ocupam espaços idênticos – 50% para cada gênero.

Número de grupos de pesquisa no Brasil 35.424

Evolução dos grupos na Bahia 500

1.800

1.763

1.600 1.330

1.200

250

972

800

200

728

600

150 473

100

330

200 2014

Fonte: DGP/CNPq

279

265 223

227 170

182 151

170 149

169 128

161 144

123

107

2010 2014

50

0 2000

445

350 300

1.090

1.000

400

450 400

1.400

11.760

Crescimento dos grupos por área na Bahia

2.000

0 2000

2002

2004

2006

2008

2010

2014

o s çã te ta Ar pu s s m e se a o s ca s a d a n a r C ia ú gi tr a e er ár ad ló Sa Le T r s o , il c um i g a ia a A H B d p da ic ar e as as as as st sA nh ci ci ci ci uí ai as ge ci at ên ên ên ên ng i i i i n x o i E E C C L C C S

bahiaciência | 13


A primeira expedição A caminho do Brasil, o recém-inaugurado navio de pesquisa hidro-oceanográfico Vital de Oliveira fez sua primeira expedição científica para avaliar a contribuição do oceano Índico nos processos climáticos do Atlântico Sul. Um grupo de 18 pesnavio no dia 25 de junho no porto da Cidade do Cabo, na África do Sul. A chegada em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro, está prevista para 17 de

Boeing 757 testa novas tecnologias: menos consumo de combustíveis

julho. A expedição conta com pesquisadores das universidades do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Federal de Pernambuco (UFPE), Federal do

Desempenho ambiental dos aviões

Rio Grande (Furg), e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A Boeing e a Embraer celebraram

mos comprometidos com a inovação

Adquirida em 2013 por R$ 162 milhões,

uma parceria para testar tecnologias

e o desenvolvimento de tecnologias

a embarcação é fruto do acordo de

capazes de melhorar o desempenho

que podem ajudar a atender às me-

cooperação firmado entre os minis-

ambiental de seus aviões. Pelo acor-

tas ambientais da aviação”, disse

térios da Defesa e da Ciência, Tecno-

do, um avião da Embraer será utili-

Allen, da Boeing. “Trabalhando jun-

logia e Inovação (MCTI) e as empre-

zado para a realização de testes a

tos, avançaremos para melhorar a

sas Petrobras e Vale. “O Vital de Oli-

partir de 2016 no âmbito do Progra-

eficiência da aviação e reduzir o im-

veira está equipado com o que há de

ma ecoDemonstrator da Boeing.

pacto ambiental.” As duas empresas

mais avançado em termos de tecno-

Criado em 2011, o programa busca

trabalham juntas desde 2012 numa

logia”, diz o coordenador para mar e

acelerar o emprego de tecnologias

iniciativa para melhorar a seguran-

Antártica do MCTI, Andrei Polejack.

com potencial para reduzir o con-

ça de pousos e decolagens e no pro-

Dotado de cinco laboratórios, também

sumo de combustível, as emissões

grama do cargueiro militar KC-390.

dispõe de um veículo de operação

de carbono e o nível de ruído, fa-

Em 2015, inauguraram um centro

remota que pode atuar a uma pro-

zendo-as amadurecer mais rapida-

conjunto de pesquisa em biocom-

fundidade de 4 mil metros.

mente. Mais de 50 tecnologias já

bustíveis em São José dos Campos

foram testadas em modelos da

(SP). Desde 2012, a Boeing tem tra-

Boeing como o Next-Generation

balhado em parceria com fornece-

737-800, o 787 Dreamliner e o 757.

dores, companhias aéreas e agências

“A inovação é um dos principais pi-

governamentais em testes no pro-

lares da estratégia da Embraer e te-

grama ecoDemonstrator. As tecno-

mos satisfação de continuar nosso

logias testadas incluem um novo

trabalho com a Boeing para apoiar

winglet, componente posicionado

o crescimento sustentável da indús-

na extremidade da asa, revestimen-

tria da aviação”, disse Frederico Cura-

tos que podem aumentar a eficiên-

do, presidente da Embraer, que as-

cia aerodinâmica do avião, softwares

sinou memorando de entendimen-

para melhorar a eficiência em voo e

to com Marc Allen, presidente da

novos tipos de biocombustível. Já a

Boeing Internacional, durante a

Embraer incorpora requisitos am-

cúpula de comércio Brasil-EUA, que

bientais nos aviões através de seu

ocorreu durante a visita oficial da

Programa de Desenvolvimento In-

presidente Dilma Rousseff aos Esta-

tegrado do Produto Ambientalmen-

dos Unidos, no fim de junho. “Esta-

te Sustentável.

14 | julho/agosto de 2015

O Vital de Oliveira: plataforma de pesquisa hidrooceanográfica

fotos •Boeing/John D. Parker  •Marinha do Brasil •Mr Prasanna Welangoda/Wikimedia  •Alberto-Mendoza/Wikimedia

quisadores brasileiros embarcou no


Vitória contra o HIV em Cuba Cuba tornou-se o primeiro país do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a erradicar a transmissão da mãe para o bebê da Aids e da sífilis. “Eliminar a transmissão de um vírus é uma das maiores conquistas possíveis em saúde pública”, disse Margaret Chan, diretora-geral da OMS. “Essa é uma grande vitória na nossa longa luta contra o HIV e um passo importante no sentido de ter uma geração livre da Aids”, acrescentou. A cada ano, 1,4 milhão de mulheres portadoras do HIV ficam grávidas no

Fé, ciência e mudanças climáticas

Papa Francisco: necessidade de mudar estilos de vida

mundo. Sem cuidados, há um risco entre 15% e 45% de que passem o vírus para o bebê

O papa Francisco divulgou no dia

ciência da necessidade de mudanças

durante a gravidez, o parto ou

18 de junho uma encíclica dedicada

de estilos de vida, de produção e de

a amamentação. O risco cai

ao meio ambiente. O texto do líder

consumo, para combater este aque-

para 1% se medicamentos re-

católico, intitulado “Laudato si, sobre

cimento ou, pelo menos, as causas

trovirais forem ministrados

o cuidado da casa comum”, faz um

humanas que o produzem ou acen-

para as mães e as crianças nos

diagnóstico sobre o perigo das mu-

tuam”, escreveu. Num movimento

estágios em que a transmissão

danças climáticas e exorta os indi-

que aproxima fé e ciência, o papa

pode ocorrer. O número de

víduos a mudar o estilo de vida pa-

Francisco recorreu ao diagnóstico

crianças contaminadas caiu

ra enfrentar o problema. “A huma-

dos cientistas para lidar com o de-

nos últimos anos, de 400 mil

nidade é chamada a tomar cons-

safio. “Existe um consenso científico

em 2009 para 240 mil em 2013.

muito consistente que indica que

Desde 2010, Cuba oferece às

estamos diante de um preocupante

mulheres grávidas cuidados

aquecimento do sistema climático”,

pré-natais, testes de HIV e sí-

disse. “As mudanças climáticas são

filis (também para seus par-

um problema global, com graves

ceiros), tratamento para as

implicações ambientais, sociais, eco-

mulheres que testam positivo

nômicas, distributivas e políticas, e

e seus bebês, partos cirúrgicos

constituem o principal desafio da

e substituição do aleitamento.

humanidade”, acrescentou. Para Christiana Figueres, chefe do Secretariado das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, a encíclica é um estímulo para que governos cheguem a um acordo na 21ª Conferência do Clima em Paris, no fim do ano. “A encíclica terá um impacto forte. Nenhum papa havia tomado partido dessa forma”, afirmou. bahiaciência | 15


entrevista edivaldo boaventura

16 | julho/agosto de 2015


Um educador a toda prova Orgulhoso Cidadão de feira de Santana e trabalhador incansável, o professor inclui uma universidade e dois parques entre suas contribuições à bahia

mariluce moura fotos Fábio Marconi

E

m 4 de novembro passado, aconteceu na Reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA) o lançamento de Um cidadão prestante: entrevista biográfica com Edivaldo M. Boaventura, livro de Sérgio Mattos publicado pela Quarteto Editora. A rigor, trata-se de um belo trabalho a quatro mãos: o jornalista, com trânsito pela educação, interroga de forma acurada o educador. E o educador, que, entre muitas outras funções relevantes, já dirigiu um jornal – o mais antigo e respeitado da Bahia –, oferece respostas claras e bem circunstanciadas sobre seus trajetos pessoais e profissionais. O resultado desse diálogo produtivo é um retrato que revela os traços fortes e preserva os semitons e nuances de um exemplar cidadão baiano – e feirense, com muito orgulho –, acentuadamente marcado pelo espírito público na construção de sua bem-sucedida carreira de educador multidisciplinar e multifuncional. E incansável, ressalte-se, pois, aos 81 anos, Edivaldo Boaventura segue trabalhando com vigor e projetando futuros. Ocupa-o muito

neste momento, por exemplo, a reflexão sobre o papel da educação a distância, sustentada pela rede e demais tecnologias informáticas, no desenvolvimento do Brasil e, em particular, da Bahia, especialmente de seu imenso interior, para o qual o habitante de Salvador, ele assegura, mal olha. Entre os 50 livros que publicou, distribuídos pelos campos da educação, dos ensaios memorialísticos e biográficos e dos relatos de viagem, Educação Brasileira e o Direito lhe é a obra mais cara. “Foi um livro matutado por muito tempo”, diz. Já entre as instituições que criou ou partejou até aqui em sua longa vida de “cidadão prestante”, as que lhe parecem mais importantes são a Universidade do Estado da Bahia (Uneb), no front educacional, e os parques Castro Alves e de Canudos, no âmbito cultural. Expansivo, bem-humorado, grande prosador, Edivaldo Boaventura é marido há 53 anos de Solange, que namora desde os anos em que ele era estudante de direito e ela, uma bela estudante de letras neolatinas, é pai de Lídia e Daniel – sim, ele mesmo, o conhecido ator e cantor Daniel Boavenbahiaciência | 17


tura – e avô derramado de Isadora, Lorena, Jojô e Isabela. A entrevista a seguir foi concedida por ele à Bahiaciência em fins do ano passado, em sua agradável casa de Brotas, com direito a bolo e cafezinho, à simpatia irradiante de dona Solange e a um sorriso para lá de charmoso de Isadora. y O senhor é vice-presidente da Academia de Ciências, membro da Academia Baiana de Letras, que já presidiu, e da Academia de Educação, entre outras. Continua orientando teses, dando aulas, fazendo palestras, escrevendo... Dessas atividades, qual é hoje a mais importante? A que toma mais a minha atenção é a orientação de alunos na Universidade Salvador (Unifacs), que pertence à Rede Laureate. Tenho oito orientandos com teses e em 2013 botei para fora cinco doutores. y Com que temas trabalharam esses novos doutores? Dois trabalharam sobre universidade e educação superior, um de meus temas principais de estudo; dois outros sobre Canudos; com outro doutorando tive de substituir a primeira orientadora numa tese sobre adoção internacional de crianças, tema difícil em torno de uma experiência dramática. São crianças pobres e negras adotadas por países brancos e ricos e isso traz terríveis problemas de ajustamento. y Há algo que unifique seus tantos trabalhos? Minha unidade está na educação, embora eu seja conscientemente multidisciplinar. Sou muito procurado pelos alunos. Minha vida é muito voltada para isso. E em educação meu interesse se concentra em educação superior, em história da educação, sobretudo a baiana, e em metodologia da pesquisa. y Quantos orientandos seus estão hoje no mercado? Acho que a essa altura já orientei, entre mestrados, doutorados e monografias de conclusão de curso, mais de 100 pessoas. Participei de mais de 200 bancas e exames de qualificação, a maior parte na área de educação. y O senhor tem dito que o futuro da educação está na educação a distância. Como esse tema mobilizou seu interesse? No seminário que coordeno na Unifacs, “Educação e Desenvolvimento”, comecei a receber muitos pedidos para orientar trabalhos sobre a educação como fator de desenvolvimento. E estou convencido de que educação a distância é um fator fundamental, ao atingir áreas e pessoas muito distantes dos grandes centros deste país continental e do estado da Bahia, que tem mais de 560 mil quilômetros quadrados. Participei há algum tempo de um congresso internacional no qual apareceram os novos moocs [sigla em inglês para massive open online course]. São, podemos dizer, grandes conglomerados de ensino livre, de educação aberta online, dos quais participam grandes universidades como Harvard e instituições como o Massachusetts Institute of Technology (MIT), disponibilizando via web bibliotecas inteiras. O foco, quando trabalho no tema com alunos, tem sido a 18 | julho/agosto de 2015

temos que ser pelas aprendizagens híbridas, a presencial e aquela a distância; as duas modalidades devem se complementar

formação de professores e de profissionais, mas gostaria de me aprofundar cada vez mais na área. y Em sua concepção, a educação a distância será mais favorável à educação continuada ou à expansão do ensino formal? Temos que ser pelas aprendizagens híbridas, a presencial e aquela a distância; as duas modalidades devem se complementar. Já usamos o computador em sala de aula, trata-se agora de usar mais intensivamente as tecnologias. y E isso vem junto com a necessidade de expandir o sistema. Sim, necessidade dramática. A grande maioria dos professores do interior da Bahia ensina numa situação muito precária. Alguns não têm licenciatura e não têm mais tempo de obtê-la – vamos dizer que isso atinja 10%, 15% ou 20% das escolas. Mas outros estão lutando tenazmente para ter uma licenciatura via educação a distância ou pelos métodos mais formais e tradicionais. Há um grande esforço dos professores nesse sentido, até porque a Lei de Diretrizes e Bases deu prazo para que todos tenham licenciatura, mestrado e doutorado. y No ano passado São Paulo criou sua Universidade Virtual (Univesp), voltada à graduação e pós-graduação a distância, além dos cursos abertos. Há alguma expectativa de formação de uma universidade desse tipo na Bahia? Eu diria que não. A universidade pública que mais trabalha a educação a distância é a Uneb, outras iniciativas estão no setor privado. Não há ainda uma sensibilidade para se criar um grande núcleo. Numa outra concepção, o maior núcleo de educação a distância aqui é a Uneb, com 47 polos espalhados pelo estado e 24 unidades de ensino. As outras universidades públicas são tímidas. Já a UnoPar, uma universidade privada do Paraná, tem cursos na Chapada Diamantina e uma presença muito grande no país todo. y Como seu interesse central por educação influencia suas atividades nas academias das quais participa? Eu participo de todas as academias na Bahia, menos a de medicina. Entrei na Academia de Letras muito cedo, aos 36


anos, uma ousadia de quase adolescente, na cadeira de Clementino Fraga, que tem como patrono Francisco de Castro, o divino mestre. Edith Mendes da Gama e Abreu me saudou assim: “Batestes cedo à porta da Academia, na Academia não se faz vestibular”. Mas eu já era livre-docente e professor titular da universidade, já tinha obras publicadas e estava indo para o Instituto Internacional de Planificação da Educação. y É sua “casa” mais antiga, então? É. E à proporção que desenvolvi minha carreira na UFBA, minha alma mater a quem devo tudo, fui desenvolvendo na Academia de Letras um outro tipo de conhecimento. As academias são muito idiossincráticas, baseadas nas personalidades das pessoas, e aí fui me inteirando da cultura baiana, da contribuição médica, dos poetas da Bahia, principalmente os modernistas, como Carvalho Filho, Godofredo Filho etc. y O senhor foi presidente da Academia? Fui de 2007 a 2010. Minha preocupação foi fazer o novo estatuto da Academia, em face do novo Código Civil. Fizemos o programa do Ponto de Cultura, vários seminários, cursos abertos à comunidade, instituímos prêmios, restauramos a estátua de Góes Calmon, obra de Pasquale de Chirico e a levamos para a Academia, que é no palacete Góes Calmon. E tive o cuidado de manter a musealização da casa, muito bonita (onde funcionou por um tempo o Museu do Estado). y Na jovem Academia de Ciências da Bahia, o senhor também participa do debate sobre educação? Participo. Doutor Roberto Santos foi o único adviser que tive na Bahia. Quando decidiu montar a Academia, me chamou, e eu fui. Continuo aprendendo com ele e com esse projeto de ciência. Vejo uma função importante na Academia, que é reunir as pessoas que fazem ciência. Quais são os principais grupos? O da UFBA, o mais antigo e consolidado, o da Fiocruz, muito interessante, e outros das universidades estaduais que estão começando a pesquisa, como a Uneb e a UEFS. E núcleos novos estão surgindo. Vejo as quatro universidades estaduais como o canal de encaminhamento do conhecimento, da educação e, posteriormente, da ciência e tecnologia para o interior da Bahia. Evidentemente que agora estão chegando as federais, a do Recôncavo, a do Sul da Bahia, de cuja seleção de professores participei com meu amigo Naomar de Almeida, líder desse projeto, a do Oeste da Bahia e possivelmente virão outras. Levamos 60 anos com apenas uma universidade federal, e agora temos quatro. y Na Academia de Ciências o senhor é vice-presidente. Sim, sou ajudante de doutor Roberto. Lá existe um grupo que trabalha com educação de ciência, tema que o empolga e também a Irundi Edelweiss, e estamos desenvolvendo agora estudos sobre o que é o professor fascinante, o fascinated professor. Estudos nos Estados Unidos têm demonstrado que esse professor, que exerce uma verdadeira sedução no ensino, tem um grande papel na divulgação do conhecimento.

Desenvolvi aí um tema que me fascina, a normalização do conhecimento científico, que requer padrões, paradigmas e, sobretudo, modos de comunicação muito uniformizados. Nós da educação temos apenas uma fatia da normalização, que é a documentação. Mas a normalização atinge o setor empresarial, o setor da economia. Tem, por exemplo, os prêmios, as prescrições, os pedidos de patente, as certificações, a ISO, e atinge também o mundo acadêmico. y O senhor também participa da Academia de Ciências Jurídicas e no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. O Instituto é outro grande amor. E na Academia de Letras Jurídicas foi onde tudo começou. Quando vim de Feira de Santana para estudar com os jesuítas, já me interessei pelo direito. Eu sou bacharel, doutor e docente, essa é minha base. Depois acrescentei ciências sociais, economia, fui funcionário da Sudene... No primeiro curso de desenvolvimento da Sudene me tornei TDE, técnico em desenvolvimento econômico. Com esse conhecimento, fiz concurso para docente livre aos 30 anos. Isso me abriu a porta da universidade até professor titular. Eu já fazia a multidisciplinaridade antes de saber que ela existia. y A que se propõem hoje as academias? Tenho meditado muito sobre isso. Seu papel é a convivência para a disseminação do conhecimento, o que todas fazem por meio de conferências, cursos e seminários. A nossa academia de letras tem dois seminários anuais: o curso Castro Alves, sobre literatura baiana, e o mais recente, criado por Aramis Ribeiro Costa, atual presidente, e Myriam Fraga, o curso Jorge Amado, que está na terceira edição. y O senhor nasceu em Feira de Santana, em 1933, em família tradicional daquela região. Que menino o senhor era? Um menino de chácara. Era das leituras, mas gostava muito da chácara, plantava, fazia leiras, criava pombos, pegava passarinho, subia em árvore. Era e sou muito tímido, curioso, fui aluno da professora Amelinha Assis e me lembro bem de ter plantado uma árvore num 21 de setembro. Depois fui estudar na Escola do Asilo Nossa Senhora de Lurdes, quando a Irmã Maria Nazaré Barbosa me alfabetizou. Depois fui para a escola da professora Helena Suzatti. Terminei o curso primário e me preparei para o exame de admissão. y Vocês eram quatro irmãos? Éramos três e depois veio um temporão, 20 anos mais moço que eu: Carlos, que ficou em Feira de Santana, Osvaldith, a líder da família, uma mulher com invulgar capacidade de trabalho, e o caçula, João Eduardo, que mora em Itamaraju. Meu pai tinha vinculações com o antigo PSD, mas era mesmo um homem muito do trabalho, como bom feirense. Feira de Santana não é só a terra da inteligência e da sabedoria, é também a terra do trabalho. y Os feirenses são muito orgulhosos de sua origem, por quê? bahiaciência | 19


Exatamente porque são trabalhadores. Dizia um amigo meu que a primeira universidade de Feira de Santana foi o balcão, ali se ensina a ganhar dinheiro, se ensina a trabalhar. Seu nome antigo é Comercial Cidade de Feira de Santana. y Ela se estruturou em torno de uma grande feira de gado. Que não existe mais, e também da grande feira que ocupava toda a praça central. Meu pai dizia que se procurasse ali o diabo amarrado pelo rabo, tinha alguém vendendo. Vendia-se de tudo. y Feira é um lugar de entroncamento. Exatamente, duas das principais estradas entre Norte e Sul passam por Feira de Santana. A BR-101 e a BR116, que vão para o sertão e para o norte. Eu vi o crescimento da cidade, que tinha 30 mil habitantes no tempo da guerra. Depois começaram a surgir as pensões dos nordestinos, por causa dessa grande movimentação provocada pelas estradas que cortam a cidade. Hoje são mais de 600 mil habitantes. A cidade, muito plana, está em cima de um tabuleiro. Cresceu em direção ao norte, com muitas ruas bem traçadas. Nasci na Praça da Matriz, número 9, hoje Praça da Catedral. Vivi lá até os 11 anos, quando fui para o Colégio Antônio Vieira. y Foi uma experiência difícil estudar no internato aos 11 anos? Não, me adaptei bem. Fiquei deslumbrado quando vi uma biblioteca com livros estrangeiros, em inglês e francês. Os estudos das humanidades foram importantes para mim. Fiz o ginásio e o colegial entre 1946 e 1953, depois fui para o direito. Foi um tempo de frequentar o colégio, o grêmio do colégio, a JEC. y De católico tradicional o senhor passou a militante? Militante realmente, e funcional, com os beneditinos. Me converti do cristianismo tradicional para o militante através da Ação Católica. Os beneditinos davam muito apoio aos estudantes e aos professores. Claudio Veiga frequentava o mosteiro, e lá estavam dom Clemente da Silva Nigra, um

o papel das academias é a convivência para a disseminação do conhecimento, o que todas fazem viA conferências, cursos e seminÁRIOS

homem que entendia muito das artes e foi diretor do Museu de Arte Sacra; dom Jerônimo Cavalcante, um grande contato com a juventude; Irmão Paulo Leishmayer, que fazia a capa das teses dos professores; e depois o abade dom Timóteo Amoroso. y Antes da JUC, Juventude Universitária Católica, o senhor passou então pela JEC, a Juventude Estudantil Católica? Informalmente. A JUC realmente foi o movimento universitário do meu tempo, muito dinâmico, muito para a frente. Líamos os autores franceses Mounier, Lebret, Teilhard de Chardin... Os franceses fizeram a minha cabeça. Frequentávamos a Casa da França com o professor Van der Haegen, e lá eu estudava francês, assistia a filmes em francês e me formei nessa mentalidade francesa. y Sua formação cultural e ideológica acontece ao longo desses anos numa UFBA então efervescente. Sim, até terminar a faculdade de direito, onde tive bons professores. Não eram pesquisadores, eram autodidatas que estudavam e que ensinavam. É o caso de Orlando Gomes, Aderbal da Cunha Gonçalves, Josaphat Marinho e Nelson Sampaio. Quando terminei, já frequentava o seminário de música, assistia aos concertos, às peças de teatro. Tchecov, por exemplo, fui ver quando era aluno da faculdade de direito, era aquele mundo efervescente da cultura que existia na Bahia, no final dos anos 1950. y O senhor passou pelas ciências sociais, foi para o direito, adiante fez doutorado nesta área, e há outras transições: como se deu a passagem da Faculdade de Direito para a Sudene, depois para a Faculdade de Administração e, finalmente, para a Faculdade de Educação? Me formei em direito e sempre gostei de direito do trabalho. Fui estagiário na Procuradoria Regional do Trabalho e na Comissão de Planejamento Econômico, liderada por Rômulo Almeida. Na faculdade estava ligado a um grupo que discutia muito a ideologia do desenvolvimento. Eram os anos dourados de JK [Juscelino Kubischek], com grande influência do Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros),[Antônio Luís] Machado Neto à frente. [Alberto] Guerreiro Ramos deu curso para nós, Roland Corbusier também. Ao me formar, fiz concurso para juiz e passei, mas não tinha vaga, eram só três juntas naquela época. Logo abriu um concurso para a Sudene e eu prestei. Apresentei uma pequena monografia sobre reforma agrária e fui fazer o primeiro curso de desenvolvimento econômico da Sudene com os técnicos da Cepal [Comissão Econômica para a América Latina]. Quebrei a cabeça com as estatísticas, ralei um bocado, mas consegui passar e ter meu primeiro emprego com carteira assinada. O escritório da Bahia estava sem chefe, fui nomeado chefe substituto. Mas em 1962 uma grande seca levou à instituição das frentes de trabalho e lá fui eu compor a Comissão da Seca em Recife. y Esse período de Sudene é, então, um desvio de rota?

