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20 Domingo, 27.10.2013 / ABC DOMINGO

E!

divulgação

esporte

O olé

do Torero Futebol arte: do campo para a literatura, cinema e TV

Cristofer de Mattos

Futebol, literatura e cinema. De tudo um muito. Bola, páginas e imagens se misturam no trabalho do escritor, jornalista, roteirista e santista (de nascimento e de coração) José Roberto Torero. Ele foi uma das atrações da 31a edição da Feira do Livro de Novo Hamburgo, encerrada na semana passada e que teve exatamente essa pluralidade de linguagens como tema. Autor de 29 livros e onze roteiros de filmes, entre eles Pelé Eterno e as séries FDP, da HBO, e Retrato Falado, com Denise Fraga, que foi exibida pelo Fantástico, Torero é acima de tudo um fanático pela bola. Mas seu fanatismo não lhe cega e lhe permite trazer um olhar atento ao que acontece num Brasil pré-Copa do Mundo.

Como pensamos muito em futebol, acabamos criando quase uma língua para ele Nós somos especialistas em criar mitos por gols (como Fio Maravilha) e por falhas (como Barbosa). Seria o futebol a metáfora perfeita da vida? Torero - Da vida, não sei. Mas é uma forma muito interessante de se falar do Brasil. Aí, sim, creio que se trata de uma metáfora perfeita. Os dirigentes se equivalem à classe dominante, a torcida ao povo, e os jo-

gadores aos vários tipos de brasileiros. Há uma série de documentários envolvendo as conquistas dos clubes de futebol. Do ponto de vista da documentação histórica são importantes, mas podem ir além, não lhe parece? Torero - Podem, mas é difícil. Hoje as regras de direito de imagem tornam praticamente impossível fazer um documentário que não seja do clube. O Brasil pode ser explicado pelo futebol? O País como conhecemos seria dessa forma sem o futebol? Torero - O País seria o mesmo. O futebol é que seria outro sem o Brasil. A linguagem do “futebolês” é tão ou mais popular ao grande público que as variações gramaticais da língua portuguesa. Como avalia isso? Torero - Falamos mais sobre o que pensamos mais. Por isso nós temos poucas palavras para a cor branca e os esquimós têm mais de trinta. Com o futebol dá-se o mesmo. Como pensamos

muito em futebol, acabamos criando muitas palavras, quase uma língua, para ele. O “jeitinho brasileiro” e a “Lei de Gerson” são elementos da cultura de um Brasil que buscava tirar vantagem em tudo. Podemos considerar como uma influência direta do futebol, que simula faltas, cava pênaltis? Torero - Acho que é o contrário. A cultura brasileira é que influenciou o futebol. O jeitinho e a Lei de Gérson existem desde os primeiros anos do Brasil, quando o futebol ainda não existia por aqui (ou, se existia, era jogado com cocos em vez de bola). A criação de espaços na Internet para “falar” de futebol, como blogs, propiciou explorar o jornalismo esportivo de uma forma mais literária, não somente com as informações básicas, como fizeram Nelson Rodrigues e Eduardo Galeano, por exemplo? Torero - Acho que o jornalismo esportivo sempre teve uma forma mais literária do que as outras for-

mas de jornalismo. E isso não acontece por causa dos blogs, mas por conta da imprensa carioca, que tinha Mário Filho como grande expoente, e por conta da própria natureza do assunto, muito mais lúdico do que política ou economia. E é curioso que a associação dos jornalistas esportivos chama-se Associação Brasileira de Cronistas Esportivos. Ou seja, desde sempre o jornalista esportivo se considera um tanto diferente, mais um cronista que um repórter ou um analista.

Acho que a ideia dos novos estádios é elitizar o público, é lucrar mais com menos gente.

Recentemente, a novela Avenida Brasil teve o futebol como pano de fundo para tramas de Tufão e Carminha e, também por outras questões, foi um sucesso: você acredita que há espaço para explorar também na televisão? Torero - Acho que há. Mas não é fácil. O jogador de futebol de time grande é uma grande exceção no Brasil. É um sujeito que vive num mundo à parte. E ele se relaciona principalmente com seus pares, ou seja, é um personagem difícil de se colocar numa

novela. No FDP, por exemplo, que foi uma série sobre futebol exibida pela HBO, da qual fui um dos roteiristas, a saída foi usar um juiz como personagem principal. O juiz leva uma vida mais próxima da vida comum.

O futebol naturalmente tem uma linguagem cultural, com heróis, vilões, dramas, ação. Por que você acredita que estas histórias não motivam mais livros, filmes no Brasil, que tem isso tudo no DNA? José Roberto Torero Acho que a pergunta já é a resposta. O futebol não gera mais livros e filmes porque ele já tem as histórias dentro de si. Ele já é uma narrativa com heróis, vilões, dramas e ação. O futebol não precisa ser traduzido por uma arte. Ele já é uma narrativa.

A Copa do Mundo e os novos estádios têm mudado o perfil do público que vai a campo, devido aos valores dos ingres-

sos. Que repercussão você percebe no futebol e na cultura popular? Torero - Acho que a ideia dos novos estádios é elitizar o público, é lucrar mais com menos gente. Um estádio com menos e mais caros lugares ganha duas vezes: a despesa é menor (o Maracanã tinha capacidade para 200 mil pessoas e agora passou para 73,5 mil), pois gasta menos com pessoal, água, limpeza, etc., e o ganho é maior, pois estes torcedores compram mais camisas, comida, etc. E acho isso uma pena. Durante muito tempo os jogadores foram acusados de serem alheios ao mundo e repetirem frases feitas. Há um novo movimento de politização, inclusive com a criação do Bom Senso FC. Sinal dos novos tempos? Torero - O Bom Senso FC pode ser uma grande mudança. Até então tivemos alguns jogadores engajados, como Afonsinho e Sócrates. Mas um movimento organizado é um novo passo, bem mais importante e que talvez consiga mais resultados.


Torero