20 | julho/agosto de 2015


Não, porque atendia muito aos meus desejos de aprender sobre desenvolvimento e teoria do desenvolvimento. Enquanto eu chefiava o escritório na Bahia, o professor Carlos Brandão deixou a Escola de Administração e me indicou para substituí-lo e lecionar economia. Minha entrada como docente na universidade foi por essa porta, em 1962. Transferido para Recife, fui trabalhar no Departamento de Industrialização da Sudene. E estava lá quando fui nomeado juiz. Eu estava empolgado com a programação em Recife, mas tinha me formado em direito, queria escrever a tese de doutor em direito – era um sistema de doutorado antigo –, então deixei a Sudene, voltei à Bahia e assumi o cargo de juiz da cidade de Maragogipe. Como me sobrava tempo, escrevi a tese e reassumi a Faculdade de Administração. Ficava entre Maragogipe e Salvador, viajando de navio. Tinha casa lá e aqui. Permaneci como juiz por sete anos, até 1970. Em 1968 doutor Roberto Santos precisou de uma pessoa que tivesse conhecimento em planejamento e desenvolvimento, então fui montar a Assessoria de Planejamento da UFBA com ele. Eu já era docente livre de economia, tinha feito o concurso na Faculdade de Direito – um grande concurso que permitia chegar à cátedra. Porque quando eu estava com a tese pronta, Silvio Farias me disse que a docência livre de economia política estava aberta, já que o professor Augusto Alexandre Machado ia se aposentar, e me aconselhou a apresentá-la para docente livre e não para doutor. Assim eu levaria os títulos de doutor e docente livre. y E o senhor deixou a Faculdade de Administração? Não, porque a docência livre era um título, não um cargo. E, uma vez que era juiz e professor, alcancei um dos grandes objetivos que tinha: estudar na França. Carlos Coqueijo Costa, presidente do Tribunal Regional do Trabalho, me concedeu licença de um ano para eu estudar para o doutorado em desenvolvimento econômico. Em 1964 e 1965 cursei a Universidade de Paris e o Instituto de América Latina, onde desenvolvi o início da minha tese sobre o papel do setor público no desenvolvimento do Nordeste com o professor Alain Barrett. y Sergio Mattos lhe perguntou por que, ao se formar em direito, o senhor não foi para o exterior como tantos faziam. Não podia. Meu emprego era na Sudene, ela não concederia tal licença. Quando mais tarde pude viajar, sabia que fazer doutorado em um ano é impossível e o que fiz foi preparar o concurso de cátedra. Mesmo assim, fui promovido ao segundo ano do doutorado do terceiro ciclo, cuja certidão me deu Fernand Braudel, nada mais nada menos. Mas minha licença terminara, eu tinha que voltar para o Brasil. Havia ainda o rodízio da docência livre, que eu precisava atender. Por esse sistema, três docentes livres se revezavam anualmente na cátedra de economia política. Era a minha vez e se eu não voltasse perderia a cátedra. Voltei em 1965. y E que cursos o senhor conseguiu fazer lá? Além do curso de desenvolvimento da América Latina, fiz

eu estava ligado a um grupo que discutia muito a ideologia do desenvolvimento. eram os anos dourados de jk, com grande influência do iseb

um seminário com Alain Barrett durante um ano e apresentei minha proposta de tese. Assisti às aulas de Bartoli Raymond Barre, que compunham um bom curso na faculdade de direito. E, como todos os estudantes estrangeiros, fui mandado a um seminário de metodologia para aprender a fazer o plano da prova e o plano da tese. A maneira bem cartesiana de arrumar as ideias. Foi minha descoberta para o método, com Descartes. Li Descartes, Henri Guitton e todos aqueles que ajudavam a entender a lógica e a clareza do pensamento francês. Eu digo que é a descoberta do método, me tornei cartesiano para o resto da vida. Voltei de lá com um projeto de tese, com minha filha bebê e com a ideia de escrever um ensaio sobre o ordenamento das ideias do ponto de vista cartesiano. Eu o publiquei depois pela editora Ática, e o livro está na nona edição. Isso é minha experiência cartesiana na França. Minha outra experiência – comportamental – foi anos depois, nos Estados Unidos. y Fiquei com a impressão de que seu trabalho na reitoria teve uma grande importância na sua carreira. Está correta? Sim, porque assisti doutor Roberto conduzir a reforma da universidade, desestruturar a universidade por cátedra e construir uma universidade montada sistemicamente e em departamentos. Fomos nós que ajudamos a fazer a departamentalização e a distribuição do pessoal docente. É aí que se organiza o campo do conhecimento básico e se criam os Institutos de Matemática, Química, Física, Biologia, a Faculdade de Letras e também a Faculdade de Educação. Então, todos os professores que ensinavam essas disciplinas básicas foram deslocados para os institutos. y Mudança que eles não apreciaram muito. No começo, não. Mas a ênfase no conhecimento básico científico permitiu depois o desenvolvimento da ciência e das tecnologias na Bahia. Eu estava plenamente nesse projeto com doutor Roberto, que orientava e supervisionava tudo muito de perto – com o raciocínio funcional e a inteligência que tem para os números, sempre dizia que não seria difícil, que era para ir fazendo –, quando ocorreu uma crise na bahiaciência | 21


Secretaria de Educação. Meu amigo Luiz Navarro de Brito não pôde continuar como secretário por pressão dos militares. Ao voltar de uma viagem aos Estados Unidos, Navarro viu que as coisas estavam muito difíceis e decidiu ir para a Europa. Antes indicou alguns nomes ao governador, que se fixou no meu. Era o final do governo. Fiquei um ano e um mês, com enormes obras para terminar. y Quais os destaques entre elas? O convênio para criar as escolas polivalentes. Fizemos 40, bem construídas e equipadas, todos os professores com licenciatura. Mas talvez a razão mais forte para Luiz Viana ter me chamado tenha sido o programa que começara com Navarro de interiorização da educação, com quatro faculdades de formação de professores – em Feira, Conquista, Alagoinhas e Jequié. Eu estava em dia com isso, trazia a experiência da reforma da UFBA. O governador queria também criar uma universidade do sul da Bahia, mas não houve lideranças educacionais para isso na região. Ao mesmo tempo, o pessoal de Feira de Santana começou a se mexer. y E nesse momento começa seu trabalho pela criação da Universidade de Feira de Santana. Exatamente. As personalidades mais eminentes da cidade começaram a pensar numa faculdade de medicina e foram pedir apoio a Luiz Viana. E ele lhes disse que Feira merecia uma universidade. É sua, portanto, a ideia. Ele mandou uma lei à Assembleia Legislativa para que criassem as condições para a fundação da universidade e a promulgou em janeiro de 1970. Eu cheguei à secretaria em 15 de fevereiro de 1970. Além das escolas polivalentes e faculdades de educação, havia que acompanhar as obras de ampliação do estádio Otávio Mangabeira, da Biblioteca Central dos Barris, do Museu das Alfaias, em Cachoeira, que já tinha sido inaugurado, e mais o programa dos Centros Integrados. Mais ainda: fui aos Estados Unidos para visitar secretarias de educação e universidades e, ao voltar, deparei com a proposta de Pedro Calmon para a criação do Parque Castro Alves, em Muritiba, na Fazenda Cabaceiras, onde o poeta nasceu, a cerca de 150 quilômetros de Salvador. Como faria? Falei com Hildérico Pinheiro de Oliveira, fizemos uma visita a Cabaceiras, encontramos uma escola rural e decidimos que ali seria o parque. Deram-me um arquiteto, mas ninguém sabia o que era parque na Bahia, este era o primeiro. Hildérico trabalhara com Anísio Teixeira, e foi fundamental nesse projeto. Pedro Calmon também desenhou o que imaginava. O parque acabou saindo no segundo semestre de 1970. Deixamos a localidade com quatro salas de aula, então o curso primário completo. y Como está o parque hoje? E quanto ao parque de Canudos? Ah, cresceu! Está florido e bem cuidado. Quando o terminei, Renato Ferraz disse que podíamos pensar num parque em Canudos, mas o governo estava no fim. Fiquei com a ideia e, quando voltei à Secretaria em 1983, o próprio Renato, que foi o guia de Mario Vargas Llosa para escrever A Guerra do 22 | julho/agosto de 2015

fim do mundo, reuniu a documentação, e eu mandei fazer o levantamento das terras. São três Canudos. A mais antiga foi destruída pela guerra, que tinha o propósito de não deixar pedra sobre pedra. Mas as pessoas voltaram pouco a pouco, de 1897 a 1968, e reconstruíram a vilazinha. Quando Getúlio Vargas, como presidente da República, vai a Canudos, os moradores pedem um açude. Resolvem fazê-lo em cima do Vaza-Barris, onde estava essa Canudos retomada. Talvez, no subconsciente, houvesse a esperança de que a inundando se acabasse de vez com sua memória. Mas não acabou nunca. Essa foi a segunda Canudos. Por último, enquanto constroem o açude, na parte alta começa a surgir uma outra vila, a terceira Canudos. Essas terras que estão em volta, de um lado da Canudos inundada, onde se deram realmente os embates, é que foram reservadas para parques. São 1.300 hectares. Agora está sendo feita sua regulamentação fundiária. y O que tem dentro da área? Os lugares das sepulturas, os lugares dos principais confrontos entre as tropas, tem as trincheiras dos conselheiristas e dos militares, e tudo isso está sendo preservado. Quando criei o parque mantive o pessoal que estava lá dentro, não tivemos dinheiro para relocação. Com a regulamentação fundiária, vamos ter que cercar e reservar a parte onde tem as incidências históricas, não pode ter gente nem animais. Isso está sendo feito pela Uneb, que tem um compromisso com o semiárido e a negritude. Já tem lá um Memorial do Conselheiro, tudo feito por influência de José Calazans, o grande historiador de Canudos, cujo centenário se comemora neste ano. Até 1950, dizia-se que não era necessário estudar Canudos porque tudo estava em Euclides da Cunha. Eu dizia que tudo começava em Euclides. Calazans começa a pesquisar a sério Canudos e constrói uma vasta bibliografia a respeito. y Em relação à Universidade de Feira de Santana, como foi seu trabalho até poder dizer: “está pronta”? Depois da lei que permitiu ao governo criar condições para fazer a universidade, uma fase importante foi a implantação do Conselho de Administração, do qual fiz parte até a universidade ser autorizada, já no governo Roberto Santos. Demorou seis anos. y Quando o senhor foi para a Faculdade de Educação? Ante mesmo de deixar a primeira gestão na secretaria estava ajudando Leda Jesuíno a concretizar a faculdade com as ideias de Anísio Teixeira. Ele foi pioneiro também na concepção dessas faculdades, ao criar a Universidade do Distrito Federal, em 1934. Depois de escrever a tese de professor titular, me submeti ao concurso na Faculdade de Educação em 1971 e no mesmo dia da defesa fui eleito para a Academia de Letras da Bahia. Em agosto eu voltaria para a França. y Para fazer o segundo ciclo? Não, vou ao Instituto Internacional de Planificação da Educação da Unesco, com bolsa da Unesco, para estudar planeja-


teca fantástica, foi impactante. Eu trabalhava o dia inteiro na universidade, na parte da library, e por isso intitulei a tese “Viagem à segunda casa. Pen State, Pennsylvania State University, é a cabeça de um sistema de 19 escolas na Common Royalty da Pensilvânia. Nova York também é assim, Albany e outros campi, e o mais poderoso de todos é a Universidade da Califórnia, com um sistema de universidades, street colleges, etc. A ideia de multicampi ficou então muito clara em minha cabeça. Em 1983, fui nomeado secretário por quatro anos.

mento, financiamento da educação e educação continuada. Aí fui conhecer a educação a distância por correspondência na França, que mandava seus pacotes para o mundo inteiro. Conheci o país por dentro para ver como o departamento da educação funcionava. Fomos à Suíça e à Itália também, voltei, fui coordenar o mestrado, depois fui para os Estados Unidos fazer mestrado e doutorado em educação. y Sua formação não tinha ultrapassado essa etapa? Eu comecei a trabalhar em educação empiricamente, e queria me aprofundar, ter um conhecimento sistemático. Daí me arrumei com a família para ir. Fomos todos por três anos e os filhos aproveitaram bem. y De lá trouxe sua concepção da Uneb? Para mim foi um desafio viver nos Estados Unidos. Meu inglês era de restaurante, na base do “give me” etc. Tive que estudar bastante para escrever papers e participar das aulas. Foi um desafio muito grande para os meus filhos também, porque não sabiam inglês. Lídia foi para a grade 1 por dois anos e nos disse que, se ficasse ali, entraria em qualquer universidade americana, mas não passaria nos vestibulares do Brasil. Então voltou um ano antes. Eu tirei o mestrado profissional na rota do doutorado, fiz o Ph.D, com o exame escrito para sete áreas. Foi o maior desafio da minha vida, felizmente passei neles todos. Depois comecei a preparar a tese, levei um ano fazendo e em três anos vim embora. O doutorado era em administração da educação, então escolhi para estudar do ponto de vista administrativo, histórico e legal o Conselho de Educação, de 1963 a 1975. A experiência de estudar numa universidade americana, com uma biblio-

y O governador era... João Durval Carneiro. Fiz então seis leis para a Secretaria de Educação: transformando o Irdeb [Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia] em fundação, criando o sistema de arquivos da Bahia, instituindo o Conselho de Educação, criando a Secretaria de Cultura, reformando a Secretaria de Educação e criando a Uneb. Ao mesmo tempo trabalhei com as lideranças regionais para a Universidade do Sudoeste da Bahia, em Conquista. Deixei tudo pronto, saí no dia 15 de março, no dia 2 de abril saiu a autorização. Já a Uneb hoje tem 24 campi, 35 mil alunos. Quase o tamanho da UFBA. y A Uneb tem o mesmo modelo da Unesp. Vocês dialogavam? Sim, isso foi sumamente importante. A Unesp já estava criada e o reitor Armando Otávio Ramos veio me dar uma assessoria gratuita. Também o vice-reitor de planejamento da Universidade de Quebec, no Canadá, veio me ajudar na elaboração da lei de criação da Uneb, tanto que ela é perfeita. A Universidade de Feira de Sanana nesse momento estava se consolidando para ter o credenciamento, e eu consegui deixá-la credenciada, prontinha. y Em que o senhor concentrou sua atividade com educação após deixar a secretaria? Na UFBA. Nunca abri mão de ser professor. Quando não deu para dar aulas, criei o doutorado em educação, o primeiro do Nordeste, e passei a coordená-lo a partir de 1992. Aí fui chamado para o jornal A Tarde, em 1995. y Como foi a experiência de dirigi-lo? Quando assumi o cargo de diretor-geral, minha primeira preocupação foi a internet. Só quem tinha internet aqui, em 1996, era a UFBA. Contei com Alberto Oliveira, emprestado pela UFBA, para instalar internet no jornal. y Sua passagem se deu num período complicado do jornal, com troca de comando, administração de dívidas... Sim. É um tempo de queda das vendas, queda das assinaturas, e lutei para enfrentar tudo isso. Dei ênfase ao programa A Tarde na Escola. Fiquei até 2012, 17 anos nos quais o jornal mudou muito. w bahiaciência | 23


capa

biologia molecular

Caminhar sem dor Terapia com células-tronco livra pacientes de dores provocadas por lesões ósseas

Edvan Lessa | ilustração Mauricio Pierro

O

paciente Rodrigo Santos Costa, de 38 anos, estava sob o efeito da anestesia geral no centro cirúrgico do Hospital das Clínicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde trabalha como auxiliar de arquivo. Antes que adormecesse, o professor Gildásio Daltro, pesquisador e médico ortopedista com larga experiência, lhe perguntou se a última operação feita na cabeça do fêmur para livrá-lo da dor na perna tinha surtido o efeito esperado. Num sussurro, o paciente confirmou e em seguida cerrou os olhos, com evidente expectativa pelo sucesso da segunda cirurgia. Naquela tarde, 20 de fevereiro, a equipe de nove profissionais, entre eles dois residentes de medicina, coordenada por Daltro, preparou a caixa de equipamentos, incluindo a agulha de punção que o mestre fixou no quadril esquerdo do paciente e com a qual retirou cerca de 100 mililitros de sangue transportados diretamente por fino tubo a bolsas

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Nas bolsas de transfusão se encontram as células-tronco capazes de se multiplicar, reconstituir outras células, tecidos e órgãos e regenerar a morte precoce do tecido ósseo

de transfusão. Aí se encontravam as células-tronco capazes de se multiplicar e reconstituir outras células, tecidos e órgãos que 1 hora e 15 minutos depois de levadas para outra sala e separadas em um aparelho importado (Sepax) foram injetadas de volta no homem ainda acamado, desta vez na cabeça do fêmur necrosada.

O

procedimento faz parte de uma pesquisa realizada em parceria com o Instituto de Ciências da Saúde (ICS) da UFBA e a Universidade de Paris, na qual pacientes com lesões ósseas — a maioria provocada pela anemia falciforme — são tratados com células-tronco autólogas, isto é, da própria pessoa. O objetivo é regenerar o osso atingido pela morte precoce do tecido ósseo. “Teremos proteínas morfogenéticas e terão crescido osteoblastos, fibroblastos, condroblastos e adipócitos”, enumera o médico, ao se referir às proteínas que regeneram o osso. Para levar as células-tronco até o tecido ósseo, foi feita uma perfuração puntiforme no quadril do paciente que permanecera sob anestesia. Através desse ponto, os médicos introduziram uma furadeira de pequeno calibre e perfuraram o osso necrosado. Com uma agulha, e depois uma espécie de tubo, chegou-se até a cabeça do fêmur e foi injetado o material celular previamente preparado. Todo o procedimento era acompanhado com atenção por dois monitores que recebiam a imagem de um grande aparelho, o arco em C ou intesificador de imagem, que emite uma luz fraca. Passadas 48 horas, Rodrigo voltou para a casa. “Em setembro de 2013 eu comecei a sentir fortes dores que se estendiam até a perna. Eu tomava remédio e elas não passavam, aí fui procurar ajuda”, lembra Rodrigo. Em fevereiro, cerca de 20 dias depois da cirurgia, ele não se queixava mais de dor e aguardava a revisão médica para saber se aposentaria, ao menos parcialmente, o par de muletas. Cerca de 480 pessoas de todo o Brasil já foram submetidas ao procedimento realizado no Complexo Hospitalar Professor Edgard Santos (Hupes), nome oficial do Hospital das Clínicas, única instituição com autorização do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) para realizar a terapia, gratuita, à base dessas células que se autorrenovam. Ali, Daltro atua com mais oito estudantes de

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pós-graduação do ICS, incluindo biólogos e bioquímicos; a mesma equipe do dia da cirurgia de Rodrigo. No passado, para tratar de pacientes com osteonecrose, os médicos removiam o osso necrosado. Em 1986, uma técnica para manter a esfericidade da cabeça do fêmur foi testada. Em vez de substituir o osso, foi injetado no local necrosado cimento de metil metacrilato em forma líquida, que, se transformando ali numa substância dura, porosa, não elástica e resistente, recompôs a estrutura óssea. Pioneiro dessa técnica, o hospital francês Henri Mondor obteve depois avanços no procedimento e substituiu, em 2000, o polímero por uma mistura de fósforo e cálcio. Substâncias responsáveis por assegurar a rigidez óssea, elas foram aplicadas com as células-tronco em pacientes que tinham osteonecrose em estágio inicial. Quatro anos depois, a terapia começou a ser testada no Brasil em pacientes com anemia falciforme, doença que, segundo o Ministério da Saúde, acomete de 25 mil a 50 mil pessoas no Brasil, apresenta alta morbidade e mortalidade precoce. A prioridade hoje continua sendo esse público, tanto que 63% das pessoas submetidas até agora à terapia exclusiva com células-tronco no Hospital das Clínicas, ou seja, 300 delas, são falcêmicas.

E

m cerca da metade dos casos, a osteonecrose atinge a cabeça do fêmur, e o restante se distribui democraticamente por outras partes do esqueleto. O pior é que a lesão óssea resultante da anemia falciforme aparece no adulto jovem, na fase entre 18 e 40 anos. “É triste, porque esta é uma fase intensamente produtiva da vida e tudo que tínhamos a dizer até bem pouco tempo aos pacientes com lesões invalidantes ósseas e de articulações era: ‘aguardem para colocar uma prótese quando tiverem 50, 60 ou 65 anos’”, comenta o professor Daltro. É também esse discurso que sua pesquisa se propõe a mudar. Anemia Falciforme

Embora atinja brancos e pardos, a anemia falciforme é mais comum entre negros e, portanto, de enorme incidência entre baianos. “É uma doença genética, decorrente de uma característica vinda de cada um dos pais, que leva a um defeito em uma substância existente no nosso


glóbulo vermelho – a hemoglobina, que é responsável pelo transporte do oxigênio por todo o nosso organismo”, esclarece a pesquisadora Marilda Gonçalves, do Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz da Fundação Oswaldo Cruz (CPqGM-Fiocruz). Esse defeito modifica o glóbulo vermelho, que normalmente é bicôncavo e muito flexível, para um formato alongado que lembra uma foice – daí a palavra falciforme no nome da doença. Essa transformação é chamada de falcização e ocorre principalmente em condições de baixa de oxigênio.

U

ma característica comum da doença é a ocorrência de dolorosas crises vaso-oclusivas (obstrução de artérias e veias). As células deformadas ficam rígidas e propensas a se agrupar e aderir ao endotélio (parede interna do vaso), dificultando a circulação do sangue. Além de inflamação, esse bloqueio pode provocar úlceras nas pernas, descolamento de retina, acidente vascular cerebral, infarto, insuficiência renal e pulmonar e problemas ortopédicos. Enquanto o diagnóstico da necrose óssea é feito por meio de radiografia e ressonância magnética, a detecção da anemia falciforme se dá por meio da técnica de eletroforese, que consegue detectar a hemoglobina defeituosa chamada “S”. Em recém-nascidos, o teste do pezinho – realizado na Bahia pela Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), que atende cerca de 3.500 crianças por ano — mostra se o bebê herdou a doença dos pais. Dados do Ministério da Saúde mostram que nascem no Brasil cerca de 3,5 mil crianças por ano com doença falciforme e 200 mil com o traço falciforme — quando a pessoa recebe o gene defeituoso de apenas um dos pais e a doença não se manifesta — entre os recém-nascidos vivos. A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) estima que a incidência da doença falciforme seja de 1 por 650 nascidos vivos no estado. Já para o traço falciforme, o percentual varia entre 7% e 10% dos nascidos vivos.

fotos  •Victória Libório/Divulgação: Ascom HUPES

De uma dorzinha à incapacitação

“Dizemos que há uma fase zero da anemia falciforme, na qual a pessoa sente uma dorzinha, cuja causa passa despercebida pelos exames; a fase um, em que a radiografia não mostra nada, mas a ressonância, sim; a dois, em que os dois exames mostram o problema, sendo que na ressonância a necrose está mais avançada”, explica Gildásio Daltro. “Na fase três, a cartilagem já está bastante prejudicada e quase não dá para fazer a terapia celular, e a quatro já é artrose.” Dados mais precisos sobre o estado dos pacientes após a operação devem ser em breve publicados em uma revista científica internacional. Perto do seu quingentésimo paciente, Daltro ressalta que a eficácia de toda a terapia se dá quando a pessoa deixa

Como é feita a reconstituição óssea Células-tronco do próprio paciente produzem substâncias capazes de regenerar tecido necrosado

1. Após a anestesia geral no paciente, a equipe médica utiliza uma agulha de punção no quadril esquerdo e retira 100 mililitros de medula óssea, contendo células-tronco.

2. Distribuídas em bolsas de transfusão sanguínea, as células são levadas para outra sala e separadas em um aparelho chamado Sepax, onde ficam por 1h15 minutos.

3. Com uma furadeira de pequeno calibre é feita uma perfuração no osso necrosado do paciente.

4. Devidamente preparadas, as células-tronco autólogas, ou seja, do próprio paciente, são aplicadas no osso com necrose.

5. Começam a crescer, então, as proteínas morfogenéticas – osteoblastos, fibroblastos, condroblastos e adipócitos –, que irão regenerar o osso.

6. Dois dias depois da cirurgia, o paciente é liberado.

bahiaciência | 27


de sofrer com a dor no osso ou articulações. “Saber quantos deixaram de usar muleta não é importante. Quando os pacientes passam pela cirurgia, esperamos que eles se livrem da dor”, afirma. Assim como o auxiliar de arquivo, muitos pacientes chegam ao pequeno consultório em que o pesquisador atende, no segundo andar do HC, usando muletas. Daltro as recomendou a Rodrigo, por exemplo, tão logo diagnosticou, há dois anos, sua osteonecrose bilateral, para evitar o agravamento do problema. O doutor Gildásio tem grande demanda de pacientes. De frente para o médico, a secretária Vanessa Sampaio administra a caixa de email do seu consultório. Grande parte das mensagens recebidas é de médicos ou de pacientes que tomaram conhecimento da eficácia da cirurgia pela mídia ou por meio de outros canais e querem se submeter ao procedimento. No ano passado, entre janeiro e junho, apenas uma cirurgia desse tipo foi realizada no Hospital das Clínicas, devido a “uma crise de gestão hospitalar”, segundo o pesquisador. Atualmente, 500 pessoas aguardam na lista de

espera. Alguns chegam a levar meses para ser atendidos, a exemplo do funcionário operado pela primeira vez em outubro de 2014. “O tratamento é muito bom, eu faria novamente. Agora vou correr atrás para pedir uma ressonância dos ombros, que incomodam bem menos, mas também doem”, relata Rodrigo Costa.

E

ntre os episódios mais curiosos de pacientes que chegam sem muita informação ao consultório, o professor Daltro lembra o de uma espanhola que percorreu quase 7 mil quilômetros, entre seu país e a Bahia, depois que seu médico lhe avisou sobre o tratamento existente em Salvador para melhorar a dor óssea. Acompanhada por seus seguranças, depois de insistir em prantos na recepção, Daltro a recebeu. Seu diagnóstico, porém, era de artrose — ele só trata osteonecroses —, e a espanhola teve que retornar ao seu país sem a terapia. Outro paciente que, mais recentemente, recebeu uma negativa de tratamento foi ninguém menos que o representante da Associação Baiana das Pessoas com Doenças Falciformes (Abadfal) em Feira de Santana, a 108 quilô-

O tratamento nos hemocentros Por ser uma doença hematológica, os pacientes da anemia

incluindo internação e intervenções cirúrgicas, quando

falciforme são tratados nos hemocentros (Hemoba). De

necessárias.

acordo com a hematopediatra e coordenadora do

Segundo o coordenador de Promoção da Equidade em Saúde,

ambulatório da Fundação Hemoba, Larissa Rocha, existem

Antônio Purificação, o plano de ação estava em construção no

aproximadamente 4.200 pacientes cadastrados, residentes na

mês de março, quando o orçamento também não havia sido

capital e no interior da Bahia. Destes, aproximadamente 55%

definido. Em julho, ele ainda não havia sido finalizado e a Sesab

são crianças e 45%, adultos.

não informou sobre sua conclusão. Uma das missões deste

De acordo com a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia

centro, diz ele, “será a elaboração de estudos para o

(Sesab), à qual os hemocentros estão vinculados, outros

desenvolvimento de novas tecnologias de saúde destinadas à

municípios também contam com o acompanhamento regular

melhoria da assistência e qualidade de vida das pessoas com

desses pacientes, entre eles Camaçari (300 pessoas), Itabuna

doença falciforme e à evolução clínica dos pacientes”. A

(400), Ilhéus (100) e Barreiras (306 pessoas). “No Hemoba não

instituição também deverá formar e capacitar profissionais na

fazemos tratamento com terapia celular. Alguns pacientes

atenção às pessoas com doença falciforme, visando inclusive à

com necrose de cabeça de fêmur são encaminhados para

estruturação de uma rede estadual de cuidados a portadores de

avaliação ortopédica no Hospital das Clínicas e lá podem ser

doença falciforme.

indicados ou não para a terapia com células-tronco”, ressalta. Em janeiro passado, dias após a sua posse, o secretário da

Outras iniciativas no estado já investigam formas de melhorar o tratamento da doença falciforme. Uma delas é o Laboratório de

Saúde, Fábio Vilas-Boas, afirmou que a Bahia irá ganhar um

Hematologia, Genética e Biologia Computacional (LHGB) da

Centro Estadual de Referência para Atenção Integral à Saúde

Fiocruz. Criado em 2013, sob a coordenação da pesquisadora

das Pessoas com Doença Falciforme. A ideia do projeto foi

Marilda Gonçalves, o LHGB tem duas linhas de pesquisa voltadas

apresentada em um encontro com representantes das

ao estudo de doenças hematológicas. Atualmente, são

associações das pessoas com anemia falciforme.

desenvolvidos estudos em marcadores relacionados à alteração

Na ocasião, Vilas-Boas encarregou os técnicos da Sesab de

cerebrovascular, cujo acompanhamento clínico dos pacientes

apresentar um plano de ação para a implantação do centro. E

vem sendo realizado por pesquisadores do Hupes, além de um

afirmou que o atendimento será feito desde o diagnóstico

projeto multinacional com os países Benin e Nigéria, no qual

precoce e rastreamento da doença até o tratamento completo,

vários estudos sobre anemia falciforme estão sendo

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metros de Salvador, Sandoval Coutinho, 36 anos. Há pelo menos dois anos ele buscava uma vaga para ser submetido à terapia e curar a osteonecrose da cabeça do fêmur, depois que assistiu a um evento voltado aos portadores de anemia falciforme. “Estava caminhando na rua quando comecei a perder o movimento das pernas. Soube do tratamento em uma audiência pública, mas foi meu médico quem me encaminhou para saber se caberia a terapia com células-tronco”, contou. Meses após o primeiro contato, entretanto, Daltro lhe disse que somente a prótese traria alívio para as dores e o ajudaria a recuperar os movimentos da perna. Na pesquisa básica com cultura de células troncos, elas são estudadas in vitro, proliferam e se expandem em um processo que pode levar 21 dias. Nesse tempo, produzem as substâncias capazes de regenerar o tecido ósseo. Por terem mais capacidade de cumprir funções específicas, isto é, se diferenciar, são utilizadas células mesenquimais, extraídas de tecidos de organismos adultos.

Durante a cultura celular a osteonecrose pode até mesmo ser induzida com o uso de esteroides em excertos de osso. Nessa fase, investiga-se biomateriais que contenham nanocristais semelhantes aos já existentes no osso e que lhe dão a rigidez, junto com fibras de colágeno. O professor Daltro já atestou a vantagem de substâncias sintéticas como o beta-tricálcio. Trata-se de um osteocondutor em que as células de diferenciação e regeneração óssea aderem. Em janeiro último, o professor e a reitoria da UFBA comemoraram a promessa de destinação de R$ 700 mil para pesquisas com células-tronco na área de ortopedia e no tratamento da anemia falciforme, por meio de uma emenda de autoria do senador Walter Pinheiro (PT-BA), junto ao Orçamento da União de 2015. A verba deverá ser usada na compra de kits cirúrgicos. O dinheiro é uma mão na roda para obter “material de consumo”. No entanto, ainda está longe de ser o suficiente na construção de um centro de referência que Daltro almeja para desenvolver engenharia celular e inovação na extração e seleção de células-tronco. w

desenvolvidos e resultará na formação de oito mestres e oito

Transplantes tem até 180 dias para incluir a doença falciforme em

doutores da África.

seu regulamento técnico, de forma a garantir o acesso gratuito

Células adultas

Para a coordenadora do LHGB, entre as pesquisas referentes à doença que mais têm beneficiado os pacientes, tanto na Bahia

aos portadores que se encaixarem em critérios definidos. De acordo com a hematologista e pesquisadora da USP-

quanto fora do estado, estão as chamadas intervencionais,

Ribeirão Preto Belinda Simões, uma das responsáveis pelos

voltadas para o tratamento de úlceras e lesões ósseas, incluindo

estudos que contribuíram para a inclusão do transplante no SUS,

estudos de retinopatia (lesão não inflamatória da retina) na

essa terapia é a mesma realizada em pessoas com leucemia.

doença falciforme. “Estamos estudando aspectos associados à

Nesse processo, drogas quimioterápicas são usadas para destruir a

inflamação e à resposta terapêutica da única droga utilizada no

medula óssea do paciente, que produz células sanguíneas

tratamento da doença, que é a hidroxiureia”, ressalta. Esse

defeituosas. Depois disso, são introduzidas células-tronco da

quimioterápico eleva os níveis de hemoglobina fetal e tem sido

medula de um doador compatível para que seja criada uma nova

estudado tanto em crianças quanto em adultos.

fábrica de células sanguíneas sadias — o que não significa que

Em São Paulo, pesquisadores da Faculdade de Medicina de

todas as pessoas necessitem desse procedimento. “Não significa

Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) vêm testanto a

que todos necessitem do transplante, ele inclui critérios específicos.

viabilidade do transplante de medula óssea no tratamento da

E a importância para as pessoas com doença falciforme é que, por

anemia falciforme, considerado o único capaz de curar a doença.

serem socialmente menos favorecidas, não contavam com o

No dia 10 de julho, uma portaria do Ministério da Saúde publicada

tratamento no SUS”, explica. Ainda segundo Berlinda Simões,

no Diário Oficial da União incorporou o procedimento ao SUS,

mesmo com sucesso de 85% a 90%, as pesquisas continuam para

reconhecendo estudos que demonstravam um aumento na

saber que outros danos são revertidos após o transplante.

sobrevida de dois anos em 90% dos casos transplantados. E, no

Já em relação à terapia para recuperação do osso com

caso das pessoas com doença falciforme, notou-se que elas

necrose, Belinda Simões, que também é membro da Sociedade

deixaram de utilizar a morfina para o controle da dor após o

Brasileira de Transplante de Medula Óssea, observa que se trata de

transplante. A Portaria nº 30 refere-se ao transplante de células-

um procedimento complementar. “O transplante de medula óssea

tronco hematopoéticas entre parentes, a partir da medula óssea,

reverte o quadro da doença e o paciente não tem mais anemia

feito com sangue periférico ou do cordão umbilical. Ainda de

falciforme. E a osteonecrose é consequência da doença. Mas, se o

acordo com as informações da Agência de Saúde, a partir da

dano ocorreu, o paciente não consegue revertê-lo com o

publicação do documento oficial, o Sistema Nacional de

transplante”, conclui.

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publieditorial

A UFBA na trilha editorial

Prioridade da nova gestão da Universidade Federal da Bahia, que tem à frente o Reitor João Carlos Salles, a produção editorial da UFBA alcança novos índices de produtividade, ultrapassando mil títulos em catálogo, renovando a memória da universidade e disseminando a comunicação científica junto aos mais diferentes públicos. Às vésperas de comemorar os seus 70 anos de vida, a Universidade Federal da Bahia demonstra na prática a disposição em fazer da comunicação científica um dos pilares mais importantes de sua atuação acadêmica. Tendo por base o trabalho de inúmeros Grupos de Pesquisa e de Extensão nas mais diversas áreas de conhecimento, e a confluência dessa produção para a EDUFBA (Editora da Universidade Federal da Bahia), a instituição cumpre um papel fundamental na difusão do conhecimento, inclusive fora dos limites da universidade, publicando pesquisas, teses e trabalhos acadêmicos diversos que priorizam a conexão com a cultura, o comportamento, os avanços técnicos e científicos, a atualidade. Além de socializar o conhecimento e a cultura, as publicações promovidas pela UFBA abrangem todas as áreas acadêmicas e temas que muitas vezes não encontram espaço nas editoras privadas, atuando em prol da formação, da disseminação do que é produzido pelas instituições de ensino superior e da preservação da memória. Nos últimos anos, a

editora manteve a média anual de 80 títulos publicados, embora no ano de 2014 tenha comemorado a marca de 120 novas publicações. Em termos de novos formatos de atuação, registra-se a importância de eventos como o Festival de Livros e Autores da UFBA, que a partir de dezembro de 2014 vem animando a cena cultural da cidade. O mais relevante, como explica Flavia Rosa, diretora da Edufba, é a construção de uma política editorial consistente, que dialogue com os macro objetivos da instituição, algo que a prática dos últimos anos tem norteado e que a atual gestão prioriza. Bons resultados tem sido obtidos na ampla divulgação do que se produz em pesquisa para além dos muros da universidade, inclusive promovendo o acesso gratuito às publicações. “Além da disponibilização física do livro nas bibliotecas, temos um portal virtual (www.repositorio.ufba.br), denominado Repositório Institucional (ver Box), onde oferecemos cerca de 400 títulos em sistema de acesso aberto para qualquer cidadão, em qualquer lugar do mun-


do... O RI é uma grande vitrine do que é produzido em termos de pesquisa na UFBA”, observa. Além de colocar a produção em três livrarias no próprio Campus, a UFBA adota um sistema de parceria comercial de distribuição a partir de São Paulo (o maior mercado nacional), e realiza a distribuição dos seus lançamentos, de forma regular, nas Livrarias Saraiva, Cultura, LDM e livrarias das demais universidades, através das editoras universitárias. No total, a Edufba conta com um catálogo com mais de mil títulos publicados e acompanha as tendências do mercado editorial, seja através do formato e-book, seja possibilitando o acesso aberto de sua produção. Além disso, promove periodicamente eventos abertos ao público, permitindo o acesso às publicações do ano a preços promocionais. Iniciativas como essa, aliás, refletem a importância dada pela atual Reitoria da UFBA à produção editorial da universidade, no sentido de abrir novas frentes e garantir novas possibilidades de absorção da produção universitária.

tégias de promoção, divulgação e comercialização e de uma ação conjunta com as demais editoras universitárias brasileiras. Em consonância com toda essa evolução tecnológica para a “construção” do livro em seu aspecto visual, a Edufba não se descuidou da parte textual, investindo no Setor de Preparação e Revisão de Textos. Aprimorou-se, portanto, nas etapas da revisão de provas, normalização, revisão de linguagem e editorial dos textos a serem publicados, ampliando o controle de qualidade das edições. Ao lado disso, a Edufba investiu na ampliação de sua equipe, criando inclusive um programa de estágio para aproveitamento dos alunos dos cursos de Biblioteconomia (treinados para normalização), Letras (revisão de textos), Desenho Industrial – design gráfico (criação e editoração), Comunicação (divulgação e eventos). “São estágios que tem contribuído para capacitar esses alunos para atuação na área editorial, além de promover uma integração práticoteórico essencial para a formação desses discentes”, observa Flavia Rosa.

Política cultural – As primeiras atividades edi-

toriais na UFBA datam de 1959, mas, somente no início da década de 1990 é que nasce a Editora da UFBA (Edufba) para se responsabilizar pela disseminação da produção científica universitária, que passou a se inserir na política cultural da instituição. O nascimento da editora coincide com as mudanças tecnológicas na pré-impressão de livros, graças às novas tecnologias de composição de texto, ou seja, a editoração eletrônica – desktop publish – através do uso de PCs. Até então, as ilustrações eram feitas a nanquim. A prancheta e a régua paralela eram “equipamentos” indispensáveis, assim como as letras-set, o normógrafo e as máquinas de datilografia elétricas para composição do texto. Em setembro de 1998, tem início uma fase de reestruturação interna da editora, base para a renovação tecnológica e conceitual que marca o estágio atual da Edufba. Primeiramente, criou-se um Setor de Editoração, estruturado com equipamentos (computadores) e softwares adequados à atividade editorial. Aliando sensibilidade estética, domínio da tecnologia na área de editoração eletrônica e sintonia com os novos materiais disponíveis no mercado na área de acabamento, a editora logo firmou-se no mercado editorial local e nacional, mediante estra-

Repositório institucional Pelo novo Estatuto da Universidade, a Editora da UFBA tornou-se, desde 2010, um órgão estruturante, como Sistema Universitário Editorial, vinculado diretamente ao gabinete do reitor. Nesses mais de vinte anos de atuação, pode-se afirmar que a produção da editora é representativa das diversas áreas do conhecimento, muito embora continue existindo um descompasso entre a produção científica da universidade e o que é de fato publicado pela Edufba. Foi pensando na ampliação de canais para disseminação e democratização do conhecimento, que, em 2007, implantouse o Repositório Institucional da UFBA, com acesso aberto à produção científica e acadêmica, tendo a Edufba sido definida como unidade piloto. A implantação do Repositório requereu, além do levantamento realizado junto aos pesquisadores da instituição e membros das instâncias superiores responsáveis pela pesquisa e pelo ensino de pós-graduação na UFBA, o posicionamento de membros do Conselho Editorial da Universidade. O novo sistema permitiu o reordenamento da comunicação científica, visando à igualdade de acesso aos resultados de pesquisa financiados com recursos públicos, potencializando uma interpenetração dos processos da comunicação e da divulgação científica, aproximando esses conceitos e possibilitando maior interação entre cientistas e leigos. bahiaciência | 31


Conjuntura

Simpósio

A Bahia tem Propensão a Inovar? Especialistas reunidos em simpósio apresentaram diagnósticos agudos e caminhos possíveis para autoridades, pesquisadores e empresários do Estado

FabrÍcio Marques

Complexo Eólico Desenvix Bahia, em Brotas de Macaúbas: o setor de energia é um dos criam oportunidades de inovação no estado

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foto  Zig Koch/SECTI / SEINFRA/CIMATEC-SENAI-BA

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um momento em que a economia brasileira vive uma recessão e a necessidade de inovar se reafirma como essencial para superar a crise, o simpósio Propensão a Inovar do Empresariado Baiano, realizado entre os dias 27 e 29 de maio, apresentou diagnósticos agudos e caminhos possíveis para pesquisadores, gestores e empresários do estado presentes no Salão Lazareto da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), em Salvador. O evento, promovido pela Academia de Ciências da Bahia (ACB), com apoio da Fapesb e patrocínio da Ferbasa Companhia de Ferro Ligas da Bahia, reuniu mais de uma dezena de especialistas numa programação que abordou temas como as origens e as limitações do sistema de inovação da Bahia, as oportunidades de inovação no estado em setores como energia e saúde e a questão da propriedade intelectual, entre outros (*leia a cobertura completa em www.bahiaciencia.com.br).

*Participaram da cobertura Mariana Alcântara, Mariana Sebastião e Nádia Conceição.

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polopetroquimico

Polo Industrial de Amilcar Baiardi, professor da Universidade nológicas de São Paulo (IPT) e superintendente Camaçari: responsável Católica de Salvador (UCSal) e principal organide inovação tecnológica do Conselho Nacional por uma mudança de zador do simpósio, abordou a evolução da mende Desenvolvimento Científico e Tecnológico mentalidade sobre inovação na economia talidade empresarial na Bahia, desde o complexo (CNPq), repetiu um diagnóstico que permeou da Bahia, com a açucareiro escravista até a contemporaneidade. várias apresentações. Disse que o enfrentamengeração de produtos competitivos e novos Mencionou que, apesar da escravidão, tanto os to do problema envolve o aumento no invesnegócios senhores como os escravos promoveram inovatimento em educação, ciência e tecnologia. “É ções no processamento do açúcar. “Com o comnecessário aproveitar melhor a produtividade plexo têxtil, o Centro Industrial de Aratu, o Polo da Bahia e investir em educação. Sem invesPetroquímico, a indústria automotiva e as experiências timento em educação, ciência e tecnologia não iremos a bem-sucedidas do agronegócio no extremo oeste, Juazeilugar nenhum”, ressaltou. ro e extremo sul, vem se formando uma mentalidade que Inovação depende não só de investimentos, mas tamcogita investir em pesquisa e desenvolvimento”, afirmou. bém de criatividade, disse o engenheiro Irundi Edelweiss, membro da Academia de Ciências da Bahia (ACB) e da Fieb. advento do Polo Petroquímico para a Bahia trouEle destacou que não é trivial reunir “cabeças criativas”, caxe de fato uma mudança de mentalidade, avaliou pazes de movimentar o cenário empresarial. “Precisamos José Adeodato de Souza Neto, membro do Conbuscar as cabeças inteligentes, que não necessariamente selho de Inovação da Federação das Indústrias do Estado se encontram nas grandes corporações, mas estão por aí, da Bahia (Fieb), com a geração de produtos mais competiperdidas pelo interior, necessitando de estímulos e de uma tivos e a criação de novos negócios. Mas a dificuldade em formação voltada para a criatividade”, disse. Para Edelweiss, inovar ainda permeia o setor industrial. “As indústrias a Bahia tem que andar mais rápido, ser mais criativa, e ter instaladas na Bahia em geral são tradicionais, unidades de coragem para implantar as reformas necessárias, a fim de transformação que inovam muito pouco e apenas no final forjar uma universidade que estimule posturas inovadoda produção, na relação entre a fábrica e o cliente. Não é ras e cobre atitudes proativas dos estudantes em relação por ineficiência, é parte da regra do jogo estabelecido por ao desenvolvimento do estado e do país. Tais reformas, essas empresas”, afirmou. segundo ele, precisam ser pensadas a partir da educação Adeodato, cujo currículo inclui a passagem pelos cargos básica, porque um ensino deficiente nessa etapa vai alimende vice-presidente da Financiadora de Estudos e Projetos tar uma universidade também deficiente que, por sua vez, (Finep), diretor-executivo do Instituto de Pesquisas Tecdeixará de estimular uma cultura de inovação na indústria.

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foto COFIC / Comitê de Fomento Industrial de Camaçari

O


A Bahia tem que andar mais rápido, ser mais criativa e implantar reformas necessárias para forjar uma universidade que estimule posturas inovadoras, diz Irundi Edelweiss

O engenheiro destacou que a indústria e a tecnologia na Bahia são marcadas por três momentos importantes: o primeiro, o da criação do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Ceped), em 1966, cujo objetivo era desenvolver tecnologias inovadoras e prestar serviços tecnológicos; o segundo, o da implantação do primeiro mestrado das engenharias da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1987; e o terceiro, o momento atual, que sustenta uma perspectiva de fortalecer a inovação na Bahia, centrada na estrutura do Senai-Cimatec (Campus Integrado de Manufatura e Tecnologia), que presta serviços especializados e promove a pesquisa aplicada. A reflexão sobre questões de inovação e tecnologia, segundo ele, ainda é “insignificante na Bahia e no Brasil”. O baixo desempenho inovador das empresas baianas foi esmiuçado na palestra do professor Francisco Lima Teixeira, da Escola de Administração da UFBA. Segundo ele, variáveis como a instabilidade das instituições ligadas à ciência e tecnologia, uma infraestrutura industrial especializada em bens de baixo valor agregado e o desempenho ainda pouco qualificado de universidades e centros de pesquisa, além de investimentos pouco satisfatórios no estado, ajudam a compreender essa realidade. Teixeira abordou a desarticulação histórica entre os agentes do sistema local de inovação na Bahia. Lembrou que o estado teve uma fundação pioneira no país, a Fundação para o Desenvolvimento da Ciência na Bahia (Fundec), criada em 1950 e extinta em 1974. A reversão desse atraso histórico, segundo Francisco Teixeira, parece estar nos investimentos de longo prazo, principalmente em infraestrutura e numa política estável. Para o físico Marcelo Moret, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e coordenador do Programa de Pós-Graduação do Campus Integrado de Manufatura e Tecnologia do Senai-Cimatec, a formação de recursos humanos com capacidade de inovação é condição fundamental para reposicionar a Bahia no cenário nacio-

nal. Em função dessa necessidade, ele considerou positiva a expansão do sistema de pós-graduação brasileiro ao longo dos últimos 12 anos, ao formar contingentes de mestres e doutores em 3.613 programas. A Bahia teve um aumento significativo na distribuição quantitativa dos cursos. “De 2002 a 2014, os mestrados passaram de 17 para 72 cursos e os doutorados, de 42 para 166 cursos”, disse Moret. “Se em 2000 contávamos somente com um curso fora da capital baiana, agora temos 40% dos mestrados e 20% dos doutorados espalhados pelas universidades e centros de pesquisa no interior”, disse.

A

economista Ana Célia Castro, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), usou a China como exemplo de reformulação em políticas públicas que vem mudando o panorama em áreas como educação, ciência e tecnologia e indústria. Segundo ela, que é membro do Instituto de Estudos Brasil-China, o financiamento na China está acontecendo de maneira mais rápida do que no Brasil. “Na China, a inovação é o ponto de partida. Os empreendedores chegam com o produto no sistema bancário em busca de financiamento. Já no Brasil, a inovação é o ponto de chegada e passa por agências de fomento governamentais”, informou. Outro ponto-chave para avançar, segundo a economista, diz respeito à cultura nos escritórios de patentes no Brasil. Para ela, a burocracia impede que os pesquisadores brasileiros consigam registrar seus produtos e partir para a fase de comercialização. A economista também lamentou a falta de uma divulgação efetiva da ciência brasileira, que mostre de fato onde o Brasil está contribuindo. “É preciso fazer um esforço no campo da divulgação de nossos feitos para sairmos da situação do desânimo que norteia a sociedade brasileira neste atual momento de crise econômica”, completou. w bahiaciência | 35


Empreendedorismo

A última Gota Alunas de escola técnica de recife ganham menção honrosa em torneio internacional com game sobre o uso Racional de água Fabrício Marques

U

m grupo de cinco alunas da Escola Técnica Estadual Cícero Dias, em Recife, recebeu menção honrosa na última edição do Technovation Challenge, torneio realizado desde 2010 em São Francisco, Estados Unidos, que já desafiou 3 mil garotas de 28 países a construir aplicativos voltados para solucionar problemas sociais e comunitários. Jacqueline Alves Barbosa, de 17 anos, Maria Gabrielle Lopes Cruz, Jaqueline Rodrigues Alves da Silva, Leonor Victória Monteiro de França e Sâmara Beatriz, de 16 anos, passaram cinco dias nos Estados Unidos acompanhadas pelo professor de programação Tiago Lemos de Araújo Machado apresentando para centenas de investidores o game The Last Drop (A última gota, em inglês), cuja protagonista, uma menina chamada Vitória, precisa fechar torneiras antes que acabe a água do edifício onde reside. O game busca sensibilizar crianças de 5 a 12 anos a usar racionalmente a água. As garotas de Recife disputaram o prêmio na categoria ensino médio com grupos da Índia, dos Estados Unidos e da Nigéria. A equipe vencedora foi a nigeriana Charis, que desenvolveu um aplicativo sobre descarte adequado de lixo. O objetivo do Technovation Challenge é estimular o interesse de crianças e jovens por programação e ciência da computação, em especial as meninas, já que mulheres são minoria entre profissionais formados e pesquisadores no mundo inteiro. No Brasil, apenas um quarto das pessoas que trabalham na área de computação é do sexo

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feminino. “Na nossa escola, os garotos são maioria entre os estudantes de programação. Com o nosso exemplo, queremos incentivar mais garotas a participar”, diz Jaqueline Rodrigues. A iniciativa de participar do torneio partiu das próprias garotas. “Elas haviam participado de algumas competições em programação no ano passado e receberam um e-mail dos organizadores deste torneio. Montaram o time e se envolveram intensamente no trabalho”, diz o professor Tiago. Desenvolver o aplicativo, ele diz, foi a parte mais fácil. “Elas já haviam feito outros jogos anteriormente e conhecem bem a linguagem de programação”, afirma. Difícil foi conciliar a tarefa com as aulas na Escola Técnica e organizar um plano de negócios para comercializar o aplicativo, uma das exigências do torneio. O grupo se encontrava nos fins de semana e também trabalhava virtualmente, criando pastas com tarefas no Google Drive. “O plano de negócios foi feito no feriado da Páscoa”, afirma o professor Tiago. A empresa startup proposta no plano foi batizada de PortMund. O grupo pretende agora lançá-la comercialmente. “Estamos procurando parceiros para consolidar a empresa”, diz Gabrielle Lopes. Os cinco dias nos Estados Unidos foram uma experiência intensa e árdua. Embora as passagens e hospedagens corressem por conta da organização do evento, o grupo sofreu para conseguir entrar nos Estados Unidos, devido a uma pane no sistema de concessão de vistos. “Foi assus-


foto Ademar Filho/Secretaria de Educação PE

tador no começo, mas acabou se tornando As estudantes Jaqueline Rodrigues, uma das experiências mais emocionantes Jacqueline Barbosa, da minha carreira”, diz o professor Tiago. O Sâmara Beatriz, Gabrielle Lopes e governador de Pernambuco, Paulo Câmara, Leonor Victória e o pediu ajuda à representação diplomática game The Last Drop (no detalhe): menção norte-americana em Recife. O grupo conhonrosa no desafio de seguiu entrar sem o visto regular, exibininovação para garotas na Califórnia do uma autorização especial emitida pelo Pierre Lino Gomes, Diego Feitosa Cavalcanti, Flávia consulado. Na Califórnia, participaram de Francisca de Souza Sampaio e Paulo Victor Sobrinho cursos e palestras e visitaram empresas de de Jesus embarcaram no dia 26 de junho para uma tecnologia, como a Amazon e o Twitter. “Conhecemos missão técnica de nove dias no Japão, onde visitaram muita gente da área. Eles nos incentivaram, fizeram centros de inovação, empreendedorismo e tecnologia em críticas positivas e mostraram onde poderíamos meTóquio e Nagoya. A equipe se destacou entre os mais de lhorar o jogo”, diz a estudante Jacqueline Alves. Um 100 participantes da competição, cujo objetivo é estimular dos mais interessados no game brasileiro, segundo o habilidades em gestão, empreendedorismo e inovação enprofessor Tiago, foi a Apple. “O chefe do departamentre universitários de todo o Brasil. Além de se destacarem to de design da companhia conversou bastante com nas atividades desenvolvidas na competição, o grupo da elas e deu muitas dicas. Fez questão de parabenizá-las Bahia fez a melhor apresentação de ideia de negócios para pessoalmente e disse que pretende manter o contato.” uma banca de jurados, formada por investidores e especialistas em empreendedorismo. Os baianos apresentaram experiência de obter vivência internacional em a proposta de criar uma plataforma para ajudar crianças, entre 3 e 8 anos, com dificuldades de alfabetização. “Penseu campo de estudos também foi obtida por um grupo de estudantes de graduação da Bahia samos em uma plataforma divertida e interativa em que que venceram, no ano passado, o Desafio Universitário as crianças pudessem dizer uma palavra, visualizar uma Empreendedor de 2014, competição nacional desenvolimagem de seu significado e, em seguida, as sílabas correvida pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequetas dessa palavra”, disse Paulo Victor, segundo a Agência Sebrae de Notícias. w nas Empresas (Sebrae). Os estudantes baianos Allisson

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produção do conhecimento

biodiversidade

Lista Vermelha lagartinho-do-abaeté está entre as 328 espécies da fauna baiana ameaçadas, segundo pesquisadores

O

caminho para saber se uma espécie de animal ou de planta existe em solo local inclui verificar as publicações, bases de dados e acervos de coleções científicas especializadas. Já para determinar se os espécimes estão ou não em risco de extinção na natureza, o conjunto necessário de informações sobre eles é tão mais amplo que tende a se ramificar em grupos de pesquisa geograficamente afastados. A partir de um longo trabalho em equipe, pesquisadores baianos mapearam 328 seres da fauna sob algum tipo de ameaça, entre os quais estão o macaco guigó-da-caatinga, o peixe piabanha, o pássaro rabo-branco-de-margarette, o tubarão-raposa, a aranha-caranguejeira, a estrela-do-mar e o lagartinho-do-abaeté. A lista inédita de espécies ameaçadas de extinção da Bahia, também chamada de Lista Vermelha, nasceu de um trabalho em rede que envolve, desde 2003, 150 pesquisadores de distintos estados brasileiros com participação direta no processo. Estudiosos de peixes e invertebrados continentais e marinhos, de aves, mamíferos, répteis, anfíbios e plantas foram convidados a participar do levantamento pela coordenadora do projeto, Sofia Campiolo, professora da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Como resultado, avaliaram um total de 2.700 animais, sendo 40 deles exclusivos da Bahia e sob algum risco, e 1.800 tipos

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de plantas, das quais ainda não se sabe totalmente quantas são particulares do estado. O time reuniu informações sobre a biologia, a ecologia e a distribuição geográfica da fauna e flora do estado para determinar quais espécies estão de fato ameaçadas de extinção em nível global, nacional, estadual ou regional. Essa lista prévia é uma das etapas de um trabalho que envolveu também oficinas de avaliação e validação, realizadas em 2013 na cidade de Ilhéus, entre os próprios estudiosos, até a divulgação oficial pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema), fase ainda em andamento. “A ideia do projeto da lista é muito antiga. Demoramos a iniciá-lo em função da necessidade de articulação com o governo, e uma das questões importantes para nós sempre foi manter as coordenações entre os pesquisadores no estado para conseguirmos, além da lista, o fortalecimento e a articulação dos grupos de pesquisa aqui instalados”, explica Sofia Campiolo, agrônoma de formação e doutora em biologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). No modelo institucional afinal montado para viabilizá-la, a Lista Vermelha é um projeto coordenado pela Uesc e pelo Instituto Dríades, órgão baiano de pesquisa e conservação da biodiversidade, e apoiado pela Sema.

foto  • Luiz Carlos Ribenboim/Divulgação ICMBio

Edvan Lessa


fotos  • Mirco Solé • Fabio Nunes

fotos  • Erminda Couto • Camila Cassano Oberdan • Coutinho Nunes

Típica da mata atlântica, a maria-leque-do-sudeste está entre as espécies de aves sob ameaça de extinção

Sapos Aparasphenodon arapapa e Ischnocnema verrucosa (no alto e abaixo à esquerda) estão na categoria “em perigo”; caranguejo-uçá, preguiça-de-coleira, arara-azul-de-lear e rato-do-cacau também se encontram entre as espécies ameaçadas

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A identificação das espécies em risco foi feita com base em métodos da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), instituição internacional bancada por governos, empresas, indivíduos, entre outros, que auxilia iniciativas, incluindo pesquisas científicas, dedicadas a encontrar soluções baseadas na natureza. “O Brasil, como signatário da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), também elabora a lista nacional, com base nos critérios da IUCN. Nós fizemos o trabalho articulado com o ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversiade]”, conta Sofia Campiolo. O ICMbio é o órgão ambiental do governo e finalizou a avaliação nacional do risco de extinção da fauna brasileira em dezembro de 2014. É também a entidade responsável pelo treinamento, organização de monitoramento das oficinas e de uma base de dados; divulgação e orientação de políticas públicas visando à conservação das espécies. Avaliação das espécies

registros recentes em outros estados, o que as retiravam da categoria de endêmicas da Bahia”, explica a coordenadora de Pesquisas Ambientais da Sema, Cristiana Vieira. Daí, uma lista de plantas exclusivas da Bahia está sendo elaborada com base no SpeciesLink, um sistema distribuído de informação que integra dados primários de coleções científicas, bem como a partir de outras fontes disponíveis na web. Após as atualizações, esse catálogo deve ser entregue em agosto, segundo o superintendente de Pesquisas Ambientais da Sema, Luiz Antonio Ferraro. Categorias de ameaça

Cerca de 13% dos animais da fauna local, entre os 2.600 catalogados, estão sob algum tipo de ameaça. O parâmetro utilizado para separar as espécies a partir do nível de ameaça em que elas se encontram na natureza é estabelecido pelo IUCN. Embora a metodologia possibilite incluir espécies extintas e não avaliadas, aquelas que estão passíveis de desaparecer, e que portanto ainda podem ser preservadas, são classificadas como “vulnerável”, “em perigo” e “criticamente em perigo”. O nível de ameaça é definido por meio de critérios que incluem a taxa de declínio da população, seu tamanho e distribuição, área de distribuição geográfica e grau de fragmentação de hábitat. Entre os peixes continentais, cuja distribuição é maior pelas bacias dos rios São Francisco, Paraguaçu e Contas e

Cada animal ou planta mapeado possui uma ficha exclusiva com informações sobre ele. Entre os dados preenchidos pelos pesquisadores, estão nome científico e comum da espécie, se é ou não típica da região onde foi encontrada, a sua característica física, variabilidade genética e onde mais está distribuída. O levantamento geral de espécies envolveu ao menos um pesquisador responsável por grupo biológico, todos eles sob a coordenação geral de Sofia Campiolo, que Cinco espécies de aves foram categorizadas orientou alguns envolvidos a não informar, por como regionalmente extintas na bahia enquanto, os números finais das espécies catae 18 como criticamente ameaçadas logadas. Segundo ela, só a lista de peixes marinhos ainda não foi finalizada. “Este é o grupo mais complexo, em função do grande imem uma grande variedade de tributários costeiros, foram pacto sócioeconômico, quando a lista se torna um efetivo listadas inicialmente 204 espécies. A lista, porém, cresceu instrumento de gestão”, revela. para 217 após as oficinas de avaliação. Segundo Ricardo Jucá Chagas, professor da Universidade Estadual do Sue acordo com o coordenador da lista dos peixes doeste da Bahia (Uesb) e coordenador desse inventário, 5% marinhos, Alexandre Clístenes, da Universidade dos peixes continentais se encontram vulneráveis, 4,6% Estadual de Feira de Santana (Uefs), foram avaliaem perigo, 5% criticamente em perigo e 15% em risco de das 797 espécies. “As maiores dificuldades para finalização extinção; os outros 17,5% ainda não possuem informações da lista foram o alto número de espécies, o baixo número suficientes para uma análise de risco. de especialistas locais e a absoluta carência de dados sobre “Algumas regiões do estado só começaram a ser mais estatística pesqueira”, aponta Clístenes. Para o ictiólogo, as bem investigadas recentemente, como é o caso da região medidas de gestão e recuperação específicas para o estado do alto rio de Contas, onde algumas espécies novas têm devem enfatizar a pesca, mas sem esquecer as diferentes sido registradas. Entre estas, algumas já entraram na lista atividades que impactam os hábitats marinhos e costeiros. como ameaçadas. Mesmo em rios como o São Francisco, A lista da flora também não está finalizada ainda. “Ela descobrimos neste trabalho que há muitas lacunas de infoi elaborada a partir de dados recebidos pelo Centro Naformações sobre as espécies no estado da Bahia”, afirma cional de Conservação da Flora (CNCFlora) com cerca de Jucá Chagas. A rede de pessoal necessário para a listagem 1.800 espécies, sendo que parte destes registros esta sendesse grupo envolveu técnicos do ICMBio, dois pesquisado eliminada em função de estas espécies representarem dores co-coordenadores e mais de 20 voluntários que cola-

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boraram nas oficinas de avaliação e validação de espécies. Na Lista Vermelha, há um expressivo número de peixes da família Rivulidae, geralmente coloridos, de comportamento dócil e alvo fácil de aquariofilia e biopirataria. Mas, no geral, os peixes baianos estão também ameaçados pelo desmatamento, degradação ambiental, irrigação, barragens, pesca, mineração, poluição e introdução de espécies alóctones, ou seja, que não são regionais.

foto Linckia guildingi

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ntre os demais grupos biológicos, segundo os respectivos coordenadores, foram avaliados 84 invertebrados marinhos, 160 invertebrados continentais, 188 anfíbios, 251 mamíferos, 253 répteis e 815 aves. Junto com as duas categorias de peixes, somam 2.765 espécies. O site do projeto (www.listavermelhabahia.org.br), que está desatualizado, informa apenas 320 animais catalogados no total. “Na Bahia, não há espécies de invertebrados continentais registradas como extintas, mas há algumas criticamente em perigo ou em perigo, duas dúzias foram consideradas vulneráveis, outro tanto menos preocupantes. Para uma maioria de invertebrados terrestres, os dados são, porém, considerados insuficientes para se ter uma decisão clara sobre seu estado de conservação”, observa Jacques Hubert Delabie, da Uesc, coordenador da lista vermelha dos invertebrados continentais. No caso das aves, segundo o responsável, Caio Graco Machado, professor da Uefs, esta riqueza representa quase 43% das espécies reportadas no Brasil, que somam hoje 1.901 espécies, conforme o Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO). Ainda de acordo com o órgão, 12% da avifauna se encontra em algum grau de ameaça de extinção. “Na Bahia, cinco espécies de aves foram categorizadas como regionalmente extintas; 18 espécies como criticamente amea1 çadas – entre elas, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), provavelmente extinta na natureza; 42 espécies foram categorizadas como em perigo; 27 como vulneráveis; 15 como quase ameaçadas; e 43 espécies com dados insuficientes”, enumera. A avaliação não foi aplicável a 77 espécies. As demais 588 foram categorizadas como “menos preocupante”. Já entre os invertebrados marinhos, cujo levantamento foi feito pela professora Erminda Couto, da Uesc, das 84 espécies avaliadas, uma está “criticamente em perigo”, duas estão “em perigo”, seis estão quase ameaçadas e 11 estão “vulneráveis”. No grupo dos répteis, 145 não estão em risco. Mas 23 foram

consideradas como “vulneráveis, 38 como “em perigo” e quatro como “criticamente em perigo”. “Dentre as espécies mais ameaçadas, ou seja, criticamente em perigo, estão as tartarugas marinhas Eretmochelys imbricata, tarturaga-de-pente, e os lagartos Anotosaura collaris, Heterodactylus septentrionalis e Ameivula sp. n., este último uma espécie ainda não descrita”, enumera Antônio Argôlo, professor da Uesc e coordenador da lista de répteis. Para além da listagem

Entre os estados que já têm a sua lista estão o Rio Grande do Sul e São Paulo. “Na região Norte, o Pará foi o pioneiro; no Nordeste, Pernambuco e Bahia são os dois estados trabalhando nessas listas. Há também esforços no Distrito Federal e em Goiás”, afirma Delabie. Na verdade, desde janeiro, Pernambuco já reconhece quais são os anfíbios da sua fauna que estão sob algum tipo de ameaça. Na Bahia, a Lista Vermelha já está praticamente finalizada, mas só após ser divulgada pela Sema a lista viabilizará a elaboração de metas, ações e legislações com o objetivo de garantir a existência dessas espécies, além de servir como uma das ferramentas para definição de estratégias de conservação da biodiversidade. “Sendo finalizada a avaliação do estado de conservação de todas as espécies, ela deverá passar pelos trâmites burocráticos: apresentação a outros órgãos do estado, apresentação às câmaras técnicas, envio da minuta do decreto à Governadoria para avaliação etc.”, explica Estrela-do-mar Cristiana Vieira. “Como cada órgão (Linckia guildingi) está tem sua agenda, não podemos ainda entre as 84 espécies da prever uma data para publicação do lista dos invertebrados marinhos avaliados decreto”, completa.

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Em novembro do ano passado, o então diretor de pesquisas ambientais da Sema, Marcelo Araújo, informou que a conclusão da lista havia sofrido atraso. “Agora, com a transição de governo, imagino que a sua finalização deve mesmo ficar para março ou abril de 2015”, afirmou à época. Desvinculado da pasta, ele reiterou, no final de março, que a lista continuava atrasada. “Por diversas razões, especialmente porque é um trabalho em que os pesquisadores que avaliam as espécies atuam como voluntários e não estão presos aos nossos prazos. Outra questão é que os dados das espécies estão dispersos e organizá-los é um desafio. Ademais, os pesquisadores estão ressabiados com esse tipo de trabalho depois que houve divergências entre a lista que os pesquisadores fazem e a que o governo formaliza”, observou. Questionada sobre esse ponto, em maio, a coordenadora-geral Sofia Campiolo disse que não poderia falar a respeito do assunto, pois o documento oficial ainda não havia sido divulgado.

A Bahia tem ciência e inovação. A Bahiaciência mostra

De fora

Não houve propriamente um limite estipulado de espécies desse catálogo, mas é possível que alguns animais e plantas, em algum nível de ameaça, tenham ficado de fora da Lista Vermelha. “Certamente existem espécies não descritas ou recém-descritas pela comunidade científica que ficaram de fora do processo. Mas esse número de espécies que não puderam ser não avaliadas é considerado pequeno para os mamíferos, sobretudo se considerado em termos proporcionais a outros grupos como invertebrados”, acredita Camila Cassano, professora da Uesc responsável pela lista dos mamíferos. Ainda segundo ela, trata-se de um grupo particularmente importante tanto em termos ecológicos, a exemplo de predadores e dispersores de sementes, polinizadores, quanto em relação ao grande número de espécies carismáticas, que podem ser utilizadas como espécies bandeira para a conservação. Na outra ponta da conservação estão, no entanto, os interesses econômicos em determinadas espécies. Enquanto a Lista Vermelha da Bahia não é publicada, o país assiste a um exemplo de tentativa de anular a lista de peixes, nascida em dezembro. Um projeto de decreto legislativo que estava na pauta do dia 24 de junho da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, sustava a portaria do Ministério do Meio Ambiente (MMA), que proibia a pesca dos espécimes ameaçados. Aqui, outro tipo de impasse começa a ser especulado entre alguns envolvidos com a lista. Isso porque é possível que haja divergência entre o que será divulgado em âmbito estadual e o que já foi reconhecido na lista nacional. “Precisamos conversar com o MMA para saber como é que fica a fiscalização e também juridicamente, por exemplo, se uma espécie for considerada ameaçada por nós, e não for pelo ICMBio”, conclui o superintendente Luiz Antonio Ferraro. w 42 | julho/agosto de 2015

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Geologia

Imensamente Imensamente cênicos cênicos Nonserup De um anterior tatias num terceiro eos rectur lugar,qui a bahia tem sequibea hoje avolendust, maior concentração estibus maio reconhecida de tendaessit inselbergs, autas aute ilhas qui terrestres nobitium

Edvan Lessa

A maior concentração mundial de inselbergs, ilhas terrestres de notável importância social, ecológica e econômica, fica no semiárido baiano sob uma microplaca tectônica chamada Jequié

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fotos  Geraldo Marcelo Lima/Divulgação

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uando ainda era menino, Geraldo Marcelo Lima subia quase todos os dias um imenso morro de pedra que ele costumava encarar da sua casa, localizada em Tanquinho, município que fica no semiárido baiano. Mais tarde, voltou a Salvador, onde nasceu, interessado pela área de geologia e se tornou pesquisador do Instituto de Geociências (IGeo) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Não por coincidência decidiu que desafiaria novamente formações rochosas como aquela, mas dessa vez em nome da ciência. Ele e outros três pesquisadores do mesmo grupo de pesquisa começaram a estudar os morros e a chamá-los de inselbergs ou ilhas terrestres. Apesar de sua variada grafia – inselberge, inselbergues – são por definição uma classe especial de acidentes geográficos com paisagem marcada por um contraste entre elevações, com altura maior que 100 metros, e arredores de superfícies planas. O mais famoso é o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, e a Pedra da Galinha Choca, que fica em Quixadá, no Ceará. Na Bahia, uma forma não tão marcante, mas em certo ponto conhecida, fica à margem da BR-116, próximo ao município de Itatim.

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Ali, em meio ao cenário verde quando a seca não castiga, a enorme pedra exibe uma hipotética boca. Em 2007, a Bahia era considerada pela equipe de pesquisadores do IGeo o terceiro principal recinto desses monumentos naturais no país. “Hoje é onde tem a maior concentração dos inselbergs no Brasil”, conta Lima. O destaque nacional e mundial em relação a Moçambique e Zimbábue, entre outros países da África, e à Austrália, por exemplo, se dá pela quantidade e variedade de formas identificadas ao longo da pesquisa, concluída em 2012, na qual ele verificou a origem e a evolução dos inselbergs baianos. Monumentos com tais características também estão presentes nos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Amazonas. O morro próximo a Itatim, por sua forma de cúpula com superfície arredondada, foi reconhecido como um bornhardt. Esse exemplar pode ter mais de 1 quilômetro de comprimento e é o tipo mais comum de inselberg daqui. Mas a diversidade de formas locais também inclui castelos, torres, inselgebirgs, que são grupos de elevações próximas umas das outras, e koppies castelo, blocos empilhados angulares com bordas e paredes de pedra bem marcadas. O maior sítio do mundo

des profundidades até a sua subida para a superfície da terra, chamadas pelos geólogos de intrusões, centenas de milhões de anos mais jovens do que as rochas subjacentes nas áreas planas. Ao longo do tempo, as pedras se tornaram mais resistentes do que as suas vizinhas e o processo de denudação pela qual passaram, sendo desgastadas até 130 metros por milhão de anos, remete ao período Neogeno, há cerca de 30 milhões de anos. Na visão do pesquisador do IGeo Luiz César Corrêa-Gomes, um dos coautores da pesquisa, ainda há muito a ser estudado sobre os inserbergs, principalmente sobre as suas gêneses e evoluções. “Atualmente existe um ramo da geologia que estuda esses maciços, o da geomorfologia tectônica, e a relação entre a formação de relevos e eventos tectônicos. E, entre as técnicas de estudos, têm sido utilizadas datações com traços de fissão em apatitas e zircões, entre outros [métodos], que permitem identificar fenômenos de soerguimento e afundamento crustais que podem ter sido determinantes na formação dos inselbergs”, salienta. Ecologia e pobreza

Em um artigo publicado numa coletânea sobre paisagens e geografia do Brasil, assinado por Lima e pelo pesquisador Luiz César Corrêa-Gomes, seu colega no IGeo, eles afirmam que, além da beleza cênica, esses monumentos naturais “que rasgam o solo em direção ao céu” têm também relevância ecológica. Em alguns casos, os penhascos íngremes têm uma fina camada de solo e um micro-hábitat onde sobrevivem organismos, entre os quais está a família das bromélias, com

Além de Itatim, há formações com essas características em Pé de Serra, Santa Luz e Guanambi. Outras três cidades no semiárido baiano – Santa Terezinha, Iaçu e Itaberaba – também possuem as ilhas terrestres. Pela concentração de cinquenta elevações, integram o sítio geomoformóligo de Itatim, o maior do mundo, situado sobre a microplaca tectônica Jequié. Entre os fatores determinantes para a oripinturas antigas são evidências de que houve gem e forma dos curiosos ocupação no sítio de itatim bem antes do século afloramentos de rochas na região de 1.000 quilôxviii, após a colonização europeia, quando a metros quadrados, estão região voltou a ser povoada os processos erosivos que isolaram essas pedras nas superfícies planas onde se encontram. São também importantes as características as espécies Encholirium spectabile, Tillandsia sp e a família minerais dos inselbergs, em relação às rochas que ficam de cactos, com o Melocactus sp, endêmicas do sítio geomorao redor deles, as intempéries, a esfoliação que age sobre fológico de Itatim. No entanto, pelas condições inóspitas as imensas ilhas e o próprio clima árido no passado e seque limitam o crescimento da vegetação, os inselbergs são miárido hoje. notáveis como bancos de sementes – varridas pelos ventos Esses fatores explicam a beleza cênica e as diferenças entre ou espalhadas por insetos, aves e répteis que procuram Tocas, Napoleão, Itibiraba, Meus Pertences, Gavião, Leão, alimento e comida na superfície das rochas – lançadas na planície que rodeia as rochas. Torre e São Geraldo, todos nomes de acidentes geológicos Um estudo que está em andamento no âmbito do Insdo sítio de Itatim. “Na África, há lugares onde estão usantituto Nacional do Semiárido (Insa), sob a liderança da do esses ambientes [para fins turísticos ecológicos]. Tem pesquisadora Fabiane Rabelo, visa mapear em fina escala toda uma infraestrutura de turismo, inclusive com padrão os afloramentos mais vulneráveis no semiárido brasileiro, internacional. É um ambiente mais árido do que o Brasil, e incluindo a Bahia, e levantar as espécies e populações de aqui a gente poderia aproveitar um pouco”, acredita Lima. plantas que estariam vinculadas aos mesmos. O objetivo No sítio de Itatim, os inselbergs têm entre 280 e 300 é, entre outros, compreender a composição, variabilidade metros e se formaram do magma cristalizado em gran46 | julho/agosto de 2015


fotos Geraldo Marcelo Lima/Divulgação

cromossômica e genética dessa flora para criar A Pedra de Tocas, tanto isotrópicas, sem orientação, quanto anilocalizada no sítio ferramentas de conservação do ecossistema. sotrópicas, bem orientadas. No caso da extração geomorfológico de Mas, ainda conforme informações do Insa, de pedras ornamentais, os maciços não podem Itatim, é um maciço rochoso que se formou a pesquisa pretende utilizar esses recursos ser muito fraturados, pois isso dificulta a lavra há 30 milhões de anos naturais de forma sustentável e controlada, do material”, observa Corrêa-Gomes. A lavra “especialmente pelas populações do entorno, é o conjunto de operações coordenadas para o permitindo assim um aporte de renda extra a aproveitamento industrial da jazida, desde a essas populações tradicionais”. extração de substâncias minerais úteis que contiver até o As pinturas antigas, a exemplo da Pedra de Itibiraba, seu beneficiamento. no município de Itaberaba, evidenciam que houve ocupaO especialista em recursos minerais do Departamento ção no sítio de Itatim há tempos bem mais longínquos do Nacional de Produção Mineral (DNPM), Cláudio da Cruz que o século XVIII, após a colonização europeia, quando Lima, diz que não há uma fiscalização específica em laa região voltou a ser povoada. Hoje em dia, a população vras que exploram os inselbergs, a não ser que ocorra uma do local é formada por uma significativa parcela de pesdenúncia formalizada. “Nas regiões citadas existem dois soas pobres; centenas de homens, mulheres e até crianças licenciamentos para gnaisse, uso de brita, e uma guia de que dependem da extração de algumas dessas pedras, que utilização para lavra experimental de gnaisse, uso de pedra podem se tornar paralelepípedos ou cascalho. Para se ter de talhe, esta última em Iaçu”, explica Lima, que atua na uma ideia, o Índice de Desenvolvimento Humano Munisuperintendência baiana do DNPM. “Não há como afirmar cipal (IDHM) mais elevado dessas três localidades é 0 de se essas lavras são extraídas a partir dos inselbergs, mas é Itaberaba (0,620), segundo o Atlas de Desenvolvimento importante salientar que para conceder o direito de lavra Humano de 2013. Já Itatim possui IDHM de 0,582 e Iaçu, é necessário, entre outros documentos, a licença ambiende 0,574, o mais baixo. tal emitida pelo órgão ambiental ou pela prefeitura, caso Conforme observam os pesquisadores baianos, o “detenha competência para emitir o documento. Compete safio ambiental” é posto porque algumas dessas pedras já ao órgão ambiental definir se os morros do tipo inselbergs foram, e podem continuar sendo, bastante transformadas podem ser minerados”, ressalta. por conta da contínua extração. “Em geral, são rochas riA assessoria de comunicação do Instituto do Meio Amcas em feldspatos e quartzo, que aumentam a resistência biente e Recursos Hídricos (Inema), vinculado à Secretaria da rocha ao intemperismo químico. Mas elas podem ser Estadual do Meio Ambiente, informou que “não tem nebahiaciência | 47


nhum tipo de ação de conservação, a não ser o A Pedra de Itibiraba, natural no estado: a Cachoeira do Ferro Doido, que fica no município de fiscalização ambiental por meio de denúncia em Morro do Chapéu, e os Canions do Subaé, de Itaberaba, possui popular, feita através do 0800 071 1400”. em Santo Amaro. Além dos decretos estaduais pinturas antigas e é eventualmente Há um mapeamento feito por Lima com a específicos para preservá-los, de 1998 e 2006, resescalada por religiosos localização de algumas pedreiras, no geral respectivamente, a sua proteção está prevista desde e aventureiros ponsáveis por mudanças consideráveis nos junho de 1977 pelo Decreto nº 80.978/1977 relamorros. “As pedreiras são o ganha-pão desse tivo ao patrimônio mundial, natural e cultural. pessoal pobre. Quando eu falo em turismo, acho Jovem itaberabense, o estudante Luís Neto, 17 que deveria ser uma fonte a mais”, pondera o pesquisador. anos, reconhece a importância dessas pedras, que as pessoas Como alguns municípios são porta de entrada para a visitam em datas religiosas ou frequentam para fazer escaladas. “Primeiro deveria haver a conscientização dos moraChapada Diamantina, bastante conhecida e visitada, os inselbergs, ele sugere, poderiam ser incluídos no roteiro de dores, pois muitos deles acham que lá [a Pedra de Itibiraba] viagem a essa região. “A ideia seria: visite Itatim, capital é uma pedra qualquer”, defende. “A Secretaria da Cultura mundial dos inselbergs. Vale ressaltar que seria necessário poderia fazer a mesma coisa que fez no Bom Jesus: limpar investir em treinamento de pessoal, montar um parque toda a área e colocar placas indicando a entrada para a Pedra. temático (conhecido como Geoparque), como foi feito com Assim, a população teria ao menos curiosidade de conhecêos monólitos de Quixadá. A visitação turística em Quixadá -la de perto e as pinturas indígenas que lá tem”, completa. saltou nos últimos anos e melhorou a qualidade de vida da população local”, detalha. Pesquisa ampliada Em Quixadá, que fica a 158 quilômetros de Fortaleza, os Paralelo ao interesse científico no relevo, Lima também tem inselbergs fazem parte de uma unidade de conservação na grande paixão pelos registros fotográficos das paisagens categoria monumento natural. Existente desde 2002 por que estuda. As imagens feitas por ele, boa parte realizada meio de um decreto estadual, o Monumento Natural dos em uma carona que pegou em um helicóptero do governo Monólitos de Quixadá é reconhecido pela Secretaria do Meio estadual, ilustram um livro elaborado ao longo de dez meAmbiente local, não apenas como raro, mas naturalmente ses e publicado em 2007. Como as pesquisas continuaram frágil, justamente por conta das intervenções humanas. desde então, veio a necessidade de revisão do material. De A Bahia também já esteve na iminência de contar com acordo com o pesquisador, em 2016 deve ser lançado outro uma inciativa nesses moldes. No ano passado, Lima receexemplar com novos resultados da pesquisa sobre os inselbeu uma solicitação informal para ampliar as regiões onde bergs. Mas dessa vez com colaborações de seus colegas e a existem inselbergs, reconhecendo-as como uma Unidade inclusão de um novo sítio geomorfológico, que ele ainda de Conservação (UC). Porém a ação não se concretizou. não apelidou, integrado pelos municípios de Guaratinga, Intanhém e Jucuruçu. w Atualmente, existem duas UCs na categoria monumento 48 | julho/agosto de 2015


pesquisa e desenvolvimento

Indústria Naval

No olho do furacão Contratos, projetos industriais e empregos são sugados pela tormenta gerada nas investigações da operação Lava-Jato

foto  SERGIO CASTRO/ESTADÃO

Domingos zaparolli

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eis meses separam duas visitas de Bahiaciência ao estaleiro Paraguaçu, que a Enseada Indústria Naval ergue em Maragojipe. Os cenários vistos pelos jornalistas Domingos Zaparolli, em novembro de 2014, e Mariluce Moura, em maio de 2015, não poderiam ser mais distintos. Não só o ritmo das atividades e as perspectivas em relação ao estaleiro eram diferentes como a própria situação da indústria naval brasileira era outra. O dinamismo havia cedido espaço à perplexidade e à paralisia. Entre uma visita e outra, as investigações da Operação Lava-Jato colocaram sob suspeita inúmeros contratos realizados nos últimos anos entre a Petrobras, a maior companhia brasileira, e seus fornecedores, entre eles a Sete Brasil, empresa que havia encomendado a cinco estaleiros um total de 29 navios-sonda, embarcações utilizadas na perfuração petrolífera, sendo que seis deveriam ser construídos em Maragojipe. Os três sócios Jailson Ribeiro, e leva a uma pergunta torturante: vai-se mes34 anos, um dos brasileiros da Enseada, a Odebrecht, a OAS e a mo correr o risco de deixar que todo esse mag75 operários enviados UTC, também tiveram outros contratos com a nífico investimento se transforme em sucata? para estágio de três meses no estaleiro da Petrobras colocados sob suspeita, assim como São R$3,2 bilhões que já estão investidos numa Kawasaki, no Japão: aconteceu com várias das maiores construtoobra de grande significado para a Bahia e que esperança na retomada ras do país. se alinhava entre as decisivas para a retomada da indústria naval brasileira”. Se houve ou não práticas irregulares é uma questão que caberá à Justiça responder no temA pergunta pode ser estendida: vai-se mesmo po devido. Mas os danos à atividade da indústria naval do deixar a indústria naval brasileira morrer? O desmanche, país e à qualidade de vida de seus trabalhadores são imeque é generalizado, ocorre velozmente. No início do ano o diatos. Em novembro eram por volta de 4.500 trabalhasetor empregava 84 mil pessoas no país. No final de junho dores engajados no desafio de estabelecer a Enseada como o número havia sido reduzido para 67 mil e as previsões uma das mais competitivas e modernas indústrias do país. eram de que cairia para 40 mil no decorrer do segundo seGente como Jailson Ribeiro, baiano de Salinas, um espemestre. Julho foi pródigo em más notícias. Nos primeiros cialista em máquina de cortes que teve a oportunidade, dias do mês o estaleiro Eisa Petro-Um, em Niterói (RJ), assim como outros 100 funcionários, de aprofundar seus do grupo Sinergy, anunciou aos seus dois mil funcionáconhecimentos profissionais em um estágio de três merios restantes que encerraria suas atividades por tempo ses em Sakaide, Japão, no estaleiro da Kawasaki, o sócio indeterminado, uma vez que não havia uma sinalização tecnológico da Enseada. Ou o engenheiro Mario Moura, clara sobre a manutenção de um contrato da Transpetro, gerente industrial responsável por conduzir a companhia subsidiária de logística da Petrobras, para a construção de em sua busca por maior produtividade, como demonstra a oito embarcações. Também em Niterói o Estaleiro Mauá reportagem de Domingos Zaparolli, reproduzida nas páoptou por paralisar os trabalhos, colocando em xeque a ginas seguintes em seu formato original. Em Maragojipe manutenção de três mil empregos. se respirava progresso. Em poucos meses a situação já era completamente diferandes avanços e retrocessos de idênticas proporrente. Em maio restavam 300 funcionários no estaleiro e, ções marcam a história da indústria naval brasileira conforme relatório do Sindicato Nacional da Construção desde seu início, no século XVI, quando o primeiro Naval (Sinaval), entre novembro e março a massa salarial estaleiro se estabeleceu em Ribeira das Naus, em Salvador, retirada do mercado com as demissões somava R$ 9,22 com o objetivo de construir pequenas embarcações. O momilhões, com significativos impactos nas cidades de Mavimento significativo seguinte só ocorreu muito depois, ragojipe, Salinas da Margarida, Saubara, Nazaré e Santo por iniciativa de Irineu Evangelista de Souza, o visconde Antônio de Jesus. de Mauá, em 1846, em Niterói, com o primeiro estaleiro Mariluece Moura relata o novo ambiente na Enseada em brasileiro para embarcações de grande porte. texto disponível em sua integra no site bahiaciencia.com. A construção naval só ganharia projeção como indúsbr: “O impacto é incontornável: ver vazia e às escuras a gitria relevante com o Plano de Metas do presidente Juscegantesca Oficina 6, um galpão de 75 mil metros quadrados lino Kubitschek, que criou, em 1958, o Fundo da Marinha e pé direito de 40 metros, que a essa altura deveria estar Mercante (FMM) com o objetivo de gerar recursos para fervilhante de gente em ininterrupta produção, gera um renovar e ampliar, no país, a frota mercante nacional. No peso inesperado no coração – tristeza, apreensão e medo... governo do general Ernesto Geisel (1974 a 1979) foi criada

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foto  Mariluce moura

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lideranças políticas do estado reconhecem a importância do empreendimento para a bahia e sabem que a saída da crise atual passa por uma solução para as dificuldades da sete brasil

uma nova política de incentivos. Nos anos 1970, a indústria naval brasileira chegou a figurar entre as maiores do mundo. Na década seguinte, porém, foi tragada pela crise econômica que levou o país à estagflação e à moratória de sua dívida externa. No inicio dos anos 1990, praticamente não existiam atividades industriais no setor. Uma primeira tentativa de recuperação se deu por iniciativa do governo Fernando Henrique Cardoso, com a exigência de conteúdo local pelas petroleiras em 1999. Mas só no governo Luiz Inácio Lula da Silva é que a retomada se fortalece. Primeiro com a criação, em 2003, do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás (Prominp) e, em 2005, com a descoberta do pré-sal, que estimulou a criação do Programa de Modernização e Expansão da Frota de Petroleiros (Pomef I e II). No início da nova crise do setor, no final do ano passado, estavam previstas a construção de 381 embarcações no país até 2020. Ainda não está delineada uma solução para as dificuldades que a construção naval enfrenta. A Petrobras, que teve seu fluxo de caixa comprometido nos últimos anos por conta de decisões políticas, reduziu em 37% seu programa de investimentos no período de 2015-2019. Mesmo assim, terá um orçamento de US$ 130,3 bilhões e, segundo a companhia informou, num primeiro momento não está prevista a redução das encomendas diretas da petroleira para a indústria naval. No entanto, há relatos no setor de que investimentos e pagamentos têm sido retardados nos últimos meses. A saída da crise atual, necessariamente, também passa por encaminhar uma solução para as dificuldades vividas pela Sete Brasil. O plano de investimento inicial da companhia contemplava recursos da ordem de US$ 25 bilhões, sendo que a companhia já havia negociado, para uma primeira etapa de encomendas, financiamentos de US$ 9,3 bilhões com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que desistiu do empréstimo após o início da Operação Lava-Jato. Outros US$ 3,6 bilhões haviam sido conseguidos junto aos cinco maiores bancos brasileiros, valor que deveria ser quitado no primeiro semestre.

No início de julho, a Sete Brasil, que tem entre seus principais sócios os bancos BTG Pactual, Bradesco e Santander, havia conseguido prorrogar o pagamento para o semestre, enquanto discutia a entrada de novos sócios na operação, entre eles o grupo norueguês Seadrill, especializado em operação de plataformas de petróleo, e investidores do Japão, China, Malásia e Cingapura. Por outro lado, o número de sondas a serem construídas foi reduzido de 29 para 19, sendo que quatro devem ficar sob responsabilidade da Enseada.

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dívida da Sete Brasil com a Enseada no final de maio somava R$ 900 milhões e a empresa ainda tinha a receber outros R$ 600 milhões do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, os agentes financeiros responsáveis pelo repasse dos recursos do Fundo da Marinha Mercante, conforme informou o presidente da companhia, Fernando Barbosa, em um evento na Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb). Na ocasião, lideranças políticas do estado, representando partidos e correntes políticas distintas, reconheceram a importância do empreendimento para a Bahia. A repórter Mariana Alcântara acompanhou o encontro e publicou no site Bahiaciência que a bancada federal baiana estava unida no propósito de manter viva a indústria naval no Estado. “Os senadores Lídice da Mata e Walter Pinheiro garantiram não medir esforços para encontrar uma solução para o problema. Walter Pinheiro informou que já recebeu em audiência os representantes da Enseada e que busca junto ao governo federal uma alternativa para a crise. ‘Eu participo dessa questão dos estaleiros desde que eu era secretário de Planejamento. Portanto, essa não é uma bandeira que a Bahia pode se dissociar’, lembrou. O senador informou ainda que já esteve em Brasília com o governador Rui Costa para tratar do assunto e que o tema está na pauta prioritária de seu mandato”,escreveu a repórter. O estaleiro Paraguaçu e a indústria naval são temas prioritários para se definir que tipo de país pretendemos construir. w bahiaciência | 51


Indústria Naval

Com a mão no leme Estaleiro em Maragojipe se orienta pela produtividade para dar vida nova à indústria naval baiana e se lançar no mercado global

Domingos Zaparolli | fotos Fábio Marconi

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m julho de 2016 serão concluídos os trabalhos da Enseada Indústria Naval no Ondina, o primeiro de uma série de seis navios-sonda baianos que perfurarão poços de petróleo na camada do pré-sal. A encomenda, no valor de US$ 4,8 bilhões, foi realizada pela Sete Brasil, empresa que desde 2010 já contratou cinco estaleiros brasileiros para construir 29 equipamentos de perfuração de óleo e gás em águas ultraprofundas, injetando us$ 22 bi-

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lhões na indústria naval do país. Os desafios na Enseada até lá são muitos. Ao mesmo tempo que constrói Ondina, a nova companhia naval baiana põe de pé o estaleiro Paraguaçu e revitaliza o estaleiro São Roque, as duas unidades industriais responsáveis por entregar até 2020 os seis navios-sonda. Em paralelo, a Enseada seleciona e qualifica mão de obra e fornecedores locais e cuida de melhorar as condições socioambientais das cidades do Recôncavo Baia-


no ao entorno do empreendimento – Maragojipe, Saubara e Salinas da Margarida. A empresa ainda tem que lidar com uma conjuntura econômica e política adversa gerada por três fatores distintos. O primeiro é global. O mercado de petróleo passa por um ajuste, com redução significativa de preços devido a um aumento simultâneo da capacidade de produção e redução do consumo. No Brasil, o governo federal já si-

O estaleiro da Enseada em tempos ainda produtivos, em outubro de 2014. Em primeiro plano, à direita, a montagem do imenso guindaste Goliath, com 150 metros de altura

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Parceria com o grupo industrial kawasaki mudou até a cultura de trabalho dos funcionários da enseada que passaram por treinamento no estaleiro de sakaide, no japão

nalizou que 2015 e 2016 serão anos de ajuste fiscal, o que deve encarecer e reduzir os recursos para investimentos. O terceiro fator são as incertezas geradas pela operação da Polícia Federal batizada de Lava-Jato, na qual está sendo investigada a lisura dos contratos realizados entre a Petrobras e seus fornecedores, entre eles a Sete Brasil.Em dezembro, esse cenário adverso levou a Enseada a rever seu planejamento das obras de construção do Paraguaçu, que já está 80% concluído, o que levou a uma dispensa de 470 – total que pode chegar a mil – dos quase 3.200 trabalhadores da construção. O cronograma de produção industrial dos navios, tarefa na qual já se dedicam mil operários, foi mantido. Mario Moura, gerente industrial da companhia, diz que os trabalhos de cada etapa produtiva dos seis navios-sonda que serão construídos nos próximos anos já possuem data e até mesmo hora em que serão realizados. A precisão é trabalhada internamente como um símbolo da eficiência com a qual a Enseada pretende ser identificada, e pode vir a ser fator decisivo para a companhia, em longo prazo, se lançar na disputa por contratos internacionais no competitivo mercado naval global.

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Produtividade e competitividade são desafios colocados a todos os estaleiros brasileiros que surgiram nos últimos 10 anos para atender às encomendas da Petrobras. O Sindicato Nacional da Indústria de Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval) calcula que os pedidos em carteira até 2020 somam 381 embarcações, entre petroleiros, plataformas, sondas, submarinos e navios de apoio. Atender essa demanda estimulou investimentos em novos estaleiros em vários estados do país e eles já ocupam diretamente uma força de trabalho na casa de 80 mil pessoas. Uma marca importante para uma indústria que nos anos 1990 não empregava nem dois mil trabalhadores, apesar de nos anos 1970 o país ter figurado entre os maiores produtores navais do mundo. Os anos de inatividade resultaram em falta de mão de obra qualificada e pouca expertise produtiva. Estimativa da Sociedade Brasileira de Engenharia Naval (Sobena) aponta que a produtividade nos estaleiros brasileiros chega a ser quatro vezes inferior a apresentada por concorrentes japoneses e coreanos. Essa realidade ficou evidente nos primeiros navios produzidos nessa nova fase da indústria naval. Alguns foram entregues com meses de atraso,


sendo que o petroleiro João Candido, produziCerca de 80% das O estaleiro Paraguaçu é fruto de um invesobras de construção do do no Estaleiro Atlântico Sul (EAS), só entrou timento de R$ 2,7 bilhões, o maior da iniciativa novo estaleiro estavam em operação 21 meses depois do programado privada na Bahia nos últimos 10 anos, está com prontas, quando foram paralisadas no fim e após a correção em 18 mil dos 21 mil metros 82% das obras efetuadas e a previsão de conclude 2014. Ao fundo, à de solda realizados. são é dezembro de 2015. No auge da construção esquerda, o estaleiro São Roque Os problemas enfrentados pelos concorrentes mobilizou sete mil trabalhadores e hoje ocupa serviram de alerta para os três sócios originais por volta de 4,5 mil. Pronto, terá capacidade da Enseada, as companhias baianas Odebrecht, para processar 36 mil toneladas de aço por ano, OAS e UTC. Segundo Humberto Rangel, diretor instituciotrabalhando em turno único. Por ora, o Paraguaçu, mesmo nal da Enseada, os sócios concluíram que deveriam atrair em obras, divide com o São Roque a tarefa de construir os um parceiro tecnológico capaz de acelerar o processo de blocos topsize, os que vão sobre o casco, do Ondina. A loaprendizado necessário a todo novo empreendimento. A gística de matérias-primas é realizada principalmente por escolhida foi a japonesa Kawasaki, um grupo industrial via marítima, uma vez que o Paraguaçu conta com um tercom ampla atuação no segmento de transportes e ativa minal portuário. Sob inspiração japonesa, relata Moura, o no setor naval desde 1878. A parceria foi selada com as estaleiro trabalha o mais próximo possível do sistema just companhias baianas detendo 70% do empreendimento e in time, ou seja, com estoques baixos, reduzindo custos de a Kawasaki 30%. “Foi um casamento perfeito entre a excapital de giro. Em chapas de aço, por exemplo, a unidade periência japonesa em construir cascos de navios com a mantém estoques de 3 mil a 4 mil toneladas, bem abaixo da média em que trabalham outros estaleiros brasileiros. brasileira em montagem eletromecânica de equipamentos offshore de exploração de petróleo”, diz Mario Moura. A As chapas já chegam com um tratamento anticorrosivo Kawasaki, diz o gerente industrial, tem sido determinante prévio, o prime, e cortadas em 100 diferentes tamanhos e não apenas para o desenvolvimento tecnológico, mas tamformatos, reduzindo desperdícios. Como as siderúrgicas bém para a formação da cultura produtiva da Enseada. Os brasileiras ainda não estão acostumadas a trabalhar nesjaponeses foram decisivos na escolha de equipamentos de se sistema, as primeiras remessas de aço estão vindo da última geração e no layout da unidade Paraguaçu. “Teremos Espanha e do Japão. As chapas e perfis são estocados de um dos estaleiros mais modernos do mundo”, diz Moura. modo a facilitar a movimentação para a chamada Oficina bahiaciência | 55


6, de acordo com a etapa produtiva. É nesse local, Do cais do estaleiro acredita-se que poderá ser visto de Salvador. novo, visão do Såo um galpão de 75 mil metros, onde máquinas auTerá capacidade de 1.800 toneladas, um dos Roque, implantado tomatizadas farão os trabalhos de corte e solda, mais potentes do mundo. Os blocos içados senos anos 1970 permitindo um processamento em um terço do guem para um dique seco, que é fundamental tempo realizado por equipamentos tradicionais. para a montagem do casco do navio, ou direOs blocos que compõem o navio serão içados por um tamente para um dique molhado, permitindo a instalação guindaste, o Goliath, que no momento encontra-se em fase de blocos topsize em cascos prontos. “É inovador. Isso nos de montagem. Ele terá 150 metros de altura, o equivalenpermitirá trabalhar dois navios ao mesmo tempo”, diz te a um prédio de 50 andares, será o mais alto do Brasil e Moura. A unidade Paraguaçu já está sendo preparada pa-

R$ 40 milhões em investimentos socioambientais O estaleiro Paraguaçu está localizado no município de

funcionamento do empreendimento. Uma conta que já chegou a

Maragojipe, na confluência dos rios Baetantã e Paraguaçu na

R$ 30 milhões e deve totalizar R$ 40 milhões, segundo a diretoria

baía de Todos os Santos. A escolha da localização foi

de relações institucionais da empresa.

influenciada por uma série de critérios geográficos. Era

O próprio layout do estaleiro foi pensado de forma a gerar o

necessário um terreno de grandes proporções e para isso foram

menor impacto possível. Uma área de 400 mil metros quadrados

adquiridas três fazendas inativas, que somam 1,6 milhão de

foi mantida como reserva ambiental, incluindo uma região de

metros quadrados. O estaleiro deveria estar em águas

mangue. Na área destinada à construção foi realizado um trabalho

profundas e abrigadas e com facilidade de saída oceânica.

prévio de retirada da fauna, ao mesmo tempo em que foi realizado

O local escolhido, porém, apresenta uma rica e frágil biodiversidade e influencia toda uma região de pesca, atividade imprescindível para a sobrevivência de comunidades, muitas delas

um inventário oceonográfico da região, que é mantido atualizado, permitindo monitorar qualquer impacto sobre a pesca. Junto às comunidades vizinhas, o trabalho foi detectar

quilombolas, no entorno do empreendimento, fato que suscitou

expectativas e receios entre os moradores que não se sentem

dúvidas e questionamentos das comunidades vizinhas. “De início

atraídos pelas perspectivas de empregos diretos no novo

houve uma forte oposição ao empreendimento”, diz a gerente de

empreendimento. Nas áreas mais urbanas a demanda era por

sustentabilidade, Caroline Azevedo. “Situação hoje superada.”

qualificação profissional e para o empreendedorismo, atendidas

A virada se deu com a implantação de um conjunto de ações socioambientais que, diz Caroline, superam as meramente necessárias para a obtenção das licenças de

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por meio de parcerias com o Senai e Sebrae. Ouvindo as comunidades pesqueiras, relata Caroline, chegouse a um plano diretor constituído de cinco eixos. O primeiro é o


ra contar no futuro com um segundo guindaste Goliath, dobrando a performance. A Kawasaki também tem influenciado a cultura de trabalho dos operários da Enseada. No acordo de parceria ficou estabelecido que operários brasileiros seriam treinados no estaleiro de Sakaide, no Japão, onde está sendo construído o casco do Ondina – o plano é que a partir do terceiro navio-sonda os cascos serão feitos no Brasil. Segundo Márcia Lapa, coordenadora de recursos humanos, 82 funcionários já passaram por treinamentos de quatro meses no Japão e até o fim de 2015 esse total chegará a 164. “A ideia é que esses trabalhadores, de volta ao Brasil, se tornem multiplicadores de uma cultura produtiva baseada em disciplina, organização e produtividade”, diz. Hervecy da Silva Rabelo, 44 anos, encarregado de pintura industrial, esteve em Sakaide entre maio e agosto do ano passado. “Foi a maior experiência da minha vida, mudou a forma que me relaciono com minha família e meu comportamento no trabalho”, afirma. Morador de Itaparica, Rabelo é casado, tem dois filhos e diz que aprendeu no Japão

Caroline Azevedo, do estaleiro Paraguaçu: região de mangue preservada

apoio à formalização do trabalho. O segundo é um acordo de pesca, envolvendo educação e inibição do uso de bombas e malhas finas, que prejudicam a fauna marítima. O terceiro é a criação de unidades produtivas de beneficiamento da pesca, que estão sendo implementadas. O quarto está relacionado com a logística da atividade, com a construção de píer de atracação em várias localidades e a compra de freezers para a estocagem. E o último eixo é o estímulo de atividades complementares, abrindo possibilidades às mulheres dos pescadores, como a criação de fábricas de produção de polpa de frutas, de vassouras de piaçaba, oficinas de costura e atividades de apicultura. Como diz Antônio Manoel da Silva, liderança quilombola da comunidade Enseada do Paraguaçu, não havia futuro na região para os jovens além de mudar-se para Salvador. Foi o que fizeram dois de seus três filhos. “Mas eles voltaram, e agora todos moram na comunidade”, diz.

a ouvir, mesmo os mais jovens, e dar valor aos pequenos detalhes. Passou a ser mais disciplinado e organizado no trabalho e a cuidar da limpeza do ambiente a sua volta. E a valorizar a perfeição na execução de cada tarefa. “No Japão retrabalho é pecado. Para nós, na pintura, também”, diz. Quando estiver a plena carga, a Enseada contará com quatro mil funcionários. Márcia Lapa diz que a meta é preencher as vagas principalmente com mão de obra do Recôncavo baiano, com o cuidado de incluir a força de trabalho feminina. “Elas são detalhistas, ótimas para tarefas de solda”, observa. A empresa trabalha com a estratégia de fomentar a criação de cursos locais para a adequação de trabalhadores em parceria com o Senai e o Pronatec. Em 2013, inclusive, sugeriu ao Pronatec a inclusão de cursos voltados à indústria naval, como caldeiraria naval, solda naval e mecânico montador. Como a escolaridade média nas cidades vizinhas ao empreendimento é baixa, a companhia também tem apoiado melhorias na qualidade de ensino da região, já pensando na incorporação das gerações futuras, e oferecido escolarização adulta para seus operários da construção. A estimativa da Enseada é que a futura folha de pagamento de seus quatro mil funcionários injetará na região R$ 12 milhões mensais, gerando um impacto propulsor na economia das cidades vizinhas, antes dependentes da renda da pesca e do pequeno varejo local. Hoje já injeta por volta de R$ 3,5 milhões mensais. “Já é possível observar um novo dinamismo na região”, diz o gerente de relações institucionais, Márcio Cruz. “Estão sendo construídos hotéis, restaurantes, supermercados, padarias, farmácias, novos condomínios residenciais e até bancos”, diz. Antonio Ricardo Alban, presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), diz que o novo estaleiro, além de reafirmar a capacidade empresarial baiana, gera oportunidades para a criação de uma cadeia produtiva naval local, atraindo empresas fornecedoras para o estado, como também pela contratação de fornecedores locais. Em parceria com a Fieb, a Enseada desenvolve um programa de qualificação técnica, gerencial e financeira de empresas baianas para a atuação no setor. O momento é de triagem dessas empresas, mas algumas já foram selecionadas. É o caso da metalúrgica Cebece, de Simões Filho, que conta com 37 funcionários. O diretor comercial, Márcio Santana, diz que produziu componentes utilizados nas plataformas de petróleo P59 e P60, construídas no São Roque e depois compareceu a uma chamada da Fieb de apresentação da Enseada. No momento, atende encomendas da empresa para a produção de mastro do radar, suportes da lança do guindaste, torres de escada e plataformas dos tensionadores. “Estamos investindo e qualificando nossa produção. Nossa meta é produzir 560 toneladas por ano em estruturas navais”, afirma Santana. Márcio Cruz diz que a Enseada trabalhará com três granbahiaciência | 57


A meta da empresa é diversificar sua carteira de clientes e buscar contratos no exterior, como a costa atlântica da áfrica e o golfo do méxico

des fornecedores globais. A norueguesa National Oilwell Além do contrato de US$ 4,8 bilhões com a Sete BraVarco (NOV), responsável pelo pacote de perfuração. A sil, a Enseada também possui em carteira um contrato americana GE, que se encarregará das áreas de eletromede US$ 1,7 bilhão com a Petrobras para a conversão de cânica, automação e geração de energia, e a também amequatro navios petroleiros nos cascos de quatro plataforricana Almaco, responsável pelos módulos de habitação. mas para a exploração de petróleo, as chamadas FPSO, O Ondina, por exemplo, terá capacidade de abrigar trabalho que está sendo realizado no Estaleiro Inhaúma, 180 empresas. Elas, diz Cruz, terão que atender índices no Rio de Janeiro. progressivos de nacionalização de seus produtos, cheganOs planos para o futuro da unidade Paraguaçu já codo a 65%. Paulo Roberto Guimarães, superintendente de meçam a ser esboçados. A exemplo de todos os outros desenvolvimento econômico da Secretaria de Indústria estaleiros nacionais surgidos nos últimos 10 anos, a Ene Comércio da Bahia, avalia que essa necessidade é uma seada depende atualmente das encomendas de um único oportunidade para atrair investimentos para a região e cliente, a Petrobras. É um cliente de porte, com um plano relata que já existem dois projetos para a construção de de encomendas na indústria naval de US$ 100 bilhões encondomínios empresariais no entorno do novo estaleiro: tre 2014 e 2018 e que, após esse período, já avalia a cono Complexo 2 de Julho, de iniciativa de investidores pritratação de pelo menos mais 41 plataformas de petróleo. vados em parceria com a prefeitura de Maragojipe, e outro Mesmo assim, é um único cliente. Rangel diz que a meta de iniciativa do grupo ASK. “O governo, além de da Enseada é diversificar e buscar contratos apoio institucional para a obtenção de licenças e no exterior. “Acreditamos que seremos cominfraestrutura de energia e água, ainda mantém Humberto Rangel, petitivos e teremos potencial principalmente diretor institucional e uma política progressiva de incentivos fiscais para atender demandas na costa atlântica da as obras do dique seco: para os novos empreendimentos no estado”, diz. África e no Golfo do México”, diz. w menos de 50% feitas

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artigo

De repente, Grafeno João Marcelo Ramos da Rocha

foto  Alexandre AIUS/CC BY-SA 3.0

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magine carregar o celular –, em embalagens alimentícias em 10 segundos e, em see filtros, uma vez que apenas guida, sair utilizando-o por é traspassável a água, lentes três dias sem necessitar conece óculos em função da sua tá-lo novamente à tomada. transparência. Parece até previsão futurista, Já a superbateria supracitamas a cena descrita acima poda é resultado de uma pesquisa de tornar-se realidade em pourealizada pela Universidade co tempo devido ao grafeno. Vanderbilt em Nashville. SeFormado pela ordenação gundo o estudo, um supercade átomos de carbono – aspacitor de silício que “guarda sim como o grafite que utilieletricidade” reunindo íons zamos para escrever e o diana camada porosa do próprio mante das joias –, o material material, em vez de reações era utilizado na confecção de químicas – como ocorria anlápis até 1947, quando surgiteriormente –, envolvido com ram os primeiros estudos a O surgimento de uma matéria-prima tão grafeno, teria a capacidade de seu respeito. Apenas em 1987, inovadora fez com que institutos de pesquisa funcionamento de semanas, com trabalhos da Universida- e autoridades de todo o mundo iniciassem uma necessitando de minutos para corrida para a produção do grafeno de de Manchester, no Reino ser recarregada. É justamente Unido, o grafeno passou a ser a combinação ocorrida através combinado com eletricidade e teve as suas propriedades do envolvimento com o composto carbônico que permite estudadas. A leveza, a força, a resistência, a transparência a bateria um grande tempo de autonomia. e as excelentes condutividades elétrica e de calor são as No entanto, o grafeno torna-se frágil à presença de principais características do material. rachaduras, segundo cientistas da Universidade de Rice O surgimento de uma matéria-prima tão inovadora fez e do Instituto de Tecnologia da Geórgia. Em pesquisa decom que institutos de pesquisa e autoridades de todo o senvolvida, eles abriram rachaduras no material e, após mundo iniciassem uma corrida para a produção. O milioisso, aplicaram-lhe força gradual para observar a resposta. nário Bill Gates, através de sua fundação filantrópica (Bil Os resultados demonstraram que o grafeno imperfeito and Melinda Gates), recebeu US$ 100 mil da Universidade suporta 4 megapascais de força sem ceder, cerca de dez de Manchester para o desenvolvimento de camisinhas. O vezes mais propenso a ruptura do que o aço, por exemgrafeno seria o material ideal, já que é muito mais resisplo. Em perfeição, o material suporta até 10 gigapascais tente e maleável que o látex e o plástico – utilizados até sem se romper. então para a confecção dos preservativos. A Nokia, por sua A utilização do material, porém, ainda depende da convez, anunciou em 2013 o fechamento de uma parceria com clusão dos estudos e da atestação de que ele não fará mal a União Europeia de US$ 1,5 bilhão para o desenvolvimenao meio ambiente ou trará danos à população a curto, méto do grafeno. Caso alcance resultados bem-sucedidos, a dio e/ou longo prazo. Tido como o silício do século XXI, empresa poderá utilizar o material na confecção de seus o grafeno é, sem sombra de dúvidas, uma grande aposta smartphones, tornando-os mais leves, dobráveis e rápidos. para o futuro da tecnologia. w Além das aplicações citadas, o grafeno também pode ser utilizado em processadores e condutores – aumentando João Marcelo Ramos da Rocha Graduando em Engenharia de Controle e Autoa velocidade e a eficiência e reduzindo o tamanho de ambos mação de Processos pela Universidade Federal da Bahia bahiaciência | 59


Tecnologia

Mangas Protegidas Embalagens biodegradáveis, feitas com biopolímeros e nanocristais de celulose, ajudam a preservar frutas frescas destinadas à exportação Mariana Alcântara

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mbalagens biodegradáveis, obtidas a partir da adição de nanocristais de celulose a polímeros feitos com amido e quitosana – fibra produzida a partir do esqueleto de crustáceos como camarão, caranguejo e lagosta –, poderão se tornar uma vantagem competitiva relevante para as exportações baianas de mangas na forma fresh-cut, ou seja, sem casca e sem caroço, para o mercado internacional. Tudo vai depender dos resultados em escala industrial de um projeto de inovação desenvolvido pelo Laboratório de Alimentos e Bebidas do Senai-Cimatec, em Salvador. “Atualmente, existe uma forte demanda para as frutas frescas já prontas para consumo, denominadas produtos minimamente processados, tendo em vista, principalmente, a facilidade e a praticidade”, diz Bruna Machado, coordenadora do projeto. A ideia de adicionar os nanocristais ocorreu em decorrência da experiência da pesquisadora com seu projeto de mestrado em Ciências de Alimentos, na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Seu objetivo era a obtenção de nanocristais oriundos do coco, incorporados em embalagens de amido de mandioca, utilizadas para envasar

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azeite de dendê. Os resultados da dissertação renderam a Bruna Machado o primeiro lugar na categoria Pesquisadores do concurso Ideias Inovadoras, promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb). Ela explica que a exportação de mangas in natura implica uma perda econômica elevada para o país, já que a casca e o caroço são considerados rejeitos. “Em muitos casos, as frutas, quando chegam aos países de destino, são processadas em fábricas ou nos próprios supermercados e embaladas para chegar até as prateleiras e atender à demanda dos consumidores locais.” O custo com o transporte das frutas in natura é outro obstáculo enfrentado pelos exportadores. Os empresários do setor esclarecem que a casca e o caroço ocupam cerca de 40% a 60% do peso e espaço nos contêineres e paletes frigorificados a serem enviados pelos navios mercados afora. As mangas são exportadas inteiras dentro de caixas de papelão específicas, que podem estar envolvidas em cera de carnaúba e embaladas em papel seda. O uso da refrigeração se dá com o intuito de preservar as características das frutas durante a viagem aos mercados europeu e norte-americano, que dura em média 14 dias.

foto Léo ramos

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e acordo com Bruna Machado, o objetivo da pesquisa do Senai-Cimatec é desenvolver embalagens biodegradáveis inovadoras, com propriedades antioxidantes, que possibilitem aumentar a vida de prateleira, agregando valor ao produto baiano, e permitir a exportação de um maior volume efetivo da fruta. “A exportação das mangas já minimamente processadas e embaladas com essa tecnologia no país de origem poderá minimizar o custo do transporte e ainda preservar as frutas por mais tempo”, diz. O tipo de manga escolhido para o estudo foi a Tommy Atkins, resultado de extensas pesquisas de seleção e melhoramento genético, que tem sabor doce e pouca fibra. Além disso, outra vantagem da fruta, quando comparada a outras variedades, é sua resistência mecânica e térmica durante o transporte, e mais tempo de estocagem prolongado e a boa tolerância à antracnose, doença causada pelo fungo Colletotrichum gloeosporioides, considerado a maior praga dos mangueirais. A variedade é a preferida dos agricultores brasileiros, respondendo por cerca de 80% da área cultivada no país. A pesquisadora ressalta que o desenvolvimento de embalagens biodegradáveis para aplicação em frutas processadas com permeabilidade seletiva aos gases é um processo promissor, pois funciona, em princípio, como um acondicionamento de atmosfera modificada. “Como frutas em geral são muito sensíveis, o processamento que permita o controle eficiente da concentração dos gases pode prolongar satisfatoriamente o período de armazenamento dos produtos processados, bem como seu transporte eficiente”, diz. Para ela, o maior desafio do projeto é melhorar as propriedades mecânicas e de barreira desses produtos inovadores com a adição de nanocristais, responsáveis por evitar que

os frutos sejam machucados, amadureçam rapidamente e apodreçam. Para tanto, é preciso desenvolver e caracterizar diferentes embalagens biodegradáveis e poliméricas para os cortes das mangas e compará-las para identificar a composição que melhor garanta a manutenção das características nutricionais, microbiológicas e sensoriais da fruta, adequando-se às exigências do mercado internacional. A obtenção de nanocristais envolve a extração de celulose da fibra de coco, sabugo e palha de milho, além do farelo de trigo, que são adicionados a matrizes poliméricas obtidas de fontes naturais renováveis como o amido e a quitosana. Dessa maneira, segundo a coordenadora do projeto, o uso de embalagens biodegradáveis incorporadas com nanocelulose pode torná-las mais resistentes mecanicamente, além de apresentar barreira ao vapor d’água ao reduzir a concentração de oxigênio em seu interior. Resultados preliminares

Cada material testado no Laboratório de Alimentos e Bebidas do Senai-Cimatec passa por análise para avaliação de rendimento. Primeiro, as fibras são lavadas com solução alcalina, para a remoção de material solúvel e parte da lignina, uma fibra insolúvel em água. Geralmente, essa lavagem é feita quatro vezes. Depois é realizado o branqueamento da massa obtida na etapa anterior. A celulose obtida é secada e triturada e em seguida é feita a hidrólise ácida do material resultante. Nessa etapa, o ácido presente consegue “atacar” a celulose, quebrando as fibrilas, restando apenas a parte cristalina, ou seja, os cristais de celulose. Por fim, os cristais se encontram “dispersos” em uma solução aquosa. “Chamamos de nanocristais porque na análise pela técnica de microscopia eletrônica de transmissão conseguimos medir os cristais, que estão em tamanhos nanométricos”, explica Bruna. Os resultados preliminares indicam que a celulose originária da fibra do coco rende por volta de 20% a 30% a mais do que a do sabugo e palha de milho e do farelo de trigo. Esta celulose, chamada de aditivo de reforço, é adicionada às matrizes poliméricas, que podem ser amido de mandioca, batata ou milho e quitosana, formando soluções filmogênicas que deverão ser aquecidas para produzir os filmes. “O importante aqui é encontrar o produto com melhor custo-benefício, pois pretendemos partir da escala laboratorial para a industrial”, ressalta.

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utra proposta é a elaboração de embalagens com atmosfera modificada, nas quais são testados diferentes gases, como nitrogênio e dióxido de carbono, ou reduzidos os teores de oxigênio, a fim de inibir a proliferação de microrganismos e retardar o apodrecimento natural na fruta. “O resultado obtido com o uso desse tipo de embalagem é um produto que se mantém fresco por um período muito maior, sem necessidade de congelamento.” Segundo a pesquisadora, essa é uma técnica já empregada comercialmente, principalmente para hortabahiaciência | 61


liças. Ela destaca ainda que faz parte da linha de frente tecnologias que visam à preservação ambiental e a busda pesquisa a combinação de algumas dessas tecnologias, ca de potenciais alternativas de substituição de plásticos convencionais oriundos do petróleo, que levam centenas como, por exemplo, adicionar a atmosfera modificada na de anos para se decompor. embalagem de amido e/ou quitosana, incorporada ou não com os nanocristais. O engenheiro de materiais José Manoel Marconcini, O estudo do Senai-Cimatec ainda está em fase de dedo Laboratório de Nanotecnologia para o Agronegócio senvolvimento das embalagens ecológicas, mas Bruna da Embrapa Instrumentação, localizado em São Carlos, Machado informa que outros estágios já estão por vir e no interior de São Paulo, explica que na literatura cienseguem um cronograma estabelecido. O próximo passo tífica existem estudos que avaliam frutas em seu estado é avaliar o tempo de vida do produto na prateleira. Nesminimamente processado utilizando embalagens convensa etapa, serão observados parâmetros sensoriais, como cionais, como, por exemplo, produzidas com poli (ácido coloração, consistência, aroma e sabor, além de aspectos lático), ou PLA, um produto comercial derivado do milho, microbiológicos e nutricionais das mangas acondicionadas. uma fonte natural renovável e biodegradável. Outras emTodo o sistema, segundo Bruna, será realizado de forma balagens também bastante estudadas são as produzidas a simular a maneira como os frutos poderão ser exportados a partir da espécie bacteriana Burkholderia sacchari, que em sua forma fresh-cut e empacotados em freezers. “Em se alimenta do açúcar da cana, chamadas de poli-hidromédia, o transporte de cargas de um país para outro por xibutirato (PHB). via marítima leva de 14 a 40 dias, mas nossa investigação O engenheiro chama a atenção para as dificuldades deverá durar 90 dias para avaliar o tempo de estocagem de inserção da embalagem biodegradável no mercado. das mangas até a fase em que serão vendidas diretamente Marconcini explica que o principal empecilho pode ser o ao consumidor estrangeiro”, anuncia. preço final do produto. “Se a embalagem for muito cara, o As atividades do projeto, intitulado “Desenvolvimento, consumidor não vai querer pagar”, diz. No caso das embacaracterização e análise comparativa de diferentes embalagens Como a casca e o caroço da manga são para acondicionamento de mangas fresh-cut considerados rejeitos, a exportação da fruta para agregação de valor ao processo de exporin natura representa substancial perda econômica tação”, tiveram início em novembro de 2014, após ter sido contemplado no Edital de Apoio a Soluções para a Fruticultura lagens comestíveis, como a desenvolvida na Embrapa, ele no Estado da Bahia, da Fapesb. O recurso aportado é de afirma que as barreiras de laboratório já foram vencidas e R$ 192 mil, incluindo duas bolsas de pesquisa, sendo uma o processo de transferência para as empresas já está em de iniciação científica e outra de apoio técnico. Um estufase de negociação. “O mercado de alimentos read to eat dante de mestrado também participa do projeto, feito em (pronto para comer) e fresh-cut está crescendo exponencolaboração com a UFBA, a Universidade Estadual de Feira cialmente e existe uma série de empresas interessadas de Santana (Uefs) e Universidade Federal do Recôncavo em absorver essas tecnologias”, evidencia. da Bahia (UFRB). Na Bahia, ainda não há uma produção local de filmes biodegradáveis. Segundo Bruna Machado, no momento, o pesquisa está prevista para ser feita durante 34 meque está sendo produzido é em escala laboratorial. “Após ses e envolve desde o desenvolvimento das embaos resultados de nossa pesquisa, visamos à possibilidade lagens, a avaliação do estado de vida de prateleira, de produção industrial”, diz. “Estamos unindo esforços até a publicação de artigo e depósito de patente, se for o com a UFBA, mais especificamente com a professora Jacaso. Bruna Machado chama a atenção para o fato de que nice Druzian, da Faculdade de Farmácia, para viabilizar a o objetivo do estudo não é substituir as embalagens de produção industrial dessas embalagens”, completa. papelão, que são tradicionalmente usadas no transporte No mercado baiano de exportação de mangas acomdas mangas, e sim oferecer uma opção diferenciada na lipanha-se com atenção esses novos desenvolvimentos nha de produção do agronegócio baiano. de embalgens.O exportador de frutas Sílvio Medeiros, da Agrobras, empresa localizada em Casa Nova, entende Tecnologia limpa que o consumidor do exterior quer praticidade e diz que Um quesito que deve ser levado em consideração é que as as frutas fresh-cut já ocupam cerca de 20% das vendas no embalagens provenientes de fontes naturais renováveis têm mercado americano. “Se o preço da embalagem não ensido foco de interesse para o desenvolvimento de novas carecer muito o produto, os nossos ganhos e o da econo-

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mia baiana podem ser maiores”, comenta em relação à possibilidade de usar embalagens biodegradáveis.

fotos Marina Andrade • Bruna Machado

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utro executivo do setor, Thiago Silva, da Ibacem Agrícola Comércio e Exportação, com sede em Juazeiro, ressaltou que só em feiras internacionais vê essas novas embalagens biodegradáveis. “Entramos em contato com essa tecnologia em feiras agrícolas fora do país.” O gerente agrícola gostaria de testar o produto do Senai-Cimatec como uma opção a mais na oferta de produtos da Ibacem. Para Bruna Machado, Sílvio Medeiros e Thiago Silva são potenciais parceiros de seu projeto, além das cooperativas e packing houses da região do Vale do Submédio do São Francisco e Sudoeste da Bahia. “Essa é a nossa ideia inicial, transferir o conhecimento aos produtores. Nossa esperança é que eles possam adequar a infraestrutura de suas fazendas para poder produzir essas embalagens e utilizá-las no processamento das frutas”, diz. A pesquisadora comenta que, para a coleta das mangas voltadas ao estudo, o grupo do Senai-Cimatec visitou os principais produtores da fruta no estado e estabeleceu o compromisso de transmitir os resultados dos testes em laboratório. “Também pretendemos elaborar uma cartilha ensinando como fazer o corte das mangas, embalá-las e acondicioná-las”, acrescenta. Ainda de acordo com Bruna, outra possibilidade poderia ser a colaboração com empresas que já produzem embalagens biodegradáveis. A manga brasileira é um dos objetos de desejo nas prateleiras dos supermercados americanos e europeus. Trata-se de uma das frutas tropicais mais consumidas em todo o mundo. Segundo a Organização das Nanocristais de Juazeiro, Livramento de Nossa Senhora e Dom Nações Unidas para Alimentação e Agricultucelulose obtidos a Basílio se destacam como os maiores polos prora (FAO, na sigla em inglês), o Brasil ocupa o partir do coco (acima) dutores de manga. terceiro lugar na produção mundial de frutas, são adicionados a matrizes poliméricas, Enquanto soluções tecnológicas não são insendo o sétimo produtor mundial de manga. como amido e corporadas pelos produtores brasileiros, já exisAinda de acordo com os dados da FAO, em quitosana, para obtenção de filme tem companhias internacionais que atuam na 2010, foram exportadas cerca de 120 mil toplástico biodegradável exportação de mangas e apostam na logística de neladas de manga, com uma receita próxima a transporte. Um exemplo é a empresa Blue Skies, US$ 120 milhões. Em 2011, apesar do pequeno que investe no processamento das frutas no país de origem crescimento do volume, que passou para 127 mil toneladas, em vez de serem transportadas e processadas nos países a receita de exportação se aproximou dos US$ 141 milhões de consumo. “Conseguimos entregar nos pontos de venda por causa dos bons preços da manga brasileira no mercado internacional. as frutas frescas diretamente do produtor num período de 48 horas via transporte aéreo”, informa Simon Derrick, Nesse cenário, a Bahia lidera, pois é responsável pelo gerente de comunicação. Segundo ele, este processo rápido abastecimento dos mercados mais exigentes, dominando garante que as frutas mantenham as suas características as exportações brasileiras. De acordo com o Ministério do sem a adição de conservantes. As mangas brasileiras são Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, as manacondicionadas em bandejas de plástico PET reciclável e gas do Vale do Submédio São Francisco responderam, em embaladas em uma película respirável. “Ao fazermos isso, 2012, por aproximadamente 80% do total exportado pelo acreditamos que cerca de 70% do valor fica no país de oripaís. Até outubro do mesmo ano, o Brasil havia exportado gem, em comparação com os 15% quando o processamento cerca de 90 mil toneladas do fruto. Deste total, cerca de 80 é feito em outro local.” w mil tiveram origem nessa região. Na Bahia, as cidades de bahiaciência | 63


Cultura e Humanidades

Homenagem

Consuelo Pondé de Sena

O vulcão da Bahia adormeceu Sérgio Mattos *

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uitos foram e ainda são os termos utilizados para definir a professora Consuelo Pondé de Sena: agitadora cultural, antropóloga, caprichosa, contida, corajosa, cronista nata, defensora da cultura e da história da Bahia, defensora do Dois de Julho, destemida, determinada, educadora, eficiente, emblemática, emotiva, explosiva, feminista, guerreira, historiadora, independente, intransigente, irreverente, mulher imponente, professora, personalidade marcante, teimosa, entre outros. No entanto, quem melhor a definiu foi ela mesma, em sua última crônica, intitulada “Pranto da Madrugada”, publicada no jornal Tribuna da Bahia, 23 dias antes de seu falecimento, ocorrido no dia 14 de maio de 2015, aos 81 anos de idade: Quem me conhece sabe que sou um vulcão em erupção. As lavas que derramo são águas escaldantes da minha “caldeira” interior. Pois, apesar de ser do “grito” de Terra, Capricórnio, sou ígnea. Gosto do fogo e de suas vibrações. Fazer o que se nasci assim? O pranto da madrugada é uma válvula de escape. Penso ser necessário para restabelecer o que foi “mexido”, bem fundo, bem dentro de mim. Traz de volta tudo que tentei disfarçar, dissimular, para não fazer flutuar os meus desapontamentos, as minhas decepções, as minhas frustrações. *

Desde a primeira infância e adolescência, Consuelo já se destacava pela beleza física e inteligência. Demonstrava ser diferente, devido à criatividade e ousadia em defender seu espaço e liberdade para fazer peraltices, como confessa em outra crônica, produzida no período de convalescença, no qual estava resgatando sua própria história, repensando sua vida, tentando encontrar respostas para o que estava acontecendo: “Meu lado lúdico, se é que assim posso denominar minhas maluquices, expandiu-se nas Mercês [colégio católico feminino] como nunca. Minha cabeça astuciosa era uma usina inesgotável de ideias”. Essa usina de ideias nunca parou de funcionar ao longo dos anos, tendo em vista que ela concentrava toda sua atenção em torno da cultura e da história da Bahia, procurando defender e promover nossa história por meio da realização de eventos na Casa da Bahia, como se referia ao IGHB. Aliás, como disse o jornalista Tasso Franco, que, como eu, também é ex-aluno de Consuelo, ela vivia mais no Instituto do que no seu apartamento da Princesa Izabel. Quando o assunto era Independência da Bahia, era a primeira a chegar na Lapinha, onde fazia a oração de praxe na abertura do desfile cívico, vestida de verde, a cor matriz da bandeira nacional; ou de amarelo, o ouro das nossas Gerais, e tecia elogios aos heróis da independência.

Sérgio Mattos, jornalista diplomado pela UFBA, ex-aluno de Consuelo Pondé de Sena, mestre e doutor em comunicação pela Universidade do Texas, membro efetivo do IGHB, do qual já foi secretário-geral e atualmente exerce a função de diretor de publicações. É autor de vários livros e professor da UFRB. 64 | julho/agosto de 2015


Na visão do antropólogo Luiz Mott, Consuelo

Consuelo, sempre atenciosa com a imprensa, era fonte de referência para qualquer assunto histórico-cultural da Bahia e suas personalidades

fotos Acervo de família

deixou duas marcas indeléveis na cultura soteropolitana: foi ela quem mais deu apoio cultural ao Caboclo e Cabocla na caminhada do Dois de Julho, discursando patrioticamente todo ano na Lapinha, denunciando o desamparo governamental.[...] Destacaria como traços marcantes de sua personalidade: simpatia, alegria de viver, visão crítica, franqueza, amor pelo belo, boa gourmet, festeira e passeadeira.

Consuelo defendia os interesses do Instituto com muita garra e não media esforços quando precisava realizar algum evento ou reforma na sede. Ela procurava as autoridades e pedia em nome da Casa da Bahia. Usava para isso seu poder de persuasão, prestígio pessoal e as amizades construídas ao longo dos anos. Inspirava-se em um de seus ídolos, Bernardino de Souza, que foi secretário-geral do IGHB e responsável pela arrecadação de doações para a construção do imponente prédio onde ainda funciona a instituição. Quando se dizia amiga de alguém, defendia a pessoa como se um filho ou parente fosse. Também sabia ser dura e crítica com aqueles que não comungassem com os interesses da instituição que ela dirigia como se fosse a própria casa. Além de sempre manifestar seu respeito e admiração por Bernardino de Souza, Frederico Edelweiss, José Calasans e Jorge Calmon, ela era fã do poeta Castro Alves, de quem era profunda conhecedora da vida e obra,

mantendo em seu gabinete, no IGHB, alguns móveis utilizados pelo poeta. Vale salientar que o próprio nome dela, Consuelo, estava vinculado ao poeta, como lembrou o professor Edivaldo Boaventura, no discurso que a recepcionou quando de sua posse na Academia de Letras da Bahia:

Começo pela predestinação do nome. Tudo se fez por causa do nome assinalado! Nome espanhol que significa consolação. O pai o escolheu do poema Consuelo, símbolo do complicado romance não resolvido do poeta Castro Alves com a italiana Agnes Truci Murri, o seu último amor. Fazendo jus ao significado do seu nome, demonstra uma trajetória de realizações, de energia e de forças positivas que marcam a sua vida. Este ano, a celebração dos 192 anos das lutas pela Independência do Brasil na Bahia não contou com a participação de Consuelo Pondé de Sena, uma das suas principais personagens ao longo dos últimos 20 anos. Além dela, acredita-se que nenhum outro baiano tenha participado dessa cerimônia anual tantas vezes e ininterruptamente. No entanto, aproveitando-se do tema do desfile de 2015, “Guerreiras da Independência”, em homenagem às mulheres que participaram da luta pela libertação, representadas por Maria Quitéria, Joana Angélica e Maria Felipa, o cortejo fez uma parada em frente ao IGHB, homenageando Consuelo Pondé de Sena pela conquista do reconhecimento bahiaciência | 65


Solenidade do Dois de Julho de 2014: Consuelo fazendo o seu último discurso sob os olhares das autoridades, entre eles o governador Jaques Wagner e o prefeito ACM Neto

do Dois de Julho como a data da Independência do Brasil na Bahia. E assim, de maneira indireta, Consuelo passou a ser considerada também como uma das heroínas da Bahia. Além disso, o governador Rui Costa lançou, no dia 2 de julho, na Fundação Pedro Calmon, no Palácio Rio Branco, Praça Thomé de Souza, a Biblioteca Virtual Dois de Julho, unidade especializada em História da Bahia, que a partir de então passou a ter como patrona a historiadora Consuelo Pondé de Sena, que, durante muitos anos, organizou e manteve viva a tradição do Dois de Julho. A biblioteca virtual disponibiliza um rico acervo sobre a história da Bahia e mais especificamente sobre a história do Dois de Julho. Em sua última participação nos festejos do Dois de Julho, realizado em 2014, Consuelo Pondé de Sena pronunciou um discurso contundente, como no trecho destacado a seguir: Manda a minha consciência cívica, e obriga-me a condição de presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, que reafirme, alto e bom som, terem os combates ocorridos na Bahia consolidado a independência pátria, legando à nossa gente um lugar de destaque no seio da sociedade brasileira, lugar que jamais poderá ser postergado em benefício de interesses menores dos dias de hoje. Para concluir, basta fazer a entrega oficial dos carros emblemáticos do Dois de Julho e rememorar o conceito do notável historiador Tobias Monteiro: “A resistência baiana decidiu a unidade nacional”. 66 | julho/agosto de 2015

Dados biográficos

Consuelo Pondé de Sena nasceu em Salvador, no dia 19 de janeiro de 1934. Filha do médico Edístio Pondé e de Maria Carolina Montanha Pondé. Casou-se com o neurologista Plínio Garcez de Sena, com quem teve quatro filhos: Maíra Pondé de Sena (psicóloga), Maria Luiza Pondé de Sena (assistente social), Mauricio Pondé de Sena (guia de turismo) e Eduardo Pondé de Sena (psiquiatra). Diplomada pela Universidade Federal da Bahia, no ano de 1956, em Geografia e História. No ano de 1977 concluiu o Mestrado em Ciências Sociais, quando defendeu a dissertação intitulada Introdução do Estudo de Uma Comunidade do Agreste Baiano – Itapicuru – 1830-1892, sob a orientação do professor José Calasans Brandão da Silva. Na universidade, atraída pelo estudo da Língua Tupi e contando com o incentivo do professor Frederico Edelweiss, dedicou-se


Consuelo Pondé de Sena presidiu os festejos dos 120 anos de fundação do IGHB, em maio de 2014; da esquerda para direita, o secretario de cultura Albino Rubim, os ex-govrenadores Robertyo Santos e Walkdir Pires e o acadêmco Edivaldo Boaventura

ao tema, tendo-o substituído no ensino dessa disciplina em algumas oportunidades. Quando o mestre se afastou do ensino, Consuelo assumiu a disciplina em 1963 e permaneceu como docente da mesma até o ano de 1993. Ao longo de sua vida exerceu inúmeros cargos administrativos, além de ter integrado vários conselhos, nos quais sempre se destacou pelas iniciativas e posições firmes adotadas. Dentre eles destacam-se: chefe do Departamento de Antropologia e Etnologia da FFCH da UFBA, diretora do Centro de Estudos Baianos da UFBA (1974-1983), membro da diretoria do IGHB/Oradora oficial (1982), diretora da Associação Bahiana de Imprensa (1984), conselheira do Conselho Permanente da Mulher Executiva da Associação Comercial, ocupando sua vice-presidência (1985), conselheira e diretora da Associação Comercial da Bahia, diretora da Casa Ruy Barbosa (1985), diretora do Arquivo Público do Estado da Bahia (19871990) e presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia por um período de 19 anos, de 1996 a 2015. Paralelo a essas atividades, Consuelo integrou a Comissão Estadual das Comemorações dos 150 anos de nascimento de Castro Alves, membro do Conselho Consultivo da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), além de organizar e presidir congressos e encontros de História da Bahia, além de ter presidido o Simpósio Internacional A Família Real na Bahia (2008). Ela integrou várias outras instituições, a exemplo da Associação Brasileira de Antropologia

(ABA), Associação Nacional de Professores Universitários de História (ANPUH), Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica, Academia Baiana de Educação, Academia Portuguesa de História e Academia de Letras da Bahia. Foi ainda autora de inúmeros artigos, colunista dos jornais A Tarde e Tribuna da Bahia, de revistas especializadas, além de ter publicado livros, a exemplo de A imprensa revolucionária na Independência (1983), Os Dantas de Itapicuru (1987), Trajetória Histórica de Juazeiro (em coautoria com Angelina Garcez (1992), Cortes no Tempo (1997), A Hidranja Azul e o Cravo Vermelho (2003), Bernardino de Souza: vida e obra (2010) e No insondável tempo (2013). Ela foi homenageada também com várias comendas e medalhas, dentre as quais destacam-se: Comenda Maria Quitéria (1987), Medalha do Mérito do Estado da Bahia, no grau de Comendador (1991), Medalha do Infante D. Henrique (1994) e a Medalha Dois de Julho. w bahiaciência | 67


matéria na modernidade

conversas filosóficas no sul da Bahia Tessa Moura Lacerda | ilustração Nara Lacerda ferreira

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que é a matéria? Substância em si mesma ou mero fenômeno derivado da percepção do sujeito de conhecimento? Se substância, a matéria é uma massa extensa que não oferece lugar ao vazio, nem a átomos, ou é justamente o resultado da combinação de partículas últimas e indivisíveis? A matéria é dotada de força para atuar ou o movimento que se observa nos corpos tem uma causa estranha a eles? Essas questões, sobre as quais se debruçaram filósofos do século XVII e XVIII, como Galileu, Descartes, Hobbes, Hume, entre outros, foram objeto de discussão na XIII Semana de Filosofia – A questão da matéria na modernidade, realizada entre os dias 17 e 21 de novembro de 2014, na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), em Ilhéus. Longe da ostentação e do excesso de atividades dos grandes colóquios que hoje se organizam em filosofia, o encontro na Uesc lembrava uma conversa entre amigos, ainda que nem todos os palestrantes se conhecessem antes do evento. Nesse clima informal, pesquisadores de 15 instituições (Uesc, UFBA, Ucsal, Uneb, USP, Unicamp, UFPR, Uerj, UFG, Uefs, UFS, Unicentro, Universidade de Quilmes, Unijorge e Cefet/RJ) apresentaram conferências e minicursos aos alunos de graduação em filosofia da Uesc, com a descontração da época da saudosa Associação Nacional de Estudos Filosóficos do Século XVII – criada, no início da década de 1990, para congregar os estudiosos da filosofia seiscentista espalhados pelo Brasil, a Associação, presidida pela professora Marilena Chaui, foi extinta no fim da década de 1990, quando a Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (Anpof) decidiu promover a formação de grupos de trabalho. Foi Galileu quem disse que a natureza está escrita em caracteres matemáticos. Se quiséssemos encontrar um mote que reunisse os diferentes pensadores dos séculos XVII e XVIII seria esse. Os pensadores da modernidade buscam, todos eles, uma matematização do saber. Buscam fundar o saber em uma certeza que seja, como a matemática, universal e indubitável. Tomemos o caso exemplar de Descartes – exemplar porque, além de ser cronologicamente um dos primeiros modernos, contemporâneo de Galileu, Descartes aprofunda a revolução científica iniciada por Galileu, expandindo-a para os fundamentos mesmo do saber, para a filosofia.

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Galileu (1564-1642) era um estudioso das leis do movimento e A filosofia de da queda dos corpos. Inventou e descartes é, em construiu o telescópio, e com esseu tempo, uma se instrumento fez uma série de revoluçÃo na descobertas que questionavam a maneira de pensar. ordem medieval do mundo, ditaessa revolução da pela Igreja, na qual o homem poderia ser e a Terra estavam no centro do resumida como universo. Simultaneamente, ao a afirmação da primazia vencer os limites impostos pela do sujeito natureza aos sentidos do homem com a construção desse instrumento novo, inaugurou uma nova fase na ciência, chamada de “ciência instrumental” por Alexandre Koyré, especialista em filosofia e história da ciência. O telescópio de Galileu afasta definitivamente as objeções de seus contemporâneos contra o heliocentrismo e deixa margem à afirmação de que o universo é infinito, e jamais uma esfera fechada de estrelas fixas como se pregava em seu tempo. Mas é Descartes, e não Galileu, quem formula de maneira clara os princípios da nova ciência. A filosofia de Descartes é, em seu tempo, uma revolução na maneira de pensar. Essa revolução poderia ser resumida como a afirmação da primazia do sujeito, em detrimento de um objeto exterior ao pensamento, no processo de conhecimento. O que primeiro conhecemos é o sujeito de conhecimento e suas ideias são nossos objetos de conhecimento. Mesmo que se diga que a matéria dos corpos existe fora do pensamento, isto é, que há uma substância extensa, material, distinta do pensamento, que tem existência separada e independente do pensamento, mesmo que eventualmente se identifiquem os corpos como as maneiras de existir dessa substância extensa, tudo o que conheço de verdadeiro a respeito dessa substância, conheço por meio do pensamento: trata-se da ideia de extensão. Há, portanto, uma redução da substância material ao pensamento, na medida em que o que conheço da matéria é uma ideia (e a ideia é uma maneira de pensar). A revolução cartesiana está na afirmação da autonomia da razão ou do pensamento frente ao objeto a ser conhecido. Embora Descartes seja conhecido vulgarmente como


o inventor da subjetividade, é possível estabelecer uma diferença entre a afirmação cartesiana da autonomia do pensamento e a invenção propriamente dita da subjetividade, como sugere em conferências proferidas desde 2009 a professora Marilena Chaui — para quem a subjetividade está umbilicalmente ligada à consciência de si reflexiva que não está presente em Descartes, mas surge no idealismo alemão, a partir de Kant (1724-1804). Em outras palavras, embora o pensamento só alcance o mundo por uma ideia, o mundo continua existindo fora do pensamento — o ser do pensamento não esgota todos os sentidos de ser. Ainda assim, pode-se dizer que Descartes planta as sementes do futuro idealismo transcendental kantiano, porque o mundo material se transforma em representação na mente, embora não se reduza a esse objeto do pensamento. Descartes afirma, assim, a autonomia da razão humana. Pela primeira vez, na história da filosofia, não é mais o sujeito de conhecimento quem deve se adaptar aos diferentes objetos que quer conhecer e à particularidade de cada um deles. A afirmação da autonomia da razão é também a afirmação de um método universal para os diferentes objetos e, portanto, a atribuição de uma importância fundamental ao método de investigação enquanto tal. O projeto cartesiano é uma nova fundação do saber. Descartes concebe a filosofia como uma árvore, cuja raiz é a metafísica, o tronco é a física e todas as outras ciências são os ramos desse tronco. Porque se trata de uma nova fundação do saber, o projeto implica antes de tudo uma crítica da tradição e do saber existente, uma crítica da escolástica, que, valorizando a cultura antiga e, sobretudo, a filosofia de Aristóteles, tornava o saber dependente da autoridade (da Igreja ou dos filósofos padres), impedindo o exercício livre da razão. Essa crítica da tradição não exige, porém, o exame de cada conhecimento aceito como verdadeiro, mas a recusa de todos eles. A física cartesiana, ciência fundamentada na metafísica, será o estudo da matéria extensa, do movimento e da figura dos corpos. Apesar de todos os erros conceituais do ponto de vista atual, a elaboração cartesiana da física como uma ciência mate-

matizada com leis universais, afasta a física medieval das qualidades ocultas dos corpos a que a razão humana não tinha acesso. Descartes formula três leis de natureza, as duas primeiras resumiriam o que depois vai ser sistematizado por Newton como o princípio de inércia, e a terceira lei explica o choque dos corpos. Eis a nova ciência, uma física matemática, uma ciência do movimento. Leibniz (1646-1716), herdeiro de Descartes, vai buscar uma conciliação entre a ciência moderna cartesiana e a ciência antiga, afirmando que a matéria é um fenômeno ou a maneira de aparecer das verdadeiras substâncias, átomos espirituais, dotados de força. Com a introdução da noção de força, Leibniz lança as bases para uma nova ciência física, a dinâmica que, sem desprezar as explicações da cinemática de Descartes, explica a razão do movimento dos corpos e se coloca como novo fundamento da cinemática. Kant em sua juventude vai ser extremamente influenciado por essa concepção de Leibniz. Mas a surpresa, para os participantes da XIII Semana de Filosofia da Uesc, foi a interpretação segundo a qual mesmo na maturidade, quando critica a metafísica dos herdeiros de Descartes, Kant divide a ciência da natureza em quatro partes, e duas dessas serão ainda um acerto de contas com a dinâmica de Leibniz, enquanto outras duas apontam para a filosofia da natureza de Newton. A XIII Semana de Filosofia da Uesc foi um passeio por essas questões que nortearam a concepção da ciência na modernidade; esse passeio não percorreu apenas a via idealista de Descartes, Leibniz e Kant, mas enveredou também por caminhos empiristas com interpretações a respeito da filosofia de Hobbes, de Locke e de Hume. A discussão desinteressada e de alto nível levou os professores e alunos a pensar na origem de determinadas noções e visões contemporâneas. A organização impecável dos professores Marcelo Moschetti (Uesc), Juliana Pinheiro (Uesc), Giorgio Ferreira (Uneb) e do Centro Acadêmico de Filosofia Tales de Mileto merece elogios. w Tessa Moura Lacerda é professora de filosofia da USP

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31ª Bienal de Arte de São Paulo

ARTISTA ORACULAR Com imagens e performances, ARTHUR SCOVINO REVIGORA A DESGASTADA LINGUAGEM DA INSTALAÇÃO

josé bento ferreira

fotos léo ramos

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u sou baiano”, define-se o artista nascido em São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro, radicado em Salvador e formado pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Scovino apresentou Casa de Caboclo na 31ª Bienal de São Paulo depois de ter participado da 3ª Bienal da Bahia. Seus trabalhos são instalações construídas com materiais utilizados em performances e imagens votivas que transitam entre a cultura popular e diversas formas de religiosidade. Casa de Caboclo está entre as 23 obras selecionadas da Bienal de São Paulo que podem ser vistas no Palácio das Artes em Belo Horizonte, de 26 de junho a 9 de agosto de 2015. Scovino levou a Bienal da Bahia para São Paulo ao recombinar elementos de trabalhos anteriores e reproduzir os rituais que ele mesmo criou. Em cada trabalho está presente toda a sua obra: “Tudo o que eu tenho está nesse espaço”. No corredor lateral do Pavilhão da Bienal, samambaias e espadas-de-são-jorge identificavam o artista de Caboclo dos Aflitos, a instalação que ocupou todo o piso superior da Igreja Senhor Bom Jesus dos Aflitos em Salvador durante a 3ª Bienal da Bahia. A instalação de São Paulo dividiu-se em sete espaços desenhados por Scovino na Igreja dos Aflitos. Nas duas

bienais, o artista frequentou diariamente os trabalhos para realizar ações ou performances cujos vestígios geravam mudanças na disposição dos objetos. Uma esteira de taboa (ou tabua) sobre o chão confirmava a dupla vocação do tipo de arte que o crítico Nicolas Bourriaud chamou de “relacional”: produzir sociabilidade e apresentar-se como uma forma de sociabilidade. Era comum encontrar espectadores sentados sobre a esteira discutindo Casa de Caboclo ou o que viam na Bienal. Com frequência também era possível conversar com o próprio artista. A interação com o público fazia parte do trabalho, como na famosa performance de Marina Abramović, The artist is present (2010), mas sem o silêncio solene que levou ao êxtase os visitantes do MoMA de Nova York e permitiu que a artista sérvia obtivesse intensas trocas de olhares com os espectadores e imagens dos rostos comovidos. Embora se apresentasse como um místico em contato com o Caboclo (entidade espiritual do candomblé e da umbanda), uma rápida conversa com Arthur Scovino relativiza sua espiritualidade. Ele mesmo define o trabalho como uma “pesquisa pautada na superstição” e afirma não participar de rituais religiosos, apesar de apreciar a “sabahiaciência | 71


bedoria” dos padres e pais de santo. Por sinal, Scovino prepara-se ciabilidade e podem ser consideradas simbolipara levar seus LPs de a imagem do Caboclo também possui um sigcamente. O mesmo vale para as imagens, sejam Gal a passeio; o artista nificado político, uma vez que se relaciona com elas exógenas (exteriores) como as imagens cria cachaças com ervas votivas e as lutas pela independência na Bahia e aparece cristãs e a iconografia da MPB, ou endógenas simbólicas para servir em monumentos pela capital baiana. (interiores), como o Caboclo e as personagens aos espectadores e inspirar oráculos Os “oráculos” de Scovino eram lidos para os dos romances. espectadores a partir da coletânea de entrevistas Scovino trabalha para libertar imagens dos e depoimentos do artista carioca Hélio Oiticica. contextos originais e extrair de rituais religiosos Discos de vinil e livros antigos misturavam-se a imagens a matéria-prima da arte relacional. As formas tradicionais cristãs e afro-brasileiras em móveis de segunda mão para de sociabilidade parecem mais humanas em contraste com compor o universo prefigurado por Bourriaud como “incrusa coisificação do convívio nas sociedades modernas. tações da iconografia popular no sistema da grande arte”. As próprias convenções do mundo da arte tornam-se visíveis. Em certa medida, a Bienal de Arte já havia sido primeiro espaço era precedido por uma espécie de confrontada com essa realidade humana quando a arquiteta pórtico feito com vestígios da performance realiítalo-brasileira Lina Bo Bardi montou um “terreiro” com zada na abertura: galhos secos de plantas ritualísex-votos, imagens de santos e de orixás para a exposição “Bahia no Ibirapuera”, paralela à 5ª Bienal (1959). Arthur ticas, uma pilha de livros de Jorge Amado e uma conserva de caju. Na “sala das borboletas”, uma série de fotografias Scovino menciona essa exposição como uma inspiração documentava o convívio do artista com os animais ligados para o seu trabalho. a uma das muitas formas do Caboclo. A segunda seção da Casa de Caboclo era o “recanto dos Scovino cultiva crisálidas e convive com as borboletas aflitos”, alusiva ao bairro onde mora o artista, na região que surgem. Chama-as por nomes femininos e conversa central de Salvador. Um móvel antigo comportava um velho com elas. Nas fotos, elas pousam sobre o corpo e funcionam aparelho de rádio, outros livros de Jorge Amado e um mocomo apliques vivos, como se fossem brincos, máscaras, nitor que transmitia imagens da casa de Scovino, pequeno tatuagens. O belo inseto é para o artista uma forma viva, aposento alugado com vista para a baía de Todos os Santos. modelo de seu ideal estético. Sua arte deve ser espontâQuatro desenhos pendurados na parede foram feitos a nea, imponderável e livre. As borboletas anunciam para partir do traçado natural de seres vivos (folhas, flores e criqualquer momento a possibilidade da graça e a aparição sálidas). Um deles contém uma invocação ao Caboclo datido Caboclo. lografada sobre folhas de samambaia. Uma estante sustenA apropriação do universo de referências religiosas não tava os objetos litúrgicos dessa religião sincrética e pessoal: ocorre sem certa resistência às regras inerentes a toda recrisálidas envernizadas em cápsulas de santos, cascas de ligião. “Performance é ritual”, afirma Scovino, que se diz árvores, sementes e a estatueta de Cosme, Damião e Doum. fascinado por casamentos e batizados. Na Igreja teve o No sincretismo, a tripla imagem representa entidades “primeiro contato com a arte”. A livre manipulação desinfantis incorporadas durante rituais religiosos. No dia sas referências explicita aquilo que há de artístico nelas. 27 de setembro, data em que esses espíritos brincalhões Missas, rezas e giras são antes de tudo formas de sosão tradicionalmente celebrados, Arthur Scovino realizou

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Scovino com o manto usado para o salto de Caboclo dos Aflitos na 3a Bienal da Bahia e já na performance Levando para passear os LPs de Gal, no Pavilhão da Bienal em São Paulo

nhava pelas célebres areias brancas, como um anacoreta no deserto, recusando a futilidade da vida citadina. Uma espécie de relicário guardava um menino Jesus encontrado no Abaeté, provável fragmento de uma imagem de Nossa Senhora, aninhado na areia.

N uma performance concebida a partir da imagem e distribuiu balas e pipocas para as crianças, conforme o costume e apesar da proibição de comer na exposição da Bienal. O terceiro espaço era dedicado ao Caboclo Pena Rosa, entidade evocada por um enorme baú repleto de plumas rosadas que se espalharam por todos os espaços. A sala abrigava um grande monitor que transmitia a gravação da performance QuiZera realizada no Mosteiro de São Bento em Salvador durante a abertura da 3ª Bienal da Bahia. Na ocasião, uma participante atou balões brancos de hélio à camisa do artista, que alçou voo sob a enorme cúpula da Arquiabadia de São Sebastião e ante os olhares das estátuas dos santos. Scovino reproduziu a performance no Pavilhão da Bienal em São Paulo. No quarto espaço, “sala do Abaeté”, Scovino homenageou o seu lugar sagrado. Ao longo da exposição, escreveu um texto na parede da sala, em parte por associação livre. Projetou sobre a parede um vídeo em que ele mesmo cami-

a sala estavam também os recipientes de hélio com que Scovino enchia balões brancos. Casualmente, projetava parte do vídeo sobre um balão, fazendo com que sua imagem mudasse de lugar e parecesse levitar. O balão de hélio representa o tema teológico da elevação espiritual, mas também remete chistosamente a Hélio Oiticica, uma das principais referências do artista. A camisa branca que se eleva rapidamente na arquiabadia era ao mesmo tempo imagem da alma e releitura dos Parangolés (1964). Na seção seguinte, “sala da vitrola”, Scovino retomou a performance Levando os LPs de Gal para passear, que consistia em surpreender pessoas com o som dos discos de vinil reproduzidos por uma vitrola portátil. Essas ações desdobraram-se na série de fotografias que mostram os discos em lugares inusitados, pela estrada, à porta de uma igreja e embaixo d’água. Com um velho móvel, o artista construiu uma espécie de altar para a cantora baiana, que agregou discos de Roberto Carlos, ungido como “Caboclo Rei”. Por causa de convicções religiosas, o cantor impede o lançamento de versões digitais de certas canções da “jovem guarda”. No trabalho de Scovino não se trata de provocar o “rei”, mas de admirar a força das imagens. Elas sobrevivem à recusa graças ao ressurgimento dos velhos discos de vinil, suportes gráficos e sonoros que chegaram a ser fadados ao desaparecimento, mas foram redescobertos pela “cultura DJ”, expressão empregada por Bourriaud em Pós-produção. bahiaciência | 73


O crítico francês propõe a “feira de usados” como “forma dominante”. Bourriaud vê essa característica de trabalhos dos anos 1990 como tributária da noção situacionista de “desvio”, encontrada em textos de Guy Debord (1956) e Asger Jorn (1959). Nesses textos, tratava-se de intertextualidade na história da arte. Artistas analisados por Bourriaud, por sua vez, expandem esse sistema de trocas para outros setores, para além da arte.

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s nostálgicos móveis, discos e livros não foram produzidos por Scovino, fazem parte do trabalho porque foram escolhidos por ele. São objetos notáveis plasticamente, seja pelo acabamento, no caso dos móveis, ou pela inventiva linguagem gráfica das capas. Produtos novos, plastificados para sugerir a pureza daquilo que não pode pertencer a mais ninguém, encarnam com perfeição a definição de mercadoria como algo em que o trabalho não aparece, que parece “não feito por mãos humanas”. Os usados não deixam de ser mercadorias, mas nunca ficam livres dos antigos proprietários, carregam uma espécie de “espírito da coisa dada”, como certos antropólogos se referem acerca do sistema de trocas recíprocas que seria a base das sociedades tradicionais, ou “fato social total”, na bela formulação de Marcel Mauss (1925). Escolha de objetos usados, envolvimento do público, recepção e retransmissão de imagens, as características principais do trabalho de Arthur Scovino apontam para as obrigações de dar, receber e retribuir que Mauss acreditou ser o fundamento de todas as sociedades humanas. Os objetos ressurgem como imagens e obras de arte por causa dos “desvios” praticados pelo artista. Ao se apropriar usando uma pessoa como meio ou médium. Em Scovino, deles, Scovino agia como consumidor e produtor ao mesmo a oralidade do oráculo manifestava-se por meio da palavra tempo (doador e donatário), assim como os espectadores impressa que, porém, talvez viesse do registro oral, no caso do trabalho, quando conversavam com o artista, pergunta- do livro de Oiticica. vam sobre as imagens ou simplesmente trocavam de lado Em posição semelhante à do mencionado trabalho de o disco na vitrola. Na “sala do oráculo” cristalizava-se o sistema de trocas entre emissores, SCOVINO TRABALHA PARA LIBERTAR IMAGENS receptores e retransmissoDOS CONTEXTOS ORIGINAIS E EXTRAIR DE RITUAIS res. No canto da sala, um jarro de cachaça com cravo RELIGIOSOS A MATÉRIA-PRIMA DA ARTE RELACIONAL e canela alimentava inspirações mediúnicas. Gabriela é uma das muitas cachaças produzidas pelo artista e consumidas por ele e pelos espec- Marina Abramović, sentavam-se frente a frente artista e tadores durante exposições. espectador. As perguntas eram escritas à mão e as respostas, No centro, uma velha máquina de escrever sobre a mesa datilografadas e livremente inspiradas em trechos do livro recriava o cenário do trabalhador intelectual capaz de se co- Encontros, de Hélio Oiticica. Romances de Jorge Amado e municar com o mundo inteiro por meio da palavra escrita. O um velho livro de história que pertenceu ao avô do artista formato das letras datilografadas incorpora aspirações e con- também serviam para os oráculos. Cada espectador levava tradições da época em que a cultura do livro atingira o auge a sua página, como uma retribuição por ter participado do e rivalizava com os novos meios de comunicação de massa. trabalho, por ter dado vida nova às imagens ali reunidas. Oráculos aludem à religião grega, mas todo povo tem A sétima e última seção era a “sala da cachaça”, onde um os seus. Entidades espirituais se manifestam oralmente aparador continha conservas e cachaças de diversos tipos.

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Uma garrafa passava de mão em mão entre O artista circula com damente vistos como pueris ou panfletários, seus LPs pela notável artista e espectadores. O foco do trabalho de foram avaliados sem que se considerassem os arquitetura de Oscar arte não era a bebida feita pelo artista, mas a contextos de que procederam. Niemeyer interação gerada por ela. Casa de Caboclo apreAlém de Scovino, outros artistas contemporâsenta “o intercâmbio humano como um objeto neos apresentaram trabalhos capazes de provocar estético em si”, nas palavras de Bourriaud. reflexão. Sérgio e Simone, de Virginia de Medeiros, também Em sintonia com o projeto curatorial da 3ª Bienal da integra a exposição da capital mineira e mostra um morador Bahia, que promoveu contatos entre o mundo da arte e as da Ladeira da Montanha em Salvador que já foi uma travesti onipresentes referências históricas e culturais da capital devota dos orixás, tornou-se um pregador evangélico e hobaiana, Scovino propõe a religiosidade como uma metá- je é pai de santo. Embora a história pitoresca chamasse a fora das relações humanas. Religião “liga arte com vida”, atenção, o trabalho da artista consistia em tornar visíveis as afirma. Ironicamente, essa meta vanguardista exige uma particularidades de cada uma das várias realidades vividas reconsideração de tradições que as vanguardas renegaram. por uma só pessoa. Em outros trabalhos, recentemente exNão é preciso conhecimento prévio a respeito das referên- postos pela galeria Nara Roesler, de São Paulo, ela investigou cias culturais transfixadas na Casa de Caboclo, quase todas as histórias de vida e o imaginário de uma dona de bordel, são imediatamente reconhecíveis e sua heterogeneidade fica um dominador sádico e travestis de Salvador. clara. Por outro lado, cada objeto apresentado por Scovino desdobra-se em histórias que envolvem memórias de famíem toda obra de arte se sustenta apenas como dolia, experiências de vida, mundo letrado e cultura popular. cumento, embora esse não fosse o caso de Sérgio e Essa contextualização podia ser promovida por “meSimone, uma vez que o filme de Virginia de Medeiros diadores” ou guias das bienais, mas também pelo próprio explorava visualmente a personagem e o seu meio. Além artista. Em ambos os casos, o trabalho removia o especta- disso, a artista baiana trabalha com diversas linguagens, dor do imobilismo da experiência estética convencional e como fotografia, escultura e instalação. chamava-o para conversar. Pelo menos três trabalhos do “núcleo histórico” apontaNão se trata do discurso vazio da arte sobre si mesma vam o caminho para refletir abertamente acerca da fronnem da reprodução irrefletida de palavras de ordem. Fala- teira cada vez menos clara entre o registro antropológico -se da procedência das imagens quando entre o espectador e a produção artística. Nos filmes do cineasta espanhol Val e uma obra de arte faz-se necessária alguma mediação. A del Omar (1955 e 1960), imagens religiosas ganham vida interpretação exige uma iconologia, não apenas a aprecia- por meio da linguagem cinematográfica. ção estética. As imagens não foram criadas pelo artista, Em parceria com o fotógrafo Gérard Franceschi, o pinmas deslocadas, reunidas e, em certos casos, cultivadas e tor dinamarquês Asger Jorn, um dos fundadores do grupo libertadas por ele. COBRA, expõe correspondências entre imagens de relevos Talvez a idéia de que a contextualização das obras de medievais como sobrevivências de um vocabulário visual arte faz parte da experiência estética não estivesse clara antiquíssimo (1965). O trabalho subverte a história oficial sem as conversas de Arthur Scovino com os espectadores da arte, pois revela a recorrência de imagens de abraços, nas salas da Casa de Caboclo e sem os passeios dos balões fisionomias, animais, aves e cavaleiros, certamente prode hélio por entre os outros trabalhos. Seu trabalho evi- venientes do imaginário popular que persistia apesar da denciou elementos comuns às duas bienais. Em primeiro institucionalização da Igreja. lugar, que as imagens precisam das pessoas e com isso Por fim, nas filmagens realizadas pelo artista chileno promovem interações humanas. Em seguida, que essas Juan Downey com diversos povos pelas Américas (1979), trocas dinamizam as imagens, geram deslocamentos revela-se a interdependência entre as sociedades humanas, e permutas que culminam com uma generalização da apesar da heterogeneidade das culturas e modos de agir. intertextualidade. Identidades culturais são meras abstrações, assim como os O artista foi convidado para a Bienal de São Paulo an- critérios de valor moral e artístico. Resultam de contatos, tes da participação na Bienal da Bahia, mas as idéias que trocas e lutas e terminam por se institucionalizar como nortearam o evento baiano foram ao encontro da exposi- formas legitimadoras do poder de uns sobre os outros. ção paulista por meio do seu trabalho. Como no verso que O shabono abandonado de Juan Downey e 10.000 anos de ele não cansa de citar, seria a “lei natural dos encontros”. arte popular nórdica também pertencem à mostra itineranQuando se fala em “arte política” a respeito da 31ª Bienal te da 31ª Bienal de Arte de São Paulo no Palácio das Artes de Arte de São Paulo é preciso distinguir entre os trabalhos de Belo Horizonte. com temas políticos e aqueles que se politizaram por causa A perspectiva oferecida por esses artistas é ao mesmo da relação especial que buscaram estabelecer com os espec- tempo antropológica e política, mas não abre mão da extadores. Alguns desses trabalhos politizados, ou relacionais, periência estética nem da história da arte. Arthur Scovino não estavam expostos senão como vestígios de performan- mostrou como seria uma “estética relacional” e Asger Jorn ces, ou deslocamentos de imagens e linguagens. Equivoca- prefigurou uma história da arte que não fosse etnocêntrica. w

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Intervenção urbana

IMAGENS PARA UM NÃO-LUGAR MÁSCARAS AFRO-BRASILEIRAS DE RENATO DA SILVEIRA PASSARAM PELO MINHOCÃO EM SÃO PAULO

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ma exposição de máscaras africanas do Museu de Arte Contemporânea da USP em 1967 fez com que Renato da Silveira transformasse completamente sua produção artística, até então influenciada pela arte pop norte-americana. “Foi um choque tão avassalador que a partir dali eu não podia mais fazer arte de outro jeito”, afirmou ao Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia. Até 28 de fevereiro de 2015, reproduções das máscaras criadas pelo artista e antropólogo baiano permaneceram afixadas sobre pilares do Elevado Costa e Silva no centro de São Paulo, a polêmica obra viária conhecida como Minhocão. A exposição, iniciada em novembro de 2014, fez parte das comemorações do mês da consciência negra na capital paulista. A intrincada bricolagem exigia tempo e atenção para cada detalhe. Era preciso caminhar pelas calçadas da rua Amaral Gurgel ou pelo canteiro central para observar de-

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vidamente. As imagens foram produzidas a partir da colagem de figuras de tecidos, flores, sementes, hortaliças, adereços, desenhos, grafismos e animalismos. Embora predominasse a frontalidade, algumas faces se posicionavam de modo levemente enviesado. Todas buscavam o olhar do espectador. As imagens não eram hostis aos trabalhos dos artistas de rua, muito comuns nas metrópoles brasileiras. Nas laterais dos pilares, as máscaras provocaram releituras e as pichações dialogaram com elas, preenchendo os fundos vazios sem depredá-las, uma vez que a sobreposição e a aglutinação de elementos heterogêneos tembém são linguagens da arte urbana. Produção artística e pesquisa antropológica convergem na reconstituição histórica das contribuições africanas e do reconhecimento público de certas práticas religiosas e medicinais desde o período colonial. A diáspora africana

fotos léo ramos

josé bento ferreira


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foi uma primeira migração a que as imagens foram submetidas. Elas viajaram com as mercadorias exportadas, como os veludos da região do rio Cassai, tidos por “melhores do que os de Veneza”. Viajaram como saberes medicinais adotados por conventos, mosteiros e pelo exército português. E viajaram na memória dos indivíduos deportados, para encontrar os seus lugares nos calundus e candomblés cujas histórias foram investigadas pelo professor da UFBA e doutor pela “École des hautes études en sciences sociales” de Paris.

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epois de ter sido preso três vezes no Brasil em 1969, 1970 e 1971 por causa da militância contra o regime autoritário, Renato da Silveira viveu sete anos no exílio e estudou antropologia para se reaproximar de suas origens. Tanto como artista quanto como pesquisador, seu trabalho reivindica uma África que lhe foi “sonegada desde a escola,” como declarou no seminário A nação Angola na Bahia. Cada pormenor das máscaras afro-brasileiras provém de uma faceta do continente “rico em tradições e humanidade” e equivocadamente considerado como “um lugar onde não acontece nada, a não ser catástrofes e guerras tribais.” Uma segunda viagem das imagens foi promovida pelo trabalho de arte. As máscaras foram criadas a partir de elementos preexistentes, extraídos de revistas, esculturas, enfeites, pinturas faciais e referências a costumes tradicionais e modernos. O termo “máscara” tem aqui um sentido antropológico, uma vez que não designa apenas o objeto, mas uma identidade social ou persona, por oposição à face natural. “Decoração facial e tatuagem podem transformar a face humana efetiva em máscara”, afirmou Hans Belting. Artistas modernos se apropriaram de máscaras africanas como formas estéticas vazias, sem considerar seus usos rituais. Renato da Silveira, por sua vez, criou nomes para cada uma das máscaras publicadas em 2010 no álbum Máscaras afro-brasileiras – artimanhas digitais. A exposição do Minhocão proporcionou uma terceira migração para aquelas imagens que vieram da África e foram recombinadas em novas composições. A via elevada que liga a zona oeste ao centro de São Paulo transformou partes consideráveis de diversos bairros em “não-lugares”, como o antropólogo Marc Augé chamou os locais de passagem, por oposição aos “lugares antropológicos”, detentores de significado. Sob o Minhocão é possível observar como a urbanização gera “zonas de vazio” ao transformar lugares antropológicos em não-lugares. Depois da edição do projeto Giganto, de Raquel Brust no Minhocão, com fotografias “hiperdimensionadas” de moradores, novamente se usaram imagens para preencher os vazios desse não-lugar. Seria a arte capaz de restituir significado a um lugar vazio? As exposições são temporárias e as imagens parecem estar sempre de partida, em busca de outros meios. É mais fácil produzir a imagem de um lugar do que um lugar para as imagens. w

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historia em quadrinhos

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Bruno Marcello

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HINO DO ESTADO DA BAHIA 2 DE JULHO

Nasce o sol ao 2 de Julho, Brilha mais que no primeiro! É sinal que neste dia Até o sol, até o sol é brasileiro. Nunca mais, nunca mais o despotismo Regerá, regerá nossas ações! Com tiranos não combinam Brasileiros, brasileiros corações! Salve Oh! Rei das campinas De Cabrito e Pirajá! Nossa pátria, hoje livre, Dos tiranos, dos tiranos não será! Nunca mais, nunca mais o despotismo Regerá, regerá nossas ações! Com tiranos não combinam Brasileiros, brasileiros corações! Cresce! Oh! Filho de minh’alma Para a Pátria defender! O Brasil já tem jurado Independência, independência ou morrer! Nunca mais, nunca mais o despotismo Regerá, regerá nossas ações! Com tiranos não combinam Brasileiros, brasileiros corações! Com tiranos não combinam Brasileiros, brasileiros corações! (bis)

José dos Santos Barreto

Música

Letra

Ladislau dos Santos Titara

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Bahiaciência  
Bahiaciência  

Folhear edição número 4

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